quinta-feira, maio 10, 2007

A saída de Blair

Tony Blair anunciou oficialmente a sua saída (que será a 27 de Junho) num discurso de grande qualidade, onde mostrou mais uma vez os seus enormes dotes de orador. Penso que Blair foi um dos melhores primeiros-ministros britânicos do pós-guerra e, certamente, um líder que ficará na história (onde muitos só conseguem acesso às tradicionais notas de rodapé). É ainda cedo para fazer um balanço, mas o Reino Unido é hoje um país mais próspero e influente, sem ter perdido o seu lugar na Europa. Blair também mostrou novos caminhos à esquerda e não é de todo líquido que Gordon Brown, o seu sucessor, não possa vencer as próximas legislativas. Há ainda outro ponto: após dez anos no poder, e apesar das controvérsias (sobretudo o erro do Iraque), o primeiro-ministro britânico deixa o seu país numa situação política sólida, sem divisões insustentáveis ou excessos ideológicos.

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terça-feira, março 06, 2007

Rever a História



Aprecio os textos de António Figueira, no excelente blogue 5dias, mas discordo inteiramente do que ele escreveu num post intitulado Feridas de Guerra II, sobretudo deste parágrafo:


Partilho da indignação em relação à maneira como os russos são tratados nos países bálticos. Numa visita à Letónia, fiquei chocado com as discriminações que atingem os russófonos e os não-cidadãos de origem russa. Considero mesmo que estes países não deviam ter aderido à UE enquanto não resolvessem o problema das minorias étnicas (os russos na Letónia representam um terço da população, a maioria sem direito de voto).
Mas as conclusões de António Figueira em relação ao incidente que motivou o seu post e, sobretudo, as ilações que tira sobre a Europa Central e de Leste parecem-me incorrectas.
Acho que há uma atitude dos países da Europa Ocidental (neste caso, os bons democratas) que tentam continuamente explicar aos de leste (os maus democratas), e de forma bastante paternalista, o que é aceitável e inaceitável na gestão das suas sociedades. Neste caso, é invocado um pretenso “consenso” histórico, segundo o qual o que conta é quem lutou pelo “anti-fascismo” (os soviéticos lutaram; e os nacionalistas católicos polacos, não lutaram?)
Em resumo da tese, o antigo regime comunista era um “mal”, mas estava do lado “bom”, pois combateu o nazi-fascismo. Por isso, o novo consenso “anti-comunista” que estes países desejam deve ser recusado por todos nós, os bons democratas ocidentais.
Se eles argumentam que sofreram e não gostam de foices e martelos, estão a perturbar a História. Portanto, nada de ajustes de contas, pois a Europa dos bons democratas não aceita desvios ao seu consenso histórico. Lembrar as deportações para a Sibéria, por exemplo, (só porque as pessoas eram de etnia estónia), isso provavelmente será “artilharia ideológica da guerra fria tardia”. Enfim, o statu quo só serve se for o nosso, não o deles.
Estou talvez a ser injusto em relação ao texto de António Figueira e a caricaturar excessivamente o que ele quis dizer, por isso tento precisar a minha crítica: Nos países ex-comunistas, o “anti-comunismo” equivale a contestar o antigo regime. O paralelo com Portugal é possível: um português pode contestar o antigo regime fascista e o mesmo se aplica a um estónio em relação à ocupação soviética. Os soviéticos foram libertadores, mas o regime que impuseram era absolutamente opressivo. O mesmo raciocínio aplica-se a todos os países que ficaram sob domínio de Moscovo, que pagaram a factura de meio século de atraso e ditadura.
Acho que a revisão do passado na região não tem nada a ver com a perturbação dos consensos históricos europeus, mas apenas com o direito de cada povo de, livremente e sem tutelas, escrever e interpretar a sua própria História.

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quinta-feira, março 01, 2007

A campanha aquece





O senador republicano John McCain, um dos mais influentes políticos norte-americanos, declarou ontem que anunciará em Abril a sua candidatura às presidenciais americanas de 2008.
A confirmação desta candidatura parece clarificar a corrida e tudo aponta para uma das mais disputadas eleições de sempre nos EUA, com o mais que provável duelo final entre Hillary Clinton e John McCain, entre Setembro e Novembro de 2008.
O lado republicano é aquele que tem maiores problemas neste momento. A guerra do Iraque transformou-se num tema muito difícil de gerir. Apesar de tudo, não há grande diferença entre as anteriores posições dos dois favoritos, o que se pode tornar numa pequena vantagem para o candidato republicano. Se existe alguém que conseguirá trazer as tropas de volta é este herói de guerra, um ex-militar que passou seis anos numa prisão vietnamita. É preciso também não esquecer que os Republicanos dominam a direita religiosa e que esta eleição se irá decidir em meia dúzia de Estados (Ohio, Flórida, os suspeitos do costume)
Mas ser escolhido pelo partido não será fácil. McCain enfrenta o desafio de Rudolph Giuliani e Mitt Romney (um anti-europeu). O primeiro tem um passado que desagrada à direita mais conservadora da América, além de falta de preparação em assuntos externos, e o segundo não possui fama nacional nem experiência de campanhas difíceis. Em princípio, se não aparecer entretanto um candidato mais perigoso, por exemplo, Newt Gingrich, McCain será o homem dos Republicanos. Veremos se isso se confirma já no Verão e Outono deste ano. Se as primárias correrem mal para o senador do Arizona, a decisão será adiada para Março de 2008, o que teria as vantagens e os perigos da maior exposição mediática.
No campo democrata, a luta pela nomeação do partido promete ser mais fácil. Para além de Hillary Clinton, que controla a máquina partidária, há dois jovens políticos com hipóteses de dar nas vistas, Barack Obama e John Edwards. Os outros estarão a preparar terreno para futuras eleições. Hillary tem contra si os muitos ódios acumulados na direita mais radical, mas não é por estes votos que ela luta. Obama parece sólido, mas demasiado à esquerda: nos Estados conservadores dificilmente obterá apoios democratas. Ou seja, a figura que emerge para o posto de vice-presidente de Hillary é Edwards, bom orador que garante muitos votos no sul dos Estados Unidos, zona que os democratas querem reconquistar.
Com esta disputa em aberto (pela primeira vez em quase um século não se candidata o vice-presidente anterior) o maior argumento será o do dinheiro e do uso inteligente das novas tecnologias, nomeadamente blogs e youtube. Uma gaffe num pequeno comício da parvónia terá implicações nacionais. A campanha de 2008 promete ser a mais cara de sempre (fala-se em mil milhões de dólares) e nenhum candidato com menos de 100 milhões de dólares terá qualquer hipótese de ser eleito. Nem vale a pena falar dos independentes e dos restantes partidos.
A grande democracia americana parece-se cada vez mais com uma oligarquia à maneira do período final da república romana e é curioso que os dois prováveis candidatos de 2008 sejam políticos cuja carreira se fez em grande parte na crítica ao actual sistema de financiamento das campanhas eleitorais.

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sábado, janeiro 13, 2007

O Plano B



Li e ouvi algumas análises sobre a nova estratégia da Casa Branca para o Iraque e, na maioria dos casos, surgia uma curiosa lenda: os Estados Unidos comportam-se de forma tão estúpida que nada daquilo faz sentido.
O pressuposto aparece em comentários tão díspares como o de Pulido Valente, no Público (sem link) ou nas reflexões de Daniel Oliveira, no Arrastão. Também já se ouviu na TV.
A meu ver, a teoria da estupidez americana impede uma boa análise dos factos e, acima de tudo, confunde erros políticos com acções descabeladas. Os EUA falharam o seu plano A para o Iraque e já estão a combater o plano B, que tiveram de improvisar. Ou seja, estamos perante o caso clássico de um império que tenta reparar uma situação aparentemente desesperada.
Em primeiro lugar, é preciso compreender o essencial. A estratégia americana visa desde o início criar um ambiente favorável aos interesses ocidentais na região do Golfo Pérsico. Que interesses são esses? O suave fluxo de matérias-primas energéticas. A Civilização Ocidental depende inteiramente do petróleo do Golfo: A Arábia Saudita produz nove milhões de barris diários, o Irão mais seis milhões e o Iraque tem potencial para cinco ou seis, embora produza menos de três milhões. Há mais países na região a produzir gás natural e petróleo. Enfim, a zona é responsável por 25% do abastecimento mundial de petróleo e, dentro de dez anos, algo próximo de um terço.
Claro que, no plano retórico, o Iraque devia tornar-se uma radiosa democracia. Mas esta era uma espécie de cereja em cima do bolo.
Saddam Hussein começou a sua carreira como nacionalista árabe, foi depois um combatente da Guerra Fria. Em ambos os casos teve enorme sucesso, no entanto nunca se adaptou à nova ordem mundial, nos anos 90. Em vez disso, tentou tornar-se um líder hegemónico na região. Talvez devido a excesso de confiança ou por temerem genuinamente as ambições do ditador iraquiano, os EUA decidiram abandonar a sua política tradicional para o Golfo, que se baseava na manutenção de um sistema de equilíbrio de poder entre três potências, com pelo menos duas pró-ocidentais. Arábia Saudita, Iraque e Irão deveriam manter-se mais ou menos idênticas, sem nenhuma delas a conseguir ameaçar as duas outras, e sobretudo sem coligações de duas hostis à América.
O sistema funcionou até ser perturbado por um Saddam que acreditava poder ser o dono da região.
Como os três últimos anos comprovaram, ao removerem o ditador iraquiano, os EUA não conseguiram manter o sistema de três potências. Este foi o erro político.
É à luz desta lógica que podemos interpretar os actuais desenvolvimentos. O Iraque vai desaparecer e a estratégia americana é já a de conseguir que essa fragmentação ocorra com o mínimo de derramamento de sangue e, sobretudo, que ela não perturbe o normal fluxo de petróleo do Golfo.
A entidade curda funciona já de forma praticamente independente. Terá petróleo, mas também o problema do isolamento geográfico. Penso que irá depender de uma boa relação com a Turquia e com os Estados Unidos.
A entidade xiita, a sul, está em formação. Precisará dos americanos para não cair totalmente nos braços do Irão. Tem petróleo. Será uma teocracia governada pelos Ayatollahs mais respeitados.
A entidade sunita está ainda indefinida. Poderá nascer radicalizada ou regressar a uma ditadura do partido Baas. Tem pouco petróleo e precisa de uma boa ligação à Síria, pois não me parece que lhe sirva a protecção da Arábia Saudita.
O Plano B, a fragmentação do Iraque, parece assim ser pouco favorável aos interesses americanos e ocidentais, mas o problema é que não existe outra possibilidade.
Será difícil que a partilha ocorra sem grande derramamento de sangue. Mas, se a divisão for rápida e sangrenta, como querem os democratas dos EUA, os soldados estarão de volta a casa dentro de um ano. Isso, claro, também dependerá do Irão e da Arábia Saudita.

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sábado, dezembro 30, 2006

Previsões 2007 (As figuras)


A dupla Nicolas Sarkozy e Angela Merkel vai dominar o ano político.
Sarkozy deverá vencer as eleições presidenciais em França, na segunda volta, em Maio. Penso que o candidato de centro-direita, em relação à sua rival socialista (Ségolène Royal) tem duas vantagens e uma desvantagem: Por um lado, Sarkozy é um político mais experiente do que Ségolène e parece ter soluções sólidas para os três problemas franceses mais óbvios (segurança, economia e futuro europeu); a desvantagem tem a ver com o seu anti-elitismo.
Porque esta eleição será renhida e até atípica, há dois excelentes candidatos de centro, o que vai minar a influência das franjas. O candidato do centro-direita constitui um problema grave para a extrema-direita; e a de centro-esquerda será uma catástrofe para os grupos radicais à sua esquerda. É por isso que só a segunda volta conta.
Curiosamente, Ségolène foi discípula de François Mitterrand e teve a melhor formação possível (é de esquerda, mas énarque, portanto, das elites, o que em França costuma ser excelente mistura). Mas, ao contrário de Mitterrand, falta-lhe uma carreira política para poder vencer estas eleições.
Sarkozy é o oposto dela. Um pragmático, político tarimbeiro, que por vezes parece arriscar tudo numa única jogada. Tem a seu favor uma importante carreira prática, tendo pegado com êxito nos piores problemas do país (finanças descontroladas e insegurança). Contra si, terá o excesso de ambição (é demasiado visível) e o que nos media surge como “populismo”, mas que consiste, de facto, em não pertencer às elites políticas locais.
Há outros aspectos importantes: a França necessita de reformas e já sabe disso; as carreiras políticas francesas são longas, pelo que este será apenas o primeiro round de futuros combates entre Ségolène e Sarkozy. A dupla vai dominar a próxima década.
O que nos leva à Europa (a próxima década será europeia). Sarkozy parece ter uma resposta para a crise na UE, enquanto Ségolène tem fugido do tema, porque ele é demasiado embaraçoso para os socialistas.
Poderá ocorrer algo de inesperado, como um deslize nos debates televisivos (Ségolène será talvez mais hábil), mas penso que estes serão factores decisivos numa vitória final para Sarkozy, sempre por pequena margem.
Entretanto, na Alemanha, estarão a terminar os dois anos da grande coligação governamental. Após a mudança em França (e isto vale para qualquer resultado), Angela Merkel terá esgotado as virtudes da união entre CDU e SPD. Ou seja, haverá forte tentação para eleições antecipadas. Merkel deverá vencê-las com facilidade e Outubro será boa ocasião para o conseguir.
França e Alemanha estarão então em condições de impor uma saída para o impasse constitucional europeu. Talvez já em Dezembro de 2007, talvez só em Junho do ano seguinte.

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sábado, dezembro 23, 2006

Previsões 2007 (Médio Oriente)



E se o Hamas volta a ganhar na Palestina? Irá Israel mudar de atitude em relação ao governo radical?
Enfim, esta é uma entre muitas incógnitas que vão afligir a região do Médio Oriente em 2007.
A zona de fractura mais volátil do mundo, devido à cobiça das imensas riquezas no subsolo (três quartos das reservas petrolíferas mundiais), a região do Médio Oriente terá os seus olhos postos no que se passa na Palestina e no Iraque. E os fundamentalistas islâmicos podem ali reunir novos argumentos para alimentar a sua guerra santa.
O projecto dos neo-conservadores americanos de se transformar o Iraque num farol democrático, que seria depois imitado por todos os países da área, fracassou de forma clamorosa. O efeito real foi exactamente o inverso do desejado. Perante o descalabro do novo poder iraquiano, incapaz de se sustentar sem apoio externo, os regimes autoritários da região vão travar as suas tímidas experiências democráticas. Até porque se libertarem o voto, ganham os fundamentalistas.
Mas a situação mais perigosa parece ser a do conflito entre os dois principais ramos do Islão, o Sunita e o Xiita.
Em guerra aberta no Iraque, as duas comunidades terão tendência para chocar entre si, no âmbito da rivalidade entre Arábia Saudita e Irão.
Teerão tem ambições nucleares e um regime algo paranóico. Mas não me parece que os EUA estejam em condições de ameaçar os seus planos. Israel tem a vontade mas não possui os meios. Por isso, penso que o Irão conseguirá desenvolver bombas atómicas, talvez em 2008. Trata-se de uma perigosíssima proliferação, a marcar o início de uma guerra fria na região.
E que dizer da instabilidade crescente da monarquia saudita? As regras da sucessão do monarca aplicam-se a príncipes com mais de 70 anos. Em breve, a sucessão caberá à geração seguinte (uns 300 potenciais elegíveis), com divisões entre pelo menos duas facções, uma mais conservadora e hostil a Teerão, outra mais próxima do Ocidente. Conseguirá a família real manter a sua unidade?
A NATO também deve encontrar maiores dificuldades no Afeganistão. E é uma incógnita assustadora saber até que ponto existe uma possibilidade da Aliança Atlântica perder aquela guerra. Seria a primeira e a última travada fora da Europa pela organização.
Enfim, se é possível fazer previsões para o Médio Oriente em 2007, diria que todos estes conflitos vão agravar-se, com impacto nos preços do petróleo.

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terça-feira, dezembro 05, 2006

O líder chileno e o ditador cubano segundo Liberty Valance

Leiam este pertinente post do Pedro, em baixo, sobre o “líder cubano” e o “ex-ditador chileno”. Como nestes dias escrevi sobre uma das personagens, fiquei a pensar seriamente na questão ali levantada. Nas prosas que recentemente escrevi sobre Fidel Castro usei ambas as expressões, “líder” e “ditador”, mas a primeira umas quatro vezes e a segunda, confesso, uma só vez e escondida a maio do texto. Ora, se tivesse escrito sobre Pinochet, não teria hesitado um instante na utilização da expressão “ex-ditador”. Presumo que haveria quatro ou cinco formas “ex-ditador” e apenas uma vez o “antigo líder”.
Acho que o meu critério nunca foi ideológico. Não tenho dúvidas de que estamos perante dois ferozes ditadores, até com uma pequena vantagem para Pinochet: em Cuba, o regime ditatorial nem sequer consegue fazer a transição para a democracia (teme-se o pior) e a ditadura de Pinochet, pelo menos, permitiu que surgisse um regime democrático no país. Dirão os leitores que há ainda restrições, nomeadamente o poder dos militares e a quase impunidade do próprio Pinochet, mas penso não haver dúvidas sobre a vitalidade e capacidade de sobrevivência da democracia chilena. Castro, por outro lado, tem um ponto vantajoso em relação a Pinochet: ele derrubou uma ditadura, enquanto o general chileno eliminou um regime democrático.
Em relação às barbaridades, penso que não faz sentido fazer contabilidade, dizer aquele matou mais que o outro, pois o balanço de crimes não aumenta ou reduz a maldade e a culpa.
Ao tentar responder à questão do duplo critério encontrei uma provável explicação: o efeito da lenda.
Este parece-me ser um fenómeno pouco integrado pelos jornalistas. Lembram-se do filme de John Ford, “O Homem que Matou Liberty Valance”? Na cena final, depois do senador ter contado aos dois jornalistas a história verídica sobre o tiroteio que o fez famoso, o editor diz que não pode contar a verdade: "when the legend becomes fact, print the legend” (quando a lenda se transforma em facto, publique-se a lenda), diz ele.
Inconscientemente, fazemos isto. Na minha opinião, esta é a verdadeira origem do duplo critério sobre as ditaduras chilena e cubana. A primeira foi sempre definida como ditadura; a segunda está rodeada de uma lenda de revolução.

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quarta-feira, novembro 29, 2006

Notícias do império


A NATO está cada vez menos atlântica e já não consegue esconder os seus graves problemas militares no Afeganistão. Não sei se já repararam que o Presidente americano que mais bateu no peito, a afirmar que não precisava de aliados e que podia fazer tudo sozinho, conseguiu convencer os europeus (que desdenhou) a umas aventuras em terras bárbaras: há europeus no Afeganistão, há e houve no Iraque, no Kosovo e no Líbano. Estou-me a esquecer de alguma guerra? Os europeus têm acompanhado lealmente (outros diriam servilmente) todas as paradas, apenas para prosseguir o discurso arrogante de alguns que não entendem a natureza desta relação e se prolongar o mito de que a Europa não tem futuro, não passando de um caso perdido.

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A questão turca

Concordo com esta opinião de Miguel Vale de Almeida: a posição do Vaticano em relação à Turquia é a mais correcta e terá certamente um poderoso impacto na opinião pública europeia.
A visita do Papa à Turquia está a motivar numerosos comentários na Imprensa, TV e blogosfera e li textos onde se dá importância (a meu ver excessiva) às actuais dificuldades da negociação entre europeus e turcos.
Desde o momento em que se decidiu avançar com as negociações, no ano passado, que estas negociações estão a decorrer. Os progressos são lentos e há vicissitudes. Mas não se pode falar de recuos, pois o processo de negociação prossegue. A ameaça de suspensão por causa da questão de Chipre faz parte desse processo e já aqui escrevi sobre o assunto sublinhando que os europeus também estão a quebrar uma promessa. Mas a decisão de suspender o processo ainda não foi tomada, apesar da ameaça. E, se isso acontecer, as negociações ainda podem recomeçar, quando a questão de Chipre desaparecer do horizonte.
Foi neste contexto que surgiu a nova opinião do Vaticano, favorável à adesão da Turquia, e que inverte uma posição com dois anos. O Vaticano não é membro formal da UE (o território faz parte da UE e tem mesmo moedas de euro, embora sem poderes ou participação nas decisões).
Mas a visão do Papa Bento XVI vai facilitar o processo de adesão da Turquia, através da influência. Por exemplo, Áustria e França, dois dos países com opinião pública menos favorável à entrada dos turcos, são ambos católicos.
A prazo, a posição do Vaticano ajudará a mudar a percepção que os europeus têm da Turquia. A adesão desta nunca acontecerá antes de 2015, portanto, haverá muito tempo para mudar a sociedade turca e para acabar com a crise interna da UE.

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terça-feira, novembro 21, 2006

A Ibéria e o povo sem qualidades

Estamos à beira de mais uma cimeira luso-espanhola e parece boa ocasião para discutir o tema do iberismo. Ultimamente, surgiram debates, em blogues e jornais, sobre a eventual sensatez de Portugal se aproximar ainda mais da Espanha. Houve até uma sondagem significativa. E, pelo que li em artigos no El Pais, a ideia também agrada a certos círculos espanhóis.
É evidente que, para uma empresa, o acesso ao mercado ibérico só pode ser boa ideia. Comércio e aproximação cultural são vantajosos, mas a discussão costuma descambar numa outra, ligada ao post aqui em baixo, em que critiquei uma opinião de Maria Filomena Mónica (MFM) sobre os camponeses portugueses. As afirmações de MFM foram discutidas aqui e em vários blogues, mas a verdadeira discussão transformou-se depressa no seguinte tema: “O povo português tem qualidades?”
Para alguns leitores, pelo menos na nossa caixa de comentários, a resposta é que o povo português tem sobretudo defeitos. Muitas pessoas parecem ter aderido, pelo menos parcialmente, à tese de que o povo português é inculto, desconfiado, tacanho, subdesenvolvido. Este tipo de discurso é frequente, muito mais do que parece à primeira vista. Os portugueses são todos uma espécie de taxista-do-Aeroporto-de-Lisboa-a-levar-um-passageiro-até-ao-Marquês!
Em outro país, isto seria um verdadeiro absurdo, fácil de desmontar, mas a ideia está tão embutida nos espíritos que se torna difícil argumentar sem parecer ultra-nacionalista. A tese do povo sem qualidades é facilmente desmentida pela história, a forma como os portugueses emigraram, a riqueza da cultura popular, a tolerância a estrangeiros, a facilidade de adaptação a dificuldades.
Admito que o país ainda não tenha superado o trauma de ficar sem império, que historicamente tenha sido mais periférico em relação ao centro da cultura europeia, que tenha perdido vitalidade devido à emigração em massa. Mas daí a povo sem qualidades vai um abismo.
As noções da nossa inferioridade, ligadas a exemplos pouco sólidos e anedóticos, criam visões depressivas e, quando o país cai na depressão de uma crise económica, tudo nos parece impossível de sustentar. E o iberismo surge como a solução fácil. Acho que, pelo contrário, a afirmação da nossa identidade, a independência num quadro europeu, com forte ligação económica à vizinhança, são o óbvio destino português.
Quanto à Espanha (lá iremos noutro post) o iberismo trará desvantagens muito superiores às vantagens.

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quarta-feira, novembro 08, 2006

Excesso de entusiasmo?

Não é tema em que me sinta à vontade, mas as interpretações que tenho ouvido e lido sobre o resultado das eleições americanas são talvez demasiado optimistas em relação a uma mudança que não me parece tão evidente. Parte deste resultado muito positivo para os democratas deve-se a questões locais associadas a um presidente impopular. Os democratas conseguiram o que queriam: têm alguma iniciativa legislativa, controlam o dinheiro e afastaram o odiado Donald Rumsfeld do Pentágono. Mas terão agora de mostrar a sua estratégia para o Iraque. Alguém a conhece? Se os EUA conseguirem retirar do terreno sem provocarem um banho de sangue, a vitória de ontem poderá repetir-se nas presidenciais. Mas isso parece difícil e, em caso de guerra civil total no Iraque, as culpas ainda podem aterrar no partido democrata. Há outro factor pouco mencionado: os Estados Unidos caminham para uma crise económica e o novo poder pode receber parte da culpa, sobretudo se esta for súbita e grave.
Acho que o resultado implica que a revolução neo-conservadora acabou e a presidência de Bush-Cheney já não terá grande influência, mas as eleições de ontem foram sobretudo a primeira batalha pela próxima presidência e o entusiasmo da esquerda europeia é talvez prematuro.
Esta é a minha leitura e devo esclarecer que, se porventura votasse nos Estados Unidos, votaria no Partido Democrata, e também acho que a votação de ontem é positiva para a Europa e, portanto, para Portugal, e por duas razões que não estão a ser referidas: o próximo presidente (democrata ou republicano) será menos radical que Bush e o novo poder talvez respeite os seus aliados mais do que fez o demitido secretário Rumsfeld, o da velha América.

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segunda-feira, outubro 23, 2006

O buraco na bandeira


Pacheco Pereira contesta a definição de "extrema direita" dada aos manifestantes que, em Budapeste, protestam contra o governo de Ferenc Gyurcsany. Concordo com a observação de Abrupto. É necessário explicar que não é a extrema-direita que está na rua, mas parte muito significativa do país. O Pedro, aqui no Corta-Fitas, tem um magnífico post sobre a revolução húngara de 1956 e peço aos leitores que também leiam com atenção aquele texto. O que tentarei fazer aqui é traçar uma tentativa de explicação da crise que está a rebentar nos países pós-comunistas do leste da Europa os quais, não podemos esquecê-lo, são nossos parceiros na União Europeia.
Superficialmente, os tumultos de Budapeste são um protesto contra o Governo. Mas penso que não são apenas isso. A sociedade húngara está profundamente dividida e a pagar os custos de não ter feito o seu ajuste de contas com o passado. Já escrevi isto aqui: os vencedores do antigo regime são os vencedores de hoje; os perdedores continuam perdedores.
Em 56, não existe apenas um elemento de levantamento nacional, mas parcialmente o conflito foi uma guerra civil. Seguiu-se um compromisso (a Hungria teve a mesma reacção depois da revolução fracassada de 1848-49, contra os austríacos, o que deu a monarquia dual austro-húngara) e essa fase de compromisso beneficiou muita gente. O regime comunista era um pouco mais aberto, muito corrupto e numerosas famílias tiveram amplos privilégios. Estes e os seus filhos foram os vencedores da "democracia". Ponho a palavra entre aspas porque é óbvio que a democracia húngara (tal como acontece com as democracias dos países pós-comunistas) tem uma qualidade deficiente. Não existe verdadeira liberdade de Imprensa e as instituições não impedem os abusos do poder. O parlamento é uma anedota. É um tema lateral, mas o país não resolveu o seu passado fascista, o anti-semitismo, o racismo em relação aos ciganos.
A história da "extrema-direita" serve os interesses deste grupo, que se apoderou do poder de forma imoral e que se recusa a ouvir o seu próprio povo, cuja indignação está a atingir os limites. Gyurcsany conta com o ocidente para manter o seu governo: se a "extrema-direita" é quem está na rua, então ele é o garante da legitimidade; outro mito que se tenta fazer passar é o de que a direita democrática (que perdeu as eleições de Abril por pouco, pois o primeiro-ministro mentiu à população) está a ser um instrumento da "extrema-direita". Ora, esta não tem qualquer expressão eleitoral e não conseguiu eleger um único deputado. Em resumo, não existe.
Conheço algumas histórias de 56. São histórias de pessoas derrotadas, as que sobreviveram. Elas são o buraco na bandeira. Já não existe a odiada foice e martelo para cortar, mas continua a existir aquele vazio na memória. Hoje, nas cerimónias oficiais, os derrotados ficaram de fora e os vencedores até da sua revolução se conseguiram apropriar. Os mesmos que lhe chamavam contra-revolução.

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sábado, outubro 14, 2006

Impunidade?

A crise norte-coreana entrou na fase crucial, com possíveis desenvolvimentos nas próximas horas. Tudo indica que a explosão realizada pelo regime de Kim Jong-il resultou da deflagração de um engenho obsoleto, mas nuclear. Tudo aponta para sanções limitadas da ONU, pois China e Rússia deverão bloquear qualquer resolução que possa incluir eventual força militar.
O regime irresponsável do ditador norte-coreano sofrerá bloqueios económicos e novas carências energéticas e alimentares, mas não suficientemente extensos para causar o seu colapso. Isso só irá piorar a situação lamentável da população. O embaixador americano nas Nações Unidas, John Bolton, dizia cinicamente que o povo norte-coreano já baixara o seu peso médio e altura média, portanto o ditador também podia fazer dieta. Ele referia-se a produtos de luxo que serão incluídos nas sanções, mas tocou no ponto essencial: a miséria dos inocentes é uma realidade.
A queda do regime de Kim Jong-il não interessa nem a russos nem a chineses, mas é uma perspectiva que assusta a Coreia do Sul (que seria obrigada a liderar a reunificação da península) e talvez os próprios EUA (quem sabe o que pode acontecer numa transição destas?). No tempo de Kim il-Sung, que iniciou a Guerra da Coreia (a que se refere esta pintura de propaganda), Moscovo e Pequim pareciam ter mais influência. O estranho é que já não consigam controlar os caprichos do “querido líder”.
Em resumo, o teste pode ficar impune, com sanções pouco mais fortes das que sofreram Índia e Paquistão, em situações idênticas. A ditadura comunista acabará um dia, mas não será da mesma forma que ditou o fim do regime de Saddam Hussein. E a argumentação usada na altura podia muito bem ser utilizada agora.
Se o crime de desenvolver e testar armas nucleares compensa para Pyongyang, também compensará para Teerão. A proliferação nuclear é inevitável. E existe um perigo arrepiante: o querido líder, num desespero, pode decidir vender os seus engenhos a grupos ou regimes fanáticos, com agendas ainda mais perigosas. Esta é uma crise muito preocupante e a única saída será o recuo incondicional de Kim Jong-il. Esperemos que as sanções sejam suficientes.

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segunda-feira, outubro 09, 2006

Um regime alucinado

O regime louco da Coreia do Norte testou com êxito uma arma nuclear, abrindo caminho a um perigoso conflito e à proliferação atómica em toda a Ásia. Já aqui contei algumas impressões pessoais sobre aquele país isolado, onde impera uma bizarra dinastia comunista. Uma das imagens mais fortes dessa visita (em 1989) foi a visão acidental do estaleiro da construção de um gigantesco hotel em forma de pirâmide, que na altura do início da obra (1987) seria o mais alto edifício do mundo. Cheguei lá por acaso e os guardas logo me afastaram, mas permiti-me um relance: pareceu-me de repente que tinha entrado nas filmagens de alguma superprodução bíblica de Cecil B. de Mille. Milhares de pessoas, como formiguinhas, carregavam materiais para a construção. Não parecia haver máquinas, apenas aquele espantoso movimento de uma multidão de trabalhadores, sem efeitos especiais, um exército em campo de batalha. Sempre me interroguei sobre o que acontecera a tão gigantesco hotel. Encontrei recentemente algumas pistas, num blogue americano, The Klog, de onde pirateei esta fotografia de 2005. Os norte-coreanos concluíram a estrutura em betão e deixaram a construção em tosco, sem acabarem os 3 mil quartos. Nem sequer há janelas. No topo, mantém-se um precário guindaste, ali suspenso desde que tudo parou, em 1992. No mesmo blogue diz-se que a construção foi suspensa por ter sido usado betão defeituoso. Enfim, é este regime irresponsável e alucinado, incapaz de alimentar a sua própria população, que agora concluiu com êxito um teste nuclear. O oitavo país do mundo a fazê-lo.

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sábado, julho 08, 2006

Coreia do Norte (I)

A comunidade internacional acordou repentinamente para o problema da Coreia do Norte, após o regime de Kim Jong-Il ter lançado mísseis de grande alcance. Com esse desenvolvimento, surgiram comentários entre a perplexidade e a habitual insistência na necessidade de dialogar e de pôr a diplomacia a negociar um acordo. Ao contrário do Iraque de Saddam, que só podia fazer mal a si próprio, este é um problema novo e sério: a Coreia do Norte tem armas de destruição maciça e é capaz de as usar.
Em 1989 tive a rara sorte de poder entrar à socapa na Coreia do Norte (eles não sabiam que eu era jornalista). Escrevi a minha reportagem no falecido Tempo, já na altura um jornal em agonia, e ainda me lembro do protesto da embaixada, pois nesse tempo havia uma embaixada da Coreia do Norte em Lisboa, a qual ocupava um dos melhores palacetes da cidade.
O que vi? Nesse tempo, o “Grande Líder” era Kim Il-Sung, pai do actual ditador. A fotografia que tirei à sua famosa estátua diz tudo. Contavam-se as histórias mais mirabolantes sobre a sinistra personagem; lembro-me, por exemplo, de ouvir que o presidente tinha ordenado que construíssem um túnel desde a montanha onde combatera os japoneses até ao seu palácio pessoal e que esse túnel servia para fazer circular ar puro da montanha até ao quarto onde o ditador dormia o seu sono tranquilo.
A história não passará de lenda, mas o culto de personalidade e o total isolamento do regime eram bem reais. O colapso do bloco socialista ainda não ocorrera, mas eram já visíveis as fissuras, pelo que o regime coreano entrou pouco depois numa crise acelerada, que acentuou as tendências já visíveis: escassez de recursos, isolamento, loucura.

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Coreia do Norte (II)

Milhares de pessoas avançavam, nas estradas vazias, na noite, a caminho de pequenas fabriquetas e oficinas. Na loja (ao estilo de grandes armazéns soviéticos) as mulheres tinham a possibilidade de usar um único modelo de vestido elegante (revista Burda, anos 50, duas cores à escolha); no centro da cidade, erguia-se uma espécie de pirâmide gigantesca (seria o maior edifício da Ásia); aproximei-me, num impulso irresponsável, passei os guardas, que me olharam siderados, e vi por segundos, antes que chegassem os polícias (estavam em pânico) o imenso estaleiro da obra: parecia a recriação das pirâmides de Gizé, numa imitação asiática de Cecil B. de Mille. Um formigueiro humano, para construir um penedo que não servia para nada, pois para aquele hotel não havia turistas.
Na Coreia do Norte, a História era uma obscura sucessão de eventos confusos, até ter surgido Kim Il-Sung (agora, também o seu herdeiro e actual líder, Kim Jong-Il), o sol na Terra. Ele era o autor de todos os desenvolvimentos, descobertas e avanços da Humanidade, o maior génio vivo, de facto o único génio. Em Pyongyang ainda existe um enorme monumento à ideia Ju-Che, um dos três pilares daquele regime alucinado. Trata-se de um conceito misterioso, de tipo chauvinista, que julgo vir de alguma noção antiga, transformada em obediência cega. Outro símbolo é um cavalo alado, esse sem dúvida com origem na tradição coreana antiga. Finalmente, o líder, cuja infinita sabedoria não pode ser posta em causa. Em resumo, tabula rasa do passado e o presente transformado numa espécie de parque temático onde a ideologia era uma amálgama de autoridade e resignação.

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Coreia do Norte (III)

A Coreia do Norte é um Estado totalitário, absolutamente fechado, onde a população não tem qualquer ideia, por mínima que seja, sobre o mundo exterior. Negociar com o louco que controla aquele mundo delirante incentivará novas loucuras e chantagens. Por outro lado, é impossível derrubar um regime baseado na paranóia e, mesmo que aconteça o impensável, a queda de Kim Jong-Il, a transição pode ser ainda mais perigosa. Controlar esta situação através da fome e de mais isolamento será desumano. Por tudo isto, acho que a questão coreana é mais perigosa da actualidade, muito mais do que um Iraque que não tinha armas nucleares ou do que um Irão que nunca usará as armas que eventualmente venha a construir.

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sexta-feira, julho 07, 2006

Agitação a leste (I)


Uma série de eleições, na Europa Central, deu origem a resultados perturbadores e difíceis de compreender. O mais recente foi na ex-República Jugoslava da Macedónia, onde venceram os nacionalistas da oposição, após campanha marcada por acções de intimidação. Para piorar o cenário, aquele frágil país está ameaçado pela violência étnica. Importa reflectir sobre as mudanças que se registam em vários países da região, com o aumento da instabilidade política. Na República Checa, dois blocos antagónicos anulam-se mutuamente, sem possibilidade de se formar governo, pois há 100 deputados para cada lado e a grande coligação parece inviável, de tal forma os líderes se odeiam. No bloco à esquerda, os social-democratas euroentusiastas formam aliança com os comunistas (linha dura, a única sobrevivente na zona).
Na Eslováquia, o governo de coligação (que evitou a ostracização do país e conseguiu levar este caso terminal à União Europeia) foi rejeitado nas urnas, perdendo para ex-comunistas aliados com nacionalistas, os quais têm um discurso de hostilização da minoria étnica húngara, cujo partido pertencia à coligação derrotada. Lembram-se do pugilista Meciar? Pois, os seus discípulos estão de volta!
Na Polónia, a direita nacionalista católica venceu as legislativas e as presidenciais e recusa entender-se com o segundo maior partido, de liberais também saídos do Solidariedade, enquanto a esquerda ex-comunista foi totalmente afastada. Os populistas anti-semitas e anti-europeus estão a aumentar a sua influência. Os dois irmãos Kaczynski tomaram definitivamente as rédeas do poder.

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Agitação a leste (II)


Encontrar aqui padrões não parece fácil: li recentemente uma tentativa de explicação, num texto de José Medeiros Ferreira publicado aqui, segundo o qual as recentes mudanças na Europa de Leste se podiam compreender pela rejeição do neoliberalismo. O autor definia os partidos ex-comunistas como “social-democratas” e concluía que a “social-democracia agora só vence eleições no Leste europeu quando virada para a esquerda”. Dava exemplos da Eslováquia e da Hungria.
Acho um erro interpretar as divisões nestes países como conflito ideológico entre nacionalistas e social-democratas; ou entre direita-neoliberal “domesticada por Bruxelas” e “a esquerda clássica”. Pelo contrário. A direita nacionalista é sempre anti-europeia e odeia os ex-comunistas, que foram os autores das privatizações. Nestas, os membros do antigo regime (os que se converteram a tempo) encheram os bolsos. Para se entender o leste europeu é necessário fazer um pequeno exercício: imagine-se o fim do regime autoritário em Portugal; a União Nacional converteu-se num partido “social-democrata” e aderiu à Internacional Socialista, privatizou selvaticamente e os seus membros ficaram milionários; estes políticos, que se afirmam de esquerda, mas que são na realidade conservadores, defenderam a entrada veloz na União Europeia e na NATO; eles controlam os meios de comunicação e têm a única máquina partidária eficaz; alguns membros da PIDE são agora capitalistas bem sucedidos; e, cereja em cima do bolo, os antigos dissidentes (nacionalistas porque o país estava sob ocupação militar estrangeira) foram os primeiros a ficar desempregados, pois vinham geralmente dos meios intelectuais, os que mais sofreram com os cortes de orçamento. Os ex-membros do antigo regime andam de Mercedes e enriqueceram parvamente; os que lutaram pela liberdade continuam excluídos na nova ordem económica.

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Agitação a leste (III)


Esta visão é algo caricatural e exagera um pouco a situação. Mas serve para sublinhar o meu ponto: as recentes eleições nos países da região mostram um padrão preocupante a favor de mais instabilidade. Apesar das elevadas taxas de crescimento económico, as populações estão cépticas em relação ao ritmo de desenvolvimento, que beneficia as empresas estrangeiras. A opinião pública cada vez mais desconfia de Bruxelas, porque a UE sempre apoiou os partidos conservadores (aqui, no sentido de quem nunca desejou a mudança).
Estas democracias ainda não fizeram o acerto de contas com a História (veja-se o uso cirúrgico dos ficheiros das antigas polícias políticas). Paradoxalmente, aquilo que as separa do populismo desenfreado é a exigência de bom comportamento que Bruxelas associa à onda de subsídios que só agora começa a inundar sociedades que ainda não resolveram os problemas de corrupção e as profundas divisões étnicas.

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