Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

Miss Marple



Hoje, na RTP 1, às 00.45, mais uma aventura da Miss Marple: "4.50 From Paddington". Em Portugal, o livro está traduzido como "O estranho caso da velha curiosa".

Os apreciadores do género deverão estar lembrados da forma como começa o livro: A Sra. McGillicuddy, que se encontra numa comboio que estava a abrandar a velocidade, vê uma mulher ser estrangulada no interior de uma carruagem que circulava em sentido contrário.
Sem mais testemunhas nem o aparecimento de nenhum cadáver, só mesmo a simpática e metediça Miss Marple para desvendar o crime. Para mim, um dos melhores livros da Agatha Christie.

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Sabem que mais?

Eu a partir de agora até podia passar a ser politicamente correcto e só dizer o que me permitir a cartilha da boa consciência democrática e igualitária que hoje se manifestou aqui. Até a minha outra significante já me invectivou. Mas não me apetece. Não estou aqui para levar esta coisa a sério. Sou aquilo a que se convencionou chamar um comic relief. Se ainda não perceberam isso, não têm lido com atenção este vosso criado nos últimos meses. Dito isto, reafirmo tudo o que escrevi e confesso que me diverti muito com este verdadeiro tema fracturante. Obrigado a todos.

Brevemente no Museu Nacional de Arte Antiga

Políptico do Convento de Clarissas de Wroclaw, 1350-1360
Exposição :O Brilho das Imagens.
Pintura e Escultura Medieval do Museu Nacional de Varsóvia (séculos XII-XVI)
1 de Março a 17 de Junho de 2007
(via Da Literatura)

Ó menino Luís


Não leve a mal mas eu cá considero que, nestas coisas como nas outras,
o menino João é que tem razão.

Faltava aqui a esquerda moderna




O post do João sobre as conversas femininas provocou justa indignação do povo anonymous em torno do uso (considerado leviano) do termo criada. Considero que se trata de uma tempestade em copo de água tépida, mas a violência de alguns comentários fez-me pensar sobre essa antiga instituição da criadagem de casa. Os ingleses conseguiram transformá-la em interessantes produtos televisivos (lembram-se da série da Família Bellamy?), onde também surgia o retrato benévolo que o João tentou fazer. Na sala de espera de um consultório médico que tenho frequentado há uma televisão ligada na TVI e tive a oportunidade de observar novelas portuguesas que passam a meio da tarde: há sempre umas empregadas de casa (ou criadas de servir, como escrevia um anonymous) sempre muito boazinhas, que gostam muito dos "meninos" e que os ajudam a superar um qualquer mau na família (ou adjacentes), geralmente a prima afastada que, forçada a um empobrecimento súbito, tem de servir o bem público familiar e o faz com excesso de zelo que, mais tarde na história, será devidamente castigado (presumo eu). Curiosamente, os meninos são todos loirinhos, e as casas são eenooormes, pecebeu?
Francamente, acho que tudo isto não passa de uma visão ideológica (e extremamente falsa) do povo português e da realidade contemporânea.
As criadas de servir tinham algum sentido numa determinada economia, que antes do 25 de Abril já não existia. Era uma coisa rural e um anacronismo que as famílias ricas do país ainda mantinham, sobretudo pelas aparências. Como dizia alguém num comentário, este sistema só podia existir porque estas mulheres não tinham qualquer instrução nem perspectivas de vida. Muitas ansiavam por um casamento que lhes desse alguma liberdade. De resto, dependiam da boa vontade da família que as sustentava e para quem trabalhavam, nesse sistema paternalista que o João descreve.
Mas o mundo mudou, parece. Hoje, a economia das famílias (mesmo dos ricos) não permite sustentar um sistema como aquele. Agora, as mulheres pobres tentam obter uma instrução. O serviço de casa é feito sobretudo por imigrantes, em regime de part-time. É disso que as mulheres falam no cabeleireiro, porque é um sarilho arranjar empregada. As mais honestas e que trabalham melhor, exigem os seus direitos e fazem-se pagar. Existe um mercado no serviço doméstico, onde funciona a lei da oferta e da procura. E está a surgir um novo mercado, o do acompanhamento de idosos, que é bem pago e exige qualificações, nomeadamente algumas noções de enfermagem e uma dura couraça de paciência.
Enfim, acabou o tempo das virgens saloias que vinham servir lá em casa, que mal podiam namorar e que acabavam solteiras e velhas, encalhadas no serviço das famílias abastadas. O seu desaparecimento não tem nada a ver com o 25 de Abril, mas com as mudanças sociais e económicas que já estavam a acontecer antes (a Revolução apenas acelerou o processo). Por isso, não discutam o que não existe.

Provavelmente a mais bela actriz de sempre


Elizabeth Taylor acaba de festejar 75 anos. Mas nos filmes que fez, e foram muitos, será eternamente jovem. E de um talento ímpar, como demonstrou em Bruscamente, no Verão Passado (1959), de Joseph L. Mankiewicz. A imagem é desse filme. Inesquecível.

Tertúlia literária (147)

- Qual é o seu livro de cabeceira?
- Gostava, mas não tenho.
- Não tem porquê?
- Não tenho mesa de cabeceira.

Cachimbada pela paz


Criadas, criadas sim!

Inexplicavelmente, o meu post sobre conversas de criadas descambou para o 25 de Abril por causa da expressão em causa. Esta mania de que a designação «criadas» é pejorativa assenta na falta de chá em pequenino de pessoas cuja educação não teve – o que não é culpa delas – o enquadramento necessário para entenderem que, longe de ser insultuosa ou pedante, a palavra é a que melhor designa o que sucedia com essas pessoas. E o que sucedia é muito simples: Elas criavam e eram criadas num lar de família e a família crescia em conjunto com elas. Chamavam-nos meninos, não importando a idade que tínhamos. E nós tínhamos por elas uma relação de amor, respeito e carinho que o termo em causa apenas estreitava. O fim da palavra «criadas» foi uma conquista de Abril? Querem que lhes chame assistentes de limpeza? Não me chateiem e se, não comem a sopa, ainda vos levo à Intersindical.

Mudar de vida

Ontem de passagem pela rua D. Pedro V, no meio de alguma agitação entre os transeuntes, notei uma anormal quantidade veículos multados e “bloqueados” pela EMEL. Ao contrário do João Gonçalves, confesso que tenho altas expectativas quanto à definitiva implementação da ordem no parqueamento automóvel em Lisboa. Por mim, nunca me conformei com a anarquia e o caos reinante no estacionamento. Considero aliás este fenómeno uma praga terceiro-mundista, a qual como outras, nos habituámos a conviver naturalmente sem questionar. Até quase acreditarmos que esta manhosa relação com as regras seja uma inevitabilidade inscrita nos nossos genéticos traços latinos. Eu sou português, considero-me tolerante, bem latino e emocional, mas não sou parvo. Não aceito esbarrar diariamente com um automóvel estacionado bem no centro passeio da rua Barata Salgueiro, onde eu trabalho. Não me parece justo, depararmo-nos com o trânsito nessa mesma via todo empancado, por causa duma amélia, que em plena hora de ponta estaciona a viatura em segunda fila para tomar um cafezinho na pastelaria junto aos semáforos. Ou quando algum manuel estaciona em segunda fila ao fundo da Alvares Cabral para ir ao Multibanco… Ou ainda quando se estaciona caótica e impunemente em redor dos centros comerciais, casas de espectáculos e estádios de futebol por mera rebeldia ou para poupar uns cêntimos. Isto não se deve à falta de transportes públicos ou parques de estacionamento é mesmo falta de regra, falta de educação.
Finalmente, e dadas as actuais circunstâncias da CML esta “mudança” parece-me reflectir coragem, merece o meu aplauso e espero que se torne norma. Por mim, eu aprovo este “ataque às liberdades individuais” de alguns "chicos-espertos"ou "portugueses pequeninos", que não enxergam onde acabam os seus direitos e começam os dos outros.

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Conversas Cri-Cri


Isto vai soar como uma afirmação radical e surpreendente, mas as mulheres não são todas iguais. É verdade. Há pelo menos dois grupos: As que gostam de conversas Cri-Cri e as que não as suportam. As conversas Cri-Cri reúnem dois temas interligados de forma umbilical no quotidiano feminino. Ou seja, as crianças e as criadas. É inacreditável o tempo infinito que duas ou mais mulheres podem dedicar aos fenómenos gástricos ou às questões escolares dos seus rebentos e às idiossincracias das suas empregadas domésticas. Demora, pelo menos, o tempo de um jogo de futebol com prolongamento até aos penalties.
Mulheres de um e outro grupo têm severas dificuldades de comunicação e raramente se misturam. Por vezes, uma solteira sem filhos e sem criada do segundo grupo vai parar a um jantar daqueles «com arranjinho» organizado pelo primeiro. O que ela sofre, Santo Deus!, entre tantos esforços para normalizá-la, salvá-la e dotá-la de uma capacidade discursiva adequada sobre o Sagrado Coração de Maria ou o Liceu Francês e as ordens a dar para garantir roupa adequadamente lavada ou passada a ferro.
Teóricos da conspiração e defensores do Gato de Schrödinger (obrigado à ni pelos tremas) diriam que essas conversas só existem para eu as ouvir (ou não ouvir as outras) e que - quando qualquer presença masculina está ausente - as mesmas mulheres falam de assuntos interessantes e relacionados com o «quotidiano das pessoas», como sexo sem homens ou as demissões no DN. Não acredito nisso. Tenho as minhas fontes. E sei que as conversas Cri-Cri não só existem como duram, e duram, e duram.

Cara Rita Ascenção

A Rita coloca em comentário no post anterior a questão do silêncio do Corta-Fitas relativamente à demissão da direcção do Diário de Notícias e pergunta se é uma questão de «falta de coragem para defender os colegas».
Parece-me evidente e natural que o facto de vários autores deste blogue serem jornalistas no DN os impeça de fazerem quaisquer comentários sobre esse assunto, e que carece de sentido falar em «solidariedade, luta e greves» no caso em apreço. Se tivessem demitido o meu Director-Geral, também não seria aqui que abordaria o assunto com toda a certeza.
Por outro lado, pessoas como eu que não trabalham no DN poderiam ter escrito sobre o tema, dirá alguém (ou dirá a Rita). Não me parece. Aqui no Corta-Fitas tem cada um de nós a liberdade de escrever o que bem entende, mas não tem – obviamente – o direito de comprometer outras pessoas com as suas opiniões o que, neste caso, poderia suceder.
Além disso, e ao contrário da Rita, não considero que as referidas demissões sejam um tema «que aflige as pessoas no quotidiano». Aliás, creio que as pessoas no quotidiano se estão bem nas tintas para quem dirige o DN ou aliás outro qualquer jornal ou revista. Em suma, uma coisa é certa: Aqui no Corta-Fitas não há «falta de tomates» (para citar eruditamente o nosso AJJ). Mas também não há falta de juízo e senso comum.

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Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

Scorsese não merecia isto

A Academia de Hollywood acaba de cometer uma injustiça histórica: concedeu a Martin Scorsese um "prémio de consolação" em forma de Óscar de Melhor Filme e Melhor Realizador de 2006, distinguindo uma fita menor do autor de Taxi Driver e O Touro Enraivecido. Isto no ano em que Clint Eastwood realizou o díptico As Bandeiras dos Nossos Pais/Cartas de Iwo Jima, já um grande marco da Sétima Arte - indiscutivelmente superior ao mediano Entre Inimigos, com um Jack Nicholson em permanente overacting. A mesma batalha vista pelos antagonistas, em duas películas diferentes (uma das quais, a mais notável, falada em japonês), constitui uma proeza cinematográfica ímpar - mais uma a somar à excepcional carreira de Eastwood, anteriormente galardoado com Óscares de melhor realizador pelos filmes Imperdoável (1992) e Sonhos Vencidos (2004). Scorsese é um excelente cineasta, que já merecia ter sido distinguido pela Academia. Mas o que agora sucedeu em Hollywood é de uma miopia ao nível da que impediu de ascender ao Óscar obras-primas do cinema como Citizen Kane, de Welles, Janela Indiscreta, de Hitchcock, Horizontes de Glória, de Kubrick, ou A Desaparecida, de Ford. Enfim, um disparate sem nome. Scorsese não merecia isto.
Imagem: fotograma de Cartas de Iwo Jima

Postais blogosféricos

1. O Insurgente, como já aqui assinalou o João Távora, festejou o segundo aniversário. Com a qualidade de sempre. Motivo para daqui enviar um abraço a todos quantos lá escrevem, em especial ao André Azevedo Alves e ao Adolfo Mesquita Nunes.
2. Também um abraço de parabéns ao José Nunes, pelo primeiro aniversário do seu apreciado blogue, Os Dedos.
3. Estes Momentos é nome de um blogue que recomendo. Porque gosto da embalagem e também do que lá se escreve.
4. O Homem a Dias, de Alberto Gonçalves, passa a figurar na nossa barra lateral. Por mérito próprio. E já vem tarde...
5. Bruno Vieira Amaral e Henrique Raposo escreveram na Atlântico este texto que subscrevo por inteiro. Sobre Martin Scorsese e os Óscares.

Isto queriam vocês

Modernices


Desculpe lá João, mas isso da Compal Edição Limitada Bravo de Esmolfe nem sei o que é. Um verdadeiro conservador não hesita perante o clássico Sumol de laranja ou ananás, a farinha Pensal, bolachas Maria, manteiga Primor, sabonetes Lux, shampoo Johnson para bebé, leite ucal ou creme Nivea. O resto, são modernices.

Acho que deixei um javali ao lume

A fim de página convida,

Conversas em Volta
debates e tertúlias
Fórum Municipal Romeu Correia, Almada

Casamento entre pessoas do mesmo sexo
27 Fev. 2007, Terça - 21.30h
Participantes: Miguel Pinto e Paulo Côrte-Real, Associação ILGA Portugal

«Vários governos por todo o mundo têm vindo a alterar a lei por forma a permitir o acesso por parte de casais homossexuais ao casamento civil. Em Portugal, e apesar de a Constituição proibir a discriminação com base na orientação sexual, o Estado continua a não permitir que gays e lésbicas se possam casar, negando deste modo aos casais de homossexuais os mesmos direitos de que usufruem os casais heterossexuais.
No entanto, a discussão está lançada e importa conhecer as razões que estão na base da reivindicação da igualdade no acesso ao casamento civil para casais de gays ou de lésbicas.
Por que é que esta questão é vista como "fracturante"? Por que é que esta discussão é tão central nas democracias europeias? Qual o seu papel na luta contra a homofobia? Quais as diferenças entre casamento e união de facto? Qual a importância do casamento para gays e lésbicas»?
As minhas respostas: a) Não sei, mas perguntem ao Sócrates. b) Ah é!? c) O meu? É colocar posts como este. d) Não sei bem, mas acho que no segundo caso não há padres. e) Isso bem gostava eu de saber, mas não o suficiente para vos ouvir.

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Uma cerveja no inferno


É em frente às prateleiras de um supermercado que me descubro conservador. Para mim, uma água é uma água (de preferência Luso), um sumo é um sumo (de preferência o Compal Edição Limitada Bravo de Esmolfe) e uma cerveja é uma cerveja. Quem não acredita nisso são as actuais mentes brilhantes que, hoje em dia, parecem possuidas por uma coisinha má e desenvolvem cruzamentos «genéticos» que nem ao Dr. Frankenstein lembrariam. Agora, foi a San Miguel que se lembrou de uma cerveja sem álcool com sabor a chá de limão. Uma quê? Pois. Isso que leram. Alguém por favor que explique aos senhores que uma beberagem gaseificada a saber a limão não é uma cerveja. Uma limonada talvez. Uma boa mxxda de certeza. Mas uma cerveja é que não.

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Pois, assim não admira

«Há uma antipatia generalizada pelo cinema nacional», diz o realizador Miguel Gonçalves Mendes. Quem é ele? Não sei. É algarvio e o filme chama-se «Floripes». Ora eu não vi a obra e admito que possa ser muito boa e de grande qualidade. Mas com um nome destes? Que raio de título mais menino da mamã é «Floripes»? Como é que um filme chamado «Floripes» poderá alguma vez ser um blockbuster? Chamem antipático a quem quiserem, mas assim não vão lá.
E aqui temos uma notícia com origem na Lusa: «Realizadores portugueses concordam com Óscar para Scorsese». Ah é? Todos? Espera aí, parece que não, o lead diz «diversos». Olha, depois de lida a notícia afinal foram dois.

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O cobrador que se segue

O Director-geral dos impostos, Paulo Macedo, vai mesmo abandonar o cargo. Para o seu lugar, de acordo com os nossos comentadores e incluindo Marcelo, deverá ir alguém capaz de prestar o mesmo serviço ao País, mas mais baratinho (cerca de cinco mil euritos) porque se trata de servir a causa pública. Tendo isso em conta sugiro que, para a sua substituição, o Ministro das Finanças procure saber qual foi o cobrador do fraque que melhores resultados alcançou em 2006. (Embora, mesmo neste caso, não esteja certo que - juntando as comissões - não ganhe um pouco mais do que isso).

Parabéns a você

Parabéns ao elegante e mordaz O Insurgente por mais um aniversário. É um dos meus blogues de eleição com visita diária obrigatória.

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Venham mais reformas, Sr. Engenheiro!

Para que se enfrentasse um dos mais paradigmáticos ex-libris do Portugal moderno, o mercado de arrendamentos imobiliário, o governo Sócrates engendrou a seu tempo uma profunda reforma às leis que o regulamentam. Calculavam-se à data que eram mais de trezentos mil os contratos caducos potenciadores da falência dos senhorios, da derrocada de edifícios e da especulação imobiliária. Segundo noticia o Diário Económico, o governo Sócrates, promoveu 3 revisões de contratos 3, ao fim de dez meses da publicação da sua excelsa e intricada lei.
Ou seja, depois de tanta berraria, ficou tudo na mesma.
Mesmo assim tenho curiosidade em saber como a central de propaganda do governo capitalizará a seu proveito esta notícia.

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Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

Em boas mãos

O Corta-Fitas na noite dos Óscares, com uma grande salva de palmas para a apresentadora.
E quanto a estas duas meninas, alguma coisa a dizer?


Estes rapazes também me pareceram muito bem. Pelo menos, não abriram a boca. A avaliar pelos discursos e apresentações, o aquecimento global deve ser um actor fantástico.

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Doutor, serei normal?

Apenas um em cada cem portugueses transporta consigo um «megapénis».
(Sem foto, porque até para mim a indecência tem limites :)

Bacalhau e chocolate

Jantar a 3,5€? Com filme à pala? Quando a esmola é muita o pobre desconfia, mas não deixa de aparecer. Quanto ao título deste post, é só para comprovarem que não tenho nenhum preconceito contra o nosso amigo, seja ele seco e salgado ou fresco.
(Ah, onde fica isto? Na Rua dos Bacalhoeiros, 125)

Domingo, Fevereiro 25, 2007

Ler os outros

O Super-Portas de João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos. A ver vamos ao que estamos destinados já que “de invertebrados já estamos razoavelmente servidos, graças a Deus”.

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Crise? Que crise?

Palavras de Vital Moreira, na Causa Nossa. Fica-me a dúvida: o ilustre professor coimbrão anda muito distraído, passou os últimos dias fora do País, num local remoto como Baku ou Abidjan, ou fez greve à leitura de jornais para redigir estas linhas tão oficiosas que talvez nem o próprio José Sócrates subscrevesse por inteiro?

Só faltam 5 dias...

... para os concertos genesianos dos Musical Box na Aula Magna. Veja-se a banda nestes excertos em 2005, com um convidado especial: o próprio Phil Collins a fazer aquilo que sempre soube fazer bem: tocar bateria e cantar o coro.

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Impressões musicais (10)


Low, de David Bowie (1977), é sem dúvida um dos discos da minha vida. Com o cantor/compositor no auge da sua criatividade, e com a incontornável e benigna marca Eno, este álbum é um verdadeiro tratado de música Rock. No lado A deste disco verdadeiramente "bipolar" apresenta-se do mais puro Rock n’ roll: são sete melódicas esculturas musicais, temas rápidos, simples e sem divagações, batidas por uma percussão áspera e pragmática. As palavras são incendiárias e insinuantes. No lado B, apresentam-se quatro belas e misteriosas peças instrumentais, criadas para a banda sonora do filme “O Homem Que veio do Espaço” de Nicolas Roeg. Qualquer destes temas de música electrónica é uma lição de chamado Rock Progressivo, à atenção de tantas pretensiosas bandas do género existentes naquela época.
Quantas longas e preguiçosas horas passei eu de cabeça bem no ar, meio perdido no caminho, com Low a rodar? ...

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"A shift in values ?"


Parece-me uma boa altura para escrever sobre a Rainha: o frio que está lembra o saco de água quente e o robe com que Isabel apareceu na noite em que tomou conhecimento da morte de Diana. Como Balmoral deve ser frio mesmo em Agosto....
Tenho pouco a acrescentar ao que se tem escrito, mas a "minha" Rainha tem muito mais do que isso tudo: os saltos dos sapatos sempre do mesmo tipo, a altura dos vestidos, o clássico Barbour, os foulards com motivos equestres, o tradicional Land Rover e a preocupação com o chá que arrefecia enquanto o mundo lhes parecia cair em cima:
Prince Philip: Your tea is getting cold!
E claro, as celebrities (who??), um notório desprezo pelas celebridades. Mesmo sem já pertencer à família real, Diana pertencia à selecta e selectiva família das celebridades, enredada em exclusivos, sempre com o melhor sorriso onde quer que estivesse o flash de uma revista de referência, como escreveu o antigo director da revista Hola espanhola.
Prince Philip: Elton John wishes to sing at the funeral. Should be a first for Westminster Abbey.
Elizabeth entra num outro "paradigma", como aliás é referido no filme: a fúria modernizadora enquadrada pela "revolução" que um jovem Trabalhista prometia ao velho Império.
Do filme retive dois aspectos absolutamente deliciosos: quando o seu Chefe de Gabinete (?) a foi informar de que as flores estavam a impedir a realização do render da Guarda no local centenário, a solução da Rainha foi mandar retirar as flores, pura e simplesmente. Não lhe ocorreu sequer que o render da Guarda se pudesse realizar noutro local.
E a cena nas cozinhas de Balmoral, quando a rainha acede à sugestão do Primeiro Ministro para a realização de um funeral de Estado, semelhante às cerimónias do planeado funeral da Rainha- Mãe. Aliás, fantástica a forma como a própria refere o seu funeral:
HM The Queen Mother: Charles, dear, use the royal flight. They keep one plane on permanent stand-by, in case I should kick the bucket.
Afinal, a Rainha sempre conheceu o seu povo e o que este esperava dela, como aliás concluiu um recente estudo da BBC sobre a semana após a morte de Diana. Como Eurico de Barros refere, a Rainha não estava enganada e interpretou melhor " o verdadeiro sentimento popular britânico em altura de comoção geral do que Blair e os media": "Enterrar Diana em sossego e com dignidade. É por isso que o resto do mundo nos admira", teriam sido as suas palavras.
Para nós, que estavamos longe e observávamos tudo aquilo com enorme perplexidade, a expressão do Príncipe Filipe foi a mais óbvia:
Prince Philip: Sleeping in the streets and pulling out their hair for someone they never knew. And they think we're mad!
Não me parece que o Príncipe Carlos se saia muito bem no filme, mas suponho que ele já esteja habituado a ser substimado: já leva em cima muitos anos de incompreensão e depois ninguém morre de amores por ele. Não falo da Camilla,claro.
Vai muito bem o Sr. Blair e esteve à altura das circunstâncias. Mas douradinhos para o jantar, Mrs. Blair? E o Oliver teria gostado? Sobre a "moderna" Mrs. Blair tenho pouco a dizer: previsível, péssimo gosto e algo desarrumada.
Irrepreensível, a Helen Mirren.
E quando o PM exclama: Will someone please save these people from themselves!, basta ver o filme para responder : Not yet Mr. Blair. Not yet.

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Yes, my Lord?


Bill Gates and Steve Jobs square off in the clean white virtual world of the iconic Mac ads.

Bill: What's that?
Steve: It's an iHouse!
Bill: But there's no windows!
Steve: EXACTLY!

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Finalmente sobre AJJ…

Não aprecio o seu estilo. Mas Alberto João Jardim mesmo assim parece-me preferível a qualquer dos seus envernizados opositores.

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Domingo

(1º da Quaresma)

Evangelho segundo S. Lucas 4,1-13.

Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde esteve durante quarenta dias, e era tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome. Disse-lhe o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se transforme em pão.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem.» Levando-o a um lugar alto, o diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do universo e disse-lhe: «Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se te prostrares diante de mim, tudo será teu.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Em seguida, conduziu-o a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, a fim de que eles te guardem; e também: Hão-de levar-te nas suas mãos, com receio de que firas o teu pé nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus.» Tendo esgotado toda a espécie de tentação, o diabo retirou-se de junto dele, até um certo tempo.

Da Bíblia Sagrada

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Por vezes, o topo do mundo é também o seu fim

E 1

e 2

e 3

Sábado, Fevereiro 24, 2007

When I was just a little boy



Ray Evans, um dos meus compositores favoritos de músicas para filmes, acaba de falecer, com 92 anos. Hollywood deve-lhe algumas das partituras mais famosas de longas-metragens, incluindo a celebérrima Mona Lisa, que deu a volta ao mundo na voz de Nat King Cole. Nunca vi o filme que lançou esta canção (Captain Carey, USA, com Alan Ladd, 1950). Mas vi vários outros que imortalizaram o talento musical de Evans - com destaque para O Homem que Sabia De Mais (Alfred Hitchcock, 1956), em que Doris Day cantava o célebre tema Que será, será (de Evans, em parceria com o letrista Jay Livingstone, seu parceiro de muitos anos). When I was just a little boy / I ask my mother what will I be...

Mas a música dele que mais vezes trauteio é a da série televisiva Bonanza, que seduziu duas gerações de espectadores: inesquecíveis, os primeiros compassos deste tema. Mal os ouço, sinto-me transportado à mais remota infância. Este é um dos prodígios da boa música popular. Thanks so much, Mr. Evans!

Videoteca (1)


Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe. E David Lynch também. A prova, caso ainda fosse necessária, é este negro, muito negro Estrada Perdida. Um filme que, se não atinge as alturas de Veludo Azul, ultrapassa em sexta velocidade os infelizes últimos dias de Laura Palmer.
O mais próximo que o realizador esteve de definir esta sua obra foi quando lhe chamou “uma fuga psicogénica”. Por um lado, diz ele, quem sofre desta doença cria na mente uma identidade totalmente nova. Por outro, tal como numa fuga em sentido musical, aqui começamos a caminhar numa direcção, evoluímos para outra totalmente diferente e regressamos enfim ao ponto de partida. Dito assim, até parece coerente. Mas, como acontecia com a esperança no inferno de Dante, os que aqui entram abandonam toda a lógica. Mergulham numa espiral em que o Tempo e o Espaço são tão lineares como uma fita de Moebius, o símbolo do infinito desafiador das topologias.
Em Estrada Perdida temos todas as obsessões de Lynch. O opressivo e constante chiaroscuro, as cortinas vermelhas, as lareiras de ominosas labaredas, a sinistra personagem inter dimensional...O Hitchcock de Vertigo está presente na dupla figura de Patrícia Arquette, mas também a Los Angeles Confidencial de James Ellroy num cenário onde - apesar dos telemóveis e das câmaras de vídeo - tudo nos situa em plenos anos cinquenta. E ainda ficamos com grande parte do film noir, e Jung, e Lewis Carrol. Mas, acima de tudo e de todos, com o próprio Lynch. Estrada Perdida é uma ruptura ontológica a ser experimentada e não explicada. Podemos ouvir alguém ao telefone e ele estar também à nossa frente, podemos ver o futuro mesmo aquele que não acontecerá. Presenciamos cenas de sexo tentadoramente animalesco e brutal e cenas de sexo aterradoramente belo, iluminando o deserto com partículas de luz. Quem é quem afinal? E quem somos nós, os espectadores dominados e encarcerados também nos nossos inconfessados segredos? Não o saberemos jamais.
Para além da fotografia arrebatadora de Peter Deming, da perturbante banda sonora de Badalamenti mas também de Lou Reed, Nine Inch Nails e This Mortal Coil, para além dos planos e das cenas nunca explicadas e que somos incapazes de entender sem recurso a hipnose regressiva, Estrada Perdida é um aviso a quem deu este realizador por arrumado. David Lynch regressou, igual a si mesmo. Que é como quem diz, muito diferente de todos os outros.
(Excerto de crítica inicialmente publicada no O Independente. Se gostarem, a Videoteca regressa no próximo sábado)

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Tertúlia literária (146)

- "As armas e os barões assinalados." Quem escreveu?
- Essa é fácil: foi o Ary dos Santos. Só não me lembro se foi a Simone a cantá-la no Festival.

Postais blogosféricos

1. Um blogue de que sempre gostei, o Tristes Tópicos, entrou no segundo ano de vida. Parabéns, Helena.
2. Também o Pedro está de parabéns: o seu Estado Civil ultrapassou as 500 mil page views. Merece registo.
3. Gosto de visitar este blogue, também por causa do nome que lhe serve de mote. Nunca tive receio de raios. Nem de Coriscos.

Momento Vasco Granja

Ou o comunismo explicado às criancinhas. Brilhante. O homem da voz off parece drunfado, ou então está tão acordado como eu a esta hora da matina. Enjoy.

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Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

Não há só gaivotas em terra

Morreu há 20 anos o homem que, a cantar, nos deu esta imensa lição de vida: "Vejam bem / Que não há só gaivotas em terra / Quando um homem se põe a pensar." José Afonso. O mesmo que é diariamente assassinado pelas estações de rádio "de referência" que o ignoram sem vergonha nem remorso. As mesmas que hoje fingiram homenageá-lo pondo no ar alguns minutos da sua música, que em qualquer outro país estaria a pulsar em permanência nas ondas hertzianas.

E porque vamos de fim de semana...

Fascinado com as tarefas domésticas, o meu marido resolveu lavar uma camisola dele. Um bom bocado depois de ter chegado ao pé da máquina de lavar, gritou-me de lá:
- "Que programa de lavagem é que devo usar na máquina?"
- "Isso depende," respondi-lhe, "...o que é que diz na camisola?"
Ele gritou outra vez, muito feliz, a resposta:
- "Mantorras."!!!!!
(Recebida por mail)

Festival Canção De R T P - History

(Obrigada)

Isabel, isabel...

...As outras não sei, que não fui que a escolhê-las, mas aqui a Penélope Cruz sabe muito o que é o Corta-Fitas, diz coisas muito inteligentes (embora eu às vezes esteja distraído e não as ouça) e, quanto ao Winston Churchill, é tema que não discutimos na intimidade. E estou certo de que o João Távora também não falaria desse senhor com a Rita Hayworth, se fosse viva. Mas pode ser que me engane...

A propósito das miúdas das Sextas

Dir-me-ão que não é importante. Também acho que não interessa muito, mas convinha saber. Ou por outro lado, eu gostava de saber. Elas são giras, elas são elegantes, ricas, famosas, deslumbrantes, admiradas, algumas são inteligentes, desejadas e essas coisas todas. De acordo. Mas, como é?
- Sabem estar à mesa?
- Agradecem, pedem desculpa ou se faz favor?
- Andam de pantufas em casa?
- Acordam lindas?
- Além de dar autógrafos sabem escrever?
- Acham que Apollo 13 é uma marca de perfumes?
- De que falam quando não falam para a câmara?
- Acreditam que a Guerra de Secessão é entre o Armani e o Versace?
- Saberão que há casas que se vendem sem decoração?
- Pensam que Winston Churchill é uma marca de charutos?
- Pensarão que Corta-Fitas é nome de Almirante?
Pois é.

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Não, não...


Esta sexta-feira é toda dela (e a propósito de falarem em Volver)
Penélope Cruz.

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Sexta-feira


Rita Hayworth em Gilda - 1946. O que é belo nunca passa...

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Ando atrasado




Ontem, era para ter escrito sobre as inacreditáveis e raivosas declarações de Correia de Campos sobre o presidente da Câmara de Chaves e outros autarcas que lhe tinham feito frente, quando veio o Miguel Macedo com a declaração do PSD sobre o assunto (que, aliás, soube depois, tinha sido debatido no Parlamento, ficando para mim registada a correctíssima posição do PCP)e estragou-me o post. Hoje, era para escrever sobre o Babel, que também detestei, e vem o Villalobos dizer grande parte do que eu queria e ainda por cima mais bem escrito.
Só posso, portanto, tentar acrescentar que, em relação ao primeiro caso, que daria escândalo se fosse no tempo dos governos de Durão ou Santana, hoje não vi nada, nem comentários nem "alertas" democráticos nos poucos jornais que li. E que gostaria de ver o presidente da República, que tem obrigação constitucional de zelar por estas coisas do "normal funcionamento das insituições democráticas", dizer qualquer coisa.
Em relação ao Babel, acrescento apenas que já não tenho paciência para cineastas ou escritores que exploram o lado trágico da vida, sem qualquer esperança, julgando que estão a retratar a "realidade", quando na verdade esta raramente é tão desesperada como eles a apresentam. É facílimo ser trágico e pessimista. O contrário é que é difícil e intelectualmente interessante.

Às vezes dá-me para a poesia


Fragmento


«A WOMAN waits for me--she contains all, nothing is lacking,
Yet all were lacking, if sex were lacking, or if the moisture of the
right man were lacking.

Sex contains all,
Bodies, Souls, meanings, proofs, purities, delicacies, results,
promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the seminal milk;
All hopes, benefactions, bestowals,
All the passions, loves, beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow'd persons of the earth,
These are contain'd in sex, as parts of itself, and justifications of itself.

Without shame the man I like knows and avows the deliciousness of his sex,
Without shame the woman I like knows and avows hers». Walt Withman

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Bah!


«Gosta de Babel? Então possivelmente odeia os críticos», avisa a capa de hoje do novo ípsilon. Bem achado e bem escrito, o artigo da Kathleen Gomes. Eu fui, num período que os desaconselho a investigar da minha existência, crítico de cinema. É uma vida dura. Levantamo-nos cedo e vamos a visionamentos logo de manhã sem pequeno-almoço e não nos servem nem um cafézinho. Para avaliar um filme como ele merece, nessas condições, é preciso haver estofo para além das cadeiras.
Talvez devido a essa experiência de uma vida passada, detestei o Babel. Tirando o papel da jovem japonesa - que acho merecedor do óscar de melhor actriz secundária - tudo aquilo é idiota. Se ainda fosse crítico, tinha que desenvolver esta adjectivação. Agora, graças ao Karma, já não preciso.
Mas o que me irritou mais foi isto: O Brad Pitt telefona lá de Marrocos à empregada, a dizer que não se preocupe porque a cunhada vai aparecer para tomar conta dos filhos, no dia seguinte. Depois, telefona outra vez e ela afinal já não pode ir, mas não sabemos porquê. Por causa disso, acontece o que acontece. Ora, que raio de cunhada é essa? Por que é que não foi castigada, ao contrário de todas as outras personagens sem excepção? Onde é que ela mora, para eu lhe enviar a brigada de intervenção da segurança social?
Babel, meus amigos e amigas de bom coração, é manipulação psicológica do pior. É um filme de agit prop das boas consciências. É assim a modos que uma maneira de os americanos lavarem as mãos à Pilatos e maltratarem os outros ao mesmo tempo: Os marroquinos são um misto de pastores analfabetos e polícias piores q'á PIDE. Os japoneses são uma cambada de putos alienados e adultos autistas. Os mexicanos gostam é de forró, pistolões e mamas. Os americanos, esses, são giros e louros e choramingas porque plenos de bons sentimentos. Vão-se catar! E estejam à vontade para odiar-me. Ass: O desmancha prazeres.

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O João Villalobos…

… gosta de se armar em desmancha-prazeres, mas pronto… amigos como d’antes!

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Ah é? Então e esta?

O Homem Novo Veio Da Mata

Um homem novo
Veio da mata de armas na mão
Não é soldado de profissão
É guerrilheiro na sua aldeia
A mãe o diz
Duma fazenda faz um país

Colonialismo não passará
Imperialismo não passará
Veio da mata um homem novo
Do M. P. L. A.
(continua e, para ouvir, comprem o disco do espectáculo ao vivo no Coliseu ;)

Impressões musicais (9)

José Afonso 1929 - 1987

Menino de oiro
(Clicar para ouvir)

O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso que é pequenino
O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro
Hei-de levá-lo no meu veleiro.

Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros do meu menino
Do meu menino, do meu menino
Venha comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

Quantos sonhos ligeirosp'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro sou teu amigo

Venham altas montanhas
Ventos do mar
Que o meu menino
Nasceu p'r'amar
Venha comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

O meu menino é d'oiro
É d'oiro é de oiro fino ....

Venham altas montanhas
Ventos do mar ....

Letra e Música: José Afonso

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Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

Actualidades

O Corta-Fitas, sempre na linha da frente da actualidade, informação & entretenimento (hoje acordei modesta) dá a conhecer a última colecção em linha da Biblioteca do Congresso.
Para quem se interessa por relações diplomáticas, esta colecção apresenta uma série de entrevistas com alguns dos diplomatas americanos mais proeminentes do sec. XX, chamada "Frontline Diplomacy: The Foreign Affairs Oral History Collection of the Association for Diplomatic Studies and Training".
Trata-se de uma colecção baseada em transcrições de entrevistas a diplomatas americanos sobre as suas experiências, motivações, críticas e análises pessoais. Até ao momento, só encontrei uma referência a Portugal, a mais óbvia: uma entrevista com Frank C. Carlucci III.
Se tiver oportunidade, dê uma vista de olhos às restantes colecções da BC (fotografia, cartografia, registos sonoros, história, etc.): a memória de uma nação e o fantástico arquivo patrimonial de um país ao alcance de todos.

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O Portugal moderno

Não é que tenha saído na imprensa dita de "referência". Eu li no 24 Horas. Mas não deixa de ser uma história de contornos bonitos.
Começa assim o artigo do Luciano Amaral , hoje, no Diário de Notícias.
Um excelente texto com muitas personagens, laços, afectos e poucas explicações. Porque sim. A não perder.
Mas é o Portugal moderno que existe no século XXI. E de uma coisa podemos ter a certeza: não vai ser nenhum referendo nem nenhum "processo Apito Dourado" que vai acabar com ele.

Ao Francisco



ASH WEDNESDAY

Although I do not hope to turn again
Although I do not hope
Although I do not hope to turn

Wavering between the profit and the loss
In this brief transit where the dreams cross
The dreamcrossed twilight between birth and dying
(Bless me father) though I do not wish to wish these things
From the wide window towards the granite shore
The white sails still fly seaward, seaward flying
Unbroken wings

And the lost heart stiffens and rejoices
In the lost lilac and the lost sea voices
And the weak spirit quickens to rebel
For the bent golden-rod and the lost sea smell
Quickens to recover
The cry of quail and the whirling plover
And the blind eye creates
The empty forms between the ivory gates
And smell renews the salt savour of the sandy earth

This is the time of tension between dying and birth
The place of solitude where three dreams cross
Between blue rocks
But when the voices shaken from the yew-tree drift away
Let the other yew be shaken and reply.

Blessed sister, holy mother, spirit of the fountain, spirit of the garden,
Suffer us not to mock ourselves with falsehood
Teach us to care and not to care
Teach us to sit still
Even among these rocks,
Our peace in His will
And even among these rocks
Sister, mother
And spirit of the river, spirit of the sea,
Suffer me not to be separated

And let my cry come unto Thee.



T. S. Eliot
(excerto)

Gostei de ler

1. Os novos ditadores. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
2. O homem do choque. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
3. Alberto João Jardim dá luta. De José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro.
4. Maravilhas de Portugal#2. De Rui Pena Pires, no Canhoto.
5. A medicina cubana é uma das melhores do mundo. De João Miranda, no Blasfémias.
6. Pela nossa cabeça. Do Pedro Lomba, no Vício de Forma.
7. A confissão mais velha do mundo. De Pedro Picoito, n' O Cachimbo de Magritte.
8. Mayada, filha do Iraque. De Raquel Gandra, no Janelar.
9. O senhor pássaro de corda. Do André Moura e Cunha, no In Absentia.
10. Tragédia italiana. De João Paulo Sousa, no Da Literatura.
11. Cartas de Iwo Jima. De João Miguel Almeida, n' O Amigo do Povo.
12. Tudo menos a verdade. Do Pedro Mexia, no Estado Civil.
13. Como sabemos que nos encontramos em Portugal. Da Maria Isabel, na Miss Pearls.

À atenção do Luís e do Paulo Gorjão

O DN diz que João Marcelino anunciou ontem, numa reunião com os seus editores, que ia deixar a Cofina não desvendando os seus planos para o futuro. É um facto. O Público e a Meios e Publicidade dizem que Marcelino está de armas e bagagens para a Controlinveste e o DN. É um rumor. Mas um rumor que corre nos mentideros há uma semana. Um rumor com fundamento. Um rumor que é notícia.
Ao não antecipar, não confirmar ou desmentir, o DN não presta um serviço aos seus leitores. E os leitores e leitoras, Luís e Paulo, são pessoas. Fiéis enquanto lhes dizem a verdade. Trocando de amante quando ela lhes é ocultada ou camuflada. O resto são teorias. Estimulantes teorias, mas nada mais.

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Físicas

Lido isto e mais isto, confesso que também gostava de perceber melhor o que o Pedro Lomba quer dizer com «feminista radical». Não o estou a ver a recorrer a facilitismos como o pleonasmo.

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Portugal dos douradinhos

Claro que o João está carregado de razão. E a entrevista de hoje no Público, em lugar de acrescentar alguma coisa ao que o senhor Procurador não disse a Judite de Sousa, ainda baralha o que disse. Nomeadamente no respeita às alterações processuais na Operação Furacão. Ficou, isso sim e para quem gosta de aprender como estas coisas se fazem, um mapa dourado de Portugal que funciona que nem ginjas em televisão. Com uma bandeira e tudo para cada douradinho.

Sempre pop


Ia vender o meu castelo na Cornualha, deixar de pagar a pensão dos miúdos e empatar toda a minha fortuna na aquisição das madeixas de cabelo da Britney Spears no portal E Bay. Sadly however, parece que já foram arrematadas. A máquina de barbear, no entanto, ainda lá está e, neste momento, a licitação vai nuns módicos 100 dólares. Como bem expressa o texto que acompanha o objecto, «115 people were killed in battle today but pop culture will always take the headlines». À atenção do Paulo Gorjão. Banda sonora aqui dedicada à Britney, pois claro.

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

Grandes portugueses a altas horas

Pergunto-me quantas pessas terão ficado acordadas até cerca da uma da manhã para ver o documentário sobre Fernando Pessoa, do concurso Grandes Portugueses.
Às 23.20, hora que vinha indicada na programação da televisão do Público em linha, ainda não tinha começado uma novela qualquer. Eram praticamente duas da manhã quando o programa terminou.
Pessoa era um noctívago mas não era preciso levar as coisas tão à letra.

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Uma pequena polémica com Paulo Gorjão

Caro Paulo Gorjão:
Há dois problemas na nossa pequena polémica: o senhor tem um pensamento estruturado sobre o tema e eu não tenho; por outro lado, o senhor escreve sobre jornalismo político, enquanto eu (confesso) a única vez que escrevi sobre jornalismo político estampei-me ao comprido. Em relação às "generalidades sem substância", tem razão, estamos ambos nesse barco, até porque escrever sobre isto num post curto é necessariamente difícil. Peço desculpa por não ter acrescentado o facto.
O que gostaria de deixar claro é que um jornal não é feito apenas com jornalismo político, mas é uma máquina muito mais complexa: há crónicas, fait-divers, reportagens, entrevistas, entre muitas outras coisas, tais como egos, dinheiro (ou falta dele). As opiniões num jornal não se limitam a questões da governação. Enfim, há um equilíbrio (um mix, que cada director concebe diferente do outro) entre matérias sérias e trivialidades. Eu, por exemplo, como leitor, não dispenso as trivialidades e adoro fait-divers.
Discordo da sua tese dos 3Q porque, como prático desta disciplina, a tese não me satisfaz. Nunca consegui conceber uma definição teórica da qualidade, mas admiti de imediato que a sua estava errada. O meu post pretendia apenas explicar as insuficiências da teoria.
Mas acho ter percebido o que o senhor quer dizer, ou seja, que os jornais no mercado não o satisfazem porque não aprende nada com eles. Não tenho dúvidas de que esta é uma questão muito séria.
As pessoas que me conhecem sabem que sou algo ingénuo. Apesar disso já vi atropelos às regras. Mas, repito: esta profissão tem regras. É evidente que um bom jornalista só publicará uma informação que considera segura, o que não quer dizer que não seja enganado ou que não tenha excesso de confiança nas fontes, ou que não haja pressões de fecho para publicar a história. O Paulo menciona também as notícias sem dupla confirmação, quando devia mencionar as incompreensíveis dificuldades que os jornalistas enfrentam no seu contacto com a administração pública. É um pesadelo, garanto-lhe. Mas, insisto, o senhor concentra a sua análise no jornalismo político, o qual tem especiais dificuldades em Portugal por causa da nossa classe política.
Acho que no meu post lhe dei dois bons exemplos que parecem refutar a sua tese dos 3Q. Na realidade, não há redacção que tenha especialistas que saibam mais do que alguns dos seus leitores. Por exemplo, escrevi bastante tempo sobre União Europeia e o essencial do meu esforço era tentar evitar um erro catastrófico, pois era lido pelas 150 pessoas que sabem mais do que eu sobre o tema (e provavelmente apenas por essas). O outro exemplo ilustrava o problema do repórter (sempre o mais ignorante no local do crime) e a necessidade de fazer todas as perguntas.
O último problema, que deixei para o fim por ser o mais controverso, é a questão da imparcialidade.
Estou convencido de que a imparcialidade não existe (chame-lhe neutralidade, isenção, etc.). Digo isto pela minha experiência. Fiz umas reportagens no Paquistão, logo a seguir ao 11 de Setembro, e optei por avançar para uma cidade próxima da fronteira com o Afeganistão, Quetta, dominada por tribos Baluches e por refugiados Pastunes que tinham grande afinidade com os talibãs de Kandahar. Tive alguma falta de sorte e nunca consegui chegar a Kandahar, mas o meu trabalho era tentar perceber os talibãs, e conheci vários.
Esforcei-me, confesso, mas nunca consegui ser imparcial. Achava que eles não tinham razão e continuo a pensar assim. Um pequeno detalhe: nessa altura percebi a importância de ter dinheiro e nem queira saber as dificuldades que enfrentei nessa matéria.
Na ocasião, dei-me muito com um jornalista do New York Times, um verdadeiro craque. Andávamos juntos porque havia o risco de alguém querer raptar um americano e eu disfarçava. Um dia, fizemos um trabalho sensacional, ou antes, ele fez as perguntas ao primeiro ferido que chegara dos bombardeamentos americanos a Kandahar (foi uma coisa incrível, nunca vi trabalhar assim). No final, eu tinha uma grande história e pensei que ele também tivesse. Mas o meu colega disse, um pouco desanimado, que em Nova Iorque ninguém ia publicar a reportagem. Porquê, perguntei? E ele respondeu: "Quem é que se vai preocupar com um ferido deles, quando nós perdemos três mil?" Não ponho aqui o nome do jornalista porque posso estar a fazer uma inconfidência, mas o comentário responde bem, a meu ver, ao problema da imparcialidade. E, repare, se em Nova Iorque publicaram alguma coisa, não duvido de que a história era irrepreensível.
E assim termino. Aproveito para ilustrar esta minha opinião com a imagem de outro jornalista parcial, o senhor Viktor Laszlo, cujas convicções me agradam.

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De pequenino se mata o tourinho


Com uma foto do jovem Gonçalo Montoya roubada ao nosso Leonardo Negrão e ao photo a trois, confesso aqui a minha admiração profissional por quem quer que sejam os autores deste golpe de RP. De repente, vejo em todos os principais jornais do país textos e imagens que demonstram o fascínio pelo glamour e a estética - belíssima, sem dúvida - que envolveu o concurso de melhor jovem toureiro português. Hoje, no Público, podem ler-se as palavras de Maurício Valle, o presidente do júri: «Temos esperança que saiam daqui futuros matadores de touros profissionais». Saiam para onde? Espanha? E ninguém protestou ainda, dessas associações animais e afins? Hmm...

Eu gosto de Alberto João Jardim

Várias vezes irrito-me com os seus exageros verbais, os seus insultos, as suas declarações espalhafatosas. Outras vezes pessoas que considero garantem-me que há na Madeira uma espécie de ditadura disfarçada, feita de clientelismo, pressões sobre opositores, influências, favores e mais não sei o quê. Mas a verdade é que eu admiro muito Alberto João Jardim. Admiro a sua coragem em dizer o que pensa num país em que os políticos medem cada palavra para ver se agrada ou não a medíocres bem pensantes, jornalistas e comentadores. Tal como ele, também gosto do cheiro a pólvora. Admiro o seu gosto pela vida, pelo Carnaval, pela bebida e pelos charutos. Admiro que, ao fim de 30 anos, não tenha enriquecido à custa da política, nem haja qualquer caso de corrupção de que seja acusado (e não foi certamente por descuido dos seus inúmeros adversários). Mas admiro sobretudo uma coisa sem a qual nada do que disse seria grande motivo de admiração: a extraordinária obra que ele fez na Madeira, no desenvolvmento da sua região, tornando-a na segunda mais rica do país quando há 30 anos as pessoas viviam em grutas e emigravam para não morrerem de fome. Creio mesmo que é esta obra, que nem os seus opositores conseguem negar, que mais irrita o pântano português continental, que não sai da cepa torta desde a primeira metade dos anos 90. Lamento que certas pessoas que eu julgava que defendiam esta forma eficiente de governar (como Cavaco Silva, que quase de certeza contará com a minha abstenção nas próximas presidenciais) alinhem agora com as vozes socialistas empenhadas em atacar os centros de poder que ainda não lhe pertencem: Madeira, Lisboa e Porto. O meu partido andou bem em apoiá-lo na sua decisão de fazer frente àqueles que gostavam que ele fosse tão medíocre quanto eles. Alberto João Jardim vai muito provavelmente ganhar as próximas eleições, através de voto democrático e secreto, por muitos ataques que lhe façam. E mais uma vez eu vou admirar a forma como ele, sendo quem é, vai irritar os conselheiros Acácios deste país.

Terça-feira, Fevereiro 20, 2007


Carnaval em Veneza

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Tertúlia literária (145)

- Já leste o rosto e as máscaras?
- Não gosto do Carnaval.

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A capa do dia (9)

Esta já tem uns dias (é de sábado, dia 17), mas bem merece uma espreitadela. Pela excelente foto da secretária de Estado norte-americana captada num excelente ângulo e valorizada pela excelente paginação do jornal. Bom, deixemo-nos de rodeios: excelentes são as pernas de Condoleezza Rice. E ela parece ser a primeira a saber bem isso. Ter aprendido a tocar Beethoven aos cinco anos, ter concluído a licenciatura em História aos 19 e permanecer hoje (aos 52) o mais popular elemento da administração Bush, com mais 20 pontos de aprovação do que o inquilino da Casa Branca, são pormenores que lhe valorizam o currículo. Mas nada que se compare àquelas pernas, que o El País (jornal que nada tem de tablóide, credo!) tão bem pôs em destaque.

O que dizem os pediatras sobre João Jardim

Ontem, depois de ouvir a ladainha e o incrível discurso de Alberto João Jardim, fui a correr consultar o sem-número de manuais de pediatria e de pedagogia infantil que adquiri há uns bons meses atrás, de tão espantada que fiquei. Posso até dizer bastante preocupada.
É que nem a minha filha - que está prestes a entrar no seu segundo ano de vida, aquela fase em que pediatras de todo o mundo dizem ser "os terríveis dois" - faz birras como aquela que vi fazer aquele senhor que se julga mais que todos - que se demitiu do Governo Regional, arrastanto tudo e todos, por discordar de uma lei promulgada pelo Presidente da República.
Então, fui tentar perceber. Bem sei que aquele senhor que tanto gosta de atacar o continente já mais que passou a barreira dos 50, mas nunca se sabe...
"Os manuais terão de certeza uma explicação", pensei. Depois pensei ainda: "Atitudes daquelas são típicas de crianças de dois, três, quatro anos, por isso certamente aquele livro que ali tenho do Brazelton há-de dar-me a resposta".
E lá estava. Vou tentar passar a mensagem por palavras minhas, que me esqueci, cabeça minha, de copiar as citações. É mais ou menos isto: Por volta dos dois anos de vida, os bebés entram numa fase de negativismo e de afirmação da independência e da personalidade. É normal que passem a fazer birras sucessivas, que podem ter várias causas: quando não lhes é dado o que querem, quando falham na execução de uma tarefa ou quando o impedem de levar maus comportamentos adiante. Se estiver cansado, com fome ou com sono as birras tenderão a acontecer com mais frequência.
Mantenha-se firme. É fundamental. Quando é não, é não... Se a birra persistir, tente levar a criança para um local seguro e deixe-a ficar. Ignore a birra. Não estabeça qualquer contacto com a criança birrenta. Quando passar, acarinhe-a. Mas não ceda.
Esta fase deverá passar, na maioria das crianças, lá pelos quatro ou cinco anos.

Fiquei esclarecida...mas continuei preocupada. Só pensava: "vamos ter que aturar as birras daquele senhor por mais três anos?"

Só nos resta mesmo ignorar. Pode ser que se discipline e aprenda a autocontrolar-se.

A falta de tomates de Jardim


O presidente do Governo Regional da Madeira queixa-se da "falta de testículos" dos portugueses. Foi incapaz de chamar a coisa pelo nome, usando uma expressão inapropriada para o vocabulário a que já nos habituou. Que falta de tomates, Alberto João!


P. S. - Jardim, com maioria absolutíssima, decide demitir-se a pouco mais de um ano do fim do mandato, arrastando o Governo Regional e a Assembleia Regional consigo, em protesto contra uma lei já promulgada pelo Presidente da República. Como se com esta atitude de menino birrento pudesse alterar uma só vírgula da referida lei. Em comparação com esta bombinha de Carnaval que nos chega da Madeira, os cortes de auto-estradas e estradas nacionais são uma genuína expressão de civismo e espírito democrático. Jardim teve medo, isso sim, de perder a eleição de 2008 e agita uma vez mais o espantalho do "colonialismo de Lisboa" na esperança de amealhar votos. E lá voltamos ao vegetal do início...

Gostei de ler

1. João Pereira Coutinho, Expresso: "O aborto clandestino continuará depois das dez semanas; e continuará antes das dez semanas porque o acto de abortar num 'estabelecimento de saúde legalmente autorizado' implica uma exposição que não será partilhada por todas as mulheres, sobretudo em contextos sociais restritos."

2. Pedro Lomba, Diário de Notícias: "O que está agora em causa já não é a penalização do aborto - é a atitude do Estado perante uma realidade que suscita na sociedade fortes sentimentos de rejeição ética. Para muitos dos que votaram 'sim', não é aceitável que o Estado assuma uma posição demissionária ou neutral. O mesmo Estado que tenta persuadir as pessoas para deixarem de fumar, não se divorciarem, fazerem dieta e desporto, esse mesmo Estado não terá uma palavra a dizer (de desincentivo) a quem decide fazer um aborto?"

3. João Bénard da Costa, Público: "Muito se muda neste país onde se diz que está tudo na mesma. Talvez seja o que os portugueses aprenderam com Lampedusa."

É o Carnaval?

Qual a razão para a publicação daquela incrível fotografia (não disponível on-line) de João César das Neves na transcrição do debate sobre as perspectivas para o governo Sócrates na página 7 do Diário de Notícias? Se não gostam do homem porque é que o convidam? Não acabou já a campanha para a liberalização do aborto?

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Mais do mesmo

Desde sempre que gosto de telefonia e sempre que posso ainda vou acompanhando este fascinante meio de comunicação. Ontem foi a vez de, durante um inevitável percurso automobilizado, ouvir finalmente uns minutos do novo Rádio Clube Português. Entre as 19.00 e as 20.00 aterrei no meio de um tal programa de Célia Bernardo “Janela Aberta” no qual dois locutores entrevistavam no estúdio o insuspeito Vicente Jorge Silva (VJS) sobre a demissão de Alberto João Jardim (AJJ). Não me surpreendi com o VJS a destilar os seus ressentimentos contra AJJ. Chamou-lhe de tudo e mais alguma coisa, uns insultos mais plausíveis que outros. Mas o que me espantou verdadeiramente foi a cumplicidade explícita dos dois jornalistas, que tratando o convidado (colega?) por tu, alarvemente se compraziam com os epítetos, emitindo desapoderadas risadinhas e concordantes monossílabos.
Não sou particular admirador de AJJ, talvez devido à minha educação, para mais algo conservadora. Mas também tenho umas noções da dignidade implícita ao papel de jornalista, e das regras de conduta inerentes. Quero dizer, não me parece que aquela seja uma forma de profissionais da comunicação, no exercício do seu cargo, tratarem figuras de Estado legitimamente eleitas em democracia. Durante aqueles minutos senti-me literalmente gozado e ultrajado, enfim, madeirense.
Finalmente, a experiência com esta suposta alternativa radiofónica saldou-se numa má experiência que tão cedo evitarei repetir. Com a minha idade, para contrariedades, já bastam as inevitáveis.

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Itadakimasu

Confesso que só há uns anos aderi a esta autêntica moda (há tempos apanhei um enjoo num casamento) dos restaurantes japoneses, pelo que a descoberta do Aya - por onde devia ter começado - deixou-me muito bem impressionado. O restaurante das Twin Towers, em Lisboa, é uma maravilha. Lá encontramos o "sushi", os "tempura" (para quem gosta de marisco frito), "sukiyaki" (fondue japonês, para quem suporta os fumos), o "chanco" (frango com legumes) ou "yakitori" (frango grelhado). Só não reparei se tinham "okonomiyaki", aquela mistela óptima com uma massa tipo-panqueca que tenho experimentado na concorrência. Os menus variados são uma óptima solução. O restaurante tem uma boa carta de vinhos para quem não alinha com o "sake", embora eu tenha optado pela cerveja gelada. Pena não terem Sapporo, mas eu contentei-me com a excelente Asahi (julgo que era a Super Dry).
Gochisosama - deshita.

P. S. - Entretanto, no andar de baixo abriu o Aya Bistrôt, que tem preços mais em conta e que mantém a qualidade. É um restaurante vocacionado para outra clientela - a da hora de almoço - e parece que vende comida para fora. Vou lá qualquer dia.

Bom carnaval


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Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

"Tudo em cima" no desfile.

Adivinhem quem esteve no Marquês de Sapucaí como Rainha da Bateria da Viradouro.

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Perfeição



Agora que já é noite, aqui fica a voz.

Colecção de crónicas (X)


Sempre adorei western, entre nós conhecidos por filmes de cobóis. Lembro-me muito vagamente de estar mergulhado nas imagens de um filme que passava na televisão (tenho hoje a certeza de que era Todos Morreram Calçados) e a minha mãe deve ter achado que aquilo era demasiado violento para uma criança tão pequena (que idade teria? Quatro, cinco anos) e mandou-me para a cama. Resisti como uma tribo de índios.
De certa maneira, este foi o meu primeiro western, com berrata no meio da batalha. E logo Errol Flynn, dirigido pelo húngaro Michael Curtiz, com o qual me iria cruzar mais à frente!
Cada filme de cobóis nunca é aquilo que parece. A minha primeira impressão tinha a ver com a aventura. Havia grandes espaços e muita fantasia, mas não tinha idade para perceber essas coisas. Por isso, ficaram sobretudo correrias e cavalgadas, os tiroteios e as figuras cheias de dignidade, os heróis. Sou da geração da televisão, mas conheci John Wayne cedo na minha vida. Ele faz parte da minha memória mais antiga. Como é que se diz em informática? A memória cache?
(Nome estranho, a ser esse! Pois cache lembra imediatamente aquilo que se esconde! )
Quando fizeram os grandes ciclos de cinema na Fundação (anos 30, 40, 50) eu era um chavalo à beira de se perder na loucura e na droga. Posso dizer que o cinema me salvou. Íamos para a fila da Gulbenkian ainda de madrugada e comprávamos bilhetes às dezenas. Não havia dinheiro para comprarmos tudo, mas tentávamos ver tudo.
Foi ali que eu descobri John Ford. Os filmes da cavalaria, que compreendi logo não serem apenas filmes de cobóis, mas algo mais, uma espécie de viagem poética pela paisagem de uma memória escondida, que afinal também eu ambicionava: feita de espaços e cores, o dramático cenário e as pessoas fortes, as paixões das pessoas fortes, como bem dizia um título português de outro diamante, My Darling Clementine, ainda hoje um dos meus favoritos.
Os géneros acompanham sempre os tempos, ou melhor, estes impregnam os géneros. Ninguém fez western para retratar a época da conquista ou da colonização do oeste americano, no final do século XIX. Cada período de filmes trata das questões de cada época. E assim surgiram visões amargas, anti-heróis, as linhas de sombra e ambiguidades da alma.
É por isso que também gosto de Clint Eastwood e da perfeição estilística de Sergio Leone, injustamente associado ao western spaghetti, mas na realidade um dos grandes mestres do cinema.
Nessa altura, já tínhamos deixado a perigosa fronteira entre o bem e o mal para entrarmos no espantoso território onde apenas o mal podia florescer. Mas era o nosso próprio mundo a mudar que nos permitia visualizar esses horizontes.
Mais tarde, outra obra-prima: em Imperdoável, a personagem de Eastwood procura conter a sua memória cache, escondê-la bem fundo, no antro dos seus pesadelos. E, de súbito à solta, a monstruosa maquinaria torna-se tão assustadora como o mal mais absoluto. Ao serviço da justiça, o pistoleiro não é muito mais do que uma caricatura grotesca.
Da ingenuidade de Todos Morreram Calçados ao sopro divino do mal, em Imperdoável, a viagem do western (género tão universal) é talvez o relance do nosso tempo. No cenário de sonhos, vi a busca incessante do Humano, essa condição imprecisa, que nos vai escapando no imenso palco da luz...

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Será que ouvi bem?

Ontem pareceu-me ouvir o Professor Marcelo afirmar na (sua) RTP que o Expresso “comunica S. Bento”, e que o Sol “comunica Belém”.
E eu pergunto: quem comunica o Caldas? Quem comunica a Soeiro Pereira Gomes? O Diário de Notícias comunica a Almirante Reis?
Bom, eu para mim fico contente com o Corta-Fitas.

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Se me é permitido discordar de Paulo Gorjão (I)




Num post do seu Bloguítica, Paulo Gorjão faz considerações com as quais não concordo. Costumo lê-lo, quando escreve sobre jornalismo; e, ao contrário do que ele pensa, o autor comete o erro que costuma criticar em outros: não domina o assunto. (Embora isso não lhe retire o direito de opinar).
Neste caso, Gorjão tem o desconto de escrever na qualidade de leitor, mas esta passagem resume o seu pensamento: "Aquilo que me leva a estar disposto a pagar jornais é muito simples: informação de qualidade, análise de qualidade, opinião de qualidade. Uma trilogia de 3Q. Sem ser exaustivo, para eu sentir que há valor acrescentado que me leve a pagar, devo encontrar nos jornais: informação segura e devidamente confirmada; análise imparcial e por quem conhece de facto os assuntos; e opinião credível, plural e independente".
Aparentemente, isto é bom senso à solta, mas na realidade este excerto não passa de um conjunto de generalidades sem substância. Passo a explicar.
O dono de jornais que souber o que é a "qualidade" fará uma pipa de massa. Infelizmente, ninguém parece ter uma fórmula mágica para se chegar a esse objectivo utópico. Estamos num período de extinções em massa (como os dinossauros), mas ninguém sabe ao certo se tem as capacidades para sobreviver.
Paulo Gorjão afirma saber o que é a qualidade. No primeiro ponto, refere "informação segura e devidamente confirmada". Ora, só um louco ou alguém desonesto publica uma informação que sabe ser insegura e não confirmada. Ou seja, a regra é publicar apenas aquilo que está seguro e confirmado. Não me parece que o jornalismo português seja muito diferente dos outros nesta matéria. Na profissão de jornalista é fácil errar, porque ninguém está livre de ser manipulado ou, em muitos casos, não há tempo para o máximo rigor.
Costumo dizer que o jornalista é o tipo mais ignorante no local do atropelamento: o polícia tem informação, o bombeiro chegou logo a seguir, a testemunha ouviu a travagem, a vítima diz que estava na passadeira. Pode até haver uma teoria sociológica sobre atropelamentos. Uma coisa parece garantida: a notícia não coincidirá com nenhum dos testemunhos recolhidos, antes será uma amálgama de todos eles. Querem outro exemplo? Num Benfica-Sporting, o estádio estará dividido em dois, na análise de determinado lance. Foi pantufada, simulação ou penalti? Cada jornal desportivo terá uma versão ligeiramente diferente. Estamos perante um terrível exemplo de desonestidade? Não, apenas perante o facto de que a objectividade é sempre um ponto de vista.

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Se me é permitido discordar de Paulo Gorjão (II)




Paulo Gorjão fala ainda de "análise imparcial e por quem conhece de facto os assuntos". Ora, existe aqui uma confusão: o jornalista não é um académico (e é por isso que alguns dos melhores não têm licenciatura). A análise dos factos deve ser feita com honestidade intelectual, não com imparcialidade. Os cemitérios estão cheios de pessoas imparciais. Por outro lado, "quem conhece de facto os assuntos" são as pessoas com quem falamos e que nos explicam os factos; só então os jornalistas podem explicar aos leitores, de uma forma que os leitores que não sabem do assunto entendam.
O terceiro equívoco é sobre a "opinião credível, plural e independente". Acho (visão pessoal com a qual muitos jornalistas não concordam) que a opinião não deve ser um tempo de antena. Acredito na opinião sincera e empenhada, acredito na opinião livre, mas penso que a independência é algo que não existe. Defendo a opção anglo-saxónica dos jornais que escolhem causas e apoiam candidaturas.
Uma última observação: Paulo Gorjão é, sem dúvida, o tipo de leitor inteligente e informado que qualquer jornal gostaria de manter. Infelizmente, é também raro. Não preciso de informar o banqueiro sobre a OPA nem o padre sobre a missa. Agora, que o banqueiro se interesse pela história sobre pequeno comércio e o meu barbeiro sobre a OPA, isso talvez seja "qualidade".
É tema para outros debates, mas a Imprensa portuguesa está entre as melhores da Europa, e posso provar esta afirmação.

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Polícias sobrepostos

A anedota do dia vem do sindicato da PSP que considera que há "sobreposição" de funções, agora que os fiscais da EMEL podem multar quem estaciona em fila dupla, nos passeios ou nas passadeiras de Lisboa. Há anos que estes "profissionais" se demitem das suas funções e ignoram quem desrespeita não só a lei como as mais elementares regras de civismo. Perante protestos dos munícipes, das juntas de freguesia, da própria CML, recorrem sempre a desculpas várias, a última das quais é sempre a da "falta de efectivos". Eu próprio já alertei vários destes elementos das "forças da ordem" para casos graves de automóveis a taparem portas e janelas, a impedirem velhos e crianças de circular nos passeios, de ruas bloqueadas por filas duplas, etc, etc. Recebi sempre como resposta encolheres de ombros, sorrisos arrogantes, frases do tipo "e o que quer que eu faça?". Uma vez, até houve um que, depois de eu ter ligado do meu telemóvel para a esquadra e de o confrontar com o pedido do superior para que agisse, arranjou logo a desculpa de que tinha acabado o seu turno e"fugiu" rapidamente. A cena foi tão ridícula que desatei a rir. Tal como me ri hoje quando ouvi esta extraordinária notícia.

Lamentavelmente, não é portuguesa


Mas a Luciana seria a única Salazar a levar o meu voto.

Nas colunas


Mas, se não houvesse, não teriamos pérolas como esta.

Conversa inacabada

A população de Valença bloqueia uma ponte internacional e enfrenta a GNR. Uma hora e tal depois retira-se. Não houve bordoada porque não calhou. Pouco mais tarde, na RTP1, o ministro Correia de Campos afirma - sempre de olhos cabisbaixos - que «nada está ainda decidido» quanto ao encerramento das urgências e que «ainda podemos sentar-nos e conversar». Na quinta-feira anterior, autarca e ministro já se tinham encontrado. O diálogo foi de surdos e talvez - digo eu - haja assuntos que sejam melhor tratados quando se conversa, não sentado, mas erguido e com ambos os pés firmes no chão.

De chorar a rir

A associação das Produções Fictícias à Super Bock e à sua agência publicitária revela bem o estado a que isto chegou. Com a ajuda dos humoristas, a marca vai pegar em notícias da actualidade e transformá-las em publicidade à sua cerveja sem álcool, começando com o apito dourado. A ideia não é nova. É a lógica do Inimigo Público que a Frize já aplicara aos anúncios, num spot em que brincava com o lançamento das OPA. Agora, trata-se de levar este conceito ainda mais longe.
A actualidade torna-se, cada vez mais, o objecto do cómico. Factos e soundbytes confundem-se indestrinçáveis e, dos Gato Fedorento às cervejas, parodia-se o quotidiano. E a gente ri-se quando devia gritar. «Não és tu, é a realidade que se engana», podia ler-se num muro da Avenida de Berna. Hoje, o engano permanece. Mas nós e a realidade partilhamos o mesmo sorriso amarelo.

Momentos Kodak (40)

Alguém pediu lume?
(Fevereiro 2007)
Foto: Rodrigo Cabrita

Domingo, Fevereiro 18, 2007

Aposta feita


Não vou responder ao concurso lançado pelo Expresso, porque não necessito de uma assinatura grátis do jornal na Internet (unhas de fome). Mas fica aqui a minha aposta para a noite dos Óscares:

Melhor actor - Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia).

Melhor Actriz - Helen Mirren (A Rainha).

Melhor Filme - Cartas de Iwo Jima.

Melhor Realizador - Martin Scorsese (Entre Inimigos).

Melhor actor secundário - Djimon Hounsou (Diamantes de Sangue).

Melhor actriz secundária - Rinko Kikuchi (Babel).

É uma escolha pessoal, que tem em pequena conta os critérios habituais da Academia. Mas, se falhar mais do que 50%, coloco o meu cargo à disposição.

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Valerian, o agente espacio-temporal



Um dos meus favoritos da juventude foi um herói de banda desenhada, Valerian, de Pierre Christin e Jean-Claude Méziéres. Acompanhado pela sua sensual companheira, Laureline, o "agente espacio-temporal" viajava através da galáxia mas também através do tempo, num paradoxal conjunto de aventuras. Cheias de fantasia e com belíssimos desenhos, estas histórias sempre me encantaram, sobretudo as iniciais da série, aquela em que os dois heróis atravessavam uma Nova Iorque parcialmente inundada (numa antecipação inquietante) ou em outra, intitulada O Império dos Mil Planetas, em que os dois viajavam através de um império estelar em decadência dominado politicamente por um misterioso grupo de sacerdotes.
Fui consumidor ávido dos coleccionáveis de Tintim, revista que nos ofereceu incontáveis maravilhas da banda desenhada franco-belga. Antes, lera o Cavaleiro Andante. Esta cultura é ainda hoje muito evidente na Bélgica, onde existe vasto mercado para álbuns de heróis entretanto criados e que, em muitos casos, substituíram os meus.
Em Portugal, parece-me, toda esta riqueza da minha juventude está a perder-se lentamente. A secção de banda desenhada das maiores lojas de consumo cultural fornece as novidades, há mangas japonesas e comics americanos, mas poucos dos heróis antigos continuam a ser traduzidos. Encontram-se em francês, naturalmente, mas perdemos algo de inestimável, que nos acompanhara fielmente durante muitos anos.
Para novas gerações, há novos heróis. Valerian foi um dos que se perderam, nesse imenso espaço-tempo que lança camadas de história sobre a história que se esquece. Restam alguns clássicos, naturalmente (Blake e Mortimer, por exemplo, uma das mais geniais criações da banda desenhada, sempre reeditado), mas sinto cada vez menor ligação a estas zonas das lojas onde estão alguns dos meus heróis da juventude, precocemente envelhecidos e quase incógnitos, escondidos entre álbuns de novas personagens com desenhos de encher o olho, mas feitas de argumentos frágeis, de histórias bastante mais superficiais do que as antigas. Sinal dos tempos a que Valerian conseguiu furtar-se, desafiando as leis da física: tutto declina, como se diz na ópera...

Crónicas marcianas

O Pedro Correia já comentou aqui a entrevista dada ao Expresso pelo nosso PM. Confesso que a mesma me deixou completamente indiferente e, quanto a mim, cumpriu na íntegra o único objectivo que realmente tinha: Sossegar o pagode e anunciar que não iriam existir mais «propostas fracturantes» nos próximos tempos. Recado esse, aliás, que a JS ouviu e cumpriu, retirando da agenda o tema dos casamentos entre same sexers, como gosta de dizer o João Gonçalves.
Este fim de semana preferi o SOL. Fiquei a saber que podemos, com a maior das facilidades, sacar 100 euritos ao director do jornal e, ao mesmo tempo, comprometê-lo enfiando-lhe pacotes de qualquer contrabandeada origem dentro do porta-bagagens. Ou ainda partes avulsas de uma vítima de homicídio, quilitos de cocaína não apreendida ou documentação que o relacione com um qualquer processo tumultuoso. Tanto faz. Só é preciso apanhá-lo na bomba de gasolina certa e impingir-lhe uma banha da cobra qualquer...Valha-me Deus!

Domingo

Evangelho segundo S. Lucas 6,27-38.

«Digo-vos, porém, a vós que me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam. A quem te bater numa das faces, oferece-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, não impeças de levar também a túnica. Dá a todo aquele que te pede e, a quem se apoderar do que é teu, não lho reclames. O que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também. Se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis? Os pecadores também amam aqueles que os amam. Se fazeis bem aos que vos fazem bem, que agradecimento mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. E, se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então, a vossa recompensa será grande e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom até para os ingratos e os maus. Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso.» «Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros será usada convosco.»

Da Bíblia Sagrada

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Sábado, Fevereiro 17, 2007

Duzentos mil

Só para assinalar: o Corta-Fitas está com uma média diária de 1073 visitas, mantém-se entre os 25 blogues mais lidos do País e subiu ao 15º lugar em páginas consultadas, de acordo com o Blogómetro. Além disso acabamos de receber o visitante número duzentos mil. Seja muito bem-vindo, como os outros todos!

Outros Carnavais

Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava de imediato um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto da sua passagem pelo Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da casa de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura heróica de todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, era o fim da espontaneidade. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Carnaval para mim eram as semanas precedentes ao feriado, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba. Com cinco escudos possuíamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos. Nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, corríamos endiabrados à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer gandulos do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
No Carnaval era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8.
Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no “Metromijas”, o WC dos rapazes, umas instalações subterrâneas situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após a estrondosa explosão, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas…
Chegados ao Entrudo, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Então, sempre me pareceram patéticas as figuras daqueles miúdos mascarados em passeio com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que infelizes aqueles repetidos “Zorros” e “campinos”, de bochechas pintadas e olhos tristes. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão passava-se o meu Carnaval. Mas afinal que bom que eram para mim aqueles cinco dias sem ir à escola!

Fotos: Daqui

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Sócrates no seu melhor

Cândida Pinto, João Garcia e Nuno Saraiva, os jornalistas que conduziram a entrevista hoje publicada na revista Única, do Expresso, bem se esforçaram. Mas não conseguiram de José Sócrates mais do que umas vaguíssimas e nebulosíssimas declarações sobre o que vai seguir-se no processo de legalização do aborto - o que constitui um esclarecedor retrato deste imarcescível governante.
Basta reparar nestes trechos, que transcrevo com a devida vénia. Cada um ajuíze como entender.
............................................................................................
Se uma mulher se apresentar hoje num hospital para fazer a interrupção voluntária da gravidez, que lhe sucede?
A lei só entra em vigor depois de aprovada na Assembleia da República e promulgada pelo Presidente. A lei que vamos aprovar deverá, em primeiro lugar, respeitar o resultado do referendo. (...) Calculo que possamos ter uma lei em condições de ser aprovada até final de Março. Já esperámos muitos anos, muitas décadas. Acho que os portugueses terão a paciência de esperar que o Parlamento produza uma lei que beneficie das boas experiências que os outros países têm com leis semelhantes.
Portanto, uma mulher vai poder dirigir-se a um estabelecimento legalmente autorizado, terá uma consulta sem lista de espera e fará a interrupção voluntária da gravidez? Isto implica celeridade.
Isso é verdade. Nem sempre arranjamos consulta para amanhã, mas o sistema encontrará as respostas adequadas.
Como sabe, há demoras...
(...) Daremos passos significativos nesse domínio.
Prefere o modelo alemão ou o francês?
Já olhei para essas leis todas. Não quero antecipar preferências. O período de reflexão da lei alemã parece-me ser muito inspirador.
É possível concretizar esse período de reflexão?
Não me vou comprometer com um número de dias.
Porque foi retirado, no projecto do PS que está na Assembleia da República, o período de aconselhamento?
Porque queremos aperfeiçoar o projecto na especialidade.
As consultas devem ser pluridisciplinares ou de apenas um médico?
Não vou entrar em detalhe.
Como se garante que todas as mulheres, em todos os pontos do País, terão acesso à interrupção voluntária da gravidez em estabelecimentos legalmente autorizados?
Já tivemos desafios mais exigentes. Se outros países o resolveram, nós também o resolveremos. Mas o primeiro passo já está dado com a despenalização.
Como se vai concretizar a IVG: no SNS, nos hospitais, em clínicas privadas, em clínicas estrangeiras?
As coisas vão evoluir como nos outros países, sem dramas. O SNS conta também com o privado, desde que de acordo com as regras.
E para si, preferencialmente, este tipo de intervenção deve ocorrer nos hospitais públicos ou no sector privado?
Era o que faltava eu agora revelar uma preferência.
Porquê tanto cuidado?
Porque não me quero comprometer com aspectos de detalhe que merecem o contributo de especialistas.
Como se controla [o direito à objecção de consciência dos médicos]?
Vamos encontrar uma solução que respeite o resultado do referendo e o direito dos médicos. Teremos tempo para fazer esses regulamentos.
De que números dispõe sobre o aborto clandestino em Portugal?
Há números para todos os gostos. Só os vamos conhecer a partir de agora.
É possível fazer uma estimativa do custo que terá a aplicação desta lei?
A matéria financeira não está em causa. (...) Haverá oportunidade para se avaliarem os custos.

Um lento suicídio

Há muitas formas de suicídio. Penso nisto enquanto ouço Carmona Rodrigues garantir que "continuam preenchidas as condições de governabilidade em Lisboa" mesmo depois de ter perdido os seus vereadores das Finanças e do Urbanismo, tornados arguidos em processo-crime por suspeitas de peculato. Na capital, o PSD optou pela mais lenta e penosa forma de suicídio. Mas nem por isso menos letal.

Bom fim de semana

Vou fugir para o Baleal. Sempre detestei carnavais. Queria só acrescentar que o meu candidato à direcção do DN é o José Eduardo Moniz e para a Câmara de Lisboa Paula Teixeira da Cruz.
Deixo-vos, aqui, uma leitura alternativa para estes dias. Até segunda.

Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Quanto tempo vai levar...

... até o Sócrates ou o Cavaco fazerem um número com o rapaz de Espinho que ganhou um concurso mundial dos incubus, que vão agora usar o seu trabalho como próximo teledisco?

É que este tipo vai ter mais visibilidade que a YDreams...

Aqui está a animação flash com que Oliveira ganhou.
Contra 100 candidatos.

Câmara de Lisboa: de mal a pior

1. Até um cego consegue ver que a situação na Câmara Municipal de Lisboa se tornou insustentável. Carmona Rodrigues, como náufrago agarrado à bóia, persiste em manter-se no cargo. Faz mal. À cidade, aos munícipes, ao partido que o candidatou e a ele próprio. O que era um caso de polícia transformou-se num caso grave de política: Lisboa não merece uma câmara paralisada, endividada, desprestigiada e com o prestígio reduzido a zero.
2. Gabriela Seara e Fontão de Carvalho, os dois pilares da vereação de Carmona, foram constituídos arguidos por suspeitas de peculato. Gozam naturalmente da presunção de inocência, mas o processo que enfrentam fere de morte o executivo municipal. Ela teve a dignidade de se demitir, ele teve a falta de dignidade de se manter colado como lapa à vice-presidência social-democrata (depois de ter sido vereador das finanças na câmara socialista). Atitudes como a de Fontão, compreensivelmente, afastam ainda mais os portugueses da política. Desta política, pelo menos. E ainda bem.
3. O silêncio de Marques Mendes começa a ser ensurdecedor. Os salutares princípios enunciados pelo líder social-democrata para Oeiras e Gondomar não prevalecem na maior autarquia do País? Em cada dia que passa, acentua-se o fosso entre o PSD e Lisboa. Parafraseando Maria José Nogueira Pinto noutro contexto, até o Rato Mickey ganhará ao candidato social-democrata no próximo escrutínio.
4. Chegados a este ponto, torna-se incompreensível que a oposição não exija imediatamente eleições antecipadas. Os interesses de Lisboa não se compadecem com o cálculo político mesquinho e medíocre, tão característico dos socialistas na capital. O PS tem que abandonar a visão paroquial de Lisboa, onde os mesmos dirigentes partidários se eternizam há demasiado tempo, e avançar com uma figura com prestígio nacional que protagonize aqui um cenário de mudança. Sem alianças espúrias à esquerda, por mais que o PCP mendigue o tradicional prato de lentilhas: o pluralismo partidário é essencial na primeira câmara do País. Depois do interlúdio do aborto, é bom que José Sócrates volte a ocupar-se de política. A sério.

Momentos Kodak (39)

Soltem o grande palhaço que existe dentro de vocês! Desejo a todos um óptimo fim de semana.
(Sesimbra 2004)
Foto: Rodrigo Cabrita

Sexta-feira quente


Soraia Chaves. Figura nesta galeria das sexta-feiras com todo o mérito. Por ter posto o País inteiro a "ver" Eça de Queirós. E para que não digam que só temos olhos para o que se passa lá fora.

Com o sururu que para aí vai

Hoje o dia não me inspira mais do que isto.

"O FIM DO CARNAVAL LUSITANO", por Francisco José Viegas

Do Francisco José Viegas, um excelente texto (já antigo) sobre o Carnaval lusitano.

"O Carnaval português sempre me afligiu. Lembro-me dele quando ainda só era Entrudo e não dispúnhamos daquelas raparigas da Mealhada a dançar na rua, debaixo de chuva, abrigadas pelos seus simpáticos biquinis. Essa é a primeira imagem que me assalta: o frio, o desconsolo meteorológico, a desadequação climática. Isso e os seus desfiles, em carros alegóricos montados em cima de tractores. E dos fatos de má qualidade, de brilho barato, cintilante nos domingos de Fevereiro, escarlates. Tinha pena das raparigas. Também me penalizava pelos rapazes, da cidade ou da província, muito machões durante o ano, mas que no Carnaval se mascaravam de meretrizes ou de tias velhas. Mas, insisto, o pior era o frio de Fevereiro, os chuviscos a meio da tarde, o granizo nas ruas de Ovar, de Cantanhede ou Olhão. Um resto de misericórdia vinha do fundo da consciência pedir protecção para os desfiles.
Aos desfiles, propriamente ditos, vi-os sempre pela televisão e bastou-me: umas raparigas sem o sentido das proporções dançavam muito mal o samba, agitavam bandeirinhas, sorriam, enregeladas, com peças de tule cobrindo uns corpos muito brancos que ainda não tinham feito a dieta habitual antes da época balnear. O corpo das portuguesas, neste domínio, é um campo de sacrifícios: durante o ano alimenta-se bem e corajosamente; entre Abril e Maio começa a penar e a penitenciar-se, preparando-se para a exposição solar do Verão. É um mundo de desgraças. Só o Carnaval, com as suas peças de tule com penduricalhos de brilhantes falsos em cima, permite entrever as carnes esbranquiçadas que hão-de estar mais passadas no S. João. As figuras, dos «carros alegóricos», são o bombo da festa tradicional – políticos da televisão, caricaturas sofríveis, mal pintadas, ditos de gosto duvidoso, misturando a tradição popular da província com a piada do Parque Mayer. Tirando o dr. Alberto João Jardim, saltitando na Avenida Arriaga, no Funchal, os desfiles são pobres. Pobres e cheios de frio.
Depois, há umas actrizes de telenovela portuguesa e os seus companheiros de ofício, que vão também aperaltados no alto dos carros (que lembram, a milhas, os «trios eléctricos» de Salvador, eufóricos e encalorados): também aí é uma desilusão. Sob os tules, vêm mais panos para esconder a «beleza tradicional portuguesa». As actrizes de telenovela brasileira chegaram entretanto para animar um pouco a paisagem: sorriem muito, recebem o cheque, levantam os braços, cumprem a sua função.
Fico sempre espantado com as notícias das televisões, que falam dos «foliões» que aguardam a passagem dos desfiles: e as imagens dão conta de umas famílias apinhadas nos passeios, com os miúdos encavalitados vendo passar o cortejo de horrores. Isto, claro, sem falar da música permanente de «mamãe eu quero, eu quero mamar» que todas as discotecas do Algarve passam aos berros para que comboios de «foliões», organizados com a espontaneidade de uma missa em latim, se meneiem e transpirem adequadamente. Não sei. Não sei. Mesmo para Portugal, é muito horror junto. [JN]"
Texto do Francisco José Viegas no Aviz (Fev. 05, 2005)

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Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

Mais um para a caldeirada!

Rui Castro é a contratação da época para o 31 da Armada. As condições contratuais devem ser fabulosas, que o homem não brinca em serviço! Bem que lhe perguntei se tinha ajudas de custo, mas ele, “Moita”, caladinho, que o silêncio é de ouro!
Fico contente, e espero que não desinvista nos Incontinentes Verbais, blogue onde me habituei a encontrá-lo em boas companhias e que tem tudo para andar na 1ª Liga!

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Conversa de táxi


- O senhor desculpe se estou a incomodá-lo. Mas tem algum taxista na sua família?
- Não. Que eu saiba, não.
- Nem imagina a sorte que tem. É que não há ninguém tão desgraçado como um chofer de táxi.
- Como assim?
- Olhe, andamos doze horas por dia agarrados aqui ao volante. Quando largamos, temos as costas feitas num oito. Mal sentimos o corpo. Só nos apetece dormir e nada mais.
- E não descansam um pouco nessas 12 horas?
- Nada. Mal temos tempo para engolir uma bucha. Às vezes nem tempo temos para urinar. Os filhos crescem e nem damos por isso. A mulher desinteressa-se de nós e não reparamos. Muitos nem voltamos às nossas terras para matar saudades. E quando um dia voltamos já não conhecemos ninguém. Somos uns estranhos para o mundo, que não quer saber de nós.
- É chato...
- Chato mesmo. Olhe o que aconteceu com um colega meu: a mulher andava a pôr-lhe os palitos há uns anos e ele nem imaginava. Mal se viam um ao outro: era só andar na praça, andar na praça... Coitado: acabou por matá-la e matou-se ele também.
- Tem razão: é chato.
- Andamos todos podres, pode crer. Por dentro e por fora. O senhor nem imagina a sua sorte por não ter nenhum taxista na família. E desculpe lá se estou a incomodá-lo.

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Gostei de ler

1. Opinião? De Eduardo Pitta, no Da Literatura.
2. A nova esquerda. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
3. "Boas práticas". Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
4. Do regime. De Gabriel Silva, no Blasfémias.
5. Ditadores e ditaduras. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
6. O burro e a cenoura. De Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
7. Tudo como dantes, não só no quartel de Abrantes. De Luís Novaes Tito, no Tugir.
8. História de P. De João Pinto e Castro, no Blogoexisto.
9. Ritmo. De Sérgio Lavos, no Auto-Retrato.
10. 2.46h. De Coutinho Ribeiro, n' O Anónimo.
11. Norte. Do André Moura e Cunha, no In Absentia.
12. Os "comandos" deviam vir com GPS. Da Maria Isabel, na Miss Pearls.
13. Livros com cidades. De Leonor Barros, na Geração Rasca.

Memórias devoradas ao amanhecer

Vivi uns tempos em África. Sem fazenda no Quénia ou baile no Polana, pois quando cheguei África já era o que é hoje. Um lugar de guerras, de morte e doença. E lembrei-me disto por causa de 'Diamante de Sangue', como antes aconteceu quando vi "Hotel Ruanda" e o "Fiel Jardineiro". O lugar está em mim por muito que pareça frase feita. Porque é. África é assim mesmo.
Um imenso continente de solidão onde a vida não conhece disfarces e, por isso, a nossa sofisticação de europeus não dá a resposta para a miséria, a violência e a insanidade de milhares de seres humanos. Gente que nunca saberá o que é o direito a uma existência normal. Antes do conhecimento, virá a malária, a sida ou um tiro perdido numa luta de gangs no Soweto. E, se a tudo isto sobreviver, ficará escrava de uma sociedade armadilhada onde é mais fácil roubar que encontrar emprego.
Dramas repetidos que, conforme nos habituamos ao lugar, se vão diluindo na paisagem. Porque África, aquela que me ficou na alma, é também a insignificância do indíviduo. Todos os dias, apesar de todos os crimes, o sol enorme e vermelho por-se-á no fim da recta da auto-estrada, mesmo por detrás de um jacarandá em flor. Um pouco antes de, no céu, se formar um exército de nuvens negras prontas para desabar sobre as nossas cabeças, numa trovoada libertadora.
Terei saudades? Não. Em África as memórias são devoradas pelo amanhecer.

Imagem: fotograma de Hotel Ruanda

To choose or not to choose


No mundo real, quem escolhe é a mulher - escolhe o homem que lhe parece ser ideal. Até porque, no mundo real, se fossem os homens a escolher não escolheriam uma mulher, mas sim mais.
Helena Ayala Botto, Tristes Tópicos

Teles no lugar de Pinto

Os leitores escolheram, está escolhido: Reinaldo Teles foi considerado o mais provável próximo presidente do FC Porto pelos participantes do anterior inquérito do Corta-Fitas, com 46% das 190 opiniões aqui expressas. Em segundo lugar ficou aquele (confesso) que era o meu preferido: Miguel Sousa Tavares, com 26%. Seguiram-se António Lobo Xavier (15%) e Francisco José Viegas (12%). Curiosamente, o actual titular do cargo, Jorge Nuno Pinto da Costa, manteve-se em branco (sem sombra de azul): nenhum dos nossos leitores o considera digno de suceder a si próprio.
Porque será?
P. S. - E já aí está, o novo inquérito, na nossa barra lateral.

A resposta de Luís Paixão Martins

João, bom dia:
1. O lóbingue, como sabe, é a disciplina das RP's que tem por objectivo influenciar actos legislativos, governamentais e da administração pública.
2. Tenho sobre a eventual regulamentação do lóbingue em Portugal uma opinião consolidada, mas não a quero tornar pública neste preciso momento (embora lhe adiante que não alinho no grupo dos que olham com desvelo para o que se passa em Washington).
3. E não o quero fazer especificamente neste momento porque isso contribuiria para desfocar a minha iniciativa.
4. O que eu peço à Assembleia da República é algo de muito mais simples, de mais consensual.
5. Para os meus objectivos, enquanto responsável por uma empresa de marketing institucional e enquanto consultor de grupos de interesse, a formalização do acesso que peço seria bem-vinda.
6. Não quero destruir essa oportunidade com uma abordagem em que se confundam o acesso com a influência, o simples e consensual com o complexo e polémico.
7. Também na nossa actividade, há que encontrar o que é consensual e o que é fracturante.
8. Por isso é que não estamos de acordo. Não faz mal. Deixo-lhe o desafio de que seja o João a assumir a tarefa de lançar o debate do lóbingue em Portugal.
9. Apoiá-lo-ei, mas, por favor, deixe que este caminho que iniciei siga os seus passos.
Longe de mim coibir de alguma forma os passos de Luís Paixão Martins. Sei que todos aqueles que ele dá, e virá a dar, são no sentido de melhorar a qualidade do serviço prestado pela sua (nossa) actividade, bem como a do sector. Não posso no entanto, porque não está ao meu alcance e não tenho poder de facto para o fazer, responder ao seu desafio. Touché! portanto, na parte que me diz respeito.

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Complexo de César

Nunca percebi por que motivo os provedores de leitores, nas suas colunas dos jornais, falam de si próprios na terceira pessoa. "O provedor concluiu...", "o provedor considera..." Júlio César também falava assim. Mas esse, ao menos, atravessou o Rubicão.


Top 99 women 2007.




Através do Tomás Vasques cheguei aqui, ao Top 99 Women of 2007 do sugestivo portal masculino "AskMen.com".

Na categoria Top +, por ordem decrescente, estão estas miúdas maravilhosas:

1: Beyonce
6: Lindsay Lohan
2: Paris Hilton
7: Scarlett Johansson
3: Britney Spears
8: Jessica Alba
4: Anna Nicole Smith
9: Angelina Jolie
5: Pamela Anderson
10: Jessica Simpson

Grandes estrangeiras. Um voto difícil.

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Ou vários estádios de futebol

«Excedente da Segurança Social dava para pagar 17 toneladas de cocaína». Título meu, inspirado neste do Público de hoje: «Cocaína apreendida em 2006 no país dava para pagar meio aeroporto da OTA».

Ideal para o próximo referendo

«Dolce Vita Ovar terá arena multiusos». Título do OJE.

Outra vez o lobbying

Escrevi aqui ontem, depois de receber a carta que me foi enviada por Luís Paixão Martins, que ele pretendia da AR uma acreditação para a prática transparente de lobbying e cumprimentei-o por isso. Hoje, lidos os jornais, vejo que ele não reconhece essa como sendo a sua intenção. Se assim é, e fazendo fé nas suas palavras, tenho pena.
E tenho pena porque esta acção da LPM era uma oportunidade para, de uma vez por todas, abordar de forma clara um tema que em Portugal é tratado de uma forma anacrónica, desinformada e cheia de preconceitos pela maioria. Ainda hoje, São José Almeida escreve no Público um artigo - em tudo o resto inatacável - onde afirma que na carta «é visível a preocupação de Paixão Martins em não ser acusado de lobbying». Como se pendesse sobre a actividade uma qualquer suspeita criminosa.
Seja qual for a intenção de Luís Paixão Martins - e abro-lhe aqui no Corta-Fitas um espaço para que exponha os seus objectivos se o entender fazer - é o lobbying em Portugal o tema que, há anos, deveria ter sido definido e legislado. Se ainda não for desta, a LPM gerará quanto a mim mais confusão do que resultados. E caso a resposta à presença de consultores na AR seja positiva mas se fique por aí, provocará com isso um atraso ainda maior na aprovação do lobbying. Porque, como sabemos, dar um passo em Portugal é muitas vezes uma desculpa para não dar outro passo maior.

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Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

Just in case

se as coisas não correrem bem, se ele não apareceu, se não ofereceu nada, se nem sequer se lembrou, se teve uma reunião até às onze da noite (?), se argumenta que o Dia dos Namorados não passa de pretexto comercial, se ele é um anti-consumista primário, ou se por azar tem a sogra lá em casa...


Lenços dos Namorados

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Consequências da má moeda

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Aviso aos namorados

Hoje também é o dia da disfunção eréctil.

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Ora, nem mais

«Este referendo foi sempre pensado como forma de mascarar o desvio à direita do PS. Enquanto se desvia à direita nas políticas de Estado, o PS oferece esta causa bem esquerdista à sociedade, reconfirmando as suas credenciais de esquerda. Brilhante. Maquiavélico. Política, como deve ser». Henrique Raposo

Queiram servir-se...

Dias não são dias.
Espero que cheguem para todos.Já guardei o cartão.

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Portanto...

ON
Nestes últimos tempos, talvez porque tenha assistido a vários programas, mesas-redondas e debates sobre os temas mais diversos, quando ao conteúdo faltava seriedade e ponderação, confesso que comecei a interessar-me pela forma. Eu explico.
Ao fim de dois ou três programas, quando os intervenientes são interpelados, à falta de artes de oratória (às quais não são obrigados), à míngua de clareza e pensamento organizado, quase que lhes adivinho "as deixas". Não variam muito: do "muito rapidamente, deixe-me acrescentar duas pequenas notas" ao ""vai-me desculpar, eu não interrompi; deixe-me concluir" ou "quando me deixar concluir....", são quase sempre as expressões mais usadas. Geralmente não acrescentam nada porque ou já disseram tudo ou repetem o mesmo por outras palavras. Uma seca.
O pior é quando pedem "só um minuto". Tretas. Dá para ir beber água, desligar a sopa ou pôr a máquina a lavar. Também me calha adormecer, mas desconfio que isso demora mais que um minuto.
Porém, as minhas preferidas continuam a ser "permitam-me só mais dois ou três pontos que considero essenciais ao debate". Seguem-se meia dúzia de advérbios de modo, uso e abuso da função fática e, quando "admoestados" pela jornalista, ainda têm folego para "estou já a concluir". Ufa.
Já agora, se me permitem, e sem qualquer tipo de demagogia, gostaria de acrescentar que esta irritação surge quase sempre quando as criaturas não me agradam. Deve ser por isso que vejo tanta a gente no super zapping.
Aproveito a oportunidade que me concederam de me pronunciar e muito rapidamente, eu diria que, permitam-me realçar um ponto fundamental sem o qual o tema ficaria manifestamente incompleto, pois importa abordar o assunto com a seriedade que ele merece e apesar de ficar muito por dizer, com o devido respeito, para que haja transparência no meu comentário seria importante que as dúvidas fossem esclarecidas, repare....
OFF

Pois é, Isabel

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Momentos Kodak (38)

A imagem é na EB 205 de Benfica. Para os alunos, saciar a sede só mesmo neste bebedouro. Sorri e perguntei se era brincadeira. Disseram-me que não. Repeti a pergunta, repetiram a resposta! Se as crianças bebem dali, onde é que o cão e o gato, o cavalo e a égua ou o boi e a vaca beberão? Isso é que me deixa muito intrigado...
(Novembro 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

"O curioso iluminismo do professor Caritat"

«Fronteira Norte, Libertária

Queridos Justin, Marcos e Eliza

Acabam de ocorrer dois acontecimentos muito estranhos. Primeiro conheci um pássaro com quem tive uma longa conversa. Depois, vi umas pessoas que vivem em cima das árvores. Ao lerem isto vocês concluirão provavelmente que eu enloqueci, mas peço-lhes que continuem a ler porque ambos os acontecimentos me ensinaram algo que talvez lhes interesse.
Vamos primeiro ao pássaro. Era um mocho, o mocho de Minerva, e um mocho sensato, como são em geral todos os mochos. Sabia tudo sobre as minhas viagens e interpretou o significado das viagens que fiz até agora, citando a observação de Condorcet de que os ideais humanos estão interligados entre si à semelhança de uma cadeia indissolúvel. No entanto, emprestou a essa observação um sentido que nunca me tinha ocorrido. Sempre a interpretei como se exprimisse o que havia de excessivo, ou mesmo de perigoso, no optimismo do iluminismo: o sonho da perfeição, em que a verdade, a felicidade e a virtude, acabariam por convergir e deixaria de haver conflitos de valores, cessariam os dilemas morais, acabariam os confrontos entre os direitos, na haveria mais tragédias. O sonho de um mundo em que a igualdade política, o crescimento económico, uma organização eficiente e a justiça social são compatíveis entre si e com a liberdade individual universal; em que o universalismo já não colide com a particularidade, a solidariedade com a individualidade, as fidelidades públicas com as privadas. Um mundo em que a prossecução do ideal humano digno já não significa sacrificar os demais. Não é verdade que a busca dessa perfeição omniabrangente e omniconciliadora conduziu à ditadura da virtude, que matou o próprio Condorcet? Por quantas mortes e destruições não tem sido responsável desde então, e sobretudo neste século terrível? Não é verdade que o sonho se converteu num pesadelo?
E, no entanto, podemos interrogar-nos se essa esperança possui efectivamente esse poder fatal...ainda mais fatal do que as convicções sobrenaturais e atávicas contra as quais se insurgiu. Não será o fanatismo um dos traços característicos da raça humana, fanatismo esse que se apodera de todas as ideias que encontra no seu caminho, em busca das suas vítimas?
Contudo, o significado que o mocho deu à cadeia indissolúvel foi completamente diferente: traduz-se na simples ideia de que, sempre que se persegue um ideal, é desastroso perder de vista todos os outros. Fazer isso é fanatismo. Todos os países que visitei até agora são governados por fanáticos com uma visão estreita, fanáticos obcecados por uma concepção dominadora e destruidora daquilo que dá valor à vida. Todos eles sabem por que razão o melhor dos mundos tem de ser o próprio mundo. Tanto eles como os seus concidadãos são vítimas da mesma ilusão. Mesmo os poucos dissidentes que conheci pareciam ter alguma dificuldade em pensar pelas suas cabeças e verem com clareza. (...)»
Com toda a amizade,
Nicholas Caritat

(Steven Lukes, 1995)

Para as cólicas dos arquitectos


É arquitecto? Labuta e escorre suor, só para conseguir um projecto num lugarejo perdido qualquer, ou vive atrofiado num atelier camarário à mercê de pressões inomináveis e almoçaradas de cozido regadas com Monte Velho?
Então clique aqui e veja que rica vida teria se emigrasse para a Suécia (necessário converter as Coroas Suecas para Euros, mas a página tem uma aplicaçãozinha simpática que trata disso).

Um País, dois Salazares

Salazar foi votado o Pior Português de Sempre. Salazar lidera as votações para Melhor Português de Sempre. Há dois países dentro deste minifúndio, ou sofremos todos de doença bipolar?

Lamentável cegueira

Considero que a crescente perda de influência da Igreja Católica na formação das consciências é decisivamente um drama civilizacional. Custa-me a entender como alguns desastrados protagonistas da nossa história, de má-fé, se possam congratular com isso, desprezando o progressivo esvaziamento de valores e o amargo vazio espiritual do “homem moderno”, das nossas desenraizadas gentes. Esta atitude só provém de quem por conveniente cegueira não lida com as gentes reais, não "desce" aos bairros miseráveis ou à cinzenta periferia da exclusão.
A mensagem do cristianismo é intrinsecamente boa, por mais mal interpretada e adulterada que possa ser. Desprezar ou ignorar a obra social e a intervenção espiritual da Igreja Católica na nossa sociedade é um acto de completa estupidez.
Se algum dia, por absurdo, numa patética batalha final, toda a herança de Cristo for destruída, espero que estes poderosos senhores tenham qualquer coisa para lá pôr, em vez do desespero.

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São rosas, senhoras


Sou um homem sem grande experiência amorosa, embora me sinta um Casanova ao lado do Pedro Mexia (mas também, quem é que não se sente?) e já tenha participado - ao lado desse permanente apaixonado que é o poeta e editor Casimiro de Brito - num programa da Cristina Caras Lindas sobre o amor e a paixão (VHS disponível para os interessados). Tive, e espero não me esquecer de nenhuma porque não há crime mais grave do que esse, 17 mulheres na minha vida. Com umas o namoro durou o tempo de uma viagem na montanha russa, com outras voltas e voltas no carrossel. Com uma delas vivi 13 anos e outra vida. Feitas as contas e descontando a actual, dividi com 15 mulheres 13 anos da minha existência o que demonstra alguma, digamos, inconstância e também que nunca soube o que é viver sózinho.
Hoje, não posso deixar de oferecer aqui, a cada uma delas, estas rosas amarelas. Porque com todas (hmmm, com uma delas talvez não) permanece, ainda hoje, um laço de amizade, de ternura e de partilha. Feliz dia de São Valentim. Ide e reproduzi-vos.
Para ler ouvindo esta banda sonora. Já tenho bilhetes para dia 23. E vai haver beijinhos.

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Responda sim, senhor Jaime Gama

A LPM, criada por Luís Paixão Martins, é uma das mais reputadas e respeitadas agências de comunicação no nosso mercado. Até hoje, a actuação de Paixão Martins tem sido reconhecida, pelos clientes, pelos jornalistas e pelos seus pares, como de extremo profissionalismo, fugindo aos excessos da ribalta e guiando-se sempre pelos mais estritos princípios deontológicos da profissão.
A LPM enviou, há duas semanas, uma carta solicitando a Jaime Gama a acreditação profissional para o acompanhamento dos trabalhos parlamentares, e o direito de se dirigirem aos deputados. Ou seja, o direito a exercer uma actividade de lobbying de forma transparente. Porque existe, ao contrário do que pensa muita gente que nem a Bruxelas foi quanto mais a Washington, um lobbying transparente e, diria mesmo, necessário para garantir um processo informado de decisão por parte dos nossos representantes partidários.
Será um sinal de maturidade democrática se a Assembleia responder positivamente a este pedido e definir, já agora, os critérios que serão depois aplicados para aprovação de pedidos idênticos.

P.S. Falo, caso raro, a sério e em causa própria, tendo eu uma actividade concorrente daquela que é exercida pelo Luís Paixão Martins. Para ele, o meu abraço e reconhecimento pela iniciativa que tomou.

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O estilo Sócrates, o estilo Vital

Na noite do referendo, politicamente certeiro, José Sócrates fez questão de acentuar que a vitória do "sim" não constituía a derrota de ninguém. Nessa noite, estive no Hotel Altis, acompanhando como jornalista a celebração conjunta das cinco organizações que defendiam a despenalização do aborto: houve naturais manifestações de júbilo, houve compreensíveis explosões de alegria pela vitória alcançada nas urnas, mas sempre com dignidade, sem o mínimo indício de que alguém aproveitaria aquele momento para achincalhar quem se encontrava no campo oposto. No fundo, foi uma demonstração inequívoca de que já atingimos um certo patamar de maturidade democrática. Por tudo isto, parece-me desajustada esta posição de Vital Moreira, dono de uma arrogância sem limites. Com o mesmo tom iluminado que em 1975 lhe servia para chamar "dementes", em pleno hemiciclo, a quem não pensava como ele na Assembleia Constituinte, quando estava na primeira linha da defesa de uma Constituição "verdadeiramente socialista" (de inspiração soviética) para Portugal.

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Momentos Kodak (37)

Ministros Augusto Santos Silva e Correia de Campos no estabelecimento prisional de Caxias. Encurralados mas ainda assim muito sorridentes. Estariam nervosos?
(Setembro 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

Ainda o novo “Público”

Trazendo à tona deste blogue uma pequena discussão com um leitor nas caixas de comentários destas postas do João Villalobos e do Pedro Correia:

Caro Visconde, não se zangue, eu explico-me: parece-me que tendo em conta as exigências do público-alvo de um jornal diário de referência, é um arriscado despropósito proceder-se a uma mudança tão radical do seu cabeçalho, logótipo, ou o que quer que se lhe queira chamar. Parece-me que o cabeçalho, carimbo - o que seja - de um jornal (por uma vez, nesta coisita, estou de acordo com o Daniel Oliveira) não se trata de uma mera "marca". Este é um precioso símbolo que com o passar anos, tende a adquirir reconhecimento e transmitir uma ideia de credibilidade, conceito muito caro e normalmente relacionado com a longevidade. Justificar-se-ão sempre ajustes ou pequenas actualizações estéticas, mas a idade desse “carimbo” tende a valorizá-lo, tornando-o um autêntico património. Espero sinceramente estar enganado, mas esta mudança parece-me arriscada e um passo na direcção errada. Quanto à restante revolução operada no diário da Sonae, e como referi num comentário a um texto do JV em baixo, gostei em geral do grafismo mais informal e colorido.
Mas se quer saber, caro Visconde, o que me fará alguma vez preterir um jornal será a sua desonestidade no tratamento editorial dos factos, seja por causa da submissão a poderes económicos ou agendas politicas. Quem o diz é um dos poucos portugueses que ainda lê e está disposto a pagar jornais diários em papel.

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Aborto: novos consensos sociais

A campanha que agora terminou teve vários aspectos positivos. Foi desta vez notória a subalternização dos partidos políticos e a emergência de grupos de cidadãos com genuína representatividade social. Registou-se uma fortíssima participação de jovens, de um lado e de outro, desmentindo os absurdos lugares-comuns que por aí se ouvem a propósito do alegado desinteresse das novíssimas gerações pelo destino do País. Confirmou-se o salutar princípio da separação entre os domínios de César e de Deus, que é um dos pilares da civilização cristã, deixando claro que o debate público do aborto não era de natureza religiosa. E firmaram-se novos consensos nacionais numa matéria tão propícia a extremismos.
Consensos pelo menos em quatro domínios:

Aborto clandestino. Tornou-se evidente que a sociedade portuguesa não pode continuar a contemporizar com a propagação do aborto clandestino, um drama social somado ao drama moral.
Prisões. Consensual foi igualmente a necessidade de manter as mulheres que praticam aborto, num prazo razoável de gravidez, fora da alçada do Código Penal. É certo que nenhuma delas está presa. É também certo que ninguém pretende prendê-las.
Vida humana. No referendo de 1998 não faltou quem pusesse em causa a existência de vida humana às dez semanas de gestação. Face aos últimos desenvolvimentos da medicina, este cepticismo é hoje ainda mais destituído de sentido: ninguém ignora que existe ali um ser vivo, também susceptível de possuir direitos.
Médicos. "Guardarei respeito absoluto pela vida desde o seu começo", determina o código ético dos médicos. Muitos deles recusar-se-ão a praticar abortos de acordo com o novo quadro legal. Ninguém lhes nega o direito à objecção de consciência: eis outro consenso social que emerge deste referendo.

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Um jornal não é um telemóvel

Prodígio da técnica

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O FJV e o 31 da Armada (ou terá sido a Atlântico?) já tinham falado nisto. Mas, entretanto, pus-me a pensar no assunto e cheguei à conclusão de que, quando estiver disponível, a técnica deve ser aplicada aos políticos antes de eleições. Em especial aos nossos.
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Um blogue plural

Tenho gostado de ler as perspectivas aqui deixadas por vários colegas de blogue a propósito do referendo ao aborto. Refiro-me ao que escreveram o Francisco, o Luís, a Isabel, o João, o outro João, a Inês, a Marta e o Nuno. Concordo mais com uns do que com outros, mas o essencial é isto: o Corta-Fitas é um blogue plural, sem encaixar em rótulos previsíveis, com opiniões assinadas por quem não receia exprimir o que pensa. Foi para isto que o fundámos, é para isto também que o mantemos vivo e cada vez mais dinâmico. Permitam-me assinalar o facto: este é para mim um motivo de natural orgulho.

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Rato de laboratório

Ainda a propósito do resultado deste referendo, Portugal continua bem posicionado para se tornar o grande laboratório da ciência política actual, com o conceito de minoria absoluta. A tese já tem os seus acérrimos defensores... Os mesmos que...

Puro engano


O 31 da Armada pergunta se a Marta Rebelo não será a nossa Ségolène Royal? A piadinha estava naquelas barras abaixo dos posts, que servem para fazer comentários - agora o que lá está é "os conservadores multiplicam-se como coelhos". Meus caros (mesmo achando que esta piadinha só pode vir do Rodrigo), a Marta é muito melhor do que a Ségolène. É bonita (e muito mais nova), inteligente e especialista em Direito Fiscal. Duvido que Ségolène seja especialista em coisa alguma. Mais, a Marta é casada, mas não com o líder do partido (como Ségolène com François Hollande), portanto nem precisa disso para se impor. A única coisa que têm em comum é mesmo serem ambas socialistas...

P.S. - A MR é minha amiga, tal como alguns de vós do 31A. Já a Ségolène não me é nada.

10 coisas que descobri com o referendo

1. Cavaco, quando quer, consegue ser mesmo muito irritante.
2. Votar, para alguns, é um dever cínico.
3. As clínicas de aborto espanholas têm nomes dignos de um condomínio fechado em Barcarena.
4. É possível repetir o tema do Prós & Contras.
5. O professor Marcelo não é infalível e muita gente ficou-lhe com um pó desgraçado, ah isso ficou.
6. As miúdas do Sim são mais giras, e arrependo-me de não ter estado infiltrado no Altis.
7. Portugal entrou no Século XXI com 6 anos de atraso.
8. Os homens votaram mais no Sim do que as mulheres, e isto há-de querer dizer que somos cada vez mais bananas.
9. A rádio descobriu o maná dos bloggers à pala, mas a televisão ainda não.
10. Para a próxima tiro férias e vou para a Capadócia.

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Ok, pessoal!

Toca a acordar!

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O efeito borboleta

Até na China as mulheres recuperaram a voz.

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Venha o próximo


«E elas? Para quando um referendo que extermine a longa noite obscurantista em que vivem, clandestinas? Não terão também direito a viver no Século XXI? A frequentar às claras estabelecimentos hoteleiros legalmente autorizados?»

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O dia seguinte

As respostas balbuciantes do Governo, jamais descendo ao concreto, nas horas que se seguiram ao apuramento dos resultados do referendo são bem indiciadoras de que o problema do aborto está muito longe de se resolver com uma alteração de uma alínea do Código Penal. O país que agora consagrou a interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas enquanto "direito" da mulher é o mesmo que se prepara para encerrar quinze urgências clínicas em sedes de concelhos tão diversas como Estarreja, Fafe, Vila do Conde, Cantanhede, Régua, Peniche, Vendas Novas e Macedo de Cavaleiros, como o ministro da Saúde - com a sua habitual subtileza de elefante em loja de porcelanas - acaba de revelar. Num certo sentido, é a partir de agora que tudo começa. Que clínicas serão licenciadas e com que critérios? Que verbas do Orçamento de Estado estarão à disposição das utentes? Qual o enquadramento regulamentar dos médicos que pretendam exercer a objecção de consciência? Um mundo de interrogações, tanto mais que a lei ainda em vigor nunca chegou a ser devidamente aplicada por falta de regulamentação. Se alguém pensava que bastava depositar um boletim de voto numa urna para pôr fim à chaga do aborto clandestino, desengane-se. Desde já.

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Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Vocês não têm nada a ver com isso...

Disse a maioria dos portugueses ao Sócrates, ao Marcelo, aos Mantas, aos Oliveiras, quando estes quiseram saber o que pensavam sobre o aborto.

É este o nível do desprezo...

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Assim de momento, é o que ocorre...

Para inaugurar a transição do Corta-Fitas para o novo blogger (é uma justificação tão boa como outra qualquer), deixo aqui um teste à vossa perícia na condução, ou melhor, um teste de estacionamento.
É fácil (oops). Pelo menos é o vem no mail que me enviaram com esta bonecada: usem a barra de espaços para travar e as 4 setas do teclado para mover o carro.

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O referendo, o aborto e a abstenção II

Não podia estar mais de acordo contigo, Marta. Partilho inteiramente da inteligente opinião por ti manifestada no post anterior. Também sei que o "sim" está longe de resolver todos os problemas, que são muitos e, alguns, muito graves. Alguns provocados pelo desespero, como os bebés enjeitados. Mas servirá o desespero de justificação para tudo? Não...
Mas também espero, como tu, que o dia de ontem sirva, pelo menos, como primeiro avanço para se acabar com algumas histórias sórdidas que se vivem na clandestinidade.
Por isso, reitero, que, ontem, as desigualdades sociais deram um passo de gigante à retaguarda e que a democracia deu um passo em frente, ou um passito, se quiseres.
Tenho todo o respeito pelas dúvidas éticas e convicções morais que a prática da IVG levanta a muito boa gente. E não é que não entenda algumas dessas dúvidas ou dessas convicções. Mas o que o meu mais íntimo ser me diz é que é preciso acabar com as tais histórias sórdidas. Não esquecendo todos os governos deste país, este e os que vierem, que é urgente investir a valer no planeamento familiar. E apoiar as mulheres que decidem levar para a frente uma gravidez, que espero que seja a maioria (embora seja defensora do direito de escolha), dando a estas, por exemplo, um subsídio igual à verba que se gastará com uma IVG. Concordo inteiramente com essa proposta.
A melhor coisa que já me aconteceu na vida foi a maternidade. Mas não posso querer impor esta minha opção, esta minha escolha, a todas. E fechar os olhos a uma realidade que, infelizmente para as mulheres que sofrem, existe. Por isso votei "sim".

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Postais blogosféricos

1. Gonio. Um blogue que acaba de entrar no segundo ano, prometendo continuar a fazer jus à frase que lhe serve de pórtico: "As pessoas entram por acaso nas nossas vidas, mas não é por acaso que elas permanecem." Gosto muito desta frase. Um abraço de parabéns ao Orlando Nascimento.
2. César e Dama. Há dois anos, nasceu este blogue. Convicto de que "há coisas que gostamos de fazer mesmo que não as façamos particularmente bem". Um abraço também ao Carlos Carvalho, que gosta mais de ser opinion giver do que opinion maker e acredita que "a dedicação e o prazer são independentes do talento".
3. O Misantropo Enjaulado. Um blogue que apreciava, pela originalidade do seu tom e da sua escrita, chegou ao fim. É essa, pelo menos, a intenção expressa do Paulo Cunha Porto. Faço votos para que reconsidere.
4. Continuamos a receber parabéns de gente amiga pelo aniversário do Corta-Fitas. Lista actualizada aqui.

O referendo, o aborto e a abstenção

Não posso deixar de dizer que foi com alívio que encarei os resultados do referendo. Ao contrário da Isabel, votei 'sim', embora não tenha a certeza da Inês sobre o passo em frente na democracia e nas mentalidades. Em Portugal, quando as luzes mudam de direcção, a realidade retoma o seu lugar no medo, no silêncio e na ignorância. Espero que não. Espero que este seja o primeiro avanço no caminho para o fim das histórias sórdidas e dos relatos aterradores do aborto clandestino.
Não tenho por hábito ver o mundo e as pessoas a 'preto e branco'. E sei que a vitória do 'sim' não resolve tudo. Não resolve as angústias, nem os dilemas das mulheres. Não apaga a dor, não evita leviandades ou os bebés enjeitados, deixados no lixo. A falta de amor não se resolveu ontem. No entanto, apesar de saber tudo isto, votei 'sim'. Por saber que até os fortes fraquejam, até os bons cometem erros. E por ter a impressão que me faltam as convicções e a solidez de espírito para estar com o 'não' nas suas certezas sobre a vida e a morte.
O referendo, contudo, não foi só uma questão de 'sim' e 'não' à despenalização do aborto até às dez semanas. Foi um teste à participação na qual chumbaram os cidadãos. Já li e reli opiniões. Ponderei as teorias sobre o significado implícito da abstenção e a ideia que, na verdade, os eleitores não quiseram que esta consulta fosse vinculativa. Devo dizer que me espantaram. A minha versão dos acontecimentos é mais terrena e não entra em segundos sentidos, nem sequer culpa os políticos, o Governo e o primeiro-ministro. 56 por cento não votou porque não quis, porque não se interessa. E isso é um sinal de quem abdica dos seus direitos.
Quase juro (a expressão é forte, eu sei) que entre os que ficaram em casa porque estava chuva estão muitos daqueles fala-baratos que fazem e acontecem e acusam 'eles' - os políticos - de tudo. De roubar, de mentir. Os mesmos que, quando convocados, deixam que os outros decidam, que 'eles' decidam.

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Valeu a pena

Hoje ao contrário de muitos, estou de mal com o meu país. Ainda tive a veleidade de acreditar que Portugal era diferente, mais humanista, capaz de se distinguir do bárbaro pragmatismo anglo-saxónico dominante. Mas esta tristeza é apenas um estado d’alma passageiro, já que não consigo deixar de amar profundamente esta espelunca.
Mas agora, o assunto é outro: antes de fechar o tema do aborto, e continuar nas causas da vida, quero deixar aqui um elogio público ao Rui Castro, o incontinente das boas causas, o verdadeiro culpado do Blogue do Não que hoje fecha as suas portas. Este projecto, que alcançou imprevisível notoriedade, foi para mim uma experiência inesquecível. À parte os inevitáveis excessos retóricos, fruto do calor da batalha verbal, estou certo que o Blogue do Não muito contribuiu para um construtivo debate, e foi eficiente na campanha do NÃO. Foram mais de quatro meses, mais de mil posts, vários debates, 80.000 visitas e um livro editado. Foi obra. Para mim, valeram bem a pena as energias dispendidas, as grandes emoções e esses tempos de esperança. Mas principalmente ficou o privilégio de reencontrar, conhecer ou simplesmente ombrear com gente de alma GRANDE. E, como disse o Jorge Lima: Até amanhã camaradas:
André Azevedo Alves; Assunção Cristas; Claudio Tellez; Diogo Almeida, Eduardo Nogueira Pinto, Francisco Mendes da Silva; Helena Ayala Botto; Jacinto Moniz Bettencourt; Joana Lopes Moreira; João Gonçalves; João Noronha; João Vacas; Jorge Ferreira; Jorge Lima; Luís Aguiar Santos; Mafalda Miranda Barbosa; Manuel Arriaga e Cunha; Maria Figueiredo Almeida; Marta Rebelo; Miguel Castelo Branco; Miguel Pimentel; Nuno Pombo; Paulo Marcelo; Pedro Geada; Pedro Picoito; Sara Castro; Tiago Cavaco; Vasco Lobo Xavier - A luta continua!

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Sobretudo as senhoras

Já tinha jurado a mim próprio não ouvir aqueles programas matinais da rádio e da televisão em que o "povo" vomita o que quer em antena. Abri hoje uma excepção, durante alguns minutos. Era na SIC Notícias, falava-se do referendo e uma senhora dizia isto: "A maior parte das pessoas idosas que votaram 'não', sobretudo as senhoras, tenho a certeza absoluta que fizeram muitos abortos."
Fiquei-me por aqui. Foi quanto bastou para avaliar o nível intelectual da coisa.

Há quem goste de mulheres e só lhe fique bem




Tudo isto começou na poeira dos tempos, no que à minha participação nesta casa diz respeito. Esse dia em que irreflectidamente decidi partilhar, com os nossos e nossas anonymous, o meu bom gosto por obras de arte cinéfilas que a cultura mainstream renegou para espaços inexistentes nas salas de projecção do país.
Foi assim com as já recorrentes «vampiras lésbicas», que desde então me perseguem na caixa de comentários. E é assim com esta pérola do grande Russ Meyer, tão enorme como os alvos da sua conhecida fixação. Imperdível, como dizia o crítico (Neste momento, nas colunas, a banda sonora da imagem acima).

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Até que enfim

Ontem, as desigualdades sociais em Portugal deram um passo de gigante, à retaguarda.
Ontem, a democracia deu mais um passo em frente.

Blogues em revista

Bloguítica: "Como é possível que a abstenção tenha sido, uma vez mais, tão elevada? Como é possível que os portugueses se demitam, desta maneira, de votar em referendo?" (Paulo Gorjão)
A Arte da Fuga: "Em democracia liberal não votar tem de ser relevante. Quem não foi votar, de certa maneira votou para que o referendo não fosse vinculativo." (António Costa Amaral)
Kontratempos: "Num país habituado à teoria e à prática de conformismos e monolitismos ideológicos, foi notável poder estar em campanha com gente tão diversa, com tantas experiências, percursos e filiações. Viveu-se uma unidade genuína, sem quaisquer cálculos partidários." (Tiago Barbosa Ribeiro)
Abrupto: "A proposta de 'crime sem pena' prejudicou o 'não'. Porque acentua o 'crime' no acto do aborto, e acentua-o ainda mais porque o trata como acto subjectivo, de culpa, da mulher." (José Pacheco Pereira)
Portugal dos Pequeninos: "Marcelo Rebelo de Sousa teve uma péssima prestação durante toda a campanha, ora aparecendo como 'comentador', ora como 'partidário', ora como nada. Mais valia ter ficado pela última." (João Gonçalves)
Hoje Há Conquilhas: "Grande derrota da dupla António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa." (Tomás Vasques)
Tristes Tópicos: "Rescaldo - Vencedor: sim; Derrotado: não; Idiota inútil: assim não." (Helena Ayala Botto)
Mar Salgado: "E, de um ano para o outro, este povo, como que por milagre, deixou de ser 'ignaro' e 'atrasado'. Que ninguém se iluda: os senõritos y senõritas satisfechos não aprenderam nada." (Filipe Nunes Vicente)
Atlântico: "Lamento, mas o 'sim' não ganhou. O 'não' também não perdeu. Foi o parlamento, graças a deus, que venceu. Foi o radicalismo da democracia directa que perdeu." (Henrique Raposo)
O Amigo do Povo: "Se os contentinhos da esquerda do PS, do PCP e do BE pensam que a vitória do 'sim' lhe faz politicamente bem, estão redondamente enganados. Ser-lhes-á agora, e mais do que nunca, muito difícil fazer oposição a este Governo ou influenciar a sua governação em questões substanciais." (Fernando Martins)
Tomar Partido: "Depois do aborto, Sócrates continua em maré alta. Durante os próximos dias o tema da agenda vai ser o sismo. O Governo continua a poder dormir descansado, até porque com Marques Mendes na liderança do PSD, até dá para ressonar." (Jorge Ferreira)
Bicho Carpinteiro: "Verifico que muita gente do 'não', assim como do 'sim', se está a agarrar às abas de José Sócrates. Poucos olham para Cavaco Silva que nem à participação no voto apelou." (José Medeiros Ferreira)
Astro que Flameja: "O facto mais insólito do dia não foi ver Jorge Sampaio a presidir a uma mesa de voto mas sim a ser entrevistado pela Al Jazeera." (Marta Romão)

Isto não é uma tertúlia literária

Tenho que reler o «Por Quem os Sinos Dobram». A terra tremeu e nem dei por isso.

Resposta a dois comentários

Por razões técnicas, estive impossibilitado de participar neste blogue durante alguns dias e, neste momento, não consigo colocar comentários. Ontem, escrevi um post sobre uma consequência pouco mencionada da baixa participação no referendo sobre o aborto, relacionada com a prometida consulta europeia e recebi dois pertinentes comentários aos quais não posso responder em local próprio. Justifica-se um post.
Escrevem dois leitores que se existe referendo que TEM de ser feito é o europeu, pois envolve soberania nacional.
Em teoria, esta opinião é esmagadora. Na prática, as coisas são um pouco mais complexas. Avaliando pela experiência de três referendos sobre temas que diziam muito às pessoas, a participação dos eleitores foi e será baixa. A questão europeia não é mobilizadora, pelo que o referendo sobre o tratado será não vinculativo. Nem é preciso estarmos a elaborar sobre este ponto.
Sabemos o que isto significou na Holanda. A campanha foi dedicada à Constituição e os eleitores holandeses não fizeram como os franceses, que votaram pelo canalizador polaco ou pela globalização. Em resumo: a resposta vinculativa em França pode ser mudada com um novo presidente, a não vinculativa holandesa é de betão.
Referendar o tratado europeu implica uma campanha sobre um tema muito abstracto, de grande complexidade, em que terão vantagem argumentos populistas e simplificadores. Se for tão má como a campanha a que assistimos, ninguém vai discutir o essencial e serão agitados numerosos papões inexistentes.
Para mais, o resultado será não vinculativo. Se o "não" ao tratado vencer (hipótese bem plausível) vamos esperar oito anos para fazer novo referendo até acertarmos na resposta?

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E eu sem licença de porte de arma


«Abriu a caça ao Ministro da Saúde».
André Macedo no Diário Económico.

Foi bonita a festa, pá!

Ah, pois foi. Mas o País Real, para os felizardos que ainda não o conheçam, está todinho aqui nesta notícia. Desfrutem.

Corta-Fitas na nova versão do Blogger

A transição do Corta-Fitas (finalmente) para o novo blogger deixou o nosso menu lateral sem acentos e cedilhas. Vamos proceder à sua correcção de imediato.
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PS. Já está!

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E a aniversariante E.

Lido este artigo verifico que, depois de semanas a alardear ambos os nomes da criancinha disputada pelos pais adoptivos e biológico (o de baptismo e o outro que lhe foi atribuído pela família de adopção), esta passou a ser simplesmente E. Mais vale tarde do que nunca mas, que foi bastante tarde, lá isso foi.

Apito guardado


O Sim ganhou. Daniel de Oliveira justifica a ausência de festa rija, nesse sambódromo alfacinha que é o Marquês de Pombal, com a seguinte resposta a Kathleen Gomes: «Isto não é propriamente uma coisa de apitar...». Não sei para que ocasião Daniel reserva os apitos, mas imagino que não seja para a eleição do maior português de sempre.


A realidade agora a cores

Parabéns ao Público pelo seu novo projecto e os meus votos de que este novo modelo lhes permita alcançar o mesmo que desejo para toda a nossa imprensa: O aumento do seu número de leitores e da qualidade da informação escrita em Portugal.
P:S. E não julguem que a contratação do meu irmão como editor do caderno de Economia é a causa desta bajulação hoje. Quando for preciso, dou-vos na cabeça à mesma.

Notas eleitorais


1. José Sócrates é o grande triunfador do referendo. Uniu o PS nesta campanha, ao contrário do que sucedera com António Guterres em 1998, impôs a consulta popular às restantes forças de esquerda e dividiu a direita. Ninguém pode acusá-lo de falta de coragem política: disse sempre o que queria e para onde ia. Honrou o compromisso estabelecido com o eleitorado de só voltar a legislar sobre o aborto após novo referendo e elegeu para mote da campanha o “sim responsável”, acentuando a imagem de moderação que recolocou o seu partido no eixo central da política portuguesa. Radicalismos? Nem pensar. É um Sócrates mais equilibrado, mais “europeu”, que emerge deste referendo. De caminho, aparenta resolver um problema – o do aborto – que permanecia há décadas sem solução. “Os portugueses querem que este tema deixe de ser um foco de conflito e de disputa política”, sublinhou na noite eleitoral. Palavras que podiam ser proferidas por qualquer cidadão deste país.

2. O que se passa com Marques Mendes? De erro político em erro político, o presidente do PSD vai-se tornando uma figura cada vez mais irrelevante. No caso do aborto, começou por reiterar a liberdade de voto, tradicional entre os sociais-democratas desde o tempo de Sá Carneiro. Salvaguardou a sua posição pessoal (votou “não"), mas fê-lo num palco institucional, falando na sede nacional do partido. Logo a seguir viu quase um terço da sua bancada parlamentar transferir-se para o campo do “sim” e desde então pareceu agir empurrado por terceiros – de Marcelo Rebelo de Sousa, que condicionou toda a campanha laranja, a Manuela Ferreira Leite. Permitindo por um lado que os tempos de antena do PSD se colassem ao “não”, por outro lado aproveitou a recta final da campanha para ensaiar autênticas piruetas verbais, em que quase aparecia como o primeiro dos defensores da despenalização das mulheres. Um “sim” que votava “não”: com isto só baralhou ainda mais o já confuso eleitorado social-democrata. Por contraste, Sócrates proporcionava aos portugueses uma imagem de estadista...

3. O instituto do referendo pode não estar já morto. Mas ficou moribundo com a machadada quase fatal que o eleitorado ontem lhe aplicou. Se até um assunto como o aborto - que durante anos polarizou a sociedade portuguesa - não consegue atrair sequer metade dos eleitores às urnas, que expectativa restará quando se referendar qualquer outro tema? A propósito disto, muito justamente, interrogava-se aqui o Luís Naves em termos que subscrevo. Politicamente válido, como todos os partidos ontem reconheceram, mas inválido nos termos definidos pela Constituição da República, este segundo referendo ao aborto comprova que os portugueses, naturalmente satisfeitos com os mecanismos da democracia representativa, não se sentem atraídos pela democracia directa. Há que respeitar a vontade popular também neste campo. E deixar o referendo em pousio. O que significa isto? Para já, que a regionalização (que só pode avançar por via referendária) fica adiada sine die, o que constitui uma excelente notícia. Teremos sempre de aguardar uma revisão da nossa lei fundamental que altere a moldura constitucional do referendo - a começar pela absurda (e incumprida) regra que exige maioria de votantes para validar a consulta. A avaliar pelos nossos hábitos políticos, é tarefa para demorar anos. Até lá, o referendo bem pode ficar guardado numa qualquer gaveta própria para arquivar inutilidades.

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O que aí vem

Caro Paulo Gorjão, ao contrário do que você pensa, afinal temos alguns pontos convergentes nas nossas análises sobre o dia seguinte ao referendo. Embora você ache que não há grandes consequências para os partidos, há um ponto em que estamos de acordo. Leia-se o seu post intitulado Dia 12: "assumindo que fica resolvida amanhã a questão da despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez até às 10 semanas, a agenda da 'mudança e da modernidade' saltará de imediato para outro tema. A próxima causa fracturante é óbvia - o casamento de pessoas do mesmo sexo. (Lembra-se do caso Teresa e Helena?) Quem irá assumir as despesas desta batalha? Parte do BE e da JS, seguramente. José Sócrates, porém, suponho que já tem 'mudança e modernidade' que lhe chegue para uma legislatura".

Repare então no que eu disse uns dias antes: Em relação a Sócrates, concordará comigo: o primeiro-ministro irá sair reforçado. Foi ele que impôs o referendo e é ele, ao contrário do que aconteceu no tempo de Guterres, que poderá trazer mais uma vitória para o PS. Sócrates poderá reclamar estar a laicizar a sociedade portuguesa e avançar com novas propostas "estruturantes", à semelhança do que se passa em Espanha. Isto da segunda vez. Da primeira foi assim: "Com a aprovação da alteração à lei em referendo, o País fica mais laico por obra e graça de um senhor chamado José Sócrates. A seguir, quase de certeza na próxima legislatura, o primeiro-ministro irá anunciar outras revoluções 'estruturantes'. Teme-se o pior".

Resultado: podemos não concordar em relação ao que se irá passar no PSD e no CDS/PP, mas já em relação a Sócrates, o PG acha que ele não sai reforçado, mas está, tal como eu, à espera do que aí vem na próxima legislatura, no pós-2009. E estamos mesmo a ver o que é... Casamentos entre homossexuais, adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo, eutanásia (como já avisou hoje o professor Marcelo), entre outras questões "fracturantes". A fractura, aliás, já está exposta.

O Diplomata


Nasceu O Diplomata - Opinião e Análise de Assuntos Políticos e Relações Internacionais -, um novo blogue que merece ser acompanhado de perto. As credenciais foram apresentadas esta semana e já há muito para ler. Atenção especial aos links na parte lateral, alguns extremamente interessantes.

Domingo, Fevereiro 11, 2007

A luta continua

Habituado a derrotas eleitorais, esta pesa-me muito mais, e apesar de sempre ter sido previsível, sinto-me deveras desolado. Pelas razões que a Isabel tão bem expôs no seu texto já aqui em baixo.
Mas é tempo de agir, não de desanimar. Mais do que com as palavras, acredito que deixamos alguma coisa neste mundo pela nossa coerência, acções e comportamentos quotidianos. E aí, reconheço, abre-se-nos a todos sempre um interminável campo de acção. A luta continua já amanhã.

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A vitória do povo

Jorge Coelho interpretou assim o resultado do referendo:

"O povo falou, tá falado"
"É dar o salto e virar a página"

"Acho mesmo que não há ninguém que goste mais da vida do que eu"
Boa noite!

O próximo referendo

O resultado do referendo de hoje coloca desde já um problema político. Com participação baixa em assunto tão importante e, acima de tudo, mediático, que dizer da realização de um referendo sobre o futuro tratado europeu, que sendo tema crucial para o futuro do País, não tem qualquer relevo mediático?
A também chamada Constituição Europeia (na realidade, não passa de um novo tratado da UE) coloca várias questões. Os países que já ratificaram o documento dificilmente aceitarão alterações ao texto. Os dois que rejeitaram não aceitarão enganar os seus eleitores, aprovando um texto pouco modificado. Além disso, três países que ainda não se pronunciaram (Reino Unido, Polónia e República Checa) podem facilmente rejeitar o documento nos respectivos referendos. Mesmo assim, a presidência alemã quer avançar com o tratado.
Mas Portugal tem um problema próprio: a baixa participação dos eleitores em referendos. Ou seja, tudo indica que nos vão fazer uma pergunta e que a resposta, com toda a probabilidade, não será vinculativa.
Fala-se na elaboração de um mini-tratado europeu, mas qual será a posição dos que já ratificaram? Os eleitores destes países (por exemplo, a Espanha, que votou em referendo) não querem um mini-tratado, mas sim o documento que a França já rejeitou.
Começa a ser evidente que a única saída é começar a negociar um texto novo para a UE, com base no que já foi negociado, e recomeçar o processo de ratificação. Isto implica um atraso significativo nos calendários políticos da UE. No que diz respeito a Portugal, não deve haver referendo sobre o próximo texto.

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O meu voto

A esta hora próxima do desfecho do referendo quero deixar aqui expresso que votei não à despenalização do aborto se realizado por opção da mulher nas primeiras 10 semanas de gravidez em estabelecimento de saúde legalmente autorizado. Dito de outra forma, defendi que deve continuar a ser crime o aborto praticado nas primeiras dez semanas de gravidez. Votei defendendo uma consciência social capaz de distinguir entre o bem e o mal, capaz de não confundir direito com um crime ao ponto de lhe dar reconhecimento legal por parte do Estado por intermédio dos seus profissionais de saúde. O Estado e a sociedade (incluo-me) têm o dever de ajudar a mulher a levar a gravidez até ao fim. A gravidez, desejada, indesejada, consciente, inconsciente (?), etc, etc, torna-se de imediato uma responsabilidade e um risco, por mais remoto que este seja. Essa responsabilidade só pode ser inelegível à mulher quando é de todo em todo um fardo. Dito isto, e não sendo o aborto comparável ao homicídio, mesmo sendo um crime abominável, tem um grau próprio de censura penal. Com o meu voto, tenho a vantagem de ainda defender a mulher e atenuar o seu mal, confessando a limitação jurídica que o fenómeno do aborto põe de manifesto. Em consciência não poderia votar sim porque não encontrei maneira de atenuar o mal de se acabar legalmente com uma vida humana. Aqui não há meio termo. Ou se mantém, ou se destrói.

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Um silêncio conveniente

Em 1998, António Guterres congelou um processo legislativo sobre o aborto em curso na Assembleia da República para avançar com um referendo (concebido em parceria com o seu velho amigo Marcelo Rebelo de Sousa, que liderava o PSD). Com esta manobra - ainda hoje difícil de explicar - o então secretário-geral do PS condicionou durante anos o espaço do seu partido nesta matéria. Por uma questão de consciência, como fez questão de explicar. O mesmo motivo que devia tê-lo levado desta vez a proferir ao menos uma declaraçãozinha sobre o assunto. Mas não. Ao preferir agora o silêncio, escudado na função internacional que desempenha, Guterres tornou evidente que não pretende causar embaraços ao amigo José Sócrates nem confundir-se com votos provenientes de outras cores. Confirmando, em suma, que certos "imperativos de consciência" podem ser geridos ao sabor das conveniências politicas do momento.
Apetece perguntar: como podemos respeitar políticos e políticas assim?

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A capa do dia (8)


O jornal A Bola faz hoje esta brilhante manchete.

In heaven

Descobri este pequeno vídeo via Jansenista. Só aconselhável a quem não tiver problemas cardíacos...

O Jansenista

Fiquei a conhecer este blogue através da Miss Pearls e do artigo que a Carla Hilário Quevedo publicou na última edição da Atlântico. Tenho lá ido de vez em quando, umas vezes gosto mais que outras, mas percebo o fascínio daquelas duas grandes bloggers. O Jansenista está bem feito, tem pinta e foge ao 'mainstream'. O que às vezes dá jeito e só faz bem à alma. Já agora, alguém sabe quem é o autor?

Domingo

Evangelho segundo S. Lucas 6,17.20-26.

Descendo com eles, deteve-se num sítio plano, juntamente com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, Erguendo os olhos para os discípulos, pôs-se a dizer: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Felizes vós, os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Felizes vós, os que agora chorais, porque haveis de rir. Felizes sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois a vossa recompensa será grande no Céu. Era precisamente assim que os pais deles tratavam os profetas». «Mas ai de vós, os ricos, porque recebestes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome! Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis! Ai de vós, quando todos disserem bem de vós! Era precisamente assim que os pais deles tratavam os falsos profetas».

Da Bíblia Sagrada

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Muitos e bons

Continuam a chegar-nos parabéns de gente amiga pelo aniversário do Corta-Fitas. Lista actualizada aqui.

A votos


8, 7 milhões de portugueses estão recenseados como eleitores. Vejamos quantos vão hoje a votos. Se o referendo não for vinculativo há muito que pode e deve ser discutido, desde logo a alteração à lei.

Liedson resolve

Dos 6-0 com que o Sporting brindou ontem o Pinhalnovense, em jogo para a Taça de Portugal, destaque para o quarto golo, de Liedson. Uma bicicleta do "Levezinho" para ver e rever. Muito bom. É caso para dizer que se o Liedson já voltou a resolver, e logo desta maneira, com o Carlos Bueno na forma que se sabe (ontem marcou mais dois, tal como o brasileiro), temos boa hipóteses de fazer uma grande segunda volta da Liga. Mesmo sem reforços de Inverno, aí está o Sporting na luta pelo título da Liga e em prova na Taça.

Sábado, Fevereiro 10, 2007

Mil e cento e dezassete

Um ano depois, segundo revela o Blogómetro, o Corta-Fitas atinge a média diária de 1117 visitas, situando-se entre os 20 blogues generalistas mais consultados em Portugal. Motivo de natural orgulho para nós. E sobretudo de incentivo para os próximos meses. Continuamos a prometer mais e melhor.

Busca da felicidade

Já vi "The Pursuit of Happiness", de Gabriele Muccino, um filme que recomendo não por ser um daqueles fora de série, mas por ser emocional, muito terra a terra. Will Smith, que só conhecia das comédias, faz um papelão neste melodrama passado no início dos anos 80. Ele é um pai que luta para ficar com o filho - o que consegue - e que, para além de estar na miséria completa, se vai debatendo com graves crises profissionais, que ultrapassa (muito a custo), até se tornar em corretor da bolsa. Um "Kramer contra Kramer" numa versão menor, é certo, mas mesmo assim tocante. A história é verídica e Smith deixa um pouco para trás aquela (má) imagem de actor de comédia barata. Valeu por isso e por demonstrar que, por muitas dificuldades que possam existir, há sempre um caminho para seguir em frente.

"Et si tu n'existais pas" (dispensa tradução)


Joe Dassin

Dia de reflexão


Um estudo anual da Delloit - Futebol Money League - relativo às receitas de clubes na época transacta coloca o 'SLB' no último lugar da tabela dos vinte mais abonados clubes europeus em 2005/2006. Como português quase fico orgulhoso com esta ímpar distinção: a popular agremiação lisboeta destaca-se quase dois milhões de euros abaixo do popular clube britânico Unidos do Fiambre do Oeste. Grande feito!
Pensando bem, se eu tivesse uns eurozitos excedentários para investir, antes preferia rentabilizá-los no clube inglês. Só por uma questão estética, sei lá!… e porque joga lá o sportinguista Luís Boa Morte. Tudo boas razões, que saram eficazmente o meu calejado e leonino cotovelo!

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Colecção de crónicas (IX)

Há uma espécie de febre contagiosa que nos faz não suportar que alguém nos ultrapasse. Não é bem inveja. A inveja é uma paixão muito perigosa, enquanto isto de que falo não passa de uma reacção inócua, pouco reflectida e quase infantil.
Um dia fui ao supermercado, com a lista de compras e a missão muito particular de não me esquecer do pão. Disciplinadamente, esperei a saída de uma nova fornada. Pairava no ar um cheiro delicioso e, enquanto aguardava a vez, juntou-se nas redondezas um grupo largo de gente, que se entreolhava com desconfiança, também à espera da saída do pão acabado de cozer no forno.
À medida que crescia o odor requintado, picando a fome (palavra imperfeita para essa ansiedade que ia dominando as personagens), aumentava também a desconfiança entre as pessoas daquele grupo de desconhecidos, enfim, de vizinhos, nenhum deles com aspecto de viver carências. E, quando os empregados do supermercado colocaram a fornada à disposição dos clientes, houve um momento de descalabro daquela espécie de sociedade ainda composta. Cada um correu para apanhar o máximo de pão escaldante. Não posso dizer que houvesse encontrões significativos ou cotoveladas, mas ocorreu uma quase luta, duas mãos que agarravam ao mesmo tempo um só embrulho, olhares cruzados que mal dissimulavam fúria, o passo mais veloz na direcção do alvo, como se a caça pudesse espantar-se, esconder-se atrás das prateleiras altas.
Não pense o leitor que fui virtuoso. Também reclamei a minha dose de pão quente.
O que pretendo com esta crónica não é criticar o humano e concluir dizendo que devíamos ser mais pacientes, que devíamos aprender a partilhar, pelo menos com os da nossa comunidade. Tudo isso é evidente. Mas penso por vezes neste episódio. Não na perspectiva de lamentar as minhas falhas, que lamento, mas na perspectiva da fragilidade do nosso verniz.
As pessoas corriam para agarrar o pão, que teria sobrado para uma multidão dez vezes maior. Ninguém pensou em passar fome, ou algo dramático. O gesto colectivo de correr foi um movimento competitivo. Aquelas almas perdidas de si próprias tinham sido transformadas por leves segundos em seres sem o embrulho sofisticado de qualquer civilização.
Depois, quando caíram de novo em si, as pessoas afastaram-se umas das outras, talvez um pouco envergonhadas. Tentavam ainda esconder o pão muito quente e que largava um cheiro divinal.

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Longa vida ao referendo


Um dos maiores problemas que o referendo de amanhã poderá encerrar é o da elevada taxa de abstenção. Por isso, e embora uma fraca votação pudesse agradar a um dos lados, a abstenção pode e deve ser combatida, sob pena de o instituto do referendo ficar condenado para sempre neste País. Não nos querendo alongar sobre o assunto e não entrando na questão em pormenor porque hoje é dia de reflexão - afinal de contas já não somos um blogue de vão de escada e podíamos vir a ter a Comissão Nacional de Eleições à perna -, a mensagem que aqui se deixa é esta: vá votar e não deixe morrer um dos instrumentos mais preciosos da democracia directa e representativa (que se quer também participativa). Até porque é bom que este referendo seja vinculativo e não meramente indicativo.

Chuva abençoada?

Chove lá fora. E se amanhã é assim também?

Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

Para votar em consciência

Este referendo, que no limite visa decidir sobre vidas humanas, interpela a consciência individual do eleitor. Muitos critérios podem ser adoptados para justificar o voto. "Não estão em causa considerações éticas", assegura o ministro António Costa. Discordo dele: a ética está presente em cada um dos nossos actos. Para mim, o melhor critério passa pela resposta a esta pergunta que não vem no boletim de voto mas que faço a mim mesmo: pôr fim à gestação de um feto humano saudável de dez semanas é ou não moralmente lícito?
Cada um responda à pergunta do boletim. E também às perguntas que a sua própria consciência ditar no próximo domingo.

PS esquece a lei que fez

Num comício socialista no Porto, a actual lei que enquadra o aborto em Portugal foi considerada "indigna, violenta e desumana" por uma dirigente do partido. Devia haver limites para a desfaçatez, até na política, mas parece que não há. A lei de 1984, aprovada no Parlamento, resultou de uma iniciativa do PS. O partido devia, pois, integrá-la no seu património legislativo - tanto mais que acabou por inspirar a lei espanhola de 1985, praticamente decalcada da portuguesa. Ouço criticar a moldura legal do aborto na Irlanda (país apontado como exemplo noutros domínios), Polónia e Malta, mas jamais escuto uma crítica à legislação espanhola - por sinal ligeiramente mais restritiva do que a nossa, pois apenas despenaliza o aborto por violação até às 12 semanas (16 semanas na lei portuguesa) e por mal-formação do feto até às 22 semanas (até às 24 semanas em Portugal). O problema com o diploma de 1984, aliás nunca regulamentado nem devidamente aplicado, é outro: relaciona-se com o código ético dos médicos, que tantas vezes invocam objecção de consciência para recusarem fazer abortos legais, e na afectação de recursos públicos neste país em que o Estado não paga tratamentos de fertilidade (avaliados em cerca de cinco mil euros em clínicas privadas de Lisboa). Mas nisto prefere o PS não tocar. Afinal é mais fácil alterar uma simples cláusula legal. Mudar alguma coisa para tudo ficar na mesma.

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Have a very nice weekend


"Baby" - Lloyd Cole.

Dias não são dias

Estivemos aqui a debater internamente a questão de haver posts sobre o referendo ao aborto no dia de reflexão - parece que o 31 da Armada também - e decidimos que não. Não iremos ter. Porque não queremos ter a CNE à perna e porque o dia é mesmo para reflectir. Para quem ainda tem que o fazer.

P. S. - Ao visitar o 31, fiquei também a saber que o RMD vai estar no RCP (tantas siglas) no domingo à noite, a comentar os resultados do referendo. Ao mesmo tempo que vai teclando. Uma excelente iniciativa do Luís Osório. Espero é que não se oiça o barulho das teclas...

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Só por pirraça

E como o Glória Fácil não nos deu os parabéns (que coisa feia, tsc, tsc), vou votar «Não» no próximo Domingo (a não ser que os enviem nem que seja por sms e, nesse caso, prometo ir passear até à Ericeira).
P.S. Quem ainda não sabe quem são a Carminho e a Sandra tem muita sorte. A mim, já me atormentaram três vezes hoje.

Consequências de uma vitória do "sim" (2)

Caro Paulo Gorjão, concordo consigo em alguns pontos, discordo noutros. É evidente que o próximo acto eleitoral está longe, logo as maiores consequências não se farão sentir imediatamente, pelos menos em termos partidários. O que quero dizer é que o referendo de domingo inaugura ou põe a nu uma série de debilidades partidárias, em particular no PSD e no CDS/PP. Neste último, Paulo Portas já prometeu falar após o dia 11. Entre os sociais-democratas, como se tem visto nos últimos dias, há uma enorme incomodidade com a atitude de Marques Mendes, que, como saberá, deu liberdade de voto, mas acabou por fazer campanha, umas vezes a "título pessoal", outras como presidente do partido. Nos últimos dias, figuras como Jorge Neto (e Assunção Esteves, pelo que sei), pelo lado do "sim", demonstraram alguma incomodidade com as posições de Mendes. Do lado do "não", é evidente que o líder acabou por ser ultrapassado pela energia e o vigor de Marcelo Rebelo de Sousa e os seus partidários internos. Em termos de segundas figuras, José Pedro Aguiar-Branco também acabou por se revelar mais eficaz do que a maior parte dos dirigentes de Mendes que estavam daquele lado da barricada.
Em relação a Sócrates, concordará comigo: o primeiro-ministro irá sair reforçado. Foi ele que impôs o referendo e é ele, ao contrário do que aconteceu no tempo de Guterres, que poderá trazer mais uma vitória para o PS. Sócrates poderá reclamar estar a laicizar a sociedade portuguesa e avançar com novas propostas "estruturantes", à semelhança do que se passa em Espanha. Enfim, era mais ou menos isto que queria dizer, para além de achar que a mudança na lei se fará lentamente, causando dificuldades imensas ao Sistema Nacional de Saúde. Uma mulher que opte pela via do aborto, em detrimento da defesa da vida, irá passar grandes dificuldades num "estabelecimento autorizado". E não será aconselhada devidamente, nem posta perante a alternativa de não avançar com a IVG. Será, como noutros casos, tudo ao "Deus dará".
Cumprimentos.

P. S. - Olhe, o PPM parece concordar, em parte, consigo...

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Sexta-feira


Alessandra Ambrósio.

N. 28.11.1967/F. 08.02.2007


Era mais nova do que eu, era mais loura e tinha maminhas maiores. E uma vida cujo rocambolesco ultrapassava o da nossa Elsa Raposo. Há vidas que parecem fadadas para a tragédia, e a quem a fama só aproxima da curva final do caminho. Não sei se vos parece mórbido mas, para mim, hoje que é sexta-feira a nossa mulher é esta: Anna Nicole Smith.

Não é, mas podia ser se quisesse


O homem que antevê o futuro chamou «Presidente» a José Sócrates e elogiou, à saída da sua conferência para VIPs, umas tretas quaisquer ligadas às energias renováveis que ninguém percebeu quais fossem. Estou certo de que o ainda não presidente as explicará melhor, na grande entrevista ao Expresso sobre o Ambiente, a qual estou desejoso de ler. Até porque sou fã de ficção científica e este país parece-me, cada vez mais, um verdadeiro «mundo marciano».

Amigos: muitos e bons



Registamos com muito prazer e agradecemos, naturalmente sensibilizados, os votos de parabéns pelo aniversário do Corta-Fitas que nos foram endereçados por estes nossos amigos. Segue a lista, por ordem alfabética: são muitos e bons.

Adolfo Mesquita Nunes
Cinderela
Cristina Ribeiro
Nota: vários nomes foram já acrescentados à lista inicial

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

Os portugueses são uns mentirosos (I)

Os portugueses mentem muito. Mentem naquilo em que os outros povos mentem. Escondendo a idade, tentando aparentar um estatuto social superior ao que realmente têm, narrando pormenores imaginários ou escamoteando aspectos da sua vida sexual, dando largas a um notável espírito ficcionista quando se trata do estatuto remuneratório.
Mas, mais do que em relação ao sexo ou ao dinheiro, os portugueses mentem em relação ao voto. Neste aspecto, creio bem, trata-se de uma verdadeira originalidade. Sem paralelo noutros povos europeus.
Abstencionistas militantes, os portugueses jamais assumem que são preguiçosos de mais ou desinteressados de mais para virarem costas às urnas: é raro arrancarmos a alguém a confissão de que prefere trocar uma ida à praia, ao cinema ou ao centro comercial por uma deslocaçãozinha à assembleia de voto. No máximo dirão: “Para mim, são todos iguais. Vou lá, mas voto em branco.”
Como sabemos, quase nenhum português vota em branco: isso seria ter o mesmo trabalho a troco de prazer nenhum. Entregar na urna o boletim em branco é uma espécie de coito interrompido. Que eu saiba, só Manuel Monteiro fez isso uma vez, de caneta na mão, fingindo que votava em Paulo Portas para líder parlamentar do CDS – e arrependeu-se amargamente. Dá sempre algum gozo escrever qualquer coisa no boletim, nem que seja para o tornar nulo.
Na altura, também Monteiro mentiu sobre o voto. Não admira: é português.

Os portugueses são uns mentirosos (II)

Outro passatempo preferido dos portugueses é exprimir uma intenção de voto que não é, digamos, exactamente a sua. O português sente-se confortável quando se imagina transformado em dado estatístico numa determinada maioria sociológica. Mesmo que, no seu íntimo, esteja nos antípodas dessa maioria, que pode ser real ou fabricada por uma empresa de sondagens dotada de menor espírito científico.
É, assim, sem surpresa que escutamos à nossa volta multiplicarem-se as declarações de intenções apropriadas aos grupos socioprofissionais dominantes. Um exemplo: entre os jornalistas, quando era moda ser anti-Cavaco Silva (moda rapidamente em desuso nos dias que correm), perguntava-se na generalidade das redacções se alguém tencionava votar nele e, com a provável excepção do Povo Livre, a derrota era esmagadora. Ainda há um ano, nas presidenciais, quem ouvisse a generalidade dos jornalistas “políticos” exprimir uma intenção de voto verificava facilmente que o grande vencedor da contenda seria... Mário Soares, “campeão” à esquerda nas sondagens mas que no final recolheu apenas 14 por cento de votos, atrás de Cavaco e de Manuel Alegre. Interrogo-me ainda hoje se grande parte dos jornalistas que garantiam alto e bom som irem votar Soares “contra aquele gajo que nem ao menos saber comer bolo-rei” estariam afinal tão desfasados da maioria dos eleitores no segredo da cabina de voto...
Idem, quanto aos referendos. Em 1998, questionei várias pessoas das minhas relações se tencionavam participar no referendo ao aborto. Claro que sim – resposta unânime. Ninguém cometeria a suprema heresia laica e republicana de permanecer estendido na toalha de praia à hora a que devia estar a cumprir o “dever cívico” que a Constituição aconselha sem impor. Abstencionista militante? Nem um para amostra. Concluí depois estar muito desfasado da realidade, na medida em que não não conheço pessoalmente um só dos 70 por cento de eleitores que nem se deram ao trabalho de passar perto de um local de voto naquele dia.
Receio que a história se repita. À minha volta, já escuto promessas veementes de participação eleitoral no próximo domingo. “Desta vez vou lá”, garantem até as bocas já esquecidas de que em 1998 também juraram (em vão) que lá iriam. De uma delas ouvi há dias a confissão de ter votado Cavaco em Janeiro de 2006 – afinal faz parte da “maioria presidencial”, a mesma que o actual Chefe do Estado garantiu ter-se dissolvido na noite da eleição. E eu a imaginar que à época a tinha ouvido fazer reiterada profissão de fé soarista...
Mente-se muito em Portugal. A respeito de dinheiro, a respeito de sexo. Mas sobretudo a respeito do voto – o grande tabu da nossa vida colectiva.

Sinal dos tempos

Escrevo esta nota em especial para os meus amigos jornalistas: O tablóide inglês The Sun publicou há dias este vídeo. Enfim, à parte a substância, realço que um jornal hoje em dia até publica um vídeo, no caso até “em exclusivo” segundo consta…

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Jantar - Um ano de Corta-Fitas.

Após inúmeros telefonemas infrutíferos para o José Nero Fontão (lindas horas para acordar), vimo-nos "obrigadas" a tomar conta da crónica do jantar de ontem do aniversário do Corta-Fitas. Posto isto, (ó Fontão, no próximo jantar não escapas) aqui vai uma espécie de crónica feita por mim e pela ITM.
Se tivesse que colocar "marcadores", não obstante os mesmos não traduzirem totalmente o ambiente do evento (ainda há eventos que não vão ao bolso dos contribuintes) , poderia propor: "bloggers a precisar de lições de blogger", "vida de jornalista do Nacional", "Index Prohibitorum", ou melhor, "palavras-que-não-devem-ser-pronunciadas", "bloggers faltosos","fantástico jantar","temos um grande blog", "viva a liberdade", "dedicatórias em menus com assinaturas ilegíveis", "off the record", "não sei bem do que falam os homens quando estão sozinhos, mas desconfiamos" "José Maria", "prendas", "há-de haver mais jantares", "desta vez a máquina fotográfica funcionou", "há um fotógrafo em cada Corta-Fitas", "simpatia", "cordialidade", "gente desempoeirada", "o eixo do bem", "lista top+ dos comentários", obrigada ITM pela boleia" e tantos outros que, como compreenderão, não podem sair da sala:

Algures em Lisboa, juntaram-se vários Corta-Fitas e convidados.
No príncipio havia violinos. Também havia gin tónicos, aperitivos e estômagos a dar horas. Entretanto, decorria um outro jantar perto do Tejo, o que atrasou dois dos convivas em serviço no local. Os violinistas cansaram-se, nós também e lá nos fomos instalando num mesa encantadora (Rodrigo, fazes favor. É a tua deixa)
À medida que iam chegando os convivas, surgiam cada vez mais palavras-que-não-podiam-ser-pronunciadas. A malta é democrata, tem as suas convicções, as suas susceptibilidades e não era o local nem a ocasião para troca de "opiniões". Depois de contadas as "espingardas" clubísticas, concluiu-se que o perigo vermelho estava pouco a pouco, desordenadamente, a dominar e a minar este bom blog. Mais dia menos dia, alguém se há-de lembrar do sistema por quotas.
Uma palavrinha para os bloggers faltosos, à excepção da Marta (Caires) lá longe: meninos e meninas, organizem as vossas agendas, adiem compromissos, mintam descaradamente, mas apareçam no próximo jantar. O Nero Fontão (despistado) enfim, tem desculpa, mas era engraçado estarmos todos.
No meio de risos, flashes, discussão amigável, alguns off the record, dedicatórias em menus, prendas ao José Maria, (novas) promessas para regularizar o mail, aprovação de novo inquérito (propostas alucinantes), eventuais contratações, mas afinal quem é quem, viva a liberdade.
Já era tarde quando o jantar terminou e assim termina a nossa crónica. O final da noite já não é connosco.
Hula Dancers
As fotografias das Hula Dancers não passam de um adereço.

Texto de ITM e MissPearls para o Corta-Fitas

O grupo (2)


Vai um corte bem ou mal passado?

Fotografia: Rodrigo Cabrita.

O grupo (1)


O grupo reunido a discutir a estratégia e prestes a passar à "vinhaça" (neste caso, o branco).

Fotografia: Rodrigo Cabrita.

A mesa


Foi aqui. Nada mau, hein? Um mesa posta a preceito (apesar das cores).

Fotografia: Rodrigo Cabrita.

A ementa


Como diz o Pedro, foi bom mesmo. Aqui está a ementa, ao pormenor (carregar na imagem).

Fotografia: Rodrigo Cabrita.

Bom mesmo

Só para vos provocar água na boca, enquanto não chega o relato pormenorizado do repasto de ontem. De entrada, comemos salmão fumado sobre tomate gratinado e queijo mozzarela. Seguiram-se medalhões de vitela com batata recheada de esparregado. A sobremesa também foi em grande estilo: tarte de maçã com gelado caseiro de baunilha e molho de menta. Bom mesmo.

Modernices

Recomendadíssimo e devidamente industriado, na posse dos documentos necessários, lá saí pela fresca sozinho com o Zé Maria rumo ao Centro de Saúde do Estoril para o tradicional “Teste do Pezinho”. Chamam-lhe “teste”, mas para mim trata-se de uma espécie de bruxaria que fazem aos bebés indefesos entre os três e os seis dias e que invariavelmente os põe a berrar quais bezerros sacrificados. Com o rapaz encaixado na cadeirinha que mais parecia uma trouxa de roupa com um gorro espetado, lá o atei ao banco de carro com alguma dificuldade pois já não tenho 18 anos.
Chegados ao nosso destino no meio de uma chuvada, esperámos por uma aberta para entrarmos no Centro de Saúde, onde num ambiente deprimente umas dezenas de empenhados velhinhos e alguns sem abrigo esperavam a sua consulta regular. O Zé Maria e eu dirigimo-nos convictos à secção de pediatria, onde como primeiros fregueses do dia fomos recebidos em festa por três ansiosas enfermeiras que após um impiedoso interrogatório ao pai incauto, iniciaram os seus obscuros rituais, com uma impressionante habilidade. Criança pelo ar, puxa perna, estica cabeça, corta o pé… Aquelas mulheres lá conhecerão o seu oficio, pensei eu retirando-me cobardemente daquele antro de tortura. Foi tudo rápido, por fim.
Logo à tarde, vou registar o miúdo. Imagino que para além dalgum progenitor negro ou brasileiro, terei o cartório por minha conta, que isto de registar crianças também será ofício em vias de extinção!

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Uma noite feliz


Lamentavelmente, não pude comparecer ao jantar de ontem, que assinalou o primeiro aniversário deste blog. Os meus amigos e seguidores Duarte Calvão e Luís Naves tinham-me dito para estar às 21 h em ponto no restaurante Papagaio da Serafina, em Monsanto, onde, segundo me garantiram, decorreria a comemoração. Porém, ao chegar lá, ainda ninguém tinha chegado e, após ter esperado 45 minutos à chuva (a falta de pontualidade dos portugueses é um dos nossos maiores factores de atraso), recebi uma chamada de um governante a requerer a minha presença urgente e conselho. Assim perdi horas de afável convívio com aquela saudável e talentosa paleta de rapazes e raparigas.
Depois de ter estado três horas num think-tank sobre a aplicação do Simplex à recolha de lixos urbanos, fui espairecer para o Bairro Alto onde, numa viela esconsa, encontrei o jornalista do DN e pensador Fernando Madaíl, que se cruzara com alguns Corta-fiteiros deambulantes e me confidenciou ter sabido de pormenores sobre o lauto repasto. Ele parecia algo confuso, pois afirmou que o convívio decorrera no Tivoli, em vez do Papagaio da Serafina.
Durante horas, o bom do Fernando teorizou sobre o destino, mas lá me informou que a minha ausência do jantar fora comentada e que até havia um menu assinado por todos e dedicado a mim. Escrevera o Francisco Almeida Leite: “Obrigado pela tua bravura, José Nero Fontão”; alguém elogiava, talvez o João Távora, as minhas reportagens na China; e a Isabel, miss Pearls, deixara uma singela mensagem sobre a grande marcha, que me comoveu.
Decidi ir à procura destes meus amigos pelos estabelecimentos do Bairro Alto onde pairam os intelectuais noctívagos. Não encontrei ninguém e, apertado pela fome, tive que recorrer a uma roulotte onde serviam suculentos cachorros quentes. Partilhei a minha solidão com um sábio homem do povo, que me disse ser taxista, e juntos reflectimos sobre o estado do País. Ele confidenciou-me que tinha votado em A. Salazar no concurso dos Grandes Portugueses. Fiquei admirado com a sua cultura e o bom senso das suas palavras (“isto precisa é de Ordem, esta merda está toda corrompida”), já que o cientista e antifascista professor Abel Salazar não é geralmente referenciado entre pessoas menos eruditas. Consolado por verificar que ainda é no nosso povo simples que vamos buscar os melhores exemplos, voltei para o conforto do meu T12 em Miraflores. Chovia mansamente e o mundo estava sereno.
*José Nero Fontão votou em Maria Elisa no concurso dos Grandes Portugueses, mas não foi convidado para participar no painel de comentadores

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Consequências de uma vitória do "sim"

1. José Sócrates - Irá sair muito reforçado politicamente. Só quem anda a dormir pode pensar que o primeiro-ministro não lucra com uma vitória do "sim". Ao contrário de António Guterres, que, por convicção e contradição íntima, não se envolveu na campanha, Sócrates participou e com maior ou menor jeito fez passar a sua mensagem. Mais: envolveu o Governo e o partido numa campanha desta natureza, com vários ministros e deputados a aparecerem em acções de esclarecimento.
2. PSD - Não se sai nada bem. Marques Mendes fez o que Marcelo tinha feito em 1998: deu liberdade de voto aos seus militantes, mas acabou por envolver o partido, pois surgiu em várias acções de campanha como seu líder e não a título individual. Ficou também demonstrado o que vale no terreno. Mendes apareceu tarde, deu o dito por não dito, e deixou que a corrente passasse. Na noite de domingo, como se de eleições se tratassem, os holofotes estarão virados para a São Caetano à Lapa.
3. CDS - Ao contrário do que fez Paulo Portas em 1998, a performance dos democratas-cristãos nesta campanha deixou muito a desejar. O partido, os seus dirigentes, os deputados, não se viram. Se estavam lá, ninguém lhes prestou atenção. José Ribeiro e Castro esforçou-se e palmilhou o País. Como um homem só.
4. "Não" - O combate mais vigoroso da parte do "não" surgiu pela mão de Marcelo Rebelo de Sousa, das associações de apoio à vida, dos movimentos de independentes e da blogosfera, uma novidade em relação a 98. Todos estes podem estar orgulhosos do seu trabalho, empenharam-se em nome de convicções e de valores. No domingo, independentemente dos resultados, não serão perdedores. São antes uma chama já acesa para outros voos. Na prática, demonstraram a inutilidade de algumas forças partidárias e dos seus respectivos dirigentes.
5. Igreja - Perde muito com a vitória do "sim", até porque fica a sensação de que poderia ter feito mais e melhor. Com a aprovação da alteração à lei em referendo, o País fica mais laico por obra e graça de um senhor chamado José Sócrates. A seguir, quase de certeza na próxima legislatura, o primeiro-ministro irá anunciar outras revoluções "estruturantes". Teme-se o pior.
6. Comunicação social - Depois desta campanha nada será como dantes. A Internet, a blogosfera, os vídeos no You Tube, as mensagens para telemóveis de terceira geração, vieram trazer outra dinâmica ao espaço informativo. E demonstraram que a política ainda pode ser atractiva e que, sobretudo, pode fugir à alçada dos políticos e das suas máquinas partidárias.
7. Serviço Nacional de Saúde - Já em péssimo estado e a prestar um serviço abaixo dos mínimos - basta para isso passar uns meses a ir quase todos os dias a hospitais para ver que não há capacidade para acolher quem queira ir fazer IVGs em condições -, vai ficar sobrelotado, endividado e não poderá dar uma resposta adequada a todas as mulheres que queiram acabar com uma gravidez indesejada. A lei, se não for complementada por outras medidas, diplomas ou directivas das direcções regionais de Saúde, irá desajudar, em vez de ajudar como querem os responsáveis políticos que avançaram com a proposta. Não há aconselhamento, acompanhamento psicológico, investigação sobre as reais razões que levam essas mulheres a procurar um "estabelecimento público autorizado" para fazer um aborto. Não será dada a alternativa da vida a quem procurar um desses "estabelecimentos". Não será dado um tempo para pensar, para reflectir. Muitas usarão o aborto no SNS como método contraceptivo, sem limites.

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Querem mesmo saber como foi?

Então, enquanto não chega a nossa versão dos acontecimentos (ó Fontão, essa lauda sai ou quê?!), aqui fica a do Jorge Ferreira, avatar da discrição.

Bem...


Só me lembro de ter sido fotografado com umas antenas... Acho que não tinha a cabeça no lugar.

Good morning

Genesis.

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Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Madonna no Corta-fitas

Madonna a cantar os parabéns ao Corta-fitas.
Foto: José Carlos Carvalho

Chega de masoquismo, tá?

Entre os inúmeros disparates que tenho ouvido nesta campanha do referendo ao aborto inclui-se a contínua indicação da França como exemplo a seguir em matéria de direitos humanos. É mais um caso típico de autoflagelação: não perdemos a mania de imaginar que os outros são melhores que nós. Ora se há matéria em que não temos lições a receber de Paris é mesmo nesta: Portugal aboliu a pena de morte em 1867, o que então motivou uma entusiástica reacção do escritor gaulês Victor Hugo em carta ao director do Diário de Notícias, enquanto a França só o fez em 1981, com a ascensão de François Mitterrand ao Palácio do Eliseu. E só na semana passada a Assembleia Nacional parisiense decidiu inscrever esta medida na Constituição, estipulando no artigo 66-1 que “ninguém pode ser condenado a pena de morte”. Cento e quarenta anos depois de o mesmo ter ocorrido em Portugal!
Chega de masoquismo nacional, está bem?

E para os anonymous não vai nada, nada, nada?!!!



Para todos e todas um «obrigado, obrigado» muito sentido (pausa para limpar lágrima). Sem vocês, nada disto teria sido possível. Pensem nesta oferta como um gesto de amor. Chuac!

Miúdas corta-fiteiras...


...O Benicio del Toro está interessadíssimo no jantar, mas diz que só aparece se ninguém pronunciar a palavra «referendo».
P.S. Eu estarei no Pap'Açorda com a Cammy (já nos tratamos com alguma intimidade). Enviem sms a confirmar se ele apareceu. Beijos. Vocês compreendem, não é verdade?

Aniversário

A Jennifer Beals mandou um mail a dizer que também quer ir ao jantar. Que respondo?

A bola é redonda

Rui Santos, talvez o mais palavroso de todos os comentadores da televisão portuguesa, dizia há pouco mais de uma semana, no Tempo Extra da SIC Notícias, que o campeonato estava decidido e a derrota do FC Porto em Leiria só serviria para empolgar ainda mais o conjunto portista. Viu-se: na jornada seguinte, nova derrota dos dragões, desta vez em casa, frente ao Amadora. Perdendo um ponto para o Benfica, que empatou com o Boavista, e três para o Sporting. Nada melhor que o notável triunfo (5-1) dos leões frente ao Nacional para contrariar os vaticínios de Rui Santos, demonstrando que o campeonato está relançadíssimo.
Perante isto, o que disse o comentador no último Tempo Extra?
- "O futebol é isto."
- "O futebol é exactamente isto."
- "O Porto sem Quaresma é um Porto diferente."
- "Este jogo [Sporting-Nacional] não é decisivo em termos da avaliação de Bueno."
- "Bueno, na minha perspectiva, não passou de besta a bestial."
- "Marcar quatro golos pode não significar nada."
- "Houve muita falta de sorte por parte do Benfica. Este é um argumento corriqueiro."
- "Temos que tirar o chapéu e dar o valor devido a estas equipas [que ganham]."
- Umas defesas de William foram difíceis, outras foram fáceis."
- Os bons jogadores jogam bem."
- "O futebol não é uma ciência exacta. E ainda menos em Portugal."
- "Passa a ser muito difícil fazer previsões no futebol português."
Só faltou mesmo dizer que a bola é redonda para tornar ainda mais completo este belo ramalhete de lugares-comuns. Mesmo assim, tenciono ouvir com atenção a próxima "análise" do comentador, capaz de dizer tudo e o seu contrário com a aparente convicção de sempre. Entretanto, deixo-lhe aqui esta citaçãozinha de Ian Fleming, o "pai" de James Bond: "No jogo, confundir más jogadas com má sorte é um pecado mortal."
Uma bela frase, que vem perfeitamente a propósito de tudo isto. E de muito mais.

Um ano

Foi um ano muito... Crazy.

Um ano de Corta-Fitas

De inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios!
Foi um prazer. Obrigada a todos do Corta-Fitas, leitores e comentadores que fazem diariamente este blog.

Hi!!

My name is Cameron Diaz. Sorry my portuguese (risos):
I am surfing in Hawai e venho só aqui dar meus parabbéins ao Corta-Fitas pelo primeiro birthday do blog.
Nunca fui girl das Sextas, but anyway este ser my favourite blog.
Parabéns e um big kiss to girls and boys.
Cameron
E agora volto para surf. Baby! Sweety! Wait for me!

Pelas más razões

Paulo Portas e Luís Marques Mendes lá acabaram por entrar na campanha do referendo ao aborto. Tarde, mas entraram. Portas foi ao Algarve dizer o que pensava, depois de ter estado numa iniciativa na sua antiga escola, o Colégio São João de Brito, e não ter dito uma palavra. Mendes já fez várias "aparições", ora a título individual, ora como líder do seu partido. A verdade é que estas "aparições" de última hora só acontecem pelas más razões. Ou seja, Portas e Mendes parecem estar mais preocupados com as questões partidárias do que com o que está em causa.
Em vez da "questão estruturante" que vai a votos no dia 11 de Fevereiro, preocupam-se com o seu pequeno mundo: os partidos. Portas só surgiu depois de muitas críticas veladas ao seu apagamento desta campanha - ele que tinha sido uma das figuras mais activas do "não" no referendo de 1998. Mendes começou por dar liberdade de voto ao PSD, acrescentando que não iria participar na campanha. Assumindo-se defensor do "não", o líder do PSD fez depois saber que a sua singela contribuição para as hostilidades entretanto já abertas seriam a abertura de um colóquio de "esclarecimento" sobre o aborto e a publicação de um artigo de opinião num grande jornal nacional (no caso, no Correio da Manhã).
Mas ambos deram o dito por não dito.
Portas fez constar que ele e os seus companheiros de partido estariam a ser boicotados por Ribeiro e Castro na campanha oficial do CDS/PP (qual campanha?) e acabou por ir à iniciativa no Algarve e à caminhada do "não" que juntou milhares de pessoas em Lisboa. Mendes, de um momento para o outro, está no terreno, pelo que os resultados do próximo domingo poderão ser-lhe também atribuídos. Para o bem ou para o mal.
As razões que os levaram a ter de avançar são, como disse, de cariz partidário. Portas teme que, caso decida ir contra Ribeiro e Castro no pós-referendo - já disse, inclusive, que faria uma declaração sobre o CDS nos dias imediatamente a seguir -, lhe seja atirada à cara a sua fraca participação nesta campanha, pensando que num partido como o CDS isso possa pesar.
Marques Mendes foi obrigado a entrar no ringue depois dos vídeos de Marcelo Rebelo de Sousa, muito comentados dentro e fora do PSD, e das investidas de José Pedro Aguiar-Branco. Mendes temeu deixar o espaço do "não moderado", onde anda muito do eleitorado do PSD, só para Marcelo e para o grupo de António Borges. Por isso apareceu em jogo, tal como Portas, como se fosse um suplente de luxo. Entram em campo com o jogo a decorrer, na esperança de, mesmo jogando poucos minutos, darem nas vistas.

Um ano depois

Foi há um ano que arrancámos com o Corta-Fitas. Tudo começou com um vulgaríssimo almoço a quatro: o Duarte Calvão, o Francisco Almeida Leite, o Luís Naves e eu. "E se tivéssemos um blogue?", alguém perguntou. O sim foi unânime em volta da mesa. Como gostamos de pôr ideias em prática, não demorámos nada a avançar com esta: dois dias depois, estávamos a cortar a primeira fita. Um ano depois, quase 200 mil visitas depois, cá estamos. Com uma média diária de 948 visitas, segundo revela o Blogómetro, que nos atribui o 31º lugar no top dos blogues nacionais neste ítem e 16º em número médio de páginas consultadas (quase meio milhão no total).
Cá continuamos os quatro. Agora também com acompanhados da Isabel, da Inês, da Marta. E dos dois Joões - o Távora e o Villalobos. E do Nuno. Mais o Rodrigo e o Leonardo e o Zé Carlos. Sem esquecer, claro, o José Nero Fontão.
Vamos prosseguir. Com o entusiasmo de sempre. E com o mesmo espírito divertido e descontraído que há um ano nos juntou naquele almoço.

Wild cats

Depois disto, e para verem que não estão sozinhos, caros Rodrigo, Jacinto e PPM: leiam o que escrevi há uma semana aqui no Corta-Fitas. Agora deixem-se de ataques ao nosso João Villalobos, até porque ele está muito ansioso, como todos nós, pelo jantar de logo à noite. Hoje fazemos UM ANO.
Como dizem os brasileiros, podem parabenizar-nos, não? Um abraço aos quatro.

friendly fire

Este é apenas uma amostra do vídeo revelado pelo "The Sun". No you tube estão versões mais longas, onde um dos pilotos se questiona mais de uma vez sobre se os alvos não seriam "friendleys". O controlo de terreno confirma aos pilotos que eram inimigos. Eles atacam. Poucos segundos depois aparece outro "ground control" a avisar que dispararam contra forças amigas.
Depois de ver isto não apetece criticar ninguém, apontar o dedo a ninguém. Fica apenas a sensação de alívio de não estarmos na pele daquele piloto que vai ter de viver com aquela culpa para o resto da vida.

Amor eterno


Dois esqueletos humanos abraçados, sepultados há 5000-6000 anos e agora descobertos em Itália, perto de Mantova. Foto Reuters e se me exigirem os direitos, aviso desde já que tenho um batalhão de advogados capazes de levar o próprio Murdoch à falência.

Pois, querido Rodrigo

Postas as coisas dessa maneira, sou forçado a reconhecer que a falta de tino é generalizada. Seja como for, o meu objectivo de aumentar as nossas audiências à vossa custa foi amplamente alcançado. Vae victis e tudo isso.

Indisponíveis e indispostos


A estratégia é de génio. Maligno, entenda-se. Hoje, quem fique desempregado e se registe no Centro de Emprego, é obrigado (leram bem) a inscrever-se num curso de formação que pode durar até seis meses. Mesmo que seja licenciado, com experiência profissional e que nenhum dos cursos disponíveis tenha algo a ver com os empregos que pretende. Durante a frequência desse curso, justificadas ou não, a pessoa só pode dar um limite de 6 faltas. Ou seja, não tem tempo para procurar emprego de forma sistemática.
Mas o IEFP faz melhor: Envia cartinhas aos formandos comunicando-lhes que, durante o tempo de duração do mesmo curso: «A sua situação face ao emprego é de indisponibilidade» e ainda que, quando terminar a formação, os mesmos devem «proceder à sua reinscrição como desempregado(a)». Ou seja outra vez, nem para os empregos que apareçam através do Centro pode ser chamado o desgraçado formando. Como se não bastasse, terá mais tarde de passar novamente por toda a seca que é o processo de inscrição e só após uma avaliação à sua formação (falta saber o que acontece aos desgraçados que tiverem má nota num curso que não lhes interessa para nada, e que foram forçados a fazer).
Assim, é evidente, baixam as estatísticas quanto ao número de desempregados. Estão «indisponíveis para o ser», coitados. Se isto não é digno da malvadez de um Bórgia, não sei o que seja. E ainda não percebi quem é essa Cooptécnica que ficou com as massas da formação. Mas vou saber, ai isso vou.

Momentos Kodak (35)

Marcelo Rebelo de Sousa nos estúdios da RTP.
(Outubro 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

Nada mal

2-0 ao Brasil, com golos do Simão e do Ricardo Carvalho. Nada mal, para um jogo a feijões. Dados importantes: a integração, quase perfeita, de Ricardo Quaresma (finalmente) e a recuperação de Jorge Andrade para o centro da defesa. Cristiano Ronaldo esteve bem, como sempre, e mostrou que até contra o Brasil dá para fazer rodriguinhos - no caso dele consequentes. E estreou-se como capitão da equipa, outra nota relevante para o futuro.

Isto sou eu a dizer, mas amanhã digo o contrário


O 31 da Armada levou-me a entrar no campo da perplexidade. Eles são todos bons rapazes (não no sentido à Scorcese da expressão) mas com esta coisa do «Sim» e do «Não» acho que perderam o tino. Defendem, pelo menos o PPM e o Jacinto Bettencourt, que os Gato Fedorento deviam ter gozado também com Francisco Louçã porque isso é que era «pluralismo democrático» e que, ao não fazê-lo, estão a apoiar a campanha do Sim à má fila.
Ora um humorista manietado pelo contraditório e por esse tal pluralismo democrático (é difícil dizer isto sem soltar perdigotos) é um humorista morto. Tem tanto sentido como eu gozar hoje com a obsessão pelas massagens do Rodrigo Moita de Deus (por exemplo) e, amanhã, ser por isso obrigado a palavras jocosas sobre os casos de polícia da Fernanda Câncio (eu sei que não sou humorista, mas para o caso serve o exemplo).
Dir-me-ão que os Gato estão na RTP e o serviço público e tal. Não colhe. Porquê? Porque não. E nem me dou ao trabalho de explicar, mas é para isso que servem os tempos de antena e os espaços informativos. Podem achar que eles não têm piada, que antes tinham mais e que isto e aquilo, com o habitual desdém pelas audiências. Podem. Embora, meus amigos, o 31 de Armada também já tenha ultrapassado o Corta-Fitas em número de visitas, e nem por isso os desdenhemos ou pensemos que já não são o que eram. Onde estão os filminhos dos Vaders? Hem? Onde?

Ah, os anos 80!


Um dia conto-vos a minha vida nessa altura, se prometerem que já não posso ser alvo de processos por atentado ao pudor...

O ralhete

O cansaço já tomava conta de mim. Sobrevoávamos a Sibéria Ocidental, após dias de uma cansativa viagem à China em que aconteceram tantos episódios noticiosos, e eu dormitava, quando fui subitamente despertado pelo som da queda aparatosa de um corpo. Olhei e vi o José Sócrates, em fato treino, estatelado no chão ao lado da minha cadeira. Estava a fazer o seu jogging no corredor do avião adormecido e tinha tropeçado no pé que, inadvertidamente, eu tinha deixado para fora, justamente no trajecto da corrida do nosso atlético primeiro-ministro.
“Zé Nero, seu jornaleiro, sempre a passar-me rasteiras. Primeiro o Pinho, depois o Laurentino, agora isto. Julgas que eu não sei o que andas a escrever sobre mim no Corta-Fitas? E os contratos que assinámos com chineses, as pontes que estabelecemos, a receptividade que houve à ideia de sermos a calçadeira deles em África? Sobre os objectivos plenamente alcançados nesta visita, nem uma linha. Nunca mais te convido para nenhuma das minhas comitivas.”. Sócrates crescia para mim, vermelho de indignação.
Ainda tentei defender-me: “Não, não, eu sou o primeiro a louvar a tua visão estratégica nesta visita ao gigante asiático, ao facto de te estares nas tintas para se é ou não uma democracia. Não é como o outro, o Cavaco, que agora tem a mania que...”
Mas não adiantou, Sócrates tinha ido buscar uma camisola do Cristiano Ronaldo (a única que tinha sobrado das 40 que levara e que generosamente tinha distribuído pelos chineses) e agora voltava, brandindo-a ameaçadoramente . “Não me venhas dar graxa à custa do Prof. Cavaco, que, mais do que um presidente estratégico, tem sido um tio para mim. Sobre a camisola do Cristiano, de que os chineses tanto gostam, falaste? Falaste, hein, ó jornaleiro?” Assustado com a veemência das palavras, tinha-me levantado e ia recuando no corredor, mas pareceu-me que o primeiro ministro me queria fazer mal com a camisola do menino d’ouro do nosso futebol e achei melhor correr para casa de banho. Apanhado de surpresa pela minha fuga, Sócrates ainda começou a perseguir-me, com aquela sinistra peça de vestuário desportivo na mão, mas eu fui mais rápido e consegui refugiar-me no WC.
Após dar alguns murros na porta, já rodeado pelos assessores, que lhe pediam calma, o animal feroz lá desistiu, não sem antes gritar:. “Escrevam coisas positivas sobre mim”. Mais sereno, acendi um charuto Major Valentín Torpedo Nº5, que reservo para momentos de grande stress como este, e lá me acalmei um bocado.
Só que então rebentaram as sirenes, fui retirado do conforto do WC por dois seguranças trogloditas, que esmagaram o meu querido charuto no chão sem contemplações, e me amarram e amordaçaram até aterrarmos em Lisboa.
* José Nero Fontão está a ponderar pedir protecção ao Dalai Lama

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Sim, sou burro, mas moreno

O Público decidiu aderir ao Plano Nacional de Leitura. E oferece aos leitores do online um poema por semana. Meritória iniciativa. Desta vez, um poema fabuloso e de um lirismo apoteótico da autoria de Salvador Espriu. Aqui fica para partilha. Alguém que me traduza, por favor, não percebi pevas.

Assaig de Càntic en le Temple

Oh, que cansat estic de la meva
covarda, vella, tan salvatge terra,
i com m'agradaria d'allunyar-me'n,
nord enllà,
on diuen que la gent és neta
i noble, culta, rica, lliure,
desvetllada i feliç!
Aleshores, a la congregació, els germans dirien
desaprovant: "Com l'ocell que deixa el niu,
així l'home que se'n va del seu indret",
mentre jo, ja ben lluny, em riuria
de la llei i de l'antiga saviesa
d'aquest meu àrid poble.
Però no he de seguir mai el meu somni
i em quedaré aquí fins a la mort.
Car sóc també molt covard i salvatge
i estimo a més amb un
desesperat dolor
aquesta meva pobra,
bruta, trista, dissortada pàtria.

Depois não digam que não vos dou nada

Chama-se Musicovery e pode ser acedido aqui. Intuitivo - ou user friendly em informatiquês - e com os estilos e «ondas» à medida dos fregueses. À borliu, é claro.

It's an injustice, it is!


Eu estava cego e vi a luz

Confesso, admito, ainda há pouco estava fartinho e com o referendo pelos cabelos. Ontem, em lugar do Prós e Contras, passei a noite a descontrair com uma sequência de episódios do Dr. House. Ainda hoje, ao abrir o Público sentia que não teria escapatória. Isto até deparar-me com esta passagem, da autoria de Maria do Céu da Cunha Rêgo:
«Olhe para as mulheres de quem gosta. Deixe as outras, as de quem já gostou ou as que detesta mesmo. Olhe por si».
Caramba, a veracidade destas palavras e a lucidez do conselho atingiram-me com a intensidade de um camartelo. Olhar para as mulheres de quem gosto. Ora aí está algo que posso fazer, que devo mesmo fazer, verdadeiro imperativo kantiano que é. A minha resposta, a partir de agora, só pode ser SIM!


- O Corta-Fitas é aqui?
- Diga, por favor.
- Mandaram-me entregar estes 15 sacos. Disseram que tinham que estar nesta morada até ao dia 7.
- (Blogger sorridente) - Da Marc Jacobs? Pode deixar, que eu trato do resto. Onde está o cartão com o remetente?
- (Paquete atrapalhado)- Fónix! São todos "anonymous". Haverá algum erro?
- "Anonymous"? É mesmo aqui. Obrigada.
(continua)-fotog.

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

Blond of the year

Não sei se me deixam ir...

... ao jantar de aniversário do Corta-fitas. Se calhar janto em Custóias, dizem-me que a sopa de feijão lá é boazita...

Pobres turistas

São neste momento 12h.39m.
Desconfio que os dois turistas que me perguntaram às 10 horas nos Restauradores onde fica a "avênida Augutchta" e a "Carmo street", ainda devem andar à nora pelas ruas da Baixa, com as indicações que eu lhes dei....
O sentido de orientação nunca foi o meu forte. E as explicações também não.
A bem dizer a cidade não ajuda. Encontra-se a informação "Palácio dos Coruchéus" e outras placas acessórias que mais parecem charadas para iniciados.
Seria curioso "desafiar" um automobilista estrangeiro em Lisboa, sem qualquer mapa, só com informação vertical, fazer o percurso aeroporto-Campo de Ourique, Avenida de Roma-Benfica ou Avenida de Ceuta-zona portuária ou Infante Santo, por exemplo. Ou não me digam que nunca seguiram uma placa centro ou desvio para se perderem logo a seguir?
Nisto estamos tão avançados como o Japão, onde nem números de porta existem.

A ouvir

Quem perdeu a entrevista do Pedro Rolo Duarte ao Pedro Correia na Antena 1, domingo passado, pode agora encontrá-la aqui. É bom que oiçam com atenção...

Falta pouco...

...para a maior concentração de talento futebolístico
por metro quadrado de relva.

Private joke jornalística

O french kissing parece ter perdido definitivamente o fôlego. Quer isto dizer que ganharam os linguados?

Os "bifes" dizem que o risco é negligenciável. Tá bem tá.


Lida a manchete de hoje do Diário de Notícias, parece que só os tais portugueses com salários baixos têm tomates e falta de dinheiro suficientes para se chegarem à frente em Inglaterra, e procederem à matança dos perus contaminados com a Gripe das Aves. Só uma pergunta: Quando os rapazes quiserem vir à terrinha visitar a família e as namoradas, quem é que lhes faz o necessário check up à entrada? Bem sei que já chegam vacinados e pejadinhos de Tamiflu mas, mesmo assim...

Vão mas é trabalhar!

O Governo diminuiu para metade os subsídios ao arrendamento jovem. Assim é que é, malta! É preciso acabar com essa caterva de párias que não larga a maminha do Estado. No meu tempo, fazia 10 quilómetros debaixo de neve entre a escola e a fábrica de sapatos e, quando chegava a casa, ainda ia limpar o celeiro só com uma sande de azeite no bucho desde madrugada. Hoje, só querem facilidades. É bom haver um Governo que não tolera madraços. Vou votar neles outra vez quando houver eleições, porque o senhor José Sócrates é um pai disciplinador como deve de ser.

Parem as máquinas!

Parece que a guerra dos sexos acabou.

Desmistificar o livro

A notícia é do Público de ontem, mas ainda está dentro do prazo de validade. Depois de há uns anos alguém ter falado em «desmistificar o vinho», a produtora Ler Mais veio afirmar que quer «desmistificar que ler é chato». Para isso, promete ter «um formato dinâmico». E o dinamismo passa por vender às editoras, por módicos 500 € cada 7 minutos, espaço para a promoção dos seus livros. Cada editora "compra" programas e tem direito a escolher o formato dos mesmos.
O empreendedor programa anuncia que tem o apoio do Plano Nacional de Leitura mas parece que Isabel Alçada já torce o nariz à ideia (o que só mostra que há vida inteligente no PNL) e irá para o ar na RTPN. Ora, eu estou bem consciente de que, neste país, o código da publicidade é uma letra tão morta como os hieróglifos da Pedra de Roseta mas, mesmo assim, sinto-me em pulgas. Se a coisa passar, é de uma inovação digna de ser vendida aos chineses. Imaginem só as aplicações infinitas possíveis. Cobrar aos políticos pelos soundbytes nos telejornais, aos «famosos» por cada inanidade proferida nos programas cor de rosa, aos músicos por cada aparição em TV, e etc. Desmistificar é o que está a dar.



De bicicleta, a pé, de mota... todas a caminho do blog. Ninguém vai querer perder o aniversário do Corta-Fitas.

Domingo, Fevereiro 04, 2007

pequenos portugueses

Oiço o Dr. Santana Lopes no programa Grandes Portugueses a debitar uma série de vulgaridades e alguns disparates: por exemplo referindo-se à 1ª républica: “Antes do 25 de Abril só tínhamos tido 16 anos de liberdade”. O homem só deve ler as revistas do cabeleireiro, e depois dá nisto!

PS - Nunca o tinha visto, o programa é mesmo mau.

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Tertúlia literária (144)

- Gostaste do "Brokeback Mountain"?
- Prefiro os primeiros contos da montanha.

Farto

Não sei se convosco se passa o mesmo: já não suporto ouvir a expressão "vão de escada". Felizmente a campanha está a chegar ao fim.

Sombras chinesas

1. Em 1994, como enviado de um jornal de Macau, acompanhei a visita de um primeiro-ministro à China. Chamava-se Aníbal Cavaco Silva. Nessa altura, apenas um tema parecia preocupar os jornalistas enviados de Lisboa: a questão dos direitos humanos. Justificadamente, o silêncio de Cavaco nesta matéria fez várias manchetes, dias a fio. Outro primeiro-ministro português, chamado José Sócrates, acaba de se deslocar à China. Falou tão pouco em direitos humanos como Cavaco o fizera 13 anos antes. Com uma diferença assinalável: não houve manchetes a dar conta de tão clamorosa omissão.
2. A China é o país do mundo que mais aplica a pena de morte: cerca de 1770 execuções por ano. Lá os direitos sociais pura e simplesmente não existem. Os direitos políticos circunscrevem-se à "liberdade" de elogiar os dirigentes do Partido Comunista. Apesar disso, o ministro português dos Negócios Estrangeiros declarou que Portugal "tem acompanhado a evolução da China do ponto de vista político", gabando os "significativos progressos" neste domínio que só ele descortinou.
3. Sócrates não gosta de críticas nos jornais. Nem sequer de criticazinhas. Irrita-se com quem as faz: manda os assessores dar ralhetes aos jornalistas (por vezes classificados de "jornaleiros"), puxa-lhes ele próprio as orelhas sempre que tem oportunidade para isso e os profissionais da informação lho consentem (há quem tenha estômago para tudo). Uma vez mais, isso aconteceu. O primeiro-ministro perdeu as estribeiras com o destaque dado em Lisboa aos dislates do seu ministro da Economia. Esteve a um curto passo de rotular os jornalistas de anti-patriotas. Nem seria de estranhar. Onde é que eu já ouvi isto?
4. Não me custa nada entender o motivo que leva Sócrates a manter Manuel Pinho no Governo, até contra a opinião de algumas das vozes mais lúcidas do seu partido. Enquanto tiver por perto o titular da Economia, recordista das boutades no Executivo, o chefe do Governo verá muitas das críticas que lhe seriam dirigidas à partida encaminhadas para o autor dos dislates. Dá sempre jeito a quem está na ribalta política ter alguém deste quilate assim à mão...
5. Esta visita à China destinava-se, fundamentalmente, a promover "oportunidades de negócios" junto das empresas portuguesas. Para tanto abriu-se uma nova linha de crédito. Já não têm conta as linhas de crédito que se abriram nas últimas duas décadas, sempre que um Presidente da República, um primeiro-ministro ou um ministro da Economia se deslocam à China. Estas "linhas" ficam quase sempre por preencher. Os nossos empresários adoram viajar à conta do poder político. O problema é investir: dá muito mais trabalho.
6. É assim que se promove Portugal no exterior? Na sua corridazinha em Pequim, para meros efeitos de propaganda, Sócrates fez-se fotografar com um fato de treino em que se destacava um enorme logótipo da uma multinacional europeia. O primeiro-ministro pareceu esquecer-se que existem em Portugal excelentes empresas do ramo têxtil que fabricam equipamento desportivo e fornecem inclusive várias multinacionais. Se isto é maneira de divulgar Portugal no exterior, vou ali e volto já. Em passo de corrida.
7. Leio no Público de hoje que a EDP poderá alienar os 21% que detém na Companhia de Electricidade de Macau. Ao mesmo tempo, a Portugal Telecom desistiu de entrar na televisão por cabo do antigo território sob administração portuguesa. E no entanto se há parcela da China onde Portugal tem à partida "oportunidades de negócios" é precisamente Macau. Mas nem os laços históricos nos valem. E as enfatuadas proclamações de optimismo oficial muito menos.

Sunday

Joe Cocker - "You Are So Beautiful"

Ah, leão!



BUENO!

Ana Carolina - Gente Humilde

Que acompanhou uma excelente entrevista. Muito bem, Pedro.

Sábado, Fevereiro 03, 2007

Amanhã, às 11


O Francisco aqui deixou um recado, a Isabel - com a amabilidade de sempre - também fez uma anotação na imprescindível Miss Pearls. E outros amigos, como o Paulo Pinto Mascarenhas e o Carlos Manuel Castro, publicaram igualmente notas simpáticas sobre o assunto. Venho só lembrar mais uma vez: amanhã, entre as 11 e o meio-dia, vai para o ar a minha conversa com o Pedro Rolo Duarte na Antena 1. Falamos de blogues, claro. E de jornalismo. Ouçam, se puderem. Comentem, se quiserem. E não liguem à minha faringite, tão própria da época...

Elogio a dois políticos

1. FRANCISCO ASSIS
Manuel Pinho espalhou-se ao comprido em Pequim, recomendando o investimento chinês em Portugal pelos baixos salários que aqui se praticam e pelas reduzidas reivindicações salariais. Logo no PS irrompeu o habitual coro de yes-men procurando justificar o injustificável (as palavras de Pinho) para não desagradar a José Sócrates, que em momento algum desautorizou o seu ministro. Todos os socialistas procederam assim? Todos não: o eurodeputado Francisco Assis confirmou que sabe pensar pela sua própria cabeça, insurgindo-se contra as disparatadas palavras do titular da Economia. "As declarações do ministro foram muito infelizes. Na vida pública, e na vida política em particular, as palavras adquirem vida própria. E há coisas que não se podem dizer. Portugal não pode competir com base nos baixos salários. Essa perspectiva seria suicida. E os sindicatos não podem ser vistos como factores de atraso."
Assim falou Assis, quinta à noite, no programa da RTP O Estado da Nação. Num partido cada vez mais amorfo e submetido à vontade do chefe, é uma excepção que merece elogio rasgado.

2. ANTÓNIO FILIPE
O PCP, como é sabido, considera o Partido Comunista Chinês seu "irmão" em ideologia. Ainda recentemente Jerónimo de Sousa esteve em Pequim e foi recebido por aqueles a quem chama camaradas. Ninguém lhe escutou uma palavra a condenar a ditadura chinesa, que reprime os mais elementares direitos humanos, nem a verberar o capitalismo selvagem que por lá vigora sob o rótulo "comunista", cada vez mais ténue. Mas um deputado do PCP teve o desassombro de dizer isto: "Há coisas absolutamente condenáveis na China. Muitas coisas que não subscrevo, quer do ponto de vista político quer económico. A começar na aplicação da pena de morte."
Assim falou António Filipe, no mesmo programa do canal público (agora muito melhor moderado, pelo jornalista Carlos Daniel). Merece também o meu elogio. Até porque sei bem que não faltam admiradores da China nas fileiras do PCP.

Honey! I'm home!

Bem sei que não têm sentido a minha falta, o que muito justamente se deve a José Nero Fontão, esse decano da crónica jornalística, injustificadamente afastado das páginas do DN após um Verão fulgurante e durante o qual ofuscou todos os questionários de Proust.
A partir de segunda-feira, eis-me de novo habitante desta casa. Nesse mesmo dia, na 2, estará também de regresso «Sete Palmos de Terra», embora no horário destrambelhado das 00.30h. Ligando ambos os momentos, aqui fica uma música para saudar a ocasião.

Tempo de antena

Um repórter televisivo que acompanhou José Sócrates nesta viagem à China, no melhor estilo light agora tão em voga no jornalismo português, confrontou o chefe do Governo com esta acutilante pergunta:
- Senhor primeiro-ministro, que balanço faz desta visita?
Resposta despachada do interpelado:
- O melhor possível. Os nossos objectivos foram amplamente alcançados...
Mudei de canal, sem ouvir mais nada. Quando quero escutar tempo de antena (coisa que nunca me acontece, devo confessar), gosto de saber ao que vou. Propaganda travestida de jornalismo, não, obrigado.

Sinais de debilidade

O Laurentino queria ver o treino olímpico dos chineses e disse-me:
“Zé Nero, sempre achei que uma ou duas medalhas olímpicas podem esconder debilidades, mas temos de ir ver como funcionam estes chineses na preparação para os Jogos Olímpicos de 2008”.
Ao ouvir aquilo, o Vicente, que é do comité olímpico, pareceu um bocado aborrecido, mas consegui logo ali sanar o conflito. O Laurentino, um dos melhores e mais conhecidos secretários de Estado deste governo, só ficou com a lapela do fato um bocado amarrotada, mas não chegou a perder a compostura. O Vicente quer ganhar muitas medalhas e não se conforma com vistas curtas.
Os chineses treinavam num ginásio dos arredores, onde a segurança era apertada.
“Eu sempre disse que uma ou duas medalhas olímpicas escondem debilidades”, exclamou o Laurentino, ao ver todo aquela parafernália de guardas. “Tenho de avisar o Amado sobre este óbvio atentado à liberdade de Imprensa em geral e aos direitos humanos em particular”.
Concordei com o que dizia o Laurentino, porque detesto limitações à liberdade de trabalhar, sobretudo quando estou em viagens oficiais a convite de governantes. Estava ainda a preparar um plano de infiltração quando reparei que o Laurentino e o Vicente tinham desaparecido, ou antes, haviam detectado uma porta menos fechada. E avançaram.
Ao segui-los, deparei-me com o horrível espectáculo. Presos em enormes braços musculados que saíam da parede e que apertavam os seus pescoços, os meus dois amigos sufocavam. Aquilo mais parecia uma tortura chinesa, o que de facto era. O Laurentino já estava azul quando apareceu o treinador chinês, que mandou suspender o exercício. Os dois imensos braços largaram suavemente os dois pescoços.
O chinês pediu desculpa, explicou que aquele era um inovador método de treino e ficámos a saber que a China quer ganhar umas vinte ou trinta medalhas nos Jogos Olímpicos. À volta, o Laurentino sentenciou esta aventura: “Eu sempre disse que uma ou duas medalhas eram sinal de debilidade”. O Vicente, ainda abalado, concordou com o secretário de Estado.
*José Nero Fontão, em jovem, alimentou esperanças de uma medalha olímpica no salto acrobático

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Um bebé no Corta-Fitas

Este ano, lá para o Verão, há-de haver um bebé por aqui, nas praias do Sudoeste. Será mais um, de fraldas e babete, numa grande família ruidosa e certamente feliz.
Pois é. Nasceu o José Maria do João Távora e da Carlota. "Chegou às 13.15 com 2.950. Correu tudo bem. É do Sporting, cheio de garra", diz o pai.
Ao bebé, ao pai e à mãe, um abraço amigo de todos nós do Corta-Fitas. Um grande beijinho também aos manos e manas do José Maria.
Ontem nasceu também uma menina a uns amigos meus. São estas coisas importantes que me reconciliam com a vida. Este não será o melhor dos mundos, mas é o que conhecemos. Sejam ambos bem vindos, estes bebés do nosso contentamento.

Gostei de ler

1. Amostras voluntárias. De Pedro Magalhães nas Margens de Erro.
2. A grande mistificação. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
3. Discriminação. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
4. Os ilusionistas de Lisboa. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
5. Longe das câmaras. De Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.
6. Greve de cidadania. De Rodrigo Adão da Fonseca, no Blue Lounge.
7. Sebald. Do Eduardo Pitta, no Da Literatura.
8. O futuro é uma ficção séria. De João Miguel Almeida, n' O Amigo do Povo.
9. 60 anos. Obrigado, Benjamin! Do André Moura e Cunha, no In Absentia.
10. Cena recorrente nos últimos dias. De Francisco Valente, n' O Acossado.
11. A beleza da indiscrição. Do Hugo Alves, no Amarcord.
12. Espaços & vidas. Da Isabel, na Miss Pearls.
13. Gare do Oriente. Do Helder Robalo, nos Pensamentos.
14. Grandes vinhetas#8. De Jorge Ricardo Pinto, no Comboio Azul.

Marinheiros de água doce

Há um país do mundo sem saída para o mar que mantém uma força de marinha com 4800 homens e 73 embarcações. O oceano mais próximo fica muito longe, mas nem isso impede a "força naval" desse país de sugar 15 por cento do orçamento militar nacional, avaliado em 130 milhões de dólares. Tanto dinheiro não impediu em 2006 a morte por afogamento de pelo menos oito destes intrépidos marinheiros - não no mar, obviamente, mas em rios - que por norma não sabem nadar.
Mas nem tudo é mau. No ano passado, à falta de melhor alternativa para preencher o tempo, 160 oficiais "foram destacados para capinar os pastos de um zoológico local", revela a revista Veja, que nos traça este pitoresco quadro de marinheiros de água doce.
E que país é esse? A promissora Bolívia, que ruma ao socialismo pela mão do pequeno timoneiro Evo Morales. O mesmo que reclama do vizinho Chile uma faixa territorial que lhe permita atingir as praias do Pacífico. Claro que os chilenos não têm feito caso desta exigência. Resta ver como reagirá Morales. Escavará túneis para infiltrar submarinos? Mudará o leito de um rio para mandar avançar uma corveta? Vale a pena acompanhar este folhetim. Para recuarmos ao tempo em que todos brincávamos à batalha naval.

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

O "verniz" do Governo

O jornalista da Visão Francisco Galope, que acompanha a visita de Sócrates à China, relata os descontrolos emocionais do primeiro-ministro, as faltas de educação dos seus assessores, as ideias deles sobre o que é uma imprensa livre.
Leiam, pff.

A mulher que era Sexta-Feira

No tempo em que o "Chicago's Morning Post" era a preto e branco, os jornalistas tinham máquinas de escrever e muitas telefonistas atarefadas. E tal como nos anos trinta do cinema, os Howard Hawks do Corta-Fitas têm Their [Hot] Girls [Every] Fridays. Bem vivas e a cores.

Cary Grant and Rosalind Russell em His Girl Friday


Tertúlia literária (143)

José, no espelho, encolhe os ombros.
- E agora, José?

(Auto-Retrato - Cardoso Pires por Cardoso Pires )

Tertúlia literária (142)

- Que escreves no livro de bordo?
- Já se avista Lisboa.

La dolce Italia


Esta é Mara Carfagna, a deputada da Forza Italia que desencadeou uma crise conjugal no domicílio da família Berlusconi. Veronica Lario, a mulher do primeiro-ministro italiano, ficou furiosa com os ímpetos de galã de Silvio, que num jantar de gala se virou para a fotogénica Mara e lhe disse: "Contigo iria para qualquer parte, mesmo que fosse para uma ilha deserta." Parece que a pequena não ficou muito entusiasmada com o galanteio, o que não admira: modéstia à parte, e sem metade da lata que costumam ter os italianos, tenho a certeza de que até eu lhe conseguiria dizer algo melhor. Ignoro entretanto se Veronica perdoou ao marido, mas tenho a certeza de uma coisa: se a classe política portuguesa tivesse os atributos da italiana a abstenção eleitoral por cá seria muito mais baixa.

Tertúlia literária (141)

- Andas à procura de quê, a olhar tanto para o relógio?
- Em busca do tempo perdido.

O "sim light" e o "sim hard"

Marcelo Rebelo de Sousa e os partidários do Assim Não ainda não responderam aos apelos do Movimento Pró-Elisa, que tem como princípios fundadores tentar trazer de volta a magnífica entrevistadora dos primeiros vídeos do site do professor.
Entretanto, Marcelo colocou hoje o segundo vídeo sem Elisa, assim se fará a contagem a partir de agora, desta vez intitulado "O 'sim light' de Vital Moreira". Amanhã, promete Marcelo, em jeito de teaser, é a vez do "sim hard". Eu cá se estivesse na pele do constitucionalista respondia só depois de ver e ouvir o que vem aí...

Missão impossível

Ainda em relação ao que escrevi ontem sobre a Missão China 2007, recomendo a leitura deste texto do Paulo Querido sobre o mesmo assunto. Cheguei lá através do Paulo Gorjão. Adensa-se o mistério sobre a verdadeira razão para se lançar um site ou uma secção do Portal do Governo com tão fraca qualidade.

História de algibeira (17)


"Quinta-feira, Fevereiro 23
Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha (1798)*

A primeira coisa que uma pessoa não pode deixar de notar em Lisboa é o mau policiamento. A imundície das ruas está amontoada por todo o lado, nas ruas mais pequenas e estreitas, onde a chuva não a lava, forma verdadeiras colinas, e para uma pessoa não se afundar no meio dela tem de conhecer muito bem o carreiro. (…) Antigamente a cidade era iluminada, agora já não, e como as lojas fecham cedo nada alumia a escuridão das vielas estreitas e mal pavimentadas. Uma horda de cães sem dono que se alimentam à custa do público erra pela cidade como lobos esfaimados e, pior ainda do que estes, é a horda de bandidos. Muitos se admiraram como nós tínhamos ousado, nestes tempos de guerra, viajar para Portugal por terra.(…) Como pode um povo, entre o qual se encontram afinal homens esclarecidos, aguentar horrores deste género, que põe Lisboa ainda abaixo de Constantinopla?(…)
As diversões do Carnaval são sempre feitas segundo o gosto dominante da nação. E em que é que consistirão em Lisboa? Nobres e gente do povo divertem-se em atirar toda a espécie de sujidade e imundície aos passantes que, de acordo com o costume e para evitar maus encontros, aguentam pacientemente este tipo de coisas. Uma encantadora dama de condição despejou um bacio sobre mim, não me deixando qualquer consolo a não ser esperar que o bacio fosse o seu.(…)
Os altos muros das quintas na cidade, os arredores abandonados e desertos convidam ao roubo e ao assassínio, o mau policiamento fomenta-os.(…) A Primavera é a época mais perigosas. Sei de alturas em que se podia contar um assassínio todas as noites.
O criminoso escapa quase sempre, em virtude de uma compaixão verdadeira e genuinamente portuguesa, toda a gente lhe facilita a fuga. Coitadinho, pobre homem, dizem, e tudo lhe corre de feição. "

Nota:
Link é muito mais “suave” para os portugueses do que Murphy (“Travels in Portugal”, 1797)
*Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha / Heinrich Friedrich Link, trad., introd. e notas Fernando Clara. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 2005.

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O filho do pai


Passeava eu num jardim, com pagodes e tudo, à espera de ver o jogging do Sócrates, num dos intervalos desta cansativa viagem à China, quando surgiu aquele jovem com ar de marciano. Tinha o cabelo espetado, em forma de leque, e uns óculos descomunais, escuros, vagamente escondendo os seus olhos amendoados.
Sentou-se no meu banco de jardim, o que não achei surpreendente, pois muitas pessoas sentem-se espontaneamente atraídas pela minha alta testa de pensador, que tem vindo a ser acentuada por uma teimosa calvície precoce.
“Boa tarde”, disse ele.
“Boa tarde”, respondi.
Foi assim o início da nossa interessante conversa.
Não sei como, a discussão desaguou nas ambições nucleares da Coreia do Norte (acho que foi o meu interlocutor que levantou a questão). O desconhecido elaborou o assunto, explicou-me que a única intenção de Pyongyang era a de chatear toda a gente, o que não lhe parecia assim tão grave.
Achei estranho que um chinês estivesse tão bem informado sobre a Coreia do Norte e manifestei a minha estranheza:
“Mas o senhor, um chinês, estar tão interessado na Coreia do Norte...”
“Está enganado, não sou chinês. Eu sou português!”, esclareceu o estranho, que tinha inconfundíveis traços asiáticos.
“É engraçado”, esclareci, “Também sou português. Chamo-me José Nero Fontão, tenho um baixo salário e faço parte da comitiva do primeiro-ministro José Sócrates, que acaba de passar ali ao fundo em fato de treino”.
Ele já tinha ouvido falar dos dois: Sócrates, o filósofo, Nero, o imperador.
“Não”, esclareci ainda. “Nero Fontão, jornalista; José Sócrates, primeiro-ministro do Portugal Moderno”.
Em resumo, o desconhecido asiático que reclamava ser português e sabia tanta coisa sobre a Coreia do Norte, não conhecia coisas básicas sobre o meu país, nomeadamente quem eu era . Mas fui diplomático:
“Não seja mentiroso, o senhor não é português!”.
“Sou sim”, replicou ele. “Chamo-me Quim e o meu pai, que também se chama Quim, é uma pessoa importante”.
Mostrou-me de imediato um inconfundível passaporte português. Só tinha um erro: o nome Quim estava escrito com K. Mais depressa se apanha um mentiroso do que um norte-coreano coxo.
A China tem, de facto, umas estranhíssimas figuras nos seus belíssimos jardins.
* José Nero Fontão pensa que Pyongyang é uma variante coreana do ping pong

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Friday

Ana Hickman.

Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

Obrigatório

Agora é a nossa vez. No próximo domingo vai para o ar a entrevista do Pedro Rolo Duarte ao Pedro Correia, do Corta-Fitas. É na Antena 1, das onze ao meio dia.
Depois da nossa Miss Pearls lá ter ido na semana passada, com o sucesso que se sabe, e do João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos) ter dito ao PRD que o Corta-Fitas é o melhor blogue colectivo nacional (que exagero...), esperem pela volta do correio. O Pedro não brinca em serviço.

A vida é prosa

Tenho meia dúzia de livros de poesia. Gosto do som das palavras em inglês, parecem-me simples e primordiais. Tenho uns quantos livros do Eugénio de Andrade, o Alberto Caeiro, o Dylan Thomas e pouco mais. A vida é prosa. Soube isso no momento em que, na escola, me mandaram fazer uns versos em rima. Transpirei das mãos, escrevi e apaguei até fazer um buraco no caderno, mas nada me saiu, senão um par de frases mal conchavadas. E quando o professor me chamou à frente do quadro, gaguejei a minha incapacidade de contar histórias em poema. Fui de criança a adolescente, de adolescente a mulher, com esta vergonha na memória. Eis-me chegada aqui, ao instante em que as nossas existências se cruzaram, com a mesma consciência de sempre: a poesia tem segredos que eu não entendo. Não me vejo a dizer coisas que não sei o que são, não sei falar do amor com os requintes das coisas escritas em verso, com subtilezas das partes reservadas, dos lados claros de luz. Sou prosa, escrita da esquerda para a direita, em linha contínua.
Aquela manhã, de mãos transpiradas e papel rasgado, de rosto corado e o olhar complacente do meu professor primário, foi clara. O caos de sentimentos que fervilhava em mim jamais viria ao mundo como poesia. Existia um outro caminho, algures, à minha frente, no meu futuro. Engoli em seco a derrota. Voltei a engolir outras, conforme fui testando atalhos. Quis ser actriz e, em sonhos, vi plateias rendidas, mas quando me apresentei num concurso da Comuna, nem passei da primeira fase. Nem chegou a ser humilhante. Assim que entrei para as audições, não restaram dúvidas de que não fazia parte daquela tribo. Aquele excesso de emoções enojou-me, acentuou-me a timidez. E, uma vez mais, gaguejei a declamar um poema, do qual esqueci o título e as palavras. A voz só não me atrapalhou quando, no último ano do liceu, o professor de português me escolheu para dizer um poema de Alberto Caeiro. 17 anos inseguros, declamei as palavras que falavam da morte e do regresso da Primavera. Disse, sem perceber o profundo sentido do que dizia, que a Primavera viria com a mesma força, estivesse eu viva ou morta. As flores e as árvores não seriam menos verdes que na Primavera passada. Não tropecei em nenhuma letra, em nenhuma mudança de linha. Não sabia ainda que este era um daqueles momentos em que o destino nos mostra o futuro, nos diz o que precisamos saber. Cinco anos depois, no corredor da morte do hospital, a Primavera estava em força e eu não sabia se estaria viva para assistir ao seu regresso. E foi isso que me levou a abrir o caderno, a colocar a caneta sobre o papel para deixar fluir o turbilhão de emoções. Em prosa, antes que a chama se apagasse.

Debater o aborto

Um debate sério sobre a interrupção voluntária da gravidez está a ser travado na blogosfera. Aqui, por exemplo. E também aqui. Vale a pena acompanhar os argumentos de parte a parte.

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Concorrência institucional

Como já escrevi aqui antes, o Portal do Governo inclui uma secção especial dedicada à viagem oficial que o primeiro-ministro está neste momento a realizar. Chama-se "Missão China 2007" e, para além de decalcado (e em versão inferior) do espaço que o site da Presidência da República criou para a viagem oficial de Cavaco Silva à Índia, está a falhar na lógica da comunicação directa. A coisa prometia vídeos (só lá estão os iniciais, de Sócrates, Mário Lino, Manuel Gaffes Pinho, Teixeira dos Santos e companhia), entrevistas com os protagonistas e outros temas excitantes, como um blogue a emitir "entre 30 de Janeiro e 4 de Fevereiro de 2007", com "comentários e opiniões dos elementos da comitiva oficial ao longo da Visita de Estado à China". Até agora nada, zero, nicles. Se tivermos em conta que hoje já é dia 1 de Fevereiro, então temos uma pequena ideia da qualidade do dito site do Governo. É o que dá querer fazer tudo o que os outros fazem, ser muito moderno e depois é isto. Neste caso, em termos de sites e de secções especiais dedicadas a viagens não há mesmo comparação possível. Sócrates bem pode querer instituir a cooperação institucional a este nível, adaptando o modelo, só que os técnicos de um lado e do outro não têm nada a ver. Uns trabalham, os outros fazem "vistaça".

P. S. - O título também podia ser "descubra as diferenças", mas achei-o demasiado gasto.

História de algibeira (16)

D. Carlos I (1863-1908) foi o primeiro rei de Portugal a morrer de morte violenta depois de D. Sebastião, em 1578. Foi também um dos mais inteligentes e capazes reis do seu tempo, quando a Europa era ainda, com excepção da França e da Suíça, um conjunto de monarquias. (…) D. Carlos tinha 26 anos quando foi aclamado rei, a 19 de Outubro de 1889, e apenas 44 quando morreu, a 1 de Fevereiro de 1908. (…) Era um homem independente, sensato e corajoso, capaz de suportar grandes pressões e de tomar decisões arriscadas quando se impunham. Morreu por causa das suas qualidades, não por causa dos seus defeitos.

In: D. Carlos, por Rui Ramos. Colecção Reis de Portugal - Circulo de Leitor