quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Uma realidade inconveniente

A dignidade e qualidade de vida na velhice é uma questão sobremaneira pertinente nos tempos que atravessamos. E quando aqui refiro "velhotes", não falo do dinâmico e promissor “segmento de mercado” em gozo de generosas reformas antecipadas. Não me refiro a essa nova classe etária à qual se apelidou de “sénior”, com que se ilustra graficamente os anúncios de cruzeiros, viagra ou fraldas descartáveis. Refiro-me aos velhos-relhos, débeis e alquebrados, para quem até um mediano poder de compra não consegue disfarçar o sofrimento físico e psicológico ou o literal abandono a que são votados.
Bem sei que estes são os danos colaterais do progresso, do desagregar dos ancestrais modelos de organização social, das comunidades familiares alargadas, em paralelo com o aumento exponencial da esperança de vida - uma mistura explosiva. Esta “nova ordem” potenciou a formação de silenciosos exércitos de velhos dependentes, humilhados e rejeitados pela implacável vida “moderna”: uma adolescentocracia com as suas referências hedonistas, uma sociedade movida pelas aparências e pelo individualismo desregrado, que favorece o predador mais hábil, numa lógica antagónica à realidade e à estética da velhice.
Com um modelo de “família” reduzido à sua expressão mínima - quantas vezes transformada numa frágil e deprimente estrutura monoparental - a sufocar em utilitários favos suburbanos, pouca capacidade ou disposição lhe sobra para acompanhar os seus progenitores ou parentes na sua sensível e dolorosa etapa final.
O problema, longe de ser abstracto e teórico, é bem concreto e dramático, uma fatalidade que me tem saltado à vista com progressiva frequência nos últimos anos. Quando visito a minha mãe doente, ali para os lados da Almirante Reis, naquelas ruas da cidade arruinada, deparo-me com a sua população que tem a idade dos vetustos prédios em que habita. E ponho-me a pensar quem cuidará daquela gente perdida, que definitivamente já corre noutro campeonato...
Recentemente, numa incursão feita pelas Urgências do Hospital de S. José, impressionei-me com o panorama das dezenas de homens e mulheres, de olhar vago, doentes e desamparados. E quão diferente são aqueles seres, do mundo que nos vendem nos media, feito de modelos de juventude e eficácia, beleza e sedução... mas apesar disso retocados pelo fotoshop. E, para alem da imagem, quem conseguirá verdadeiramente colocar-se nos seus sapatos e perscrutar os seus sentimentos e anseios?
Sei de muitas instituições e pessoas que trabalham em regime de voluntariado perto desta população. Sei do papel decisivo das paróquias e das suas comunidades nesta urgente intervenção solidária. Mas também reconheço que o assunto é tabu, que ninguém o quer enfrentar, mas que urge ser amplamente debatido e denunciado. Nem que seja porque este problema social se adensará radicalmente nas próximas décadas, e porque nossa geração está nesse caminho, ali logo depois da contracurva, numa marcha constante e imparável.

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sábado, janeiro 26, 2008

Maria Clementina

Foi há muito, muito tempo por esta altura do ano que encontrámos a Maria Clementina abandonada numa ninhada de gatos. Voltávamos então para casa nós os cinco irmãos ainda pequenos, com a minha mãe, de regresso de uma tarde de brincadeira no Jardim da Estrela. A memória é vaga, mas lembro-me de que a bichana não abria os olhos, e que parecia desesperada com o seu miar débil e insistente. Apesar do aspecto raquítico foi escolhida pelo seu traje original: focinho rosado sob uma mascarilha branca, pêlo prateado com umas imaculadas luvas e botinhas brancas nas patas.
Acomodada numa caixa de sapatos, e sem parar de gemer, cedo o bicho chamou a atenção do meu pai no seu escritório. Terá sido assim, desviando a atenção da sua eterna leitura, que resmungou o seu primeiro voto de desagrado pela adopção. Voto que pairaria pesando por alguns anos sob a vida da gata e sobre a minha cabeça.
Foi à noite, connosco todos de pijama à volta da cama dos meus pais, que a minha mãe conseguiu injectar um pouco de leite com uma seringa de plástico na minúscula boquinha da gatinha. E foi nessa ocasião que nós a baptizámos de "Maria Clementina", ao que a minha mãe, com o seu peculiar sentido de humor, acrescentou o apelido "Joly Braga Santos". Este foi o polémico nome da gatinha, que tanto chocaria a nossa fiel mulher-a-dias, a Lídia, senhora de profunda religiosidade e tão ciosa do seu culto mariano.
Maria Clementina cresceu em sabedoria e graça, já que de tamanho nunca foi grande coisa. Fazia grandes e repentinas corridas pela casa fora, trepava paredes e cortinados, apanhava moscas com a patinha e rebolava enrolada na minha mão mordiscando-a com pequenos coices. Adoptei-a como minha, e com o tempo a propriedade foi-me reconhecida por todos, excepto pela própria: de sesta em sesta, saltitava de colo em colo e de noite para noite aninhava-se em diferentes camas, coisa que me deixava algo despeitado e ciumento. Mas lembro-me bem de ter assistido a várias Tardes de Cinema dominicais com a Maria Clementina ronronando aninhada nas minhas pernas cruzadas. Eu esforçava-me por legitimar a minha hegemonia e assumia o árduo trabalho de criar um felino naquele terceiro andar em Campo d’Ourique: tratava do caixote renovando a serradura e cuidava da sua alimentação, surripiando os mais apetitosos restos de comida e, sempre que se proporcionava, numa ida às compras, adicionava umas latas de Kitty Cat ao carrinho. Esses dias eram especiais, pois conquistava o coração da Maria Clementina, que enquanto eu suava a abrir a lata subia pelas minhas pernas, em sonoros roncos de prazer.
Mas o facto é que a gatinha vivia lá em casa numa semi-clandestinidade, e isso era uma sombra negra na minha vida, e penso que também dos meus irmãos. Após uma primeira rejeição pela parte do meu pai, Maria Clementina conquistou-o por um curto período, quando, graciosa e ainda bebé, fazia irresistíveis brincadeiras e jogos que só a uma besta poderiam deixar indiferente. O problema adensou-se com o tempo: a gata adquiriu o vício de arranhar os sofás, crescia e perdia o encanto. O pior era quando periodicamente era acometida por umas estranhas crises que chegavam a perdurar infindáveis dias, em que “uivava” autenticamente, arrastando-se languidamente pelo chão, indiferente às nossas zangas e chamadas “à terra”. Era o cio. Por essa altura a minha mãe caíra doente, situação que perduraria por muitos anos, e por grandes que fossem as fúrias do meu pai contra o bichano, nós as crianças nunca soubemos bem como lidar com tal situação.
Aconteceu uns anos mais tarde, quando a Maria Clementina lutava com uma feia doença na pele que o veterinário e eu não conseguíamos debelar. Foi numa tarde fria de Inverno pelas vésperas de um Natal qualquer, que aquilo que eu mais temia aconteceu. A gata, numa das suas incontidas correrias, deitou a árvore de Natal ao chão, e partiu umas peças de porcelana de que o meu pai tanto gostava. Nesse dia, quando cheguei a casa, já não ouvi a sua fúria insana que ocorrera minutos antes, só os choros reprimidos das minhas irmãs. Quanto à Maria Clementina, a bronca tinha sido a gota d’água e a sentença desta vez era irremediável.
A nossa gatinha, por ordem inabalável do meu pai, foi abandonada nesse dia na rua, ali para o lado dos Bombeiros. Ainda a vi refugiar-se assustadíssima debaixo de um carro estacionado. Era a sua primeira experiência de rua.
Durante muito tempo, confundi a pena que tinha do bicho com a pena que tive de mim. Durante muito tempo, quando passava naquela esquina da Rua Correia Teles com emoções contraditórias, procurava, incrédulo, sinais da Maria Clementina. Que afinal nunca mais deu sinal de vida.

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segunda-feira, dezembro 31, 2007

Sem fumo nos olhos

São muitas as vozes “esclarecidas” a vociferar contra a lei do tabaco que entra amanhã em vigor. Por vezes pressinto alguma caprichosa arrogância por parte dos resistentes fumadores, ameaçados na sua liberdade individual (?!) e cada vez mais entrincheirados no seu gueto.
Não pretendo discutir com os fumadores os malefícios ou virtudes do seu vício. Pela minha parte, como comprovarão os meus amigos viciados, sempre contaram com toda a minha "tolerância". Tenho cinzeiros em casa, e nunca troquei uma boa companhia à mesa por mais alguma sanidade atmosférica. É que, depois dos quase trinta anos que eu próprio dediquei à adição a fumos diversos, a minha consciência não me permite uma atitude discriminatória. Mas permitam-me aqui uma singela partilha de experiência.
Durante muito tempo a trabalhar na hotelaria habituei-me a gerir a (in) conveniência social do meu convicto vício de fumador. No entanto, chegado a meados de 2004 devido a uma reestruturação na empresa onde trabalhava, mudei de escritório e passei a partilhar um moderno e racional espaço comum. Ainda arranjei um cinzeiro "de pé" que eu próprio coloquei no patamar das escadas entre os elevadores. Estavam claramente comprometidos os meus rituais de prazer. Por exemplo, cada fugida para fumar, obrigava-me a interromper o que estava a fazer. Como se o “fumar clandestino” não fosse suficiente humilhação para um respeitável quarentão como eu, ali eu expunha-me democraticamente aos mais insolentes e bem intencionados reparos, por parte de toda a sorte de virtuosos colegas.
Sem argumentos válidos que justificassem o destrutivo prazer em visível decadência, cedi à “pressão social” e marquei uma data solene para a heróica mudança. Nas derradeiras semanas de contagem decrescente, fumei que me fartei! E foram tais as (más) expectativas criadas, que me surpreendi ao sobreviver aos primeiros dias de abstinência.
Durante quase um ano, fiquei com um feitio danado, quase me incompatibilizei com o mundo, com explosivas e injustificadas fúrias.
Agora tudo passou, e posso garantir que me sinto bem e que fiz o que havia a fazer. E confesso que há muito que o lado estético do consumo da nicotina me parecia no mínimo repugnante.
As consequências deste vício entraram-me pela vida a dentro, pois perdi os avós maternos ambos com enfisema pulmonar. Lembro-me dos obscenos e assustadores ataques de tosse que tornavam roxo o meu avô, ainda recém sexagenário. Morreu cedo e asfixiado.
Hoje em dia, quando acompanho a minha mãe nos seus pequenos passeios, deslocando-se lívida, em minúsculos e lentos passos, ligada por tubos a uma garrafa de oxigénio, sou capaz de me lembrar de alguns sagazes opinion makers da nossa praça. Quando vejo na cidade as inúmeras carrinhas de distribuição domiciliar de oxigénio, das empresas Linde ou Gazin, lembro-me desses que, levianos, reclamam o direito a infestarem-se de alcatrão e nicotina, da mesma forma como reclamariam outras fracturantes causas que a agenda da moda imponha. E com comprovada imaginação conseguem argumentar e justificar a sua funesta veleidade, como se de um direito se tratasse. O direito a morrerem lentamente, em profundo sofrimento e na total dependência dos outros.
Conheço alguns – pouquíssimos - sortudos que fumam descontraídos dois ou três cigarros por dia. Por compleição genética ou psicológica, são pouco vulneráveis a dependências. Mas esses felizardos não são regra e são os únicos que se podem alegremente rir de mim ou das minhas desventuras. Mas mesmo eles que o façam sem me atirar o fumo para os olhos.

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domingo, dezembro 30, 2007

Um bom ano!

Com mais um calendário em fim de vida útil, cheio de apontamentos, reuniões e lembretes, aniversários e recados, marcamos a passagem por mais uma etapa da nossa existência. Sem que eu seja grande devoto destas celebrações, também sou levado na onda dos balanços e balancetes. E constato que o ano que termina me foi particularmente pródigo. Assunto que assim deixa de o ser, já que como nos rezava David Mourão Ferreira n’ um “Amor Feliz” a felicidade não tem história. Mas tem, todos nós sabemos que tem. Mesmo que uma história dessas possa soar a pirraça.
E a inveja é uma coisa muito feia. E chega a ser perigosa quando vem daqueles que “não padecem” desse mal. Porque quem não sente não é filho de boa gente. Ou é esquizofrénico.
Pois então fica escrito que eu sou “em geral” muito sensível a toda a sorte de sentimentos, humanas inseguranças e desejos, dos mais luminosos aos mais obscuros.
Duvido sempre de quem se proclama democrata, justo, ou sincero. Eu, por mim sei o que custam tais atributos. Depois, com tantas emoções, aprendi à minha custa que o inferno não são os outros, ele quando arde é dentro de nós. Corrosivo e demolidor se não for bem tratado pela razão.
Mas acreditem que sobrevivo relativamente em paz, apesar de tudo. Aprendi a viver com a efervescência de tantas e contraditórias energias. Que esse é o preço de viver uma vida inteira. Até conviver com o terrível medo, ameaça constante ao livre arbítrio, mas que finalmente nos pode salvar, à beira de um precipício ou a atravessar a avenida da Liberdade.
A vida ensinou-me a temer quem se embandeira ao mundo todo puro de coração. Pior do que ser imperfeito é desconhecermos o quanto o somos. Sem nunca perscrutar as nossas motivações. E depois, só não tem ciúmes quem não ama. Quem nunca dá o peito à conquista. E afinal, para essas inegáveis maleitas da vida, basta aplicar um pouco de juízo.
O meu 2007 fervilhou de histórias e emoções. Com gente a palpitar lá dentro e com tudo o que isso implica. E foi um bom ano, graças a Deus.

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domingo, dezembro 23, 2007

Presentes de Natal


Há por aí um discurso simplista no qual facilmente se confunde consumismo e opulência com a benigna tradição do presente de Natal. Nesta quadra também me parece importante evidenciar a nobreza que possui a materialização do nosso amor ou caridade num objecto, um “presente” (que nos tornará presentes) desejável pelo próximo. Oferecer um presente a alguém – de quem nos desejamos (re) aproximar ou simplesmente homenagear, será com toda a certeza uma atitude de uma enorme dignidade. Essencial é não confundir a dádiva de um presente com marketing pessoal ou com alienação da realidade; fazê-lo bem é aliás uma arte muito própria que requer imaginação, e (o que é mais importante) uma grande capacidade de nos colocarmos na pele do outro, o mesmo é dizer de “amá-lo”.
Durante uma boa parte da minha vida o Natal foi festejado sob o pressuposto da celebração religiosa do nascimento do menino Jesus. E lembro-me com comoção de alguns presentes que, estou certo, eram muito mais do que simples objectos, e que terão sido verdadeiros actos de amor. Do meu saudoso pai - desajeitado sonhador e insigne investigador de minudências históricas, quase sempre exasperado com o seu crónico desconforto material - recebi alguns deles, como o incontornável Táxi Dinky Toy pintado a verde-e-preto pela sua mão, ou aquele álbum dos Marretas, uma sua diligenciada tentativa de convergência com o rebelde adolescente, com direito a dedicatória escrita e tudo.
Na avenida da Liberdade, na casa dos meus avós maternos, de costumes mais liberais e na época com alguma prosperidade, só depois da solenidade da Missa do Galo nos juntávamos todos a preceito aos meus tios e respectivos primos, para a ceia e distribuição dos presentes. A minha avó, personalidade única de vigor e simpatia, preparava o momento com enorme empenho: por exemplo, as diferentes cores das colecções de embrulhos e embrulhinhos distinguiam a família destinatária dos mesmos. A casa grande e de tectos altos estava quente e iluminada como nunca, cheirava a cera de velas e chocolate quente. Um presépio sóbrio onde se destacava um menino Jesus de braços abertos encimava a elegante cómoda grande da sala. A um canto a grande televisão a válvulas transmitia ainda o final das celebrações em directo da Sé de Lisboa, à qual assistira a minha bisavó Valentina, mãe do meu avô e padrinho, e que da varanda daquela sala quase ao cimo da avenida, testemunhara as mais equívocas revoluções e intentonas do conturbado início do século. Àquela hora a pequena senhora de cabelos ralos e prateados ainda resistia aos anos e ao sono. E da sua poltrona de veludo verde escuro testemunhava mais um renovado Natal. Muitos presentes recebidos nesses Natais marcaram a minha relação com aquela casa. Tornaram os seus protagonistas presentes no meu coração para sempre.
Ontem, quando estava a fazer as últimas compras de Natal, ao escolher “aquela” carteira especial para a minha mãe ou aquele blusão “radical” para a minha enteada irreverente, senti uma infantil ansiedade, pela hora da festa e ocasião para distribuirmos aqueles presentes tão “especiais” para a nossa gente tão querida.
É por estas razões que defendo o ritual do presente de Natal, que deveria conter um sentido profundo e cristão, o do reencontro dos homens de boa vontade: um autêntico tributo ao Nosso Senhor e Salvador, que nesse dia se nos apresenta como um frágil e radiante menino, que para nossa realização e felicidade deveríamos saber manter sempre vivo dentro de nós.

A todos os leitores e amigos do Corta-fitas aproveito para aqui deixar os meus sinceros votos de um muito feliz Natal.

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quarta-feira, novembro 28, 2007

A má educação

Parece-me de quase total ineficácia a catequização da moral cívica oficial, pregada pelo regime no ensino escolar. Sei por experiência própria os resultados práticos das “lavagens de cérebro” efectuadas aos miúdos, massacrados desde a creche pelos bons princípios do amor à natureza, do amor à reciclagem e à solidariedade universal - bem mais bombástica e fácil do que a mesquinha e concreta “caridade” (palavra maldita) doméstica.
Sempre me pareceram deprimentes aquelas festas das escolas dos nossos miúdos (tenho em casa quatro saudáveis exemplares) em que as criancinhas, sob o olhar nervoso e cúmplice do pedagogo, ao ritmo duma dança étnica qualquer, apontam os ensaiados dedinhos aos progenitores babados, acusando-os pelo racismo ou a fome existentes no mundo... Ou no Natal aqueles bem intencionados presépios vivos, em materiais reciclados, ao som dum hino à “solidariedade”, em karaoke, contra a injustiça global. Incrédulo, ouvi os meus miúdos, chegados à 2ª classe, declamarem durante meses a "roda dos alimentos", também pintada a lápis de cera numa enorme cartolina. Isto até à próxima indigestão de chocolates ou gomas. Quanto ao seu amor à natureza, estamos conversados: sempre que nos distraímos, os higiénicos rotineiros “duches” dos miúdos dão para encher uma piscina municipal. Mais; há infindáveis anos que todos os dias de todos as semanas lembramos os adoráveis petizes para desligar as luzes que se acendem magicamente por onde passam. Quanto à propalada solidariedade é o que se sabe: basta observar atentamente a miudagem à pêra no recreio, a fanarem os cromos uns dos outros ou a gozarem até à náusea o mais fragilizado colega. Lá em casa, se não houver uma “ortopédica” voz de comando, bem vejo como funciona esse solidário cívismo principalmente se isso implicar o sacrifício dum interesse pessoal. Até a nossa mais pequenita, na hora de pôr a loiça na máquina, já aprendeu a refugiar-se “aflita” na casa de banho. Os irmãos, que não gostam de passar por otários, rapidamente reclamam, e lá se vai a preciosa harmonia no lar.
A batalha da “educação” trava-se principalmente em casa, e depende, além das referências do meio, da persistência e do exemplo categórico dos pais. Na escola, de onde Deus foi definitivamente banido, ensina-se o Mundo de acordo com a cartilha do regime. Na política, o que é importante é a ilusão de que vamos mudá-lo, amestrá-lo, mesmo que saibamos como desde sempre esse Mundo teima manter-se imutavelmente desconcertante, à imagem dos seus protagonistas.
É fácil arguir contra a violência ou injustiça, queimar automóveis e partir as montras na rua em prol da harmonia no mundo. Difícil, difícil, é olharmo-nos com humildade cristã para melhorarmos o pouco que seja em nós mesmos - a única fórmula para benignamente influenciarmos o nosso pequeno meio. Organicamente. Mas essa tarefa, tão anónima quanto imensa, quase sempre esbarra com o nosso orgulho e interesse imediato. Para nos revolucionarmos “por dentro” quase sempre somos demasiadamente comodistas e dificilmente encontramos uma motivação peremptória. E cristalizamo-nos a um passo da verdadeira redenção, e a verberar contra os outros, contra o Mundo tão injusto, num acto de desesperada catarse.

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quinta-feira, novembro 22, 2007

O binóculo de Mário Prata

A Leonor Barros fez-me este desafio no excelente blogue Geração Rasca. Repto aceite: passo a falar de uma crónica de que gostei muito.


Há quem espreite o mundo por um microscópio. Há quem prefira um telescópio. E houve aquele fotógrafo interpretado por James Stewart no filme de Alfred Hitchcock que observava a vizinhança pela tele-objectiva da sua máquina. Porque não ver o que se passa à nossa volta com um vulgaríssimo binóculo? Esta é a premissa aparentemente banal de Binóculo, uma deliciosa crónica-quase-conto de Mário Prata, inserida na colectânea Boa Companhia: Crónicas, editada pela Companhia das Letras (São Paulo, 2005).
Escrita na primeira pessoa, como mandam as boas regras quando se pretende estabelecer um clima de intimidade com o leitor, esta crónica mostra-nos bem a destreza e a plasticidade da língua portuguesa quando é usada no outro lado do Atlântico: “Claro que quem dá um binóculo para uma pessoa como eu, solteiro e rodeado de prédios e janelas tentadoras e indiscretas, tá mais a fim é de me ver procurando mulher pelada. Todo mundo sabe que a única finalidade do binóculo é o peito nu da vizinha. Foi inventado em 1645 com essa primordial finalidade.”
A vida do cronista, tal como a do fotógrafo de Hitchcock, não voltou a ser a mesma. “O que seria daquela janela sem o binóculo?” Somaram-se surpresas: a empregada do oitavo andar do prédio da frente, por exemplo, “além da falta de um canino, tem um joanete descomunal”. Ao contrário do “felicíssimo casal gay da direita, 3º andar”, a vizinha de cima “tem sistema nervoso, como diria a minha empregada”: o cronista surpreende-se por haver “ainda algum prato na casa dela”. E há “a loiraça do décimo primeiro”, de aliança no dedo, em parceria acelerada “com o desempregado do quinto, também de aliança”. O dono do binóculo acredita que não tardará a acontecer alguma coisa: “Mulher, quando ri muito das besteiras dos homens, está a um passo de perguntar o horóscopo, o que, como você sabe, é propor eminente e iminente sacanagem.”
Tudo vai bem até que descobre o adolescente do 11º, da direita, com “uma fantástica luneta” virada para a sua própria janela: “Eu aqui escrevendo e o garoto lá, me olhando. Vai virar cronista, quando crescer.”
Mário Prata, de 61 anos, é romancista e autor de argumentos para televisão, teatro e cinema. Durante mais de uma década, assinou uma crónica no diário O Estado de São Paulo. Releio Binóculo e interrogo-me: quantos escritores portugueses seriam hoje capazes de escrever um texto destes, com tanta graça, desenvoltura e perfeito domínio do idioma?

E passo agora a bola ao Luís Naves, meu parceiro de blogue. Para que também ele nos fale de uma das suas crónicas favoritas.

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sábado, novembro 17, 2007

Tributo à Bolacha Maria

Composição: Farinha de trigo, açúcar, gordura de palma, xarope de glucose, água, emulsionante, (lecitina de girassol), sal mineral, levedante químico (bicarbonato de sódio), agente de tratamento de farinha (metabissulfito de sódio) e glúten.
Valores nutricionais por 100 g: Valor energético: 1779KJ (421 Kcal) Proteína: 6,8g Glícidos 78,9 g, Lípidos: 8,7g.



Ainda as comprei ao quilo envoltas em farripas de papel, dispostas em caixas de cartão. Naquele tempo, pouco antes do advento dos supermercados, já havia uma variedade enorme de bolachas, em saquetas ou a peso. Vendiam-se numa qualquer mercearia ou charcutaria de bairro. Com recheio, sem recheio, d’Araruta, de Baunilha, Belinhas, Torrada, de Areia, Água e Sal, Línguas de gato, de veado ou da sogra, etc., etc., etc.
Mas as “bolachas” mais “bolachas” de todas; mais saborosas e que porventura eu levaria para uma ilha deserta - juntamente com os meus CDs e livros preferidos - seriam sem dúvida uns quantos pacotes de “bolachas” Maria... (e uns litros de refrigerante para desembuchar, s.f.f.).
Lembro-me em pequeno quando comprava quinze tostões delas na mercearia da Sra. Natália, que m’as aviava profusamente num cartucho de papel pardo. Sabia melhor e satisfazia bem mais do que um rebuscado e módico bolo da pastelaria do Sr. Manel ali na outra esquina. Depois ainda tinha que as comer avaramente, à pressa, num recanto escuro das escadas do prédio, subjugado pela gula - para não ter que as repartir com os meus insaciáveis irmãos.
A Bolacha Maria é uma receita simples de enorme sucesso. Por mais que se inventem mais variedades, bolachas mais finas ou sofisticadas, a previsível Bolacha Maria nunca enjoa, cai sempre bem. Por exemplo, ao lanche sabem tão bem aos pares, com uma redundante porção manteiga de entremeio, acompanhadas com um chá quente ou uma laranjada fresca.
Num mundo pleno de imprevistos, novas experiências, radicais performances, jornalistas de causas, cozinha de fusão ou apenas nouvelle; cheio de modas e novos conceitos, experimentais ou definitivos, novíssimos softwares e hardwares, mais às suas actualizações, online ou offline... é muito reconfortante saber que existem algumas sensações previsíveis, experiências que não mudam, sabores resistentes e imutáveis.

Raios partam esta ingrata dieta... que exacerba o meu apetite, e que mal resiste a uma frugal escapadela... ali ao armário da cozinha.

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quinta-feira, novembro 15, 2007

Sto. António dos Olivais

É verdade que passei uma boa temporada em Coimbra, vivi em Sto. António dos Olivais. Lembro-me que ouvia Lloyd Cole de mais, e que um dia uma bem intencionada alma me ofereceu um gatito siamês para minha salutar companhia. Acho que o animal chegou demasiado crescido às minhas mãos, já elegante e lustroso. Desde então tentámos com afinco domesticarmo-nos mutuamente, mas a causa era perdida - foi curta e inglória a sua passagem na minha vida. O bichano, além de não me ligar peva, possuía uma estranha extravagância: subir às arvores que não sabia descer. Uma noite, de madrugada, acordei estremunhado com os seus miados aflitos. Espreitei ensonado para o quintal, e lá estava ele, empoleirado num tronco da alta árvore. Na noite seguinte ao chegar a casa, àquela pacata rua de província, o gato lá permanecia, balanceante, num ramo ainda mais alto e mais frágil, com um miar mais sonoro e desesperado. Pressenti os olhares estremunhados e recriminatórios dos meus vizinhos, ocultos pelas suas térreas gelosias. Ao terceiro dia, finalmente entrou em casa despenteado, rouco e a coxear. Dei-lhe uma reconfortante refeição, e nessa noite ambos dormimos um sono profundo e retemperador.
Que eu me lembre, a cena repetiu-se mais duas vezes. À medida que o tempo passava, o bicho subia mais alto, para os mais frágeis e trémulos ramos, ao nível de um segundo andar. O pânico da vertigem impelia-o para o alto. Atirei-lhe com pinhas, chamei os bombeiros, a situação era desesperada. Até que o gato caía de maduro, pelo cansaço ou pela força do vento.
O bicho era bonito. Olhos verdes claros, por detrás duma mascarilha castanha a condizer com as botas e luvinhas, sobre um pelo sedoso bege claro. Uns dias mais tarde o bichano desapareceu. Foi algum incauto forasteiro que o roubou, atraído pela fidalga figura do estúpido animal. Ou então um vizinho mais zeloso lhe deu um curativo fatal. Para bem da boa vizinhança.
Demorou algum tempo mais para que eu próprio, pelo meu pé, descesse da minha árvore.

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segunda-feira, novembro 05, 2007

Fora de série (13)

Há poucos anos, com o advento do DVD, recuperei cá para casa o humor rock n’ roll d' Os Marretas, que já no final dos anos setenta aligeirara o fosso geracional na casa dos meus pais, juntando toda a família ao serão dos Domingos. Essa meia hora mágica situava-se entre a costumeiro jantar de suculento frango assado e a acabrunhada preparação da nova semana de aulas que ameaçadoramente despontava.
“Os Marretas” foi uma genial série de televisão americana estreada em 1976 da autoria de Jim Henson e sua trupe de prazenteiros manipuladores e criadores de bonecos. Jim Henson, que nos deixou prematuramente em 1990, já tinha no curriculum a colaboração regular dos seus bonecos no prodigioso programa educativo Rua Sésamo desde 1968, e desde 1961 num obscuro show humorístico "Sam e os Seus Amigos" onde já pontificava um simpático boneco “peúga”, talvez a génese do celebradíssimo sapo Cocas.
A inconcebível colecção desta mágica fábrica de "fantoches" num frenético ritmo rock, às vezes bem psicadélico, foi crescendo em tamanho e graça: do minimal felpudo “fole” dançarino, da peúga falante ao urso Fozie - o inseguro aprendiz de comediante, passando pelo caótico Gonzo e toda a sorte de animalejos e objectos.
Naquela desregrada "companhia teatral” todos os personagens - e alguns dos adereços - têm vida e personalidade muito próprias. Podemos ver umas alegres Couves e outros legumes a dançar folclore polaco, os ratos, baratas e demais bicharada residente a exigir um aumento de cachet ao sapo Cocas, o inabalável director e apresentador daquela literalmente explosiva empresa. Este tem como braço direito o influente moço de recados Scooter, sobrinho do dono da sala de teatro. E que dizer dos velhotes Statler e Waldorf, sempre teimosamente insatisfeitos, no alto do seu camarote? E do Sam, a moralista e inquisidora águia americana?
Durante os endiabrados espectáculos, Cocas lá vai mantendo a calma no meio do caos, mantendo o alucinante ritmo das variedades, sempre com um convidado (muito) especial. Entrevistou por exemplo Julie Andrews, enquanto a troupe do Canhão Humano se preparava para disparar uma vaca (verdadeira). Salva-a do expulsivo destino Gonzo (enigmática espécie animal) que negligenciando a sua bem amada Camila (uma galinha) enamora-se arrebatadamente pela vaca com quem desaparece para um jantar romântico. Em abono da verdade, tartes espetadas na cara, trambolhões e violentas explosões num humor assim “inteligente” apenas encontrei nos "Monty Python" e n' "Os Marretas".
Do sapo Cocas ao jazzístico e imperturbável saxofonista Zoot, todos os personagens possuem um sólido carácter e profundidade “humana” (?!), expressa com mestria no desenho, voz e manipulação daqueles inimagináveis bonecos, de cores mirabolantes de olhos piscos e desmesuradas bocas. O humor nonsense impera n’ "Os Marretas", a par com os convidados especiais ao momento “na berra” do Show Business. E música, muita boa música Jazz, Folk e Rock n’ roll, numa impecável interpretação da extraordinária banda residente liderada pelo Dr. Teeth nas teclas, com o Monstro na bateria, o Floyd à guitarra, e a doce Jenice a cantar, por entre os minimais solos de saxofone de Zoot. Um verdadeiro tributo à boa música popular. Ou também à música erudita, pelas patas do carismático Rowlf, o cão pianista. É obrigatória uma referência à Miss Piggy, que nunca me seduziu por aí além. Talvez por sempre me ter parecido uma personalidade demasiadamente colada à de tantas caricaturas vivas da existência real.
Foi com "Os Marretas" que consegui detectar o pezinho maroto do meu pai, no alto do seu sofá, a bater o ritmo do rock mais pesado. E a rir-se à gargalhada com os chavões dum tempo que definitivamente já não era o dele. Talvez por isso, eu tenha promovido em casa, com os meus miúdos, o culto destas fabulosa série. E que obteve uma adesão incondicional, o que confirma que o bom gosto é mesmo intemporal.
À parte das “longas metragens”, onde nunca consegui vislumbrar a qualidade dos curtos episódios temáticos (ou não) para a TV, estão disponíveis no mercado algumas colectâneas ou programas especiais que são autenticas preciosidades, hinos à inteligência e à gargalhada salutar. Aconselho vivamente, por exemplo, a Gala Especial dos 25 anos dos Marretas, onde se encontram juntas algumas das mais singulares e históricas pérolas do sapo Cocas e companhia.

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segunda-feira, outubro 29, 2007

Crónica alternativa do Corta-Fitas

O Pedro Correia, ao comparar o sucesso dos inquéritos ao Tratado de Lisboa com o das miúdas da TV, afirma a vocação tablóide do Corta-fitas. Não desfazendo, confesso que também tive dificuldades em dar uma opinião convicta ao questionário sobre o dito documento. Para mim é-me muito mais fácil despejar num clique o meu wishful thinking no inquérito para futuro campeão da bola. Mais aprazíveis que os questionários “da bola” só mesmo os passatempos que versam mulheres bonitas.
Não tenho a certeza dessa vocação tablóide para o Corta-Fitas. Mas parece-me evidente que os blogues, no seu formato enrolado de diário, posicionam-se como uma espécie escrita de irresistível reality show. Mesmo ao acompanharmos as mais inócuas preocupações políticas das mais ou menos consagradas figuras blogosféricas, envolvemo-nos sempre num atmosfera folhetinesca, com o seu quê de sedutora bisbilhotice. Como num romance, onde até às vezes se admite a intromissão do leitor, numa tentadora caixa de comentários.
Depois há o Corta-Fitas, que, com os seus decorosos escrevedores, mais ou menos empenhados em dizer (e mostrar) coisas interessantes. Figuras pouco públicas, imaginam-se com dificuldade os seus privados perfis. Será a cfa, uma tronchuda matriarca, portuguesa de Ranholas, com ambições secretas na concelhia do MRPP da Amadora? Ou o Duarte Calvão, figura esguia e calva, fumador de cachimbos d’ água, com as suas longas barbas tisnadas de trotskista? E o Luís Naves será na realidade o verdadeiro fidalgo contemporâneo, culturista de corpo e de espírito, um desprendido místico, amante de numismática e de tragédia antiga?
São estes enigmáticos escribas que debitam diariamente pérolas quase literárias para consumo imediato, e que alimentam a voracidade dum milhar de leitores diários. Pois no Corta-Fitas também há Sportinguistas e poetas. O João Villalobos, antigo jogador de rugby, é as duas coisas e consta que percebe de vinhos, ciência que não partilha com ninguém. Dizem as más línguas que após o ultimo congresso do PSD da Póvoa, desiludido com a política nacional, fez uma sesta sabática, que o inspirou a mudar de gravata.
Por seu lado, a Maria Inês de Almeida e a Isabel Teixeira da Mota têm assumido progressivamente estéticas antagónicas: Maria Inês burila os seus agradáveis textos de tonalidades sólidas e transparentes. E de facto, não dá ponto sem nó. A Isabel ao que se vê, nem uma coisa nem outra, nem dá ponto nem dá nó. Que saudades.
E depois há a Miss Pearls, elegante trintona oxigenada que por aqui abriu uma sucursal da sua joalharia de estilo – o negócio corre-lhe tão bem que há algumas semanas que não põe aqui os delicados pés.
Depois existem o Pedro Correia e o FAL, editores de política nacional por profissão, coisa que lhes confere uma natureza mais anacrónica que a um monárquico católico como eu. Alvíssaras aos dois rapazes que garantem publicidade ao blogue, principalmente quando a generosa agenda política se agita. É à boleia dessas oportunidades que todos ganhamos um ar de “gente séria” e de causas elevadas, mesmo sabendo todos nós que o país está perdido. Serviço público, enfim. Finalmente há quem prefira as crónicas da Teresa Ribeiro, a nossa garçonne de boina guerrilheira, extremosa frequentadora da cinemateca em Lisboa e estandarte das mais fracturantes causas.
Uns almoços e jantares bastante ficcionados vão alimentando o mito desta gente catita e galharda, que no Corta-Fitas esgrimem em diferentes direcções, diferentes sermões para freguesias distintas. Todos diferentes e em nada iguais. Como aquele grupo que se encontra demoradamente e por mero acaso numa paragem de autocarro, durante uma tempestade. E aprendem a tolerar-se, às tantas com desconcertante simpatia.
Ou se calhar afinal nem existimos: somos todos personagens de fantasia, mera ficção. Em todo o caso, caros leitores, voltem aqui amanhã, à cata de mais um pequeno texto, um imodesto vitupério ou apenas uma rocambolesca crónica. Para anuir, contraditar ou mesmo agredir com um anónimo e incisivo comentário. Voltem só na tentativa de completar um pouco mais este humano e desconforme puzzle, para que o show pareça cada vez mais real.

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sexta-feira, outubro 26, 2007

Um epíteto equivocado

Nas caixas de comentários do Corta-fitas são recorrentes provocações maliciosas que me atribuem um carácter puritano ou moralista. Por achar o epíteto francamente estranho e até um tanto engraçado, tomo-o aqui como desafio a algumas considerações que julgo pertinentes.
O puritanismo como putativo reflexo de uma vivência religiosa é um cliché vazio, posso garanti-lo. Tomo, na verdade, o puritanismo como um modo de autocastração com origem numa deficiente auto-estima, e muito aquém, aliás, de uma inspiração religiosa, qualquer que seja. Nessa perspectiva, o epíteto é ingénuo ou imanado de má-fé, pois o cristianismo não significa uma conduta moral. Ao contrário, essa ética resulta do contínuo aprofundamento da vivência espiritual apontando, por natural consequência, para uma maior exigência estética e, logo, ... moral.
Esse longo e intrincado percurso de aprendizagem e aperfeiçoamento é construído com as contingências subjectivas de cada indivíduo e sua história pessoal, não sujeitável a tribunais mundanos ou a juízos superficiais.
Assumem-se porventura os cristãos como os mais imperfeitos dos homens, tendo sido a estes que Jesus desejou acolher, “incluir”, como agora se diz. (Não deveríamos antes recear os integralíssimos virtuosos que por aí pululam, alienados de si próprios e da realidade, utopicamente empenhados em mudar o impassível “mundo” à sua volta?)
Voltando aos meus presumidos pudores e puritanismos, tenho a sorte de ter crescido numa família tradicional e sem “complexos” de maior. Se me foram transmitidos com veemência valores morais básicos, também me foi transmitida uma tranquila vivência dos assuntos do sexo e da sexualidade. Por outro lado, o meu desenvolvimento nesse campo não me trouxe qualquer trauma digno desse nome, o que me confere uma vida afectiva gratificante.
Considero-me uma pessoa inteiramente normal: vivo, cresci e actuo neste agitado contraditório e apaixonante mundo, sem fugas, em estrita relação com a realidade, como a maioria dos católicos que conheço. E foi de pequeno que aprendi a apreciar a vida, a beleza, em toda a sua acepção, até como reflexo da divina criação. Sem desnecessárias complicações moralistas. Não, não foi na rua que apreciei as primeiras imagens eróticas. Nunca a mais inquietante beleza feminina me foi apresentada como transgressiva. É que, por detrás da mais espampanante ou provocadora modelo fotográfica, por detrás da mais curvilínea actriz de cinema, há sempre uma pessoa inteira.
Finalmente, apetece-me dizer que antes do advento dos neo-moralistas de inspiração freudiana e da da prosélita “inteligentzia” regimental, havia já uma tradição de boa-educação e de bom-senso.
Mesmo para além (ou aquém) da religião. Não misturemos, pois, as coisas.

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domingo, outubro 21, 2007

Um postal do Ruhr

Em Essen, venho encontrar uma gente com aspecto duro e de sorriso avaro. A vida nesta terra até é muito "em conta", com os preços quase como os de Lisboa. Chuvisca e já faz muito frio.
Ontem tive tempo para visitar o centro da cinzenta cidade, que emerge dos densos bosques do Ruhr. Nestas paisagens podemos imaginar os mais misteriosos contos de fadas e de princesas abandonadas por maléficas bruxas de chapéu em bico. Em Essen, com a sua arquitectura bem planificada nos anos 50 e 60, o que mais me despertou curiosidade foi a monumental Sinagoga (na imagem) construída no principio do século XX pela então próspera comunidade judaica. Hoje totalmente restaurado do grande incêndio e das pilhagens de 1938, este majestoso templo com os seus imponentes portões ferrados a cobre, sobreviveu miraculosamente aos intensos bombardeamentos dos aliados. Lá dentro encontrava-se uma impressionante exposição sobre as perseguições aos judeus no regime nazi. Durante a minha visita, uma turma de animadas criancinhas da primária circulava pelo edifício em pequenos e saltitantes grupos, naquilo que me pareceu um jogo, tipo “pedi-paper”, num aparente descomplexado convívio com os buracos negros da sua história.
Durante os três dias da Feira que me aqui trouxe, foram revigorantes as caminhadas ao frio da noite, do centro de congressos para o hotel, numa estrada por entre o sombrio parque florestal. Durante estas longas tiradas, logo despontava um saudável apetite para um merecido e reconfortante jantar. Hoje, por exemplo, foi a vez de manjar um belo naco de ossobuco com cogumelos selvagens, regado por uma saborosa cerveja gelada. Não há dieta que resista a uma contrita missão no meio dos bárbaros!
É já amanhã, segunda-feira, pela fresca, que regresso no rapidíssimo ICE directo a Frankfurt, onde, se Deus quiser, tomarei o avião de volta à “terra”. Já com saudades do nosso “pequeno mundo”.

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segunda-feira, outubro 15, 2007

A questão religiosa

Ao navegarmos pela blogosfera surpreende-nos como a velha querela jacobina contra as instituições católicas está actualmente tão encarniçada. Parece que a blogosfera funciona como uma camada submersa do discurso político, um tubo de ensaio da retórica oficial, na experimentação de novas receitas ou atalhos na senda do poder redentor. Neste campo de batalha virtual, que abrange ainda uma franja pouco representativa da sociedade, o discurso assume-se mais irresponsável porque menos consequente. Outra constatação é a de que os novos "mata-frades" são hoje insaciáveis neo-liberais, de proveniências ideológicas obscuras, ou simplesmente da tradicional esquerda "pouco sociável". Se não for por isso, custa-me a entender a patológica fixação que a cristandade exerce sobre a tirânica e inquisitorial inteligenzia regimental.
Mas no campo da batalha política real, nos media massificados, a propaganda anticlerical e a assunção da sua ancestral antipatia pela instituição católica ganha também novo fôlego, encontra hoje um terreno mais fértil: a religião não tem boa imprensa e a nova burguesia urbana está ressabiada com as suas origens, ofuscada com as cintilantes luzes da cultura shopping, onde não há noite, não há dúvidas e não há “ser”. Definitivamente o sentimento religioso mostra-se um comprovado empecilho à afirmação da auto-suficiência do comum dos mortais e para uma vida orientada para o prazer ou, mais genericamente, para o "mais fácil". O secularismo hoje mostra as garras, num ímpeto de que não há memória.
Não tenho dúvidas de qual é o ancestral desígnio jacobino. Só por ingenuidade ou má-fé alguém não entende que a luta da religião católica, hoje como ontem, sempre foi pela sua sobrevivência. Mas esquecem os seus inimigos que nessa matéria a Igreja, com todos os seus defeitos e virtudes, tem séculos de experiência. A radical proposta de Cristo é por natureza incómoda e inquietante, um “Calcanhar de Aquiles” para as prioridades mundanas e relativismos axiológicos ou meramente instrumentais. Uma mensagem de Amor que lhe confere uma força inabalável para qualquer nova cruzada.

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quarta-feira, outubro 10, 2007

Uma boa causa

Poucos dias passados sobre o cinco de Outubro, e com um estranho sentido de oportunidade, André Abrantes Amaral surpreendeu-nos com um texto no Insurgente arrogando a inviabilidade da monarquia e onde vitupera os monárquicos portugueses.
Tenho a dizer que compreendo alguns dos argumentos apresentados. Como o André, eu reconheço que o sistema monárquico sempre foi mais maltratado pelos próprios simpatizantes do que pelos seus opositores. A primeira razão sempre foi a sua manifesta incapacidade de pragmatismo e unidade em torno do "fundamental". Depois sempre houve o frívolo ruído oriundo do típico “marialva” ou pseudo fidalgote “de bigode retorcido” ansioso dum estéril protagonismo social. Tudo gente simpática aos poucos mas activos jacobinos da nossa praça.
Também sou forçado a concordar com o André, que os desafios práticos e concretos da realidade portuguesa, o nosso endémico atraso cultural e económico, a mentalidade paternalista, dificilmente seriam resolvidos pela simples deposição da república.
Mas acontece que, como diz o André, a república em Portugal nasceu de um equívoco. E a mim parece-me que há demasiado tempo que fazemos tábua rasa a demasiados equívocos. E, impassíveis, adulteramos a nossa história, mascaramos o presente e comprometemos o futuro.
Assim, não me parece sábio que se deixe cair o ideal monárquico, mesmo que ele aparente ser despropositado. Poucos anos antes do regicídio, a monarquia aparentava fimeza, os republicanos eram apenas uma franja marginal no palco político. Mas as agendas da história reservam-nos sempre espantosas surpresas.
Por mim, parece-me que somos um povo confuso nos valores e uma sociedade sem referências. Um país cujas cidades ostentam os nomes de Elias Garcia e Cândido dos Reis (quem conhece as suas obras?) nas suas mais importantes artérias. Um país que só no futebol descobre os seus símbolos é um país sem alma, em deficit de identidade. Confundido, estéril. Os símbolos de uma nação inspiram a ética e um ideal comum...
Finalmente, também concordo com o André que a discussão da “monarquia” poderá ser “bafienta”. Assim sendo, cabe então a nós elevar-lhe o nível! Estranho por exemplo, como num pais pretensamente civilizado, tardam em assumir-se núcleos de monárquicos nos partidos políticos. Custa-me a perceber de que se escondem os tão valorosos (e conhecidos) simpatizantes monárquicos na vida pública nacional. Será bafienta cobardia, ou apenas medíocre calculismo?
A monarquia é um assunto sério, e eu acredito que pode comportar a regeneração nacional. Para já, cabe à minha geração não deixar morrer a discussão, antes revitalizá-la, enriquecê-la. A largueza de perspectivas só pode beneficiar o pais, sem prejuízo da gestão corrente do Portugal possível.
Pode ser amanhã, na próxima geração ou daqui a duzentos anos. A monarquia constitucional, é um sistema intemporal e civilizado, é um ideal legítimo e patriótico. Preparemo-nos para o são e sério debate, pois a res publica merece e oportunidades não faltarão nos próximos anos.

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domingo, outubro 07, 2007

Um passeio em família

Às vezes temos que forçar a barra e arrancar a família inteira de casa para um programa cultural. Tendo crescido em Lisboa, sempre convivi quase organicamente com a história e os seus monumentos. Agora que vivo no Estoril, num agradável ambiente misto de balnear e suburbano, esse relacionamento mudou. Conhecer e dar a conhecer o património histórico tornou-se uma tarefa. Aqui, sem a nossa intervenção, para além de meia dúzia de excursões escolares, tipo "museu do brinquedo", os jovens correm o risco de chegarem à maioridade apenas conhecendo a praia, o liceu e, vá lá, as arcadas do Estoril.
Vivemos a dois passos do sopé da Serra de Sintra, e há algum tempo que arquitectava uma visita familiar ao Palácio da Pena. Eu próprio não me lembro de alguma vez ter lá entrado. Para mais há alguns anos que a minha leitura encalhou no século XIX, e muitas das linhas versaram as existências dos habitantes daquela residência real. Depois parece-me da mais elementar pedagogia arrancar os miúdos às suas indolentes rotinas: os skates, os "sms" ou as Barbies. Não sem um ou outro amuo pelo meio, interditados temporariamente os "sms" (uma doença!), lá nos enfiámos todos na carrinha, mais ao Zé Maria e a sua cadeirinha.
Estranho, como nos habituamos a viver ao lado de coisas tão bonitas sem olhar bem para elas. Tantas vezes que me desloquei a Sintra, no tempo dos hotéis, entre Seteais e o outro. Nas circunstâncias deste passeio, com os olhos mais perto do coração a perspectiva do lugar é completamente diversa. Subimos até ao castelo dos mouros embasbacados com aquela luxuriante vegetação. Fez bem aos miúdos mais velhos o desafio de ajudarem a empurrar o carrinho de bebé naqueles paralelepípedos centenários. Nada como um pouco de suor para atenuar qualquer conflito de gerações. A meio do caminho já éramos uma família unida.
Percebe-se facilmente a atracção que Sintra exerce sobre reis e príncipes, ou por sensibilidades de excepção. Como era o caso de D. Fernando II, o nosso ilustrado e romântico rei, que para nossa sorte empreendeu a reconstrução do arruinado convento de S. Jerónimo tornando-o num exótico palácio, ociosa residência dos monarcas liberais. Resgatado à Condessa d’ Edla pelo rei D. Luis, o edifício foi classificado monumento nacional no fatídico reinado de D. Manuel II. Estranho edifício este, qual palácio encantado do Tritão, no pináculo dum autêntico “bosque escuro” de fadas, amantes e duendes. Por mim, encantei-me com o Retábulo da capela, e comovi-me com os detalhes mobiliários e objectos utilitários dos aposentos de D. Carlos.
A miúda pequena saltitou alegre pelos claustros, num Palácio de verdade, tão parecido com os dos seus contos animados. Deve ter-se imaginado no meio das suas princesas bailarinas e com os seus pégasos mágicos. A certa altura confidenciou-me a sua estranheza por o palácio “estar sujo”, apontando para uma mancha de humidade no alto do tecto em abóbada. Difícil é explicar-lhe a diferença deste com os castelos dos seus filmes cor-de-rosa. É a trágica disparidade da idealização ingénua, com a dramática realidade crua, que aliada ao tempo, tudo deteriora e corrompe. Que nos mata todos um pouco a cada dia que passa.
No final, enquanto o pessoal do Palácio debandava atabalhoadamente, trancando portas e janelas, ainda arranjámos uma mesa para o lanche do Zé Maria, no terraço junto às cozinhas, onde ainda nos fizeram o favor de nos vender 250 cl de água por 1,50 €.
Finalmente lá fomos nós serpenteando estrada a baixo, os dois jovens adolescentes à dianteira, excepcionalmente cúmplices, no meio daquela densa e verdejante vegetação. A jornada terminou com chave de ouro: queijadas frescas e travesseiros saídos do forno, num inolvidável lanche na Casa do Preto, que com um nome destes qualquer dia a ASAE ainda manda fechar. A experiência foi aprovada, e por uma tarde tirámos Sintra do bilhete postal.

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terça-feira, outubro 02, 2007

As emoções básicas (crónica) XV




Máscaras

Uma crónica a sério deve ter relação com o tempo. Não sendo tão imediato como uma notícia ou uma reportagem, este tipo de texto jornalístico parte da actualidade, de uma pequena observação ou da reflexão do autor sobre acontecimentos gerais, mesmo que não passe da constatação de uma minúcia, de um pequenino costume.
É por isso que estas emoções básicas não são crónicas verdadeiras. No fundo, algumas nem tiveram tema. Infelizmente, não consegui reflectir sobre nenhum dos assuntos que afligem o país. Podia ter falado da crise dos partidos, dar a minha opinião sobre a forma como em cada um deles se degrada a qualidade média dos dirigentes; podia ter mencionado o pecado fundamental da política, de como os poderosos esquecem as promessas que fazem em campanha, uma vez atingido o poder. Além disso, o nosso sistema bipartidário parece não ter solução: um dos partidos atraiçoou a sua própria base eleitoral e o outro abandonou as suas elites numa ilha deserta. Quando houver eleições, as pessoas não irão votar.
Era sem dúvida um excelente assunto, escrever aqui sobre as razões do pessimismo português (o segundo pior da Europa, dizem). Mas confesso que não as entendo. Só poderia dizer banalidades.
Também não cumpri outra das regras de ouro da crónica: embora a forma desta seja criativa, o conteúdo tem de ser rigorosamente verdadeiro. E pelo menos um dos textos da série era totalmente inventado, na realidade um pequeno conto sobre uma parvoíce governamental. E confesso que havia farrapos de ficção noutros textos.
Mas é esta a liberdade que nos dá a chamada blogoesfera. Estas pseudo-crónicas são muito pessoais, quase diarísticas, ao sabor do capricho e esquecidas das boas regras.
Ao ver o que escrevi até agora, percebo que nunca mencionei aqui a emoção da alegria. Falei das outras emoções básicas (do desprezo, até, que alguns psicólogos duvidam pertencer ao grupo essencial, que limitam a seis). Na sua maioria, os textos são sobre a surpresa, talvez porque esta seja a emoção mais apropriada para crónica, já que o mundo nos surpreende em todas as suas variações, e constantemente.
Apeteceu-me, várias vezes, colocar outra palavra na emoção básica que servia de mote e talvez esta lista devesse ter muitas mais, da inveja ao fanatismo, da serenidade ao fascínio, da piedade ao pavor.
Em tempos de pessimismo, no início do Outono, é estranho querer falar sobre a alegria. O céu está cinzento e a rua caótica. As pessoas andam taciturnas e o País parece estar a viver numa espécie de semi-pesadelo, ou pelo menos num sonho intranquilo.
As primeiras chuvas originaram inundações, como se ninguém estivesse preparado para as situações previsíveis. E, se procuro indícios de alegria nas pessoas, encontro sobretudo uma inquietação sem nome: em dois dias, viajei quatro vezes de táxi e três dos motoristas guiavam totalmente passados. O primeiro, furioso, contou-me uma confusa história de um tenente-coronel bêbado que ele transportara e que o insultou à chegada; o homem tinha sido soldado na guerra e jurou-me que o oficial escapara a um bom correctivo; o segundo taxista quase abalroou meia dúzia de carros, sem razão aparente; e o terceiro começou de repente a insultar outro motorista que não tinha feito nenhum erro visível.
No outro dia, pus-me a olhar para a cara das pessoas na rua. A caminho dos empregos maçadores, todas pareciam usar máscaras sombrias. Tinham dormido pouco. Andavam como sonâmbulos no passeio, as faces fechadas, o olhar zonzo, um ar triste.
E como se tornou estranho ouvir de repente o riso de um desconhecido. Parece que aquela gargalhada súbita, saída do nada, é uma espécie de insulto ao nosso fardo de problemas.
Sim, até parece que a alegria já não tem lugar na nossa comunidade. E bastava andarmos um pouco menos distraídos no interior dos nossos pensamentos. Porque de repente, o sol irrompe do tecto de nuvens e desce pela calçada um homem que assobia uma melodia na moda. E, mais à frente, uma rapariga bonita sorri e até parece que com esse pequeno gesto regressou a Primavera.

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segunda-feira, outubro 01, 2007

Cinema nostalgia (14)


Blade Runner

Hoje é um filme de culto, mas na altura dividiu opiniões. Adorei-o, na primeira vez que o vi. Penso que é um dos últimos grandes filmes dos anos 80, um dos mais imitados e um dos derradeiros clássicos.
Explico-me melhor: no futuro, na época que será a de Blade Runner, talvez o cinema esteja dividido entre clássico, baseado em histórias e personagens, e pós-clássico, com a sua obsessão por efeitos digitais e onde o enredo é uma componente secundária. Dito de outra forma, talvez o cinema se esteja a tentar libertar da literatura, em busca de um terreno dominado pelo lado visual.
Apesar de tudo, no ano em que foi feito, 1982, Blade Runner era uma película muito ousada, até estranhíssima, misturando elementos de uma realidade ampliada, de banda desenhada e policial negro, com ambientes expressionistas, arquitectura futurista, imagens dentro da imagem. Sem abandonar os modelos do seu tempo, incorporava ideias de diversas origens. Por isso, talvez seja um dos primeiros filmes verdadeiramente pós-modernos.
A história baseava-se numa ideia central que ia beber ao cerne do filme negro: o protagonista, Deckard (Harrison Ford), parecia uma pobre figura. Quase sentíamos a sua inferioridade, a dor física, as dúvidas, as hesitações, o conflito moral, enquanto ele tentava caçar os replicant, seres manipulados geneticamente que mal se distinguiam dos humanos. Deckard é um homem duro, sem dúvida, um detective disposto a cumprir a sua missão. Mas a que preço! A sua fragilidade, em contraste com as personagens que aquele actor então encarnava, era quase tocante. Estes heróis divididos anunciavam uma nova era digital, fragmentada e ambígua.
Além dos actores (Rutger Hauer, Sean Young), o filme tinha outros pontos fortes, como a música electrónica de Vangelis, que ajudou imenso a criar uma atmosfera futurista, sem falar na competente realização de Ridley Scott, que vinha da publicidade e sabia gerir um ritmo alucinante.
Se não me engano, este foi o primeiro filme (de muitos) baseado numa história de Philip K. Dick. O magnífico escritor não tinha a arte da prosa de Ray Bradbury (para citar um exemplo de outro grande autor de ficção científica), mas conseguiu, como ninguém, reflectir sobre um problema contemporâneo crucial: nas suas histórias, tudo gira em torno da incerteza do observador em relação ao que é a realidade.
Esta não é apenas incerta, ela pode ser manipulada. No caso de Blade Runner, temos uma incógnita centrada na questão do humano. O que é um ser humano, após a manipulação genética?
Como visionário, Dick compreendeu de imediato as implicações morais da tecnologia genética e da sua manipulação. Mas acho que consegue ir mais longe, tocando num nervo que hoje já é mais compreensível: o que vemos pode não ser autêntico.
Existe uma incerteza em todas as imagens, pois a tecnologia facilitou a sua adulteração; existe dúvida em cada momento das histórias que os media veiculam; existe uma manipulação silenciosa em tudo o que nos rodeia. O corolário era a ideia da paranóia, que invadiu o cinema contemporâneo, num exagero não inteiramente compreensível.
Na arte dos românticos, havia bons e maus, sem cinzentos; os modernistas carregaram nos cinzentos; e a evolução disto é a total inversão da ordem; o mal e o bem estão de tal forma misturados que se tornam difíceis de distinguir um dos outro. Acho que Blade Runner foi um precursor desta nova forma de ver o mundo. É também um daqueles filmes felizes, destinados a serem imitados e copiados, como Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (71); Johnny Guitar, de Nicolas Ray (54); Metropolis de Fritz Lang (27) ou ainda À Bout de Souffle, de Jean-Luc Godard (59).
Modelos de vida humana que deram incontáveis clones.

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domingo, setembro 30, 2007

Notas duma viagem no fim de Setembro

Cheguei já de noite ao hotel em Belfast depois de ter percorrido Londres e Dublin em três dias. Trata-se da última etapa duma maratona de trabalho. Cheguei lá de comboio, atravessando as verdejantes planícies irlandesas na companhia de Eça. O tempo está cinzento e frio, à maneira do Inverno português. Chove. Quando, oriundos de Lisboa descíamos para Dublin e atravessávamos as nuvens negras, um casal irlandês de regresso a casa lamentava a sua negra e húmida fatalidade. Fontes Pereira de Melo gabava o clima em Portugal, como uma divina compensação do nosso crónico atraso cultural, industrial, infraestrutural. Na Irlanda até há pouco tempo tinham as duas coisas: o atraso e o mau tempo. Valeu-lhes sempre uma alma enorme.
Em Belfast a chuva não é um acontecimento. Ela cai num choro contínuo, de mágoas ancestrais. Um casal jovem passeia o bebé em Donegall Square num carrinho de coberto por uma capota transparente. As bicicletas rolam indiferentes sob os oleados dos seus ciclistas. O povo ávido de se esquecer, escapa pelo meio da chuva para os seus pubs e bares, para bem regar o fim da tarde.
Em Londres, um gigantesco formigueiro humano, multirracial - o sonho realizado de qualquer verdadeiro internacionalista - labora numa impressionante eficiência e harmonia. Do aeroporto, ao trânsito na cidade, ou numa loja de pronto a comer, tudo funciona "sobre rodas". Nota-se prosperidade, e as pessoas são simpáticas e cooperantes. A mim, até um tardio jantar de Fish and chips me soube pela vida no Langan’s em Mayfair (o local indicado para encontrar genuínos indígenas na tradicional e entusiástica copofonia).
Cai sempre bem um sorriso ou uma piada de ocasião ao viajante solitário, em ambiente estranho e natural tensão. Aconteceu de madrugada, no hall do hotel em Belfast à espera de um táxi para mais uma jornada de viagem e aeroportos, quando comentei com o recepcionista um curioso pássaro de cauda comprida que observava a saltitar no jardim. O simpático irlandês, disse-me o nome do bicho (perdi a nota); e com um sorriso irónico tratou de me informar que, segundo o saber popular, eu teria que ver outro igual antes de partir, ou a visão significava um sinal de azar. Não vi, e cheguei esta tarde a Lisboa, à Portela, sentado na fila treze, de boa saúde e disposição.

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As emoções básicas (crónica) XIV



1.
No filme de Milos Forman, Amadeus, o aspecto mais fascinante era a questão da inveja artística de Salieri por Mozart. Naquela história, o compositor italiano era o único a compreender a imensidão do génio do austríaco. Mas o pior era o facto do artista menor não ter ilusões sobre a sua falta de talento. E Salieri compreendia que Mozart sabia disso. Sempre me fascinou esta trama simples.
Trata-se evidentemente de uma história. Mas o ponto é que a maior parte das obras de arte estão à partida condenadas ao esquecimento. E muitos autores vivem na doce ilusão de que podem eventualmente criar obras que lhes sobrevivam. A estatística é, no entanto, muito desfavorável. Talvez um trabalho em cada mil consiga ser lembrado dez anos depois de ter sido feito; talvez um em cada cinco mil sobreviva 50 anos. E um em dez mil, um século.
Pensei nisto enquanto lia um livro em que paguei quase por acaso. Chama-se Atlântida, escrito por um francês, Pierre Benoit. O livro foi famoso no seu tempo (1919) e teve duas versões em cinema, uma das quais devo ter visto parcialmente, há muitos anos, certamente a sonora, de Pabst, em 1932.
Nesta fantasia, dois exploradores percorrem no deserto zonas inexploradas e encontram o reino de Atlântida, dominado por uma rainha, Antinea, que manipula e mata os seus amantes, formando uma verdadeira colecção. Para o efeito pouco importa. A história é cruel e mexe com o imaginário erótico masculino. O enredo é algo ultrapassado, com um fantástico pouco interessante e menos credível.
E, no entanto, dei por mim a devorar o livro. Se as últimas páginas foram mais penosas, o início pareceu-me fulgurante.
2.
Os livros que nos parecem hoje menos bons têm, por vezes, momentos fantásticos. Segundo li na Wikipedia, Benoit foi soldado e conhecia o deserto. A sua descrição da expedição militar é intensa e vivida, a paisagem torna-se quase perceptível e os perigos parecem autênticos.
De súbito, estava a revisitar as aventuras de Beau Geste (lembrei-me do filme); e também recordei O Deserto dos Tártaros, de Buzzati; parecia por instantes que poderíamos viajar dali, directamente para O Céu que nos Protege, de Paul Bowles; existia o mesmo fascínio pelos abismos de um conto de Camus que me impressionou. Sobretudo, detectavam-se pedaços de um autor que marcou a minha juventude, Jules Verne.
Atlântida não ficará na história da literatura, mas há farrapos seus que contaminam outras paragens.
Cada obra de arte é como um código genético pessoal. E assim é com os livros, cujas histórias atravessam as gerações, em diferentes variações de emoções básicas.

3.
Um escritor de ficção científica, Clifford Simak, escreveu uma pequena novela, Time and Again, traduzida em português por Guerra no Tempo, número 34 da famosa colecção Argonauta. Foi um livrinho que me impressionou muito, quando o li, talvez aos 14 ou 15 anos. A história é complexa, com vários patamares de tempo e personagens que viajam do futuro para tentarem alterar o seu presente e personagens do presente que vão para o passado para se refugiarem do futuro, deixando mensagens do passado para o presente. Lembram-se dos filmes Terminator? Era a mesma ideia.
Recentemente, passou nos cinemas um filme europeu feito com meios sofisticados, O Som do Trovão, que não recolheu os aplausos da crítica. A meu ver, mal. Uma empresa faz viagens aos passado, mas num desses saltos, o passado é alterado. Essa mudança temporal chega em ondas que vão alterando o presente, em camadas sucessivas, apagando tudo o que passou. No final, percebemos que a única alteração foi a morte de uma borboleta, 65 milhões de anos atrás. A história é de Ray Bradbury, outro autor cujas ideias têm contaminado muitas obras alheias.

4.
Acho que o que me interessa em todas estas fantasias não é tanto o elemento exótico, mas sobretudo o desconhecido. Quando os dois militares avançam pelo deserto e nós não sabemos o que se encontra no seu caminho, este é o momento que mais me interessa.
Vivemos na era do explícito, sexo explícito, action replay em câmara lenta, mensagens sem subtileza, morte em directo, repetida, repetida. Parece não haver lugar para metáforas ou exercícios de estilo. Mas trata-se sobretudo de uma ilusão. A alma humana, atrás dos gestos, esconde os mesmos mistérios de sempre.
Parece que já descobrimos tudo, mas a nossa fantasia sabe que não é assim.
O maior desconhecido não tem a ver com desertos inexplorados, mas com o que não sabemos sobre nós próprios. Os nossos medos (da morte, do sexo), as alegrias e tristezas, as aversões e fúrias.
A inveja de Salieri pelo génio de Mozart, por exemplo, que pode ser medo, mas que tem uma componente de angústia e outra de surpresa pelas maravilhas que o rival compõe. O conflito é semelhante ao de Atlântida: sabemos à partida que um dos exploradores matou o outro e, quando o sobrevivente conta a história, percebemos de imediato que a rivalidade entre os dois era inevitável. Mas de que paixão nasceu? Da ira, da inveja, do desprezo?
Tal como o capitão Saint-Avit dessa história, na posse de um terrível segredo, rejeitado pelos seus camaradas, também o compositor Salieri vive consumido pelo que não pode confessar: o seu ódio silencioso a um rival que o parece derrotar além da vida, o genial Mozart, a quem os deuses permitiram a imortalidade.
E, claro, é uma injustiça quando os deuses preferem os outros...

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