terça-feira, julho 31, 2007

Cinema Nostalgia (1)

Comecei a ver cinema muito cedo. Era ainda um garoto, leitor assíduo de revistas de banda desenhada, quando me deixei seduzir pelo ecrã mágico de onde irrompiam heróis de todo o género, emanados do mundo dos adultos. Fixei para sempre um sorriso de Fernandel, um silêncio de John Wayne, um trinado de Marisol, uma expressão dura de Bogart, um esgar trocista de Belmondo, Errol Flynn conquistando as matinés e o coração de Olivia de Havilland em As Aventuras de Robin dos Bosques. E as pernas de Silvana Mangano, os olhos de Michèlle Morgan, o rosto magoado de Ingrid Bergman à beira de um vulcão a preto-e-branco em Stromboli. Puto de calções, largava as brincadeiras da bola ou do berlinde para me pôr defronte da pantalha, quando a RTP oferecia bom cinema aos espectadores, e lá ficava, de olhos arregalados, mergulhado no fascínio da Sétima Arte oferecida ao domicílio da geração privilegiada de que fiz parte. São imagens que me ficarão gravadas para sempre: o inquietante sobrolho de Gregory Peck no Caso Paradine, o trenó em chamas de Citizen Kane, Gene Kelly dançando à chuva, um grão de areia no olho de Celia Johnson, a radiosa Audrey Hepburn andando de lambretta nos dédalos de Roma.
Filmes de Verão, com Johnnny Weissmuller, Totó e Fred Astaire. Filmes de Inverno, com Giulietta Masina, Henry Fonda e Marlene Dietrich. Títulos perdidos na memória dos tempos mas recordados à simples evocação de uma cena imortal: Shirley Temple fazendo sapateado, Vasco Santana falando a uma girafa, Grace Kelly beijada por Cary Grant, Alice Faye cantando “With a Song in my Heart”, Alida Valli caminhando ao som da cítara vienense de Anton Karas.
Tardes de cinema, noites de cinema. O mundo que se movia à velocidade de 24 imagens por segundo.
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Na imagem: Silvana Mangano, em Arroz Amargo (Riso Amaro, 1949)

Gostei de ler

A balda. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
A procissão da poncha. De Filipe Tourais, n'O País do Burro.
Território ocupado. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
Sinais? Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Cuba. De Tomás Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
A bandeira cubana chegou ao pódio. Sozinha. De Cristina Vieira, na Contra Capa.
A tese. De Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.
A sondagem. De António Oliveira, na Estrada Poeirenta.
Vamos andar de comboio! Da Cristina Silva, na Geração Rasca.

Se aquilo não é populismo...

Acho espantoso que os sociais-democratas que se demarcam de Luís Filipe Menezes por este estar supostamente inoculado com o vírus do "populismo" tenham aplaudido a lamentável colagem de Marques Mendes a Jardim no Chão da Lagoa. Populismo mais desbragado e rasteiro não há. Tem toda a razão Paulo Baldaia quando escreve hoje no Jornal de Notícias: "Para os barões do PSD, o populista é Menezes, mas o autarca de Gaia anda bastante mais responsável que Mendes na forma de fazer política."

Os melhores cineastas estão a deixar-nos


Monica Vitti, a musa de Michelangelo Antonioni (1912-2007)

Coisas que nunca me passaram pela cabeça

Apanhei esta frase do Arnaldo Jabor nas piores condições: estava na praia, descontraída, sem a menor intenção de desatar para ali a pensar. Resultado... fiquei meio bloqueada, sem conseguir decidir se ele terá mesmo razão. Agora que tanto se fala de direita e esquerda, só faltava mais esta para animar a discussão. Ora tomem nota:
"Actualmente sexo é de direita. Amor é de esquerda. Nos anos 60 era o contrário", Arnaldo Jabor, in "Amor é Prosa, Sexo é Poesia"
Será??

A esquina do Rio

"Um partido como o PSD tem de dar sinais de que preserva a estabilidade e não anda a mudar de líder a cada esquina". O autor da frase é Rui Rio, que hoje almoçou com Marques Mendes, no Porto, e revelou-se um feroz apoiante do actual líder social-democrata. Há menos de um mês, como se sabe, Rio andou a ser pressionado por barrosistas destacados (como José Luís Arnaut, Nuno Morais Sarmento e Miguel Relvas) para assumir a ruptura, protagonizando uma "terceira via" alternativa a Luís Marques Mendes e a Luís Filipe Menezes. Ainda pensou no assunto, sabendo que tinha também o apoio do sector cavaquista do partido, só que acabou por passar a bola a José Pedro Aguiar-Branco, com quem almoçou e jantou tentando convencê-lo a avançar para as directas. Aguiar-Branco, que acalenta a ambição de se tornar numa espécie de novo Sá Carneiro - em comum só terão o facto de serem ambos naturais do Porto, advogados, de boas famílias e com alguns cabelos brancos, pois o malogrado primeiro-ministro está a anos-luz de tudo o que há neste PSD -, anda pensou no assunto, mas desistiu por alegada falta de apoios (a verdade é que foi aconselhado a não avançar porque dividia o mendismo e daria a vitória a Menezes). Veremos se no pós-eleições de 2009, que está já aí ao virar da esquina, Rui Rio também irá achar, como disse hoje, que o PSD só teve vitórias, à excepção de Lisboa, considerada uma "eleição atípica". Em 2009, o excelente argumento que agora usou (e com o qual concordo e que na prática o diferencia de muitos no partido), de que não poderia deixar a meio o mandato na Câmara do Porto, já não existe. Nessa altura, Rui Rio é livre que nem um passarinho, pois as autárquicas irão coincidir com as legislativas.

Mais dez motivos para gostar de Portugal (X)


SETE CIDADES.

A paixão messiânica do PSD

Caro Duarte Calvão,

O seu último texto e os comentários que suscitou deixaram-me apreensiva. Haverá razões para tanto desânimo? Eu acho que não. O PSD sempre teve uma paixão pelo messianismo, encantadora mas pouco eficaz. Talvez seja a marca de Sá Carneiro. Cavaco Silva, com o mito inaugural de ter ido ao congresso da Figueira da Foz fazer a rodagem do Citroen, alimenta esse romantismo. Calhou-lhe ter o carisma e a oportunidade, mas isso nem sempre acontece. Veja-se o caso de Santana Lopes, que teve os dois, mas não ao mesmo tempo.
Fora das épocas de graça, são os aparelhos que sustentam os partidos de poder. Não percebo, por isso, esse horror ao aparelho. Cavaco Silva, por exemplo, nunca rompeu com o aparelho, e há mesmo quem diga que, por tê-lo deixado crescer demais, acabou devorado, no último mandato. A Sócrates, o poder caiu nas mãos, quase sem lhe dar tempo de se desgastar a conduzir um partido na oposição. Algumas figuras do PSD tentaram construir uma aura messiânica, mas nunca chegam à oportunidade. Recordo António Borges que, a certa altura, até foi notícia de primeira página no Expresso pelo voo que nunca chegou a apanhar no 11 de Setembro...
Os aparelhos fazem falta para as travessias do deserto. Descanse que, quando o PSD voltar a ser governo - e isso vai acontecer, é fatal - os bons vão aparecer. Até lá, o melhor líder é o que existe - qualquer que seja - mais do que os que optaram por ficar no sofá. Há outra forma?

segunda-feira, julho 30, 2007

Sócrates como Cavaco vinte anos depois


José Sócrates está a produzir hoje na política portuguesa um efeito simétrico ao que Cavaco Silva conseguiu há duas décadas. Na década de 80, ao irromper surpreendentemente na cena política com um discurso que transcendia largamente as fronteiras do seu partido, Cavaco cativou a esquerda com um êxito sem precedentes na história do PSD. O seu domínio das finanças públicas, a sua imagem austera, o seu vocabulário expurgado de qualquer vestígio de “politiquês”, a sua preocupação com questões sociais secaram a esquerda, então caracterizada por uma evidente ineficácia e pela mais estéril retórica. Na altura, não faltaram até transferências directas de voto do PCP para o PSD. Vinte anos volvidos, Sócrates produz o efeito contrário: o seu estilo sóbrio, as suas aparições esparsas, a sua imagem de “decisor” e a autoridade que cultiva como imagem de marca seduzem crescentes sectores da direita, tornando inútil o palavreado de oposição formal que emana dos estados-maiores do PSD e do CDS. Com Cavaco no poder, a esquerda teve os piores resultados eleitorais de sempre. Agora, com Sócrates, a direita afunda-se num abismo. Entre as personalidades que Sócrates tem conseguido seduzir incluem-se tradicionais figuras da direita portuguesa, como Freitas do Amaral, Basílio Horta, José Miguel Júdice e Maria José Nogueira Pinto. Duas décadas, o mesmo efeito. E agora a necessidade, à direita, de repensar tudo. Como a esquerda teve que se adaptar à década cavaquista que mudou drasticamente a política portuguesa.

Que brasa

Com um calor destes, só apetece um vodka-martini junto ao mar ou à beira da piscina. Se for à sombra, tanto melhor. Shaken, not stirred...

Férias I

Férias é largar a quadricula dos rituais utilitários,
E improvisar novas rotinas.
Férias é gradualmente desregular os horários.
E ficar na praia até às nove da noite.
Férias é preguiçar longamente a ler o jornal...
até o obituário se encher de areia.
Férias é jogar à rabia na maré vazia...
Até estourar humilhado pela rapaziada nova.
Férias é dar lastro às crianças,
... e a chave de casa aos mais velhos.
Férias é tempo de conhecê-las melhor.

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Na hora da morte de Ingmar Bergman


A minha cena favorita do filme dele de que mais gosto: O Sétimo Selo (1957). Inesquecível partida de xadrez entre o cavaleiro e a morte que mudou para sempre a face do cinema, eterno jogo entre a luz e as trevas.

Ao nível do Chão

Luís Marques Mendes lá foi ontem à festa do Chão da Lagoa, na Madeira, e apareceu no palco juntinho ao presidente do Governo Regional da Madeira, enquanto este disparava contra Sócrates e lançava avisos ao Presidente da República: "Senhor PR tenha atenção ao que é uma obsessão doentia com a Madeira", soltou Alberto João Jardim. Depois de não ter sido convidado nos dois anos anteriores, Mendes surgiu todo satisfeito e soltou frases como esta, reproduzida na SIC Notícias: "É melhor do que eu imaginava. Era o que faltava no meu currículo". Partindo do princípio de que até possa ter sido sincero, não percebo o esforço que Mendes fez para não aparecer a beber cervejinhas geladas, como Alberto João. Nem percebo como é que, com uma temperatura a rondar os 40 graus, apareceu de calças azuis escuras vincadas e uma camisa apertada até ao último botão. Deve ter sido para dar um ar mais credível, ali ao lado de Jardim, de pólo preto, Swatch cor-de-laranja e um chapéu de palha na cabeça. Mas já percebo que Mendes tenha chamado "o nosso grande líder" a Jardim. Um é grande, o outro....

Estado de espírito do treinador do Benfica


Fernando Santos (20 de Julho de 2007)

Leituras de Verão: "Silly post"

Sobre as leituras de Verão já se escreveu de tudo em revistas, jornais, blogs e papel de gelados. Listas de policiais, romances e livros de palavras cruzadas têm sido temas recorrentes a partir da altura em que deixa de haver assunto. Porém, desde que me encontro a banhos, há um outro assunto sobre o qual me tenho debruçado, sentado e mesmo deitado: qual a melhor posição para ler na praia?
Uma vista de olhos ao areal leva-me a concluir que existem diversas modalidades de leitura, sendo de considerar a logística que cada banhista/leitor se dispõe a movimentar. À excepção da leitura de jornais em geral, estamos perante um cenário algo penoso, com as folhas a fugir por entre as mãos e as letras a dançar ao sabor do vento. Fechemos pois o jornal e tentemos ler um livro.
Pelas minhas contas e pelas dores nas costas, ler um capítulo inteiro sentados na toalha de praia em cima da areia já é obra. A páginas tantas, vemo-nos forçados a fechar o livro e a esticar a coluna.
Por outro lado, basta uma breve experiência com cadeiras de praia para rapidamente se poder concluir que ler exige costas direitas e apoio de braços. Cadeiras baixas são uma boa alternativa, mas, sinceramente, prefiro as altas. Desde que não seja eu a carregá-las, claro.

Há, mas ainda são verdes

No sábado estive em Alvalade, para assistir ao jogo de apresentação do Sporting (1-1 com o Recreativo de Huelva) e pude constatar alguns dos meus receios quanto ao plantel para esta época. Acho que a equipa está desligada e, sobretudo, faltam laterais e extremos. Não deu para ver se a saída de Ricardo foi bem preenchida por Stojkovic, que apesar de tudo me parece que vá ser a escolha óbvia para titular. A dupla de centrais vai ter que ser Polga e Tonel (que, pasme-se, foi capitão na segunda parte) e nas laterais tivemos Ronny muito inseguro e um Pereirinha inadaptado ao lugar. No meio, ficamos bem servidos com Moutinho e Miguel Veloso. Gostei de rever Romagnoli e achei que Simon Vukcevic mostrou óptimo futebol, ao contrário de Ismailov. Na frente, Derlei não pode fazer dupla com o levezinho. Sempre quero ver quem é que vai servir o Liedson, com a ida de Nani para o Manchester United. Djaló terá que ser sempre titular.

Mais dez motivos para gostar de Portugal (IX)


CURRAL DAS FREIRAS.

Usando o corta-fitas como janela

domingo, julho 29, 2007

O pior cego é aquele que não quer ver

Confirmando-se que só Mendes e Menezes se candidatam à liderança do meu partido, é mais do que provável que não vote em nenhum. Depois da eleição, vou esperar mais um pouco para saber o que o líder eleito tem para dizer e ver que pessoas o acompanham. Mas não acredito que haja alguma coisa que me surpreenda positivamente. Talvez espere por Rui Rio, ou alguém dessa categoria, para 2009. Talvez não. Talvez ache que o PSD já não tem salvação, com o vazio de poder causado pela elite do partido, paralisada em tacticismos e comodismos. Um vazio de poder ocupado por um tipo de gente do aparelho de que só quero distância.
Mesmo que Mendes ou Menezes viessem a ganhar em 2009, que tipo de gente levariam para o governo? Acham que essa gente do aparelho não cobra a factura quando chega a hora? Acham que podem aliar-se a eles sem perder a alma? Se pensam assim, não aprenderam nada com o que se passou em Lisboa, e não vale a pena apostar em ingénuos ou cínicos.
Perante este cenário, fico pasmado em ver como a ideia de um novo partido no espaço não-socialista é condenada logo à partida. Quem faz comparações com o PRD ou a Nova Democracia não percebe nada do que se está a passar nesse espaço. É claro que um novo partido nunca poderia ser unipessoal, servindo apenas às ambições políticas de um líder incontestado. Nem Santana Lopes, nem Portas, ganhariam nada se apostassem num partido assim. Mas porque não um novo partido formado por gente que já não aguenta o aparelhismo que tomou conta do PSD, que fizesse uma clara ruptura com as más práticas e os programas indistintos que vigoram na chamada "direita"? Com gente de valor que está congelada nos partidos de "direita"? Estamos condenados a um eterno sistema partidário que, como se viu nas eleições de Lisboa, já pouco ou nada diz a muitos eleitores?
Pacheco Pereira, por quem tenho uma enorme admiração, espanta-me agora. Depois de ter descrito magistralmente o estado a que o PSD chegou, é o primeiro a dizer que não há espaço para um novo partido. Ele e outros por quem tenho apreço que digam onde pode haver esperança de uma regeneração do PSD e prometo que vou ouvi-los com toda a atenção. Não gostaria de deixar o partido de que sou militante. Mas, para já, parece-me melhor começar a pensar em alternativas. Ou então desistir de vez.

Lopes da Costa

Sobre a trapalhice do pagamento de quotas aos militantes, queixa-se a senhora no DN de hoje: - "O PSD fez-me cair numa esparrela". Não ponho em causa, há partidos capazes de tudo, mas acho que o mais difícil para o PSD foi ter que, primeiro que tudo, inventar a senhora.

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 11,1-13

Naquele tempo, estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’».
Disse-lhes ainda:
«Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa.Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».

Da Bíblia Sagrada

Olha quem fala

"A democracia faz-se também e sobretudo da capacidade de dizer 'não', da capacidade de dizer 'não' ao autoritarismo, a qualquer espécie de tentativa de controlo político-partidário sobre a administração pública, sobre a sociedade civil, sobre a comunicação social livre ou sobre a vida de cada um de nós".
Augusto Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares (hoje, na Madeira)

Os tugas (29)


Mulher falando ao telemóvel numa carruagem de metro, em voz cada vez mais alta.
- Tou! Não te percebo bem. Tou a chegar ao Campo Grande!
...
- Tou! Tou!
...
- Tás onde? Eu tou a chegar ao Campo Grande.
...
- Campo Grande, Campo Grande! Tás aí já?
...
- Como? Não consigo perceber! Quê? Eu tou a chegar ao Campo Grande!
...
- Quê? Quê? Quê?
...
- Tás já à minha espera? Eu tou a chegar. Tou, tou!
...
- Quê? Quê?
...
- Ah, tás no Parque das Nações. Agora percebi. Eu tou a chegar ao Campo Grande... Espero aqui por ti.

A blogosfera tem destas coisas


Por causa da Nancy, da Geração Rasca, já tenho Orgulho e Preconceito de volta à minha mesa de cabeceira. E desta vez juro que vou lê-lo até ao fim.

Mais dez motivos para gostar de Portugal (VIII)


PONTE DE LIMA.

sexta-feira, julho 27, 2007

Usando o corta-fitas como janela

... esse grande escultor

O Luís Filipe Menezes que vi hoje entrevistado por José Alberto Carvalho no Telejornal surpreendeu-me. Sou obrigada a admitir que, durante estes anos em que não reparei nele, o senhor melhorou o discurso, a pose, a atitude (embora falte ainda trabalhar a gravata, sempre acinzentada). Se calhar vencer as eleições no PSD e se fizer o que disse (uma moção de censura por causa das manifestações de sindicatos e funcionários públicos, por exemplo), o partido terá um líder que vai dar muito trabalho ao governo.
As eleições no PSD têm sempre algum grau de imprevisibilidade, e só por isso, e pela subida de Sócrates nos barómetros de opinião, a vitória de Marques Mendes não são favas contadas. O problema é que, daqui até às directas, as expectativas para a liderança em 2009 podem pesar mais do que a vontade de construir uma oposição aguerrida.
Apesar de isto não ser justo para Marques Mendes - que teve nas eleições de Lisboa o seu único erro sério - muitos sociais-democratas preferem despachá-lo em 2009 do que correr o risco de eleger alguém que, daqui a dois anos, não vai educadamente ceder o lugar.

Três dias sem televisão


Três dias sem televisão. Aproveito para ler um romance fabuloso, passado no norte de África, nos turbulentos dias do pós-guerra: O Céu que nos Protege, de Paul Bowles. Prosa envolvente, magnífica, com o deserto do Sahara em hipnótico pano de fundo. Há muito que não descobria um escritor assim, que me agarrasse tanto e me fizesse devorar tantas páginas. Esquecido do mundo, esquecido do tempo.

Com parágrafos como este: “Olhou para fora, para o vazio varrido pelo vento. A lua escondera-se atrás da aresta aguda da terra. Ali, no deserto, ainda mais do que no mar, ela tinha a impressão que estava sobre uma grande mesa, que o horizonte era a beira do espaço. Imaginou um planeta em forma de cubo, algures sobre a terra, entre esta e a lua, para a qual de alguma maneira tinham sido transportados. A sua luz devia ser difícil e irreal como ali, o ar devia ter a mesma secura extrema, aos contornos da paisagem faltariam as reconfortantes curvas terrestres, exactamente como ao longo de toda aquela vasta região. E o silêncio seria último, definitivo, deixando lugar apenas ao som do ar que passava. Ela tocou a vidraça; estava fria, gelada. A camioneta seguia aos solavancos ao longo do planalto.”

Admirável tradução de José Agostinho Baptista, excelente edição da Assírio & Alvim. Ler um livro destes, tão arrebatador, é um imenso prazer. Ainda bem que tive a TV avariada. Oxalá o arranjo não dure muito...

Populismo

Consta que Luís Marques Mendes vai estar no domingo na super-festa do Chão da Lagoa, na Madeira, ao lado de Alberto João Jardim. Que bonito. Nos últimos dois anos, Marques Mendes não foi sequer convidado para estar ao lado do presidente do Governo Regional da Madeira, um gesto muito mal digerido na São Caetano à Lapa, mas que ia servindo para o comandante Azevedo Soares e outros dirigentes dizerem que cada um convida quem quer, ao passo que em surdina iam suspirando de alívio, pois o facto de o líder do PSD não ter que ir à ilha encaixava que nem uma luva na defesa da credibilidade e no afastamento de figuras "populistas" como Valentim Loureiro e Isaltino Morais. Há mais de dois anos que não interessava a Mendes aparecer ao lado de Jardim, no domingo ainda vamos vê-lo de cervejinha na mão a cantar e a dançar ao lado do presidente do Governo Regional. Quando dá jeito - e neste momento já começou a campanha para as directas no PSD - pode-se sempre chutar para canto. E abraçar o tal populismo...

A banhos

Amanhã pela manhã a “família pipocas” parte rumo ao Sudoeste para umas merecidas férias. Um ritual incontornável, indispensável. Malas feitas, gás desligado, trancas na porta, todos na carrinha, alguma excitação: um choro aqui, um ralhete ali, todos na carrinha, todos ao caminho. Uma pequena temporada de Sol, roupa lavada e comida feita. Uns dias de indolência, livros, jornais e muita praia, muito mar. Gelados, sandwiches e bolas de Berlim também. E como é próprio da estação e dos “ares”, os miúdos aproveitarão para crescer. Em tamanho e (espera-se) em graça. Novidade é que desta vez levo computador, já que arranjei uma impecável Internet portátil. Hasta la vista!

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Gostei de ler

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas a democracia resiste. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
O polvo cor-de-rosa. De António de Almeida, no Direito de Opinião.
O figurão e os figurantes. De Pinho Cardão, na Quarta República.
Más escolhas. Do Carlos Abreu Amorim, no Blasfémias.
Prokofiev revisto. Do Rui Bebiano, n'A Terceira Noite.
Se está a pensar ir à Venezuela, pense duas vezes. De Carlos Manuel Castro, no Tugir.
O CES e Boaventura Sousa Santos. De Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
O teu pai é polícia. Do José Bandeira, na Bandeira ao Vento.
Uma mentira repetida mil vezes... De Paulo Gorjão, na Bloguítica.
O ouro do Reno. De José Gomes André, no Bem Pelo Contrário.
E, no entanto, sobrevivi... Do Helder Robalo, no Pensamentos.
Os filmes em cartaz. Série de Vítor Dias, n'O Tempo das Cerejas.
Dos livros. Série do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

Porque hoje é sexta-feira


As mulheres deixam-se conquistar facilmente pelos homens que as fazem rir, mas o inverso, em regra, não é verdadeiro. Para eles, nada como trocar umas boas gargalhadas entre compinchas, de preferência numa daquelas rodas de amigos em que mulher não entra. Percebe-se. Afinal, o prazer de rir entre companheiros precede, na vida deles, o de gozar a companhia das mulheres, pois remonta ao tempo em que ainda as olhavam cheios de reserva, a pensar: “Mas afinal, para que é que elas servem? Nem sequer sabem jogar à bola...”
Nesses verdes anos, do outro lado da barricada, bem os víamos agitados, desajeitados, esganiçados, parvos, mas muito cúmplices. Às vezes eu ficava a observá-los, meio ressentida com a sua autosuficiência, cheia de vontade de pertencer também à irmandade da carica, porque sentia que eles tinham mais capacidade de se divertir uns com os outros do que nós.
Será isto que nos atrai quando nos fazem rir? Esta sensação de redenção? A aventura finalmente consentida de nos rirmos com as suas piadas? Às vezes tão parvas, mas mesmo tão parvas que até parece que no instante seguinte ainda nos arriscamos a que eles nos convidem para ir ali para o passeio da rua jogar ao bilas...

Já que hoje é sexta-feira

Aproveito para confessar qual é o meu cliente favorito nesta agência.

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Momentos Kodak (54)

Alberto João Jardim
Fotografia: Rodrigo Cabrita

Cinco dias, cinco pratos

Juro que só agora me lembrei de que o Adolfo Mesquita Nunes me incluiu há já vários dias numa destas listas circulares que abundam na blogosfera com o pedido de lhe dar nota das minhas cinco mais recentes refeições. Vai atrasado, mas vai à mesma: cá fica o inventário, de segunda a sexta. Assim mesmo - uma por dia. É uma regra já antiga: quando almoço, não janto; quando janto, não almoço.
2ª feira - Paella. No Solar dos Presuntos. Sem dúvida a melhor de Lisboa.
3ª feira - Risotto de pato. No Sucre. Uma das mais estimulantes descobertas gastronómicas que fiz ultimamente na capital (ups, se calhar não devia ter falado disto: qualquer dia começa a ser difícil arranjar lá mesa...)
4ª feira - Empadas de galinha. Na imprescindível Charcutaria (a da Rua do Alecrim, que prefiro à outra).
5ª feira - Cataplana de bacalhau. No velho Tico Tico, de Campo de Ourique, que hoje se chama não sei o quê. Com a turma cá do blogue.
6ª feira - Spaghetti caprese. O meu prato vegetariano favorito. No Valentino.

E por aqui me fico. Com um abraço ao Adolfo. E sem maçar ninguém com uma pergunta tão indiscreta.

Cem anos de História para isto


Por todo o lado, em especial no D.N. que até publica a palavra malgrafada na sua capa, ele é «escutismo» para aqui e «escuteiros» para ali. Sucede que tais palavras não existem. Em português, escrevem-se «escotismo» e «escoteiros», como podem verificar no site oficial da A.E.P. (o «ó» está bem destacado a verde para não haver enganos). Depois, o que há são «escutas». De Corpo Nacional de Escutas. Adaptação do escotismo feita pela igreja católica, como a fizeram também os adventistas do sétimo dia com os «desbravadores» ou o partido comunista com os seus «pioneiros», se é que tal coisa ainda existe. Escoteiros de verdade há só uns. Os meus. Em 1907, Lord Robert Stephenson Smyth Baden-Powell levou consigo um grupo de 20 rapazes para a Ilha de Brownsea, para realizar o primeiro acampamento escotista de todos os tempos. «Escotista», perceberam? Arre.

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O partido do "porque não"

"O PSD nasceu como partido do 'porque sim' e está transformado num partido do 'porque não'. Não é saudável que todos os 'laranjinhas' com que me cruzo achem que Marques Mendes não serve, que Menezes é um perigoso populista a deter a todo o custo e que, apesar disso, se resignem a este estado de coisas."
José Miguel Júdice, Público
"A personagem precisa de ficar remota para sobreviver. Basta que o país saiba que Sócrates manda e gosta de correr; e que o veja de longe em ocasiões cuidadosamente encenadas. Qualquer improvisação é um perigo, como já se constatou no estádio do Benfica. Seguro (e normal) é o episódio do Centro Cultural de Belém a 30 euros por figurante. No dia em que o país confundir o primeiro-ministro com um ser humano acaba a festa, ou, se quiserem, o 'evento'."
Vasco Pulido Valente, ibidem
A verdade é esta. Mais coisa, menos coisa. E é grave que no PSD ninguém queira agarrar as rédeas de um partido que, historicamente, nunca virou a cara à luta. A maior parte da elite laranja pensa que Sócrates está de pedra e cal antes e depois de 2009. Tudo gente que não sabe o que se passa nas ruas, nas empresas, nas escolas e nas casas. Gente que confunde o green do golfe que joga ao fim de semana com a paisagem que está à volta de milhares e milhares de pessoas. Que de verde não tem nada.

Postais blogosféricos

1. O Nuno Galopim e o João Lopes prosseguem, imparáveis, um dos melhores blogues especializados - o Sound+Vision, dedicado às artes, sobretudo à música (domínio privilegiado do Nuno) e ao cinema (onde o João dá cartas). A partir de hoje na nossa barra lateral.
2. O Fernando Martins deixou O Amigo do Povo mas não abandonou a blogosfera: está agora em casa própria. Aqui. Vale a pena ir lá visitá-lo.

Mais dez motivos para gostar de Portugal (VII)


ALTE.

Dia C


De cinema. E de Cameron Diaz.

Sexta-feira

Caroline Trentini.

quinta-feira, julho 26, 2007

Festas e romarias

Como o João Gonçalves, até compreendo que se podia recuperar o dia 24 de Julho para o calendário de festas do regime, como sugere Medeiros Ferreira no Bicho Carpinteiro. A malta gosta de festas e feriados, e para estímulo nacional há que alimentar alguns mitos. Mas aqui entre nós, que ninguém nos oiça, o que festejamos no 5 de Outubro? Além da ditadura “democrática” que pôs o país num caos e da “bandeira de pretos”, como dizia o republicano Guerra Junqueiro, que razão temos para fazer festa? O voto das mulheres? Eleições livres? Liberalismo económico? Liberdade de imprensa? Liberdade de culto? Mais ensino? Paz social? Tolerância nos costumes?
Sobre o assunto, desafio Medeiros Ferreira, por quem nutro uma simpatia "empírica", a dar-nos uma resposta intelectualmente honesta e historicamente fundamentada.

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Queixa geral de aposentações

Ao longo deste mês, a expressão caixa geral de aposentações toma-me de assalto sempre que faço uma tentativas de actualização noticiosa. Percebo que os funcionários públicos estão a liderar um movimento que defende que, se a pessoa vai morrer, tem direito a não estar a trabalhar. Parece-me bem, com tanta coisa mais interessante que há para fazer. Noto, no entanto, que o título que vi recentemente - "Morreu a trabalhar" - não é notícia. Muita gente em Portugal morre a trabalhar. A mim o que me indigna é morrer em consequência do trabalho e isto acontece a toda a hora. Quantas notícias vemos por semana, em letra pequena, sobre operários que morreram a abrir uma vala, e quantas teremos que ver até se começar a escorar as valas? Por exemplo.

O PSD no seu melhor

Fiquei a saber pela indispensável secção "Indiscretos" da revista Sábado que Pedro Santana Lopes tem um blogue. Isso mesmo. Depois de José Pacheco Pereira, Luís Filipe Menezes e de Marcelo Rebelo de Sousa, agora Santana Lopes aparece a mandar as suas farpas na blogosfera. Apesar de ainda só ter "postado" duas vezes, veja-se o tom num dos escritos sobre o dia das eleições intercalares para a Câmara de Lisboa: "A Câmara foi posta ao serviço de uma seita que ocupou um partido. Por isso mesmo, a Câmara funcionou, não para lisboa mas para o poder instalado na São Caetano. A Câmara de Lisboa foi transformada numa Universidade Atlântica 2, o que foi facilitado pelo facto de Carmona Rodrigues estar muito, muito tempo em viagens". Como ainda não foi desmentido que o blogue não seja mesmo elaborado e mantido por Santana, deduzo que o antigo primeiro-ministro estivesse a referir-se a... Luís Marques Mendes (que bem podia responder criando o seu próprio blogue). Isto promete.

Falta só um bocadinho assim


É quase fim de semana mas parece ainda longe, muito longe. A receita?
Laughing yoga aqui. E resulta? Não faço a mínima.
Nem eu sou assim tão seriamente avariado da pinha ao ponto de experimentar.

Depois do almoço de hoje

Decidi que a minha arma de eleição contra o inimigo será a Glock: Maneirinha e com provas dadas. Ainda pensei ir à estante repescar «A Arte da Guerra» mas decidi deixar isso para as meninas. Agora, aguardo apenas a lista dos nomes.

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A ler

1. "Estatuto do Jornalista: o que está em causa", por Francisco A. van Zeller.
2. "Zelo semântico inconstante", do Paulo Gorjão.
3. "Para inglês ver", por José.
4. "A fusão PSD/CDS", por Pedro Norton.
5. "Remota diferença", do Carlos Abreu Amorim.

Ontem, no Coliseu

«Apesar de escrever as suas canções, ela é essencialmente uma intérprete, ou seja, não se entrega emocionalmente, não está ali para grandes catarses», escreve o Pedro Mexia sobre Aimee Mann, a propósito do concerto onde nos encontrámos ontem. Eu, que tinha comigo um par de binóculos, confirmei: Os olhos de Aimee são de um azul gelado e opaco mas o público portou-se como o Pedro tão bem descreve, começando a festa mesmo antes dos primeiros acordes. Nós somos assim, gostamos de gritar a quem amamos os nossos sentimentos, correspondidos ou não. A certa altura, divaguei e dei um salto quântico mental, inexplicável porque não racionalizável na sua causa. Recordei o concerto de há sei lá quanto anos de Joan Baez, no Pavilhão de Cascais, uma das poucas vezes em que senti vestígios de agorafobia, tal era a multidão. Dei por mim a pensar se Aimee seria a Joan Baez de hoje, ultrapassada que foi a mensagem política e o «sentimento do colectivo» da segunda pela partilha emocional e individual da primeira. Mas não me parece. Faltou, para isso, a emoção. Aimee está aos 46 anos com a voz numa condição excepcional. Só assim pôde prescindir da parafernália cénica e apoiar-se apenas nas suas guitarras, num baixo, teclas e bateria (cujo som, estranhamente, me surgia vindo do lado oposto ao palco). A voz, dizia eu, foi quase magnífica. E digo quase porque Aimee parecia estar, se não feliz, pelo menos satisfeita consigo e com a vida. No passeio do S. Jorge, tinha encontrado antes «um dos casais mais badalados do momento » prestes a entrar na ante-estreia dos Simpsons e o PRD classificara-me a música de Aimee Mann como «depressiva». Não foi. Talvez devesse ter sido. Pessoas como eu e o Pedro Mexia necessitamos de angst como de pão para a boca. É ao ouvir canções «depressivas» que nos lembramos de como não estamos sózinhos.

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Um dia não são dias...

Hoje ninguém escreve nada? Devem estar todos a trabalhar muito para compensar as ondas de choque do grande almoço de Verão do Corta-fitas, logo à tarde. Da animada cavaqueira, e da saborosa cataplana bem regada, obteremos por certo as mais perspicazes teorias em prol da harmonia universal. Trabalhar à tarde é que vai ser mais difícil.

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quarta-feira, julho 25, 2007

As Emoções Básicas (crónica) X


O sonho
Vivemos num tempo estranho, quando a única época em que as nossas mentes descansam se chama silly season, a época tola. Podemos preguiçar, esticar os braços, contemplar o que é belo, sem nos preocuparmos com as coisas "importantes" que habitualmente nos ocupam: a medíocre política, o trabalho insano, a competição inútil e as riquezas materiais.
(Numa história taoísta, um homem muito pobre que procurava ouro ia a caminhar no meio de uma rua cheia de gente; ao ver passar alguém que transportava um saco de ouro, correu para roubar o saco, mas foi apanhado pela multidão; o juiz perguntou-lhe 'como pudeste ser tão inábil, roubar à vista de tanta gente’; e o homem respondeu que não vira a multidão, só conseguira ver o ouro).
...Parecemos às vezes este homem que só conseguia ver o ouro. Corremos atrás de algo que nos foge sempre e que não nos satisfaz, por ser sempre tão escasso, algo que apenas brilha, um brilho frio e distante...
Não pensem que esta é uma crónica moralista, não venho dar lições que não posso dar. Queria escrever sobre a tristeza, sobre a nostalgia, mas está um dia solar e vivemos na silly season. Esta é uma crónica sobre a ausência de tema, sobre a futilidade, sobre o tempo que passa, sobre o sonho.
Na minha preguiça, estava a ler uma história da antiga sabedoria chinesa, um pequeno texto chamado "sonhos", de um mestre taoísta Lieh-Tzu que terá vivido no quarto século antes de Cristo, ou talvez não, (talvez tudo isto seja um devaneio), tal como era um sonho o que sentia o rei Mu, governante da terra de Chou, que mandou construir um grande palácio em honra de um mágico que podia atravessar fogo e água, metal e pedra, que podia voar e acalmar as inquietações humanas.
E nesse palácio o rei reuniu as melhores concubinas e mandou fazer os melhores repastos, mas o mágico nunca se contentava. E, um dia, o mágico levou o rei a voar muito acima das nuvens e os dois chegaram a um palácio esplendoroso, que era o palácio do mestre mágico, e o palácio terreno deixou de fazer sentido, pois não passava de uma miserável cabana, em comparação. E, depois, o mágico levou o rei de Mu a viajar até um local muito escuro, o sítio do grande abismo, e deixou-o cair... Foi então que o rei acordou. Perguntou às pessoas à sua volta o que acontecera e disseram-lhe que estivera sempre no mesmo sítio e que passara pouco tempo. E o mágico explicou-lhe que ambos os palácios eram irreais. E este magnífico texto, que aqui tento resumir sem habilidade, termina assim: "Sem sairmos de portas, podemos conhecer o mundo inteiro; sem olharmos pela janela, podemos ver o caminho do céu; quanto mais longe viajarmos, menos poderemos saber".
Acho que esta história chinesa se aplica à ânsia ocidental: na busca incessante da felicidade, acabamos por não encontrar coisa alguma; e perdemos a noção dos pequenos sonhos, dos ínfimos prazeres, que estão ali, ao pé de nós, à mão de semear.
É por isso que a época do descanso e da preguiça (quando temos tempo para pensar dentro de nós) nos parece tola, mas isso é erro nosso, ilusão e devaneio.


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Ensaios

"Não posso estar calado perante alguns casos ultimamente vindos a público. Casos pontuais, dir-se-á. Mas que têm em comum a delação e a confusão entre lealdade e subserviência. Casos pontuais que, entretanto, começam a repetir-se".

"Há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa história, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE".

As frases são da autoria de Manuel Alegre, foram hoje dadas à estampa num artigo de opinião para o "Público", que aliás faz manchete com isto, e dão que pensar. Muito. Por este caminho, não me admira nada que o cenário político-partidário venha a alterar-se radicalmente até às eleições de 2009, ou logo depois delas. Ao centro-direita, com as lideranças de Marques Mendes e de Paulo Portas há claramente espaço para que surja um novo partido que possa aspirar a ter entre 10% e 15% dos votos e uma bancada parlamentar com mais de dez deputados. Santana Lopes, que há uns anos ameaçou lançar um PSL, está deserto para criar uma espécie de Aliança Democrática renascida. O resultado do seu ex-amigo Carmona Rodrigues demonstrou que há espaço para uma aventura destas. À esquerda, Manuel Alegre, nas presidenciais, e Helena Roseta, nas intercalares de Lisboa, provaram que pode aparecer por aí um MIC institucionalizado, que arrasaria metade da bancada do Bloco de Esquerda. As presidenciais e as intercalares de Lisboa podem muito bem ter sido uma espécie de balão de ensaio para o sistema mudar. O sistema está caduco e doente, mas também não sei se Santana e Alegre estarão dispostos a deixar os seus partidos de sempre. Os mesmos que lhes deram nome, projecção e impacto.

Tertúlia literária (208)

- E O Processo?
- Deu em nada, como já calculávamos. A ministra da Educação não teve coragem em levar com aquilo por diante.

Outro bom motivo para gostar de Portugal

Prainha.

Às páginas tantas...

Ao contrário do que se possa pensar não sou um puritano, muito menos um moralista. Mulheres bonitas, maminhas, rabos e pernocas, quando justificadas pelo seu contexto, são graças com as quais convivo prazenteiramente, na medida possível a um comprometido marido e chefe de família.
Vem isto a (des)propósito das secções de classificados, “de RELAX” publicadas nalguns jornais chamados “de referência”. De há uns tempos para cá, estas páginas têm-se progressivamente transformado numa obscena montra da miséria humana, um profusamente ilustrado catálogo de prostituição. A diversidade de órgãos e membros femininos expostos é inúmera e a cores. A carne exposta como no talho.
Se bem me lembro, este tipo de publicidade surge ciclicamente como uma praga (lembram-se da publicidade às chamadas de valor acrescentado?) em resposta a um anónimo e vasto mercado de frustrados sexuais.
Por ora, aguarda-se que o legislador acorde um dia destes e decrete a regulação desta emergente(?) oferta publicitária. Até ver. Entretanto, é melhor preparar uma explicação de “bom gosto” para dar às minhas criancinhas, quando um dia destes, às páginas tantas, encontrarem os deprimentes anúncios ilustrados num qualquer diário generalista... de referência.

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Mais dez motivos para gostar de Portugal (VI)


LINDOSO.

Tertúlia literária (207)

- Que tal o Quixote?
- Não tenho a certeza se ele fez bem em avançar contra o Marques Mendes.

E por cá?

Se estiverem para aí virados, leiam esta entrevista a Octavio Rojas e Jorge López sobre os blogues criados para fins políticos. E de como uma ferramenta de comunicação maltratada e mal utilizada pode acabar por afectar negativamente a imagem de um político, em lugar de melhorá-la.

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É logo à noite


A pedido do António Manuel Venda, aqui fica o convite para que apareçam hoje na Casa Fernando Pessoa, onde José Eduardo Agualusa apresentará «O que Entra nos Livros». Espero sair do concerto no Coliseu a tempo de ainda dar um merecido abraço ao autor.

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Não me apetece

Recordam-se do filme "A Guerra das Rosas"? A história reduzia-se a ataques e contra-ataques pela posse da casa entre um casal em processo de divórcio, até ao lustre final.
Foi do que me lembrei quando li este artigo sobre desavenças entre vizinhos. As histórias relatadas são, como direi, surreais : "há quem perca a cabeça por causa do fumo das sardinhas e acabe a atirar «mangueiradas» de água para o andar de baixo, há uma vizinha que, faça sol ou faça chuva, deixa os dois cães na varanda, ficando os cães a ladrar o tempo todo além do mau cheiro que causam, um morador no rés-do-chão que desespera com a quantidade e diversidade de objectos que aparecem no seu jardim: pontas de cigarro, papéis, uma torneira e até um fervedor. Isto sem falar de uma mulher idosa que costumava dançar sevilhanas de madrugada. Como os vizinhos se queixavam começou a deitar botijas de gás pelas escadas. O administrador do condomínio alertou a filha da vizinha, mas esta não gostou e deu três facadas na porta do vizinho de baixo."
Segundo li, estes casos são resolvidos nos Julgados de Paz, especializados em mediar conflitos deste género, o que não deve ser nada fácil. Devem estar cheios de processos com gente quezilenta e queixosos deseperados.
Na senda da paz, da ordem e da tolerância comunitária, até existe o Dia Europeu dos Vizinhos. Isto é um suponhamos mas creio que isso significa que nessa cordata efeméride deveríamos sorrir ao estudante de piano, dar uma gracinha ao aprendiz de flauta, cumprimentar os fanáticos das remodelações, saudar os donos dos cães que emporcalham os acessos, segurar a porta aos que bloqueiam os passeios, elogiar as cozinheiras dos fritos, lisonjear o odor dos guisados, louvar a felicidade do casal do 11º e aplaudir os Iron Maiden ao jovem do 12º.
E você, caro leitor, é um bom vizinho? Eu estou do lado do Paulo Tunhas no Atlântico: "Bom dia e andam com sorte".

terça-feira, julho 24, 2007

Salazar em 75 Minutos

Numa altura em que Salazar ganhou o concurso promovido pela RTP “Os Grandes Portugueses” e em que não faltam livros nas prateleiras das livrarias sobre o “ditador”, as expectativas em torno de Salazar The Musical são grandes e a estreia da peça encenada por John Mowat – um inglês que começou a sua ligação a Portugal em 1992, quando actuou e deu aulas no Chapitô – pareceu mesmo oportuna.
Ainda que seja urgente rirmo-nos do nosso passado, a ligeireza com que o tema e vida deste político e estadista é tratado, apesar de parecer propositada, deixa muito a desejar. Talvez se o título fosse “Oliveira Salazar em 75 Minutos”, uma comédia, sem pretensões musicais, não saíssemos tão defraudados. É, sem dúvida – e muito ao estilo do seu encenador –, um espectáculo mais visual que musical.
Em palco há à volta de 20 cadeiras, diferentes objectos e instrumentos que vão sendo utilizados à medida que a peça se vai desenrolando. Seis actores/músicos em palco, com principal destaque para José Pedro Vasconcelos, que começa por dar vida a Salazar, trocando, mais tarde, este papel com Miguel Melo. Uma passagem um tanto ou quanto estranha. “Então, e eu?”, pergunta JPV, “Tu, baza!”, responde MM. Margarida Gonçalves, que demonstra uma boa fisicalidade, lembrando uma Rueff “versão 2”, dá vida à mãe de Salazar e a Maria. Os três conseguem, a espaços, arrancar alguns risos do público, mas nada mais do que isso.
Quem pouco ou nada sabe sobre Salazar também não é ali que vai aprender. Nasceu no Vimieiro, passou pelo seminário, sempre teve dificuldade em se sentar na cadeira, enterrou a mãe, conheceu e deixou-se seduzir por uma Maria (a empregada de toda a vida) dominadora e ciumenta. É ela quem decide a colocação do Cristo-Rei, a construção da ponte 25 de Abril e está na origem do incidente que leva Salazar a cair da cadeira, o que o torna mentalmente diminuído. Na peça, é Maria quem o empurra e exclama posteriormente: “Encontrei-o assim...”. Isto representado de forma exagerada num tipo de humor negro que nem todos apreciam. Talvez por isso, a sala cheia a que o teatro Villaret nos habituou estivesse às moscas. E a desculpa não são as férias, são diálogos do tipo:
- Lisboa precisa de si!
-Dá-me então só 2 minutos para enterrar esta desgraçada? (Salazar referindo-se à mãe). Se a ideia inicial da peça era desmistificar e ridicularizar Salazar, conseguiram. Contudo, de forma fraca. Indicado para quem nunca viu trabalhos encenados por John Mowat. Porque, para quem já viu, este soube a pouco.

As time goes by


Em 1976, Diego e Susy Goldberg decidiram parar por um breve instante a seta do tempo e fotografarem-se. Passaram a fazê-lo, como um ritual familiar, sempre no mesmo dia do ano. Em 1977, nasceu o Nicolás. Em 1978 o Matías. Em 1983 o Sebastián. Ao vê-los, é impossível não fazermos o mesmo exercício que eles, mas em retrospectiva. Bem como, no progressivo envelhecimento dos seus rostos, rever o nosso e sentir o efeito do tempo, esse grande equalizador.

As Emoções Básicas (crónica) IX

A visita



O primeiro-ministro estava com grande dor de cabeça. Ninguém vira a sua queda, na véspera, nos jardins de São Bento. Batera com a nuca e estava com amnésia, mas o governante decidiu mesmo assim prosseguir com a visita à escola.
Impecável. Excelentes instalações. E ficou impressionado com as respostas prontas dos meninos e das meninas.
- Estamos a produzir crianças cada vez mais inteligentes, disse o primeiro-ministro, para aprovação geral das professoras e dos jornalistas. A ministra concordou, lançando-se de imediato num erudito monólogo, que todos aplaudiram no final.
O primeiro-ministro estranhou que as crianças aplaudissem. Estavam todas tão limpinhas, tão interessadas nos novos computadores da escola.
- O plano tecnológico está a funcionar às mil maravilhas, afirmou a ministra, como se lesse os pensamentos do líder.
Foi então que o primeiro-ministro notou, com estranheza, a extraordinária beleza de todas as professoras. Pareciam saídas de páginas de revista. Os jornalistas também pareciam invulgarmente sofisticados. E, na rua, militantes do partido agitavam bandeiras, sem grande convicção, e gritavam vivas.
Intrigado com aquilo, no final da visita, já dentro do BMW oficial, o primeiro-ministro decidiu interrogar o seu assessor.
- Achei aquelas crianças demasiado...como posso dizer?...demasiado perfeitas. Como é que isso se explica?
- Eram actores, senhor primeiro-ministro.
- Não compreendo...
- As crianças foram contratadas por uma agência de casting.
- E as professoras eram demasiado bonitas...
- Todas top model. Nestas ocasiões, procuramos sempre o melhor...
- E os jornalistas?
- Actores profissionais. Do Dona Maria, sobretudo, mas veio um cantor do São Carlos, aquele que lhe fez uma pergunta a cantar...
- Achei estranho.
- As perguntas são todas estudadas e preferimos actores com experiência.
- Mas, e a ministra?
- A agência de comunicação também tratou disso.
- E os militantes?
- Pagos à hora. Vieram numa excursão.
- Bem, e você?
- Fui contratado na semana passada, não se lembra? Antes, fiz aquele anúncio da Coca-Cola...
O primeiro-ministro avançou para o lugar da frente e, alarmado, ordenou ao motorista:
- A toda a velocidade, leve-me para o hospital mais próximo. Esta amnésia pode ser perigosa...
O motorista olhou para trás, desconsolado:
- Eu não sei conduzir, senhor primeiro-ministro. Sou actor de cinema e disseram-me para me sentar aqui. E é tudo o que sei fazer.

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As Emoções Básicas (crónica) VIII

Escaqueirar Cartago

Odeio polémicas á portuguesa, pois parece que quem fala mais alto é quem tem sempre razão. Depois, os argumentos são como as cerejas, vem sempre uma atrás da outra e, quando damos por nós, engolimos o cesto todo, o prato está cheio de caroços e a barriga perigosamente farta.
Vem isto a propósito de uma alegada polémica com Pedro Sales, de Zero de Conduta, que viu grande indignação no meu texto sobre a apreensão de uma revista satírica que insultava o príncipe herdeiro espanhol. E, vai daí, já estou metido num tema de capa e espada, com argumentação monárquica à mistura e gritos de Delenda est Cartago.
Repito: na minha modesta opinião, a liberdade de expressão não é um direito absoluto e não está acima da liberdade de ninguém, seja ele príncipe ou plebeu.
É apenas isto, meu caro Pedro Sales, que escrevo naquela crónica. É uma opinião que tenho há muito tempo. Julgo que, infelizmente, o exercício da liberdade de expressão é um poder a que nem todos têm acesso e, por isso, não se trata exactamente de um direito (ou apenas de um direito), mas sobretudo de uma responsabilidade. Ou seja, a quem o exerce exige-se que cumpra o seu dever.
As polémicas blogosféricas são interessantes porque as pessoas gostam de ter sempre razão e, acima de tudo, porque a leitura dos supostos adversários é muito ligeira, aflorando vagamente o que está efectivamente escrito. É como quem visita o museu de ciência natural. O Luís Naves escreve isto, ergo, deve ser uma criatura assado.
Penso que o método dedutivo não será o mais correcto, pois faz lembrar aqueles cientistas que analisam as partes do elefante: um deles descobre a tromba e conclui que se trata de uma serpente; outro, a pata, por isso não duvida de que se trata de uma árvore; o terceiro investiga a cauda e determina que estamos perante um cão.
No fim do percurso, fico colado a uma polémica sobre homossexualidade (juro que nem percebi bem, apesar de ter lido várias vezes para tentar descodificar). Trata-se de um assunto sobre o qual não tenho nenhuma opinião estruturada ou que valha a pena partilhar com leitores.
Serve afinal esta crónica para deixar claro que não me agradam muito estas polémicas à portuguesa, devido ao ruído e ao facto de se discutir sobretudo a espuma das causas e nunca a sua essência.
Aqui, o que me incomoda é a leveza dos argumentos. Imagine o Pedro que o expunham publicamente num enxovalho daqueles, para mais humilhada também uma pessoa amada. Não sentiria indignação? Acha que isto é apenas uma questão de republicanos ou monárquicos? Ou uma simples equação sobre os limites da liberdade de expressão?

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Show Business

Antigamente, bem ensinados, levavam-nos de autocarro e vestidinhos de branco para o Estádio Nacional. Para venerar o regime. Agora, paga-se a uma agencia de comunicação, ou de casting e cria-se o “acontecimento à medida. Sinal dos tempos!

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Liberdade e má conduta

Caro Pedro Sales

A respeito do seu acintoso texto que me mereceu a maior atenção, permita-me três observações:

1 - Na minha modesta opinião, as caricaturas a Maomé foram um nítido abuso da liberdade de expressão. Coisa de gente malcriada e blasé, de quem herdou a liberdade sem esforço, para quem a paz e a sopa na mesa é um dado adquirido.
2 – Não percebo com que sentido é que o Pedro mistura homossexuais com republicanos ou monárquicos. Há-os com certeza proporcionalmente nas duas facções politicas. Volto a afirmar que não julgo ninguém pelas suas inclinações sexuais. (Confesso que em termos meramente abstractos me irrita um pouco a imagem do republicano à antiga, todo engomado, de bigode e chapéu, mas isso passa depressa com um “passou bem”).
3 – Finalmente, acredito que a liberdade de expressão é um bem demasiado precioso, e por tal devemo-nos sempre indignar quando são cometidos abusos. Nada mais.

Com consideração,

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segunda-feira, julho 23, 2007

Os posts também se oferecem

Ofereço este post ao amigo João Villalobos, visto ter gostado de o ler. É todo seu.
E ainda leva um sonoro chuac em cada uma das bochechas.
*
Mais do que palavras
Há expressões da moda, de todos os tempos, cómicas, brejeiras, que usamos mais, que nunca usamos, que nos prendem, simpáticas, de que gostamos ou de que não gostamos mesmo nada.
É sobre estas últimas que me apetece escrever. No top mais das mais parvas está a expressão "Quem sabe...?" , substítuida por vezes pelas expressões "talvez um dia", "nunca se sabe", "o futuro o dirá", "o futuro a Deus pertence", etecetera, etecetera.
Quem utiliza a expressão "Quem sabe..", sabe muito bem que isso significa "nunca", "jamais" ou "em tempo algum", que funciona como uma espécie de paliativo para amortecer o que fica por dizer. Não falo de lotarias ou jogos de sorte. Aqui não "entra" sorte nenhuma, as palavras são proferidas intencionalmente como gotas alucinogéneas que criam a ilusão de que nada é definitivo. É uma expressão que serve para empatar e que tem os seus efeitos em almas vulneráveis, incautas e tantas vezes ingénuas. "Nunca se sabe..." : falso, nada mais falso. Ou melhor, uma grande ficção adocicada ou embalada com vistoso laçarote mas com o interior vazio. "O futuro o dirá...": expressão idiota que permite a germinação de situações dúbias, contorna compromissos e cria limbos de esperança ou expectativa na maioria dos casos completamente infundadas.
As infecções tratam-se com antibióticos e não com produtos naturais. O placebo serve muito bem como indutor da sugestão e tem o efeito psicológico que favorece uma ilusão subjectiva, mas não cura coisa nenhuma. O problema reside se queremos ou não acreditar e convém não esquecer que nem Deus nem o "futuro" têm sede nem impressos para reclamações.
O ideal mesmo seria que as palavras viessem com livros de instruções. "Nunca se sabe" o que se poderia evitar.

Detesto ter razão

Há poucos dias, escrevi com o apoio do texto do Raúl Vaz que Menezes se candidataria a presidente do PSD e seria o único a disputar a liderança com Marques Mendes. E acrescentei que LFM sairia novamente derrotado. Daqui a mais uns dias se verá. Algumas vezes, detesto ter razão. Outras, nem por isso.

As Emoções Básicas (crónica) VII


A caricatura

O João Távora já mencionou aqui o tema da caricatura “infame” do príncipe herdeiro espanhol, desenho que um juiz mandou apreender. Concordo com aquilo que o João escreveu e com o uso da palavra “infame” para descrever os desenhos e a inqualificável intrusão no espaço privado das vítimas.
Para alguns comentadores, a liberdade de expressão é o direito mais importante que existe. Estas pessoas usam geralmente um argumento curioso, segundo o qual a decisão do juiz de apreender a revista satírica é errada e um inqualificável atentado à humanidade e arredores. Porque, segundo estas opiniões, dizer mal dos poderes, de todos os poderes, é a questão essencial.
Claro que estes opinadores não pensam na liberdade do príncipe. Na liberdade de poder partir o focinho ao engraçado que o desenhou a ele (Felipe) e à sua esposa, numa circunstância que qualquer um de nós acharia “infame”, se fosse connosco. Aliás, os comentadores nunca pensam: “e se fosse comigo e com aqueles que eu amo?”
Falo por mim: teria muita vontade de partir o focinho ao estúpido.
É engraçado que este debate surja num país onde o respeitinho sempre foi o mais importante. Claro que os que defendem a liberdade de expressão como direito absoluto (e cimeiro) logo viram o bico ao prego, afirmando que a decisão judicial é errada pois devia prevalecer o direito de criticar ou dizer mal dos poderosos.
Tenho aversão aos argumentos geralmente usados neste tipo de debate, pois ficam sempre ao lado do essencial. Se a liberdade, incluindo a de expressão, fosse um direito absoluto, existia uma espécie de lei da selva, que é o mesmo que dizer a lei do mais forte e do mais poderoso. Felipe teria de partir o focinho ao cómico, algo que não precisa de fazer porque há tribunais e juizes que defendem a intimidade do príncipe, com as respectivas decisões judiciais.
Ninguém tem o direito de violar o meu espaço íntimo. A minha liberdade é tão sagrada como a liberdade de outra pessoa qualquer, independentemente da posição que cada um de nós ocupa na escala do poder.
Da mesma forma, ninguém tem o direito de violar o espaço íntimo do príncipe, pois isso será uma redução inqualificável da sua liberdade. Felipe é poderoso? Sim. Deve ser transformado em vítima por isso? É evidente que não.
Isto vai sempre dar ao mesmo: a liberdade de expressão não é apenas um direito e, sobretudo, não é um direito absoluto. É acima de tudo um poder e uma responsabilidade.

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Os foragidos de São Bento (3)

Há nesta lista um pormenor que me intriga acima de tudo: o que se passará no círculo eleitoral do Porto, que leva tanta gente a desertar? Já de lá zarparam nada menos que onze deputados: Fernando Gomes, Carlos Lage, José Luís Carneiro, Oliveira Martins, Braga da Cruz, José Manuel Ribeiro (PS), Marco António, Carlos Pinto (PSD), Castelo-Branco, Pires de Lima (CDS) e Teixeira Lopes (Bloco de Esquerda). Democratas-cristãos e sociais-democratas já nem sequer conservam em São Bento nenhum dos eleitos em 2005 pelo Porto. A tradicional aversão nortenha à capital não pode explicar tudo, até porque alguns dos mencionados são tão portuenses de origem como eu sou da Lourinhã...

Os foragidos de São Bento (2)


Ainda percebo que se faça como Cravinho, que abalou para o BERD, ou como Pina Moura, que abichou o cobiçado cadeirão da Media Capital. Agora quando se troca o lugar de deputado na Assembleia da República por um tachinho fajuto, como presidente do Instituto do Consumidor, ou por uma função aparentemente muito mais desgraduada, como o poleiro de vereador nas câmaras de Castelo Branco ou Portimão, ficamos com uma ideia nítida da noção que os nossos eleitos têm de serviço público. Os eleitores revelam uma crescente tendência para mandá-los às malvas de eleição em eleição? Nada mais natural. Nada mais salutar.

Os foragidos de São Bento (1)

Vem hoje estampado, no Correio da Manhã, o principal motivo que leva os portugueses a virarem cada vez mais costas às urnas: 83 dos 230 deputados eleitos em Fevereiro de 2005 já mandaram bugiar o hemiciclo, trocando-o por actividades presumivelmente de maior prestígio e putativamente mais rendosas. Aqui ficam os nomes de alguns dos foragidos, acrescidos das funções que os levaram a dizer adeuzinho a São Bento:
FERNANDO GOMES. Eleito pelo PS (Porto). É agora administrador da GALP.
JOSÉ MANUEL RIBEIRO. Eleito pelo PS (Porto). É agora presidente do Instituto do Consumidor.
HENRIQUE TRONCHO. Eleito pelo PS (Évora). É agora presidente da EDIA - Alqueva.
JOÃO CRAVINHO. Eleito pelo PS (Faro). É agora administrador do Banco Europeu de Desenvolvimento.
DIAS LOUREIRO. Eleito pelo PSD (Lisboa). É agora presidente não-executivo da Sony Ericsson para a Península Ibérica.
PINA MOURA. Eleito pelo PS (Guarda). É agora presidente da Iberdrola e administrador da Media Capital.
PIRES DE LIMA. Eleito pelo CDS (Porto). É agora presidente do conselho de administração da Unicer.
LUÍS BRAGA DA CRUZ. Eleito pelo PS (Porto). É agora administrador do grupo italiano ENI.
GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS. Eleito pelo PS (Porto). É agora presidente do Tribunal de Contas.
NUNO MORAIS SARMENTO. Eleito pelo PSD (Castelo Branco). Dedica-se à advocacia.
CARLOS LAGE. Eleito pelo PS (Porto). É agora presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional da Região Norte.
VÍTOR CRUZ. Eleito pelo PSD (Açores). É agora gestor do grupo açoriano Bem Saúde.
ÁLVARO CASTELO-BRANCO. Eleito pelo CDS (Porto). É agora vice-presidente da Câmara Municipal do Porto.
JORGE COELHO. Eleito pelo PS (Lisboa). Dedica-se a actividades empresariais.
CRISTINA GRANADA. Eleita pelo PS (Castelo Branco). É agora vereadora da Câmara de Castelo Branco.
EUGÉNIO MARINHO. Eleito pelo PSD (Braga). É agora vice-presidente da Câmara Municipal de Fafe.
MARCO ANTÓNIO COSTA. Eleito pelo PSD (Porto). É agora vice-presidente da Câmara Municipal de Gaia.
LUÍS CARITO. Eleito pelo PS (Faro). É agora vereador da Câmara Municipal de Portimão.
RUI CUNHA. Eleito pelo PS (Lisboa). É agora presidente da Santa Casa da Misericórdia.

Mais dez motivos para gostar de Portugal (V)


CASTELO NOVO.

Nas colunas


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Coisas que me passam pela cabeça

As mulheres trocam depressa o sentido da realidade por meia dúzia de galanteios. Aos olhos de um sedutor isso é divertido, estimulante e enternecedor.

'Bora lá fazer bebés


Francamente não entendo esta proposta de suposto «incentivo» à maternidade, em troca de uns patacos. Os quais, diga-se, nem para um pacote dos grandes de fraldas Dodot chegam. É obvio qual o único caminho a seguir, isto se queremos realmente contrariar a quebra avassaladora da taxa de natalidade: Instaurar, e já, a poligamia.
Dir-me-ão que tal solução só satisfaria os ricos e seria financeiramente incomportável para a classe média, sem falar dos ainda menos abonados. Errado. O sistema que proponho passaria por uma obrigatoriedade, imposta pelo Estado, de cada empresa subsidiar (através de uma percentagem correspondente à sua verba publicitária) a Associação de Famílias Numerosas. A diferença seria que, em lugar de promover essa instituição obsoleta que é a família monogâmica, a associação passaria a ser a entidade gestora das comparticipações aos pais e mães mais produtivos e com menores rendimentos. Por exemplo, através da comparticipação em todos os gastos relacionados com as crianças e o pagamento integral das pensões de divórcio às ex-mulheres, coisa que naturalmente já preocupa um homem quanto mais se multiplicar a esposa por (vá lá) aí umas sete.
De acordo com as minhas contas, Portugal poderia chegar ao final do século no mínimo com uma população equivalente à de Espanha, desde que o novo sistema não fosse apenas extensivo a esposas de nacionalidade portuguesa. No que diz respeito aos homens, a questão nem se coloca. Só os nossos genes poderão assegurar a ligação histórica com o nosso glorioso passado, a qualidade da reprodução e as linhagens futuras. Aguardo uma resposta por parte dos decisores (e decisoras, pois está claro) a esta minha proposta, certo como estou de que a mesma só poderá recolher opiniões favoráveis e respostas céleres por parte das entidades competentes.

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A minha táctica

Depois de muito ponderar, decidi não avançar para a liderança do PSD. Assim, posso continuar a ganhar tranquilamente dinheiro na iniciativa privada e comprar uma terceira casa de férias no Algarve, o meu quinto BMW e o jeep Cherokee que a minha mulher há tanto tempo me exige. Vou armar em desportista para Baqueira-Beret e em intelectual para o Festival de Salzburgo. Volta e meia, concedo uma entrevista a dizer que isto como está não pode ser e dou as minhas receitas para vencermos o atraso. Mas não desisti da vida pública. Decidi apenas esperar pelo momento certo. Examinei atentamente o exemplo de Sá Carneiro e aprendi que não posso cometer os mesmos erros. Se ele tivesse sabido esperar, não teria fundado o partido, entrava para o PS e se calhar teria sido o sucessor de Soares. Por isso, espero pelas eleições de 2009 e, se as coisas correrem bem, o PS ganha e o Mendes deverá cair. Bem, o mais seguro é mesmo o Sócrates renovar a maioria absoluta, porque assim o Mendes não se aguenta de certezinha e então entro eu como salvador do partido. Lá para 2013 ou 2014, deverei ser primeiro-ministro e aí é que vocês vão ver como se governa este país. Isto, é claro, se eu e o partido ainda estivermos vivos e se ainda houver alguma coisa para governar.

domingo, julho 22, 2007

Libertinagens de conveniência

Eu por mim até já estou calejado. Em nome da sacro-santa liberdade de expressão alheia, desde sempre e sob o patrocínio do regime, testemunhei conformado, nos media, às mais impunes e gratuitas provocações à minha fé e outras causas desalinhadas. E diz-me a experiência que qualquer reacção piora sempre as coisas, é melhor nem ligar. Há muito que conheço o valor da minha liberdade em confronto com a das vozes do regime. Mas com o tempo ganhei imunidade e indiferença. Valem-me as minhas convicções, e também o exemplo de Cristo.
Vem isto a propósito do caso das infames caricaturas dos Príncipes Filipe e Letícia publicadas em Espanha. E não é que a fecunda liberdade de expressão de nuestros hermanos comoveu desde logo alguns nossos tolerantes e laicos republicanos? Foi o caso de Ferreira Fernandes com a sua ironia ao lado de quem, no mesmo DN, o caricaturista porno Vilhena (sem link) quase se revela um sensível conservador.
Mas cá no quintal só se promove a respeitabilidade num sentido: o devido aos senhores do regime e seus venerandos símbolos. Experimentem só xingar da bandeira da república, ou gozar com a licenciatura do nosso primeiro ministro...
De resto, imagine-se a indignação da "inteligenzia regimental", se uma perversa publicação doméstica parodiasse os nossos estimados Aníbal e Maria naqueles realíssimos preparos... Não tinha mesmo graça nenhuma, pois não?!

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Os nossos ex

“Não acredito que nasçam mais crianças porque o Governo sobe o abono de família durante o segundo e terceiro ano de vida da criança, de 20 para 30 euros” – Concordo!

“Eu acho que se deve incentivar as empresas a construírem equipamentos de apoio às crianças” – Sim, claro!

“Via com melhores olhos que se começasse a falar mais de trabalho no domicílio, da possibilidade de horários laborais flexíveis e do trabalho a tempo parcial. Isso dava mais resultados (relativamente ao desejável aumento da taxa de natalidade)” – Não tenho grandes dúvidas!

“A flexigurança exige não só dinheiro, como uma cultura comportamental quer de empresários, quer de trabalhadores, que infelizmente cá não existe” – Pois, isto aqui não é a Suécia!

“Onde eu não acho que haja necessidade de mais flexibilidade é nos despedimentos. Se os despedimentos não fossem flexíveis, não tínhamos 500 mil desempregados” – Absolutamente!

“Estão a laborar sobre um conceito muito perigoso, que é o “despedimento por incompetência”. O que é a incompetência? Podemos estar a entrar no plano da pura discricionariedade” – Eu não diria melhor!

“A nossa competência resulta também das condições que nos são dadas e do contexto laboral” – É isso!

São declarações de Bagão Félix numa entrevista ao DN de hoje, a que já me referi aqui em baixo. Numa segunda leitura constatei que eu e ele estamos de acordo nisto tudo, o que não é pouco. Não posso dizer que seja uma experiência nova, esta sintonia. Na verdade é muito forte a sensação de déjà vu, e não acredito que aconteça só comigo: é sempre tão fácil concordarmos com os nossos ex!! (Falo de ministros, é claro!)