Natural? Quiçá
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Fala-se muito na objectividade em jornalismo. E bem: a objectividade é um desígnio que todos, jornalistas, devemos prosseguir no exercício da nossa profissão. Sem a ilusão, contudo, de que alguma vez a obteremos plenamente. Porque cada visão da realidade é parcelar e o nosso olhar subjectivo condiciona sempre o modo como interpretamos o “desconcerto do mundo” de que falava o poeta. Mas se a objectividade pura é impossível, a honestidade com que a buscamos deve ser permanente. Isto constitui a pedra basilar do nosso código de conduta. Como escrevia recentemente Pedro J. Ramírez, no editorial que assinalava os 18 anos da fundação do diário espanhol El Mundo, “o jornalismo serve para procurar a verdade. A verdade acessível, a verdade parcial, a verdade incompleta, a verdade possível, a humilde verdade com minúscula, mas a verdade no fim de contas.”Etiquetas: Jornalismo
«Alfredo Maia, presidente do SJ, pede aos jornalistas que vistam a camisola com a inscrição Levantem-se pelo Jornalismo». DN, Pág.62.
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Na república, o lugar da mulher do Chefe de Estado, a chamada "1ª Dama", é um tão ilegítimo como inevitável devaneio patrocinado pelos media para gáudio da turba. Definitivamente o personagem colhe e garante um bom retorno no negócio do circo mediático. Não me parece viável que um candidato a chefe de estado oculte a sua realidade familiar e afectiva. O ideal será de facto que ela promova boa imprensa e simpatia popular à instituição e ao protagonista. Quer se queira quer não, a mulher dum candidato terá sempre o involuntário poder de promover ou estorvar a sua imagem pública. Um verdadeiro berbicacho.Etiquetas: Jornalismo, Política, República
Tenho pena que as crónicas estejam a desaparecer das páginas dos jornais. Habituei-me desde muito novo a ler alguns dos melhores cronistas da imprensa portuguesa – numa época em que a crónica era um género imprescindível. Lia textos do Pedro Alvim, do Rodrigues Miguéis, do Baptista-Bastos, do Carlos Pinhão, do Abelaira, do O’Neill e da grande Alice Vieira sempre com uma ponta de deslumbramento. Era uma prosa diferente da escrita impessoal das notícias: paginada de modo especial e com um tom coloquial que não se vislumbrava noutros locais dos periódicos – estabelecendo um clima de convivência quase íntima com o leitor. Através dos anos, fui mantendo o meu interesse pela crónica, frequentando diversos autores – do Miguel Esteves Cardoso ao Pedro Mexia, passando pelo Manuel António Pina, pela Clara Ferreira Alves, pelo Ferreira Fernandes e pelo António Lobo Antunes. Vou também praticando o género, sempre que posso: é a disciplina jornalística que mais se aproxima da literatura. Tenho pena de vê-la à beira da extinção, substituída pelo comentário anódino e sensaborão ou pela fatigante “análise” política que muitas vezes não é mais do que um mero piscar de olho a “fontes” de circunstância.Etiquetas: Jornalismo
Nos anos 50 e 60, os cronistas no Brasil eram uma tribo calorosa e solidária, como relata Humberto Werneck, organizador da excelente colectânea Boa Companhia: Crónicas, editada em 2005 pela Companhia das Letras. A tal ponto que, quando chegava a crise de inspiração, a mesma ideia servia de mote a diferentes cronistas forçados à rotina diária. Fernando Sabino, que escrevia em O Jornal, do Rio de Janeiro, relata o episódio da queda de um edifício na cidade, que originou uma troca de impressões à mesa de um bar com Rubem Braga (cronista do Diário de Notícias, também do Rio) e Paulo Mendes Campos (que mantinha uma crónica no Diário Carioca). No dia seguinte, “por coincidência”, as três crónicas tinham estes títulos: “Mas não cai?”, “Vai cair” e “Caiu”.Etiquetas: Jornalismo
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Caro Paulo Gorjão:Etiquetas: Jornalismo
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Desde sempre que gosto de telefonia e sempre que posso ainda vou acompanhando este fascinante meio de comunicação. Ontem foi a vez de, durante um inevitável percurso automobilizado, ouvir finalmente uns minutos do novo Rádio Clube Português. Entre as 19.00 e as 20.00 aterrei no meio de um tal programa de Célia Bernardo “Janela Aberta” no qual dois locutores entrevistavam no estúdio o insuspeito Vicente Jorge Silva (VJS) sobre a demissão de Alberto João Jardim (AJJ). Não me surpreendi com o VJS a destilar os seus ressentimentos contra AJJ. Chamou-lhe de tudo e mais alguma coisa, uns insultos mais plausíveis que outros. Mas o que me espantou verdadeiramente foi a cumplicidade explícita dos dois jornalistas, que tratando o convidado (colega?) por tu, alarvemente se compraziam com os epítetos, emitindo desapoderadas risadinhas e concordantes monossílabos.Etiquetas: Jornalismo, Media, Rádio
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Num post do seu Bloguítica, Paulo Gorjão faz considerações com as quais não concordo. Costumo lê-lo, quando escreve sobre jornalismo; e, ao contrário do que ele pensa, o autor comete o erro que costuma criticar em outros: não domina o assunto. (Embora isso não lhe retire o direito de opinar).
Neste caso, Gorjão tem o desconto de escrever na qualidade de leitor, mas esta passagem resume o seu pensamento: "Aquilo que me leva a estar disposto a pagar jornais é muito simples: informação de qualidade, análise de qualidade, opinião de qualidade. Uma trilogia de 3Q. Sem ser exaustivo, para eu sentir que há valor acrescentado que me leve a pagar, devo encontrar nos jornais: informação segura e devidamente confirmada; análise imparcial e por quem conhece de facto os assuntos; e opinião credível, plural e independente".
Aparentemente, isto é bom senso à solta, mas na realidade este excerto não passa de um conjunto de generalidades sem substância. Passo a explicar.
O dono de jornais que souber o que é a "qualidade" fará uma pipa de massa. Infelizmente, ninguém parece ter uma fórmula mágica para se chegar a esse objectivo utópico. Estamos num período de extinções em massa (como os dinossauros), mas ninguém sabe ao certo se tem as capacidades para sobreviver.
Paulo Gorjão afirma saber o que é a qualidade. No primeiro ponto, refere "informação segura e devidamente confirmada". Ora, só um louco ou alguém desonesto publica uma informação que sabe ser insegura e não confirmada. Ou seja, a regra é publicar apenas aquilo que está seguro e confirmado. Não me parece que o jornalismo português seja muito diferente dos outros nesta matéria. Na profissão de jornalista é fácil errar, porque ninguém está livre de ser manipulado ou, em muitos casos, não há tempo para o máximo rigor.
Costumo dizer que o jornalista é o tipo mais ignorante no local do atropelamento: o polícia tem informação, o bombeiro chegou logo a seguir, a testemunha ouviu a travagem, a vítima diz que estava na passadeira. Pode até haver uma teoria sociológica sobre atropelamentos. Uma coisa parece garantida: a notícia não coincidirá com nenhum dos testemunhos recolhidos, antes será uma amálgama de todos eles. Querem outro exemplo? Num Benfica-Sporting, o estádio estará dividido em dois, na análise de determinado lance. Foi pantufada, simulação ou penalti? Cada jornal desportivo terá uma versão ligeiramente diferente. Estamos perante um terrível exemplo de desonestidade? Não, apenas perante o facto de que a objectividade é sempre um ponto de vista.
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Paulo Gorjão fala ainda de "análise imparcial e por quem conhece de facto os assuntos". Ora, existe aqui uma confusão: o jornalista não é um académico (e é por isso que alguns dos melhores não têm licenciatura). A análise dos factos deve ser feita com honestidade intelectual, não com imparcialidade. Os cemitérios estão cheios de pessoas imparciais. Por outro lado, "quem conhece de facto os assuntos" são as pessoas com quem falamos e que nos explicam os factos; só então os jornalistas podem explicar aos leitores, de uma forma que os leitores que não sabem do assunto entendam.
O terceiro equívoco é sobre a "opinião credível, plural e independente". Acho (visão pessoal com a qual muitos jornalistas não concordam) que a opinião não deve ser um tempo de antena. Acredito na opinião sincera e empenhada, acredito na opinião livre, mas penso que a independência é algo que não existe. Defendo a opção anglo-saxónica dos jornais que escolhem causas e apoiam candidaturas.
Uma última observação: Paulo Gorjão é, sem dúvida, o tipo de leitor inteligente e informado que qualquer jornal gostaria de manter. Infelizmente, é também raro. Não preciso de informar o banqueiro sobre a OPA nem o padre sobre a missa. Agora, que o banqueiro se interesse pela história sobre pequeno comércio e o meu barbeiro sobre a OPA, isso talvez seja "qualidade".
É tema para outros debates, mas a Imprensa portuguesa está entre as melhores da Europa, e posso provar esta afirmação.
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