Terça-feira, Outubro 31, 2006

Miguel, o absolutista (I)

Quando os computadores substituíram as velhas máquinas de escrever, Miguel Sousa Tavares redigiu uma apaixonada ode em prosa em louvor do vetusto instrumento que acabara de se tornar peça de museu, proclamando-se inimigo da informática. Passou-lhe então depressa o antigo amor. Mas ei-lo agora atacado por uma nova crise de passadismo, apregoando o seu ódio à blogosfera. Num artigo saído no último Expresso, a propósito de um cobarde ataque de que foi alvo, e que o deixou compreensivelmente agastado, vem agora, com o estilo a que já nos habituou, disparar mais rápido do que a própria sombra. Dizendo coisas fantásticas como esta: “Excepção feita ao correio electrónico e à consulta de sites informativos, a Internet interessa-me zero.” As “excepções” que menciona já são suficientemente relevantes para quem diz nada querer saber da Internet. Mas MST confessa ainda a sua alergia ao “universo dos chats e dos blogues”, por lhe parecer uma “preocupante manifestação de um processo de dessocialização e de sedentarização das solidões para que o mundo de hoje parece caminhar”. De novo o cenário apocalíptico, tão frequente nas reflexões deste comentador e de alguns outros que há décadas exprimem opiniões em regime de virtual monopólio na imprensa portuguesa, onde rende sempre mais o cenário que for pintado em tons bem negros.

Miguel, o absolutista (II)

Repito: tem MST razão em sentir-se ferido com o ataque soez que lhe fizeram. Mas daí até envolver toda a blogosfera no manto de “irresponsabilidade e impunidade” a que alude no Expresso vai uma distância que ninguém com seriedade intelectual devia percorrer. MST ignora que têm partido do mundo dos blogues que ele despreza as mais vigorosas afirmações de defesa que lhe exprimiram vários bloggers perfeitamente identificados. Gente tão diversa como o Carlos Abreu Amorim, o Daniel Oliveira, o Miguel Silva, o Rui Bebiano e o Rui Ângelo Araújo. Sobre isto, nem um sussurro dele.
A Internet tem incontáveis defeitos? Pois tem. Como têm a escolaridade universal e obrigatória (que, horror, “baixou a qualidade média do nosso ensino”, como as cassandras de serviço não cessam de proclamar), as férias pagas (que enxamearam o mundo de turistas, que MST já disse desprezar) e, em última análise, a própria democracia. MST e alguns outros como ele por vezes fazem-me lembrar aqueles oposicionistas espanhóis que, enterrada a ditadura, resmungavam entre dentes: “Contra Franco vivíamos mejor.”
Será mesmo? Apesar dos tarados que proliferam na Internet, não tenho dúvidas: este é um preço compreensível a pagar pelo progresso num mundo onde as máquinas de escrever, a televisão a preto e branco e o partido único são apenas memórias de um tempo que já passou.

Tertúlia literária (76)

- Vais sair a esta hora?
- Sim. Felizmente há luar.

Dedicado ao Francisco

O que é preciso é tranquilidade.

Após o referendo, a sesta


Datado de 1866 e erroneamente atribuído a Gustave Courbet, mas na realidade da autoria da pintora Jedis Céquevadansmatéte (Musée du Petit Palais, Paris).

O spórtengue que me desculpe...

Mas eu esta noite é mais Tokyo.

Tertúlia literária (75)

- Já leste o Berlin Alexanderplatz ?
- Para quê? Sei perfeitamente onde fica.

Notícias inúteis (3)

Manuel Pinho ainda é ministro da Economia.

Posso?

Tertúlia literária (74)

- Conseguiu ler esse romance do Mário Cláudio até ao fim?
- Consegui. Até ao fim da primeira página.

Só tenho uma palavra a dizer

Safa!

Spoooorrrtiiiiing!

Semana "à Paulo Bento"

Nesta SEMANA “à Paulo Bento” – o feriado de Todos os Santos confere-lhe uma risca ao meio – desejo à equipa do Sporting toda sorte do mundo logo à noite na “batalha” de Munique. A rapaziada bem merece.

Segunda-feira, Outubro 30, 2006

"Escolhas" - Uma questão de agenda?

Equívoca me pareceu a posição do professor Marcelo Rebelo de Sousa quanto à questão da despenalização do aborto, ontem nas suas “escolhas”. Ficou bem sublinhado o facto de o aborto ser matéria de referendo graças à sua iniciativa em 1996. Tudo bem; estamos-lhe gratos. Mas quanto ao assunto, eu ontem esperava uma sua posição mais… afirmativa. Hoje ao reler o resumo das suas “escolhas” no DN confirmei pelo texto a sua clara abstenção.
Entendi que aceita a pergunta a referendar como boa. Mas o que ficou a zumbir no meu ouvido foi que o professor considera precário o prazo das dez semanas de gestação na “humanitária tolerância” à mulher que aborta… E pareceu-me ouvir confirmada a minha tese de que o governo Sócrates consegue preencher a difícil agenda 2007, com mais ou menos legítimas manobras de diversão, entre a campanha para o referendo e a presidência da UE. Acho pouco.
Não conheço a agenda do professor, mas acho pouco.

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Os livros de hipermercado e o outro...

Hoje Mário Soares, juntamente com Federico Mayor, e Rosado Fernandes lançam livros. Mas esses são livros de hipermercado, quando comparados com este.

As duas primeiras páginas do livro são cadeiras de todo o género e feitio. A ironia mantém-se a propósito do local da apresentação de hoje. Vai ser no ministério das Finanças...

Perguntar não ofende, pois não?

Alguém me explica, como se tivesse 10 semanas, qual a razão para o Clube Safo se pronunciar a favor (ou já agora mesmo que fosse contra) da despenalização do aborto? Ou faltou-me aprender algumas coisas na escola?

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A César o que é de César

Normalmente evitaria polemizar com João César das Neves (JC das N). Tenho sempre a impressão de que discutir com ele é como discutir com um taxista e, no final, somos nós que pagamos a factura. Pode ser que me engane mas tenho dúvidas (ao contrário dele, pelo que parece).
Hoje, JC das N defende a geração que fez o 25 de Abril. Uma malta injustiçada pelas críticas que lhe fazem os jovens que «mesmo com cursos superiores, não conseguem carreira estável e andam no desemprego, a recibo verde ou trabalho temporário». Apesar disso, escreve JC das N, «a geração anterior sofreu muito».
Ora pode ser que tenha sofrido, pelo menos aqueles que não andaram nos copos na Sorbonne e em Oxford. Mas a verdade é que, de gestão e microeconomia, nenhum deles percebia nada. Veio a revolução e a ideia brilhante que tiveram foi obrigar quem sabia o que era uma empresa a sair do país e entregar a gestão ao Estado e aos “colectivos”. O ouro foi para o bandido e para o estrangeiro, como pagamento das dívidas das experiências marxistas-maoistas-leninistas e a agricultura ficou em cacos com as terras ao abandono.
Depois, foi o rebound. No rebound, em português a tabelinha, a bola da ideologia já estava enfiada no buraco e na mesa de bilhar restava outra bola: Os «tachos» do esquema rotativista criado pela dita geração. Uns TLP estatizados, por exemplo, tinham dois edifícios. Um para o partido no Governo e outro para os quadros na prateleira, que alternavam alegremente. A malta continuava a não perceber nada de gestão e microeconomia mas já sabia como gerir a sua conta bancária e os interesses entre as capelinhas.
Hoje, a geração seguinte quer governar isto e não consegue. Há facturas para pagar que nunca mais acabam e dívidas do tamanho do continente africano. JC das N vem falar-nos de «sofrimento»? Tenha dó! Quem sofre, todos os dias, somos nós. E temos sorte se não for até ao final da vida.

O andar de baixo

Hoje de manhã liguei a TSF no carro e não, como tem sido habitual, a Oxigénio ou a Nostalgia (depende dos estados de espírito). Pela rádio de notícias fiquei a saber que o Luís Inácio "Lula" da Silva considera que a sua vitória "é a vitória do andar de baixo sobre o andar de cima". Diz o reeleito Presidente da República do Brasil que este segundo mandato será dedicado aos pobres, que naquela terra são milhões. Claro que sim, até porque o primeiro mandato foi dedicado ao PT e a manobras de vários dos seus colaboradores mais directos. Mesmo assim, foi reeleito. Porque o País, dizem os especialistas, está em crescimento, respira saúde económica, a indústria passou a ser de ponta e houve um ataque ao gap que separa ricos e pobres. Claro que sim.

P. S. - Eu que vivo num segundo andar e nem conheço bem quem está no primeiro ou no R/C estou bem arranjado se a moda pega por cá...

On the street

Gravatas, caro João? Dê uma vista de olhos a este blog. No Sartorialist parece tudo muito casual. Parece, mas não é.

Nada como começar o dia com um passeio pelas ruas de Nova Iorque. Espero que o tempo esteja agradável.

Charvet Event At Saks San Francisco - Vintage Style, San Francisco

Indo ao essencial


Marcelo Rebelo de Sousa considera que «Sócrates devia remodelar na Primavera». Eu não estou de acordo: A moda das gravatas monocromáticas já passou e o tempo de abandoná-las é agora, em pleno Outono/Inverno. Dizem que as cornucópias se preparam para regressar mas prefiro outro come back mais recente, as gravatas de linha com riscas horizontais. Para um ar professoral blasé, não há melhor e, ao que parece, Sócrates tomou-lhe o gosto de falar ex catedra.
P.S. Notem como consegui, num texto tão curto, incluir um termo anglo-saxónico, um francês e outro em latim. Tal António Lobo Antunes, se tivesse que escolher um homem culto, escolher-me-ia.

Domingo, Outubro 29, 2006

Ele é maior que o Camões

O imeeeeenso escritor Lobo Antunes, deslumbraaaaado com o Seu próprio umbigo, confessa hoje em entrevista à revista do Público: "Honestamente, se tivesse de escolher um escritor escolhia-me a mim." Frase fabulosa do Homem que com notório orgulho revela sentir-se "cada vez mais autista". Ele, que não hesita em comparar-se a Faulkner e Scott Fitzgerald, garante que se está nas tintas para o que se passa no mundo. "Não leio jornais, é muito raro ver um noticiário na televisão", admite, com natural enfado, o Monstro Sagrado da Literatura Portuguesa a quem a estúpida academia de Estocolmo vem negando o Nobel que há muito Lhe devia ter sido outorgado. "É óbvio que estou a escrever cada vez melhor", confidencia o Génio, com ar de quem nunca se engana e raramente tem dúvidas.
Cheguei ao fim desta entrevista rendido incondicionalmente ao talento do Artista que deu Os Cus de Judas à literatura portuguesa. Cesse tudo o que a musa antiga canta: o Antunes até ao Eça e ao Camões suplanta.

Grandes contos (8): Cardoso Pires

Estilista incomparável no romance, José Cardoso Pires foi também um excelente cultor da narrativa curta, atingindo a expressão máxima da sua arte de ficcionista num dos melhores volumes de contos de toda a literatura portuguesa: Jogos de Azar (1963). São oito histórias com raízes muito diferentes: umas tinham sido originalmente publicadas no livro de estreia do autor, O Caminheiro e Outros Contos (1949), de temática tradicional, embora inovadores e arrojados na escrita; outros constam da obra Histórias de Amor (1952), de cunho mais urbano e até político, que acabaria por ser apreendida pela PIDE. Exigente ao extremo, o autor viria a expurgar vários deles ao lançar esta colectânea. Foi mau juiz em causa própria, o que aliás é frequente em literatura.
Jogos de Azar é, na definição do escritor, um conjunto de "histórias de desocupados, de criaturas privadas de meios de realização", num país de horizontes estreitos e ansiedade à flor da pele, pastoreado por um ditador quase invísivel. Um país ainda acentuadamente rural e cheio de marcas campestres transplantadas para as malhas citadinas. É nesse terreno de inadaptados, verdadeiros apátridas, que circulam as personagens de um filme como Verdes Anos, de Paulo Rocha (estreado no mesmo ano de Jogos de Azar), e também as que José Cardoso Pires introduz nestes contos.
Um deles, o que me traz aqui, chama-se Week End: história de um amor fugaz que se dissolve na espuma dos dias, por imposição das circunstâncias. Uma história banal como as ondas do mar a rebentar na praia, mas também como elas de uma beleza indescritível. Cardoso Pires revigorou a técnica narrativa então vigente em Portugal, muito adjectivada e cheia de inúteis preciosismos literários, impondo um ritmo quase cinematográfico às suas histórias, assente num discurso directo credível por influência dos melhores autores americanos - Hemingway, desde logo.
É um estilo despojado, directo "ao osso" da intriga (para usar uma expressão a que JCP recorria com frequência), que nos apresenta as duas figuras centrais deste enredo: ele apaixonado e disponível, ela casada e incapaz de tornear o espartilho das convenções sociais. Despedem-se num quarto de hotel à beira da praia, numa tarde ardente de sol. Não podia ser mais acentuado o contraste entre a atmosfera exuberante de calor meteorológico e o gelo afectivo subitamente instalado naquele aposento, entre os "banhistas sentados na esplanada, perdidos no tempo", e os dois jovens desamparados que contam os minutos para o último capítulo de um romance chegado ao fim. "Nada disto faz sentido. O pior é estamos cercados por coisas sem sentido e termos de aceitar o cerco", diz-lhe ela, resignada.
Nesta admirável teia de metáforas, oculta em diálogos só na aparência banais, o cerco expandia-se das paredes daquele quarto, atingindo a dimensão do País submerso na ditadura. Linhas paralelas de uma linguagem afinal só tornada eficaz pelo talento sem medida de um escritor como Cardoso Pires.

Valem o que valem

Hoje, contra todas as sondagens, espero que Alckmin vença Lula nas eleições. E acho que ele tem hipóteses, porque já no primeiro turno era dado como vencido e foi o que se viu. Aliás, estou farto de sondagens, de políticos que se guiam por elas e, sobretudo, de comentadores e jornalistas armados em especialistas que dizem aquilo que a última sondagem indicou, como se fizessem grandes análises políticas. As sondagens, só para citar casos recentes que me vêm à memória, falharam nos EUA, na Alemanha, no Equador, no México, em Itália, no Brasil e em Portugal, nomeadamente nas autárquicas. Quando elas falham, os tais analistas e jornalistas, que diziam que não sei quem "não tinha hipóteses", surgem com a mesma desfaçatez de sempre a fazer novas análises, baseadas, muitas vezes, em novas sondagens. O pior é que há muita gente que orienta o seu sentido de voto em função de quem tem ou não tem as tais hipóteses e isso falseia completamente o sistema democrático. Por tudo isso, mesmo sem hipóteses nenhumas nas sondagens, que vença Alckmin.

Postais blogosféricos

1. Há um ano que este excelente Andarilho anda exilado. Parece que ainda foi ontem que tudo começou...
2. Também este blogue arrancou há um ano. Um beijinho de parabéns, Paula. Com votos de que esse circo nunca perca as asas.
3. Entretanto, este já festejou dois anos. E pela pedalada que revela prepara-se para comemorar muitos mais. Parabéns a todos quanto o fazem, a começar pelo Jorge.
4. Joaquim Vieira está na blogosfera. O seu Observatório de Imprensa é já de consulta imprescindível. Entrou na nossa lista de favoritos.
5. As crónicas madrilenas da Rita têm cada vez mais salero. É um prazer lê-las por cá. Rititi surge também a partir de agora na barra lateral do Corta-Fitas.
6. Com selo de Bruxelas, Fátima Rolo Duarte envia-nos este blogue. Que é dos mais deslumbrantes, em termos visuais, que tenho conhecido até hoje.
7. O Carlos teve uma ideia genial: votar no Colombo como melhor português de todos os tempos. Uma "microcausa" hilariante, na montra do Small Brother. Fartei-me de rir.

Gostei de ler

1. Querido Líder. De João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
2. Os copyright do PS. De Luís Novaes Tito, no Tugir.
3. A mulher do patrão. De Miguel Abrantes, na Câmara Corporativa.
4. Reconforto. De Luís Januário, n' A Natureza do Mal.
5. Anónimos & companhia. De Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.
6. Zaroff. De Henrique Fialho, na Insónia.
7. Lou. De José Bandeira, na Bandeira ao Vento.
8. Regresso a casa. De Rita Barata Silvério, na Rititi.
9. Ética da personagem. De João Paulo Sousa, no Da Literatura.
10. Não sei como dizer-vos. De Carla Carvalho, no Welcome to Elsinore.
11. Os homens e o choro das mulheres. De Sofia Vieira, na Maresia.

Momentos Kodak (23)


Maria José Nogueira Pinto, vereadora do CDS em Lisboa, continua à espreita de uma oportunidade no primeiro plano da política portuguesa. Perfil para tanto não lhe falta. Se fosse ela a liderar os democratas-cristãos será que o partido andaria tão em baixo nas sondagens?
(Julho 2005)
Foto: Rodrigo Cabrita

Blogues em revista

Insónia: "Este é, sem dúvida, o país de quem muito acha e pouco pensa." (Henrique Fialho)

Tomar Partido: "Sócrates está em processo de santanização e a capitalização da oposição de esquerda à descida conjunta do bloco central(!) demonstra que não existe oposição à direita." (Jorge Ferreira)

Bicho Carpinteiro: "É caso para dizer que as sondagens se juntam às manifestações..." (José Medeiros Ferreira)

Bloguítica: "As gaffes de Manuel Pinho e Castro Guerra não foram verdadeiramente problemáticas. Afinal, a verdade é que um e outro são descartáveis. A única pessoa que não é descartável é o primeiro-ministro...O que nas últimas semanas abalou a relação de confiança entre José Sócrates e o eleitorado foi a introdução de portagens nalgumas SCUT e de taxas moderadoras nos internamentos e operações ambulatórias. Aqui, sim, a relação de confiança sofreu danos." (Paulo Gorjão)

Hoje Há Conquilhas: "Marcelo Rebelo de Sousa continua a brincar aos políticos, como a minha prima brincava com bonecas quando era pequenina, mas poucas dúvidas restam de que é mais um sinal da corrida à sucessão de Marques Mendes." (Tomás Vasques)

Vidro Duplo: "Era tão imaturo que nunca passou de espermatozóide." (Sara)

O Amigo do Povo: "Podia votar em D. João II. Mas D. João II, um dos maiores, senão o maior rei português, el hombre, como lhe chamava Isabel a Católica, apostou e perdeu. Foi uma pena. E que pena." (Fernando Martins)

Blasfémias: "A razão humana nunca conseguiu fundar uma civilização. Pelo contrário, a fé religiosa já fundou várias; na realidade, todas." (Pedro Arroja)

Notícias inúteis (2)

José Sócrates foi reeleito secretário-geral do PS.

Redundância à portuguesa (2)

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
Pergunta do referendo aprovado na Assembleia da República

Sábado, Outubro 28, 2006

Hora de Inverno


Modelos conservadores que resistem à mudança da hora.

Machismo?

"Verdadeiramente, o tempo das mulheres está a chegar."

"As mulheres começam a não aceitar ficar na sombra dos 'grandes homens', querem ter existência própria."

"... o facto de as mulheres serem mais autónomas do que os homens poderá fazer com que estes se tornem apêndices dispensáveis." (Apêndices dispensáveis? Esta é a melhor de todas!!)

José António Saraiva (JAS) em "Casais do Futuro", no Sol (o link não está disponível, o que é lamentável. Quem quiser que compre a edição em papel).

Nas colunas


Maria Del Mar Bonet - L'àguila Negra

Os actores e os outros

Fernando Trueba, Óscar da Academia de Hollywood pelo filme Belle Époque (1994), ultima o lançamento de uma nova edição da sua obra Mi Diccionario de Cine (que, confesso, bem gostaria de ter na minha estante). Em recentes declarações ao El País, o realizador espanhol observa: “Os actores secundários são, de facto, os actores. Os protagonistas, os galãs, as estrelas ou qualquer que seja o nome que lhes damos, não são mais que seres privilegiados que, devido ao mistério da absorção dos rostos pela luz e à insaciável sede de beleza física dos humanos, conseguem cobrar salários muito superiores aos de um primeiro-ministro.”
Acreditem: ele sabe do que fala.

Palmas para Pacheco

É um dos melhores textos que tenho encontrado desde sempre na imprensa portuguesa: “A degradação da privacidade e da intimidade”. Foi escrito por José Pacheco Pereira e saiu no Público de quinta-feira. Pode ser lido aqui.

Postais blogosféricos

1. Uns partem, outros chegam. Entre os que estão quase a chegar, e que até já permitem uma espreitadela, inclui-se O Cachimbo de Magritte. Aqui ficam os meus votos de boas-vindas. E os parabéns pelo inspirado nome dado ao blogue.
2. Um regresso que merece ser assinalado: Lutz Brückelmann volta em forma, reactivando o Quase em Português.
3. O Francisco Valente, na linha do que já aqui escrevi, questiona n'O Acossado alguns critérios de João Bénard da Costa na organização do próximo ciclo de cinema da Gulbenkian. Tem toda a razão no que se refere ao Fellini: O Conto do Vigário é um bom filme, mas o mestre italiano fez muito melhor. Desde logo, As Noites de Cabíria, uma obra-prima que bem gostaria de rever no Grande Auditório da fundação.
4. Da "esquerda bem pensante", moi? Olhe que não, caro António Machado, olhe que não...

Redundância à portuguesa

"Voltamos com uma breve síntese à uma. Até lá."
SIC-Notícias, noticiário do meio-dia

Gostei de ler

1. Queda de Sócrates 2. De Pedro Magalhães, no Margens de Erro.
2. Grandes Portugueses, grande confusão. De Bruno Cardoso Reis, n'O Amigo do Povo.
3. Ministério da Cultura ou Ministério do Património? De Miguel Castelo-Branco, no Combustões.
4. A Mentira. De Carlos Carvalho, no César & Dama.
5. O bufo. De Daniel Oliveira, no Arrastão.
6. The Black Dahlia. De Francisco Valente n'O Acossado.
7. Mesa para sete. Da Isabel, na Miss Pearls.

Notícias inúteis (1)

Luís Filipe Vieira foi reeleito presidente do Benfica.

Mesmo sem ter visto o Dr. House *

No Alexandre Soares Silva, alguns sketches das séries "Yes, Minister " e "A Bit of Fry & Laurie":" Me deixe só dizer (me deixe, me deixe),(larga a minha blusa) que é a melhor comédia política que já vi - política no sentido de mostrar o que é o dia-a-dia da política e da burocracia. É brilhante."
E também 10 Melhores Séries de TV :"então é claro que você tem que ficar completamente atônito porque a lista não coincide completamente com a que você faria. "
* Imperdível, Alexandre.



Uma delícia, este comentário sobre a destruição do Palácio Monroe (Rio de Janeiro) em 1976:
"Quanto ao texto do Globo, como é que alguém em plena década de setenta ousa falar em "regras da estética"? Quem escreveu isso provavelmente usava costeletas e tinha um palitinho no canto da boca. Até consigo vê-lo datilografando isso com seus dedos ocres de Chanceller, "o fino que satisfaz". E devia usar uma camisa bem justa na barriga. "

Fragmentos únicos da literatura (2)

«Falam os médicos, os notários, os empreiteiros, os varredores, os motoristas, os professores e toda a lista de profissões de estatística e não há corporação que fique de fora neste zunzunar do paleio, vendedores de automóveis, mediadores de seguros, sapateiros que passam a vida a cantar, empregados de mesa, agentes de autoridade, doentes de hospitais, operadores imobiliários, empregados forenses, e também engenheiros, sem-abrigo, vagabundos, telefonistas, padeiros, patinadores, engraxadores e vândalos. Imigrantes provindos de países sombrios aprendem aqui a soltar as línguas, aderem ao velho ofício de dar à taramela, por isto e por aquilo, por tudo, nada. Passam-se dias, meses, anos, remoem as depressões, adejam os perigos e o país a falajar, falajar».
Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina

Sexta-feira, Outubro 27, 2006

Ui...

Um amigo, especialista na matéria, recomendou-me a exposição de pintura de Barahona Possolo, que é inaugurada dia 2 de Novembro (entre as 18 e as 23 horas), no Museu Nacional de História Natural. Confesso que, pela amostra, fiquei cheio de medo...

FF

Por um blogue, o ‘Corta-Fitas’, cheguei a um dos combates mundiais do ano: a publicidade entre marcas de carro. Por cá, País brando, uma marca não morde noutra, a publicidade proíbe-o. Veja, a seguir, o que perdemos.
Anúncio da BMW: “Parabéns à Audi por ser o Carro do Ano/2006, na África do Sul – Da BMW, o Carro Mundial do Ano/2006”. Resposta da outra: “Parabéns à BMW pelo Prémio do Carro do Ano – Da Audi, vencedora de 6 Sucessivos 24 Horas de Le Mans”...
Eu adoro estas picardias – quando se trata de me convencerem, gosto que o façam com brio. Lembro-me de que a Pepsi roubou Michael Jackson à Coca-Cola e fez um anúncio onde, por acaso, o cantor se queimou nas filmagens.
Anúncio da Coca: “Parabéns à Pepsi por ter contratado Michael Jackson. Pena é darem tanto azar.”

Ferreira Fernandes, Correio da Manhã

Robert Kagan em Lisboa

Há dois dias voltámos a ouvir defender a tese de que no mundo se trava fundamentalmente uma batalha entre liberalismo e despotismo. O norte-americano Robert Kagan esteve em Lisboa para proferir uma conferência em torno do tema "O Fim da História" defendendo que o liberalismo não triunfou no nosso tempo, por isso "temos de nos armar belicamente e diplomaticamente e precisamos de estadistas dos dois lados do Atlântico". A advertência, que visa os europeus, vem confirmar o pensamento que tem vindo a desenvolver de que o liberalismo ocidental, com todos os seus valores, está em perigo. "Ao contrário do que se pensava em 1990, sabemos hoje que a Rússia e a China não seguiram o caminho do liberalismo político, mas os seus próprios modelos. O liberalismo ocidental não foi quem necessariamente triunfou no nosso tempo" (o optimismo de Fukuyama deu lugar ao pessimismo de Huntington). Segundo Kagan, é na necessidade bélica (ou na guerra como necessidade) que "reside a mais importante diferença filosófica entre europeus e norte-americanos". E não é por um conjunto de ideólogos liberais-conservadores estarem na retaguarda das decisões militares da actual administração norte-americana. É uma diferença que "não se elimina consoante os protagonistas de um ou do outro lado do Atlântico, não depende de quem é o Presidente dos Estados Unidos ou da França. Existirá com quem quer que seja o sucessor de George W. Bush, porque os Estados Unidos têm uma sensibilidade distinta dos europeus em relação ao uso da força". Ora, se há assim uma diferença tão grande, continuamos sem saber onde estará o entendimento. Já agora, é curioso que esta tese tenha sido sublinhada na conferência "Que Valores para Este Tempo" que decorreu desde quarta-feira até hoje na Gulbenkian.

À descoberta

Chama-se Jessica Rabbit, não é nada ao eng. Sousa Veloso do saudoso TV Rural, e tem um blogue para passar a limpo.

Sexta-feira

Petra Nemcova.

"Reprogramar" o PSD

"Evidentemente, consoante o ponto de vista, Francisco Pinto Balsemão é a pessoa certa, ou errada, para liderar a revisão do programa. O histórico social-democrata será fiel ao princípio de que é preciso mudar para que tudo fique na mesma."
Paulo Gorjão, Bloguítica

Mais alto, mais longe



Clicar em cima para aumentar.

Recebido por e mail, assinadas por José Alberto.

Sinais dos tempos

Eu fico chateado, lá isso fico: a “festa” do Halloween está aí para ficar. Entre os miúdos definitivamente já faz parte do calendário. Suspeito até que a minha filha pequena, orgulhosa, na terça-feira vai construir e trazer do colégio uma máscara “horrenda”. Comigo surtirá por certo todo o feito. É que eu fico (secretamente) horrorizado com estas invasões “barbaras” dos “S. Valentins”, das “bruxas” e quejandos. No restaurante aqui em baixo já anunciam uma ementa temática para a celebração. O “consumidor” integrou a nova “tradição”?
Experimente-se sondar numa escola do 2º ciclo os significados atribuídos às datas 31 de Outubro e do dia seguinte (dia de Todos os Santos)…
São os danos colaterais da implacável e liberalíssima globalização.
E qualquer dia ainda escrevo sobre a aberração do anafado Santa Claus que hoje, qual insaciável Narciso, abancou definitivamente nas palhinhas dos nossos presépios…

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Jingle

String of pearls

Anticomunismo primário

Creio que é assinada pelo nosso Pedro Correia a notícia publicada no DN desta semana que diz que o escritor Mário de Carvalho saiu do PCP no ano passado. Fico espantado não por ele ter saído, mas sim por ter esperado por 2005 para o fazer. Nunca li nada dele, mas quero acreditar que seja um bom escritor, embora agora tenha mais dúvidas. Será que é mais um daqueles medíocres promovidos pela esquerda bem pensante dos jornais? Porque, como se perguntava hoje Lobo Antunes, o melhor escritor do mundo, na entrevista à Judite de Sousa: "como é que alguém pode ainda ser comunista?"

Quinta-feira, Outubro 26, 2006

Sinais de Belém

A decisão do Presidente da República de requerer ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva da constitucionalidade e da legalidade da proposta de referendo sobre o aborto é mais que um pró-forma. Cavaco Silva comprometeu-se, ainda em campanha eleitoral, a convocar o referendo, se, uma vez em Belém, a Assembleida da República lhe fizesse chegar uma proposta da maioria nesse sentido. É o que fará, certamente. Para além do ofício dirigido ao presidente do TC, uma exigência legal e constitucional, Cavaco Silva há-de dar nos próximos tempos um sinal político, um sinal pessoal, um cunho. Como se sabe, em 1998 Cavaco Silva acabou por ver o seu nome associado a um movimento pelo "não", onde pontuavam outras figuras de relevo do PSD, do CDS/PP e muitos independentes. Muitos deles, coincidência ou não, estiveram com Cavaco nas eleições presidenciais do início deste ano.
Com a atitude hoje tornada pública, Cavaco revela um equilíbio entre o que é o cumprimento do dever institucional como PR e o cumprimento do que foi dito e prometido em campanha eleitoral (coisa rara hoje em dia). Só falta o cumprimento com o que são os seus princípios pessoais, íntimos e também, porque não dizê-lo, ideológicos. Aí, a decisão será três em um. Quem duvida que Cavaco Silva venha a dar sinais até à realização do referendo pode ler (ou reler) o discurso que o Presidente fez ontem na Fundação Calouste Gulbenkian, intitulado "Que valores para este tempo?" e que passou despercebido a muito boa gente.
Parece que não, mas está lá tudo. Quem quiser ler com mais atenção pode até dedicar-se a um bom exercício, que é verificar quantas vezes é referida a palavra vida no discurso. Fica aqui um extracto e o respectivo link: "De facto, sem um ideal de vida em comum e sem os valores que o realizam, não haveria laços que ligassem os homens no tempo. Um grupo sem valores comuns não seria uma sociedade, porque nele faltaria o sentido, a esperança, o futuro. Aí só haveria a força, para manter os homens juntos. E a força, concordarão comigo, não funda o laço social".
Numa altura em que José Sócrates tem tanto para explicar - entre introdução de portagens em algumas SCUT, aumento dos preços da electricidade, taxas moderadoras nos internamentos hospitalares, entre outras "trapalhadas" (como lhes chama a oposição) -, fica ainda demonstrado que o primeiro-ministro, enquanto tal ou como secretário-geral do PS, foi demasiado cedo para o terreno em defesa do "sim" no referendo à interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas de vida. Tão cedo que ainda mal o projecto de lei do referendo estava a ser aprovado no Parlamento já estava o chefe do Governo a defender o "sim" em colóquios, convenções e conferências. Muitas, ou todas, dirigidas ao consumo interno da preparação para o congresso socialista. Sem sequer ter o decoro de esperar pelos passos necessários para a tomada de decisão de Belém. Fosse essa a decisão final ou uma exigência intermédia, como a de hoje.

Troca de mimos

Primeiro foi a BMW.



A seguir respondeu a AUDI,



a Subaru,



e por fim a Bentley :)

A importância dos movimentos associativos

Em Portugal há pouco associativismo

Tertúlia literária (73)

- Passas-me esse livro, por favor?
- Qual? O vermelho da China?
- Não. O verde da Líbia

(Assobios, abaixo-assinados e lenços brancos para o mail do Corta-Fitas, por favor)

Carta aberta a Bernardino Soares (1)

Meu caro,
Lembrei-me de lhe escrever estas linhas ao saber as últimas notícias relacionadas com a Coreia do Norte. Não, não se trata de mais nenhum teste nuclear: depois do voto unânime no Conselho de Segurança da ONU em oposição total ao teste anterior - a que se juntou até a China, governada por um "partido irmão" do norte-coreano - o ditador de Pyongyang terá agora de pensar duas vezes antes de prosseguir na sua louca escalada rumo ao clube atómico em vez de providenciar condições para alimentar os habitantes do país, que não dispõem sequer das calorias necessárias ao sustento quotidiano.
Claro que há por lá muita falta de pão. Mas interessa-me agora sublinhar a falta de outro bem essencial: a liberdade. Refiro-me, caro Bernardino, à notícia divulgada esta semana sobre a ausência absoluta de liberdade de imprensa na República "Popular Democrática" da Coreia, característica que a coloca à cabeça de todos os países do mundo nesta matéria. Uma vergonhosa lista negra, divulgada pelos Repórteres Sem Fronteiras. Diz o mais recente relatório desta prestigiada organização internacional que a Coreia do camarada Kim Jong-Il forma, com a Eritreia e o Turquemenistão, o "trio infernal da liberdade de expressão". São três países onde jamais alguém como eu poderia dirigir-lhe umas linhas deste género: a blogosfera lá é uma miragem. Aliás, o próprio acesso à Internet também. São, de resto, países onde também você nada faria do que faz agora: um líder parlamentar, naquelas paragens, está condenado ao desemprego. Se há coisa que não existe em Pyongyang é parlamento.
E no entanto, Bernardino, aqui há uns anos você admitiu que a Coreia do Norte fosse uma democracia. Foi numa entrevista ao Diário de Notícias que deu imenso que falar e lhe valeu inúmeras críticas. (Não críticas internas, claro: o PCP é um partido onde todos estão sempre de acordo, obedecendo "à vontade do colectivo", como se diz no jargão comunista.) Confesso-lhe que dei algum desconto a essas desastrosas declarações, interpretando-as como um deslize provocado pela sua inexperiência, pela sua extrema juventude à época e pela necessidade de agradar à geração da clandestinidade, que tutelava o partido.

Carta aberta a Bernardino Soares (2)

Já passou muito tempo, você nunca proferiu a rectificação que se impunha. E no entanto, Bernardino, você não tem sequer a desculpa de pertencer ao núcleo dos velhos resistentes que sacrificaram conforto, bens materiais e às vezes até a própria vida no combate por ideais, podendo por isso ser mais facilmente desculpados quando faziam da liberdade um conceito meramente instrumental, para efeitos proclamatórios, e não um objectivo insubstituível de toda a acção política. Você nasceu com o 25 de Abril, você despontou na vida partidária quando já se tinha visto tudo, ouvido tudo, lido tudo. Não podia ignorar. Não pode ignorar os crimes cometidos em nome do "socialismo" na Coreia do Norte, esse país a que o seu partido acaba de se associar com uma declaração de solidariedade do Comité Central, textos laudatórios no Avante! e sobretudo com uma posição na Assembleia da República que nenhum outro partido subscreveu.
Você, Bernardino, é líder parlamentar, membro do Comité Central e da Comissão Política do PCP. Cargos não lhe faltam: nos últimos anos, ninguém tão jovem ascendeu tão rapidamente no partido. São, por isso, também maiores as suas responsabilidades. Isto leva-me a pedir-lhe uma palavra de demarcação do totalitário regime de Pyongyang, que nas palavras sábias de Mário de Carvalho - um dos mais prestigiados intelectuais comunistas, embora já sem cartão de militante - é "uma monarquia tirânica que só tem trazido desgraça e miséria à sua população". O escritor não concebe que "pessoas de esquerda" exprimam apoio a Kim Jong-il. Aqui para nós, eu também não.
Você ainda é de esquerda, meu caro? Se for, pronuncie-se, arriscando dizer o que outros não falam com receio de represálias internas. Lembre-se sempre: você é da geração do 25 de Abril. O que poderá haver em comum entre a Revolução dos Cravos e o tirano de Pyongyang que sonha com bombas atómicas enquanto condena o povo à fome?

Brejeirice


Pronto. Desculpem lá qualquer coisinha, mas não resisti.

A oposição e as trapalhadas do Governo

"Se o líder da oposição fosse outro, José Sócrates poderia estar metido em grandes sarilhos. Acontece que o Primeiro-Ministro tem um seguro de vida política chamado Luís Marques Mendes. Por mais que se esforce, justa ou injustamente, a verdade é que o presidente do PSD não é encarado pelo eleitorado como uma alternativa. Não é e parece-me que nunca será".
Paulo Gorjão, Bloguítica

Isto sim é gramática!

É uma ganda malha! O primeiro álbum de Ornette Coleman em dez anos e a sua primeira gravação ao vivo nas duas últimas décadas. Com a provecta idade de 76 e ainda com muito fôlego que sobra, Ornette (aqui também ao vivo mas em 1979) tocou na Alemanha no dia 14 de Outubro de 2005. O resultado foi este «Sound Grammar». Don't miss it. E se não gostam de jazz, aprendam a gostar.

Conversa de blog?

Mas que chatice! Pensou ela pondo um ar enfadado. E agora de que é que falo? Não sou nenhuma Karen Blixen, não levo uma vida errante, assim à primeira vista não me lembro de qualquer aventura, não tenho cão nem gato e histórias de faca e alguidar, só se as inventar. Doenças! Daquelas levezinhas. Há quem goste... mas uma clavícula partida e uma sinusite não entusiasmam ninguém. Não bastam já estes espirros tão inoportunos... Sempre há aquele clássico: a astrologia. Talvez tão clássico que já nem se use! De política? Temo fúrias reformistas. Uma praga. Viagens é sempre um bom tema. Sim e não. Não consigo sorrir perante a imagem de duas semanas em caminhadas na montanha, quedas de água e a cheirar florinhas. Restaurantes, comida e vinhos? Uma futilidade, argumento que serve bem para calar a falta de orçamento. E o melhor mesmo é não falar de música. Gostos não se discutem, mas dez minutos de música na viagem para lá e outros dez no regresso, é pouco. Livros: aí está um tema que me alegra, mas convém não arriscar. O perigo francófono está por todo o lado.
Deixa ver mais diferenças irreconciliáveis... futebol, claro, política nem pensar, cinema é melhor não arriscar. O melhor é ficar em casa. Afinal até tenho um blog.

5ª Feira

Fotog.

O que é que se passa, Mário Crespo?

Eu até gosto do Mário Crespo e acredito que ele tenta ser independente, apesar de, se a memória não me falha, ter andado há uns anos ligado ao PSR ou ao Bloco de Esquerda quando já tinha idade para ter juízo. Por isso, não percebo porque é que agora tem tantos membros do Governo a desfilarem no Jornal das Nove tendo apenas como contraditório um sorriso de compreensão. Num dia é o Correia de Campos e as taxas moderadoras, noutro o Mário Lino e as Scuts, hoje o seu secretário de Estado a tentar justificar aquilo que alguns jornalistas mais sérios já denunciaram sobre as falsidades de Sócrates na campanha eleitoral. Se Mário Crespo gosta tanto do jornalismo do 60 Minutes, porque é que não vai buscar as imagens de Sócrates a falar sobre Scuts, taxas na saúde ou impostos na campanha eleitoral e confronta os seus entrevistados com elas?

Quarta-feira, Outubro 25, 2006

Tertúlia literária (72)

- Como vamos de literatura erótica?
- Vamos mal. Já não distingo uma semibreve de uma colcheia.
- Mas isso não é sexo - é música!
- Vês como estou mal? Já nem distingo uma coisa da outra.

Como se diz corrupto em russo?

"O Presidente de Angola visita à Rússia entre 30 de Outubro e 1 de Novembro, a convite do homólogo russo, Vladimir Putin, para reforçar as relações de corrupção bilaterais, foi hoje anunciado em Luanda." Este parágrafo de abertura de um take da Lusa, distribuído às 20.35 de ontem, arrisca-se a ser a cacha jornalística do ano. Faço votos para que as "relações de corrupção bilaterais" sejam efectivamente reforçadas entre Luanda e Moscovo.

O prazer de rever bons filmes

Já vi a maioria dos filmes seleccionados por João Bénard da Costa para o interessante ciclo de cinema que a Fundação Gulbenkian programou para o seu Grande Auditório entre 4 de Novembro e 18 de de Fevereiro. Mas, para um cinéfilo, além do prazer de ver, existe sempre o prazer de rever. Irei assim rever com imenso prazer quatro filmes da minha vida: Esplendor na Relva, de Elia Kazan, um fabuloso melodrama com a sublime Natalie Wood (na foto, com Warren Beatty); Lilith, de Robert Rossen, que nos traz de volta a inesquecível Jean Seberg como protagonista de um amor impossível; A Desaparecida, de John Ford, talvez o melhor western de sempre; e Viagem a Itália, de Roberto Rossellini, candidato a melhor filme italiano de todos os tempos. Tenciono rever alguns outros, com destaque para Johnny Guitar (de Nicholas Ray), O Rio Sagrado (Jean Renoir) e Carta de uma Desconhecida (Max Ophuls). Mas aqueles quatro estão no topo da lista.

Ódios e paixões

Bénard da Costa, como é sabido, tem as suas paixões e os seus ódios cinematográficos, bem patentes nesta escolha. Em apenas 50 filmes seleccionados, percebe-se mal que tenha optado por duas obras de vários cineastas – Ford, Renoir, Dreyer, Fritz Lang e sobretudo Terrence Malick, que comparado com os restantes é claramente um realizador menor. Isto enquanto omitia nomes como Billy Wilder, Jacques Tati, Francis Ford Coppola e François Truffaut. Preferia que tivesse escolhido A Sede do Mal, o grande filme noir de Orson Welles, em vez d’O Mundo a Seus Pés, que já todos vimos e revimos. De Mankiewicz, A Condessa Descalça e Bruscamente, no Verão Passado são muito superiores ao Fantasma Apaixonado. Do musical, que não está representado, falta sem dúvida pelo menos o fabuloso Serenata à Chuva. Buñuel, um dos meus cineastas favoritos, fez muito melhor depois de L’Age d’Or. E Sei Por Onde Vou é um fraco representante da dupla Powell-Pressburger: Um Caso de Vida ou de Morte ou Quando os Sinos Dobram são filmes inegavelmente superiores. De todo inexplicável é a omissão de uma obra-prima como Lawrence da Arábia, de David Lean – outro cineasta ausente. Mas o que mais me intriga é a inclusão, num ciclo chamado “Como o Cinema Era Belo”, com o verbo propositadamente no pretérito, de filmes recentíssimos como Spider (de David Cronenberg), O Grande Peixe (de Tim Burton) e Novo Mundo (de Malick, sempre ele). Algo que não se adequa bem ao sortilégio do passado que o título prometia.

Maresia

O meu amigo Mendo Castro Henriques sugeriu-me este blogue, com cheiro a maresia. E eu recomendo o Atlântico Azul aqui aos nossos João Távora e Duarte Calvão, mas também a quem gostar de barcos, mar e dos tons azuis e brancos. Só não consegui perceber quem é, afinal, a Sailor Girl?..

Zhouzhuang's rain
In my culture rain is just rain.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

Postais blogosféricos

1. Excelente a ideia do Rui Costa Pinto de ir escrevendo os seus textos no Mais Actual enquanto imagina as novas censuras a eliminar os trechos mais suculentos. Atenção: o regresso do famigerado lápis azul é uma ameaça muito mais real do que muitos supõem.
2. O Espírito de Xabregas fez-nos um elogio que nos deixou muito sensibilizados. Tanto mais que parte de um blogue que reconhece estar "muitas vezes nos antípodas" do que pensamos.
3. Welcome to Elsinore, um blogue que se distingue pela qualidade, anda há três anos "à escuta do sorriso dos pássaros". Parabéns, Carla.

Gostei de ler

1. O país das invejazinhas. De Carlos Abreu Amorim, no Blasfémias.
2. O PCP e os talibans. De Paulo Pedroso, no Canhoto.
3. 50 anos depois de Budapeste. De Rui Bebiano, no Passado/Presente.
4. Famous last words. De Luís M. Jorge, no Franco Atirador.
5. Pois, a culpa é sempre do outro! De Sérgio Almeida Correia, n' O Bacteriófago.

Por isso é que ele é quem é

"(...) é verdade que sou perseverante, que não dou por perdido nenhum assunto ou investigação até que o delito prescreva, e até mesmo depois, se pudesse, descobriria a verdade (...)"

Garzón, Baltasar, "Um mundo sem medo" , Ambar, 2006, pág.111

Solidários com a tirania

O PCP manifestou solidariedade ao decrépito regime comunista norte-coreano, tendo sido o único partido parlamentar que recusou condenar em São Bento a realização de um teste nuclear na mais feroz ditadura do planeta. A liberdade parece ser uma palavra vã na Soeiro Pereira Gomes sempre que está em causa um “partido-irmão”: mesmo que esse partido oprima, escravize e aterrorize o seu povo, lá está o PCP a transmitir-lhe apoio. Apetece-me perguntar: o que dirão desta absurda posição os militantes comunistas que amam genuinamente a liberdade? Em pleno início do século XXI, ainda terão receio de expressar o que pensam para não serem excomungados por delito de opinião no partido que noutros tempos gostava de se proclamar amante das “mais amplas liberdades”?

Mentirosos com sucesso

Há muito tempo que não lia uma entrevista tão estimulante. O filósofo americano David Livingstone Smith, autor do livro Why We Lie: The Evolutionary Roots of Deception and the Unconscious Mind (St. Martins Press, 2004), concedeu interessantíssimas declarações à revista brasileira Veja, garantindo nomeadamente: “Somos programados para enganar os outros desde os primórdios da humanidade. Seja para nos proteger, seja para levar vantagem. Quem mente com desenvoltura pode até sobressair entre os demais.” Citando uma investigação efectuada pelo psicólogo Robert Feldman, da Universidade de Massachusetts, Smith revela que “as pessoas contam três mentiras em cada dez minutos de conversa”. O caso mais flagrante, na sua opinião, é o dos políticos, que “mentem por profissão e continuam sendo ouvidos por milhares de pessoas.”
Outras opiniões de Livingstone Smith nesta matéria:
“Mente-se mais na política do que nos casamentos.”
“Bons mentirosos são mais populares e bem-sucedidos.”

“Os políticos são mentirosos profissionais. Mentem habilmente e têm consciência disso. Não estão preocupados em cumprir promessas. Mentem para se dar bem. Quando acreditam na própria mentira, o seu poder de persuasão torna-se infinitamente maior.”
“Acreditamos nas mentiras dos políticos porque é mais fácil e seguro para nos convencermos delas. Quando alguém diz com convicção que vai melhorar a sua vida, como não querer acreditar nisso?”
“Os políticos são brilhantes em distrair-nos com o que dizem. Aqueles que não conseguem mentir bem nunca chegam lá.”
Conseguiremos associar algum político português às frases aqui transcritas? Responda quem quiser.

As palavras dos outros

"Imaginem um mundo em que todos fossem verdadeiros uns com os outros. Seria o caos."
David Livingstone Smith, Veja (18 de Outubro)

Tertúlia literária (71)

- Que tal as Viagens na minha terra?
- Gostei muito. O problema são os transportes.

Tertúlia literária (70)

- E o Baptista-Bastos, que tal?
- Gosto muito. Dele e dos outros capitães de Abril.

Lisboa antiga

O Arquivo Municipal de Lisboa tem disponível on line um manancial fotográfico com milhares de fotografias da Lisboa antiga. Basta pesquisar aqui. Só da Avenida da Liberdade, escolhida em homenagem simultânea aos camaradas corta-fiteiros do DN e ao João Távora, podem encontrar-se 1370 imagens. A começar por esta que aqui podem ver, sem data e tirada ao lado Sul do então Passeio Público.

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

O buraco na bandeira


Pacheco Pereira contesta a definição de "extrema direita" dada aos manifestantes que, em Budapeste, protestam contra o governo de Ferenc Gyurcsany. Concordo com a observação de Abrupto. É necessário explicar que não é a extrema-direita que está na rua, mas parte muito significativa do país. O Pedro, aqui no Corta-Fitas, tem um magnífico post sobre a revolução húngara de 1956 e peço aos leitores que também leiam com atenção aquele texto. O que tentarei fazer aqui é traçar uma tentativa de explicação da crise que está a rebentar nos países pós-comunistas do leste da Europa os quais, não podemos esquecê-lo, são nossos parceiros na União Europeia.
Superficialmente, os tumultos de Budapeste são um protesto contra o Governo. Mas penso que não são apenas isso. A sociedade húngara está profundamente dividida e a pagar os custos de não ter feito o seu ajuste de contas com o passado. Já escrevi isto aqui: os vencedores do antigo regime são os vencedores de hoje; os perdedores continuam perdedores.
Em 56, não existe apenas um elemento de levantamento nacional, mas parcialmente o conflito foi uma guerra civil. Seguiu-se um compromisso (a Hungria teve a mesma reacção depois da revolução fracassada de 1848-49, contra os austríacos, o que deu a monarquia dual austro-húngara) e essa fase de compromisso beneficiou muita gente. O regime comunista era um pouco mais aberto, muito corrupto e numerosas famílias tiveram amplos privilégios. Estes e os seus filhos foram os vencedores da "democracia". Ponho a palavra entre aspas porque é óbvio que a democracia húngara (tal como acontece com as democracias dos países pós-comunistas) tem uma qualidade deficiente. Não existe verdadeira liberdade de Imprensa e as instituições não impedem os abusos do poder. O parlamento é uma anedota. É um tema lateral, mas o país não resolveu o seu passado fascista, o anti-semitismo, o racismo em relação aos ciganos.
A história da "extrema-direita" serve os interesses deste grupo, que se apoderou do poder de forma imoral e que se recusa a ouvir o seu próprio povo, cuja indignação está a atingir os limites. Gyurcsany conta com o ocidente para manter o seu governo: se a "extrema-direita" é quem está na rua, então ele é o garante da legitimidade; outro mito que se tenta fazer passar é o de que a direita democrática (que perdeu as eleições de Abril por pouco, pois o primeiro-ministro mentiu à população) está a ser um instrumento da "extrema-direita". Ora, esta não tem qualquer expressão eleitoral e não conseguiu eleger um único deputado. Em resumo, não existe.
Conheço algumas histórias de 56. São histórias de pessoas derrotadas, as que sobreviveram. Elas são o buraco na bandeira. Já não existe a odiada foice e martelo para cortar, mas continua a existir aquele vazio na memória. Hoje, nas cerimónias oficiais, os derrotados ficaram de fora e os vencedores até da sua revolução se conseguiram apropriar. Os mesmos que lhe chamavam contra-revolução.

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Budapeste meio século depois

Há precisamente meio século, irrompia em Budapeste uma espontânea torrente de protestos, encabeçada por estudantes universitários, contra a integração do país no bloco comunista, controlado pela URSS. Os protestos, que logo mereceram ampla adesão a nível nacional, contaram com o apoio de muitos marxistas húngaros genuinamente patriotas - a começar por Imre Nagy, antigo dirigente do país, logo reabilitado por vontade popular. Durante cerca de duas semanas, o sonho da liberdade parecia enfim possível na Hungria esmagada havia 11 anos pela tropa de Estaline: proclamou-se o regime multipartidário, anunciaram-se eleições livres, dissolveu-se a temível polícia política, exigiu-se a retirada do país do Pacto de Varsóvia. A 4 de Novembro, esta vaga libertadora foi afogada em sangue pelos blindados soviéticos: três mil mortos e 15 mil feridos depois, a "pacificação" comunista voltava a reinar sobre um povo que teimara em não se vergar à tirania. Nagy, como tantos outros, acabaria executado às ordens de Moscovo. Até ao último momento, os húngaros aguardaram um auxílio ocidental que afinal nunca chegou em nome do "realismo" político. Na altura, um indignado Albert Camus escreveu estas linhas memoráveis: "Se a opinião mundial é demasiado débil ou egoísta para fazer justiça a um povo martirizado, espero que a resistência dure até que esse Estado contra-revolucionário se afunde sob o peso das suas mentiras e contradições."
A liberdade só chegaria em 1989. Mas o exemplo de dignidade semeado em 1956 pela revolta de Budapeste não foi esquecido.

Cem mil

Acabamos de ultrapassar a fasquia dos cem mil leitores: como se compreenderá, é uma razão de peso para nos sentirmos satisfeitos. Oito meses depois de cortada a primeira fita, recebemos em média 761 visitantes por dia. E contabilizámos já mais de 275 mil consultas aqui ao blogue. Números que só nos estimulam a fazer mais e melhor daqui para a frente.

E esta graçola?!

Um homem está a conduzir o seu carro, quando a certa altura percebe que se perdeu. Dá conta de outro homem que passa por perto, encosta ao passeio e chama-o:

- Desculpe, pode dar-me uma ajuda? Prometi a um amigo encontrar-me com ele às 14h, estou meia hora atrasado e não sei onde me encontro.
- Claro que o posso ajudar. O senhor encontra-se num automóvel, entre os 38 e os 39 graus de latitude norte e os 9 e 10 graus de longitude oeste, são 14 horas, 23 minutos e 42 segundos, hoje é quarta-feira e estão 27 graus centígrados.
- O senhor é informático?
- Exactamente! Como é que sabe?
- Porque tudo o que me disse está correcto do ponto de vista técnico, mas é inútil do ponto de vista prático. De facto, não sei o que fazer com a informação que me deu e continuo aqui perdido.
- Então o senhor deve ser um gestor, certo? - responde o informático
- Na realidade sou mesmo. Mas... como percebeu?
- Muito fácil: não sabe nem onde se encontra, nem para onde ir; fez uma promessa que não faz a menor ideia de como vai cumprir e agora espera que outro qualquer lhe resolva o problema. De facto, encontra-se exactamente na mesma situação em que estava antes de nos encontrarmos, mas agora, por um qualquer estranho motivo a culpa acaba por ser minha!

Piada recebida por e mail, de autoria incógnita.

Praga digital

Estão por todo o lado, às dezenas, em almoços, festas, jantares, baptizados, casamentos, sempre prontas a disparar centenas de vezes, press-delete, ri-te, esta não ficou bem, ainda tenho mais duzentas e cinquenta, dá-me o teu mail, esta está gira, mais esta para o screen saver...
Falo das máquinas de filmar/fotografar digitais.
Suponho que existam centenas e centenas de fotografias que não saem do disco rígido ou do CD. Raras vezes as vejo e peço encarecidamente para não as enviarem por mail. Creio que nunca as mandam revelar: as molduras estão cheias de fotografias anteriores à era digital. Então para quê tanto press-delete? Para os avós as verem agarrados aos écrans dos computadores? Os pais e tios babados andam com CD's na carteira? E a velha moldurinha? E o álbum de papel?
Tenho a certeza de que deve haver ficheiros electrónicos fantásticos em fabulosos discos rígidos. Mas não me ponham agarrada a écrans de portáteis que tenho sempre a desculpa de que vejo mal (verdade) ou que me esqueci dos óculos (mentira).

Domingo, Outubro 22, 2006

NÃO

Por uma vez, aqui no Corta-fitas afirmo: NÃO concordo com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado.
Por uma questão de princípios, não consigo deixar de me chocar com a despenalização de um acto que, com mais ou menos atenuantes, considero criminoso. Mais, receio pela herança que vamos deixando aos nossos descendentes: um mundo em regressão civilizacional que vai cedendo paulatinamente ao relativismo individualista e ao novel moralismo hedonista.
Sendo estas as minhas convicções, jamais me demitirei dos meus direitos e obrigações de cidadania.
Mas não aqui no Corta-fitas. Pareceu-me do elementar bom senso não fazer deste meu privilegiado espaço de comunicação partilhado um campo de batalha de uma questão tão sensível.
Mas estarei aqui em frente, noutra praça pública, no blog do não, um projecto de um conjunto de cidadãos livres e conscientes - a maior parte bem conhecidos da blogosfera. Assim, convido desde já, adversários ou partidários, a visitarem-nos regularmente, para uma sã e democrática discussão onde esperamos prestar sempre homenagem à inteligência e à civilidade.

Ler ou não ler o OE

Afinal quem é que não leu o Orçamento? Medeiros Ferreira, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros socialista e ex-deputado, explica tudo no BC.

Chuva

Está um tempo...

Confiança traída

“Quanto às SCUT, deverão permanecer como vias sem portagem enquanto se mantiverem as condições que justificaram, em nome da coesão nacional e territorial, a sua implementação, quer no que se refere aos indicadores de desenvolvimento sócio-económico das regiões em causa, quer no que diz respeito às alternativas de oferta no sistema rodoviário.”

O texto transcrito no parágrafo acima - como se infere pelo estilo - não é meu. É um excerto do programa do actual Governo, apresentado a 21 de Março de 2005 à Assembleia da República. Dezanove meses depois, confortado com a maioria absoluta entretanto conquistada no Parlamento, o Executivo socialista viola uma das mais emblemáticas promessas feitas aos eleitores que nele confiaram.
Pode agora José Sócrates alegar o que quiser: não falta já por aí quem chame traição a isto. Com todas as letras. E quanto a coerência ficamos esclarecidos...

Sábado, Outubro 21, 2006

É favor apagar a luz

Chega ao fim a pior semana de vida do actual Governo. Sem que ninguém, até ao momento, tenha cessado funções. A começar no secretário de Estado adjunto da Indústria e Inovação, António Castro Guerra, que teve o "topete" (como diria o saudoso professor Freitas do Amaral) de culpar os consumidores pelo aumento de 15,7% das tarifas de electricidade para 2007, anunciado pela entidade reguladora do sector. Logo desautorizado pelo ministro das Finanças, que considerou "excessivo" este aumento, e depois pelo próprio ministro da Economia, que manteve a tradição de funcionar ao retardador, Castro Guerra continua em actividade, parecendo aguardar que seja o primeiro-ministro a passar-lhe guia de marcha, o que até é capaz de lhe valorizar o currículo. Na desautorizadíssima "entidade reguladora", ao que parece, também ainda não se registaram demissões. Garantido é que ninguém sairá da EDP. Não admira: em 2005, esta foi a empresa que apresentou mais lucros no País. O que não impedirá os portugueses de pagarem no próximo ano facturas bem mais pesadas de energia eléctrica - um acréscimo que oscilará entre os 6% e 8%, como já admitiu Manuel Pinho, com ar benevolente. A trapalhada é tanta que justifica o recurso a uma frase feita: o último a sair que apague a luz.

Assim vai a Pátria IV

1. Pode ler-se no tablóide, mas bem informado, Correio da Manhã que os "Ordenados de ministros sobem 6,1%" e que o "dinheiro previsto no Orçamento de 2007 para salários de governantes ultrapassa quatro vezes os aumentos da Função Pública". Estou ciente de que até ao fim do dia a informação será desmentida, enquadrada, explicada pela Central, até porque a mesma notícia, com honras de manchete, adianta que "Silva Pereira é quem conta com os maiores valores, 123 036 euros, subida de 112%". Aposto que os desmentidos, enquadramentos ou explicações serão dados na Gomes Teixeira, com aquele fundo azul eléctrico, muito credível, como quem quer parecer sério e convicto do que diz. Com certeza houve alguém que percebeu mal ou não leu bem o OE/2007. Uma deficiência da ou na comunicação, certamente.

2. O Público traz hoje um excelente trabalho sobre as gaffes governamentais dos últimos dias. Pela leitura do apanhado daquilo tudo, fico com a ideia de que foram mais que gaffes e que alguma coisa vai mal no reino socrático. Ministros que dizem que a crise acabou, secretários de Estado que anunciam aumentos e desdizem no dia seguinte, outros ministros que vêem deputados do partido do Governo criticarem iniciativas suas... Enfim, tudo deficiências na comunicação, certo?

No meio da avalanche

Nesta autêntica avalanche informativa que agora são os sábados, com jornais semanários, e mais revistas, jornais diários, e mais revistas, reparei que a Notícias Sábado traz uma reportagem muito interessante sobre um dos mitos urbanos do momento, mito esse que tinha passado despercebido a muito boa imprensa. Falo de um artigo da autoria de Vera Moura sobre uma máquina chamada "Bimby" e que tive a oportunidade de ver funcionar em casa de amigos. Céptico como sou, comecei por dizer que nada substitui o dedo humano, mas acabei impressionado, porque a "coisa" faz praticamente tudo o que uma boa cozinheira ou um mestre fazem, até porque vem acompanhado de um livrinho com mil e uma receitas.
Amigos meus que compraram a "coisa" disseram-me que os vendedores confidenciaram que não há bom hotel ou restaurante no mundo civilizado que não tenha uma "coisa" daquelas escondida na cozinha, até porque parece que não se trata de um robot, apenas de uma máquina de triturar, cozer, etc, que garante que não ultrapassam os tempos de cozedura ideais para os alimentos não perderem as suas qualidades naturais. Será que o nosso Duarte já tinha ouvido falar daquilo? Aconselho-te que leias ou que experimentes. Eu comi (e bebi) de tudo, naquele serão em casa de amigos: do gaspacho à caipirinha, do chilli ao gelado. Pouco trendy, eu sei, mas genuíno. E tudo na tal "Bimby". Parecia um bimbo, parvo com as modernices de hoje em dia. Parte má: acho que a "coisa" custa uns 200 contos em moeda antiga. Assim até eu, que me gabo de saber fazer uns bifes e uns ovos, passava por bom cozinheiro...

E estas duas?

"Sou o rei da síntese."
José Rodrigues dos Santos, revista Tabu, Sol

"No FC Porto quem compra e vende é o presidente."
Jorge Costa, Correio da Manhã

Mais frases do "Sol" em tempo de chuva

O Francisco já aqui deixou a melhor frase do dia, debitada por Agustina Bessa-Luís numa notável entrevista concedida a José Eduardo Fialho Gouveia, no Sol.
Aproveito para transcrever algumas outras. No caso da última, não tenho a certeza se o ministro das Finanças estará a referir-se ao conjunto dos portugueses ou apenas aos membros do Governo, atendendo à manchete de hoje do Correio da Manhã, que fez as contas e chegou à conclusão de que os ordenados dos ministros aumentarão 6,1% em 2007. Razão tinha Manuel Pinho ao dizer que "a crise acabou". No caso deles, ministros, não duvido de que o titular da Economia acertou em cheio.

"Os homens são mais sensíveis e sinceros. A mulher sempre teve e continua a ter uma vida doméstica que a limita. Um cão preso torna-se feroz."
Agustina Bessa-Luís
"O conceito de fuck-buddy assenta numa base teórica aparentemente bastante simples: o máximo do entendimento com o mínimo do envolvimento. As duas pessoas sabem que estão ali para praticar juntas o acto sexual e que tudo o que saia fora é quase criminoso."
Margarida Rebelo Pinto
"Acabe de vez com a beijaroquice na vida profissional. (...) Avance de mão estendida a torto e a direito, sem dar oportunidade a mais nada."
Assunção Cabral
"As projecções que temos não apontam para uma deterioração das condições de vida dos portugueses."
Teixeira dos Santos

Postais blogosféricos

1. Depois de uma longa pausa "sabática", regressou agora à actividade o Cão com Pulgas, um blogue que sempre teve admiradores no Corta-Fitas e que nunca abandonou a minha lista de favoritos.
2. Obrigado ao Combustões pela simpática referência à minha Tertúlia Literária. Que vai prosseguir, pelo menos até chegar aos cem.
3. E por falar em Tertúlia Literária: é um prazer partilhar esta rubrica consigo, caríssima Miss Pearls. Assim chegaremos aos duzentos!
4. Letras e Manias: um blogue que acabo de descobrir. E que passarei a visitar com frequência.

Tertúlia literária (69)

- Viste a Conta-Corrente?
- Talvez na caixa de correio.

Mais chuva

Post dedicado a todos os que gostam de fotografias da chuva nas vidraças e de imagens de tabuleiros de xadrez.
Um cigarro?


Fotog.

A frase

"Sócrates é um homem de província, o que é sempre uma garantia."
Agustina Bessa-Luís, Sol

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Grandes contos (7): Vergílio Ferreira

Há em Portugal uma espécie de pudor atávico em praticar a arte do conto - característica que felizmente tem vindo a dissipar-se nas duas últimas décadas, com nomes que vão de Mário de Carvalho a Rui Zink. Entendido como género "menor" pela generalidade dos exegetas lusos de matriz universitária, o conto foi sendo considerado uma espécie de parente pobre da nossa literatura. Quem o cultivava quase tinha de pedir licença prévia para o efeito.
Alguns dos mais estimulantes autores portugueses do século XX, como Vergílio Ferreira, José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires, dedicaram uma atenção marginal ao conto, sem repararem por vezes que nessas breves páginas se concentrava do melhor da sua escrita. Os notáveis Contos de Vergílio Ferreira, reunidos em volume em 1976 (Edição Bertrand), são bem a prova disso. Trata-se do espelho perfeito da obra de um romancista que começou integrado na corrente neo-realista e depois se tornou uma das vozes mais originais do nosso idioma.
Contos reúne ficções originalmente repartidas por dois títulos: A Face Sangrenta (1953) e Apenas Homens (1972). É um Vergílio Ferreira em transição da escola realista para a temática existencial que viria a coroar a fase "madura" da sua obra, este que emerge num dos mais tensos e vibrantes contos que conheço. Chama-se O Encontro e arranca deste modo tão sugestivo: "Agora a serra descia a toda a pressa para a aldeia. Depois, tranquila, alastrava devagar num grande vale, para subir ainda, suavemente, lá ao longe. Quebrado de cansaço e quase de surpresa, o engenheiro parou um instante no alto de um penhasco, soprando o fumo largo do cigarro, olhando em roda o silêncio da tarde. Um grande vento de solidão e montanha embatia-lhe no peito, inchando-lhe a camisa desapertada, penetrando-o de grandeza e de um incerto pavor."
Frases magníficas, num português sem rugas, mas que nos introduzem afinal num mundo primitivo, com as suas anacrónicas noções de honra e os seus insólitos rituais de inspiração bíblica. Vergílio Ferreira, escrevendo no Portugal de Salazar, descreve um país ancorado nos confins dos tempos e que permaneceu inalterado quase até aos nossos dias. Um crítico marxista falaria em luta de classes nesta história do engenheiro anónimo, oriundo de Lisboa, que se confronta com os códigos vigentes numa remota aldeia do interior. Na longa cena final, redigida quase com pulsão cinematográfica, de súbito "uma submissão milenária esmagou os dois irmãos" sedentos de vingança.
Mas esta é uma narrativa que não se deixa aprisionar por esquematismos de ordem estética ou ideológica: O Encontro merece lugar destacado em qualquer recolha dos melhores contos portugueses. E no entanto o autor, num prefácio escrito para a edição de 1976, quase pediu desculpa aos leitores pelo atrevimento: "Escrever contos foi-me sempre uma actividade marginal e eles relevam assim um pouco da desocupação e do ludismo." Não havia necessidade. O Vergílio-Ferreira-contista nada fica a dever ao Vergílio Ferreira-romancista: em qualquer dos casos é sempre um vulto maior das nossas letras.

Serviço público

A 17ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA) abre hoje, 20 de Outubro.
Até ao dia 5 de Novembro, com sol ou chuva, frio ou calor, é um programa obrigatório para todos. Para os pais, os filhos, todos juntos, a sós ou em grupo, se encontrarem com uma arte e artistas “maiores”. No Fórum Luís de Camões, a cem metros da estação do Metro Amadora-Este na Brandoa. A não perder.

Sexta-feira


Isabeli Fontana.

Tertúlia literária (68)

- O Vermelho e o Negro, leu?
- Nem sequer tentei. Sou daltónico...

E o dia começou assim

Anda o diabo à solta. Toda a noite sirenes de bombeiros, vento e a chuva que não pára de cair. Viadutos armadilhados com escoamentos feitos a olho, sarjetas entupidas, túneis inundados, condutores com faróis desligados e delinquentes rodoviários indiferentes ao mau tempo. Em suma, uma cidade que não resiste ao mau tempo.
Os elementos andam ao Deus dará e os santos parecem não ajudar: Santa Bárbara, irada, protesta alto e bom som, e S. Pedro, desalentado, chora copiosamente. Até eu cheguei encharcada até aos ossos, mas quem anda à chuva molha-se.

(Fotografia: "An Rainy Evening at Covent Garden in My Fair Lady")

Teste a sua cultura geral

1. Em 1968, Bobby Kennedy foi assassinado por:
a. Super-Homem.
b. Jay Leno.
c. Harry Potter.
d. Um extremista muçulmano homem entre os 17 e os 40 anos.

2. Em 1972 nos Jogos Olímpicos de Munique, os atletas foram sequestrados e massacrados por:
a. Floribela.
b. Marcelo Rebelo de Sousa.
c. Arnold Schwarzenegger.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

3. Em 1979, a Embaixada dos EUA no Irão foi ocupada por:
a. Noruegueses perdidos.
b. Elvis.
c. Um autocarro repleto de mulheres octogenárias.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

3. Durante os anos 80 um número de americanos foi sequestrado no Líbano por:
a. Francisco Penim.
b. D. Duarte de Bragança.
c. Escuteiros.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

4. Em 1983, os aquartelamentos dos Marines em Beirute foram destruídos por:
a. Um entregador de pizzas.
b. Elsa Raposo.
c. Américo Amorim.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

5. Em 1985 o navio Achille Lauro foi abordado e Leon Klinghoffer, um passageiro americano com 70 anos e confinado a uma cadeira de rodas foi assassinado e atirado fora de bordo por:
a. Schtrumpfes.
b. Isabel Pires de Lima.
c. A Pequena Sereia.
d . Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

6. Em 1985 o voo 847 da TWA foi ocupado por piratas do ar em Atenas e Robert Stidham, um mergulhador da US Navy, foi assassinado por:
a. Heidi e Pedro.
b. António Vitorino.
c. Madre Teresa.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

7. Em 1988, o voo 103 da Pan Am foi alvo de um atentado cometido por:
a. Scooby Doo.
b. A Fadinha dos Dentes.
c. Butch Cassidy & The Sundance Kid.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

8. Em 1993 o World Trade Center foi alvo de bombas pela primeira vez por culpa de:
a. José Castelo-Branco.
b. Figo.
c. Batatinha.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

9. Em 1998, as embaixadas dos EUA no Quénia e na Tanzânia foram alvo de atentados cometidos por:
a. Valentim Loureiro.
b. Hillary Clinton.
c. A Federação Mundial de Wrestling.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

10. No dia 11/9/2001, quatro aviões foram tomados por piratas do ar; dois foram usados como mísseis contra as torres do World Trade Center e, dos dois remanescentes, um colidiu com o Pentágono e outro foi desviado e a queda provocada pelos passageiros. Milhares de pessoas foram mortas por:
a. Bugs Bunny, Wiley E. Coyote, Daffy Duck e Elmer Fudd.
b. Souto Moura.
c. Mr. Bean.
d. Extremistas muçulmanos homens entre os 17 e os 40 anos.

Nota: Adaptação livre de um documento de autor anónimo encontrado na Net. Os resultados serão analisados por uma Comissão Psiquiátrica Independente.

Passou-se

«No sabes donde poner el boli y lo pones ahí en plan banderilla». O vídeo onde José Aznar utiliza o decote da jornalista Marta Nebot como porta-canetas, aqui.

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Yes man

O aborto ameaça provocar a primeira polémica séria no Governo: Isabel Pires de Lima, a titular da pasta da Cultura, afirma hoje ao Público que a proposta de despenalização até às dez semanas, que o primeiro-ministro tem defendido dia sim dia sim, "é muito prudente". Não sei bem o que a ministra quererá dizer com isto, mas pressinto que o chefe Sócrates, com o mau feitio que o caracteriza, não terá gostado. Bem mais avisado esteve o ministro dos Assuntos Parlamentares, também em resposta a um inquérito do Público sobre "o que pensam os governantes" sobre o aborto. Augusto Santos Silva, pelos vistos, não pensa nada: "O ministro é solidário com o Programa do Governo". Uma resposta digna de um membro do Politburo do Partido Comunista da União Soviética no consulado do camarada Brejnev. Cheira-me que Santos Silva está em ascensão na nomenclatura socialista...

As voltas do Nobel (I)

O meu amigo João Villalobos preferia que Philip Roth (na foto) fosse o vencedor do Nobel da Literatura de 2006. Salvo melhor opinião, entendo que já houve demasiados escritores americanos galardoados com o Nobel. E se nuns casos a escolha foi indiscutível – Faulkner, Hemingway, Bellow – noutros a Academia de Estocolmo acertou ao lado – a piedosa Pearl S. Buck (prémio de 1938) é um dos exemplos mais notórios que conheço de uma opção errada, já para não falar de Toni Morrison (prémio de 1993), escolhida em função de uma absurda “quota” racial. Ignoro a obra do escritor turco Orhan Pamuk, distinguido este ano, e a que o Luís Naves já fez aqui referência. Mas porque não dar-lhe um prémio? É certamente mais merecido do que o da francesa Sully Proudhomme, a primeira escolha do júri de Estocolmo (em 1901), justamente ignorada nas selectas literárias contemporâneas.

As voltas do Nobel (II)

É certo que a Academia Nobel premiou nomes indiscutíveis da literatura universal. Como Yeats (1923), Shaw (1925), Mann (1929), Pirandello (1934), O’Neill (1936), Hesse (1946), Eliot (1948), Camus (1957), Beckett (1969), Soljenitsine (1970), Neruda (1971), Boll (1972), García Márquez (1983) e Brodsky (1987). Já nos últimos anos, foram distinguidos os excelentes Naipaul (2001) e Coetzee (2003). Mas também receberam o Nobel ilustres anónimos como Bjornson, Heyse, Heidenstam, Spitteler, Reymont, Deledda, Unset e Karlfeldt, que hoje ninguém sabe quem são. Enquanto de fora ficaram gigantes das letras como Tolstoi, Joyce, Kafka, Borges, Yourcenar, Gorki, Proust, Brecht, Orwell, Lorca, Mishima, Céline, Greene, Pound e Nabokov (foto). Já para não falar do nosso Fernando Pessoa, que seria muito mais representativo da qualidade da literatura portuguesa do que José Saramago, galardoado em 1998.

As voltas do Nobel (III)

Já agora, João, discordo de ti noutro aspecto: se o Nobel fosse entregue a um escritor americano, em vez do Roth eu preferia o John Updike – talvez o melhor escritor americano vivo. Sem esquecer o Norman Mailer (foto), autor d' Os Nus e os Mortos, um dos grandes romances do século XX.

As palavras dos outros

“É mais fácil enganar uma multidão do que um homem.”
Pio Baroja

Resposta atrasada

Peço desculpa a Paulo Gorjão (PG) por só agora ter lido a sua resposta ao comentário que escrevi lá em baixo, a propósito do seu post sobre Américo Amorim e os direitos humanos em Angola. Nessa resposta, PG cita uma declaração politicamente correcta de José Sócrates durante a tomada de posse e diz que a posição do primeiro-ministro é «publicamente» conhecida.
Lamento discordar (na verdade não lamento nada, só estou a tentar ser simpático), mas a «afirmação do valor do cosmopolitismo» e blá, blá, blá do discurso de Sócrates não me esclarece seja o que for sobre a sua posição. O que esclarece é a presença do PC Chinês no congresso do partido que lidera, porque não confia em quem o substitua. O que me esclarece é que prefira fazer jogging durante a visita de Estado em lugar de um encontro, por exemplo, com Rafael Marques. Sabe com certeza PG quem é Rafael Marques.
Que a imprensa económica ande atenta, isso nunca poderia criticar. Apenas considero que os direitos humanos são um tema primeiro que tudo político e passível de maior escrutínio pelos média quando um governante visita um país como Angola ou outro qualquer onde os direitos humanos são atacados. E que fazer negócios em Angola é uma decisão empresarial que é penalizada por quem entenda fazê-lo (vendendo acções da empresa, não comprando os produtos da mesma, etc). Associar a uma notícia económica comentários sobre os direitos humanos? Idealmente, porque não? Na prática, impossível. Então o que seria de cada vez que uma empresa faz um «negócio da China», paraíso das sweat-shops (cf. a camisinha Nike da foto) e responsável pelos massacres, assassinatos e torturas que sabemos? Seria preciso um suplemento inteiro.

A nova fé de madre Zita

Zita Seabra acabou de "virar a página". Em artigo de opinião dado à estampa no Público (sem ligação disponível), a actual deputada social-democrata, que já foi parlamentar comunista, emite hoje sobre o aborto opiniões que não passariam pela cabeça do arcebispo de Braga. Coisas como estas:
- "Desde o dia em que percebi que é tecnicamente possível determinar o sexo do filho que se vai ter às oito semanas, mais me questiono com a possibilidade de o aborto vir a ser livre. (...) Desde o dia em que vi aquele cartaz - cujo folheto promocional conservei -, não posso deixar de pensar nas pressões sobre uma mulher grávida, do segundo ou do terceiro filho, para que obtenha o almejado 'casalinho', e aborte ou não consoante o resultado da análise."
- "Hoje, o que move a modernidade, o subversivo, é a coragem de, contra tudo e contra todos, ser mãe e pai. O aborto, o desmancho, foi um passado de dor e mágoa de tantas mulheres que mais não conheciam e mais não podiam."
- "A dor daquelas mulheres [em 1986, na União Soviética de Gorbatchov], a quem faziam abortos sem anestesia, que ficavam na cama umas horas antes de serem mandadas para casa, deitadas em lençóis que nunca vi serem mudados, ficou-me para sempre na memória. O seu choro, os gritos lancinantes de dor de abortos a sangue-frio, tudo aquilo era uma verdadeira descida aos infernos!"
- "Custa-me ver que, vinte anos depois, continuamos a falar do aborto e a legislar como se as alternativas fossem as mesmas. E, pior, que continuemos a fingir que o recurso a um aborto é uma coisa comum, banal e mesmo um direito. A verdade é que todo este fingimento nunca retirará de mulher alguma a dor do sentimento de culpa."
- "Não deixar que nenhuma mulher sinta que o futuro lhe é roubado por ser mãe é, esse sim, o maior desafio que temos pela frente. Infelizmente, parecemos continuar sempre e só no aborto, quando é mesmo necessário virar a página para a vida."
Depois de ler tudo isto, belisquei-me: será possível que esta Zita Seabra que usa argumentos tão rasteiros e demagógicos na sua nova cruzada antiaborto, incluindo a memória das lágrimas vertidas numa clínica moscovita, seja a mesma que em 1983 foi "ponta de lança" para a legalização do aborto em Portugal? Percebo que uma pessoa mude de ideias a propósito seja do que for. Mas Zita Seabra não se limita a "virar a página": acaba de virar uma biblioteca inteira. A ex-pupila de Álvaro Cunhal faz agora prédicas dignas de uma madre superiora das Carmelitas Descalças. De uma fé para outra, sempre inabalável.

Gostei de ler

1. O segundo momento húngaro de Sócrates. De Paulo Pinto Mascarenhas, na Atlântico.
2. Impostos e casamentos. De João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
3. País das Maravilhas em estado de choque. De Bruno Cardoso Reis, n' O Amigo do Povo.
4. Cultura nua e crua. De Eduardo Pitta, no Da Literatura.
5. Guterres e Pina Moura vão pagar déficit energético. De Gabriel Silva, no Blasfémias.
6. Disparates (2). De Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
7. Coprolalia, o fascínio pelo palavrão. No Combustões.
8. Portugal na ONU - enterrado na areia. De Ana Gomes, na Causa Nossa.
9. Parolidades. De Fernanda Câncio, na Glória Fácil.

Ai vida boa!!!

A não perder, para sorrir e rir às gargalhadas. Para ler, reler, recitar, contar aos filhos e à sogra, emprestar aos amigos, levar para o trabalho para ler às escondidas: hoje nas bancas o mais cómico e divertido álbum do Lucky Luke - Os Rivais de Painful Gulch - os campónios narigudos contra os campónios orelhudos – lembram-se?
De referir que este livro integra uma equivoca colecção editada com o jornal Público – a maior parte dos títulos escolhidos são medíocres criações de Morris, a solo ou em má companhia, na tentativa de explorar o moribundo filão que foi este clássico herói da BD Franco-belga. Definitivamente, se o corpo do Lucky Luke pertence ao desenhador Morris, a alma pertenceu sempre ao argumentista René Goscinny (1926-1977). E sem alma não há vida.

João Villalobos,

A Eva Mendes lamenta muito, mas não vai poder estar na sua festa dos 40. Quase que poderia jurar que ficou bastante desapontada.

Quarta-feira, Outubro 18, 2006

Publicidade inteligente

O primeiro spot dos Bravia - o das bolinhas saltitantes - foi um sucesso.
Este é igualmente impressionante.

Estão desde já convidadas/os!



FESTA A MÁQUINA DO TEMPO
40 ANOS DO JOÃO VILLALOBOS

O QUÊ?
4 - décadas de música - 4
e
4+1 dj's: Miguel Cadete, Miguel Somsen, Nuno Costa Santos, Luís Villalobos + Fever Pitch

QUANDO e ONDE?
Na noite de 4 de Novembro, Sábado, entre as 23.00 e as 05.00h.
No Grémio Lisbonense, Rua dos Sapateiros, 226, 1º.

Informação relevante: Só a primeira bebida é à borla. As restantes nem por isso. Venham acompanhados por quantos/as entenderem. A baixa lisboeta nunca mais será a mesma, mas a edilidade que nem pense em enviar-me a factura dos estragos

Portugueses, pequenos e médios (I) Yussuf Silva

As crónicas são escassas em relação a este Yussuf Silva, um dos primeiros portugueses pequenos e médios de que há memória. Yussuf foi português apenas por breves instantes e de forma relutante.
Diz a lenda que o cavaleiro Martim Moniz morreu entalado no cerco de Lisboa, num acto de heroísmo que o próprio monarca, D. Afonso Henriques, viria a elogiar. Quanto às circunstâncias da morte, o entalamento parece ser lendário, embora seja verdadeiro o heroísmo.
Na porta dos mouros ficou de facto entalado Yussuf Silva, um mouro de Lisboa que trabalhava como porteiro num importante clube nocturno na zona dos arrebaldes hoje conhecida por Intendente. Espero que não escape esta ironia de um porteiro morrer entalado na porta que tentava fechar.
Sendo forte, Yussuf foi chamado pelo sultão, que lhe explicou a situação estratégica: um exército cristão dirigia-se a Lisboa e, por mar, avançava uma esquadra da Segunda Cruzada. “Tens de defender a chamada porta dos mouros”, disse o sultão, “afinal, isto é uma invasão de emigrantes ilegais”.
Para Yussuf, a situação representava um problema, pois estes indocumentados tendem a competir por empregos mal pagos, como o seu.
Nas primeiras semanas, a defesa de Lisboa funcionou de forma competente, até se instalar a situação do fog of war (a confusão total) na porta dos mouros, onde estava Yussuf Silva. Sabe-se apenas que, naquele momento, os cruzados europeus estavam a discutir os termos de uma nova directiva sobre a qualidade da manteiga. E, como falavam mais de 22 línguas, a estratégia era atrasada pela tradução simultânea. Desta vez, foi tudo rápido. A porta era pesada e fechou-se sobre o pobre Yussuf, que não fugiu a tempo. Não há provas irrefutáveis de que Martim Moniz tenha ficado igualmente entalado. Os dois? É apenas uma possibilidade, que nenhum historiador deve descartar.
A rendição ocorreu pouco depois, antes do pobre Yussuf morrer dos ferimentos, portanto, tecnicamente, o mouro do futuro Intendente foi português durante alguns minutos.

É tudo uma questão de cultura

Ontem, com enorme falta de cultura, Rui Rio inaugurou o túnel de Ceuta com "luzidia comitiva", segundo a imortal reportagem do Público, jornal culto que também traz um editorial culto e inesquecível sobre a falta de cultura de Rui Rio e fundou um culto blogue (inédito em Portugal!) só para discutir o Rivoli. Só não percebi porque é que a culta ministra da Cultura vai hoje ao Porto e nem sequer quer ouvir os cultos ocupantes do Rivoli.

A traulitada geral

Devo ter entendido bem: sobre o debate da despenalização do aborto que se vislumbra, para já, temos os hipócritas e os outros. Estes e aqueles vão iniciar uma desgarrada batalha retórica de onde ninguém sairá impune.
Para lá da mulher e do bebé desfavorecidos pela má fortuna deste capitalismo hedonista, que todos construímos e do qual todos somos cúmplices, o debate sobre a despenalização do aborto que se avizinha parece rumar rasteiramente para a demagogia, para os processos de intenções e para o insulto gratuito. O circo vai começar, eu já vi este filme, e confesso que não me apetece nada.
A traulitada geral que se avizinha funcionará como arma de diversão, e o governo de Sócrates por um curto período reconquistará a sua esquerda natural. E eu que não tenho nada a ver com isso, hesito agora em cavar a minha trincheira.
Mas o que me apetece é emigrar.

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Terça-feira, Outubro 17, 2006

Hipocrisia, dizem eles

Ontem estive toda a tarde no Centro Cultural de Belém, acompanhando uma conferência sobre interrupção voluntária da gravidez promovida pelo Partido Socialista Europeu. Falaram vários eurodeputados do PS - Edite Estrela e Manuel dos Santos, por exemplo. Falou o secretário de Estado Jorge Lacão, que era o líder parlamentar socialista quando a anterior proposta de lei do PS "abortou" na Assembleia da República. Falou o actual líder parlamentar do PS, Alberto Martins. Falou a "líder" das mulheres socialistas, Manuela Augusto. Falou o ministro da Saúde, Correia de Campos. Falou o próprio primeiro-ministro José Sócrates. Ouvi pronunciar com frequência a palavra "hipocrisia" a propósito da moldura penal portuguesa, que (como acontece com os quadros legais europeus, designadamente o espanhol, quase decalcado do nosso) criminaliza o aborto como regra geral, embora admita várias excepções.
Durante uma tarde inteira, repito, não ouvi pronunciar uma única vez o nome de um ilustre antecessor de Sócrates: António Guterres. Como se a situação de 2006 não decorresse do tortuoso comportamento político do PS em 1997 e 1998. Quando o tema é incómodo, varrem-se os factos para debaixo do tapete, como se nunca tivessem existido. É sempre mais fácil chamar hipócritas aos outros.

Navegar é preciso

Quer fazer um balanço das suas viagens pelo mundo e vê-las transpostas para um mapa, com as suas visitas devidamente assinaladas? Clique aqui e preencha o quadro que lhe aparecer. Eu, aproveitando uma sugestão do Américo de Sousa, já tratei disso: estão contabilizados 48 países, correspondentes a 21 por cento do total da superfície terrestre. Conclusão óbvia: ainda há muito para descobrir. Como dizia o poeta, navegar é preciso...

Postais blogosféricos

1. Um abraço de parabéns ao João Morgado Fernandes, pelo primeiro aniversário do seu French Kissin' - um dos nomes mais bem escolhidos de sempre na blogosfera portuguesa.
2. A partir de hoje, dois novos endereços na nossa barra lateral: o Passado/Presente e O Futuro Presente já cá moram.
3. O Insurgente, chegado às 500 mil visitas, tem um novo endereço. Mas promete manter a qualidade habitual. A ler sempre com atenção.

Angola e as críticas

Enfiei a carapuça. Na viagem de José Sócrates a Angola, escrevi uma série de textos sobre direitos humanos naquele país. Paulo Gorjão vem perguntar se não se deveria fazer o mesmo, agora, que Amorim avança com negócios.

Importa esclarecer umas coisas:

1. O trabalho sobre direitos humanos que escrevi tinha notícia. Por exemplo, um dos relatórios que citei (o da Mpalabanda) tinha sido publicado dias antes e sem que nenhum órgão de C.S. se tivesse debruçado ainda sobre ele.

2. O trabalho sobre direitos humanos saiu depois de José Sócrates ter elogiado por duas vezes, em dois dias diferentes, os progressos sociais em Angola, no sentido da democratização e da construção de um Estado de direito.

3. No trabalho não há críticas a José Sócrates. As críticas estão no editorial do jornal. No trabalho há, isso sim, referências aos elogios de José Sócrates ao processo em curso, que servem de justificação para depois decidir falar com um conjunto de angolanos activistas de direitos humanos.

4. O que eu fiz foi exercer o contraditório. Depois de ouvir Sócrates e Eduardo dos Santos a falar de paz social, democracia e Estado de direito, fui perguntar a pessoas habituadas a lidar com o sistema de justiça angolano e com o Exército se era como mo pintavam. Escrevi o que essas pessoas me dissera, da mesma forma que tinha escrito o que os governantes tinham afirmado.

5. Paulo Gorjão tem razão em duas coisas. Não há nada que impeça que os negócios de Amorim sejam pretexto para se voltar ao tema dos direitos humanos em Angola. Também não teria feito mal nenhum que se tivesse escrito sobre direitos humanos na visita a Marrocos. Mas também não sei - não estive lá - se José Sócrates andou por Marrocos a elogiar o esforço de democratização do rei marroquino.

6. Para terminar um testemunho sobre a polícia angolana, presenciado por algumas pessoas da comitiva, à frente do hotel. Uma mulher com filho ao colo espera que o trânsito pare para atravessar a rua. Divide uma banana com o filho. Uma pick up da polícia aproxima-se com agentes sentados na caixa aberta. Ao passar pela mulher, um dos polícias estica-se e rouba a banana da mão da mulher. Os outros polícias riem-se enquanto o polícia-ladrão engole a banana.


7. Foi este estado de coisas que José Sócrates elogiou.

Gostei de ler

1. A Dália Negra. De Sérgio Lavos, no Auto-Retrato.
2. Sextina II. De Luís M. Jorge, no Franco-Atirador.
3. Vexata questio - Os cornos. De El Ranys, na Revisão da Matéria.
4. Muito feio. De Rui Costa Pinto, no Mais Actual.
5. Previsível? De Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
6. Dona Jurubinda. De Eduardo Pitta, no Da Literatura.
7. O português mais marcante. De José Carlos Gomes, na Política e Sociedade.
8. The last king of Scotland. De Nuno Mota Pinto, no Mar Salgado.

Dois ministros em três canais

Chegado ontem tarde a casa, decidi ver um pouco de televisão. Na SIC Notícias e na RTP-N, falava o ministro das Finanças, em maré de auto-elogio, gabando as putativas virtudes do Orçamento de Estado para 2007. Fixei-me então na RTP, disposto a espreitar o Prós e Contras. Falava outro ministro, António Costa. Que, ao contrário do que acontecia com Teixeira dos Santos nos outros canais, tinha claque de apoio: várias das suas frases foram sublinhadas com aplausos da assistência. Confesso que não me agradou esta cena no canal público. Também não gostei de ver Saldanha Sanches, um homem por quem tenho consideração intelectual, fazer coro com o titular da Administração Interna nas críticas aos autarcas que contestam a proposta de lei das finanças locais: fiquei particularmente perplexo com a sua absurda tese de que as autarquias "não têm legitimidade democrática plena" por lhes faltar o poder tributário (que elas, por sinal, reclamam há longo tempo). Mas o pior estava para vir com a intervenção de Susana Amador, a socialista que preside à câmara de Odivelas e que conheci em São Bento, como discreta assessora do grupo parlamentar do PS. Volvidos estes anos, continua a parecer uma assessora: ao contrário da esmagadora maioria dos presidentes de municípios, incluindo os do PS, ela diz aplaudir a proposta governamental "enquanto cidadã antes de ser autarca", frase que me deixou estupefacto. E mais espantado fiquei quando a vi bater palmas a António Costa, em plena emissão, após uma intervenção do ministro. Há pessoas que fazem da subserviência um lema de vida.
Fartei-me do Prós e Contras, voltei à SIC Notícias. Lá estava uma cara familiar: o ministro das Finanças falava ainda.

Capacidade e vontade

Confesso que por vezes tenho dificuldade em entender exactamente onde situar Paulo Gorjão. Isto apesar de, paulatinamente, começar a perceber por que razão o Arte da Fuga coloca o Bloguítica na coluna das «Fugas de Esquerda».
Hoje PG pergunta-nos isto, a propósito da defesa dos direitos humanos em Angola: «A mesma imprensa que criticou Sócrates severamente não deveria criticar igualmente Amorim?».
E, desta comparação inusitada entre um primeiro-ministro e um empresário, parte para a resposta: «Sejamos claros. Portugal não tem qualquer capacidade de contribuir para o respeito pelos direitos humanos em Angola. Nem Portugal, nem qualquer outro Estado ou instituição internacional. Por uma razão muito simples: o petróleo dá ao regime angolano uma capacidade negocial e financeira que o põe a coberto de pressões políticas». Ou seja, PG confunde capacidade com vontade. E eliminando a capacidade oferece-nos, como fait accompli, o resultado. Deduzimos, portanto, que a imprensa não deveria era ter criticado Sócrates porque temos de assumir a nossa condição de títeres nas mãos das petrolíferas.
Ora bem: As atitudes dos empresários são penalizadas pelos seus stakeholders e clientes, as atitudes de um Governo pelos seus eleitores. E a comunicação social tem um papel obrigatório de alerta e vigilância muito diferente neste último caso.
Que PG, no mesmo post, defenda Sócrates, critique a imprensa que todos os dias mostra não compreender e abdique da defesa dos direitos humanos é um acumular de malentendidos.

Importam-se de explicar porquê?

«É eliminada a isenção prevista no Estatuto dos Benefícios Fiscais (artº16), sendo substituída por uma dedução à colecta igual a três vezes o salário mínimo nacional».
(...)
«De acordo com simulações da consultora (PricewaterhouseCoopers) em alguns casos o agravamento da tributação aos deficientes pode chegar aos 12%».
DN, «Solteiros, deficientes e profissões liberais pagam mais IRS», artigo de Rudolfo Rebêlo sem link disponível, infelizmente.

Segunda-feira, Outubro 16, 2006

A solidão aliada às coisas exteriores (I)

O género epistolar, que os computadores condenaram à extinção, devia ser um maná para as editoras. Tem sido esta a regra noutros países, nomeadamente os de cultura anglo-saxónica, mas não é assim em Portugal, onde são raras as cartas de gente famosa que chegam à forma de livro. Isto deve-se, em boa parte, ao temor de herdeiros que receiam ferir susceptibilidades alheias às vezes muitos anos depois da morte dos visados. Neste país de brandos costumes (Salazar dixit), o respeitinho e a necessidade de “parecer bem” sobrepõem-se a outros critérios – desde logo o de divulgar documentos com inegável interesse histórico. Felizmente há excepções. E quando existem logo se transformam em acontecimentos culturais. Foi assim no ano passado, com a publicação das cartas entre António José Saraiva e Óscar Lopes, e também com as cartas escritas por António Lobo Antunes à mulher, quando cumpria o serviço militar em Angola. Manuel Fonseca, da novíssima editora Guerra & Paz, traz-nos agora outra obra similar: a correspondência trocada entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner durante quase duas décadas (1959-78). Um acontecimento editorial que se saúda, embora o conteúdo esteja aquém das expectativas geradas. Não só por o número de cartas ser reduzido, mas também por não haver nelas qualquer menção a factos fundamentais da História portuguesa desse tempo, como o fim do longo consulado de Salazar e o 25 de Abril. Neste aspecto, a correspondência entre António José Saraiva e Óscar Lopes resultou num livro muito superior.

A solidão aliada às coisas exteriores (II)

Graças ao trabalho meticuloso de Mécia de Sena (viúva do poeta de Metamorfoses), que guardou e coligiu as cartas recebidas de Sophia e as cópias das cartas endereçadas por Jorge de Sena à autora do Livro Sexto, ficamos agora a conhecer melhor os mecanismos de cumplicidade que irmanaram dois dos maiores nomes das nossas letras. Sena e Sophia não escondiam uma genuína admiração mútua, rara nos nossos meios culturais. Admiração reforçada no combate à ditadura salazarista, que ambos detestavam, mas também à hegemonia comunista no panorama literário português entre as décadas de 40 e 70 – hegemonia que excomungava todos quantos, sendo de oposição ao Estado Novo, não toleravam também eventuais ditaduras de sinal contrário. “Acho que não se pode criar em nome do antifascismo um novo fascismo”, escrevia Sophia a Sena em Março de 1962 – uma das mais notáveis missivas incluídas neste volume.

A solidão aliada às coisas exteriores (III)

Um dos méritos maiores desta Correspondência é iluminar alguns dos melhores ciclos existenciais de Sophia – inclundo a descoberta do mar algarvio, tão marcante na sua obra, e sobretudo as suas primeiras viagens à Grécia, que a conduziram a novos trilhos poéticos. O seu entusiasmo pelas viagens é, de resto, uma constante nas espaçadas confidências que ia trocando com Sena, confessando-se maravilhada com Delfos, Corinto, Roma e o Rio de Janeiro. E com As Meninas, de Velásquez, no Museu do Prado. Existe no ser humano – e no poeta em particular – o “dever de ver”, como ela sublinhava noutra carta reveladora, escrita no México em Novembro de 1971.

A solidão aliada às coisas exteriores (IV)

Sophia preferia falar ao telefone do que manter uma correspondência activa, chegando muitas vezes a escrever cartas a Sena que este jamais leria. O incómodo de “ir à Baixa”, para despachá-las por correio, desencorajava-a com frequência. Sena, pelo contrário, era de escrita mais copiosa e regular. Mas as marcas do exílio – primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos – tornaram-no num ser amargurado, que ressumava azedume em relação às letras portuguesas, à “comunistada honorária” que ditava regras à esquerda e ao próprio país onde não conseguiu garantir o sustento da sua família numerosa antes e depois da Revolução dos Cravos. “Como essa pátria, tirando o povo e uns raros, é vil, canalha e mesquinha”, desbafava numa carta de Janeiro de 1968.

A solidão aliada às coisas exteriores (V)

Sena e Sophia nasceram no mesmo ano (1919), na mesma cidade (o Porto) e partilharam traços identitários, com destaque para a formação católica. A pulsão para o activismo político, por imperativo ético, também uniu estes dois escritores que só aos 50 anos, na sequência de uma breve deslocação de Sena a Portugal (já Marcelo Caetano substituíra Salazar) começam a tratar-se por “tu”. Este é, aliás, um dos aspectos documentalmente mais interessantes da Correspondência. De lamentar, além da perda de algumas cartas de Sena apreeendidas pela PIDE na casa de Sophia e jamais recuperadas, é a omissão total de correspondência no biénio 1974-75, tão decisivo para Portugal. Sena faleceu em 1978, sem se reconciliar com a pátria-mãe. Sophia viveu mais um quarto de século, fiel a um lema que tão bem expressou num dos seus poemas: “Meu signo é o da morte porém trago / uma balança interior, uma aliança / da solidão com as coisas exteriores.”

Correspondência. Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena. Edição Guerra & Paz, Lisboa, 2006. 158 páginas.
Classificação ***

Tertúlia literária (67)

- Leu o Quarteto de Alexandria?
- Eles não eram de Liverpool?

A beleza hoje em dia

Este vídeo mostra o que acontece nos dias de hoje na publicidade.
Começa-se com a face de uma modelo. A maquilhagem e a tecnologia fazem o resto.

Antes as FARC

Lido isto depois desta chamada de atenção, fico varado. O que vai fazer o Partido Comunista Chinês ao congresso do PS? Depois de Sua Santidade o Dalai Lama ter abdicado da defesa da independência do Tibete, devido ao número assombroso de mortos que a luta causou; numa altura em que a China inaugura a linha ferroviária para a região, indispensável instrumento de colonização para a «solução final do problema tibetano», o Partido Socialista decide convidar os autores do mortícinio e sentá-los nas cadeirinhas a ouvir as inanidades aportuguesadas da terceira via requentada que nos habituámos a comer ao almoço, ao jantar e à ceia.
Os chineses rir-se-ão com gosto e aceitarão esta «lavagem» de consciência por aquilo que ela vale: Negócio. Ou, melhor dizendo, vontade de fazer negócio. Porque a China, hoje, são milhares de milhões em potência a ganhar ou a perder de acordo com as circunstâncias. Não há moral aqui, quanto mais religião. Há política no seu sentido mais mesquinho. Querem que vos diga? Então eu digo: Antes as FARC.

Actualização: Tomás Vasques não concorda e diz que as FARC «são outra coisa», depois deste post do Rui Costa Pinto. Também eu discordo, mas neste caso do Tomás. Nada distingue os «assassinos entre nós» uns dos outros. Todos eles matam e voltam a matar (quando não andam em congressos, é evidente). E já agora, leiam isto.

Adenda: «Um "participante internacional" levantou a questão dos direitos humanos e "avisou sobre um certo burburinho vago a respeito do Tibete". Mas, com o estatuto de Nação Mais Favorecida, o mais provável é que esse burburinho continue sem ser ouvido, uma vez que qualquer embargo comercial seria ilegal, segundo as regras do livre comércio». Artigo sobre a reunião na Penha Longa do grupo de Bilderberg por Gibby Zobel, Pública, 26 de Dezembro de 1999.

Longe da multidão

Hei-de falar aqui com algum vagar dos meus cronistas e colunistas favoritos. Por agora fica a referência a um dos nomes que constam dessa lista: António Sousa Homem, o velho minhoto, conservador e monárquico, que vive desterrado no seu solar de Moledo, longe da multidão e das "verdades" do mundo contemporâneo que se esgotam com a rapidez de um fósforo. Na última edição da revista Notícias Sábado, escrevia ele sobre Guerra Junqueiro, e sai-lhe este naco de prosa verdadeiramente irresistível:

"O doutor Homem, meu pai, desinteressava-se do 'assunto republicano' (ele teria sido um cartista do velho regime, como em tempos contei) mas achava Junqueiro insuportável como bardo. Sempre que queria fazer rir a plateia, à mesa, recitava 'Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão / Em mim não é amor; filha, é adoração!', como um exemplo que deveria figurar no Código Penal."

Hei-de voltar a falar de Sousa Homem (pseudónimo de um notável escritor português e também autor de um blogue de que gosto muito). Hoje ficou este excerto a servir de aperitivo.

Mar morto

Só agora descobri, ao ler mais este excelente post do Eduardo Pitta, que o depauperado Ministério de Isabel Pires de Lima, a ministra que ainda não foi «à sua vida», vai gastar 2,5 milhões de euros para converter o abandonado Museu de Arte Popular em Belém num Museu do Mar da Língua.
Acho este nome lindo. Evoca-me, sei lá, o oceano de saliva que nós, brava mas desgraçadamente, percorremos de cada vez que o Estado dá à luz uma ideiazinha que se revela - mas é que é sempre - cópia de outra ideia qualquer já finada e enterrada.
O Estado não sabe velejar. Em lugar da bolina, sempre com costa à vista, prefere meter o pouco ouro que lhe resta no porão e fazer-se ao largo. Sem mapa e sem bússola. Depois naufraga e alguém lá vai salvar uns despojos para reconstituir idêntica aventura.
Não sei o que é isso do «Mar da Língua» mas imagino culposas referências às Descobertas repletas do habitual remorso do Homem branco mescladas com o nosso serôdio orgulho, de outrora como de hoje: Os Palop, a CPLP, «irmões» que somos todos e sempre seremos. Um disparate.
O Mar da Língua é onde nos afundamos há décadas. Palavras, leva-as o vento como diz o povo. Normalmente, até ao recife mais próximo.

O grande desafio

"Naquele tempo, quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” Jesus disse: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!” Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. Jesus olhou para ele com amor e disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” Mas, quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus!” (…)

(Evangelho de Jesus Cristo segundo S. Marcos).


Quis o destino que eu nascesse sem quaisquer bens terrenos. Os poucos bens que possuo hoje, chegado ao auge da minha maturidade, são perecíveis ou não têm valor digno de nota. Apesar disso identifico-me dramaticamente com o homem rico retratado no desconcertante evangelho deste Domingo que passou. De resto, parece-me que apenas numa leitura simplista podemos interpretar esta “riqueza” feita dos tais bens materiais. Nesta leitura deparo-me antes com um homem cheio de dispersão (sem religião – “re-ligação”, unidade) de tal forma comprometido com tralhas, vaidades ou efémeros fetiches, que recusou (escandalosamente) um convite, ali directo, pelo próprio Jesus palpável e visível, qual felicidade eterna sem distâncias ou intermediações.
Eu por mim, gostava de atingir a sabedoria despojada do Rei Salomão. Qual era a verdadeira riqueza do Rei Salomão? Eu por mim, sonhei com um templo, uma capela ou um pequeno espaço de oração, rectangular e minimal, e chão pleno de areia do deserto. Paredes brancas, mais nada. À frente, o altar, uma pequena Arca (fraqueza minha), símbolo inspirador do mistério do santíssimo sacramento. Arca que encerrasse verbetes com todos os nomes dos Santos nossos heróis antepassados. Lá dentro, nessa Arca fantástica, permaneceria uma vela acesa, símbolo do sopro da vida que nos foi legada por Deus criador. Seria esta uma “banda larga” na minha relação com Nosso Senhor.
Este ano tenho o privilégio de dar catequese na minha paróquia a um grupo de inquietos e rebeldes adolescentes do 9º ano do Catecismo. São miúdos sedentos de respostas a emergentes, caóticas e desconcertantes dúvidas. Julgo que os posso entender bem, já que fui o mais “ingrato” dos adolescentes. E remeto-os ao diálogo livre e à reflexão. No caminho do conhecimento de uma radical liberdade interior. No caminho exigente para a felicidade que advém da relação e da entrega. Tento transmitir este legado, um difícil desafio por certo, nestes vorazes dias.
De resto aceito a realidade de uma Igreja plural. Às vezes chocantemente plural. Não pretendo ser juiz na estética, ou inquisidor das intenções da cada crente, corrente, prática ou tendência. Fazer caminho na relação com Deus é do foro individual, e recuso a má fé, integrando-me organicamente na minha comunidade, assumindo a doutrina e dogmas da minha religião. E jamais me demitirei da transmissão de uma mensagem que para mim serve a libertação interior e a felicidade, quase sempre diferida, mas verdadeira.

Com amizade dedico este texto ao meu camarada de blog João Villalobos. Sobre o Santuário de Fátima, escreverei noutra ocasião.

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Domingo, Outubro 15, 2006

Jornalistas, a nossa honra está em causa!

Ouvi há pouco Marcelo Rebelo de Sousa na RTP a dizer que o Expresso era a favor do Governo e o Sol contra. Fiquei surpreendido. Em diversas conversas, e até discussões, com colegas e amigos jornalistas, eles sempre me garantiram que a Imprensa de referência portuguesa era independente, que tratava todos os Governos por igual, e que isso de eu achar que haver jornalistas de esquerda ou de direita tinha influência nas redacções era uma fantasia e um excesso de "partidarite" da minha parte. Fico à espera de uma reacção do sindicato, ou pelo menos dos jornais citados, que venha exigir a Marcelo um pedido de desculpas por ter posto em causa o profissionalismo de dois dos principais jornais portugueses e a honra dos que lá trabalham. Se Marcelo não o fizer, sugiro que peçam uma audiência de emergência a Cavaco Silva.

A descolonização nunca existiu

José Eduardo dos Santos, presidente de Angola, esteve recentemente internado em duas unidades hospitalares do Rio de Janeiro - a clínica de São Vicente e o Hospital de Botafogo. Abdelaziz Bouteflika, presidente da Argélia, foi operado no luxuoso Hospital de Val-de-Grâce, em França. Lansana Conté, presidente da República da Guiné, foi evacuado para a Suíça com graves problemas de saúde. Levy Mwanawasa, presidente da Zâmbia, deu entrada de emergência num hospital de Londres. Quatro décadas depois dos "ventos da História" terem expulso os europeus do continente negro, os dirigentes africanos dão hoje o exemplo em sentido contrário: mal adoecem, vão tratar da saúde o mais longe possível das suas decrépitas capitais. Isto diz bem da confiança que depositam nos tratamentos médicos ministrados nos países que governam, onde a miséria impera, a esperança de vida mal ultrapassa os 40 anos e a mortalidade infantil atinge níveis criminosos perante a eterna passividade das boas consciências ocidentais. Pena que o cidadão comum de África não possa dar-se ao mesmo luxo que os seus "líderes" ou forçá-los a frequentar hospitais africanos. Às vezes até parece que a descolonização nunca existiu.

Vidas portuguesas

Fotografia

1- Como se não fosse suficiente atafulhar as caixas de correio (mesmo com o não obrigada) com toda a espécie de publicidade indesejável, eis que agora foi descoberto um novo local, ali à mão de semear. Falo dos vidros dos automóveis. Devidamente acondicionado pela vareta, lá está o papel a anunciar tudo e mais alguma coisa. Quando o tempo está bom, ainda passa. O pior são os chuviscos. Sem nos apercebermos damos por nós com uma treta colorida colada ao vidro em frente dos nossos olhos. E não é que aquilo não se mexe?

2- A prepotência de funcionários de direcções gerais diversas em deixar as suas viaturas de serviço (ou não?) em cima de passeios e em locais proibidos, devidamente identificados com o cartão da instituição. Um mimo.
3- A excitação em ligar os telemóveis sem o avião ter parado. Que nervos!
4-"Eu acrescentaria também isto: ver dezenas de pessoas a fugir das salas de cinema no momento em que dispara o genérico final - alguns chegam a correr literalmente dali para fora. Nunca percebi por que motivo isto acontece "chez nous". Será que toda aquela gente sofre da bexiga? "(Pedro Correia)
5- "Parar para ver um acidente, acompanhado da devida e necessária meia hora de ilustre e sapiente pontificação sobre as razões cósmicas ou, apenas e só, o deve e o haver de tamanho acidente...que claro está toda a gente vê mas nunca ninguém viu. "(comentário de Max)

Postais blogosféricos

1. José Raposo está de parabéns: o seu Suburbano festejou agora dois anos de existência. E ainda vai arranjando tempo para escrever no Dolo Eventual.
2. A Sociedade Anónima apagou a primeira vela. Ainda e sempre no feminino - e muito plural. Faço votos para que continuem assim.
3. Também a Fuga para a Vitória acaba de assinalar o primeiro aniversário. Abraços de parabéns ao Daniel Melo e ao Renato Carmo.
4. Last but not the least: um dos meus blogues preferidos, There's Only 1 Alice, nasceu faz hoje quatro anos. Visitar a Lebre do Arrozal é uma autêntica blogoterapia. Como prenda, segue este verso de Tom Waits: "Everything you can think of is true." Tem tudo a ver...

Tertúlia literária (66)

- O policial é um género em crise e ainda não percebi bem de quem é a culpa.
- Só pode ser do mordomo.

Momentos Kodak (22)

Quem disse que jogadores como Simão Sabrosa ganham muito???
(Outubro 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

O pombo de Trafalgar Square

"Deus está nos detalhes", dizia um famoso arquitecto. Pensei nesta frase ao ler há pouco um notável artigo de Teresa Firmino, no Público, sobre o centenário de António Gedeão. Neste artigo, intitulado "Rómulo de Carvalho, ou a importância de se chamar António", a jornalista revela que o poeta "gostava tanto de fazer álbuns de viagens que trazia para casa os objectos mais improváveis". Que podia ser uma simples "pena de pombo de Trafalgar Square".
Um pormenor, dir-se-á. Mas o melhor jornalismo avalia-se em pormenores como este. A partir de agora, fico a simpatizar ainda mais com Gedeão, o sisudo professor liceal que um dia transportou de Londres para Lisboa a pena de um pombo de Trafalgar Square. Ser poeta também é isto.

Um legado de Salazar

Miguel Sousa Tavares grita “basta” nesta edição do Expresso (sem ligação disponível), atirando-se pela enésima vez a Alberto João Jardim. Não serei eu a demarcar-me dele neste ponto: considero Jardim uma das figuras mais detestáveis da política portuguesa e não altero um milímetro esta posição quando me vêm lembrar que até hoje ele nunca perdeu uma eleição na Madeira. Mas começa a irritar-me a atitude daqueles sujeitos (não é o caso de Sousa Tavares) que só agora descobriram os males de Jardim e, pressentindo que o leão insular está moribundo, não hesitam finalmente em dar-lhe uma patada. Um desses casos, que só surpreende quem nasceu ontem, foi aqui já dissecado pelo João Gonçalves. E muito bem.
O que mais me interessou neste artigo de MST foram as primeiras linhas: “Em política, gosto daquelas frases curtas, incisivas, que, por dizerem o suficiente e o necessário, ficam para a História.” E dá como exemplo o “Obviamente, demito-o”, com que Humberto Delgado visou Salazar, e agora o “Basta” que José Sócrates, do alto da sua confortável maioria em São Bento, atirou a Jardim.
Passe a absurda comparação entre Delgado e Sócrates, a frase de MST torna-o afinal um admirador de... Salazar. Não me recordo de nenhum outro político português que tenha proferido tantas frases “curtas e incisivas”, e que digam “o suficiente e o necessário”, como o fundador do Estado Novo, autor de várias expressões que transcenderam a sua época e entraram no vocabulário corrente dos portugueses. Expressões como “viver habitualmente”, que define a nossa maneira de ser; “brandos costumes” – uma espécie de marca genética portuguesa; “orgulhosamente sós”, que caracteriza a nossa posição na periferia europeia; “em política, o que parece é” – frase que ganha novo impacto nesta era em que uma “boa imagem” tem valor político intrínseco; ou até o “rapidamente e em força” com que demandámos as angolas reais ou imaginárias através da História.
Tudo isto tem o cunho inconfundível de Salazar, que conhecia bem o valor das palavras – de tal modo que sabia projectá-las no futuro. Elas aí andam, no discurso político e jornalístico de todos os dias, sem que na maior parte das vezes seja reconhecida a sua origem por quem as repete à exaustão. É um legado que perdura, 36 anos após a morte do seu criador. Sinal inconfundível de que Portugal mudou menos do que muitos de nós desejaríamos. As coisas são o que são.

Sábado, Outubro 14, 2006

O meu primeiro filme

Há uns meses, o Luís deixou aqui uma comovida memória do primeiro filme a que assistiu. Apetece-me fazer hoje o mesmo, recuando aos meus sete anos, quando entrei numa sala de cinema para ver um filme "a sério". Era Mary Poppins, de Robert Stevenson, numa reposição natalícia no antigo Monumental. Tudo me deslumbrou nesse filme: a música, a personagem da governanta com um toque de loucura, a mescla de desenhos animados com figuras reais, a vivacidade acrobática do Dick Van Dyke, o nariz arrebitado da Julie Andrews (mal adivinhava eu como haveria de gostar tanto de outro nariz arrebitado...). Recordo como se fosse hoje a mágica dança dos limpa-chaminés recortados na noite azul de uma Londres irreal. E a incomparável explosão de alegria que irrompia no ecrã aos primeiros acordes de Supercalifragilisticexpialidocious...
Vi largas centenas de longas-metragens depois desta inesquecível produção dos estúdios Walt Disney. Mas regresso a Mary Poppins com a mesma sensação de encantamento, que se repete em cada fotograma deste filme único, relíquia de um tempo em que os grandes estúdios ainda ditavam cartas na indústria cinematográfica americana. Continuo a comover-me quando ouço Chim Chim Cheree, divirto-me com aquele delirante chá tomado com as personagens coladas ao tecto, ainda acho possível que uma nanny inglesa cruze os céus de Londres a flutuar num guarda-chuva. E não concebo sequer que alguém ponha em causa os méritos desta película, uma das mais deslumbrantes obras-primas do cinema. A ver e a rever em qualquer época, dos sete aos 77 anos de idade.

Nas colunas

Um filme de culto e uma banda sonora de antologia, com pérolas como esta, e esta, ou esta ainda. Ladies and Gentlemen, please welcome Jake & Elwood Blues!

Impunidade?

A crise norte-coreana entrou na fase crucial, com possíveis desenvolvimentos nas próximas horas. Tudo indica que a explosão realizada pelo regime de Kim Jong-il resultou da deflagração de um engenho obsoleto, mas nuclear. Tudo aponta para sanções limitadas da ONU, pois China e Rússia deverão bloquear qualquer resolução que possa incluir eventual força militar.
O regime irresponsável do ditador norte-coreano sofrerá bloqueios económicos e novas carências energéticas e alimentares, mas não suficientemente extensos para causar o seu colapso. Isso só irá piorar a situação lamentável da população. O embaixador americano nas Nações Unidas, John Bolton, dizia cinicamente que o povo norte-coreano já baixara o seu peso médio e altura média, portanto o ditador também podia fazer dieta. Ele referia-se a produtos de luxo que serão incluídos nas sanções, mas tocou no ponto essencial: a miséria dos inocentes é uma realidade.
A queda do regime de Kim Jong-il não interessa nem a russos nem a chineses, mas é uma perspectiva que assusta a Coreia do Sul (que seria obrigada a liderar a reunificação da península) e talvez os próprios EUA (quem sabe o que pode acontecer numa transição destas?). No tempo de Kim il-Sung, que iniciou a Guerra da Coreia (a que se refere esta pintura de propaganda), Moscovo e Pequim pareciam ter mais influência. O estranho é que já não consigam controlar os caprichos do “querido líder”.
Em resumo, o teste pode ficar impune, com sanções pouco mais fortes das que sofreram Índia e Paquistão, em situações idênticas. A ditadura comunista acabará um dia, mas não será da mesma forma que ditou o fim do regime de Saddam Hussein. E a argumentação usada na altura podia muito bem ser utilizada agora.
Se o crime de desenvolver e testar armas nucleares compensa para Pyongyang, também compensará para Teerão. A proliferação nuclear é inevitável. E existe um perigo arrepiante: o querido líder, num desespero, pode decidir vender os seus engenhos a grupos ou regimes fanáticos, com agendas ainda mais perigosas. Esta é uma crise muito preocupante e a única saída será o recuo incondicional de Kim Jong-il. Esperemos que as sanções sejam suficientes.

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Blogues em revista

A Sexta Coluna: "Guerra preventiva é como cometer suicídio com medo da morte." (Eduardo Nogueira Pinto)

Bandeira ao Vento: "Sempre que me sugerem uma ética das virtudes eu peço para ver a lista. Das virtudes." (José Bandeira)

Estado Civil: "Não me venham então com essa conversa das amizades «sólidas como os ossos». Quando uma doença dessas se agrava, os ossos são tão frágeis como cabelos." (Pedro Mexia)

Tomar Partido: "Muitos se têm revelado surpresos com as declarações de Manuel Pinho, decretando o fim da crise. A mim, confesso, não me surpreendem. Tive ocasião de acompanhar o percurso do actual ministro durante a última campanha eleitoral. (...) Percebi duas coisas. Que o senhor está-se literalmente nas tintas para o PS (o que por si só não é pecado) e que é incapaz de trocar o golfe pelo trabalho político.(...) Não tarda é condecorado." (Jorge Ferreira)

Gostei de ler

1. É fácil dizer mal. De João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
2. Uma enorme dor de corno! De Fernando Martins, n' O Amigo do Povo.
3. Yunus: para desgosto de gregos e troianos. De Henrique Raposo, na Atlântico.
4. Hannah Arendt - 100 anos do seu nascimento - 14 de Outubro de 1906. No Exílio de Andarilho.
5. Anna, na sua morte. De Luís Januário, n' A Natureza do Mal.
6. A manif. De Eduardo Pitta, no Da Literatura.
7. A bicicleta com o cestinho. De Coutinho Ribeiro, n' O Anónimo.
8. Dom de iludir. De Francisco Costa Afonso, no Berra-Boi.
9. Os filhos do jornalismo. De Susana Barros, na Escola de Lavores.
10. Um filme para hoje. De Nuno Ramos de Almeida, nos Cinco Dias.
11. Ainda a propósito de cinema... De Sofia Vieira, na Controversa Maresia.

A grande revelação do Expresso

Já existe um «casal Sócrates».

Conversa de táxi

- Bom dia. Leve-me à Praça do Império.
- Isso é Belém, é?
- É.
- É onde fica o Palácio do Presidente?
- Não. É onde ficam os Jerónimos.
- E a Praça do Presidente chama-se como?
- Chama-se Praça Afonso de Albuquerque.
- Ah, é isso.
- ...
- Vamos pela CRIL?
- Não. Vamos pelo Eixo Norte-Sul.
- Ah, Alcântara...
- Pois.
- E de Alcântara vai-se a Belém, é?
- É.
- Muito obrigado pela indicação. Hoje estou um pouco baralhado...
- Pois.

Tertúlia literária (65)

- Que lhe diz o nome de Pepe Carvalho?
- Um escritor catalão já falecido. Autor de policiais. Criou aquele detective muito conhecido, o Montalbán. Sou apreciador do género.

Fragmentos únicos da Literatura (1)

«- Por que não me deixas escrever o teu nome e morada num pedaço de papel?
- Para quê? - perguntou em tom beligerante, franzindo os lábios e exibindo um clarão agressivo nos olhos. - Para o rasgares em mil pedaços, mal vire as costas?
- Quem é que o vai rasgar? - protestou Yossarian, confuso. - Que estás para aí a dizer?
- Tu - insistiu ela. - rasga-lo em mil pedaços mal vire as costas e ficas inchado de vaidade porque uma moça alta, jovem e bonita como eu, Luciana, te deixou dormir com ela e não exigiu dinheiro.
- Quanto exiges?
- Stupido! - vociferou, exaltada. - Não exijo absolutamente nada! - Bateu o pé com vigor e levantou o braço num gesto turbulento que fez Yossarian recear nova agressão no rosto com a carteira. Ao invés, ela escreveu o nome e a morada num pedaço de papel e estendeu-lho. - Aqui tens - murmurou com um esgar sardónico, mordendo os lábios para evitar o leve tremor. - Não te esqueças. Não te esqueças de o rasgar em mil pedaços, mal vire as costas.
Em seguida, sorriu serenamente, apertou-lhe a mão e, com um «Addio», de pesar quase inaudível, comprimiu o corpo contra o dele por um momento antes de se afastar, com dignidade e graciosidade inconscientes.
Mal virou as costas, Yossarian rasgou o papel em mil pedaços e partiu no sentido oposto, inchado de vaidade porque uma moça alta, jovem e bonita como Luciana o deixara dormir com ela e não lhe exigira dinheiro».
Joseph Heller, Catch 22

Frases do "Sol"

"No tempo da minha adolescência não havia o consumo generalizado de bebidas alcoólicas que hoje existe."
Paula Teixeira da Cruz
"As mulheres que se prostituem na zona do Intendente, em Lisboa, são, em geral, mais novas e com mais habilitações do que as Praça da Figueira. E cobram menos."
Eunice Lourenço
"Há mulheres multi-orgásmicas tal como há homens impotentes."
Margarida Rebelo Pinto
"De Ana Hatherly recordo sempre a síntese do amor em verso: 'São mil e umas / as noites em que não bato à tua porta / e vens abrir-ma'."
Marcelo Rebelo de Sousa
"O Expresso tinha um valor quando assumi a direcção e outro, incomparavelmente maior, no momento da minha saída."
José António Saraiva
"Nunca me deixarei condicionar."
Hermínio Loureiro

Desesperadamente procurando ASL

Tu xabes aquelas músicas me'mo boas, mas me'mo, me'mo boas, xabes, não é com'as do Lux, estas eram me'mo boas as marotas, xabes, xabes?
Então excuta lá algumas das danaditassh...

Candy - Iggy Pop
Satisfaction - Rolling Stones
Roadhouse blues - Doors
Mystify - Inxs
Chiclette - Taxi
Elevador da Glória - Rádio Macau
13 de Maio - Xutos

Naquele xítio me'mo bom que tu xabes, xabes?, aquele qué me'mo bom o maroto, xabes?, encontrei o Mandim do teu DN, o Baldaia do JN, o Vaza e mais não sei quantas pessoas do nosso Público. Só faltavas lá me'mo tu, xabes?
Um beijo de saudades

Sexta-feira, Outubro 13, 2006

Até p'rá a semana!

Já que tanto se fala de Finanças Locais...

As fugas de Sócrates

O José Teles, um dos melhores jornalistas com quem trabalhei (neste caso, no antigo Semanário), veio visitar-nos. Esteve a dar uma vista de olhos ao Corta-fitas (parece que gostou) e mandou-me uma nota muito simpática, que aqui reproduzo em parte, com a devida autorização. A nota - belíssima e num estilo que vai escasseando na nossa imprensa, cada vez mais avessa ao uso da memória - também serve de resposta a um post do nosso João Villalobos. Sans rancune, frisou.

Eu acho que o Sócrates ontem na Assembleia "não fugiu dos jornalistas", como terá sugerido a reportagem da SIC e será seguramente tema de conversa em família para o Cintra Torres nos próximos tempos. Estive lá. Ele acabava de fazer umas declarações, que podem não ter sido muito interessantes mas podiam ter merecido alguma atenção. Mas sobretudo eram 15 horas, ainda muitos dos autocarros da manifestação vinham a caminho. Ora não se pode exigir um comentário a algo que ainda não aconteceu. Faz-me lembrar uma célebre crítica televisiva no Jornal, aliás muito corrosiva, a um programa, com o Raul Solnado, que afinal não tinha sido emitido. Foi a seguir ao PREC. Mas nem isso serviu de desculpa: o Jornal despediu o crítico televisivo, depois do Veiga Pereira ter feito no Telejornal um relato delicioso do acontecido.
Sei que os repórteres que atacaram o Sócrates de microfone em punho a exigir a reacção a uma manifestação que ainda não se dera (e até podia fazer cair o Governo! ou obrigar à retirada de todas as leis em prepraração sobre aquelas matérias, em França aconteceu! ) não sabem destas brincadeiras do PREC, não têm memória, obcecados como estão no PREC deles, que é o que faz "vender papel" e dá espectáculo à plebe, que faz as audiências.. Mas não podem os queridos colegas obrigar um Primeiro-Ministro, que se respeita, a FALAR NO AR, antes de uma manifestação. Por "respeito" aos próprios manifestantes! Ou já chegámos à Madeira?.
E já agora: estranhei a falta de interesse dos mesmos repórteres em relação às caravanas de autocarros, que trouxeram os manifestantes, e que por volta das 19 horas ocupavam toda a 24 de Julho, do Cais Sodré até Santos, a recolher os trabalhadores, cansados de tanto andar.. Não, não sou contra os sindicatos nem contra as autarquias, que poderão ter pago a deslocação a Lisboa de tantos militantes encartados, delegados sindicais com horas pagas. Pois se é legal! O meu problema é mais uma vez com "as brumas da memória, ó Pátria...". Um discurso de Salazar no Verão de 63, ou 64, a dizer que era tempo de dar a palavra ao Povo sobre a política do Governo na defesa da Pátria multissecular e multicontinental (leia-se "na guerra colonial"). Palavra de honra: era muito jovem mas lembro-me perfeitamente. Foi grande a emoção. Iria fazer um referendo? Com os cadernos eleitorais que o Governo manipulava? Com contagens de votos aldrabadas, como acontecera nas eleições do Humberto Delgado, e foi documentalmente provado muitos anos depois pela jornalista Vera Lagoa?
Referendo? Cadernos eleitorais? Contagem de votos? Que ingénuo eu era! Aquele "grande português" tinha na manga: dias depois fez-se uma manifestação nacional no Terreiro do Paço, com autocarros vindos de todas as vilas e aldeias, viagens pagas a todos quantos quisessem "vir ver Lisboa"... Foi um sucesso! E valha a verdade, testemunhei os dois acontecimentos, havia mais gente na manifestação de apoio à política ultramarina no Verão de 64 do que ontem na manifestação a exigir a demissão do Primeiro-Ministro e do Ministro das Finanças (não, isso é o Alberto João!, a CGTP ainda está na fase da "a luta continua...", "o Governo para a rua" vem a caminho. Em muitos autocarros alugados.


José Teles

Ó Pinho, avisa o Teixeira dos Santos!

Atenção, atenção!
Lancem-se os foguetes!

"A crise acabou"
"Já não se fala em recessão e em crescimento zero"

Manuel Pinho, hoje em Aveiro


Avisem depressa o Teixeira dos Santos que se calhar ainda vai a tempo de impedir o congelamento dos salários...

Um receio que parece justificado

"EU QUERO É AQUI MUITA GENTE, QUERO LÁ SABER DO SALÁRIO"
«O autarca de Pitões das Júnias, junto ao Gerês, abdica do ordenado para atrair pessoas a uma aldeia com pouco mais de 230 habitantes. Já ajudou a financiar a construção de uma igreja e de um forno. Agora, vai suportar os custos de um roteiro turístico. António Ferreirinha diz-se feliz por ver a terra saltar as serras. Só receia que o povo não o deixe abandonar o cargo.
Nuno Amaral e Paulo Pimenta (fotos), no Local Porto do Público.

Incontinência Verbal

Avisa-me a minha provecta experiência de vida para não me incomodar com aquilo que posso evitar. Com uma vida tão cheia, nos dias que passam, não tenho espaço para desafios gratuitos ou retórica fútil. A competitividade no trabalho, a gestão dos conflitos inerentes, a família e os meus hobbies, o serviço cívico e tantos outros projectos e afazeres impelem-me a uma racional poupança de energias e emoções. Digo isto a respeito do Crime que Rui Castro postou aqui ao lado nos Incontinentes Verbais. Concordando com a afirmação inicial, acabei a ler o que não queria...
Definitivamente, não ler a Margarida Rebelo Pinto ou o Paulo Coelho, está nas minhas mãos, assim como não sintonizar a TSF para além do desporto, evitar ouvir as impertinências do José Veiga ou não ler determinadas insolentes colunas de opinião, está (quase) sempre nas minhas mãos. Seja na blogosfera, na imprensa tradicional, rádio ou televisão, eu evito chatices inúteis. Coração que não vê, coração que não sente: nunca me irritei com o Big Brother, ou a Luísa Castelo Branco porque simplesmente não os vejo.
Nesse sentido caro Rui, chateei-me hoje na leitura da sua posta. Eu até tenho o gosto pelo saber universal, e considero-me intrínseca e filosoficamente um democrata. Jamais recusei, por exemplo, a leitura de Nietzsche, devorei o Crime do Padre Amaro e admirei Jean Paul Sartre. Estou atento ao movimento das ideias do meu século. Até experimentei estoicamente o José Saramago. Só assim, parece-me, posso construir um pensamento evoluído, uma canseira de ambição, que apesar das minhas limitações jamais desistirei. Mas, para isso caro Rui, parece-me do elementar bom senso, evitar a perda de energias com a espuma dos dias, gastando energias e atribuindo valor ao histerismo militante e ao terrorismo verbal.

PS - Todas as regras têm excepção, e neste caso desportivamente concedo, lendo qualquer colega corta-fiteiro mais irreverente, numa sexta feira de particular sarcasmo anti clerical!

Antes que alguém se antecipe

















Monica Bellucci
Porque hoje é sexta

Porque é tão difícil fazer reformas?

Porque é que os funcionários públicos resistem tanto às reformas? Porque é que os portugueses protestam tanto mesmo quando percebem no íntimo que as coisas não podem continuar tal como estão? Porque sabem que, para alguns, o sacrífício da mudança não lhes atinge a vida.

"O passado português caracteriza-se por os poderes políticos, sociais e económicos terem sempre estado nas mãos de uma minoria intimamente dependente do Estado e proporcionalmente mais reduzida que na maioria dos países europeus."


"Se tudo era resolvido por uma pequena minoria que foi sempre aperfeiçoando a sua habilidade para garantir a perpetuação do poder, para quê o esforço, a poupança, a organização, o projecto, a associação, a luta?"

José Mattoso in A Identidade Nacional, da colecção Cadernos Democráticos da Fundação Mário Soares

Valha-nos Nosso Senhor!

Ignoro se - caso Cristo regressasse à Terra e mais exactamente a Fátima - expulsaria os vendilhões das «35 lojas com oferta exclusiva e diversificada» que integrarão o Espaço Temático Vida de Cristo, hoje publicitado no DN ironicamente mesmo ao lado da crónica da Fernanda Câncio «E Cristo, não decidiu morrer?».
Mas, isso tenho a certeza, Nosso Senhor torceria o nariz ao projecto arquitectónico desta monstruosidade «de grande imponência, moderno e funcional» no qual foram investidos 10 milhões de euros (não sei quanto dá isto em velas, mas suponho que bastantes). «O espaço é único no mundo», publicitam eles. Lendo e vendo o que propõem, percebe-se bem porquê.
Actualização: O Público tem hoje um artigo intitulado «Bispo pede requalificação urbana de Fátima», a qual diz ser «uma montra do País (...) é mesmo do ponto de vista económico um chamariz, uma mola». O empreendimento Vida de Cristo não é mencionado.

Tenho aqui uma dúvida

Assim como tenho toda a admiração por Muhammad Yunus e pelo trabalho do seu Grameen Bank. Mas este não devia ter sido o Prémio Nobel da Economia ou coisa assim? Para mim, era claro que o Nobel da Paz ia para o Daniel.

Who watches the watchmen?

A todos e todas aquelas que compraram o Público e têm, pois, nas suas mãos a revista Dia D: Já olharam bem para a fotografia de abertura do artigo sobre o Tribunal de Contas? A minha pergunta é esta: Quanto acham que custou a mesa de reuniões?

Assumir a treta

Os críticos do DN juntaram-se para assinar uma coluna: Eurico de Barros, João Lopes, Nuno Carvalho, Pedro Mexia e Nuno Galopim questionam o facto de não ter sido efectuado o habitual visionamento à comunicação social pelos responsáveis do filme, algo que é «há quase trinta anos, um facto de rotina no mercado».
Ora, eu entendo bem o porquê do sucedido. «Filme da Treta» não é uma peça cinematográfica, é um objecto de entretenimento apenas, que se limita a aplicar a lógica da bem sucedida peça de teatro ao grande ecrã. Não fui ver (e também não vou porque não suporto a Cofidis) mas estou tão certo disso como a Terra ser achatada nos pólos, sem nunca lá ter ido.
Críticas que houvesse, só podiam ser severas e dentro de um registo que não interessava aos distribuidores e outros envolvidos. Fugiram com o rabo à seringa? Ah, pois fugiram! Mas a atitude tem o seu quê de saudável. Demarca as águas entre o que é Cinema e o que não é. Neste caso, nem estou certo de ter pretensões a ser. É apenas «uma treta» assumida. E dar importância às «tretas» não é nada a que eu esteja habituado pelos críticos que agora assinam este protesto.
Meus senhores, o que vocês deviam era agradecer. Alguém vos poupou horas preciosas da vossa vida. E, já que querem (?) saber, às dos vossos leitores também.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Inés

Ela, outra vez: Inés Sastre. Sexta-feira está à porta.

Impressões musicais (8)

Há mais de um ano, numa das minhas solitárias viagens de trabalho, fui surpreendido pelo rádio do carro com esta cantiga que me arrebatou: Closest Thing To Crazy. O locutor não referiu o nome, e passei meses até identificar a sua deliciosa voz. Trata-se de Katie Malua, uma miúda de 22 anos nascida em Tblissi na Geórgia e que cresceu na Irlanda do Norte - onde deveriam crescer todos os cantores populares. Com uma figura igual à sua voz, frágil e doce, com as suas cantigas e versos de encantar lançou agora seu segundo álbum de originais. Ouvidos e corações atentos, pois são “estas coisas que a gente leva desta vida”!

PS: Depois de Closest Thing To Crazy oiçam esta interpretação de Moon River. E já que estão de pé, porque não ouvir Spider's Web ?

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Grandes contos (6): Rubem Fonseca

Lirismo? Qual lirismo? Rubem Fonseca escreve sobre o lado escuro da vida, sobre o lado negro do mundo. As suas personagens são duras. E feias. E sujas. Portam-se mal. Batem, ferem, agridem. Matam.
Enquanto uns cantam loas à lua, ele vislumbra a face lunar do quotidiano. E transfigura-a de forma admirável nas suas narrativas, virando todas as convenções do avesso - a começar pelas convenções literárias, transportando para as suas páginas de ficção a linguagem crua das ruas, dos morros, dos becos, das vielas. A Copacabana dele não é a "princezinha do mar" de que nos fala o samba-canção. A Avenida Paulista dele não tem néons faiscantes: tem vultos voláteis, agindo na sombra à revelia de todos os códigos e leis. Como assinalou António Alçada Baptista, que o apresentou ao distraído público português, a literatura dele "mergulha totalmente no perímetro da grande cidade e não é possível analisá-la sem ter presente a dimensão, o peso e a respiração do espaço urbano e da sua capacidade de segregação miasmática".
Este filho de transmontanos, que passou toda a vida em demanda das raízes ancestrais, introduziu na prosa brasileira, até então mergulhada em arcaísmos de toda a espécie ou viciada num exotismo de bilhete-postal, a vibração das grandes metrópoles, com a sua trepidação febril, os seus sons dissonantes e os seus equívocos morais. Características que estão patentes em romances admiráveis, como Agosto ou Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos. Mas são ainda mais nítidas na sua vasta galeria de contos, claramente influenciados pelos mestres do minimalismo americano e pelo filme negro, povoado de anti-heróis.
Um desses contos, obra-prima de contundência temática e concisão estilística, é Passeio Nocturno - aliás desdobrado em duas histórias que se complementam como faces de uma só moeda. Histórias que ilustram bem a "socialização da esquizofrenia" contemporânea a que Alçada Baptista aludia no prefácio ao livro Feliz Ano Novo (1975), onde foram originalmente publicadas antes de saltarem para várias antologias dos melhores textos de ficção brasileira.
Tudo começa como a mais banal das rotinas: "Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos". Mas cedo desemboca numa impiedosa violência, com um determinismo trágico. O autor sabe bem do que fala: a sua experiência como delegado de polícia ensinou-o a não ter ilusões sobre a natureza humana. E a ser um adversário implacável da retórica: nos seus textos não há um vocábulo a mais. Como diz uma das suas personagens, invertendo o cliché, "uma palavra vale mil fotografias".
Com Rubem Fonseca percebemos que o país do carnaval, do samba e do futebol também segrega monstros, aliás comuns a todas as latitudes. E não é um mundo longínquo: está à distância de uma simples porta de rua. Pode ser até um mundo que começa entre as quatro paredes de qualquer lar.

Geração (muito) vinil


"Tous les garçons et les filles" - Françoise Hardy

A Carangueja e a Filha


Madre Cangreja um dia,
Dizia à filha sua:«Que andar, meu Deus, é esse?
Por que não vais a direito?».
«Oh, mãe, vós como ides?
Andarei eu dif'rente
Que anda a nossa família?
Querer que eu ande direita
Quando andam todos tortos!...»


Senhor de La Fontaine, em tradução de Filinto Elísio

Ai, ai, vai-lhes cair em cima o Eduardo!

José Rodrigues dos Santos, Telejornal, RTP1: «Por dificuldades técnicas não podemos mostrar agora imagens da manifestação, mas temos declarações de José Sócrates». Bestial. Ena pá! Upa, upa! Seguem-se intermináveis minutos com blá, blá, blá de Sócrates. Logo a seguir, enquanto as dificuldades não ficam resolvidas, JRS desanca Carvalho da Silva, afónico e pouco inspirado para se defender. Mudo de canal.
Na SIC, não há dificuldades técnicas. Há, isso sim, imagens de «Sócrates a fugir dos jornalistas» evitando comentar a manifestação. Já não voltei à RTP. Mais destas, e mando o Telejornal às couves. Ao jantar, tenho o estômago sensível.

Blogues em revista

Blasfémias: “Se há tique nacional que me desgosta é o que consiste em amaciar até ao absurdo a avaliação de um defunto. Ainda que, quando este ainda bulia, quase todos fossem unânimes na esperança do seu desaparecimento.” (Carlos Abreu Amorim)

Bandeira ao Vento: “Não fora a Igreja e o Latim estaria morto; não fora o Direito e seria interessante.” (José Bandeira)

Portugal dos Pequeninos: “Pior do que do que um comunista que o foi até aos idos de oitenta, é um ex-comunista da "esquerda moderna" em 2006. Irreformáveis, um e o outro.” (João Gonçalves)

O Insurgente: “Um casal queniano foi condenado a 18 meses de prisão por fazer amor numa mesquita. Não se percebe. Fazer amor numa mesquita é muito melhor do que fazer bombas numa mesquita.” (LAM)

O romance é um fio de histórias

Gosto de Ohran Pamuk, pelo menos do único livro que li dele, Jardins da Memória, melancólica deambulação por uma Istambul antiga e secreta; um livro sobre o passado, sobre aquilo que está para além dos cenários que tentamos construir em torno das nossas vidas; um texto sobre o que desaparece e as verdades que escondemos.
O escritor turco fabrica uma tapeçaria de pequenas histórias e todo o conjunto ganha um esplendor próprio, quando visto sob certa luz. Este é um livro repleto de mistérios, que o autor vai revelando devagar, criando uma atmosfera onde se cruzam inúmeras vidas e personagens apenas pinceladas.
Percebi melhor a arte de Pamuk ao deparar com uma pequeníssima história no interior do romance, contada em três ou quatro linhas: a de um esquadrão de cavalaria forçado pelo racionamento do tempo da Segunda Guerra Mundial a obedecer às ordens de levar os seus cavalos até ao matadouro; a cena é contada com base no espanto dos cavalos, traídos pelos seus (camaradas? cavaleiros?). O livro está recheado de momentos assim, feitos de força e poesia.
Pamuk é um escritor político (mas há escritores que não o sejam e que valha a pena ler?). É um crítico dos rigores da república secular e combateu a ditadura. Este Prémio Nobel simboliza o aparecimento de uma nova Turquia, país que ainda não resolveu completamente as suas contradições pós-imperiais.
Servirá igualmente para estimular o debate sobre a Turquia e as fronteiras da Europa. O escritor turco mostra que Istambul é uma grande cidade europeia. Com Ancara (a capital, onde vive o resto da elite do país) a mágica metrópole soma mais de um quinto da população turca. Excluir este país da UE será um erro histórico e beneficiará aqueles que têm da Europa a visão estreita de potências à moda antiga, capazes de rivalizar com os Estados Unidos ou China.

A luta continua

Democraticamente, a esta hora o “povo trabalhador” do costume bloqueia a cidade de Lisboa. Desta forma, a sua acção faz mesmo diferença.

It's an injustice, it is

Orhan Pamuk bem pode até ser uma jóia de pessoa - foi a julgamento e tudo, o que é sempre uma chatice - mas o Nobel devia ter sido concedido a Philip Roth. «O Complexo de Portnoy» sózinho já bastava para justificá-lo e este «A Conspiração Contra a América» foi mais uma entre várias confirmações. But, you know, it's politics stupid.

Ladainhas

Algumas vezes vou parar a festas um bocado excêntricas, daquelas que reúnem astrólogas e figuras andróginas - como o apelidado Senhor Conde Castelo Branco mas não é de longe o único - a outras não menos fora de série como o Barão von Breisky (ex-Elsa Raposeiro) ou autoras de best-sellers.
Devo dizer que, na maior parte das vezes, as conversas que ouço são inócuas, fúteis e cheias de polidos subentendidos, mas por aí se ficam. Outras vezes, surpreendo-me com as «socialites» figuras das nossas capas de revista a empregar termos mais dignos de um carroceiro (hoje dir-se-ia motorista de táxi, mas seria injusto). A propósito de uma destas últimas experiências, recordei o princípio de uma ladainha que quero partilhar convosco e reza assim:
«Porra! Exclamou a Marquesa, batendo com as tetas na mesa. Mas, lembrando a esmerada educação que tivera na Suiça, trocou o porra por chiça». Palavra em desuso, «chiça» era também o início de outra: «Chiça penico chapéu de coco, botas cagadas, barriga aos quadradinhos, luvas de boxe...». Quem souber o resto, agradeço que me complete a memória. Dá sempre jeito, em algumas alturas.

José Sócrates

Do que ri este senhor???
(Janeiro 2006)
Foto: Leonardo Negrão

A propósito do disaine

Miss Pearls escreveu aqui um texto sobre o disaine da sinalética das casas de banho que é uma pérola e me fez lembrar uma história verídica. Estava eu num país de leste e tinha bebido cerveja (tão bem disposto, limitava-me a afiar os meus bigodes, enquanto observava as pessoas que passavam na praça) quando senti uma repentina urgência de aliviar a bexiga. Nas proximidades, havia um café elegante, novinho em folha, e dirigi-me para lá. Tinha umas casas de banho ao fundo e aqui começa verdadeiramente a tal história verídica.
Naquele país de leste as respectivas palavras para mulheres e homens são Nök e Ferfiak. Quem pensar alguns segundos sobre tais sonoridades esdrúxulas, perceberá que Nök é mais rotundo, grácil, mas também mais subtil, expressão mansa e hábil, composta por fortes elementos de artifício, desembaraço e talento; até (porque não dizer?) de uma elegância meiga. Em resumo, é uma palavra feminina. Já Ferfiak induz sugestões de brusquidão e dureza, sendo uma palavra (como dizer?) algo rude e tosca, finamente bravia, plena de autoridade. Enfim, masculina.
O pior é chegar a estas conclusões numa aflição. Analisei aquilo, analisei de novo, e nada. O meu dicionário mental estava paralisado.
Restava-me recorrer ao disaine: e tínhamos numa porta o que me pareceu ser uma camponesa estilizada, já que havia uma sombra do que lembrava um saiote ou vários saiotes, um peito algo proeminente (mas isso podia ser extremo orgulho) e uma cabeça que poderia considerar-se ter cabeleira (mas podia ser chapéu). Na outra porta, o que me convenci ser o boneco estilizado de um cavalheiro (ou de um camponês), pois que havia talvez bigodes parecidos com os meus e a figurinha calçaria eventualmente botas. Foi o que me pareceu, embora já não visse nada à frente, enquanto pensava em barragens que se arruinavam e em ondas do Havai, inundações e tsunamis.
Concluí, naquele momento difícil, que os disaines não cumpriam as normas da união europeia, cujos regulamentos são felizmente taxativos sobre coisas destas.
Sem aguentar mais, irrompi numa das duas opções e escolhi (erradamente) a palavra Nök. Fui saudado por um coro de gritos de horror, claramente femininos, e bati em retirada. Só que, entretanto, uma agente da autoridade tinha reparado e, severamente, esperava-me no retorno. Não foi preciso que ela dissesse alguma coisa. Olhou-me e ordenou-me que a acompanhasse até à esquadra, dando-me voz de prisão na tal língua esdrúxula (não percebi uma palavra, mas compreendi tudo).
As coisas agravaram-se na esquadra, porque o sargento era demasiado lento a escrever o auto da ocorrência. O tipo devia ser meio analfabeto ou queria fazer um documento sem mácula ou a língua é mesmo difícil. A lentidão era exasperante. E eu só imaginava torneiras com válvulas avariadas, deixando correr o precioso líquido.
Felizmente, sobre a mesa estava um pequeno dicionário Esperanto-Inglês. Acontece que o lerdo sargento era um esperantista. É uma língua que eu também não falo, mas o meu desespero atingira o paroxismo, aquele limiar em que começamos a falar qualquer língua. Consegui fazer-me entender. "Ah! Quer ir à casa de banho", respondeu o sargento, num esperanto totalmente compreensível, tão boa pronúncia tinha. E apontou-me um longo corredor. Nestas coisas, ou a casa de banho é longe ou saímos tarde. Felizmente, era perto ou eu ainda tinha saído a tempo. Havia duas portas. Numa delas, via-se o disaine nitidamente de um polícia com cassetete; na outra porta, estava o que parecia ser o exacto disaine de um polícia com cassetete...

Mais António Gedeão

Pegando na posta do Pedro Correia aqui em baixo sobre o centenário de António Gedeão, não resisto à tentação de lincar aqui dois dos seus poemas que mais me marcaram. Poema da malta das naus e Lágrima de preta. Concedam-se o privilégio de os ler!

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Upstairs, downstairs

Depois de algum tempo a frequentar os mesmos sítios, não só acabamos por conhecer as pessoas, como as tratamos pelo nome e ganhamos alguma familiaridade. Falo de cafés, restaurante, pastelarias, onde costumamos ir todos os dias. Suponho que não seja só porque nos dê jeito, mas porque somos bem tratados. Como são as pessoas que lá trabalham fora daquele ambiente, pouco ou nada sabemos e certamente que não nasceram com a bata, o uniforme, o avental, a touca ou com o cabelo apanhado.
A que propósito é que esta missqualquercoisa está a escrever isto, poderão pensar (e bem) os leitores do Corta-Fitas, uma manienta, para o que lhes havia de dar a estes tipos, ainda se lixam. Eu explico. Acabo de me cruzar com a simpática Dona Clementina da pastelaria e se não fosse ela a cumprimentar-me, não a reconhecia. Pois em vez de uma Tina de touca e bata cor-de-rosa com folhos, eis que me cruzo com uma loiraça toda lançada, calções pelo joelho, bota alta, e top só com uma alça, acompanhada pelos filhos e marido. Lá balbuciei uma desculpa deslavada, mas o mal estava feito. Amanhã, a culpa vai toda para as lentes ou melhor, para a falta delas. Uma mentira piedosa.
Na vida para além dos uniformes, fico desconcertada a pensar se a atenciosa Conceição da padaria será uma ousada praticante de hip-hop, se o cicunspecto Sr. Tobias assim que sai do talho se transforma num cantor de fado vadio, ou se a Etelvina da lavandaria se converte numa atrevida domadora de leões e quem sabe se o minucioso Sr. Jorge da casa de ferragens se transfigura num feroz adepto do tuning.
Pensando bem, esta coisa das batas, uniformes, toucas e aventais, é todo um programa.
(Caros leitores, isto é só um post. Não é a vida de ninguém, muito menos a minha. É uma ficção fraquinha, mas não passa de mera ficção.)

No centenário de António Gedeão (1906-2006)

Poema numa esquina de Paris

Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:

DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RESISTANCE.
VIVE LA FRANCE.

(António Gedeão, in Linhas de Força, 1967)

Foto: Robert Doisneau

E porque todos os dias são (bons) dias

para o Matthew Fox

Post limpinho

Lá vai o tempo em que a sinalética das casas de banho era fácil de interpretar: um menino ou uma menina, um Humphrey Bogart ou uma Lauren Bacall, o Pato Donald ou a Margarida, e não havia nada que enganar. Nos últimos tempos, tenho reparado que essa simbologia está cada vez mais difusa, andrógina, estilizada e incompreensível. Dito de outra forma, corre-se sempre o risco de entrar em contramão.
Geralmente são coisas de disaine moderno, em restaurantes ou bares estilo modernaço, onde as torneiras têm formatos estranhos e em que o sabonete está em caixas que só mesmo à pancada, sem sabermos onde carregar.
Suponho que esta estética obedeça a práticas ecológicas, tipo poupança de água e assim. Não sei bem. E que o sabonete líquido seja de facto mais higiénico. Mas por vezes fico a olhar para a torneira: carrego, não carrego, onde carrego? Algum botão de lado? Algum dispositivo para carregar com os pés? Sopro para a torneira? Canto? Insulto-a? Chamo alguém?
Já percebi que muitas dessas coisas funcionam à base de sensores para água e luz, mas nem sempre da forma mais eficaz. Há verdadeiros casos de tortura de Tântalo: quando a mão se aproxima não sai água e quando se retira a mão, desata a jorrar. Uma coisa do Além, valha-me Deus.
Será que só acontece comigo? Não??? Esteja à vontade que ninguém ouve.
E isto sem falar naquelas desgraçadas banheiras dos hotéis que parecem querer massajar-nos até aos ossos, cheias de esguichos, jactos e ebulições….
Mas isso fica para outro post: reparo que o temporizador da luz está já a dar sinal de desligar…

D. Camilo

Parece uma provocaçãozinha mas não é. Sou honesto: D. Camilo e o seu Pequeno Mundo, pelo fabuloso humorista, jornalista, romancista e militante democrata cristão italiano Giovanni Guareschi (1908-1968), é certamente um dos livros da minha vida. Por volta dos meus 11 ou 12 anos, fruto de uma educação conservadora, tive o inaudito privilégio de ler e rir "a bandeiras despregadas" com o primeiro volume desta pequena série, as aventuras e desventuras de um desenvolto pároco de aldeia e do dirigente comunista local, o D. Peppone, na Itália do pós-guerra.
Hoje não sei que apreciação e emoções a leitura deste livro (ainda há à venda?) desencadearia em mim. Se calhar até seria uma desilusão, mas que o irreverente Padre e o seu opositor Peppone convivem comigo na galeria dos meus heróis eternos, não tenho dúvida.

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Super Mourinho e os astros

A imagem incompreensível aqui ao lado é a carta astral de José Mourinho. E o que tem o horóscopo de Mourinho de tão especial? Epá, ele é um Super-Saturno! O que isto quer dizer é melhor explicado pelo texto abaixo, que recebi do João Medeiros:

«O que tem José Mourinho de fora do comum, segundo a linguagem da Astrologia ? Simplesmente, um Super-Saturno. Senão, vejamos:
1. Ascendente: Capricórnio. O que em linguagem de gente quer dizer, uma orientação (=Ascendente) de ambição e realização material (=Capricórnio). Mas cerca de 8% da população mundial tem Ascendente Capricórnio, certo? Então, tem que haver mais qualquer coisa.
2. Sol e Lua: em Aquário. O que quer dizer que os principais motores da vida (Sol e Lua) funcionam através da capacidade mental e do poder grupal (Aquário). Isto, já é mais raro, ter nascido com uma Lua nova em Aquário. Os Aquários têm fama de serem frios, imperturbáveis na sua concentração, e de gostarem de ambientes de grupo.
3. Saturno (regente de todos os anteriores): em Aquário. Chamado signo do seu Domicílio tradicional e Triplicidade - não podia estar mais forte no Zodíaco !
Mas haverá algo que o distinga ainda mais das outras pessoas que nasceram no mesmo dia? Sim.
4. Sol, Lua e Saturno: estão todos na casa 1. A casa mais expressiva do horóscopo, a casa do Special One, a casa do EU. Ou seja, uma casa de enorme auto-suficiência: eu dependo de mim.
5. E ainda uma configuração raríssima de Júpiter, Vénus e Marte a acrescentar espírito de competição, magnetismo e a sorte grande !
Saturno é o planeta que representa a matéria, a sociedade, os limites que viemos ultrapassar nesta vida.Se cada um viver o seu Saturno no seu melhor, se superar os seus medos e se tornar experiente naquilo que é mais importante e difícil, chegará ao topo.Aí Saturno será poder, confiança, coesão, disciplina, resultados constantes.
José Mourinho soube estruturar os os planetas mais directamente ligados ao seu Saturno (a Lua, emoções e Marte, a guerra) dominando ambos. Eles são os regentes respectivos da casa 7 (inimigos/relações) e da casa 10 (carreira), à mercê da casa 1 (o Eu)».

Descubra as diferenças



Fotografia de autor desconhecido.

O Sabor do maradona (ou a Quercus explicada às crianças)

Que se seja realista: ninguém quer saber da puta da águia-de-bonelli. Em t0da a minha vida devo ter conhecido 3 pessoas que se preocupavam com a águia-de-bonelli. O JCD e o João Miranda não querem saber da águia-de-bonelli, mas eu também não quero saber do John Stuart Mill. Felizmente para eles, não se pode afogar o John Stuart Mill numa barragem, mas as águias-de-bonelli têm imensas dificuldades em boiar.

A batalha do bom senso

O DN ignorou olimpicamente a audição de ontem na Assembleia sobre o novo Estatuto dos Jornalistas, preferindo o negócio do You Tube. Já o Público remeteu a sua compra pelo Google para as páginas de Economia e dedicou à audição o merecido destaque, embora ilustre a legenda «O jornalismo vai ficar vedado aos não licenciados» com uma imagem de...fotógrafos (alguma mensagem subliminar qualquer?).
A questão das licenciaturas é, obviamente, uma falsa questão. Nunca foi a frequência de um curso universitário que separou um mau de um bom jornalista e, como alguém que por lá passou, posso assegurar que um curso de comunicação social prepara tanto alguém para o jornalismo "real" como para chefe de cozinha num restaurante vegetariano.
Já a questão dos direitos para os jornalistas é realmente importante. A utilização gratuita dos textos durante 30 dias pelas empresas (Artigo 7ºb, ponto 3) significa, na prática, que o jornalista não recebe nem mais um tostão pela reprodução das suas peças durante o tempo de vida útil das mesmas. Ou seja, aplica-se a lógica «Grupo Impala» a tudo e a todos. Alguém que escreva, vê os seus artigos publicados onde apetecer ao «Gestor de Conteúdos» e recebe o mesmo.
Finalmente, a quebra do sigilo profissional por ordem do tribunal em casos de «crime grave» (artigo 11º) precisa obviamente de clarificação sobre o que cabe neste saco, com consequências evidentes para a confiança das fontes na protecção das suas denúncias podendo transformar as gargantas fundas em afónicos.
Quanto às alterações pelos editores dos textos de jornalistas, a minha opinião divide-se. Defendo a alteração da forma (até porque a qualidade média dos textos tem nitidamente baixado) e de conteúdo apenas na necessidade de verificar o óbvio: Que as partes foram todas ouvidas, os números verificados, que as fontes anónimas realmente existem e etc). Quanto a interferências de ordem «política» - no sentido abrangente do termo - era o que faltava.
Esta discussão é importante. Muito importante mesmo. E ignorá-la um erro por parte dos jornais, rádios e televisões. O problema, já se sabe, é que o patronato quer uma coisa e os jornalistas outra. A ver vamos quem vence a batalha do bom senso. Seja como for, quem vai ganhar com isto são os advogados. Se ainda fosse jornalista, arranjava já um.

Actualização: Lidos agora dois excelentes posts do Helder Robalo sobre o assunto.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

Grandes contos (5): Joyce

Vivendo em Roma, saudoso da sua Irlanda natal, James Joyce escreveu em estado de graça um dos mais belos textos de ficção em língua inglesa: um longo conto, quase uma novela, intitulado O Morto. É a última história incluída no excelente livro Gente de Dublin (1914), polvilhado de retratos densos e dramáticos de pessoas de todas as idades e condições na nebulosa capital irlandesa do início do século XX, ainda sob domínio inglês. George Steiner, com toda a razão, chamou-lhe "mestre da modernidade urbana": há uma Dublin reinventada pela pena de Joyce, adquirindo vida própria, bigger than life. Uma Dublin cheia de contrastes sociais e de oscilações meteorológicas que reflectem o estado de alma dos seus torturados habitantes.
O Morto podia ser a simples história de um jantar redigida numa toada quase musical, alternadamente em ritmo de valsa ou de polca, com ocasionais sopros de ópera. Mas, à medida que os parágrafos se sucedem, torna-se muito mais que isso, destacando-se como uma metáfora da própria Irlanda - no preciso instante em que um mundo ruía e outro ganhava forma. Sem o saberem, quase todas as personagens em redor daquela mesa farta, entre brindes de vinho do Porto e de xerez, testemunhavam o irreversível desmoronar de uma era: algumas, como as duas velhas tias, já sentiam rondar a morte; outras, mais jovens, estavam emocionalmente exauridas. Gabriel Conroy, o protagonista, resume tudo numa frase: "A nossa passagem pela vida é sempre cheia de memórias tristes" (edição portuguesa da Vega, tradução de B. de Carvalho).
Em pouco mais de 40 páginas, este conto atinge a densidade de um romance de Balzac ou de Flaubert. Fala-nos do sentimento de perda, de memórias nostálgicas e da erosão do tempo fazendo-nos desfilar figuras de todos os matizes como num coro polifónico: estão lá o padre ortodoxo, o alcoólico frívolo, o músico arrogante, a jovem idealista, o professor estrangeirado. Nesta Dublin estranha, invadida pela neve, perpassa ainda a evocação de uma paixão atraiçoada pela morte num tempo em que "todos se transformavam em sombras". Em crescendo, como nos compassos de uma ode musical, o autor conduz-nos aos fulgurantes parágrafos finais que tornam a história verdadeiramente memorável. Joyce, ainda longe de ser o reconstrutor do idioma que seria no seu Ulisses, era já aqui um estilista consumado - mestre na arte dos diálogos e na construção de atmosferas sibilinas.
Poderia dizer-se também, muito simplesmente, que este é um conto que nos fala de um amor impossível. Concluindo ser "preferível passar para o outro mundo no apogeu de uma paixão do que envelhecer e morrer" entre espectros do passado. Só lendo saberemos porquê.
Começa em allegro, termina em adagio: O Morto é uma magnífica sinfonia em celebração da vida.

Foi você que pediu um inquérito?

Parece que uns deputados exigiram uma comissão de inquérito para investigar o caso do Envelope 9. Ora aí está. A Procuradoria falha, chamam-se os... deputados. Os prevaricadores devem estar a tremer de medo.

É agora! É agora que se vai descobrir toda a verdade! Todos os podres serão desvendados e os culpados desmascarados. Das cinzas da investigação parlamentar renascerá um Ministério Público novo! A Justiça será salva ! Será mais episódio épico da nossa democracia! Um qualquer estúdio de Hollywood fará um filme sobre o deputado que, sozinho, contra todos, entrega o parecer a tempo.

Esperem lá, acho que já se fez um filmezito sobre comissões de inquérito...

Sketch dos Gato Fedorento, Escândalo na Cantina do Parlamento

Asa direita

Chama-se O Futuro Presente e é mais um blogue que acaba de aparecer. O Pedro já aqui tinha feito referência, mas eu só agora fui espreitar. E li, por exemplo, um ensaio de Jaime Nogueira Pinto sobre a "Transição" (1968) de Salazar para Caetano. O ensaio, em duas partes, inclui uma análise com notas muito pessoais do autor e outra sobre os candidatos que na altura se perfilavam (Franco Nogueira, Adriano Moreira, etc).
No blogue estão, para além de JNP, Miguel Freitas da Costa e António Marques Bessa. Aí está a blogosfera nacional a abrir cada vez mais o leque de ofertas.
No outro dia ouvi o dr. Jorge Sampaio dizer que estima que existam em Portugal cerca de 200 mil blogues, o que o ex-Presidente considera "pouco para dez milhões de habitantes". E acrescentava que "poucos deles são sobre aquilo a que chamamos política". Acha mesmo?

De facto, assim de repente não me ocorre

Há alguma coisa que o comum português aprecie mais num político do que a vontade de enfrentar Alberto João Jardim?

Nas colunas

Um arménio. Um senhor. Um grande cantor. Senhoras e senhores, façam o favor de aplaudir Shahnour Varenagh Aznavourian, para nós Charles. Logo à noite, ao serão, «Tirez sur le Pianiste».

Uma voz-off ao espelho

Os anos 80 deram-nos o Herman. O século XXI ofereceu-nos os Gato Fedorento. Só os Gato Fedorento? Não. Numa estação televisiva, generalista, desponta mais um revolucionário momento de humor em português. É a voz-off da SIC. Há dias tropecei nos últimos segundos da novela Jura. Acabada a novela, entra em acção a voz-off. Faz o resumo das traições, apalpões e empurrões do episódio e remata desta forma: "Agora acho que me vou olhar para o espelho. E acho que me vou despir..." À cabeça veio-me a imagem de um português de meia-idade, de óculos, careca, de bigode, a galar-se à frente do espelho. A minha mulher ficou chateada comigo porque as gargalhadas acordaram a nossa filha e os dois cães do vizinho de baixo...

A vingança dos totós

Esta dupla de sorridentes nerds acabou de fechar um negócio de 1,65 mil milhões de dólares, graças à ideia levezinha de pôr a malta a partilhar vídeos domésticos e outros na internet. Os totós estão felizes e têm razões para isso.
Eu, digo já para não me acusarem de invejoso, também estou feliz por eles. Dá gosto saber que, afinal, um cérebro criativo (ou neste caso dois) sempre compensa o seu possuidor de todos os enxovalhos que sofreu quando andava no liceu. Vamos a ver é se o Google não estraga o You Tube, agora que o comprou. Era o que faltava.

Cusquice

Pois só ontem é que soube que a Ana Drago, tão enaltecida aqui pelos nossos anonymous , vive com o Nuno Ramos de Almeida...(Isto hoje o meu lado feminino tomou mesmo conta da loja...)

Benvenutta

Beijo as suas mãos, Miss Pearls. É um privilégio e uma honra tê-la por cá.

10 coisas boas

1. Uma caixinha com sortidos da La Maison du Chocolat.
2. Foie Gras com trufas alentejanas mas confeccionado com elas frescas.
3. O chá Eros da Mariage Frères bebido à lareira em boa companhia.
4. Um Pernod Ricard ao fim da tarde no porto de Marselha.
5. Uma viagem sem pressa e com bom vento a bordo de um Wauquiez.
6. Uma peçazinha da Colecção Fred Feinsilber licitada na Sotheby's de Amesterdão.
7. Um fato tailor made em Savile Row igual a um que já tive em tempos melhores.
8. Beijos ao acordar.
9. Um Dupont simples simples daqueles em ouro e laca da China.
10. Um café na esplanada da Graça e depois uma caminhada para comprar vinil na Feira da Ladra, Sábado logo pela manhã.

Old Brown Shoes



Isto não são só as mulheres em geral ou a f., a nossa miss pearls e a bomba inteligente em particular. Eu também gosto muito de sapatos. E então do género destes que se encontram aqui, oh la la! (É o meu lado vintage, sei lá).

Quase, quase Outono

Altura perfeita para (finalmente) me inscrever no Kite Surf. Se deixarem de me ler aqui, saibam que dei à costa canadiana que isto não é preciso muito para me fazer voar, basta uma brisazinha. Que se lixe. Como dizia o jovem: «Ser radical é extrapolear nos limites». Vai ser uma cena bué da cool, méne!
Na imagem, Arnaud Van Der Dussen (Biff) em foto retirada daqui.

Les bons esprits...

Este meu inteligente amigo de esquerda dá-se muito bem na blogocoisa com este meu inteligente amigo de direita. Em breve, espero apresentá-los um ao outro. Quanto a vós, visitai-os a ambos que bem o merece a sua respectiva prosa.

Sildávia e Bordúria

Que é feito da Sildávia e da Bordúria, perguntarão os leitores do Corta-Fitas, que costumam estar tão interessados em assuntos internacionais.
Recapitulemos: a Sildávia, reino centro-europeu de onde foi enviado o primeiro voo tripulado até à Lua, é hoje uma próspera república e futuro membro da União Europeia. O rei Ottokar IV foi deposto num golpe militar que (diz-se) teve influência bordura, mas a democracia regressou depressa, o que permitiu negociações frutuosas com Bruxelas e um rápido processo de adesão comunitária. A Sildávia é uma democracia parlamentar com taxas de crescimento económico a rondar os 6%. O seu rendimento per capita ultrapassou recentemente o português. Klow, a capital, tem meio milhão de habitantes e forte sector turístico, baseado na rica gastronomia. Tem atraído deslocalizações industriais do Vale do Ave.
Durante anos de isolamento, a Bordúria viveu um largo período da ditadura de Plekszy-Gladz e só recentemente alcançou a democracia, na chamada revolução azul-da-prússia. A sua selecção nacional quase conseguiu o apuramento para o mundial de futebol, tendo sido eliminada no play-off pela equipa sul-americana de San Theodoros.
Ao contrário do que se temia, Sildávia e Bordúria nunca chegaram a entrar em guerra uma com a outra.
Bem, isto é o pouco que sei sobre o assunto. Será que os leitores têm mais informações?

Oportunidade de ouro

A iniciativa do Correio da Manhã de pôr Jorge Sampaio a fechar a edição de sexta-feira do jornal é de assinalar. Com as devidas distâncias em relação ao que aconteceu em Inglaterra com o The Independent, onde Bono e Giorgio Armani estrearam o género, por cá a tarefa de Sampaio merece atenção por mais do que um motivo: 1) Para ver se pega, até porque João Marcelino já defendeu que a ideia é para continuar porque, segundo o próprio, o jornal "recebe muito da sociedade e é altura de devolver alguma coisa"; 2) Porque o ex-Presidente da República fez, há uma semana, uma conferência no Algarve onde defendeu reformas no Parlamento e na política que por cá se faz, logo veremos o que escreve no "editorial", se é que o irá escrever; 3) O jornal e o antigo PR estarão a trabalhar na divulgação de um relatório sobre a tuberculose em Portugal, o que se prevê assustador (o País é o que é); 4) Ao longo dos anos, Sampaio lançou algumas críticas e puxões de orelhas mais ou menos disfarçados à comunicação social, pois veremos como se porta "do outro lado". Deste.

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Portas e o regresso à equidistância

Vi e ouvi ontem Marcelo Rebelo de Sousa defender na RTP1 três teses sobre o regresso da dupla Paulo Portas-Luís Nobre Guedes à luta pelo controle do CDS/PP e confesso que a última é a que faz mais sentido, embora com nuances muito interessantes de seguir. A última tese de Marcelo, se bem entendi, é a de que Portas (ou Guedes) quer voltar o mais próximo possível das eleições de 2009 com um discurso que o possa pôr em condições de ser Governo com o PS, caso este partido não consiga atingir uma segunda maioria absoluta com José Sócrates.
A verdade é que a tese pode ter surpreendido muitos, mas não é totalmente descabida. É por isso que Portas esteve calado no último debate mensal com o primeiro-ministro, numa altura em que seria de esperar que a sua voz se fizesse ouvir, dentro ou fora do plenário contra uma reforma da Segurança Social num sentido contrário àquele que defendeu (se bem que ainda ensaiou uma Lei de Bases) nos últimos anos. Não era ele o grande defensor da equiparação prograssiva das pensões mínimas ao salário mínimo? Não era ele o grande paladino da introdução de um sistema misto? Muito antes do PSD sonhar, sequer, com o assunto? Portas esteve calado, como tem estado sempre. Nobre Guedes, aqui e ali, e antes do silêncio por causa do "caso dos sobreiros", vinha proclamando a sua fé quase de "homem de esquerda". Estava a pôr o discurso a render.
Salta à evidência que se Portas, ele próprio ou por interposta pessoa, vier a fazer uma campanha eleitoral a partir de 2008 que lhe permita não beliscar excessivamente o PS, estará em óptimas condições para aspirar a ser Governo com Sócrates. Deve ser por essas e por outras que há meses me dizia um amigo muito bem informado que o ex-líder do CDS/PP e o primeiro-ministro mantinham contactos regulares e canais de informação. Tudo é possível. Até nem é preciso chegar ao ponto do que disse Marcelo, qualquer coisa deste género: "Ele manda Nobre Guedes para perder e aparece depois". Quem não se lembra do debate Durão-Portas na SIC em 2002, com acusações mútuas de "maoísmo retraído" e de "extrema-direita disfarçada"? Depois disso, fizeram o acordo de Governo em Março desse ano, que me dizem até que foi sendo negociado em plena campanha, portanto com os insultos pelo meio. Em política, tudo é possível.
O outro lado dessa tese, de que Marcelo não falou (mas de que falará, estou certo), é que ela representa, na prática e se for mal explicada ou digerida, um regresso à tese da equidistância de Diogo Freitas do Amaral, que deixou o partido de rastos, com um "grupo do táxi" no Parlamento (quatro deputados apenas). Ainda é cedo para vislumbrar se isso irá acontecer, até porque vem aí a nova Lei Eleitoral, que, se incluir a redução do número de deputados, poderá atirar o CDS para a marginalidade. E aí quem estará a postos para ser a muleta será... o PSD de Marques Mendes.
Entretanto, deixo-vos com uma "pérola" tirada do penúltimo artigo de Portas no Sol, aparentemente sobre Ataturk, mas com este recadinho pelo meio: "Ataturk respondeu como José Sócrates não desdenharia e eu idem: 'esta reforma ou se faz em três meses ou não se faz'." Ora aí está Portas a elogiar o ritmo das reformas do actual primeiro-ministro. Depois não digam que não avisei...

Porque hoje é segunda

Esta semana a sexta-feira chega mais cedo ao Corta-Fitas. Não consigo esperar para pôr aqui a imagem da minha actriz espanhola favorita. Cada vez me admiro menos que cerca de 25 por cento dos portugueses defendam a nossa anexação a Madrid. No cinema, por exemplo, nós temos a Maria de Medeiros. E eles têm a Inés Sastre. Como diria Descartes, quelle différence...

New girl in town

Olá,
Chamem-lhe vaidade, imodéstia, presunção, o que quiserem. A verdade é que fui convidada para escrever pontualmente no Corta-Fitas, e fui incapaz de recusar. Apesar de nada disto ser tão grave assim, a verdade é que tenho o maior gosto em estar aqui. Sinto-me confortável e estou grata pelo convite. Aqui ao lado todos escrevem muito bem e eu, sem pingo de modéstia, venho para o Corta-Fitas fingir que escrevo. Bem haja a todos.
Vemo-nos por aqui de vez em quando. O prazer é todo meu. Entretanto, vou pôr alguma ordem no meu blog antes que as fotografias tomem conta dele. Ficarei pore com a vossa simpatia, estarei por vezes também aqui.
Até já,
Isabel

Corrupção

"Várias leis foram elaboradas com o fim de combater a corrupção, várias experiências foram tentadas, várias iniciativas tomadas, mas a corrupção está aí, tão viva como sempre, minando a economia, corroendo os alicerces do Estado de mocrático", Pinto Monteiro, Procurador-Geral da República, no discurso de tomada de posse.

Quase que se pode apostar, e com segurança, que o dia 5 de Outubro foi uma data de viragem para o Governo e para o PS. Depois daquele discurso de Cavaco Silva sobre a necessidade de combater melhor a corrupção, o Governo e o PS vão certamente olhar para o tema com outros olhos. Já houve até ecos na imprensa de que o primeiro-ministro terá confidenciado aos seus colaboradores, confidentes e quejandos que o discurso do Presidente da República lhe diz muito. Esses mesmos ecos dizem que, no que diz respeito aos autarcas, a alocução de Cavaco caiu do céu. Ou não estivéssemos nós nas vésperas de se discutir no Parlamento a novíssima Lei das Finanças Locais (no dia 11).
Mas nem tudo é tão simples. Quem viu há pouco mais de dois meses o deputado socialista João Cravinho apresentar, completamente sozinho, os seus três projectos-lei anti-corrupção no Parlamento, pode perguntar: Onde estava o PS na altura? Porque surgiu o ex-ministro de António Guterres (e antigo companheiro de Governo de Sócrates) desacompanhado? Qual a razão para, durante estes meses, ninguém ter aparecido a apoiar os seus projectos dentro do grupo parlamentar socialista? Não se sabe.
Na semana passada, enfim, o grupo parlamentar acabou por discutir internamente o assunto e, perante a incomodidade geral e a vontade de Cravinho em agendar os projectos para discussão, resolveu criar um grupo de trabalho que vai reunir outras propostas de deputados e até do Governo. Entretanto, Cravinho evoluiu e aos três projectos irá juntar mais uma série de propostas, como a tentativa de criminalizar o enriquecimento ilícito e a de acabar com as "estáticas" declarações de rendimentos dos titulares de cargos públicos e políticos, que muitas vezes encontram sossego no Tribunal Constitucional.
A verdade é que a tudo isto o PS assobiou para o lado. Mas mal o Presidente inscreveu o tema na agenda, até o primeiro-ministro quer dar prioridade absoluta ao combate à corrupção. E ainda dizem alguns que a agenda do PR e a do PSD têm coincidido. Parece-me muito mais que a agenda do PS se adequa à de Belém. Até porque no pelotão do Bloco Central, Sócrates leva a amarela e o PSD só disputa o contra-relógio. Um pelotão que esteve coeso ao assinar um Pacto de Justiça que afinal prevê que os chamados crimes de colarinho branco deixem de dar prisão preventiva aos seus suspeitos... Isto para além de ser quase completamente omisso em relação ao combate à corrupção e ao enriquecimento ilícito.
Vamos ver que sentido é que Governo e PS darão às palavras do Presidente e às do novo PGR.

O País bateu no fundo

Ouvindo a Clara Ferreira Alves no último Eixo do Mal, senti uma súbita vontade de emigrar. E não era para menos. Afinal, ela disse frases como estas:

- "O País bateu no fundo."
- "Alguns destes autarcas [portugueses] são um bando de ladrões, uma corja de bandidos."
- "A classe média [portuguesa] já está no estertor."

Mas depois reponderei: as coisas não podem estar tão mal. Se o quadro fosse assim negro como a Clara o pinta, com aquela ponta de exagero que fica tão bem aos espíritos superiores, ela própria já não estaria por cá. Melhor esperar para ver o que terá a dizer na próxima edição do programa. Talvez lhe dê até para gabar a gastronomia lusa, os nossos brandos costumes e o Verão de São Martinho...

Isto é uma cabala!

O número médio de visitas diárias é neste momento de 666. Nem sei o que diga. Mas, se a situação não se altera rapidamente, chamo já um exorcista.

Vão-se as guitarras, ficam os piercings

A partir de hoje, é oficial: Punk is dead. O CBGB encerrou com a idade de Cristo. Ficam memórias de bandas como esta (baixem o volume das colunas, boys & girls).

O povo era sereno?

«E agora já é tarde, vou almoçar», ou uma divertida oferta do Lóbi do Chá, recordando o homem que pretendia recuperar Olivença com o recurso a barcaças anfíbias (sim, eu lembro-me desta!).

Partilha entre amigos

Com um abraço de muito obrigado ao Manuel Falcão, aqui fica a ligação para o American Press Institute. Estou certo de que me vão agradecer, tal como eu lhe agradeço a ele.
Já agora Manuel, uma «Pergunta Vadia»: Por que é que a crónica de sexta ainda não está em linha no blogue na segunda? Ai a preguiça!

Bólides

Com uma frota de bólides destas (e não só), não há governo nenhum que não mande apertar o cinto ao Zé Povinho...
(Abril 2005)
Foto: Leonardo Negrão

Um "crítico" muito alegre

Um tal de VBM, pretenso crítico de cinema do Expresso que jamais gasta a classificação de cinco estrelas (deve estar a poupá-la para uma estreia em grande lá para o Outono de 2017...) e raramente usa a de quatro estrelas, não vá a generosidade banalizar-se, termina assim uma das suas putativas "críticas" deste sábado: "No final, e à falta de mais, fica a alegria clínica de ter travado conhecimento com hemorróidas de 35mm."
Registada a "alegria clínica", a acutilância crítica e o extremo bom gosto de VBM. Mais palavras para quê?

A janela do Pedro

Houve um tempo em que o Pedro Rolo Duarte tinha alergia a blogues. Eu sei: também já fui assim. A verdade é que a blogosfera foi mudando, tornou-se cada vez mais interessante e variada: hoje não passamos sem ela. Vem isto a propósito das palavras simpáticas que o Pedro dedicou há dias ao Corta-Fitas na Antena 1, com base numa recente troca de impressões entre os nossos Joões - o Távora e o Villalobos. Gostei de ouvir. Mais uma razão para continuar atento à Janela Indiscreta que ele mantém aberta na estação pública.

Este blogue também tem grolhas

O João Miranda sugere que se combata a corrupção começando pelo «financiamento pertidário». Neste momento, vai com dez comentários e nem um lhe corrige a gralha. Se fosse comigo, aqui, já tinha para aí uns 20 todos de frasquinho corrector em punho.
Confesso que oscilo. O meu pé direito inclina-se para os comentadores do Blasfémias que valorizam o essencial em detrimento da forma, o esquerdo apoia-se na defesa dos nossos comentadores que protegem aguerridos a boa ortografia, em detrimento das patacoadas sem substância que escrevo. Um, dó, li, tá, quem está livre livre está.
P.S. O título é uma referência à saudosa e extinta revista «Pão com Manteiga», aquela que não confundia a obra prima do mestre com a prima do mestre de obras.

Jornalismo maduro

Bob Woodward foi um dos dois jornalistas responsáveis pelo desvendar do caso Watergate. Está ainda no activo. E a fazer o seu trabalho, desta vez, com o lançamento do livro State of Denial. Sobre a administração Bush, Woodward resumiu o trabalho assim: "É o mais antigo tema do jornalismo político: o Governo a esconder a verdade." Parece que o Cheney não gostou do livro. Eu gosto que, lá por aqueles lados, se perceba a importância de jornalistas maduros.

Manhã submersa

Há alturas em que invejo Cioran. Não as suas terríveis insónias, que o levavam a pedalar madrugada dentro até à exaustão, não a pobreza em que viveu em Paris sobrevivendo graças às refeições oferecidas por amigos, mas a sua voluntária condição de apátrida. «O melhor estatuto possível para um intelectual», terá ele afirmado.
Insuspeito de simpatias esquerdistas, simpatizante até da Guarda de Ferro húngara até à Segunda Guerra Mundial, Cioran não compreendia a Pátria (qualquer Pátria) como barreira política ao pensamento nem a língua como colete de forças para a expressão, optando pelo francês para os seus últimos escritos, como aliás o fez em certa altura o seu volátil amigo Beckett.
Há alturas em que o invejo porque também gostaria de ter um passaporte desses, quase inúteis, que me dizem sem lar (Parece que de cor verde e tudo, ou já não será?), que me afirmam não-cidadão. Ou que, por outro lado, me dizem cidadão do mundo, lugar comum esse que serve bem para onde me sinto sem poder efectivamente habitá-lo.
Agarrado a isto, preso nisto, histórica e geneticamente ligado ao Passado e Futuro disto. Isto, claro, é Portugal. Uma das recolhas de textos de Cioran intitula-se «O Infortúnio de Ter Nascido». Eu acrescentaria, «Aqui». Nesta alturas, em que me sinto assim, faço por engolir uma aspirina. Nem sempre passa.

Um regime alucinado

O regime louco da Coreia do Norte testou com êxito uma arma nuclear, abrindo caminho a um perigoso conflito e à proliferação atómica em toda a Ásia. Já aqui contei algumas impressões pessoais sobre aquele país isolado, onde impera uma bizarra dinastia comunista. Uma das imagens mais fortes dessa visita (em 1989) foi a visão acidental do estaleiro da construção de um gigantesco hotel em forma de pirâmide, que na altura do início da obra (1987) seria o mais alto edifício do mundo. Cheguei lá por acaso e os guardas logo me afastaram, mas permiti-me um relance: pareceu-me de repente que tinha entrado nas filmagens de alguma superprodução bíblica de Cecil B. de Mille. Milhares de pessoas, como formiguinhas, carregavam materiais para a construção. Não parecia haver máquinas, apenas aquele espantoso movimento de uma multidão de trabalhadores, sem efeitos especiais, um exército em campo de batalha. Sempre me interroguei sobre o que acontecera a tão gigantesco hotel. Encontrei recentemente algumas pistas, num blogue americano, The Klog, de onde pirateei esta fotografia de 2005. Os norte-coreanos concluíram a estrutura em betão e deixaram a construção em tosco, sem acabarem os 3 mil quartos. Nem sequer há janelas. No topo, mantém-se um precário guindaste, ali suspenso desde que tudo parou, em 1992. No mesmo blogue diz-se que a construção foi suspensa por ter sido usado betão defeituoso. Enfim, é este regime irresponsável e alucinado, incapaz de alimentar a sua própria população, que agora concluiu com êxito um teste nuclear. O oitavo país do mundo a fazê-lo.

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História de algibeira (7)

Virgílio Machado (1859-1927) foi médico do Hospital Real de S. José e desde cedo envolveu-se nas pesquisas sobre a electricidade médica com o casal Curie. A este ilustre médico se deve a introdução dos raios X em Portugal. Virgílio Machado (o primeiro de 21 irmãos da família Machado, todos com nomes de personagens clássicos, entre os quais se destacou também o pedagogo Achiles Machado) viveu e morreu no prédio nº 232 da Avenida da Liberdade, devido às “queimaduras” originadas na manipulação dos aparelhos de raio X.

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Domingo, Outubro 08, 2006

Literatura e cinema

Reparo agora que a leitura de vários destes romances e novelas nasceu do meu gosto pelo cinema – refiro-me às obras de Mailer, Harper Lee, Boll, Lowry, Fowles, Steinbeck, Wells, Caspary e Wilde, por exemplo. Antes de me deslumbrar com a escrita, em muitos destes casos, deslumbrei-me com os filmes inspirados na respectiva obra literária. Em certos casos, autênticas obras-primas da história do cinema – basta lembrar O Homem Invísivel (James Whalen, 1933), Laura (Otto Preminger, 1944), O Retrato de Dorian Gray (Albert Lewin, 1945), O Obcecado (William Wyler, 1965) e Debaixo do Vulcão (John Huston, 1984). Onde termina o fascínio da escrita e começa o fascínio do grande ecrã iluminado? É difícil dizer. O importante é saber que tudo isto anda ligado pelos mágicos fios da grande arte.

Mais livros da minha vida

É uma questão recorrente: quais os livros da minha vida? Há uma semana anotei aqui alguns. Seguem outros agora, tão variados quanto as oscilações do meu próprio gosto. Como anotava o João Gonçalves no seu Portugal dos Pequeninos, é sempre difícil, senão mesmo impossível, mencionar apenas um título – ou dez ou vinte. Tudo depende dos caprichos dos instantes, do jogo fortuito das circunstâncias, da própria idade em que travamos conhecimento com determinada obra ou determinado autor.
Entre os livros de ficção que mais me marcaram inclui-se sem dúvida Debaixo do Vulcão (de Malcolm Lowry), talvez o mais dolorosamente belo romance de todos os tempos. E O Processo, de Kafka. E também Os Nus e os Mortos (Norman Mailer). E mais estes: O Pão da Mentira (Horace McCoy), Por Favor, Não Matem a Cotovia (Harper Lee), Alegria Breve (Vergílio Ferreira), O Delfim (José Cardoso Pires), A Honra Perdida de Katharina Blum (Heinrich Boll), A Oeste Nada de Novo (Erich Maria Remarque), A Barreira (Frank Herbert), O Ente Querido (Evelyn Waugh), Vinte Mil Léguas Submarinas (Júlio Verne), O Coleccionador (John Fowles), Crónica de uma Morte Anunciada (Gabriel García Márquez), Angústia Para o Jantar (Luís Sttau Monteiro), Ivanhoe (Walter Scott), O Inverno do Nosso Descontentamento (John Steinbeck), O Homem Invisível (H. G. Wells), David Copperfield (Charles Dickens), Laura (Vera Caspary), O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), Um Espião Perfeito (John LeCarré), A Estrada do Tabaco (Erskine Caldwell), O Resto É Silêncio (Érico Veríssimo) e Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio). Obras tão diferentes e afinal de valor tão desigual. São assim os labirintos da leitura...

Postais blogosféricos

1. O Jorge elege o Perguntar Não Ofende como blogue do mês. Boa escolha.
2. Plenamente de acordo com o que o Carlos aqui escreve, em comentário a este meu texto, que originou "a primeira polémica" de outro Jorge. Já agora, vou mesmo aproveitar o desconto de 30% no seu cinema...
3. Abraço de boas-vindas ao Sérgio de Almeida Correia, velho parceiro de outras lides. Estarei atento ao Bacteriófago.
4. Já era tempo, Henrique. A Insónia passa a ficar inscrita na nossa barra lateral. Com a magnífica voz de Ute Lemper em jeito de banda sonora.
5. A Senhora Sócrates é nome de blogue - filosófico, ainda por cima. Um dos que achei mais divertido até agora. Parabéns, Adriana.
6. Melhor ainda só o nome deste: Cabelinho à Paulo Bento. Escrito por alguém com um nom de plume muito apropriado: Risco ao Meio.

Excessos da propaganda

O problema da propaganda é que a realidade, mais tarde ou mais cedo, faz uma visita. Num artigo que me ficou na memória, crítica a George W. Bush, Paul Krugman chamava a isto os momentos "Coiote selvagem", inspirado nos desenhos animados do coiote e do pássaro bip-bip: muitas vezes, o coiote fica suspenso no abismo, por instantes ainda equilibrado; até que, de repente, se apercebe da falta de chão; e só cai depois de ver o fundo do precipício.
Acho que a metáfora se aplica aos excessos propagandísticos deste governo. Ao contrário do que vi num telejornal, o conselho de ministro informal de ontem, onde foi discutida a presidência portuguesa da UE, no segundo semestre de 2007, não decidiu nada: no actual cenário, estava tudo decidido e, num ano, as prioridades ainda podem mudar. Então, surgiu aquela gente descontente (que o mesmo telejornal desvalorizava, "só uns cinquenta") a estragar a festa, a agir como gravidade.
Mas este post pretendia reflectir sobre Europa. Neste momento, há um grupo de peritos que estuda o que vai fazer ao tratado constitucional. O debate foi lançado por Nicolas Sarkozy, possível próximo presidente francês, que mencionou um "mini-tratado", com o miolo do projecto de Constituição: MNE vice-presidente da comissão, presidente do conselho fixo (fim das presidências rotativas), comissão mais curta, parlamento mais poderoso e, de forma crucial, extensão das políticas onde se aplica maioria qualificada, além das cooperações reforçadas. No menu está tudo aquilo que permite reforçar a Europa política (com directório das grandes potências) ou criar um sistema a várias velocidades. Aliás, não é por acaso que Sarkozy e Merkel (em princípio, o duo que decidirá o essencial) não querem a Turquia na EU, pois esta perturba o reforço do conteúdo político da União.
Entretanto, a Europa apresenta bons indicadores económicos e parece concretizar-se o fim do actual ciclo de lideranças. O momento é propício. Em 2008 ou 2009, haverá condições para se aprovar um novo tratado (mini ou meia dose). A eleição francesa, em Abril e Maio, será decisiva e a presidência portuguesa também deverá ser vital. Entretanto, a leste, a instabilidade dos governos ameaça complicar o plano das grandes potências (tema para futuro post). E que fará Portugal? O mesmo de sempre: tentará defender os interesses dos pequenos países e evitar o directório ou o sistema a várias velocidades, conseguindo o meio termo. E isso não pede momentos "coiote selvagem", mas muito realismo.

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Governo

Será esta a postura que se quer de um governo?
(Janeiro 2006)
Foto: Leonardo Negrão

Voltei

Sábado, Outubro 07, 2006

Memórias de Outono

Esperava um dia cinzento e húmido para escrever esta peça. É sobre as memórias que me desperta o Outono, com as tonalidades mornas e amareladas das folhas no chão. Do fumo bem cheiroso das castanhas a assar num triciclo ao fim da tarde. Ou da gota de chuva puxada pelo vento que estala na cara, anunciando o fim da do jogo da bola no Jardim da Burra, ali à Estrela. Há trinta e tal anos. Hoje até está o céu azul, e esta estação traz-me sempre memórias de infância. O Outono lembra-me o início das aulas, a escola primária e as minhas primeiras paixões, medos e emoções. Confesso que eu era malandro e não gostava muito da escola. Às tantas frequentei a Escola da Câmara Nº 6, na Rua da Belavista à Lapa, depois da minha mãe e das suas amigas, à época influenciadas por alguma revolucionária teoria pedagógica, tirarem os seus filhos dos colégios e organizarem uma turma na qual inscreveram os filhos, todos juntos, mais ou menos ingénuos meninos “bem”. Desta forma, aos oito anos, todos os dias me deslocava sozinho para a escola, para um mundo novo, louco e exigente. E todos os dias lá me encontrava com o professor Júlio sempre no estrado, enquadrado pelos planisférios e as figuras do Estado Novo. Lembro-me do seu aspecto austero e magro, enorme (?), dentro do seu fato escuro, com um ameaçador de ponteiro na mão. Eu, um verdadeiro cábula, “levava” reguadas todos os dias. Fosse por mau comportamento, ou porque não tivesse feito os trabalhos de casa, ou por causa dos erros de ortografia. Lembro-me da expressão ameaçadora do professor Júlio, apanhando-nos num flagrante rebuliço. E vociferava: “Isto não é nenhuma república!!!”. Eu, sem perceber bem, relacionava essa palavra com o senhor solene e careca emoldurado na parede. E tenho a vaga impressão que já na época me apercebera de que o meu pai não gostava nada disso.
O Outono era definitivamente uma época misteriosa e mágica, quando as intermináveis férias grandes acabavam naqueles dias já tão curtos. E lembro-me dos preparativos, quando chegava a casa com a minha mãe, vindos de comprar uma pasta nova, ou umas galochas pretas para eu levar para a escola. Então é que nunca mais chovia. Vaidoso, eu acabava por levar as botas de borracha mesmo com bom tempo e os pés suados.
Nesse tempo, tinha direito a cinco escudos diários para ir para a escola. Para ir de autocarro, o número nove, de Campo d’ Ourique até à Estrela. Fi-lo sozinho desde cedo. Sempre alerta, tinha que ter cuidado, não aparecessem alguns “ciganitos” do Casal Ventoso que me roubassem a bola de futebol e me espetassem uma “pêra”. O mundo de facto sempre foi perigoso. Regressávamos a casa normalmente em pequenos bandos pela Calçada da Estrela, a chutar nas pedras ou fazer corridas, pisar as folhas secas, ou chapinhar nas poças de água. Passávamos pelo Jardim da Estrela, respirávamos o fumo das castanhas e assustávamos os pombos esbaforidos. Depois subia a pé a Rua Domingos Sequeira para chegar a Campo D’Ourique já sozinho. Sempre a pé, pois que pela certa tinha gasto o dinheiro para o transporte em guloseimas, cromos ou outra coisa qualquer. Que o meu mundo era enorme nessa altura lembro-me bem. Lembro-me do Pedro, do Eduardo, do José Filipe do Manel e do Carrelhas. Lembro-me dos jogos da bola organizados por uma das mães, todos “à Sporting” na relva verde de Belém, contra uns indígenas quaisquer. Todos queríamos ser o Yazalde, o número nove. E lembro-me dos cinco tostões de tremoços, dos coloridos “esticas” e das pevides vendidas por uma velhinha à porta da escola. Das correrias para a "pendura" no eléctrico, ou daquela clandestina revista “de mulheres nuas”. Mas da Escola é que não gostava. Ao adormecer, rezava (!) angustiado para que um terramoto, incêndio ou outra catástrofe a fechasse por uns dias. De forma a ganhar tempo para (de novo não) fazer os “deveres” sempre adiados. E assim escapasse dumas valentes reguadas que invariavelmente me levavam às lágrimas.
Um dia de Outono como este, antes de chegar à escola, encontrei o meu primo homónimo que já frequentava a 4ª classe e me desafiou a faltar com ele. Nunca pela cabeça me passaria tal atrevimento, tão afoito. Alinhei, assustado, e não mais me esqueci daquele dia de emoções fortes. Toda a jornada deambulámos pelo bairro, até tão longe, bem longe de qualquer vista indiscreta. Fugidos até às Janelas Verdes, chegámos mesmo até Alcântara. Para ver os barcos, os guindastes, e toda aquela azáfama. Sem nunca termos a certeza do caminho de volta. Um saboroso crime estava feito, uma exaltada angústia misturava-se com as imagens da minha casa protectora, dos meus irmãos e da minha incauta mãe. Tudo tão longe. E logo, aflito, afastava da ideia a figura gigante do meu pai zangado, volvendo às explorações e correrias com o meu primo. Começava cedo a minha relação íntima com a cidade, com os seus sons, recantos e cores. Comecei cedo a ser gente, e terá sido este o meu primeiro grande segredo, na construção do homem que sou hoje.

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Grandes contos (4): Carver

O universo de Raymond Carver é povoado de quadros agrestes, de visões desencantadas de um quotidiano onde a esperança há muito deixou de morar. É um mundo citadino, contemporâneo, cheio de personagens que andam à margem do afecto - um mundo de vencidos da vida, confrontados com a erosão de toda a espécie de ideais. Um mundo onde, apesar de tudo, irrompem uns súbitos lampejos de ternura: é nesta complexa atmosfera que tem feito soçobrar por manifesta incapacidade tantos escritores de renome que o malogrado norte-americano se agiganta, como cronista perfeito da era de todas as imperfeições, sem rasto de heróis. O tédio das sociedades materialistas e o desgaste do amor são temas que lhe são caros.
Há um conto dele a que regresso muitas vezes - um dos textos de ficção mais memoráveis que já li. Intitula-se O Banho e está incluído numa espécie de livro-testamento do autor, com um título que só por si é uma obra de arte: De que Falamos Quando Falamos de Amor (1981). É a história pungente de uns pais em risco de perder um filho: não conseguimos imaginar um drama existencial maior.
Com este ponto de partida, qualquer outro autor facilmente se enredaria nas malhas de um sentimentalismo postiço. Mas Carver, artista maior, é incapaz de fazer o leitor cair nesta armadilha. O estilo é minimal, despojado de artifícios retóricos, não há tiradas grandiloquentes nem sequer uma palavra a mais: há emoção genuína, criada pelo poder da sugestão visual que emana da prosa sábia do autor, capaz de nos identificar com o sofrimento surdo dos pais, tão mais evidente quanto maior é o pudor em exprimi-lo. Ela teima em permanecer no hospital, junto da criança; ele prefere passar por casa para tomar um banho. Cada um a seu modo intui que existe um mundo em iminente derrocada.
O pai "tinha sido um homem feliz e com sorte, mas o medo fê-lo desejar tomar um banho" - ritual de purificação. A mãe, dirigindo-se a uma janela do hospital, "viu passar um carro e entrar nele uma mulher de casaco comprido, desejando estar no lugar dela, ser conduzida dali para outro lugar qualquer". (Edição portuguesa da Teorema, tradução de Carlos Santos.)
De que falamos quando falamos de amor? De tudo isto: nenhum caminho é tão estreito como o que nos conduz à ilusão da felicidade. Carver, que teve uma vida dura e dolorosa, sabia bem do que falava. Falava de sentimentos em convulsão. Falava de cada um de nós, afinal - e dos frágeis fios que emprestam estabilidade emocional à vida.

Frases únicas da literatura (4)

«Hugh sabia o que aquilo era: o intolerável choque de ter adquirido um conhecimento que poderia ter vindo aos vinte e dois, mas nessa altura não se verificara; que devia ter chegado pelo menos aos vinte e cinco, mas ainda nessa altura se lhe recusara, esse conhecimento até aí apenas associado com gente vacilando à beira do túmulo...».
Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão.

Gato por lebre

Depois deste alerta feito na semana passada pelo Eurico de Barros, que sabe bem do que fala, vou examinar com muita atenção o "brinde" que o Expresso hoje oferece aos leitores. Aqui entre nós, detesto que me impinjam gato por lebre. Mesmo de borla.

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

Um ou dois beijos, eis a questão

«Vamos lá ver aqui uma coisa. Eu não me importo que as pessoas dêem dois beijinhos. Eu próprio, que sempre vi dar e sempre dei um beijinho, já estou habituado a que me espetem dois beijos na cara, e tenho inclusivamente totalmente treinado o compasso de espera que se faz quando se cumprimenta uma senhora, cuja preferência entre dar um ou dois ainda se desconheça. Agora, não me tirem a hipótese de dar apenas um. Quem veio primeiro, ao contrário do que muitos possam achar, foi o um beijinho, e quem pensa o contrário já está na ignorância do cumprimento lisboeta tradicional e pré-revolucionário. Os que dão um beijinho acham que dar dois beijinhos é à pobre? O beijinho só se dá na bochecha direita? O um beijinho é fascista? Qu'importe. J'suis snob», escreve aqui o Francisco Valente.
Ora o Francisco Valente ou é novo demais para saber destas coisas, ou não gosta de beijar senhoras ou é simplesmente ignorante sobre a volatilidade dos costumes da nossa burguesia.
Posso assegurar-lhe, porque aprendi desde a infância, que se dá um ou dois beijinhos consoante e ao contrário o que é costume pelo vulgo. Se o povo beija a dobrar, dá-se só um ali para os lados da Guia, do Restelo ou do Castelo do Queijo. Se o povo decide imitar, voltam a dar-se dois só para mostrar bem quem é que manda. O que interessa, nestas coisas, é marcar a diferenciação social e o chamado «trend setting». A «elite» inova, o «povo» imita.
Sendo eu alguém que gosta de bochechas femininas e se fartou, com a idade, destas demarcações sociais serôdias, defendo que devem dar-se dois e acabou-se. A não ser, é evidente, que sigamos outros costumes e passemos para os três ou quatro. O risco, esse, é acabarmos como os russos a beijarmo-nos entre homens. Brrrrrrr!

A Europa, a América e o mundo

Um dos aspectos mais estimulantes da blogosfera é a possibilidade de debatermos ideias - com muito mais facilidade até do que nas páginas dos jornais, em regra dominadas pelos eternos "comentadores" que há décadas se perpetuam de edição para edição sem terem nada de relevante para dizer. Vem isto a propósito deste texto publicado no blogue Labirinto Nosso, que reage a uma posta que aqui publiquei há dias.
Estando de acordo no essencial, e não me interessando rebater divergências de pormenor, gostaria no entanto de dizer ao Jorge o seguinte:
1. Os interesses estratégicos dos Estados Unidos têm variado consoante as épocas. Nada nos assegura que a Europa continue a ser a grande prioridade estratégica de Washington. Nas duas últimas décadas, a Casa Branca desviou consideravelmente a sua atenção para dois eixos alternativos: o seu próprio continente, durante tantos anos descurado, retomando parcialmente o espírito da Doutrina Monroe, que constituiu a pedra angular da diplomacia americana durante mais de um século; e a região Ásia-Pacífico, ampliando noutras rotas a tradicional aliança com o Japão - em particular os laços de cooperação com a China.
2. Ao contrário dos americanos, não temos alternativa: os interesses estratégicos da União Europeia, na sequência da aliança forjada entre Roosevelt e Churchill em 1941, permanecem inalterados.
3. Na edificação da nova ordem internacional, de que tanto se fala, é imprescindível a intervenção norte-americana. Sem ela, aliás, quase toda a acção actual das Nações Unidas estaria condenada ao fracasso (o caso de Timor-Leste ilustra bem a minha tese). A ascensão de países como o Brasil, a Índia, o Japão e a África do Sul a membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU pode ser positiva. Mas de nada valerá com uns Estados Unidos alheados do que se passar no Palácio de Vidro de Nova Iorque.
4. Utópico, o regresso ao isolacionismo norte-americano? Talvez não, caro Jorge. Ambos sabemos que a pulsão isolacionista é muito forte na vida política americana. Tanto democratas como republicanos têm fortíssimas correntes de opinião interna que proclamam as supostas vantagens de uns Estados Unidos mais virados para si próprios. Oxalá me engane, mas ainda havemos de ter saudades do tempo em que Washington teimava em policiar o mundo. A propósito: as guerras mundiais de 1914-18 e de 1939-45 - as mais sangrentas da História - tiveram início na boa, velha e "pacífica" Europa.

Blogues em revista

O Franco Atirador: “As mulheres que nos recusam os prazeres da juventude tentam oferecer-nos as consolações da sua meia-idade. Mas nessa altura os homens já distinguem o sexo da paixão.” (Luís M. Jorge)

O Amigo do Povo: "Quando alguém morre não sei o que é pior. Se a tristeza que fica, se a tristeza que passa.” (Fernando Martins)

Kontratempos: “Os EUA pretendem construir um muro com 1100 quilómetros de extensão ao longo da sua fronteira com o México para combater os fluxos de imigração ilegal. E que nacionalidade terão os trabalhadores dessa obra?” (Tiago Barbosa Ribeiro)

Tomar Partido: “O caso Apito Dourado é tão rasca, tão rasca, tão rasca, que até o ouro era falso. Será que os árbitros que foram subornenganados vão apresentar queixa?” (Jorge Ferreira)

O Futuro Presente: “É interessante reler Les Justes [de Albert Camus] para ver os "anos-luz" que regredimos em matéria de preocupação filosófica.” (Jaime Nogueira Pinto)

Tapa na pantera

Este vídeo na blogosfera transformou uma actriz brasileira de 70 anos, de carreira bastante discreta, numa estrela. Vale a pena ver, embora nem todos os fumadores de cachimbo sejam assim.

Natalia Vodianova

Ela, outra vez. Vista sob outro prisma. Porque amanhã é sábado.

Porque hoje é sexta


Existe a manequim perfeita? Claro que sim: é mesmo esta. Natalia Vodianova.

Temos deputado

Há muito tempo que não gostava tanto de ouvir um deputado. João Cravinho, entrevistado ontem na SIC Notícias, disse sem papas na língua aquilo que eu gostaria que cada um dos 230 parlamentares portugueses afirmasse sobre a necessidade imperiosa de dar combate à corrupção, aliás na linha da excelente alocução de Cavaco Silva neste 5 de Outubro.
"O Parlamento é um dos grandes responsáveis pela corrupção que existe em Portugal. Porque tem o poder de fiscalizar e não fiscaliza e tem o poder de legislar e não legisla", afirmou Cravinho. Falando simultaneamente para fora e para dentro do PS, este veterano socialista exprimiu a sua estupefacção em termos que não deixam lugar a dúvidas: "Não se compreende que o enriquecimento ilícito ainda não seja criminalizado em Portugal."
Temos deputado. Oxalá fossem todos como João Cravinho.

Com a prata de outras casas


«Sente que pertence a um mundo literário?
Não. Sou um esteta e não leio. Escrevo os livros que escrevo. Não tenho televisão nem computador. Vivo numa mansão e trabalho no vazio. Não compreendo a cultura actual porque a ignoro. Isolo a minha curiosidade durante o tempo que estou a escrever. Por isso, não sou propenso a teses sobre a literatura e o cinema». James Ellroy a Helen Barlow, no Y.

«Eu creio que nos anos sessenta o mito da revolução não só não traz nada como confunde e contribui para a desvalorização da cultura democrática que aparece como uma cultura a menosprezar, como uma máscara de exploração». Mário Vargas Llosa a Maria Luísa Blanco, no 6A.

Duas óptimas entrevistas dadas a jornalistas estrangeiros publicadas em jornais portugueses. Há dias assim e o pior é que sabem bem.

Sensacional

A notícia passou relativamente despercebida, mas a NASA anunciou ter feito uma descoberta sensacional, através do telescópio espacial Hubble. Uma busca de planetas extra-solares, varrendo uma área da nossa galáxia, permitiu detectar 16 planetas a considerável distância do Sol. O número de novos planetas é superior ao esperado e parece indicar que são comuns os sistemas solares idênticos ao nosso. Segundo dizem os cientistas da NASA, na Via Láctea podem existir 6 mil milhões de planetas semelhantes a Júpiter. Aqueles que têm a dimensão da Terra serão difíceis de detectar com a actual tecnologia, mas a comunidade científica está cada vez mais próxima de confirmar a ideia da vida ser um elemento abundante em todo o universo.

Foto: NASA

Neste caso, o que parecia ser um planeta extra-solar é, de facto, uma pequena estrela

Repúblicas


Queria regressar ao Corta-Fitas com um post sobre as Repúblicas, mas já outros escreveram aqui o que eu pretendia escrever: não sendo monárquico, sinto grande perplexidade pela insistência neste feriado do 5 de Outubro. Tirando a propaganda, o que se comemora? Um regime caótico, repleto de golpes militares, e outro autoritário, antidemocrático? Como o essencial ficou dito nos posts anteriores, pego numa ideia que o Duarte quase desenvolve: as raízes da nossa instabilidade política.
Acho que cada país tem uma personalidade e os velhos países europeus, sobretudo os mais pequenos, foram repetindo certos conflitos históricos, ligados à sua geografia e cultura, os quais determinaram certos instintos. Por exemplo, há países onde se privilegia o consenso, outros que preferem o compromisso, outros ainda que acumulam vapor revolucionário e, por vezes, explodem como vulcões. Portugal, ao longo da história, sempre oscilou entre dois pólos: autoridade ou caos. Ou poder centralizado nas mãos de um único homem ou o poder espalhado por caciques, barões e lóbis.
O actual regime, a terceira república, parece ter quebrado este padrão de longo prazo. O que evitou o segundo cenário, depois de 74, foi o facto de Portugal ser membro da NATO e, além disso, terem surgido políticos sensatos que levaram o país para a então CEE (agora União Europeia). Sem isso, provavelmente não teríamos escapado a um de dois destinos fatais: o caos político produzido por uma oligarquia de baronatos, presidentes de clubes de futebol, autarcas e militares golpistas (com acesso a 100% do bolo orçamental); ou, em alternativa, um iluminado que se eternizasse no poder e que governasse sozinho, secando tudo à volta...

Imagem: O Portal da História
Grupo revolucionário, em Lisboa, Maio de 1915. A revolução durou cinco dias e fez mais de 200 mortos.

Uma república sem futuro

O primeiro presidente da República de que me lembro foi Américo Tomás. Os que o antecederam, em ditadura, foram igualmente maus ou muito maus. Indo mais atrás, os da primeira república foram tão maus que fizeram com que o povo desejasse um ditador. Nem vale a pena falar dos do período revolucionário pós-25 de Abril, mas os já eleitos pelo voto popular foram todos maus ou muito maus, apesar de, no primeiro mandato (apenas por motivos de interesse político pessoal, como depois se percebeu), Mário Soares ter sido um pouco melhor. Cavaco, fora ter patrocinado o pacto da justiça, até agora não fez nada que correspondesse às já fracas expectativas que tinha quando votei nele, para evitar um mal maior. Fez hoje mais um discurso, mas creio que será tão inconsequente quanto foram os dos seus antecessores. Rapidamente iremos perceber que ele ficará na história pelo que fez como primeiro-ministro e não por ter sido presidente da república.
A quase centenária república deu a Portugal um dos piores períodos da sua história e certamente teríamos hoje uma democracia muito mais interessante e um desenvolvimento muito maior se não fossem todas as confusões revolucionárias e os ressentimentos políticos e sociais por ela provocados, numa terrível sucessão de fases: caos e perseguições de 1910-1926, 48 anos de ditadura e atraso, revolução que destruiu a economia (embora com a grande virtude de ter reposto a democracia).
Com tudo isto, a pergunta é se a volta da monarquia é possível? Eu acho que sim, mas terá que passar esta geração de pessoas preconceituosas e cegamente igualitaristas, este enorme ressentimento social que a república criou na nossa sociedade, esta visão "progressista" da história, que considera que a república é uma etapa "superior" em relação à monarquia. Até lá, continuaremos a tentar perceber as raízes da nossa instabilidade política, os índices económicos na "cauda da Europa", a invejar Espanha e a achar que os países europeus mais desenvolvidos mantêm regimes monárquicos só por apego à tradição.

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

Excertos

do discurso do Presidente da República sobre o 5 de Outubro (hoje de manhã na Praça do Município:

"Olhando para a República Portuguesa, prestes a comemorar cem anos de existência, não poderemos deixar de notar que o comportamento ético de muitos dos nossos concidadãos, incluindo alguns daqueles que são chamados a desempenhar cargos de relevo, nem sempre tem correspondido ao modelo ideal de civismo republicano".

"No combate por uma democracia de melhor qualidade devem ser convocados todos os portugueses, mas esta é uma tarefa que compete em primeira linha aos titulares de cargos públicos".

"Nesse sentido, é necessário chamar a atenção, de uma forma particularmente incisiva, para as especiais responsabilidades que todos os autarcas detêm nesta batalha em prol da restauração da confiança dos cidadãos nas suas instituições".

O grande equívoco

Na luta pelo poder, o PRP destruíra o inegável liberalismo da Monarquia. A Republica, longe de ser “democrática” (…) sobrevivera graças ao terror popular. (…) para lá da retórica oficial, estabelecera na prática uma ditadura de massas.

Vasco Pulido Valente - O Poder e o Povo, 1976 - Edição Gradiva 2004


Não entendo uma razão para a festividade do dia de hoje (onde, quem?), a não ser a celebração dos 863 anos do Tratado de Zamora.
Conhecemos, pela história dos últimos anos da monarquia liberal, como foi brutalmente gizado o assalto ao poder por uma minoria urbana do PRP, com o apoio de uma espécie de grupo terrorista, a Carbonária Portuguesa. E conhecemos bem o ciclo caótico e arbitrário que caracterizou a ditadura popular entre 1910 e 1926. Ignorar isto é, como se diz hoje, branquear um crime histórico. Mais, a implantação da república em Portugal resultou em dezasseis anos de estagnação económica, repressão e caos. Dessa forma abriram-se as portas ao regime de Oliveira Salazar, e à história e frustrações que tão bem conhecemos.
Após 96 anos de tantos equívocos, branqueados pela ignorância e cobardia, parece-me que os fundamentos da república se baseiam ainda hoje em ancestrais e recalcados “complexos” sociais. Um enorme entrave ao desenvolvimento e progresso do nosso país.
Por tudo isto, a minha festa será outra.

Grandes contos (3): Borges

Jorge Luis Borges fala-nos ao ouvido, com clareza e minúcia, como se nos narrasse histórias ocorridas nos confins do tempo. O mestre argentino manipula a ficção com artes de prestidigitador: nos seus contos, tudo nos soa à estrita realidade, por mais galopante que seja a imaginação deste homem que se dizia influenciado por Stevenson, Shaw e Chesterton.
Borges foi um dos raros autores que viu o seu nome coroar-se em adjectivo. Fala-se hoje do imaginário borgeano como se fala do kafkiano: nada mais natural, tratando-se de dois gigantes da literatura. O universo borgeano, povoado de encruzilhadas e labirintos, de equações matemáticas e de delirantes divagações históricas, faz-nos viajar no espaço e na memória, em permanente atmosfera de sonho, criando uma contínua erosão das fronteiras entre a ficção e o ensaio, entre a prosa e a poesia.
Incluído no seu livro Ficções (1944), em que cada texto é uma obra-prima, destaca-se este notável Pierre Monard, Autor do Quixote. Plagiador incansável, Monard dedicou toda a vida a uma virtuosa empreitada: reescrever o Quixote. Mas o seu perfeccionismo levava-o a refazer permanentemente o trabalho, ao jeito da interminável manta de Penélope. No fundo, "não queria compor outro Quixote - o que é fácil -, mas 'o' Quixote. (...) A sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem - palavra por palavra e linha por linha - com as de Miguel de Cervantes." (Edição portuguesa da Teorema/Círculo de Leitores, tradução de José Colaço Barreiros).
Este conto arquitectado num estilo que o despe de artifícios formais, quase utilizando a técnica de uma notícia de jornal, constitui a mais poderosa sátira à crítica literária que conheço, mostrando-nos um Borges no seu melhor: a erudição com rendilhados irónicos, entre pinceladas de absurdo sempre a traço fino.
"A elaboração, em Kafka, é menos admirável que a invenção", anotou um dia Borges, insaciável leitor e divulgador de outros autores. Palavras que fazem ricochete: poder-se-ia dizer o mesmo deste prodigioso inventor de mundos e de mitos.

Postais blogosféricos

1. Antes do alarido que aí vem, apetece-me roubar desde já estas palavras ao João Fernandes.
2. A Dina tem toda a razão: este jornalismo que se pratica com insistência necessita urgentemente de um ponto final. Quanto mais depressa melhor.
3. O JSA elaborou a lista dos livros da vida dele - dada à estampa na Estação Central. Com um título que também consta da minha.
4. Já a Menir elege aqui Philip K. Dick entre os autores que prefere. Pois eu também.
5. Tiago Barbosa Ribeiro, Miguel Cardina e Rui Bebiano associaram-se num quase-blogue: o Passado/Presente, que não tardará a figurar na nossa lista de favoritos.
6. Já espreitei este blogue e gostei do que vi. Se todos os anónimos fossem assim, a blogosfera seria um lugar mais saudável. Não é, Coutinho Ribeiro?

Cinco mil imagens

Depois de ter sido fotojornalista no Público e na Associated Press, Luísa Ferreira tem exposto desde 1989 os seus trabalhos em muitas e muitas individuais e colectivas de fotografia. Agora, a Luísa anuncia que já atingiu, neste seu endereço, o redondo volume de 5.000 imagens. Aqui ao lado, fica só uma delas, a fotografia do poeta Eugénio de Andrade, para aguçar o apetite.

Outro jantar corta-fiteiro


Ontem, jantámos a cinco no restaurante panorâmico do Tivoli Tejo, junto à Gare do Oriente. Vista fantástica, serviço muito simpático, sala ampla e decorada com muito bom gosto. Presentes a Isabel, o Pedro, o Duarte, o anfitirião João e eu. Ausentes os restantes, por diferentes razões.
Falámos das mudanças futuras no blogue e da fernanda câncio, de política e da fernanda câncio, de jornalismo e da fernanda câncio, do aborto e da Igreja e da fernanda câncio.
Pelo meio, ainda tentei convencer o João que não sou de esquerda, mas parece-me que sem sucesso. Houve brindes ao Tratado de Zamora pelos nossos monárquicos e discutiu-se também, de forma cordial, a Dinastia dos Braganças e a fernanda câncio.
Gentil e prestável camarada, o João deu-me boleia até à porta de casa. Curiosamente, durante a viagem Lisboa-Oeiras, nem uma vez pronunciámos o nome fernanda câncio.

Frases únicas da literatura (3)

«Grandes paixões são enfermidades sem esperança. Pois o que as poderia curar é precisamente o que as torna perigosas».
Goethe, As Afinidades Electivas

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

10 coisas para as quais já não há pachorra

1. Moleskines, o Livro em Branco do intelectualzinho.
2. GPS que dizem «agora à esquerda» com vozinhas brasileiras dengosas.
3. Gajos a esbracejar e vociferar feitos epilépticos no meio da rua com um bluetooth na orelha.
4. Conversas sobre «Quantas músicas tem o teu I Pod? Eh, eh, o meu tem mais, nina nina».
5. Polémicas em torno da figura do Dr. Pedro Arroja, quando ele nada tem dito de jeito que o justifique.
6. Comentadores do género wikipedia, recheados de factos inverificáveis sobre todos os assuntos.
7. Dar só um beijinho. Ou são dois ou nenhum, seus burguesinhos de imitação.
8. A conversa das audiências, que não interessa a ninguém excepto a meia dúzia de accionistas.
9. Os horóscopos dos jornais excepto o do Metro que é feito descaradamente a gozar.
10. A corrupção no futebol. Enfiem todos no xilindró e não se fala mais nisso.

Country road


Algures na Bolívia. Vá lá, imaginem-se ali ao volante de um daqueles monstrinhos e a um palmo do precipício e depois digam-me se tinham cojones para isso. Hem? Quien los tiene los tiene, por supuesto.

Pierre, tu és uma pedra

O Vítor Belanciano, hoje no Público, não menciona o seu nome nem uma vez a propósito do concerto de hoje de Ben Harper no Pavilhão Atlântico. Mas Pierre Aderne é uma agradável surpresa, um Jack Johnson brasileiro (nascido em França e com pai português) com muitos paralelos com o cantor-surfista, nas músicas como nas letras.
Quem lá for, logo à noite, faça por chegar a tempo da primeira parte, ouça-o com atenção e não se arrependerá. A quem não puder ir, recomendo a compra de «Casa de Praia». A boa onda começa com «bula da música» e não pára mais não.

Parabéns a vocês

Todos e todas aqueles e aquelas que, graças ao Plano Nacional de Leitura criado faz hoje um ano, andaram estes 12 meses a receber uns dinheirinhos pagos cá pela malta. Espero que, pelo menos, tenha dado para umas visitinhas gastadoiras à prateleira dos clássicos da FNAC.

Rádio Bagdad

Esta manhã bem cedo, por razões excepcionais, desloquei-me para Lisboa de automóvel. Além da inquietação que foram aqueles 80 minutos perdidos dentro do carro, a certa altura inadvertidamente sintonizei a TSF. E claro, deu asneira.
O aumento médio de 30 % dos parques da EMEL, decidido ontem em assembleia municipal pela "coligação de direita", era parangona de abertura.
O que reclamo da referida notícia e reportagem, não é tanto a mensagem subliminar, explicitando um juízo de arbitrariedade da medida, mas a irresponsabilidade revelada pela abordagem convenientemente superficial. Pelos vistos quando convém, as causas do “Ambiente” e do Ozono não interessam, mais. Há que dar a voz ao povo da rua para um desgarrado e gratuito grito de indignação: junto ao parque de estacionamento da Loja do Cidadão das Laranjeiras, a meia dúzia de metros da estação do metro, foi fácil recolher umas revoltadas e incongruentes boçalidades contra a referida medida “simploriamente” anunciada pela repórter. Sem "contraditório", como convém.
Tive a sensação de ouvir nas entrelinhas a génese do que será para breve uma revolucionária reivindicação popular: um solidário subsidio para o povo automobilizado se deslocar comodamente às Laranjeiras ou aos Restauradores a queimar a sua dose de gasolina.

PS - Por outro lado, depois foi noticiado serenamente que a reunião ontem dos autarcas socialistas no Largo do Rato, por causa da nova lei das finanças locais, terá acalmado os ânimos aos mesmos. Tudo sob controlo.

Jorge, não me mates que não sou tua mãe!

Alguns (só alguns) títulos da secção de Actualidade da edição de hoje do Correio da Manhã: «Tiro da GNR mata fugitivo», «Dois mortos no mar», «Tentou matar à facada», «Matou filho à fome», «Matou e incendiou casa», «Mulher recém-separada espancada até à morte», «Estudante foi queimada viva».
Na próxima sexta-feira 13, a direcção do CM vai ser entregue a Jorge Sampaio e ao tema da tuberculose. Dica para o director por um dia: Artigo na secção de Actualidade sobre o filho «trabeculoso» que andava no gamanço para a mãe ceguinha mas foi morto a fugir com uma carteira pela GNR enquanto a mãe era violada por vizinhos aleijados que se atiraram pela janela depois de pegarem fogo a si mesmos. Garanto-lhe, Dr. Jorge Sampaio, que a minha sugestão se inscreve nos actuais critérios editoriais do CM. Disponha sempre.

História de algibeira (6)

O último dia
Faz hoje 96 anos. Na madrugada de 4 de Outubro a revolução republicana sofria diversos contratempos, o estado-maior do PRP dava o golpe por falhado e discutia-se a rendição. Cândido dos Reis, o empenhado comandante-chefe da revolução - o almirante que dá o nome à conhecida avenida lisboeta - suicidava-se em desespero de causa. Pelas 6 horas da manhã era encontrado morto algures em Arroios.

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Momentos Kodak (21)

Cartaz de Carmona Rodrigues para as eleições autárquicas.
(Setembro 2005)
Foto: Rodrigo Cabrita

Terça-feira, Outubro 03, 2006

A Europa em tempo de mudança

O modelo do "Estado Social" europeu, tão glosado nos cenáculos bem-pensantes, jamais teria existido se não houve sido defendido durante meio século pelos norte-americanos. Quando Wilson (em 1917) e sobretudo Roosevelt (em 1941) decidiram intervir militarmente na Europa, alterando uma trave-mestra da política externa americana, até então caracterizada pelo isolacionismo militante, transformaram os Estados Unidos em protectores do Velho Continente. Os americanos pagaram um duro preço nesta função, a começar por um número incontável de vidas humanas. As sociedades europeias de bem-estar, de que tanto nos orgulhamos, nunca teriam sido possíveis sem este preço. É bom retermos estas lições da História num momento em que todos os sinais apontam para um declínio irreparável do nosso modo de vida: praticamente às portas da Europa, um "líder" demencial como o presidente iraniano, a que alguns europeus teimam em achar graça, volta a pôr em causa a existência do Holocausto e a incendiar os ânimos contra o "inimigo sionista" e as sociedades de consumo ocidentais. Daqui a uns anos, dotado de bomba atómica, este homem e os seus sequazes não se limitarão a produzir desmandos verbais. Por cá, no entanto, há quem esteja mais preocupado com uma citação do Papa, apesar de o Vaticano não fabricar bombas nucleares, e com o "imperialismo" norte-americano, sem o qual a Europa não seria o que é nem teria capacidade para falar como hoje fala. A verdade é que o mundo ficaria ainda mais perigoso se de repente os americanos voltassem ao isolacionismo e abandonassem os povos europeus à sua sorte.

Gostei de ler

Brasil. O dia seguinte, 5. De Francisco José Viegas, n'A Origem das Espécies.
Venezuela na urna. De Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
Mais que perfeita. De João Morgado Fernandes, no French Kissin'
Literatura underground. De Isabel Goulão, na Miss Pearls.
Antes que Anoiteça. De João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

Murros no estômago

Já está no CCB mais uma edição da World Press Photo, de que faz parte esta foto premiada do fotojornalista português Pedro Correia. À luz dos momentos captados no ano passado, só se pode dizer que o Mundo continua um lugar perigoso. Saí da exposição como imagino que sairia de um ringue de boxe. Contundido com tanto murro no estômago.
PS: O Pedro Correia de que falo é reporter fotográfico no Jornal de Notícias

Na disputa de mercado

Agrada-me uma saudável guerra de manchetes, bom jornalismo de investigação. Na disputa do mercado, pelos vários jornais e revistas, acredito que uma boa manchete resulte em bom marketing. Mas não me parece que a finalidade valha o sacrifício da ética e da verdade jornalística. Para mais, no caso do Sol e do Expresso, estes expõe-se nos quiosques quase sempre "ensacados". O critério das manchetes já não funciona espontaneamente.
Mais, o Expresso, desta semana estava fechado num original envelope de cartão, o que tornou frustrada a expectativa de espreitarmos as respectivas cachas. Mesmo assim valeu a pena aquele barulho?

Way too much time on my hands

Tenho desculpa... Estou à espera que terminem uma série de comissões parlamentares que decorrem à porta fechada...

Grandes contos (2): Camus

Pode um conto ser deliberadamente político sem nunca parecer que o é? Pode. Albert Camus dá-nos um exemplo admirável numa das histórias incluídas na excelente colectânea de narrativas intitulada O Exílio e o Reino (1957). O conto a que me refiro, O Hóspede, é daqueles que nos perduram na memória graças à poderosa sugestão visual da escrita de Camus, na sua elegância sincopada. Uma espécie de “Hemingway revisitado por Kafka”, na definição algo irónica de Sartre, que nunca escondeu uma certa aversão pelo autor d'O Estrangeiro, um dos raros escritores franceses do século XX que jamais se deixou seduzir por sistemas totalitários. É este, aliás, o cerne deste conto hipnótico, que nos fala da solidão, do silêncio, da violência surda, da incomunicabilidade – e também de política, oculta num admirável jogo de metáforas: afinal que papel resta aos intelectuais num mundo que volta a ser dominado por pulsões irracionais de toda a espécie?
O professor Daru – alter ego do autor – encarna este dilema, no quadro da cruel guerra da Argélia, nunca aqui nomeada expressamente mas subjacente do primeiro ao último parágrafo. Camus, francês nascido na Argélia, sabia bem o preço a pagar por aqueles que, como ele, não optaram por nenhum lugar em nenhuma trincheira do conflito.
Num momento em que a História caminha a passo cada vez mais acelerado, há uma estranha actualidade neste confronto de culturas simbolizado no professor francês com alma de apátrida que dá abrigo por uma noite, na sua escola abandonada, ao árabe suspeito de ter infringido a lei. Em pano de fundo, com toda a sua carga simbólica, a nua imensidão do planalto argelino, às portas do deserto, magistralmente descrita pelo autor: “Daru contemplou o céu, o planalto, e, para além, as terras quase invisíveis que se estendiam até ao mar. Nesse vasto país, que ele tanto amara, estava agora só, completamente só.” (Edição portuguesa dos Livros do Brasil, tradução de Cabral do Nascimento).
Não é na irreparável solidão desse deserto que vive o homem contemporâneo, entre as certezas que se desmoronam e um terror sem rosto incrustado no nosso inconsciente colectivo?

Perspectivas

A minha filha Carolina, de cinco anos, ontem ficou inconsolável. Da notícia que um bebé vinha a caminho na barriga da mãe, torcia que fosse uma menina. Quando soube que se perspectiva um saudável rapaz, um José Maria, amuou e explicou porquê: “Pai, é que assim o bebé vai ser TREINADO pelo Francisco, e queria ser eu!” Fiquei abismado com o raciocínio.
De resto a minha mulher e eu, até por questões logísticas, ficámos muito felizes com a notícia.

Dá cá o dízimo, ó meu

Tinha jurado a mim próprio nunca sintonizar a TV Record, esse lamentável sucedâneo que a TV Cabo, em clara violação do contrato estabelecido com os seus assinantes, pôs no lugar do excelente GNT. Mas no fim de semana, à procura de notícias das eleições brasileiras, lá espreitei o tal canal. Azar meu: em vez de novidades sobre a contagem dos votos, só vi "histeria" pseudo-religiosa, com "repórteres" da estação apregoando as putativas virtudes "do dízimo e das ofertas".
Será que o "dízimo" ajuda a explicar certos "milagres" da grelha da TV Cabo?

Festa

Ontem, mais uma vez, foi uma alegria para o meu coração ver a rapaziada a jogar. É uma grande alegria ver os “bonecos” do Nani nas manchetes dos jornais de hoje, “de pernas para o ar” em acrobático festejo. É a saudável imagem que devíamos guardar da festa do futebol.

Deus não dorme

Ao forçar Lula a disputar uma segunda volta contra Geraldo Alckmin, o eleitorado brasileiro deu a toda a América Latina uma extraordinária prova de maturidade. Aconteça o que acontecer, daqui por diante, jamais o actual inquilino do Palácio do Planalto actuará com a impunidade revelada até agora, o que o levou inclusive a faltar aos debates televisivos pré-eleitorais, prova da sua inegável arrogância. Ter sido operário, oriundo de uma família pobre e filho de mãe analfabeta pode ser um bom cartão de visita no Brasil. Mas a falta de seriedade e de escrúpulos da clique lulista, que se encarregou de pulverizar as melhores aspirações da esquerda brasileira, foi justamente penalizada. Como diria Mário Mesquita, num outro contexto eleitoral, Deus não dorme.

O Governo que merecemos

Na volta de férias, vejo na capa do caderno de Economia do DN que o Governo vai cortar no investimento público em cerca de 15% para conter o défice. E, numa notícia da semana passada, que o Governo ia aumentar o desconto da ADSE. Na campanha eleitoral, que já se passou há setenta anos, Sócrates prometeu que conteria o défice sem recurso a receitas extraordinárias e sem cortar no investimento público. Quero ver que contas vão agora fazer os analistas e comentadores quando o Governo anunciar triunfalmente que conseguiu baixar o défice para 4,6% . As mesmas que faziam no tempo de Manuela Ferreira Leite? Claro que não, até porque fora meia-dúzia de pessoas amargas e descontentes com a vida como eu, ninguém se lembra ou se quer lembrar do que Sócrates prometeu.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Corporações

Foi com espanto que no Sábado ao chegar à Praceta Conde da Carreira, junto à estação de S. João do Estoril, encontro plantado ao centro um enorme conjunto de contentores, com o letreiro FARMÁCIA. De repente até me pareceu mais um vil gesto para expulsar as criancinhas que ali gostam de brincar, mesmo depois de se ter retirado os baloiços. Mas logo fui esclarecido: durante uns tempos, enquanto a (verdadeira) farmácia sita no local estiver em obras, o povo será privilegiado com aquelas instalações provisórias, autorizadas por “quem (?) de direito”.
Pergunto: Quando a conhecida e utilitária papelaria “Bonanza” ali também da praceta, necessitar de encerrar para obras quem vai patrocinar a sua instalação temporária num… Quiosque? E o café? E a lavandaria?
Mas não liguem, que é inveja minha. Eu é que queria ter era uma farmácia só para mim.

Impressões áureas

A guerra dos semanários deu-me mais um pretexto para ir ao quiosque aos fins-de-semana. Tenho tentado perceber quem está a ganhar a guerra. Ao fim de duas semanas, fico com a impressão que as coisas não estão a correr bem ao arquitecto.

No sábado passado, à cinco da tarde, no Almada Fórum, o Expresso estava esgotado e o Sol estava espalhado por inúmeras pilhas na loja Presselinha.
No domingo anterior, às três da tarde, na papelaria da Quinta da Luz, Lisboa, sobravam duas pilhas, de Sol, do chão até à cintura. O Expresso acumulava uma pilha.

Cheira-me que o arquitecto ainda vai ter de engolir aquela frase anti-DVD's.

Enfim...

Soube hoje numa conversa entre amigos que a Sportv garantiu os direitos de transmissão da Fórmula 1 por uma quantidade de anos. Mais um desporto codificado. Estou louco para que alguém se lembre de fazer o mesmo com as novelas...

Domingo, Outubro 01, 2006

Ainda bem

A vida não é só política, Tomás. E ainda bem.

Impressões musicais (7)

Neil Young faz parte da minha vida, dos píncaros da minha memória. A sua poesia vive nos meus sonhos profundos, mesmo antes de eu nascer. Reconheço-o de sempre em "Live Rust", pequeno, minúsculo como só um Homem. Com enorme comoção vejo-o, arrastando um microfone gigante, em cima de uma desmesurada coluna. E canta: "The needle and the damage done". Tão perto do abismo.
Acho que a sua arte é o meu outro lado, a minha flor da pele, uma emoção feminina.
Neil Young é o meu príncipe branco do rock n’ roll, das minhas íntimas paixões. Sempre "Como um furacão". Desde "Harvest" até "Harvest Moon". Arranhei-o na minha guitarra... bem que guinchei os seus hinos de amor. "Bird": (…) When you see me, Fly away without you, Shadow on the things you know, Feathers fall around you, And show you the way to go,(…) Às vezes ainda lhe abro um coração adolesceste. Apaixonado "Cavalo louco", pressentindo o abismo do amor. "Comes a time".

Dedicado à Margarida e ao Francisco, que eu sei, já intuem ao longe uma "Montanha de Açúcar"

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Grandes contos (1): Hemingway

Ernest Hemingway, que se tornou muito conhecido pelas suas proezas reais ou imaginárias na pesca, na caça e até na guerra, era afinal um indivíduo extremamente sensível, como demonstram vários dos seus contos - entre eles Um Gato à Chuva, que tem tradução portuguesa de Alexandre Pinheiro Torres (Livros do Brasil, Lisboa). Gabriel García Márquez considerou-o "o melhor conto do mundo". É uma singela história de cinco páginas, na melhor estética “minimal” de Hemingway - autêntico "mestre na arte do elipse", como bem assinalou Enrique Vila-Matas. Mas é quanto basta para nos proporcionar um dos mais perturbantes retratos de fragilidade feminina que já encontrei em literatura.
Um jovem casal americano hospedado algures em Itália. Têm todos os motivos para serem felizes. Todos? Talvez não. Pressente-se uma tensão subtil neste casal, revelada apenas no comportamento dela, subitamente identificada com a chuva que cai, com um gato desamparado que caminha à chuva. Há um jogo de contrastes nesta ficção povoada de personagens anónimas: o marido indiferente/o afável proprietário já idoso do hotel; a mulher pequena perante aquele homem alto que lhe provocava “um aperto na garganta”; a falta de desejo latente naquele quarto e a obsessão dela em resgatar o gato da chuva. (Desejo inconsciente de um filho que talvez acabe por nunca vir?) E, enfim, a presença obsessiva do dilúvio climático.
O rigor da meteorologia serve afinal de metáfora a este quadro humano tão singular mas também tão emblemático. Quantas mulheres terão sentido o mesmo “aperto na garganta” que esta americana vislumbrada pelo génio de Hemingway entre os pingos de chuva?

Foto: Michele Rain

Os livros da minha vida

Ouvimos muito a expressão “os filmes da minha vida” ou “os livros da minha vida”. Pergunto-me: quais foram, quais são os livros da minha vida? Tantos, tão variados - correspondendo a várias épocas e a vários apetites. A Condição Humana (André Maluraux), O Adeus às Armas (Ernest Hemingway), O Estrangeiro (Albert Camus), 1984 (George Orwell), O Pavilhão dos Cancerosos (Alexandre Soljenitsine), A Cidade e as Serras (Eça de Queiroz), Pela Estrada Fora (Jack Kerouac), O Zero e o Infinito (Arthur Koestler), A Ilha do Tesouro (Robert Louis Stevenson), Os Três Mosqueteiros (Alexandre Dumas), Tufão (Joseph Conrad), O Apelo da Selva (Jack London), O Homem que Via Passar os Comboios (Georges Simenon), Coração, Solitário Caçador (Carson McCullers), A Música do Acaso (Paul Auster), O Americano Tranquilo (Graham Greene), Robinson Crusoe (Daniel Defoe), O Grande Gatsby (Scott Fizgerald), Capitães da Areia (Jorge Amado), Memórias de Adriano (Marguerite Youcenar).
Apenas vinte livros. Todos de ficção. Todos “livros da minha vida”. Podia mencionar muitos mais. Podia até gastar todo o espaço do blogue com este assunto. Não admira: é um tema inesgotável.

Pensamento lulista

Hoje há eleições no Brasil. Mas não me apetece falar a sério do assunto, na iminência de uma reeleição à primeira volta de Lula da Silva apesar do evidente descalabro ético do seu governo e da cobardia política de que deu mostras, alegando sempre desconhecer todas as trafulhices cometidas pelos seus principais colaboradores. Afinal, vendo bem, trata-se do país que celebrizou um político que proclamava: "Eu roubo, mas faço."
Hoje apetece-me apenas deixar aqui algumas pérolas do pensamento lulista, compiladas pelo jornalista brasileiro Carlos Laranjeira no seu livro Frases de Lula e Cia. (Chamas Editora, 2005):
- "Uma palavra resume provavelmente a responsabilidade de qualquer governante. E essa palavra é 'estar preparado'."
- "Na Amazónia vivem 20 milhões de cidadãos que têm mulheres e filhos. Mulheres e filhos são apêndices dos cidadãos."
- "Um número baixo de votantes é uma indicação de que menos pessoas estão a votar."
- "Se não tivermos sucesso, corremos o risco de fracassar."
- "Não é a poluição que está prejudicando o meio ambiente. São as impurezas no ar e na água."
- "Mantenho todas as declarações erradas que fiz."