Domingo, Setembro 30, 2007

Pequeno Comércio

Vejo nas escutas telefónicas publicadas no Sol relativas a Março e Abril de 2005 que o actual ministro da administração interna, Rui Pereira, beneficiou da confluência de uma rede de interesses que inclui Paulo Portas (com acesso directo a Jorge Sampaio por via do pai, o arquitecto Nuno Portas), Abel Pinheiro (de quem será colega de loja), José Sócrates e Fernando Marques da Costa (outro "avental") no sentido de influenciar Jorge Sampaio a demitir Souto Moura e a escolhê-lo como PGR. Pelo meio, há indicações de contrapartidas: informar o PP da existência de inquéritos do Ministério Público que envolvam o partido.
Não é que eu esteja escandalizada. Só não consigo deixar de ficar surpreendida com a rede de interesses subterrâneos que mina as regras da democracia e de achar, mais uma vez, que Souto Moura foi muito sub-estimado.
Espero que José Sócrates também esteja surpreendido. Espero que o Ministro da Administração Interna se explique. Mas desconfio que não o vai fazer.

Fora de série (9)

Que saudades da série The Fugitive que a RTP2 em tempos passava religiosamente às oito horas da noite e a que eu, também religiosamente, assistia dia sim dia sim. Lembro-me da ansiedade que antecedia o início de cada episódio, que eu via a preto e branco numa enorme Nordmende. Ansiedade é, aliás, a melhor palavra que encontro para definir o que se passava em todos e em cada um dos episódios. O bom do dr. Richard Kimble sempre em perseguição do One-Armed Man que ele sabe ter assassinado a sua belíssima mulher. Incansável, Kimble (interpretado por David Janssen) percorre os EUA de lés a lés, movido por um sentimento de raiva e de vingança pelo que perdeu, o amor da sua vida.
No meio da sua saga, Kimble, com uma moral cristã acima de toda a prova, encontra sempre tempo, forças e disponibilidade para ajudar o próximo - mesmo foragido à Justiça e sempre com o tenente Philip Gerard à perna. Seja uma dona de casa em apuros, um negro injustiçado pelo racismo ou um gato em cima do telhado (estou a exagerar). A série de Roy Huggins e Quinn Martin foi um estrondoso sucesso nos EUA, sendo emitida de 1963 a 1967 na ABC. Quando a série deu em filme, nos anos 90, e com Harrison Ford no papel de Kimble, não fiquei desiludido. Pelo contrário. A angústia de episódios sem um fim à vista resolveu-se ali em duas horas e tal. Mas resolveu-se bem e a fuga do One-Armed Man, que escapava sempre por um triz na televisão, ali não dura muito. Sempre é menos angustiante.

Etiquetas:

Notas duma viagem no fim de Setembro

Cheguei já de noite ao hotel em Belfast depois de ter percorrido Londres e Dublin em três dias. Trata-se da última etapa duma maratona de trabalho. Cheguei lá de comboio, atravessando as verdejantes planícies irlandesas na companhia de Eça. O tempo está cinzento e frio, à maneira do Inverno português. Chove. Quando, oriundos de Lisboa descíamos para Dublin e atravessávamos as nuvens negras, um casal irlandês de regresso a casa lamentava a sua negra e húmida fatalidade. Fontes Pereira de Melo gabava o clima em Portugal, como uma divina compensação do nosso crónico atraso cultural, industrial, infraestrutural. Na Irlanda até há pouco tempo tinham as duas coisas: o atraso e o mau tempo. Valeu-lhes sempre uma alma enorme.
Em Belfast a chuva não é um acontecimento. Ela cai num choro contínuo, de mágoas ancestrais. Um casal jovem passeia o bebé em Donegall Square num carrinho de coberto por uma capota transparente. As bicicletas rolam indiferentes sob os oleados dos seus ciclistas. O povo ávido de se esquecer, escapa pelo meio da chuva para os seus pubs e bares, para bem regar o fim da tarde.
Em Londres, um gigantesco formigueiro humano, multirracial - o sonho realizado de qualquer verdadeiro internacionalista - labora numa impressionante eficiência e harmonia. Do aeroporto, ao trânsito na cidade, ou numa loja de pronto a comer, tudo funciona "sobre rodas". Nota-se prosperidade, e as pessoas são simpáticas e cooperantes. A mim, até um tardio jantar de Fish and chips me soube pela vida no Langan’s em Mayfair (o local indicado para encontrar genuínos indígenas na tradicional e entusiástica copofonia).
Cai sempre bem um sorriso ou uma piada de ocasião ao viajante solitário, em ambiente estranho e natural tensão. Aconteceu de madrugada, no hall do hotel em Belfast à espera de um táxi para mais uma jornada de viagem e aeroportos, quando comentei com o recepcionista um curioso pássaro de cauda comprida que observava a saltitar no jardim. O simpático irlandês, disse-me o nome do bicho (perdi a nota); e com um sorriso irónico tratou de me informar que, segundo o saber popular, eu teria que ver outro igual antes de partir, ou a visão significava um sinal de azar. Não vi, e cheguei esta tarde a Lisboa, à Portela, sentado na fila treze, de boa saúde e disposição.

Etiquetas: ,

Memória

José Pacheco Pereira sempre se achou dono da verdade. Mesmo que às vezes não saiba muito bem de que verdade fala. Para ele, só havia o jornalismo que ele autorizasse e reconhecesse. Ou não havia jornalismo nenhum. Apesar da roupagem de social-democrata, os tiques comunistas estão lá todos. Já agora, diga quais são os erros factuais? E de que "escândalos" fala dos tempos dos governos de Aníbal Cavaco Silva? Pacheco Pereira tinha a obrigação de falar neles, até porque, se bem me lembro (e eu tenho memória), foi vice-presidente do grupo parlamentar e depois sucedeu até, em circunstâncias ainda por apurar, a Domingos Duarte Lima. Foi isso tudo durante os governos de Cavaco Silva, na mesma altura em que Luís Filipe Menezes era secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. Presume-se que a direcção da bancada falasse e trocasse informação com o secretário de Estado e, já agora, com o ministro da tutela, que, se a minha memória não me falha, se chamava à época Luís Marques Mendes. Se sabe de tantos "casos", então por que razão os omitiu do povo português durante tanto tempo?
-----
P. S. - O único vislumbre de "erro factual" a que JPP poderá estar a referir-se deve ter a ver com a sua fugaz passagem pela distrital de Lisboa do PSD e o facto do seu adversário na altura (Pedro Passos Coelho, que ele derrotou em 1996) lhe ter toldado o espaço na estrutura. Daí a expressão "roubou a distrital". Nunca se disse que PPC foi líder do PSD/Lisboa. Não, por amor de Deus. Esse papel foi de JPP e só dele. É com este tipo de minudências que, infelizmente, JPP se preocupa. Ainda por cima com leituras na diagonal.

As emoções básicas (crónica) XIV



1.
No filme de Milos Forman, Amadeus, o aspecto mais fascinante era a questão da inveja artística de Salieri por Mozart. Naquela história, o compositor italiano era o único a compreender a imensidão do génio do austríaco. Mas o pior era o facto do artista menor não ter ilusões sobre a sua falta de talento. E Salieri compreendia que Mozart sabia disso. Sempre me fascinou esta trama simples.
Trata-se evidentemente de uma história. Mas o ponto é que a maior parte das obras de arte estão à partida condenadas ao esquecimento. E muitos autores vivem na doce ilusão de que podem eventualmente criar obras que lhes sobrevivam. A estatística é, no entanto, muito desfavorável. Talvez um trabalho em cada mil consiga ser lembrado dez anos depois de ter sido feito; talvez um em cada cinco mil sobreviva 50 anos. E um em dez mil, um século.
Pensei nisto enquanto lia um livro em que paguei quase por acaso. Chama-se Atlântida, escrito por um francês, Pierre Benoit. O livro foi famoso no seu tempo (1919) e teve duas versões em cinema, uma das quais devo ter visto parcialmente, há muitos anos, certamente a sonora, de Pabst, em 1932.
Nesta fantasia, dois exploradores percorrem no deserto zonas inexploradas e encontram o reino de Atlântida, dominado por uma rainha, Antinea, que manipula e mata os seus amantes, formando uma verdadeira colecção. Para o efeito pouco importa. A história é cruel e mexe com o imaginário erótico masculino. O enredo é algo ultrapassado, com um fantástico pouco interessante e menos credível.
E, no entanto, dei por mim a devorar o livro. Se as últimas páginas foram mais penosas, o início pareceu-me fulgurante.
2.
Os livros que nos parecem hoje menos bons têm, por vezes, momentos fantásticos. Segundo li na Wikipedia, Benoit foi soldado e conhecia o deserto. A sua descrição da expedição militar é intensa e vivida, a paisagem torna-se quase perceptível e os perigos parecem autênticos.
De súbito, estava a revisitar as aventuras de Beau Geste (lembrei-me do filme); e também recordei O Deserto dos Tártaros, de Buzzati; parecia por instantes que poderíamos viajar dali, directamente para O Céu que nos Protege, de Paul Bowles; existia o mesmo fascínio pelos abismos de um conto de Camus que me impressionou. Sobretudo, detectavam-se pedaços de um autor que marcou a minha juventude, Jules Verne.
Atlântida não ficará na história da literatura, mas há farrapos seus que contaminam outras paragens.
Cada obra de arte é como um código genético pessoal. E assim é com os livros, cujas histórias atravessam as gerações, em diferentes variações de emoções básicas.

3.
Um escritor de ficção científica, Clifford Simak, escreveu uma pequena novela, Time and Again, traduzida em português por Guerra no Tempo, número 34 da famosa colecção Argonauta. Foi um livrinho que me impressionou muito, quando o li, talvez aos 14 ou 15 anos. A história é complexa, com vários patamares de tempo e personagens que viajam do futuro para tentarem alterar o seu presente e personagens do presente que vão para o passado para se refugiarem do futuro, deixando mensagens do passado para o presente. Lembram-se dos filmes Terminator? Era a mesma ideia.
Recentemente, passou nos cinemas um filme europeu feito com meios sofisticados, O Som do Trovão, que não recolheu os aplausos da crítica. A meu ver, mal. Uma empresa faz viagens aos passado, mas num desses saltos, o passado é alterado. Essa mudança temporal chega em ondas que vão alterando o presente, em camadas sucessivas, apagando tudo o que passou. No final, percebemos que a única alteração foi a morte de uma borboleta, 65 milhões de anos atrás. A história é de Ray Bradbury, outro autor cujas ideias têm contaminado muitas obras alheias.

4.
Acho que o que me interessa em todas estas fantasias não é tanto o elemento exótico, mas sobretudo o desconhecido. Quando os dois militares avançam pelo deserto e nós não sabemos o que se encontra no seu caminho, este é o momento que mais me interessa.
Vivemos na era do explícito, sexo explícito, action replay em câmara lenta, mensagens sem subtileza, morte em directo, repetida, repetida. Parece não haver lugar para metáforas ou exercícios de estilo. Mas trata-se sobretudo de uma ilusão. A alma humana, atrás dos gestos, esconde os mesmos mistérios de sempre.
Parece que já descobrimos tudo, mas a nossa fantasia sabe que não é assim.
O maior desconhecido não tem a ver com desertos inexplorados, mas com o que não sabemos sobre nós próprios. Os nossos medos (da morte, do sexo), as alegrias e tristezas, as aversões e fúrias.
A inveja de Salieri pelo génio de Mozart, por exemplo, que pode ser medo, mas que tem uma componente de angústia e outra de surpresa pelas maravilhas que o rival compõe. O conflito é semelhante ao de Atlântida: sabemos à partida que um dos exploradores matou o outro e, quando o sobrevivente conta a história, percebemos de imediato que a rivalidade entre os dois era inevitável. Mas de que paixão nasceu? Da ira, da inveja, do desprezo?
Tal como o capitão Saint-Avit dessa história, na posse de um terrível segredo, rejeitado pelos seus camaradas, também o compositor Salieri vive consumido pelo que não pode confessar: o seu ódio silencioso a um rival que o parece derrotar além da vida, o genial Mozart, a quem os deuses permitiram a imortalidade.
E, claro, é uma injustiça quando os deuses preferem os outros...

Etiquetas: , ,

Da vida na cidade







No passado dia 21 deste mês, a sala da Cinemateca encheu-se de sons saídos do piano que acompanhavam John Gilbert e Mae Murray no filme mudo "A Viúva Alegre" de Eric von Stroheim, cheio de galãs românticos com bigodes de luxo e obsessões com sandálias de fazer inveja a modernos fetichistas.
Foi com este filme que o Odéon abriu as portas ao público em 1927. Foi nesse dia que lisboetas aprimorados puderem ver "A Viúva Alegre" num écran mudo acompanhado de orquestra. Quem passar ali na Rua do Condes , oitenta anos depois, pode constatar a estado de abandono em que se encontra esta antiga sala de cinema, encerrada há alguns anos.
Como escreveu E.B. no DN: "É impressionante. Em poucos anos, mudou tudo. Vetustos, velhos ou não tão antigos como isso, os cinemas tradicionais da capital desapareceram quase todos, e foram substituídos pelos multiplexes dos centros comerciais. (...) A experiência de ir ao cinema alterou-se por completo. Ir ao Monumental não era o mesmo que ir ao Odeon, como ir ao Star não era igual a ir ao Lys. (...)"
Isto significa que desapareceram os cinemas de rua. Em dias de maior indignação chego a pensar que tanto as árvores como a vivência das ruas é algo a que esta cidade virou as costas. E chegamos encantados com o movimento de Madrid de dia e de noite e onde uma baronesa se manifesta nas ruas em defesa das árvores junto ao Paseo del Prado. Porque as filas que vemos nas ruas e nas principais avenidas em tardes de fins de semana tanto em Madrid como em Paris são para a compra de bilhetes de cinema, com gente em cafés circundantes e habitando (também) assim a cidade.
Entristece-me ver como Lisboa vai abandonando lugares da sua história como uma inevitabilidade, só isso.

Primeira chuva

(...)


Eis o outono: cresce a prumo.

Anoitecidas águas

em febre em fúria em fogo

arrastam-me para o fundo.

(...)

Eugénio de Andrade

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 16, 19-31

Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas.
Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, ou daí para junto de nós, não poderia fazê-lo’. O rico insistiu: ‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’. Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas. Que os oiçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão’.

Da Bíblia Sagrada

Etiquetas: ,

Sábado, Setembro 29, 2007

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XX)


HANGZHOU.
"Uma viagem de mil léguas começa sempre com um pequeno passo." (Lao Tsu)

Postais blogosféricos

1. Ligação inaugurada, aqui no Corta-Fitas, à Palavra Aberta, o novo blogue do Carlos Manuel Castro.
2. Há deputados na blogosfera. Pedro Quartin Graça é um deles. Faz muito bem.
3. Boa viagem, Miguel.
4. Este blogue parece mesmo ter acabado. Tenho pena: gostava muito dele.

Etiquetas:

"A grande lição"

Pela segunda vez em poucos dias, Pedro Santana Lopes acerta em cheio.

Os barões assinalados


Catastrofista, eu? Apocalíptico, eu? Leiam o que vai por essa blogosfera fora, escassas horas após a vitória de Luís Filipe Menezes no PSD. Reparem bem na manchete do Expresso, que mesmo tendo fechado ontem a edição à hora em que abriram as urnas já proclama: "Notáveis do PSD contra as directas." Lá vem o inevitável desfile dos barões assinalados. Morais Sarmento, no intervalo entre dois mergulhos em águas tépidas, garante com enfastiamento que "o seu nome voltará para a guerra da sucessão". Arnaut promete empenhar-se "com mais fulgor" na vida do partido para fazer eleger Rui Rio, "o homem que este ex-secretário-geral do partido sonha ver ao leme" do PSD. Aguiar Branco, que no Verão avançou meio passo para logo recuar em toda a linha, "não afasta a hipótese de repensar o assunto se uma nova disputa surgir no horizonte".
Ou seja: não aprenderam nada nem esqueceram nada. O partido a que julgam pertencer já não é o deles. Nem de ninguém, pois desfez-se em cacos.
..............................................................................
Entretanto, vale a pena ler:
- Nada será igual, do Carlos Abreu Amorim. No Blasfémias.
- Menezes, do Francisco José Viegas. N' A Origem das Espécies.
- Menezes, do João Gonçalves. No Portugal dos Pequeninos.
- A culpa é dos ausentes, do Adolfo Mesquita Nunes, n' A Arte da Fuga.
- PSD (7), de Vital Moreira. Na Causa Nossa.

Etiquetas:

A minha reacção primeira e última

É a seguinte: «O País está doido». Ou, mais exactamente e ainda com piores consequências para o dito país que é o nosso, «o PSD ensandeceu». Está no seu direito.
Post Scriptum: Devo deixar aqui uma vénia mal-encarada aos jornalistas políticos desta casa, que sempre anteviram este resultado. A um deles apenas (graças à piedade de outro que prescindiu de esfolar-me) devo agora um almoço. Espero que a casca dos bivalves lhe custe tanto a engolir como a mim estas eleições.

Primeiras reacções

"E pronto. Acabaram com o PSD. (...) O PSD já era. Agora é tempo de crescerem partidos novos."
JCS, Lóbi
"O PSD estava à beira de um precipício. Acabou de dar um passo em frente. Entre o intervalo e o abismo escolheu o abismo."
Daniel Oliveira, 31 da Armada
"Bem podem continuar no remanso das sinecuras. Os bárbaros vêm aí. E é bem feito."
Eduardo Pitta, Da Literatura
"É difícil fazer a lista dos sinistrados: Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira, Cavaco Silva, Alberto João Jardim, Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, Paula Teixeira da Cruz, Guilherme Silva, Macário Correia, Carlos Coelho, etc."
Rui Albuquerque, Portugal Contemporâneo
"Pobre País."
José Pacheco Pereira, Abrupto

Eis a questão…

O relógio marca 01:47. A SIC acompanha, em directo, da sede de candidatura de Filipe Menezes, o seu discurso de vitória. E se Mourinho tivesse acabado de aterrar agora na Portela?

Em cheio

Antes de ganhar no partido, Luís Filipe Menezes ganhou no inquérito do Corta-Fitas. Com 67 votos (62%), contra 41 (38%) de Marques Mendes. Quem sabe, sabe...

Preparem-se

Vai começar a debandada das "elites" sociais-democratas. Paula Teixeira da Cruz bem avisou.

Etiquetas:

Mais derrotados

Todos os barões sociais-democratas que se resguardavam na sombra, à espera da queda de Mendes só em 2009. Esqueceram-se de que a política, tal como a natureza, tem horror ao vácuo. Agora vão ter de esperar bastante mais.

Etiquetas:

Derrotado

Marques Mendes perdeu a eleição para a liderança do PSD. Mas não a perdeu hoje: já a tinha perdido no dia em que foram conhecidos os resultados para a Câmara Municipal de Lisboa. Como dizia o outro, estava escrito nas estrelas.

Etiquetas:

Sexta-feira, Setembro 28, 2007

Portugal

“País de homens importantes, que não atendem ao telefone porque pode fazer mal aos ouvidos, país de homens dilatados que estão sempre a despacho e não têm horas para descanso; heróis de uma pátria que só compreendem nos jornais.”
Ruben A., O Mundo à Minha Procura

Etiquetas:

Pretéritas Sextas (VI)

Greta Garbo

Etiquetas:

O mundo está perdido, é o que é


Esta versão «bloco descentrada» do arco ideológico é muito divertida. Mas o que gostava mesmo de saber era: Daniel Oliveira também vai logo à noite ao Snob, comemorar na palheta com a direita Darth Vader? Ou, pelo contrário e numa rara manifestação de bom senso, vão todos para o Agito, onde se come e bebe melhor e mais barato? É só para saber. Quanto mais descompreendo o mundo, mais estrebucho por entendê-lo.
Legenda da fotografia: «Daniel, traidor, voltas a pedir uma bejeca ao Artur Beja ou à Madalena e estás feito ao bife do Snob».

Etiquetas:

No fim

"Adorei esta campanha", disse Marques Mendes. José Sócrates também.

Etiquetas:

They are the world


Vamos lá elevar o nível desta coisa a que chamamos blogue. Há temas sérios e que os portugueses querem ver discutidos, antes de perderem tempo com mordidelas na bunda de brasileiras despudoradas. E não me refiro às directas no PSD. Em Sintra, decorre o segundo Conselho para a Globalização: A nata dos nossos empresários encontra-se com outros de países como o Paquistão, o Quénia ou Angola. Todos juntos debaterão três temas, entre eles este: «Private Equity, amigo ou inimigo?». A mim, preocupa-me que a excelência do nosso mundo empresarial e dos outros não saiba ainda responder a uma pergunta como esta, à qual qualquer corretor tem a obrigação de responder. Adicionalmente, também me deixa um bocadinho perplexo que outro dos temas a discutir sejam as «Estratégias de Entrada para o Séc. XXI», quando já entrámos no dito século há sete anos. No entanto, a globalização é um tema premente do debate civilizacional hodierno e criadora de novos paradigmas no relacionamento entre países ricos e os ricos dos países pobres. Um acontecimento destes é para levar a sério (Embora a ausência dos manifestantes do costume à porta seja um sinal de indiferença contraditório).

Sexta


MARIA SHARAPOVA, again
(Qual râguebi, qual quê...)

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XIX)


CRACÓVIA.
"Cracóvia desempenha um papel excepcional na cultura polaca."
(Boguslaw Krasnowolski)

Etiquetas:

Porque hoje é sexta-feira


- Você alguma vez amou na sua vida? - F.A. perguntou.
- Ha, ha - respondi.
- Você é... uma pedra. Vai morrer sem amar. Como o Super-Homem.
- Eu amo seis mulheres. Sete, incluindo a crioula. Sete, conta de mentiroso. Amo sete mulheres. Uma delas é preta e outra é japonesa.
- Não acredito.
- Amo mesmo. Amo qualquer mulher que vá para a cama comigo. Enquanto dura o amor, amo como um doido.
- Você muda de mulher toda semana - disse F.A.
- Toda a semana porra nenhuma. Mariazinha eu conheci no baile do Municipal, ela estava sambando em cima de uma mesa e eu dei uma dentada na bunda dela, vai fazer um ano que isso aconteceu.
- Porque você fez isso? - perguntou F.A.
- O quê?
- Deu a dentada na, na moça.
- Sei lá. Tinha quinhentas mulheres trepadas na mesa, toda mesa tinha uma mulher em cima se exibindo, acho que aquilo me irritou. E a Mariazinha estava com a bunda quase de fora.
- E ela? O que foi que ela fez?
- Ela deu um grito. Então os caras da turma dela engrossaram e partiram pra cima de mim, e você sabe como é que é, tem sempre alguém levando as sobras e entrando na briga também, foi um sururu espectacular, durou só uns cinco minutos, mas acho que até o governador gostou de ver. Quando saí da enfermaria ela estava na porta e disse “bem feito”. Respondi “eu te amo”, e amava mesmo, e amo até hoje.


Rubem Fonseca in O Caso de F.A.

Fora de série (8)

Justificar o meu deslumbramento por uma música, por uma tela ou por qualquer performance artística afigura-se quase sempre pena maior do que arrancar um dente. Daquilo que eu gosto muito, gosto como um autêntico basbaque, com arrepios no corpo e pele de galinha na alma. E a relação que desenvolvo com o objecto da minha percepção é sempre muito condicionada pelas circunstâncias emocionais. Os estímulos e impressões daí resultantes são assunto terrivelmente solitário e de difícil expressão. Antes assim não fosse.
Vem isto a propósito de Os Vingadores (Grã Bretanha 1961-69), a minha saudosa série de TV que eu devorava fascinado cada episódio, através da velha televisão a válvulas da casa dos meus pais. No início, quando ainda mal sabia ler as legendas, assistia aos episódios numa semi-clandestinidade. É que numa família pouco liberal como a minha, a criançada tinha impreteríveis horas para se deitar. Mas havia truques e manhas para me fazer passar despercebido: no chão, de pernas cruzadas a respirar baixinho, num discreto recanto. Até que o meu pai dava conta que eu ali estava, tenso, mas flagrantemente feliz. Às vezes ele, adorável como sabia ser, suspirava e lá condescendia; outras, corria-me dali para a cama, cortante e autoritário, mesmo na altura do emocionante desenlace. Construí a relação com o meu pai com cumplicidades e desavenças. Ele era enorme, irascível e... meigo. Quantas vezes ficávamos os dois noite fora a ver Os Vingadores ou o Comissário Maigret... Os anos que passaram, progressivamente, acentuaram a nossa crónica incomunicabilidade. Mas como eu o admirava, mesmo quando na adolescência lhe ganhei os primeiros jogos de xadrez...
Num rebanho de cinco irmãos, cada um tinha que sobreviver e afirmar-se como podia, e nós lá arranjávamos os nossos "fetiches" ou "causas". Eu, além do Sporting – um factor não diferenciador -, era simplesmente pela Inglaterra, nas marcas de carros, no futebol, no rugby ou na Fórmula I. Até me dava um secreto prazer saber que a criadora do Noddy era britânica.
Os Vingadores possuía arrebatadores atributos para me seduzir: mistério, um herói com estilo, carros, perseguições de automóveis e mulheres deslumbrantes. Sabiam que Catherine Gale, a miúda (Honor Blackman) da terceira série veio a ser a Bond Girl de 007 contra "Goldfinger"?
John Steed (Patrick McNee) era um gentleman, imperturbável herói, com o seu charmoso meio sorriso, um inseparável chapéu de coco anti-balas e o conveniente guarda-chuva, não só por causa do britânico clima, mas por ser uma arma secreta, ao bom estilo de 007.
O resto eram lustrosos e potentes automóveis sport, em perseguições pelas ruas de Londres, nas estradas e nos campos da minha mistificada Inglaterra dos Beatles. John Steed conduzia um espectacular Rolls Royce Silver Ghost de 1927. Gostava do jeito afidalgado do herói e daquela pronúncia ao estilo BBC. Gostava dos cenários rocambolescos, dos palácios, bibliotecas e frondosos jardins. Também me deixei seduzir por Emma Peel, (Diana Rigg) mulher resoluta e ágil no seu macacão de couro, quase tão feminina como a idílica fada do Pinóquio. Mais tarde foi substituída por Tara King (Linda Thorson), na quinta série, também sexy mas mais irreverente, a acompanhar o decurso das modas da revolucionaria década de sessenta. Por fim lembro-me da “Mãe”, o fleumático e misterioso chefe da organização ao serviço de Sua Majestade. Só no início da penúltima série nos é revelado o seu aspecto físico: um homem imensamente obeso sempre sentado na sua cadeira de rodas e rodeado de telefones.
Mas nem sempre devemos voltar aos locais onde um dia fomos felizes. Há uns anos revi um episódio da série e confesso que sofri uma certa desilusão: os efeitos especiais não eram nada do outro mundo, e o guião menos sofisticado do que me parecia então. Essa simpática ilusão fora criada à conta da minha ingenuidade, e dos afectos vividos nesse tempo. É talvez por isso que a série Os Vingadores me trará para sempre boas memórias.

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

Muito barulho para nada

O ódio dos intelectuais à televisão é antigo e não se vai resolver nesta geração. Só assim se explica que Pedro Santana Lopes reúna, de repente, à sua volta um coro de loas por se ter recusado a continuar uma entrevista em directo.
Visto de fora, como fazem as agências de notícias estrangeiras, o episódio só vale por se tratar de um ex primeiro-ministro. Mas em que é que este incidente difere dos que acontecem diariamente com a imprensa escrita? Quantos entrevistados já se recusaram a continuar por não gostarem da pergunta, quantos jornalistas pararam os gravadores porque o entrevistado está a ser mal educado, ou não está a responder às perguntas? Quantas cartas de desmentidos, telefonemas de desagrado e ameaças de "nunca mais" se seguem à publicação de notícias e de entrevistas? Nunca em directo, claro, porque imprensa não pisa nessa corda bamba.
PSL enfrentou um jornal televisivo sem a atitude reverencial e sacralizada do costume. O resultado final é bom para a informação televisiva, porque permite que se discutam critérios editoriais (que, obviamente, são sempre discutíveis). Acontece a toda a hora, em todo o mundo, com todos os orgãos de comunicação social. Não justifica, a meu ver, a nomeação de PSL para o cargo "até que enfim há alguém que põe esses bandalhos no lugar".
Guardem as bazucas. É só televisão, feita por pessoas.

A direita em convulsão

A ver se nos entendemos, Paulo. Quando digo que este PSD acabou refiro-me ao partido híbrido existente desde 1974 - um partido que (con)funde populistas, liberais, conservadores e sociais-democratas. A partir de agora é impossível manter em funcionamento esta espécie de albergue espanhol. Se Luís Filipe Menezes ganhar, a reduzida ala social-democrata do partido e boa parte da falange liberal não tardarão a debandar: era isto que Paula Teixeira da Cruz queria dizer ao alertar contra o provável êxodo das "elites". Se Marques Mendes for confirmado líder, a facção saudosa do velho PPD sentirá mais que nunca a tentação de fundar um novo partido, que sirva de efectivo eco à "voz do povo". Desaparecerá o ténue traço de união entre o PPD e o PSD, que o cimento do poder manteve inalterado mais tempo do que mandava a lógica. Lisboa, onde o tradicional eleitorado laranja ficou recentemente dividido entre Fernando Negrão e Carmona Rodrigues, constitui um sério teste à recomposição da direita política. Foi também um teste à recomposição da esquerda, como a seu tempo se perceberá melhor. Mas para já é sobre o PSD que se abate a tempestade. Depois de sexta-feira nada ficará na mesma.

Etiquetas:

E lá fora... (2)

"Retorno de Mourinho pára Portugal e irrita ex-premiê na TV". É o título da Reuters Brasil, que de sensacionalista não tem nada. Desculpem, mas "ex-premiê" é do melhor...

Portela + 1

Marques Mendes em directo na SIC Notícias, às 17.30H. Entretanto, na sala VIP do aeroporto, um jogador retardatário da equipa dos Lobos prepara-se para enfrentar as câmaras.

E lá fora...

A notícia já está no El Pais. O qual, diga-se de passagem, também não escapou ao título tablóide. «Santana Lopes se ofende con José Mourinho»? Joder!!!

É notícia

Por uma vez, Pacheco elogia Santana. É notícia.

É obra

No youtube hoje às 15:55, o video : Santana Lopes versus José Mourinho versus SIC Notícias era referido no indicador "Honors for This Video como:

#54 - Most Viewed (Today)
#8 - Most Viewed (Today) - News & Politics
#23 - Top Rated (Today) - News & Politics
#31 - Most Discussed (Today) - News & Politics
#83 - Top Favorites (Today)
#9 - Top Favorites (Today) - News & Politics
e
Views: 27,357
Comments: 88
Favorited: 63 times

Maringá

O Corta-Fitas sofreu hoje uma explosão de visitas made in Brasil. Será que os militantes do PSD de Maringá nos estão a honrar com a sua entrada neste humilde blogue?
Já agora, estas militantes de outras causas (mais nobres) são dedicadas ao Pedro Dória - uma prova que a fama das nossas sextas-feiras já chegou ao Brasil...

Fotografia: Fernanda Motta e Ana Beatriz Barros, numa produção para a Sports Illustrated.

Nota falsa

A Direcção da SIC Notícias considera que «a chegada de José Mourinho não era um elemento perturbador de uma entrevista para a qual tínhamos previsto cerca de 30 minutos». Acontece que o tempo verbal aqui empregue está completamente errado. A estação estaria no direito de afirmar que «não foi um elemento perturbador» (eu acharia o contrário, mas enfim). O que não pode é dar a entender que já sabia que o directo não «perturbaria», porque não teria nem duração nem conteúdo. Assim, ainda se enterra mais.

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XVIII)


CATMANDU.
" Catmandu, vou ver-te em breve." (Cat Stevens)

Etiquetas:

A entrevista

Secção do PSD/Amazónia ou PSD/Paraná...

Na imagem, um grupo de militantes do PSD, já com as quotas devidamente pagas. São, portanto, militantes social-democratas com capacidade eleitoral activa para amanhã. Mas atenção: o Jorge explica que Maringá fica no Paraná, não na Amazónia.

Fora de série (7)

O Pai Ingalls


No princípio dos anos 80 La Familia Ingalls – assim foi traduzida para castelhano a série norte-americana Little House on the Prairie – foi uma das séries mais amadas na Argentina. Vivia eu em Buenos Aires com os meus pais e irmãos e por isso recordar a saga de Michael Landon é lembrar-me desses tempos em Olivos. Creio até que foi a primeira série que vi. Com seis e sete anos não reparava que cada episódio encarnava os postulados arreigados da moral protestante da América. Nem me apercebia que o melodrama de uma família rural norte-americana à procura do seu lugar no velho Oeste do século XIX continuava a ser a expressão, mais de um século depois, do sonho americano. O que eu sim reparava, de maneira irreflectida claro, era na intensidade da figura do Pai – Charles Ingalls, interpretado por Michael Landon. Cada episódio explorava a tensão entre a presença e a ausência do Pai. Se Charles não estava, tudo parecia correr mal à boa família de Plum Creek - a mãe, Carolyne, e as três filhas – Mary, Laura e Carrie. Charles era a protecção, a sabedoria, a força física daquelas mulheres. Laura era de facto a protagonista – a doce rebelde e desassombrada Laura Ingalls (Melissa Gilbert). Mas era à sombra do Pai, o seu ídolo, que ela respirava liberdade. Mesmo os pícaros irmãos Nellie e Willie, filhos do ridículo e snob casal Oleson - Nels e Harriett - donos do armazém, se rendiam perante a estatura moral do Pai Ingalls. Aliás, a família Oleson era precisamente o contraponto dos Ingalls. Com os Ingalls ríamo-nos dos perversos, mas também desastrados Oleson. Com os Ingalls moralizávamos tudo e todos.
Michael Landon nunca escondeu a agenda moralista da série. Ele próprio decidiu fazer dos escritos de Laura Ingalls Wilder (Little House, 1938) um exemplo. E o que é certo é que durante nove anos consecutivos (de 1974 a 1983) a NBC fez sucesso ao defender os valores da família unida que superava sempre todo o tipo de contrariedades e até as discriminações de cara alegre. À parte o irrealismo moral, foi uma série que me prendeu à televisão e que hoje me leva a questionar o que fez desaparecer tão repentinamente a figura do Pai da cultura familiar ocidental.

Etiquetas:

Quarta-feira, Setembro 26, 2007

10 elevado a 23

Foi mais ou menos quanto subiu a minha consideração por Pedro Santana Lopes neste preciso momento. Como resposta à decisão da SIC de interromper a entrevista para umas imagens fugazes do carro de Mourinho e umas inanidades do jornalista para encher o vácuo, PSL teve uma postura de rara elevação e dignidade e deixou a estação televisiva a falar sózinha. Bravo!
Actualização: Alguém habituado a «raciocínicos» diz-me que foi «apenas uma brilhante jogada decidida just in time e destinada a provocar comentários como o meu». Duvido que o tenha sido. Mas não deixaria, mesmo assim, de ser uma «jogada» capaz de aliar o sexto-sentido inato de um político a uma postura de Estado. A SIC, essa, é que fica sempre a perder em qualquer das leituras. Francamente...
Outra actualização: A SIC apresenta aqui o sucedido como se tudo não tivesse passado de uma simples birra de PSL. Não vale a pena, rapaziada. Nem excluir o vídeo do site tão pouco (aliás, não é lógico para as audiências).
E mais: Como sempre, o Rodrigo tem piada. Mas quem sintonizou a SIC Notícias não o fez para ouvir a persona de PSL como comentador de futebol. O que a SIC Notícias deverá entender para não repetir a proeza (e já agora os outros também) é que há alturas em que faz sentido o pot-pourri de uma «lógica noticiosa de 24 Horas». E outras como esta, em que claramente não. O que precisa de avaliar é a capacidade de decidir com base na efectiva informação prestada com os directos, para além do mero facto vazio de conteúdo. O que o canal fez foi menosprezar os seus espectadores, não apenas PSL. Se entenderem isto, só terão a ganhar.

Etiquetas:

Pensamento positivo

A terceira via do PSD, a de Morais Sarmento, já se adivinhava. Julgo, no entanto, que como bom estratega que é, Morais Sarmento vai querer uma vaga de fundo. E julgo que não a vai ter.
O lado positivo da onda que varre o PSD é que o Duarte Calvão deu à costa. Viva!

A pedido de alguns anónimos salivantes de expectativa


Uma «balzaquiana estupendaça». Património nosso e da Humanidade. Teresa Salgueiro.

Etiquetas:

Então é assim...


O PSD acabou porque já não é o que era, muito menos o que pode vir a ser.
O PS acabou porque agora é de direita e se afastou dos militantes de esquerda.
O CDS-PP acabou porque não tem quadros dirigentes nem descola nas sondagens e nos votos.
O PCP acabou porque se tornou um anacronismo e até o BE tem mais votos do que os comunistas.
O BE acabou porque não cresce para além dos centros urbanos e só consegue levantar a cabeça colando-se a «independentes» como Sá Fernandes.
O PND, o PPM e os Verdes, ah, ah, ah! Nem nos façam rir.
Em suma, os partidos políticos estão todos a dar o seu último suspiro. A democracia foi chão que deu uvas (olhem para a abstenção a crescer) e o que vem aí sabe-se lá, que a malta não está cá para clarividências. Está bem. Então prontos. Venha daí o dilúvio. Os partidos não sabem nadar, Iô!

Etiquetas:

Mudar de caras ou transfigurar

Muito mais que um mero post, isto é uma excelente análise política. Pedro, concordo, no essencial, contigo. Aliás, ainda hoje de manhã falava com um amigo que conhece tão bem o PSD como nós, e que já foi jornalista em tempos, que me dizia que o melhor era fazer o que o José Miguel Júdice sugeriu quando bateu com a porta: fechar aquilo e depois abrir de novo, com novas ideias, outras gentes e um programa mais ambicioso. Começo a ver vantagens nessa solução. Foi o que fez o velho RPR, partido neo-gaullista francês, que se reconverteu e transfigurou na UMP. Nicolas Sarkozy ganhou as presidenciais e a França está outra vez a dar cartas no cenário mundial. Aquela que parecia uma direita velha e caduca sob o signo de Chirac, de repente revelou alma sob os auspícios de "Sarko".
Não deixa de ser curioso o que fez ontem Nuno Morais Sarmento. Veio dizer que "estes dois senhores" não servem e que é necessário respeitar o "património do PSD". Não é inocente esta posição, que para mim representa um autêntico tiro de partida para o que se irá passar a partir de segunda-feira, seja qual for o resultado das eleições desta sexta-feira. Sarmento, acompanhado de um grupo mais ou menos extenso irão começar a fazer o seu caminho para o pós-2009. Se Mendes vencer, Menezes junta-se a eles. Se for ele o vencedor terá que fazer muito e bem, inovar e transformar o partido. Caso contrário, Sarmento, Rui Rio, José Pedro-Aguiar-Branco, António Borges e até Alexandre Relvas estarão ali ao virar da esquina, prontos para o que der e vier. E virá muita coisa, depois de 2009.

O PSD acabou


Marques Mendes, na sequência do monumental desaire em Lisboa, tinha duas opções: ou demitia-se de imediato ou prosseguia o mandato nos prazos estatutários. Escolheu uma terceira via - a do suicídio político: antecipou a eleição directa do líder do partido, recandidatando-se. Quando o PSD mais precisava de se virar para a sociedade, quando mais precisava de se reconciliar com o País real, ficou ainda mais fechado sobre si próprio, mergulhado em sucessivas convulsões internas. Ao antecipar a eleição directa, em que é parte interessada, Mendes antecipou a morte do partido: o PSD vale hoje 15 por cento, como o escrutínio em Lisboa demonstrou - pouco mais do que o Bloco de Esquerda. Em boa verdade, ninguém pretende "liderar" algo que está prestes a deixar de existir. Por isso os "barões" ausentaram-se para parte incerta, Menezes procura mil e um pretextos para abandonar a corrida, o profeta Morais Sarmento proclama ao Expresso o seu imenso nojo por tudo isto e desta vez nem António Borges se vislumbra a imitar D. Sebastião numa manhã de nevoeiro.
O PSD - este PSD - acabou. E ainda bem.

Tertúlia literária (221)

- E O Malhadinhas?
- Lá continua como seleccionador nacional.

Às vezes, é preciso dizer o evidente

«...o cansaço do poder pode ser provocado, desde que exista uma clara alternativa, constituída com tempo e teimosia, baseada num projecto político que seja compreendido e aceite pelos eleitores. O pior que “a oposição do centro-direita” pode fazer é acreditar em alguns comentadores e deitar-se à sombra da bananeira, sem fazer os trabalhos de casa, à espera que o poder caia de maduro no seu regaço». Paulo Pinto Mascarenhas, no Atlântico.

Etiquetas:

Vamos a eles!


Agora é que é, malta! Começaram a chegar os Pandur II e, até ao final do ano, as NT vão ter 260 brinquedos destes, 20 deles anfíbios. Em Olivença, os ecos da notícia já levantaram os ânimos entre os membros da resistência. Soube, de fonte segura, que o 31 da Armada entretanto transformado numa colectividade ali para os lados dos Columbófilos de Cascais prepara um brinde, naquele bar escuro e caríssimo de que tanto gostam para celebrar a invasão. Isto vai aquecer!

Carlos Charmeur

Não era apenas o cantor que encaixava que nem uma luva na categoria de «improvável», a qual dá o mote aos concertos intimistas no bar do Maria Matos. A assistência também. Havia balzaquianas estupendaças e Tavares Moreira, Rui Veloso e Nicolau Santos, eu e a Inês Serra Lopes no mesmo espaço, coisa que não acontecia há muitos anos graças a Deus. O cantor? Carlos Tavares. Nortenho, benfiquista, presidente da CMVM e um crooner à maneira mesmo quando a voz não acompanhava as emoções reveladas na expressão da face e o gesticular da mão livre do microfone. Estavam lá televisões que registaram o momento e não me deixam mentir: Para além das qualidades como entertainer, intercalando o reportório com pequenos apontamentos da sua vida (o conjunto paterno que ensaiava em casa, a sua passagem pelo Zip Zip) Carlos Tavares é um baladeiro nato. Safou-se muito bem em músicas como «Manhã» de Pedro Abrunhosa ou a interpretar Roberto Carlos no nosso português. Claudicou em músicas de Vitorino e João Gil (que também lá estava) porque o registo pedia um tom que não era o dele, por mais que se esforçasse. Mas ao vê-lo convicto a entoar o refrão «Matei, matei corações» ou a proferir tiradas como «nem à força da lei a rádio passa música portuguesa» senti que já tinha valido a noite. Ou pelo menos metade dela, dado que saí no intervalo. A minha cadeira estava por demais cobiçada e havia senhoras em pé. Cavalheiros como eu não permitem que isso aconteça e muito menos a balzaquianas estupendaças. Posso não ser tão charmoso como o intérprete e desafinar muito muito mais, mas ainda tenho maneiras.

12 moedas

Fui de férias há três semanas, para fora do país, e a grande discussão entre as duas candidaturas à liderança do meu partido era sobre quotas. Voltei, e a discussão, cada vez mais acesa e atentamente acompanhada pela Imprensa, é sobre quotas. Para quem ainda não saiba o valor desta magna questão, que motiva visitas a caixas Multibanco às duas da manhã para pagamentos colectivos, falsificações de moradas, ameaças de queixas à polícia e ao Tribunal Constitucional, debates na televisão, etc, etc, estamos a falar de uma quota de 12 euros. Por ano. Ou de uma moeda de um euro por mês.

Terça-feira, Setembro 25, 2007

O sumo acabou




É claro, cada vez mais claro, que na sexta-feira não vou votar em ninguém. Tal como eu temia, o PSD no qual me filiei já não existe. Gostava que alguém me convencesse do contrário, mas parece-me impossível.

PSD

Avisem-me quando acabar o campeonato de matraquilhos sff.

When the child was a child
It walked with its arms swinging,
wanted the brook to be a river,
the river to be a torrent,
and this puddle to be the sea.

(...)When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?

Déjà vu

Quando eles começam a falar de implosão e de renovação é porque está na altura de fazer prova de vida.

Nas colunas

Etiquetas:

Ainda o Aquilino e a festança dos jacobinos

Os monárquicos não querem Aquilino em Santa Engrácia por causa da sua eventual participação no regicídio, os órfãos do Dr. Afonso Costa querem-no em Santa Engrácia precisamente por isso.
Sobre os dislates da jornalista Fernanda Câncio, a respeito da monarquia constitucional e o regicídio, ler na integra o brilhante texto de Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte.

P.S.: Ó Pedro, tem paciência, mas confessa lá onde gamaste esta preciosa ilustração, e eu prometo não te chamar monárquico!

Etiquetas: ,

Novos, Velhos Brinquedos

Um dos meus primos mostra-me com orgulho novos, velhos brinquedos. Logo diz: “São do meu pai”, o que equivale a avisar: “Não estragues”. Isto num tom de responsabilidade e respeito por o pai lhe ter confiado os seus brinquedos. Num saco, também ele já antigo, vou descobrir pela sua mão um cubo mágico. Lembram-se? Não sei se ainda guardam o vosso, mas o meu cubo mágico, de tanto ser manuseado sem muito sucesso, não teve um final feliz.
Isto fez-me pensar. Agora que sei que vou ser mamã de um rapaz, fico a reflectir naquilo que ainda terei guardado e poderei passar ao meu filho. Vale-me ter sido uma verdadeira Maria-rapaz. O meu irmão herdou uma colecção de berlindes e uns carrinhos que faziam intermináveis filas à volta da cama - como se eu já adivinhasse o futuro - e uns Playmobiles que já viveram um grande número de histórias inventadas por abundantes mãos. Tenho uma colecção de borrachas, de diferentes formas e feitios, que de vez em quando vou espreitar para ver se ainda cheiram a novas. Aquele perfume faz-me andar alguns anos para trás, onde me vejo de vestidinho e cabelo bem mais curto.
Espero que o pequeno bebé que aí vem também um dia possa dizer com o mesmo orgulho: “São da minha mãe” e que isso não lhe cause muita estranheza. Pelo sim, pelo não, o pai já está encarregue de ir ao sótão procurar também os seus brinquedos.

Prognósticos só no fim

Marcelo Rebelo de Sousa, perante o desafio que lhe lançou Maria Flor Pedroso na emissão de 16 de Setembro do seu programa na RTP, recusou fazer vaticínios sobre o desfecho da corrida para a liderança do PSD. Manuela Ferreira Leite, que o Expresso do último sábado antecipava como apoiante de Marques Mendes, prefere afinal manter-se equidistante. Alexandre Relvas, mandatário nacional de Mendes, encontra-se ausente em parte incerta: só a nossa fé no mesmo Expresso nos leva a fazer crer que "estará ao lado do candidato nos derradeiros dias de campanha". Sucedem-se as acusações entre as duas candidaturas, com o estado-maior de Luís Filipe Menezes a ameaçar recorrer ao Tribunal Constitucional e queixar-se à polícia por alegadas fraudes na elaboração dos cadernos eleitorais. A questão do direito de voto dos militantes açorianos, na sequência da controversa decisão assumida pelo Conselho de Jurisdição Nacional, poderá arrastar-se sem ter fim. Perante tudo isto, Paulo Gorjão espanta-se apenas por eu ter escrito no DN que os resultados das eleições directas no partido são "cada vez mais imprevisíveis". Nada diferente, no fundo, do que o veredicto que Marcelo - apoiante de Mendes - recusou fazer.
Tanta candura do mais fino analista político da blogosfera portuguesa é sempre admirável. Hei-de ir almoçar um dia destes com um vice-presidente do PSD para ver se consigo ficar tão cândido assim...

Retalhos da vida de um médico*

- Então, sr. dr., hoje está de serviço?

O dono do restaurante, sempre muito zeloso, cumprimentava assim um dos seus clientes habituais, que se havia sentado próximo da minha mesa na companhia de um colega.
- É verdade, é verdade. Hoje estou de banco até à meia-noite.
Olhei à volta, baralhada, à procura de batas brancas, macas e estetoscópios, mas apenas consegui enxergar as travessas que acabavam de aterrar na mesa daquele dedicado funcionário do Serviço Nacional de Saúde. O meu relógio marcava 22h. Ainda tinha duas horas de banco pela frente, coitado!

*título de Fernando Namora

Desculpem qualquer coisinha

Mas, a avaliar por posts como este do Afonso Reis Cabral, parece que houve quem não entendesse que o meu «extracto do discurso» do PM publicado ontem era uma brincadeira. Confesso que não me passou pela cabeça que o texto, de tão descabelado que era, fosse tomado a sério. As minhas desculpas ao Afonso, a todos os outros que possam ter sido induzidos no mesmo erro e, obviamente, a José Sócrates. Não pela brincadeira em si, mas pelo seu efeito perverso.

Diz-me o que lês...

Sim Cristina, lá estão os dois príncipes da III república em animada "cavaqueira", sentados nos presidenciais cadeirões. Uma lição prática do perdão e da caridade cristãs à desapiedada sociedade civil. Mas a mim, o que me salta à vista na fotografia de capa do DN, é aquele grande e fabuloso livro na mesa logo à frente de Mário Soares: Legenda Áurea de Tiago de Voragine, editado pela Civilização em 2004
Originariamente intitulado Legenda Sanctorum, esta brilhante obra sobre “o que deve ser lido dos santos” publicado em meados do Século XIII, terá sido um dos primeiros bestsellers da nossa civilização cristã, com cerca de dez mil cópias manuscritas. De resto pergunto-me se o livro (sublimemente ilustrado com obras de Giotto, Duccio, Fra Angelico, Simone Martini, Piero della Francesca, Masaccio, Masolino, Pietro Lorenzetti, Ambroggio etc.) será um mero adereço decorativo, ou se algum dos recentes inquilinos daquele palácio, se dignou a folhear o aquele histórico tesouro literário e artístico.

Etiquetas: ,

Estações fora de horas

As vidas foras de horas têm que se lhes diga. Isto a propósito de um post antigo que transcrevo para o Corta-Fitas. Uma destas noites, nos arredores de Lisboa, a fila no exterior do guichet da estação de serviço era imensa e a clientela a mais variada para as compras do costume: cigarros, cervejas, embalagens de leite e claro, combustível, quase sempre muito pouco. Junto ao vidro chegavam-nos vozes azedas para com o funcionário que afanosamente ia e vinha até junto do cliente. (Imaginem agora as deixas para a plateia sempre que o rapaz se afastava...). Entretanto, a malta cá fora dividia-se entre sentimentos de indignação para com a incompetência do empregado e a falta de educação daquele comprador intolerante. Nós estavamos obviamente do lado do rapaz que zelosamente procurava despachar aquele exigente pedido fora de horas. O pedido? Ah, sim! Comida para gato.

*
Um outro mundo, as estações de serviço fora de horas. Falo daqueles estabelecimentos com pré-pagamento, onde se vende gasolina, bebidas, pão, congelados, jornais, revistas e até comida para animais. Certamente saberão do que estou a falar. Em Lisboa há algumas deste género, que dão um grande jeito de dia para um litro de leite ocasional ou uma embalagem de queijo. À noite, pertencem a outro tipo de pessoas. Principalmente frequentadas por noctívagos sem gasolina, mas sobretudo procuradas para compra de cervejas ou cigarros, sem acesso ao interior, todas estas transacções se fazem através de um vido, sem qualquer contacto com o paciente funcionário.
Acredito que estejam todas vigiadas por câmaras, o que, apesar de dar uma certa segurança não nos impede de sentir algum receio. Muitas vezes são miúdos ou maduros em estado alcoolizado ou com vontade de ficar, a avaliar pela quantidade de álcool que levam nos sacos. Outras vezes são solitários, com noites longas, a quem se acaba a companhia da cerveja e dos cigarros. São também locais para taxistas, funcionários com turnos nocturnos, local de passagem entre um bar e outro, viajantes que chegam com frigoríficos vazios, uma última paragem, uma necessidade.

Sejam quais forem as circunstâncias (creio nunca ter lido nada sobre isto) e do pouco que conheço, se terão ou não alguma clientela fixa, lá estão eles, sempre abertos a produtos de última hora, ou melhor, fora de horas.
Quando os vejo partir ao volante, de voz entaramelada e com passo incerto, fica por ali um amargo sentimento de impotência e comigo um aperto no coração. À nossa frente, um jovem casal de namorados leva uma noite cheia de precauções, funcionários de uniforme recolhem a casa com cigarros e chocolates e um cavalheiro pede uma revista com capa de corpo inteiro.
A todos, uma boa noite.

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

Momentos Kodak (61)

Mestre Nadir Afonso. Podem ver a sua exposição na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa.
Fotografia: Rodrigo Cabrita

Concessão

- Mãe, eu pertenço à Lusoponte?
- Que disparate!

- Lá na escola dizem que todos os meninos que nasceram depois de 1997 pertencem à Lusoponte. E amanhã tenho que levar a mesada à Lusoponte. É verdade que eu pertenço à Lusoponte?
- Julgo que não, mas deixa-me telefonar.

Payote

Foram uns cogumelos que comi ao almoço.

Ia jurar que vi Cavaco Silva e Mário Soares sentados nuns cadeirões em Belém à conversa e depois o Mário Soares a dizer que é assim em democracia, que as pessoas têm discordâncias mas isso nada tem a ver com as relações pessoais, e blá blá blá que é democrata há muito tempo. Ia jurar.
Onde está a ASAE quando precisamos dela?

Fora de série (6)


A América de Archie Bunker

Bastavam os primeiros acordes do genérico para me porem colado ao ecrã. Um genérico fabuloso, com um casal de meia-idade entoando uma cançoneta ao piano no recato doméstico. Os versos da cançoneta diziam tudo sobre a intenção satírica desta série da CBS. Nunca os esqueci.
Boy the way Glenn Miller played
Songs that made the hit parade.
Guys like us we had it made,
Those were the days.

E logo um zoom nos introduzia na residência de Archie Bunker. O irascível, antipático, furibundo Archie Bunker – uma das mais perenes personagens da ficção televisiva de todos os tempos. O típico americano médio, cheio de preconceitos sociais, culturais e raciais. Reaccionário até à medula, apoiante cego de Richard Nixon e da guerra do Vietname, inimigo figadal dos ventos da História que nesses idos de setenta prometiam uma revolução cultural no país mais poderoso do planeta.
And you knew who you were then,
Girls were girls and men were men,
Mister we could use a man
Like Herbert Hoover again.
Um dos mais deliciosos ingredientes da série era o modo como subvertia o dogma então vigente sobre a classe operária como vanguarda social. Archie era operário – “explorado pelo capital”, um remediado sem horizontes –, o que não o impedia de destilar ódio contra os imigrantes que vinham “roubar-nos os postos de trabalho”. Contra os negros, “delinquentes por natureza”. Ou contra os judeus, que “assassinaram Cristo”. Conservador empedernido, rogava pragas ao desconserto de um mundo onde todas as peças lhe pareciam subitamente fora do lugar. Daí nasciam as homéricas discussões que mantinha com o genro, Mike, um intelectual de esquerda que lhe servia de contraponto ao exibir uma fé inquebrantável no progresso.
Didn’t need no welfare state,
Everybody pulled his weight.
Gee our old LaSalle ran great.
Those were the days.

All in the Family (que uma feliz tradução portuguesa baptizou de Uma Família às Direitas ao ser exibida na RTP) tinha diálogos de cinco estrelas, que nos faziam rir até às lágrimas, tornando Archie num ícone popular, malgré lui e as ideias que propagava. Algumas das suas expressões incorporaram-se no vocabulário comum, como “fecha a matraca” (a ordem da praxe para mandar calar a incomparável Edith, a mulher que lhe aturava todos os caprichos) ou “cabeça de abóbora” (o feroz qualificativo que reservava ao genro). Era uma série de texto, mas também de actores, servida por um quarteto de intérpretes de luxo. Carroll O’Connor (Archie), Jane Stapleton (Edith), Sally Struthers (a filha, Gloria) e Rob Reiner (o genro, que na vida real se tornaria realizador de filmes inesquecíveis, como Misery ou When Harry Met Sally). Era um tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e de todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta.
“A ‘seriedade’ não costuma ser um sinal inequívoco de sabedoria, como julgam os pasmados: a inteligência deve saber rir”, como nos ensinou Fernando Savater. É nisso que penso ao rever hoje cada episódio desta extraordinária série que psicanalizava a classe média americana e se mantém actual, superando as barreiras da moda, do gosto e do tempo. Porque a América de Archie Bunker não morreu: apenas se alterou o suficiente à superfície para continuar tão tacanha como dantes.

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XVII)


LAUSANA.
"Lausana conquista-nos imediatamente." (Georges Simenon)

Etiquetas:

Aquilino, Séc. XXI

Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas, Livraria Bertrand, Lisboa, 1979.

Once again in the West

O Corta-Fitas teve acesso ao discurso proferido hoje por José Sócrates na abertura da conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas. Reproduzimos apenas um fragmento do mesmo, mas nele está bem patente quer o desiderato quer a posição de força transmitida pelo nosso Primeiro-Ministro em todas e cada uma das palavras proferidas:
«The clima moves are obliged to have quantified objectives or else we that live in the Middle-West will not be pleased. Pós-Quioto demands that we do more. As a Latino dictate says: «O tempora, o mores», meaning that the weather will better if we try harder as an Avis salesman. Remember that we are the world. Quoting a policeman that is now in Lisbon, I hope the united-statesians love their children too».

Domingo, Setembro 23, 2007

Adeus Verão, olá Outono

Robert Jordan perdeu a corrida contra a morte: faleceu aos 58 anos, deixando inacabado o último volume da sua popularíssima saga Wheel of Time. Os russos – pós-comunistas mas sempre imperialistas – reclamam uma parcela do Pólo Norte. Dois Dias em Paris, um dos melhores filmes que vi nos últimos meses, é arrasado pela crítica lisboeta. Os bilhetes para o concerto dos Police, no Estádio Nacional, são vendidos a bom ritmo: a nostalgia é que está a dar. Morreu Marcel Marceau. Rogério Alves aceita patrocinar o casal McCann, mostrando assim que também para o bastonário dos Advogados há uns processos mais prioritários do que outros. A nomeação do novo director-geral dos impostos gera parangonas equivalentes às de uma remodelação governamental. A ministra da Cultura foi pela primeira vez de autocarro para o seu gabinete no Palácio da Ajuda e levou com ela um batalhão de jornalistas, o que diz tudo sobre a arte de governar em Portugal nos tempos que correm.

Cinema Nostalgia (13)


Aquilo não era comigo, mas sabia que um dia teria, inevitavelmente, que ser como elas. Essa perspectiva fascinava-me e inquietava-me ao mesmo tempo. Ser mulher? Poder, enfim, andar de saltos na rua sem chinelar (como me acontecia quando andava por casa com os sapatos da minha mãe) era o máximo! Já a história dos beijos na boca.... afigurava-se-me um bocado nojenta e no entanto eu bem via que elas gostavam... Mistérios insondáveis que eu sabia jamais poder descortinar através dos meus pais, mas que de filme para filme eu ia descodificando...
De joelhos esfolados, invariavelmente sentada no chão, ainda não tinha idade nem paciência para ficar a olhá-las por muito tempo. Nessa época só as sondava por escassos minutos, para logo regressar à segurança das minhas brincadeiras de menina.
Mas fui crescendo. Do chão passei para o sofá e à medida que as cicatrizes iam desaparecendo dos meus joelhos ganhei, sei lá porquê, o hábito de traçar a perna. Alguns rostos já me eram familiares: Marilyn Monroe, Grace Kelly, Audrey Hepburn... mulheres lindas, de olhos estonteantes, bocas sensuais, perfis perfeitos. Alguma vez viria a ser como elas? Era óbvio que não, mas a sua beleza insuperável não me desencorajava nem ofendia. Era, pelo contrário, uma inspiração.
Passei a estudar-lhes os gestos e a guardar na memória momentos de puro encantamento, como o de Marilyn a sussurrar “Kiss” em Niagara, ou de Lauren Bacall, em Ter ou Não Ter a dizer com ar de provocação para o seu BoogieSabes assobiar, não sabes? É só juntar os lábios e soprar!” Conseguiria alguma vez atirar o fumo do meu cigarro para a cara de um rapaz com aquele estilo?
Às vezes gostava de esquecer-me que existia e vestir-lhes a pele. Mesmo depois dos filmes terminarem alimentava a fantasia de que os outros conseguiam, de alguma forma, revê-las em mim. Nessas ocasiões a voz saía-me levemente alterada, assim como as expressões do rosto e a linguagem corporal. Mais determinada se o filme era protagonizado por Jodie Foster ou Jane Fonda, mais doce se tinha acabado de ver Michelle Pfeiffer no ecrã...
O cinema, para mim, também foi isto. A possibilidade de aprender com as mulheres mais fascinantes do mundo. Se não tive aproveitamento garanto que a culpa não foi das mestras... tenho provas que as ilibam. Em filme.

Etiquetas:

Os tugas (34)

- Minha senhora, porque está a buzinar tanto?

- Porque estou aqui há uma hora presa nesta fila de trânsito que não anda um milímetro. Que inferno!
- Mas a polícia não deixa passar, hoje é o Dia Sem Carros. Porque não veio de transporte público para o centro da cidade?
- Nem pensar! Com o tempo que se demora em transportes...

Etiquetas:

Momentos Kodak (60)

23 de Setembro. Eis que chega o Outono...
Fotografia: Rodrigo Cabrita

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 8, 4-15

Naquele tempo, reuniu-se uma grande multidão, que vinha ter com Jesus de todas as cidades, e Ele falou-lhes por meio da seguinte parábola: «O semeador saiu para semear a sua semente. Quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho: foi calcada e as aves do céu comeram-na. Outra parte caiu em terreno pedregoso: depois de ter nascido, secou por falta de humidade. Outra parte caiu entre espinhos: os espinhos cresceram com ela e sufocaram-na. Outra parte caiu em boa terra: nasceu e deu fruto cem por um». Dito isto, exclamou: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça». Os discípulos perguntaram a Jesus o que significava aquela parábola e Ele respondeu: «A vós foi concedido conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros serão apresentados só em parábolas, para que, ao olharem, não vejam, e, ao ouvirem, não entendam. É este o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem, mas depois vem o diabo tirar-lhes a palavra do coração, para que não acreditem e se salvem. Os que estão em terreno pedregoso são aqueles que, ao ouvirem, acolhem a palavra com alegria, mas, como não têm raiz, acreditam por algum tempo e afastam-se quando chega a provação. A semente que caiu entre espinhos são aqueles que ouviram, mas, sob o peso dos cuidados, da riqueza e dos prazeres da vida, sentem-se sufocados e não chegam a amadurecer. A semente que caiu em boa terra são aqueles que ouviram a palavra com um coração nobre e generoso, a conservam e dão fruto pela sua perseverança».

Da Bíblia sagrada.

Etiquetas: ,

Sábado, Setembro 22, 2007

Fora de série (5)

A minha infância e adolescência tiveram pouca televisão. Por razões que já não sei precisar, tudo lá fora parecia mais interessante do que estar sentada em frente ao ecran. E foi só com o Fame que ficar em casa a ver televisão passou a ser o plano A.
Ao mesmo tempo que estava viciada na série, sentia-me brutalmente infeliz quando o episódio acabava. Eu queria ser mulata e era só morena. Eu queria dançar em movimentos sintonizados e era disléxica. Eu queria usar perneiras de tricô de corres berrantes por cima de umas leggings, mas o meu guarda-fatos só tinha kilts e calças de ganga bem comportadas. Eu queria que o Leroy olhasse para mim com aqueles olhos doces, mas entre os rapazes que eu conhecia nem um usava tranças. Eu queria ter um sonho que me arrastasse para situações de privação, mas mudava de ideias todos os dias sobre o objectivo final (ainda sou assim, só deixei de usar kilts).
A única coisa que estranhava em Leroy, Danny, Jesse, Chris e Coco era o ingrediente que dava nome à série. Eles queriam dançar, cantar, actuar e tocar mas, mais do que tudo, eles queriam ser famosos. Tanto quanto me lembro, foi a primeira vez que a fama surgiu em televisão como um objectivo final, para o qual se tinha que penar. Lembram-se do discurso da professora de dança, que interrompia o genérico? "Vocês querem ser famosos, mas a fama tem um preço. E é aqui, na Escola das Artes, que o começam a pagar. Em suor!". Para quê? Nunca percebi.
Tinha pensado procurar alguns elementos factuais para este texto, mas tive receio de esbarrar em informações sobre como estão os miúdos do Fame na actualidade. Prefiro não saber. "I want to live forever!"

Etiquetas:

Gostei de ler

Era uma vez a Europa. De Rui Carmo, na Atlântico.
O Estado já não somos nós... De José Adelino Maltez, no Sobre o Tempo que Passa.
O mundo segundo Sócrates. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
Uma forma original de capitalismo. Do Pedro Sales, no Zero de Conduta.
A divina comédia. Do Henrique Fialho, na Insónia.
Ingenuidades. De Carlos Botelho, n' O Cachimbo de Magritte.
Como se perde um cliente na TMN. De José Pacheco Pereira, no Abrupto.
Sentimentalices matutinas. De António Mira, n' O Insubmisso.
Estabilização dos fluidos. Do André Moura e Cunha, no In Absentia.
'Gaffes'. Da Cláudia Ribeiro, n' A Geração Perdida.
Sentido histórico. De Fernando Venâncio, na Aspirina B.
Awkward. De Sérgio Lavos, no Auto-Retrato.
Boicotar a comissão. Do Joaquim Vieira, no Observatório da Imprensa.

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XVI)


MACAU.
"Só em Macau é possível viver a sensação indescritível que permite estar, num momento, no templo chinês de Lin Fong e, dez minutos depois, no Teatro D. Pedro V, de traça genuinamente europeia. Todos os contrastes de Macau se diluem harmoniosamente na suavidade local, num todo gerador de uma unidade cultural peculiar, que é única." (Austin Coates)

Etiquetas:

O mercado dos horrores

Lembro-me quando na minha inocência infantil, a mais plausível perversão do mundo era um joelho arranhado no recreio, ou a trágica orfandade do Bambi numa sala de cinema. Tive a sorte de nascer num meio estruturado. A vida no entanto, com o tempo, tratou de me desvendar toda uma sorte de macabras ignomínias, toda uma degradante paleta de horrores, sempre em chocante confronto com a grandeza e divina genialidade humana.
A obra do Diabo, definitivamente, não precisa de assessoria mediática. Com a nossa animal apetência para o voyeurismo, o macabro é uma fonte inesgotável de negócio, e um sucesso editorial sempre garantido. Do cinema até à literatura de faca e alguidar, vários são os “suportes” da próspera indústria do horror, da obscenidade. Pelo menos para o nosso anafado e confortável modo de vida, já que as desgraçadas vítimas não devem achar piada nenhuma reverem-se nas suas rotineiras fatalidades.
Mas como em matérias de desgraças a realidade supera muitas vezes a mais histérica ficção, a Comunicação Social logo se revelou o mais bem sucedido suporte desse "produto". Quanto mais aberrante melhor. Haverá sempre por aí um Homem Elefante ou uma família de tarados para desvendar ao ávido público. No princípio, as notícias “de horror” eram publicadas em desinibidos jornais especializados, como uma espécie de pornografia popular tolerada. Hoje, o eterno filão é explorado despudoradamente e qualquer doentio caso de violência doméstica facilmente ganha estatuto de “tema de fundo” num diário ou semanário de referência: a mãe que serrou os filhos aos bocados, a criança sequestrada pelo vizinho, o "respeitável" economista que afinal é pedófilo, o irmão que esventra o irmão... E o interminável caso Maddie. E à noite, se não me cuido, ainda sou apanhado por um psicólogo no canal de notícias que pretende aconselhar os incautos progenitores como explicar às criancinhas aqueles fenómenos psicossociológicos. Não vão os meninos começar a desconfiar da mãe, recusarem-se ir à mercearia do Sr. Aníbal, ou ao Jardim Zoológico com o tio José.
Sob o liberalíssimo império do mercado, o voyeurismo, a notícia de sangue e a depravação, rende monstruosos dividendos e emprego a muita gente. Nesta lucrativa cultura do pavor, promove-se a perspectiva do moscardo, que desvendará sempre a partícula de excremento na mais idílica paisagem.
Sem discernimento ou sentido crítico para optar com liberdade, uma enorme plateia, alienada, assiste impávida ao degradante espectáculo diário. Com o tempo, mudarão os protagonistas desta hedionda telenovela, um reality show da miséria humana. Até que todos acreditem mesmo que o mundo é afinal uma enorme e depravada pocilga, e que tudo o resto não é mais do que uma gigantesca conspiração para nos fazer acreditar que vale a pena sermos melhores, amarmos mais e sermos felizes.

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Setembro 21, 2007

Momentos Kodak (59)

Ena, ena... tanta lagartixa junta! Quase que enchem o museu do azulejo ali para os lados de Alvalade. Gosto de estar no covil do leão. Uma pequena provocação aos meus amigos do Corta ferrenhos do SCP. Saudações benfiquistas!
Fotografia: Rodrigo Cabrita

Outono


Where is there an end of it, the soundless wailing,
The silent withering of autumn flowers
Dropping their petals and remaining motionless;
Where is there and end to the drifting wreckage,
The prayer of the bone on the beach, the unprayable
Prayer at the calamitous annunciation?
T. S. Eliot, Four Quartets

Postais blogosféricos

1. Abraço amigo ao Pedro Mexia pelo segundo aniversário do seu Estado Civil. Tão bom agora como no primeiro dia.
2. Também de parabéns está a Ana Claúdia Vicente. Parece que foi ontem, mas os Quatro Caminhos já cá andam há três anos.
3. Mais dois aniversários: A Senhora Sócrates e o Cinco Dias apagam uma vela cada um. Parabéns a ambos.
4. Puro Arábica é um blogue a ler com atenção.
5. Para acompanhar as eleições americanas, vale a pena vir aqui.
6. De Bruxelas chega-nos um bom blogue. Este.

Uma dúvida angustiante


"A maior de todas as guerras é a guerra da família."
Sinclair Lewis, Babbitt

E se de repente tivéssemos sido todos enganados? E se a história estivesse mal contada desde o primeiro minuto? A pergunta é angustiante, mas tem de ser feita. Nós, jornalistas, estamos endurecidos pela experiência. Temos um sexto sentido que nos alerta contra tentativas de manipulação por parte de políticos, gestores, empresários, futebolistas, actores, líderes de opinião. Mas conseguiremos estar imunes à súbita manipulação de que podemos ser alvo por parte de um cidadão comum? Este conjunto de questões – decisivas para a sobrevivência do jornalismo – vem a propósito de uma das mais inacreditáveis histórias jornalísticas de que há memória. Não me refiro a nada que tenha sucedido no passado, mas a algo que está a acontecer agora. Dia após dia, a um ritmo cada vez mais alucinante. Refiro-me ao misterioso desaparecimento de Maddie McCann. Os pais da menina – britânicos caucasianos, bem sucedidos profissionalmente, pertencentes à classe média-alta – propagaram desde o primeiro instante a versão do rapto. E todos nós a acolhemos acriticamente. As mais recentes investigações policiais parecem demonstrar que a tese posta a circular em todos os jornais do mundo pode afinal estar errada. A confirmarem-se estas dúvidas conclui-se que os jornalistas terão sido cúmplices involuntários de um monumental mistificação.
É uma dúvida que persiste. Cada vez mais angustiante, à medida que pequenas parcelas deste puzzle começam a juntar-se. Formando um quadro bem diferente do que todos supúnhamos ser real.

Etiquetas:

Viernes

Inès Sastre.

Notícias do futebol

1. Há muito tempo que as equipas portuguesas de futebol não tinham uma prestação tão medíocre no arranque de uma ronda europeia. Em sete jogos, seis derrotas. Valeu o FC Porto, apesar de tudo, com o empate em casa contra o Liverpool. Estranhamente, os assanhados críticos do costume parecem estar em silêncio. Talvez por não poderem imputar a Scolari a culpa deste desaire colectivo.
2. José Mourinho foi afastado do Chelsea. De nada lhe serviu ter feito mais pelo clube, em três anos, do que todos os treinadores que por lá passaram no meio século anterior e de ter ganho tudo excepto a Liga dos Campeões (onde foi semifinalista por duas vezes). Confirma-se que a memória, no futebol, é muito curta. Demasiado curta.
3. Scolari foi suspenso por quatro jogos - exactamente os que faltam para a selecção portuguesa completar a fase de qualificação para o Europeu de 2008. Naturalmente, o seleccionador vai recorrer desta decisão: estou convicto de que a pena será reduzida. Mas é lamentável que os políticos que quiseram estar com ele na fotografia no momento dos triunfos não estejam com ele nesta hora difícil. A ingratidão é um dos piores defeitos da espécie humana.

Etiquetas:

Tertúlia literária (220) *

- Quando os Lobos Uivam?
- Quando perdem 108-13 com a Nova Zelândia.
..............................................
* Com a devida vénia ao Jorge Ferreira, que me inspirou nesta tertúlia)

Etiquetas:

Pretéritas Sextas (V)

Jacqueline Bisset

Etiquetas:

Friday


SCARLETT JOHANSSON.
Anytime, anyplace, anywhere.

Porque hoje é sexta-feira


"E perguntou a si próprio por que razão o regresso de Kit o obcecava tanto. Seguramente que não estava apaixonado pela pobre rapariga. As suas propostas tinham sido por piedade (porque ela era uma mulher) e por vaidade (porque ele era um homem) e juntos, esses dois sentimentos tinham acordado o ávido desejo do coleccionador de troféus, nada mais".
Paul Bowles in O Céu que nos Protege

"Pontapé na tola"

Só agora li A Estrada, de Cormac McCarthy. Não tencionava falar do assunto, mas hoje os jornais noticiam que os direitos do livro foram comprados para serem adaptados para cinema. A quem não leu o livro, aconselho: não leiam, esperem pelo filme. De certeza que é mais inverosímil o que, neste caso, é importante para a nossa sanidade mental. O livro é, como diz um amigo sobre o estacionamento na minha rua, "um pontapé na tola".

Quinta-feira, Setembro 20, 2007

Nas colunas


E dedicada a ambos os candidatos às directas do PSD:

Etiquetas:

O Mourinho de Abramovich

O despedimento de Mourinho por Abramovich tem uma consequência evidente e imediata: o Chelsea vai voltar ao lugar que ocupava nos últimos anos na primeira liga inglesa: do meio da tabela para baixo. E por motivos muito práticos, que começam logo pelo facto de a partir de agora Abramovich poder pôr a jogar os dois craques que comprou à revelia do técnico português - Ballack e Sevchenko. O pior é quando estas duas estrelas perceberem que estão sozinhas, pois os jogadores mais influentes, como John Terry, Frank Lampard, Didier Drogba e os portugueses começarem a remar para outro lado, com óbvio ressentimento pelo afastamento do técnico que lhes deu a fama e o proveito.
Quanto a Mourinho, deixou-se arrastar numa situação que não controlava. Em vez de ter saído no fim da época passada, ainda na mó de cima, embora tenha perdido o campeonato para o Manchester United, resolveu esticar a corda e esperar pela indemnização multimilionária. Manchou o currículo, embora saia de Inglaterra com obra feita.

P.S. - A fotografia é do "Daily Mail", jornal muito na moda por cá.

It's Middle East, stupid (7)

Parece que, segundo o primeiro-ministro, houve uma "very simpatetic conversation". Via Bekx chegámos ao som, mas aviso para que se preparem para o impacto. É nestas alturas que penso que alguns dos nossos responsáveis políticos deviam cingir-se ao português nas suas deslocações. É para isso que servem os tradutores e intérpretes. Na diplomacia, o facto de um responsável político usar a sua própria língua não é vergonha nenhuma. Antes isso do que fazer má figura.

Fora de série (4)

O idílico Barco do Amor

A sua fórmula de sucesso era simples mas eficaz. Entrada dos passageiros no barco com a tripulação a saudar as pessoas, enredo amoroso, beijo na proa do barco (com ou sem pôr-do-sol), fim da viagem, e tripulação faz as despedidas.
Criada e produzida por Aaron Spelling – falecido o ano passado e mentor de outros grandes sucessos, como Os Anjos de Charlie e Beverly Hills 90210 –, O Barco do Amor inspirou-se no bestseller autobiográfico escrito por Jeraldine Saunders, que focava as proezas românticas da tripulação de um navio. Mas, The Love Boat ia mais longe, pois contava as aventuras e desventuras vividas no cruzeiro, não só pelos membros da tripulação – alguns eram frescos… –, como pelos passageiros. A série americana, que começou a ser transmitida no final dos anos 70 e que se prolongou até 1986, tinha os condimentos necessários: romance, comédia, mistério e a magia e glamour que, quem já embarcou na experiência, diz ser própria dos cruzeiros.
O Barco do Amor era uma das séries que muitas vezes estava presente no magazine Agora Escolha, apresentado por Vera Roquette, que nos apresentava duas opções de visionamento. Nós éramos os seus “amiguinhos”. Enquanto os telespectadores votavam – eu nunca senti o apelo de pegar no telefone e ligar – entre Os Três Duques e o Barco do Amor ou Um Anjo na Terra contra O Barco do Amor, ou O Barco do Amor contra Soldados da Fortuna – eram múltiplas as combinações – assistia ao “Boi Bocas” ou à “Ana dos Cabelos Ruivos” e ia controlando a votação no canto superior esquerdo do ecrã. Quase sempre torcia pelo Barco do Amor. Não sei se pelo fascínio que era imaginar que também podia fechar os olhos e ser transportada a bordo do Pacific Princess, ou se pelo lado mais romântico de ver finais felizes – todos os passageiros, apesar de problemas que tivessem tido, saíam com um sorriso na cara. Enterrada no sofá, a lanchar, ficava a imaginar se, também eu, um dia iria viver um amor a bordo de um navio. Em criança, são sempre muitas as nossas divagações, enquanto mastigamos o pão com qualquer coisa e bebemos o leite.
E porque a memória é selectiva, as caras que num primeiro momento logo me vêm à memória são sempre as mesmas. A do comandante Merrill Stubing (Gavin MacLeod) – já sabia apreciar e entender qual o significado da palavra “charmoso” –, a simpatia e o sorriso de Julie McCoy (Lauren Tewes) e a do Dr. Adam Bricker (Bernie Kopell), o médico do navio que encontrava algumas das suas ex. Mas depois vem o barman de serviço e os seus conselhos, Isaac Washington (Ted Lange); Burl “Gopher” Smith (Fred Grandy), com tendência para atrair situações mais problemáticas e Vicki Stubing (Jill Whelan), a filha de 12 anos do comandante. Resumindo: “Love, exciting, and new”.

Etiquetas:

It's Middle East, stupid (6)

See with good eyes e outras expressões igualmente hilariantes. Sócrates vintage. A consultar aqui.

It's Middle East, stupid (5)

Começo agora a perceber por que motivo o nosso primeiro-ministro insiste tanto na necessidade de se ensinar inglês às criancinhas no ensino básico.

Faltam oito dias

Depois de um bem sucedido inquérito sobre quem irá vencer o campeonato de futebol 2007-2008, o Corta-Fitas lança agora um novo questionário: "Quem vai ganhar a liderança do PSD?" Uma questão cheia de oportunidade, a apenas oito dias das directas. Neste momento, e enquanto escrevo, Luís Filipe Menezes vai à frente com 11 votos, contra os sete de Luís Marques Mendes. Se fossem hoje as directas no PSD, Menezes teria 61% e Mendes 39%.

It's Middle East, stupid (4)

"And we will do my [sic] best in order to face the delicate problem, but important for Europe in order to show a strong and united Europe".

Com os cumprimentos de um dos nossos leitores anónimos mais atentos.

Um gesto

O Sporting ontem jogou de igual para igual com o Manchester United. Gostei de ver, embora o resultado final (0-1) tenha entrestecido todos os sportinguistas. Também registei que o Cristiano Ronaldo não comemorou o golo que marcou ao seu antigo clube e que até pediu desculpa aos adeptos, num gesto que fica para a história do futebol. Mas não tenho gostado do embandeirar em arco de alguns jogadores do nosso plantel. Há meses ouvi o Djaló dizer que está a trabalhar para ir para o Barcelona FC, ontem, diz-me o Pedro, foi a vez do Miguel Veloso garantir que o seu sonho é jogar em Old Trafford. É preciso é que joguem futebol (Veloso tem jogado, apesar de tudo) e sigam o exemplo de João Moutinho. Poucas palavras e muita acção.

It's Middle East, stupid (3)

Não compreendo os satíricos comentários abaixo. Parece-me claro que o primeiro-ministro agradecia o papel de George W. na resolução dos seus próprios problemas, considerando que Portugal se encontra entre os países outrora chamados «de Leste» e os E.U.A. e Canadá. Em vez de comentários jocosos, os jornalistas F.A.L. e Pedro Correia fariam bem melhor o seu papel investigando que ajuda foi essa, e que mãozinha tão útil terá o presidente norte-americano dado ao ponto de justificar um obrigado público e mediático como este.

Etiquetas:

It's Middle East, stupid (2)

"And thank you also for the opportunity to discuss some of our more delicate matters in the international agenda, mainly the question of Kosovo and the Middle West [sic] problem".
José Sócrates, nos "esteites", como diria uma amiga minha.

It's Middle East, stupid

O "inglês técnico" de Sócrates bem precisa de ser aperfeiçoado. Para evitar que o primeiro-ministro volte a ser ridicularizado no site da Casa Branca, como o Nuno Simas aqui muito bem assinalou.

Etiquetas:

Tertúlia literária (219)

- Gosta de Aquilino?
- Nem por isso. Prefiro um nariz bem arrebitado.

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XV)


LAHAINA.
"Coração do Havai, quente de sol." (Jack London)

Etiquetas:

Momentos Kodak (58)

Cerimónia de trasladação dos restos mortais do escritor Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional. Pode ler e ver mais sobre este assunto no DN. A fotografia visualizada na edição em papel e no site é da agência Lusa. Não me perguntem porquê.
(Setembro 2007)
Fotografia: Rodrigo Cabrita

O lugar de Aquilino


«Um grande escritor chegou ao seu lugar», titula o DN em editorial. Na minha casa de família, há muitos anos que reservei para Aquilino o lugar mais alto que lhe podia oferecer: o sótão. Herdeiro da sua obra completa, li «O Romance da Raposa» porque sim, «O Malhadinhas» porque a isso me obrigaram na escola e - essa sim com verdadeiro deleite - a tradução em três volumes da «Retirada dos Dez Mil» de Xenofonte, uma obra magnífica.
Os outros livros de Aquilino, recheados de vetustas palavras e regionalismos, eram e são para mim de tão obscuro significado e hermetismo como a Cabala judaica. Sentia-me estúpido ao lê-los. Não dispondo de um dicionário suficientemente capaz para me esclarecer os sinónimos, nem tendo ao lado nenhum professor catedrático de literatura, a tarefa de ler não era só ingrata e dolorosa, era impossível. O meu pai elogiava e recomendava Aquilino, mas apenas para em seguida encolher os ombros quando a pergunta que lhe fazia ultrapassava o seu vocabulário, aliás bastante vasto. Há muitos livros que tenho e nunca li. E desses também muitos que ainda lerei. Outros, independentemente do lugar onde possa jazer o seu autor, permanecerão para sempre e como Aquilino mortos, mortas que estão também desde há muito essas palavras que nunca entendi.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

Fora de Série (3): Goodbye city life. Green Acres, we are there!










Olá caros leitores,

Bem vindos a Hooterville e a mais um fora de série dos great oldies do nosso encantamento. Recordam-se de Green Acres, uma quintarola a cair aos bocados perdida num lugarejo habitado por meia dúzia de patuscos indígenas e onde ocorrem fenómenos estranhos? Ou não me digam que um porco que vê televisão e vai à escola não é uma bizarria? Talvez por cá, mas em Hooterville tudo é possível. Até mesmo no Entroncamento seria um fenómeno da twilight zone.
Já terminou o telejornal a horas certinhas, a família está no sofá em frente ao televisor que enche a sala, que o Green Acres tem piadas para crianças e adultos. Nem pipocas nem apitos de telemóveis por favor, que não são tempos de modernices.
E é hora de mais um episódio de Viver no Campo, uma série cheia de situações absurdas e circunstâncias surreais: uma loura explosiva com sotaque húngaro e robe de setim branco tenta cozinhar qualquer coisa que se assemelhe a panquecas, um executivo cosmopolita atende o telefone em cima de um poste, um empregado preguiçoso arrasta-se entre cenas perfeitamente inútil e um oportunista multi-funções cheio de lábia tenta arrecadar mais algum.
O porco que lê e fala francês? Lembram-se de Arnold o filho adoptivo do venerável casal de Hooterville? Só mesmo o Douglas consegue manter a sanidade e ver um porco onde só existe um porco. Os restantes indígenas agradecem quando o bicho lhes entrega o jornal. Tudo normal.
Há ainda outro personagem que é ao mesmo tempo presidente da junta, chefe dos correios, filósofo e proprietário do Drucker's General Store. Provavelmente o único com tino no meio daquela parvónia (ainda sem jeeps) onde os autóctones se deslocam em velhos tractores e carripanas caprichosas. Um mano e uma mana carpinteiros sem jeito nenhum lá vão surgindo de vez em quando fazendo desacatos onde deviam fazer reparações, e é tudo.
No meio deste absurdo e de tantas cenas hilariantes, confesso que sempre tive uma dúvida. Coisas de criança sem ousadia para perguntar: como era possível o cabelo da Lisa estar sempre tão maravilhoso e porque motivo os robes brancos nunca estavam sujos de lama ou pó? Aquilo não batia certo. Talvez a primeira de muitas fantasias que haveria de ver na televisão e no cinema.
Agora, lavar os dentes, xixi e cama que estão os patinhos a cantar.
Ou, se quiserem, a minha versão adulta ao estilo da Lisa: Darling, I love you, but give me Park Avenue.


Etiquetas:

De mal a pior

O frente-a-frente entre Luís Marques Mendes e Luís Filipe Menezes, na SIC Notícias, foi mais uma ocasião perdida para relançar o PSD junto dos portugueses. Ana Lourenço, uma das melhores pivôs da nossa televisão, bem tentou dar algum conteúdo ao debate de ontem, suscitando questões que interessam à generalidade das pessoas. Em vão: Menezes e Mendes perderam-se nos meandros mais minúsculos da política, gastando tempo de antena com inanidades várias - da nomeação de Armando Vara para a Caixa Geral de Depósitos às piruetas europeias de monsieur Sarkozy. Mendes foi o pior dos dois, concedendo que o seu rival está a fazer um trabalho em Gaia que constitui "motivo de orgulho" para o partido. Alguém poderá dizer o mesmo da sua actuação na São Caetano à Lapa?
Em 2004 acompanhei a campanha interna no PS entre José Sócrates, Manuel Alegre e João Soares que culminou na vitória do actual líder socialista: nem de perto se compara a vitalidade dessa campanha com a actual do PSD.
Bem pode Cavaco Silva vetar mais uns diplomas: o primeiro-ministro digere na perfeição esses vetos enquanto continuar a assistir de camarote à perpétua crise nos laranjinhas.

Etiquetas:

Nas colunas


E com dedicatória: Sarita Montiel, «Acuerdáte de mi».

Etiquetas:

Gostei de ler

Quem pediu um Pacto de Regime? De José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro.
Recados. Da Leonor Barros, na Geração Rasca.
O debate. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Questão de Estado. Do Eduardo Pitta, no Da Literatura.
Uma família inglesa. Do Coutinho Ribeiro, n' O Anónimo.
É normal?! De Tony Almeida, nos Pontos Soltos.
Bella ciao. Do Hugo Ramos Alves, no Amarcord.
Ervas daninhas. De Jorge Lima, nos Incontinentes Verbais.

Allez Sporting

O inquérito do Corta-Fitas sobre as públicas expectativas para o campeonato de futebol doméstico iniciado recentemente, obteve imenso sucesso, com 778 participações. A vitória final foi do Sporting Clube de Portugal, como é de bom tom suceder nesta "casa" de lagartos ferrenhos. Foi à tangente, mas não bastou a vontade dos seis (dezoito?) milhões de lampiões. Confirma-se que o tamanho não é o importante.

Etiquetas:

Fora de Série (2)



A insustentável leveza do leste

Em 1974 e 1975, Portugal descobriu que até aí ignorara uma parte do mundo. Nesse tempo, houve excursões ao paraíso do leste e chegavam ao Coliseu as danças e cantares de Krasnoiarsk, a ópera moldava e os acrobatas de Moscovo. Houve um fascínio quase doentio pelo bloco socialista. De tal forma o fenómeno se tornara ideológico, que deixou de ser possível ficar no meio da barricada a apreciar o panorama: ou se bebia a propaganda até à última gota (eles viviam numa gigantesca Vida Soviética a cores e Soljenitsyne, o agente da CIA, inventara cada palavra do seu Gulag); ou os do leste eram todos comunas, comiam criancinhas e até os periquitos nasciam já com cor vermelha.
Enfim, esta crónica não pretende falar de política, mas apenas lembrar que na televisão, no pequeno quadradinho mágico, essa clivagem também se fez sentir.
Um dos heróis da época chamava-se Kloss e tinha a patente de capitão. Acho que esta série polaca foi vista por todos nós um pouco ao contrário, pois era mais complexa do que parecia. Hoje, é fácil chegar a esta afirmação, na medida em que já sabemos o que a História ditou para o bloco socialista, que começou a ruir exactamente na Polónia.
Tento explicar melhor. Kloss era um agente polaco infiltrado no poderoso exército nazi. A sua inteligência superior permitia-lhe descobrir os segredos militares alemães e passá-los à resistência e aos aliados. Em cada episódio, após muitos perigos, o espião triunfava.
Na altura, escapavam-nos as subtilezas das divisões polacas entre comunistas e nacionalistas, os crimes, a partilha da Polónia no pacto germano-soviético (aqui, entrava bem uma história real, do dia em que deixei de acreditar no sistema de ensino). Mas, sobretudo, não podíamos compreender a metáfora escondida naquela história de duplicidade. Kloss era também um símbolo da Polónia submetida, obrigada a esconder a verdadeira natureza e os sentimentos mais íntimos. O destino do agente duplo era, nessa perspectiva, íntimo. Para mim, adolescente, aquilo não passava de uma boa história; mas Kloss era um herói sem esperança de regressar aos seus, envolvido numa luta desesperada, visto como eterno Judas. Pensando bem, era o jogo duplo dos povos submetidos no império soviético. Compreenderia isso mais tarde, ao ver os filmes de Andrzej Wajda (Kanal ou Cinzas e Diamantes)
Dizem-me que o actor Stanislaw Mikulski foi brilhante em Kloss, mas confesso que não me lembro desse aspecto. Por vezes, na minha memória incerta, as histórias de Kloss confundem-se com as dos Quatro Amigos e um Cão, que a bordo do seu T-34 vão pulverizando os panzers nazis. Era outras das séries de leste, essa menos metafórica.
Enfim, nesse tempo aprendi a gostar da Polónia. Ainda sei dizer “Muito bem, senhor Capitão”, com irrepreensível pronúncia varsoviana. Chateia-me quando vejo um snob a desvalorizar o leste. Tenho nostalgia destas séries ingénuas com tantas coisas nas entrelinhas e uma sensação de bom recuo no tempo quando leio a palavra koniec.

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XIV)


SEVILHA.
"Sevilha é uma cidade eterna para visitantes contemporâneos, um hábito e um habitat para todas as almas." (G. Cabrera Infante)

Etiquetas:

Os tugas (33)


- Onde é que já se viu um gajo experiente como o Scolari perder por completo a cabeça e tentar ir aos cornos de outro gajo só porque ele lhe chamou filho da puta?
- Ah, eu consigo percebê-lo muito bem. E nós não podemos esquecer-nos que ele prestou muitos e bons serviços a Portugal. Nunca a selecção nacional...
- Isso agora não interessa nada. O que passou, passou. Importa é o futuro. Ele já não tem mão na equipa, não consegue impor-se. Devia ter sido corrido. Quando embarcar de volta para o Brasil, já vai tarde!
- Tu agora dizes isso mas também disseste que ele era o maior! Lembro-me bem. Mudas de opinião como quem muda de camisa.
- E tu pareces um boi que marra sempre para o mesmo lado. Só os burros é que não mudam!
- És mesmo um catavento, deixas-te ir na onda. Uma Maria-vai-com-as-outras, é o que és. Até te ouvi dizer que querias o Scolari cá para sempre. Saíste-me cá um paspalhão...
- E tu és um desses cabrões que gostam de lamber o cu aos brasileiros.
- Se eu sou cabrão, tu és filho da puta.
- Voltas a dizer isso e parto-te os cornos!

Etiquetas:

Era uma vez...

...um caso muito mediático que, quando nasceu, deu imenso que falar e envolvia dezenas e dezenas de figuras que eram públicas e centenas e centenas de testemunhas e milhares e milhares de páginas de processo. Chamava-se Casa Pia. Depois nasceram outros casos mediáticos (porque eles estão sempre a nascer, às vezes da mesma mãe) e o Casa Pia foi ficando mais pequenino, mais pequenino e há até quem suspeite que encolheu de tal maneira que sumiu entre as frinchas do soalho (ou seria parquet?) para nunca mais ser visto.

D. Carlos em Cascais

Enquanto hoje, para deleite dos apaniguados da república, Aquilino Ribeiro vai a trasladar para o Panteão Nacional - não sei sob que critério - permitam-me dar nota de que foi inaugurada no passado Sábado, aqui no meu concelho de Cascais, na rotunda D. Carlos I, Areias – Guincho, uma singela estátua desse nosso notável Chefe de Estado, penúltimo rei constitucional de Portugal, herói e mártir, a quem o país e a história tardam em fazer justiça. Na cerimónia de inauguração marcaram presença António Capucho, Presidente da Câmara Municipal e D. Duarte de Bragança.

P.S.I: Infeliz o povo acrítico que ignora a sua história, despreza os seus heróis e mitifica a mediocridade.
P.S. II: Apaniguado: adj. e s. m., protegido; favorecido; favorito.

Etiquetas: , ,

M&M

Manuela Ferreira Leite apoia Luís ou, antes pelo contrário, apoia Luís? Menezes ou Mendes? Após um debate do qual estiveram saudavelmente ausentes carros, aviões e outros veículos de transporte alugados ou não, ficámos sem saber a resposta a esta magna questão. Alguém quer abrir um sistema de apostas?

Terça-feira, Setembro 18, 2007

Bushismos (2)

Uma imagem vale mais que mil palavras.

Somos homens ou não somos homens?


Etiquetas:

Isto lembra-lhe alguma coisa?


Gato escondido com o Cloclo de fora...

Para onde vai o guito?


Ou dito de outra forma, caro Paulo, estranhei não haver hoje no Bloguítica comentários às únicas notícias que li sobre um tema até agora sempre tão bem acompanhado nesse seu espaço: No Jornal de Negócios, uma breve murmurava que foi ontem publicado em Diário da República o diploma que define o modelo de gestão do QREN e «as orientações fundamentais para a utilização nacional de 22 mil milhões de euros» (o negrito é meu). Já o Diário Económico foi mais longe, dando-se ao requinte de, também numa breve, incluir a panegírica prosa do texto oficial: «O decreto-lei acentua que o QREN (abre aspas) assume como grande desígnio a qualificação dos portugueses e das portuguesas, valorizando o conhecimento, a ciência, a tecnologia e a inovação (fecha aspas)». Lacrimejei de emoção. Mas, meus senhores, a malta quer saber é para onde vai o guito, a pasta, a couve, o cacau. Alguém se importa de explicar? Já nem peço tema de capa.

Bushismos

O que há a reter da visita de José Sócrates aos EUA? Quase nada. O primeiro-ministro português puxou dos seus galões enquanto presidente do conselho da União Europeia em exercício para ser recebido na sala oval da Casa Branca e tirar umas fotografias com George W. Bush. Para além disso, fez um jogging matinal à frente do Capitólio, ouviu umas piadas sobre a sua boa forma física e estamos conversados. A verdade é que Sócrates deve ao Iraque esta visita (como Durão Barroso deve o estar onde está) e ao facto de estar seis meses à frente da UE.
Bush Jr., digam o que disserem, foi mestre. É claro que os dois falaram durante uma hora sobre as relações transatlânticas, a energia, a segurança mundial e se calhar até sobre o aquecimento global, mas o presidente norte-americano sabia ao que ia. Ao receber Sócrates, tinha que usá-lo a seu bel prazer. E nada melhor do que vinculá-lo à sua estratégia para a região, numa altura em que todos ainda estão a digerir os planos do general David Petraeus... Inocente, e mais habituado a distribuir computadores aos sábados, Sócrates anuiu. Foi bom para os dois, não foi?

Fora de série (1)


À medida que a Internet foi entrando, a televisão foi saindo. Não há originalidade nisto. É um sinal dos tempos e só Deus sabe (bom, Deus e alguns colegas e amigos) quanto lutei contra a invasão das novas tecnologias na minha vida. Tudo isto para dizer que é difícil, nos tempos que correm, manter-me fiel a uma série de televisão. É uma prisão, uma preocupação, não tem a elasticidade da Net, nem a portabilidade de um livro. A última série que me amarrou à cadeira e me fez adiar compromissos foi Os Sopranos. Até do tema do genérico eu gostava e se há coisa que eu odeio é rap...
A moral da máfia, em que me iniciei com a trilogia de O Padrinho, voltava a fascinar-me. Acho que me deixei seduzir pelo Tony Soprano como Jennifer Melfi, a sua psicanalista. James Gandolfini, no papel da sua vida, entrava-me em casa todas as semanas, tão vulnerável quanto brutal e eu, durante o tempo que durava cada episódio, suspendia de boa vontade a minha vida para viver a dele e surpreender-me com as minhas próprias contradições: Como é que eu podia sentir simpatia por um assassino?
Tecnicamente próxima da perfeição, a série criada por David Chase é claro que transcendia o mundo da mafia. Para além das actividades da "rapaziada", acompanhávamos a evolução daquela família disfuncional a vários títulos tão representativa de uma certa América e as inesquecíveis sessões de terapia de Tony, na minha opinião a componente de charme da série. O New York Times considerou-a "provavelmente a melhor obra da cultura popular americana dos últimos 25 anos".
Este domingo Os Sopranos receberam mais três Emmys. Desde 1999, o ano da sua estreia, foram distinguidos com 18 Emmys e nomeados 111 vezes. Terão comprado os votos? Com a máfia nunca se sabe... A mim devem ter-me drogado, porque na verdade, viciei-me. Se tivesse psicanalista discutia isto com ela: acho que tanta dependência se ficou a dever sobretudo a essa empatia que eu criava com Tony à minha própria revelia. Durante 50 minutos por semana perdoar ou compreender aquilo que no meu perfeito juízo só poderia rejeitar veementemente era como dar uma voltinha na montanha russa e cheia de adrenalina gostar de ficar a ver tudo de pernas para o ar...

Enfim, uma coisa é certa: quando o telefone tocava à hora dos Sopranos eu nunca estava. E se alguém me forçasse mesmo a interromper, era bem capaz de levar um tiro no meio dos olhos. Só para aprender que às vezes comigo não se brinca.

Etiquetas:

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

Um pouco de cocó, sff

Passei os olhos pelos jornais de fim-de-semana que ainda não tinha lido, como tantas vezes faço à segunda-feira. E como quase sempre acontece fui virando as páginas, rápida e desconsoladamente, a pensar de mim para mim: “No pasa nada!” Até que uma pequena notícia me fez parar. Li-a e voltei a lê-la. O assunto? Uma futilidade, se o compararmos com o que nos chega sobre o conflito israelo-árabe, a guerra do Iraque e, porque não, a campanha para a liderança do PSD. Mas saber, segundo notícia do Expresso, que há gente que compra, através de um site da Internet, as fezes, o suor e outros fluidos das suas estrelas favoritas, deixou-me estupefacta. E a pensar que estamos cada vez mais doidos.

Promessas em série

Corrijam-me se estiver enganado, mas tenho uma vaga reminiscência de que prometemos a quem nos lê (e abençoados sejam pela sua infinita dedicação e paciência) uma quantidade infindável de suculentos posts sobre séries de televisão particularmente marcantes nas nossas vidas recheadas de memória. Ou muito me engano, ou está tudo a assobiar para o lado a ver quem começa. Como eu, por exemplo. Mas entendam lá isto: Se der o pontapé de partida com «Marés Vivas», depois livrem-se de exclamar que não foi um início assim lá muito condigno.

A ternura dos 50

"Apreciei o exemplo que deu ao seu povo e ao mundo, fazendo jogging logo pela manhã. Apreciei isso, para mais numa altura em que já completou 50 anos". A frase é de George W. Bush, who else? O homem em forma aos 50 anos quem é que havia de ser?

P. S. - A imagem foi obtida em www.ajudastecnicas.gov.pt

As emoções básicas (crónica) XIII



A arma encravada


Parece que chego tarde a todas as conversas. Quando tenho alguma coisa de interessante para dizer sobre os temas do dia, já antes alguém disse algo de bem mais inteligente. Isto acontece-me tantas vezes, que me habituei a ficar calado. Vejo os outros a conversar, treinei-me nessa observação. Gosto do exercício. Estou sempre a torcer por alguém, quando há debate de ideias, e fico maravilhado como algumas pessoas têm a arte de, no tempo que demora a incendiar um fósforo, rematar com um argumento demolidor.
O gosto de ouvir os outros a falar tem certamente lados negativos: quando sei que posso ser pertinente, num determinado ponto da conversa, sinto tal desejo de dizer coisas acertadas, que interrompo os outros à bruta, para dizer essa tal frase que entretanto me escapou da ideia. E, no embaraço, levanto a voz, à qual dou uma ênfase que não queria dar à partida.
Ainda é pior quando me fazem uma pergunta: aí, ou a pergunta é certeira e dou a minha opinião ou, o que é mais normal, começo por tentar levar a conversa para o ponto que achava mais importante, mas que não estava contido na pergunta. E o exercício torna-se fútil, pois quem perguntou resiste aos meus esforços. Se, por qualquer milagre, consigo entrar no ponto que queria sublinhar, geralmente já acabou o tempo.
Era isto que eu queria escrever, não apenas chego tarde às conversas, mas parece que não tenho a inteligência social para me moldar às conversas dos outros. Anteontem, estava tão impaciente, num ambiente estranho para mim, que fui de uma brutalidade extrema com uma pessoa. Depois, nem lhe pedi desculpa. Os que me conhecem sabem que posso ser invulgarmente bruto numa banal troca de impressões. Como se aquilo que quero verdadeiramente dizer não seja formulado da maneira que pretendia, como se houvesse uma máquina na minha mente que muda todo o sentido das frases pensadas, por causa da urgência, por não haver tempo para fluir o raciocínio inicial e ser necessário entrar num programa acelerado, mais de combate do que de descontraído diálogo. E, claro, o programa transforma num turbilhão confuso o que, no meu pensamento, parecia estruturado. Enfim, há muitas conversas onde não acerto uma. Algumas pessoas pensam que é arrogância, mas é falha de outra natureza.
Por isso, muitas vezes, prefiro ficar calado e sonhar com o que diria, se as circunstâncias me permitissem. É engraçado como no silêncio todos os discursos se tornam tão perfeitos.
Na imaginação, sou um grande orador. Se estiver sozinho, sem medo, posso declamar um poema. Não me embrulho nas sílabas e o vocabulário expande-se, como que por milagre. Os erros gramaticais dissipam-se (é curioso como, em conversa, cometo tantos erros gramaticais, sobretudo quando me enervo).
E, agora, reparo: escrevi uma crónica confessional. O que querem as pessoas saber destes receios absolutamente individuais? E, tendo estado toda a tarde a meditar sobre outros assuntos, de como o mundo contemporâneo é demasiado explícito, virado para prazeres do indivíduo, esquecido da solidariedade, muito técnico e superficial, feito de fogo-de-artifício e luzes de néon, é curioso que me tenha saído esta crónica meio atabalhoada e cheia de autocomiseração, sem nenhum tema que se veja, sem uma palavra sobre os assuntos que afligem os nossos contemporâneos e que, afinal, já foram devidamente dissecados por toda a gente desta imensa conversa, a blogosfera, onde chego sistematicamente atrasado.

Uma palavra sobre a ilustração: foi tirada do filme "O Homem que Matou Liberty Valance", de John Ford, que devia ser o tema desta crónica. Como não consegui escrever sobre o filme, e na medida em que as ideias são como as cerejas, lembrei-me da importância da palavra nesta obra-prima do cinema, pois o bruto é vencido também pela força dos argumentos retóricos, que funcionam na sua qualidade de rolo compressor da História. O filme fala de um problema muito contemporâneo: a incerteza sobre o que é a verdade. Lembram-se do famoso "print the legend" que tanto nos explica sobre aquilo que nos rodeia?

Etiquetas: , ,

Sócrates só corre para o boneco

Mão bondosa já fez saber aos jornalistas da comitiva que, quando forem 8 da manhã em Washington, o nosso primeiro-ministro vai fazer o seu jogging pelas ruas da cidade. Apesar de este ser um número repetido sempre que Sócrates muda de continente, não deixa de ser estranho que, por cá, não o vejamos na rua nem a saltar à macaca. Parece que prefere o ginásio. Pois sr. PM, vou dar-lhe uma informação que vai simplificar a sua vida: nesses sítios onde vai também há ginásios. Palavra! Mude lá de gracinha, que essa já enjoa.
(a foto é do DN mas não encontrei o nome do autor. As minhas desculpas)

«No problem»


O Dalai Lama já partiu, em direcção à Áustria. Hoje, acordei às quatro da madrugada para, juntamente com diversas outras pessoas da organização incluindo a equipa do Hotel Marriott, me despedir dele antes da sua partida para o aeroporto. Foram cinco dias de uma enorme intensidade, tanto profissional como emocional.
No primeiro dia, após a conferência de imprensa, assisti ao recolocar da poltrona na qual o Dalai Lama se sentara. Voltou ao seu costumeiro lugar, no átrio do hotel. Muitas centenas de pessoas sentar-se-ão nela, desconhecendo quem a utilizou e para que serviu. Pouco importa. Importante é a repercussão das suas palavras e dos seus actos naqueles que o viram e ouviram. Quanto às atitudes dos políticos, com as suas desculpas de agenda, real politik ou protocolo, valem o que valem e pesam o que pesam. Ou seja, absolutamente nada.
Na foto: O autor deste post entre cerca de 400 pessoas, recebendo ensinamentos e uma transmissão de Vajrasattva no Karuna, mosteiro budista na Serra de Monchique.

Um filme de horror

O Corta-Fitas teme pela segurança e pelo bem-estar da Passarinha, a nossa hospedeira de bordo preferida. O problema da Maria do Céu - que considera o Pedro Mexia um "teddy bear super querido" que "adora imenso" - é que está metida numa tripulação que parece saída de um filme de terror: Emilia, Jennifer, Peter, Jade, Thomas, Katie e Viki não a deixam em paz. Percebo agora que viajar com o comendador Berardo possa ter sido uma lufada de ar fresco...

A ler

1. "Contra o histerismo corporativamente provocado", do Carlos Abreu Amorim.
2. "Quem anda a matar a Justiça", de José.
3. "Grande vantagem", do Rui Costa Pinto.
4. "Bandeiras terceiro-mundistas", de Filipe Melo Sousa.
5. "As velhas do soalheiro", de Pinho Cardão.
6. "Ele que venha", do Henrique Burnay.

Música para os seus ouvidos (2)


Erykah Badu - "Love of My Life"

Sintra, sempre


Chama-se Anima Mundi Livreiros e é a nova aventura da Maria Emília, uma mulher de armas que há uns anos fundou a associação Âncora - dedicada sobretudo a pais que perderam tragicamente os seus filhos e que precisam de ajuda para ultrapassar a dor. Passados todos estes anos, a Maria Emília resolveu, como me contou há umas semanas, deixar a direcção da associação para promover alguma renovação. E, como não é mulher de se deixar ficar, agora fundou uma editora sedeada em Sintra, virada para a publicação de jovens autores e de escritores dos países lusófonos. Sucesso é o que se espera.

A estratégia da ausência

É curioso que seja o Presidente da República, e não o primeiro-ministro, a pôr água na fervura depois das críticas à entrada em vigor do novo Código de Processo Penal (CPP), que contém alterações ao instituto das prisões preventivas. Enquanto Cavaco Silva fica a defender o que não é da sua pena, José Sócrates parte para Washington, onde pretende fazer algum jogging para manter a forma.
A estratégia do propagandista-mor é simples: anda pela Europa e pelo Mundo, aparece aos sábados no País profundo a oferecer computadores a preço de amigo e vai passando por entre os pingos da chuva. Quem se molha são os seus ministros. Jaime Silva e Rui Pereira em casos como o da herdade de Silves e os assaltos de Viana do Castelo, Alberto Costa no CPP e em vários outros. Quando todos eles falham e ninguém aparece a dizer "presente", Sócrates deixa que Cavaco Silva se auto-responsabilize por ter promulgado o diploma que naquele momento estiver a ser alvo de críticas. Governar assim é fácil. O problema é que a estratégia não dura para sempre e Cavaco só se compromete quando quer (mesmo neste caso, sublinhou que é preciso pôr o Parlamento vigiar a aplicação da lei). Sem um número dois, desde a saída de António Costa para a Câmara de Lisboa, Sócrates optou por não reforçar o Governo com pesos políticos. É ele e "os outros". Os "outros" servem para tudo. Apagam os fogos, ficam com a má imagem, mas como também não têm peso político próprio são dispensáveis quando se fizer a remodelação pré-eleitoral lá para 2008. Sócrates fica limpinho até lá.

Domingo, Setembro 16, 2007

O trágico declínio dos melhores escritores


Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão. Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Esenin, Vladimir Mayakovsky. E Stefan Zweig, Primo Levi, Paul Nizan – acrescento eu. No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca.
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?

Etiquetas:

Vontade de ler


Algumas destas cadeias de leitura na blogosfera têm piada. Uma delas é a que nos interpela a falar de cinco livros que lemos e podemos recomendar. Aceito novamente o desafio, agora a pedido do Afonso Reis Cabral, do Janelar. Pedindo naturalmente desculpa pelo atraso.

O Céu que nos Protege, de Paul Bowles. Tradução de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim). Um dos melhores romances que li na última década. Já sinto vontade de o reler. E de zarpar para o norte de África. A melhor literatura é assim: faz-nos mudar por dentro, faz-nos mudar a vida. Ou até mudar de vida.
A Fogueira e Outros Contos, de Jack London. Tradução de Ana Barradas (Antígona). Um dos grandes ficcionistas de todos os tempos, traduzido de forma impecável por uma das suas melhores divulgadoras em Portugal. Todos os contos são bons, mas há dois de antologia: o que dá nome ao livro e “O Bife”. Histórias intemporais sobre a condição humana.
Artur ou a Felicidade de Viver, de Françoise Giraud. Tradução de Rute dos Santos Leote (Inquérito). Um livrinho de memórias daquela que foi talvez a mais célebre jornalista francesa de todos os tempos. Lê-se de um fôlego mas sabe a pouco: ela tinha obrigação de fazer mais.
Avenida Paulista, de João Pereira Coutinho (Quasi). Excelentes crónicas de um dos melhores colunistas actuais da imprensa portuguesa. Num estilo distante do falso cinismo provocador que se tornou sua imagem de marca.
Film Noir, de vários autores (Overlook Press). Terceira edição de uma obra organizada por Alain Silver e Elizabeth Ward que constitui a referência definitiva sobre o fabuloso cinema negro americano. Uma colecção de ensaios que nos contam tudo quanto queríamos saber sobre filmes que nos marcaram para sempre. Laura, de Preminger. O Arrependido, de Tourneur. Pagos a Dobrar, de Wilder. Matar ou Não Matar, de Ray. O Desconhecido do Norte-Expresso, de Hitchcock. Gilda, de Charles Vidor. Os Assassinos, de Siodmak. A Dama de Xangai, de Welles. Quando a Cidade Dorme, de Houston. E tantos outros.

Etiquetas:

Gostei de ler

Só uma palavrinha. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
Mistérios da língua. Do José Gomes André, no Bem Pelo Contrário.
Só nos faltava a estética! Da Helena Matos, no Blasfémias.
China Town. Do Miguel Castelo-Branco, no Combustões.
Os métodos da ASAE parecem estar a fazer escola. Do Pedro Sales, no Zero de Conduta.
Quando não há bom senso, não há planos tecnológicos que nos salvem. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Dalai Lama. Do Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
Histeria. De Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.
A felicidade ao virar da esquina. De Dulce Alves, no Agre & Doce.

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XIII)


PEQUIM.
"Na Primavera havemos de voltar à Colina Perfumada, ao pavilhão do Pinheiral de Troncos Brancos, ao santuário das Nuvens Azuis e ao jardim dos Cortesãs Ching." (Maria Ondina Braga)

Etiquetas:

Maddie (bis)

O melhor texto sobre o caso Maddie até agora surgido na imprensa portuguesa. De José Pacheco Pereira. Leiam-no aqui.

Maddie


É estranho que tenham saído de Portugal quando começaram a sentir-se acossados? É incompreensível que tenham abandonado a campanha quando começaram a ser olhados por todos com suspeição? São, obviamente, culpados?
Quem sabe... a realidade, muitas vezes, ultrapassa a ficção. Mas há uma coisa que não me sai da cabeça: se os McCann são culpados, qual seria o interesse de montarem uma campanha com dimensões nunca vistas, justamente com o objectivo de não deixar morrer o caso, tê-lo bem presente por forma a que a polícia se sentisse pressionada a não abandonar as buscas e o desaparecimento da sua filha não ficasse, como tantos outros, sem solução?
Alguém me explica isto?

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 15, 1-10

Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».

Da Bíblia Sagrada

Etiquetas: ,

Sábado, Setembro 15, 2007

Vão ao dicionário

A defesa do sr. Scolari continua a dar cartas um pouco por todo o lado, incluindo aqui neste blogue. Respeito a opinião de quem acha que os actos do sr. Scolari não passaram de uma excitação púbere após um jogo quente. Mas é assim a vida, com diferenças de opinião e de pontos de vista.
Para mim, a atitude inacreditável de um seleccionador de futebol, que leva ao peito o símbolo de Portugal e veste as nossas cores, é motivo para afastamento imediato do cargo que ocupa. Eu estou à vontade, porque critiquei desde o princípio as opções do seleccionador, contra tudo e contra todos, quando muitos aqui no blogue achavam o brasileiro o máximo. Viu-se o resultado: não ganhámos nada. Por isso, reforço o que tenho dito, não me interessa que o apuramento para o Europeu de 2008 pudesse ser posto em causa com a rescisão do contrato milionário com o técnico brasileiro (eu até acho que está em causa com a sua continuidade), mas os actos depois do Portugal-Sérvia não o habilitam a comandar jogadores portugueses, nem a envergar a nossa camisola. Pelo que fez em Alvalade, pelo que disse depois na conferência de imprensa e pelas desculpas de mau pagador que deu desde aí. Mesmo que o árbitro, Markus Merk, garanta que o seleccionador foi provocado. É-me indiferente, aquele tipo de comportamento é o fim da linha.
Já agora, registo que a única pessoa que teve bom senso foi Cavaco Silva, que ontem afirmou isto: "Um gesto lastimável, principalmente tendo presente que estava em causa a selecção das quinas". Esta declaração do Presidente da República diz tudo. E para quem não sabe o significado de "lastimável", recorro ao dicionário - "digno de lástima; deplorável; lamentável". Chega? Ou é preciso dizer mais alguma coisa?

Merkel

Diz o Paulo Gorjão que o meu elogio a Angela Merkel por ter a coragem de receber, não interessa a que título, Sua Santidade o Dalai Lama não passa de "vontade de criticar o Governo português". Paulo, "sejamos claros", como você costuma dizer, não me movo por esse tipo de "vontades". Critico quando tiver que criticar, elogio quado tiver que elogiar. Quanto ao tema em apreço, julgo que a chancelerina alemã teve uma coragem enorme, ao decidir receber o Dalai Lama em Berlim, o que acontece pela primeira vez. Pouco me interessa se a solução é "de compromisso" ou não. O que me interessa é que Merkel vai receber o Dalai Lama e José Sócrates não teve coragem para o fazer. É evidente que a Alemanha tem outro poder e outro lastro que Portugal não tem hoje em dia na cena internacional, mas é justamente nestas alturas que se vê quem é que tem "unhas" para tocar viola.
Lembro-lhe ainda o facto de Merkel ter passado pelo que passou na antiga RDA, o seu historial de resistência e a vida que teve, sobretudo passada na universidade (é física de formação). Essa vivência habilita-a fazer o que faz e a ser como é, como lembrou - e bem - o Le Monde há umas semanas num editorial muito interessante que lhe sugiro que leia. Depois conversamos. Acho que o engº Sócrates não dá lições de liberdade a ninguém, nem me parece muito habilitado a falar de Direitos Humanos, com a sua vida entre a Covilhã e São Bento. Merkel sabe do que fala. Viveu na pele.

Coisas boas deste sábado

- A entrevista de Dalai Lama ao Expresso ("A religião é um assunto individual, mas a ética diz respeito a todos") e a fotografia, em que os ângulos do corpo apontam para diferentes direcções e em grande plano surge um pé desproporcionado e surpreendente.

- O Corta-Fitas e os excelentes textos de Miss Pearls e Pedro Correia sobre cinema.

- O novo disco de Dean Martin, Forever Cool.

Grace


Janela Indiscreta
Grace Kelly morreu há 25 anos. E eu achava-a linda com aquele preppy look só ao alcance de alguns e de algumas. Provavelmente só Gwyneth Paltrow looks preppy now.
O melhor de Grace Kelly seria após ter encontrado Alfred Hitchcock. "Este grande fetichista de louras tornou-se o seu mentor e potenciou-lhe ao máximo na tela o glamour distinto, a sofisticação erótica e a elegância altiva em Chamada para a Morte, Janela Indiscreta (ambos de 1954) e Ladrão de Casaca (1956)." (DN)

Com ele fez esta cena encantadora:
Lisa: How's your leg?
Jeff: Hurts a little.
Lisa: Your stomach?
Jeff: Empty as a football.
Lisa: And your love life?
Jeff: Not too active.
Lisa: Anything else bothering you?
Jeff: Uh-huh, who are you?

Cinema Nostalgia (12)



O que terá acontecido a Karen Black?

Durante um certo período – um período demasiado longo, podem crer – todo o glamour parecia ter sido banido do cinema. Sei do que falo: fui vítima disso. As actrizes belas e vaporosas, que pareciam irreais e nos faziam sonhar, eram um símbolo do passado. Elizabeth Taylor e Natalie Wood, por quem estive estupidamente apaixonado, haviam deixado praticamente de filmar. E todas as outras a que justamente chamávamos estrelas tinham sumido sem deixar rasto. Quando me tornei espectador regular de cinema, no lugar das estrelas havia a “mulher comum” – último grito de guerra feminista contra a visão “estereotipada” da beleza feminina posta num pedestal.
Essa moda limitou-se afinal a substituir uns esterótipos por outros, bem menos estimulantes. A “mulher comum”, com uma absorvente carreira profissional e as preocupações de todas as mulheres, era personificada nos ecrãs por actrizes que mal nos fariam virar a cara num movimento de instintiva, irreflectida e patética admiração se as encontrássemos na rua. Actrizes cheias de talento mas desprovidas de glamour, como Diane Keaton, Mia Farrow, Sally Field, Meryl Streep. Actrizes que ocultavam os traços congénitos de beleza para surgirem na tela como epítomes da “classe trabalhadora” ou do radicalismo político, como Jane Fonda e Vanessa Redgrave. Actrizes que podiam ser iguais a qualquer mulher com quem nos cruzávamos num transporte público, como Karen Allen e Geneviève Bujold. Insuportáveis ruivas britânicas, como Samantha Eggar e Sarah Miles. Actrizes desprovidas de qualquer traço de beleza, como Karen Black, Liza Minnelli ou Shelley Duvall.
Acreditem: foram tempos pavorosos. Papei as estreias de todos os filmes de todas estas inenarráveis “mulheres comuns” e abominei a minha má sorte de espectador. Havia encanto no nariz de Barbra Streisand? Talvez não. Mas nessa era onde o romantismo havia sido praticamente varrido dos ecrãs por estar fora de moda até Barbra Streisand parecia esbanjar charme num filme ousadamente romântico como O Nosso Amor de Ontem (Sydney Pollack, 1973). Que, não por acaso, nos transportava aos anos 40.
Mero problema de geração, que me fazia olhar para as actrizes dos tempos dos meus pais e avós com um fascínio que só agora entendo devidamente. No período dos grandes estúdios, quando era uma “fábrica de sonhos” sem complexos de qualquer espécie, Hollywood mostrou ao mundo as melhores mulheres de sempre. Carole Lombard, Heddy Lamarr, Paulette Goddard, Olivia de Havilland, Ginger Rogers, Gene Tierney, Rita Hayworth, Ava Gardner, Ingrid Bergman, Joan Fontaine, Kim Novak, Audrey Hepburn, Cyd Charisse, Grace Kelly, Jane Russell, Alida Valli, Lauren Bacall, Shirley MacLaine, Jean Peters, Lee Remick, Marilyn Monroe. Que, não raras vezes, eram também excelentes actrizes – como podemos comprovar hoje melhor que nunca. Não admira que me tivesse tornado adepto fervoroso de filmes antigos: para ver “mulheres comuns” não era preciso ir ao cinema...

Até que um dia, como sucede a todas as modas, também esta mudou. O glamour deixou de ser pecado. O mundo cansou-se dos exageros feministas e as mulheres voltaram a surgir nos ecrãs irradiando beleza, sem recearem excomunhões políticas nem o discurso iracundo da sociologia de pacotilha que antes as proibia de agradar aos homens.
Foi com alívio que vi chegar a nova era. Demi Moore moldando barro n’ O Espírito do Amor. Michelle Pfeiffer subindo para um piano n’ Os Fabulosos Irmãos Baker. Meg Ryan a ser cortejada à moda antiga por Billy Crystal em Um Amor Inevitável. No topo dos cartazes passaram a figurar os nomes (e os rostos e os corpos) de Sharon Stone, Diane Lane, Nicole Kidman, Gwyneth Paltrow, Charlize Theron, Kate Winslet, Cameron Diaz, Salma Hayek, Catherine Zeta-Jones, Natalie Portman, Rachel Weisz. E – thank heaven for little girlsScarlett Johansson. Tão belas como as deusas de outrora.
Às vezes interrogo-me o que será feito de Karen Black. E de Karen Allen. Mas, com toda a franqueza, quero lá saber...

Etiquetas:

Postais blogosféricos

1. É a altura de saudar a Helena Garrido, que acaba de abrir o seu blogue, Visto da Economia. A ler com atenção.
2. Um abraço de parabéns ao João Tunes, responsável por um dos melhores blogues portugueses, Água Lisa. Já no quinto ano de existência.
3. Muito pertinente, esta interrogação de Vital Moreira.

Etiquetas:

Voltou o tempo das vitórias morais

Em râguebi, acabámos de levar 108-13 da Nova Zelândia. Meio país parou para ver a derrota, transformada em "vitória moral" dos "lobos" que "dignificaram a nossa camisola". Como no futebol do antigamente. Está mais que visto: não temos emenda.

Etiquetas:

Vinte cidades que jamais esquecerei (XII)


MINDELO.
"Quem não conhece Mindelo, não conhece Cabo Verde."
(Manuel de Novas)

Etiquetas:

Sexta-feira, Setembro 14, 2007

Ainda é sexta-feira?

Estava a ler um livro do Super Homem aos meus filhos quando eles gritaram: "Não é possível! Grande aldrabice!". Sorri, recostei-me e tentei recordar-me de como tinha corrido quando foi do Pai Natal. "- Como é que ele pode voar se acabou de receber uma carga de kriptonite?!? Grande aldrabice!". Afinal, os poderes do Super Homem não estavam em causa. A descrença no detalhe ainda reforçava mais a fé no mais estranho de tudo, que é a possibilidade de voar com uma capa e ter super-poderes.
Lembrei-me do episódio ao ouvir o coro de emoções por causa da agressão de Scolari ao jogador sérvio. Não falamos de futebol? Com faltas, jogadores que morrem fulminados em campo, casamentos e amizades que se formam e desfazem, árbitos corruptos, presidentes que mandam bater em pessoas incómodas, raparigas que passam da casa de alterne para rainhas dos estádios e depois para escritoras, miúdos de rua que, de um dia para o outro, se tornam estrelas mundiais e milionários e milionários que, de um dia para o outro, caem na lama, pessoas que choram e riem no fim das partidas... e agora, lá porque o seleccionador tenta dar um murro num da outra equipa, está tudo ai, ai. Então, meninas?

As coisas nos seus lugares

Inveterado emocional como sou, na quarta-feira deitei-me com um amargo de boca, incomodado com a tragicomédia que foi o desfecho do Portugal vs. Sérvia. Tudo correra mal, e o pior ainda era o humilhante comportamento do treinador. Admiro quem logo no dia seguinte friamente opinou, julgou e escreveu, enquanto eu fiquei literalmente amuado. Privilégio(?) de quem não é colunista ou jornalista.
Scolari, nos dias da minha vida, foi o seleccionador que mais longe levou as cores da equipa nacional de futebol. Scolari, de facto, anteontem excedeu-se, cometendo uma argolada grave. Aborrecida para a débil imagem da minha tribo e comprometedora para os objectivos desportivos da rapaziada da bola. De caminho, a sua imagem ficou bastante chamuscada: imagino o que no dia seguinte o caçula do treinador ouviu no colégio... E compreendo que algumas marcas estejam a fazer contas de cabeça à rentabilidade da imagem do nosso ex-prazenteiro seleccionador. Ele, que afinal foi o melhor que eu conheci à frente da selecção nacional nos meus quarenta e seis anos de idade. O único que, por exemplo, com olímpica indiferença, ultrapassou os lobbies clubistas e outras máfias domésticas - com os resultados que se conhecem.
Tudo isto é uma chatice, um aborrecimento, eu sei. Mas não é mais do que isso, é futebol; e por mim, que não sou presidente da UEFA, o Sr. Scolari está mais do que perdoado. Espero que a justiça desportiva não seja severa e que ele possa voltar quanto antes a sentar-se no banco a liderar os seus rapazes. E dessa forma dar-nos mais algumas alegrias com as cores republicanas, no único uso onde ganham alguma graça. Para que no fim, seja qual for o resultado alcançado no europeu de 2008, Filipão se despeça da demanda portuguesa com merecido orgulho e dignidade.

Etiquetas: ,

Povo que lavas no rio

As televisões e as rádios abriram ontem os microfones às opiniões do "povo" a propósito do lamentável caso Scolari. E, como seria de esperar, logo o dislate andou à solta. Atingindo níveis raramente registados mesmo neste género de programas que dão púlpito nacional à conversa de taberna. Um dos "populares" com direito a antena chamava ontem a Scolari um "imigrante arrogante, agressivo e mentiroso". Outro foi ao ponto de dizer que o seleccionador, "como imigrante, devia deixar o nosso país por decisão do ministro dos Negócios Estrangeiros".
Ia escutando isto, com um crescente sentimento de náusea, enquanto pensava como no futebol, à semelhança do que se passa na generalidade dos sectores, mantemos uma inveja atávica e puramente irracional em relação a todos os protagonistas de sucesso. Assim que estes protagonistas têm um momento difícil, cai-lhes em cima todo um batalhão de gente rancorosa e despeitada. E logo a mais reles xenofobia surge à tona, desmentindo os "brandos costumes" que nos servem de emblema.
Nestas alturas, envergonho-me de ser português. Envergonho-me deste "povo" que embandeirou em arco com os triunfos da selecção das quinas no Europeu de 2004 e no Mundial de 2006, e agora se apressa a exigir a deportação de Scolari, como se vivêssemos na Idade Média, enquanto mantém as bandeiras portuguesas - que ele tornou um símbolo de festa nacional - transformadas em farrapos na solidão das varandas.
............................................................................................
Ler também:
- O cantinho do hooligan. Mau feitio, de Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies
- As putas das criancinhas e O espírito, de Jorge Madeira, n' A Causa Foi Modificada
- Ponto da situação, de Paulo Pinto Mascarenhas, na Atlântico
- Espanta espíritos, de Rui Castro, no Incontinentes Verbais
- Scolari: o fim, de Pedro Norton, na Geração de 60
- Vox populi, de Rui Bebiano, n' A Terceira Noite

Etiquetas:

A trote e a galope

A Maria caiu do cavalo. O Corta-Fitas espera que a Menina Lasciva não se tenha magoado...

Quem sabe, sabe

A chancelerina Angela Merkel vai conceder uma audiência ao Dalai Lama no próximo dia 23 de Setembro. Os Direitos Humanos estão na agenda, como já estiveram quando Merkel visitou a China em Agosto. Sucede que a chefe do governo alemão não foi lá na qualidade de jogger, mas sim de responsável política e de mulher habituada aos jogos dos negócios e dos interesses. Soube balancear tudo. Só que isso é uma virtude ao alcance de poucos.

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XI)


ZURIQUE.
"Zurique é realmente uma cidade maravilhosa." (Henry James)

Etiquetas:

É bom falar de livros

Lancei o repto, tive três respostas. Da Sofia Loureiro dos Santos, do Jorge Ferreira e do Adolfo Mesquita Nunes. Três perspectivas diferentes, mas de algum modo complementares. Conclusão óbvia: é bom falar de livros. Para variar.

Etiquetas:

Pretéritas Sextas (IV)

Etiquetas:

Porque hoje é sexta-feira


"Harry tinha quase a certeza de que tal como ele, todos os homens presentes experimentavam um prazer e estimulação consideráveis pela prática de topless, e era pouco provável que as próprias mulheres não tivessem consciência disso. Talvez considerassem excitante -- especulava Harry – exporem-se daquela forma, sabendo que os homens não podiam denunciar qualquer sinal de excitação, e que os seus próprios maridos podiam partilhar daquela mesma excitação, por delegação de propriedade. Especialmente se a sua própria mulher fosse mais bem dotada do que outras. Interceptar o olhar admirador e invejoso de outro homem dirigido às mamas da sua mulher e pensar silenciosamente para si próprio: “Sim, tudo bem, amigo. Podes olhar desde que não seja muito óbvio, mas só eu é que lhes posso tocar, percebes?”. Isso devia ser muito excitante.
Harry estava deitado ao lado de Brenda na borda da psicina, entontecido pelo calor e pela ponderação de todos estes quebra-cabeças e paradoxos. De súbito sente-se trespassado por uma flecha de desejo perverso: ver a sua mulher nua e desejá-la através dos olhos dos outros homens. Rolou por cima do seu estômago e colocou a boca junto ao ouvido de Brenda.
- Se tirares o teu top – sussurrou – compro-te aquele vestido que vimos em St Raphael." – David Lodge in Histórias de Verão Contos de Inverno

Sexta-feira


Irina, para a Sports Illustrated

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Crítica construtiva



Há países onde os ex-presidentes da República são chamados e são úteis precisamente nestes momentos, em que é preciso diplomacia paralela e dar honras de Estado aos visitantes sem comprometer o Estado.
Alertada pelo Pedro Correia de que tanto Dalai Lama como Mário Soares advogam o diálogo com Bin Laden, acho que esta poderia ser uma bela ocasião para dar uso ao nosso ex-presidente. De certeza ficariam ambos radiantes.
Sem querer maçar mais, acho querer estabelecer um contraste entre a não-audiência a Dalai Lama e a audiência a Bob Geldof empurra Geldof para uma posição de frívolo cantor de serviço aos pobrezinhos que não é justa. Recordo, entre outras, a sua intervenção em 2005 no G8 de apoio às políticas defendidas por Tony Blair para aumentar a ajuda a África (reduzir a fome e ajudar o desenvolvimento). E não foi na posição de bardo, mas sim de membro da comissão para os assuntos africanos criada por Blair.


Limpeza de imagem

Depois do que se passou ontem, após o jogo Portugal-Sérvia, a qualificação da nossa selecção para o Europeu de 2008 é-me um pouco indiferente. Sou sincero, adorava que a equipa mostrasse outro futebol, outra atitude e, sobretudo, caras novas no onze (Nani está a ser desperdiçado, Miguel Veloso e Moutinho devem jogar nos lugares de Petit e Deco), mas isso nesta altura não é fundamental. Hoje assistiu-se a uma autêntica tentativa de limpeza da imagem do sr. Scolari, que penso não ter sido muito bem sucedida.

As desculpas de mau pagador e a entrevista a Judite de Sousa, horas depois de ter dito em conferência de imprensa o que disse, sabem a pouco. O cenário parece colado com cuspo. Ou muito me engano ou ouvi o seleccionador nacional garantir ontem, já depois do duche tomado (quente, presume-se), que não tinha feito nada de mais. Que o episódio era uma coisa normal, característica do futebol.

Parece-me que a FPF está a tentar ganhar tempo até a UEFA se pronunciar sobre o assunto. Mas mesmo que o faça em termos ligeiros, o sr. Scolari acabou ontem a sua carreira à frente da selecção. Pode até fazer os quatro jogos que lhe faltam para o apuramento. Pode até conseguir o apuramento. Pode até ensaiar uma renovação do contrato em 2008 (coisa de que duvido), mas o destino está traçado. Quando se perde a noção de liderança, perde-se tudo.

Duas nódoas numa noite só

Na conferência de imprensa de Luiz Felipe Scolari que se seguiu ao Portugal-Sérvia, ouvi o que jamais pensei escutar: vários pedidos de desculpa de jornalistas ao seleccionador. Como se fazer perguntas, eventualmente incómodas, não fosse essencial nesta profissão. "Senhor Scolari, peço desculpa por lhe fazer esta pergunta..."; "Senhor Scolari, desculpe insistir..." Pouco depois de ter assistido em directo a um dos momentos mais vergonhosos de sempre do nosso futebol, o País inteiro assistiu, também em directo, a um dos momentos mais lamentáveis do jornalismo português.

Etiquetas:

Uma pergunta

Será que o primeiro-ministro vai usar um pouco daquela sua veia atlética e ensaiar uma corridinha ou um jogging à maneira durante a sua visita oficial aos EUA? Sinceramente não creio que possamos ver o primeiro-ministro a percorrer Washington em passo de corrida. A ver vamos.

Fechar a porta na cara

Como já disseram, e bem, o Pedro e o João, é inacreditável a mais recente atitude do PMP (primeiro-ministro da propaganda). Receber Bob Geldof em São Bento, depois de bater com a porta na cara do Dalai Lama não é bonito. Mas não é a primeira vez que isto acontece. Como alguns já lembraram, Al Gore foi recebido com honras de Estado, não tendo neste momento o democrata norte-americano qualquer cargo oficial, para além da sua carreira como conferencista e autor de documentários (bons, no caso). Eu acrescento, isto não é de hoje. Na sua época, Jorge Sampaio não recebeu Sua Santidade o Dalai Lama em Belém, mas abriu as portas aos U2. E até condecorou Bono Vox e companhia de chapéus à cowboy na cabeça, botas bicudas e calças de cabedal. Mas a kata do Dalai Lama causava algum desconforto político e diplomático.

Uma simples questão de higiene mental


A verborreia política. As gravatas monocolores ditadas pelos operadores de marketing. As promessas por cumprir. O desdizer hoje o que se disse na véspera – e vice-versa. O trocatintismo. A canalhice em vários graus, amadora ou profissional. O manobrismo. O carreirismo oportunista. A falta de memória. A demagogia imparável. A insinuação soez. As facadas nas costas. As cartas viciadas na manga. O dois de espadas apregoado como ás de copas. A banha-de-cobra. O veneno servido em directo a cada abertura de telejornal.
Não admira que cada vez mais pessoas virem costas à política – a esta política. É uma simples questão de higiene mental.

Etiquetas:

As portas de São Bento II

Bob Geldof, ao contrário de Dalai Lama, não traz melindres diplomáticos a S. Bento e é um famoso ícone do moralismo Pop, “we are the world” (de esterilidade garantida) que é muito caro à esquerda "moderna".

Etiquetas:

Gostei de ler

Do Dalai Lama a Mugabe. De Pinho Cardão, na Quarta República.
Dalai Lama? Quem é? Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Quem fala em nome do PSD? Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.
Uma campanha edificante. Do Pedro Sales, no Zero de Conduta.
11 de Setembro, queiramos ou não. Do Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
Aniversário. Do Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.
Escolas e valores. Da Helena Garrido, no Visto da Economia.
Apenas comovido. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
De Scolari à madailização que nos envolve. De José Adelino Maltez, no Sobre o Tempo que Passa.
Futebol burguês. De José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro.
O descampado do Oriente. De Vital Moreira, na Causa Nossa.
Mania de ser do contra. Do António Figueira, no Cinco Dias.
Deve ser a isto que chamam pós-modernidade. Do Henrique Raposo, na Atlântico.
Momento Gina: vidas patéticas. Da Rita Barata Silvério, na Rititi.

As portas de São Bento

José Sócrates, que decidiu não recebeu o Dalai Lama, arranjou tempo para receber hoje Bob Geldof. Cada visitante tem os interlocutores que merece.

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (X)


NOVA DELI.
"Um vivo e palpitante cinematógrafo." (James Hilton)

Etiquetas:

Tertúlia literária (218)

- Que tal esse livro do Paulo Coelho?
- Não ando a gostar dele. Empata muito e convence cada vez menos.
- É como o Scolari. Os brasileiros são assim.

Etiquetas:

O major e o aprendiz

A campanha nacional que o Governo está a fazer a favor da Educação do nosso povo, distribuindo computadores portáteis a 150 euros, com ligação rápida à Internet, faz-me lembrar, não sei bem porquê, o major Valentim Loureiro. O autarca há uns anos também zelou pelo conforto dos habitantes de Gondomar ao distribuir todo o tipo de electrodomésticos. Só que foi acusado, e bem, de populismo.
Vamos lá a ver. O Governo faz bem em querer dar oportunidades a quem não as tem. Faz bem em querer que o País tenha índices tecnológicos superiores. Faz bem em pensar que isso pode trazer uma repercussão positiva no estado caótico da Educação lusa. O que não faz bem é fazer campanha com isso. Sim, campanha. Ter um primeiro-ministro que diz que a coisa que lhe dá mais gozo hoje em dia é distribuir computadores aos sábados de manhã é para rir. Fazer com que mais dois ou três ministros passem pela mesma figura (inclusive os da Administração Interna e da Justiça, coisa que me custou a acreditar e tive que ver com os meus olhos na televisão) é a prova de que a campanha para as legislativas de 2009 está aí. Com material de propaganda que é fornecido com o apoio do Estado e de empresas privadas.
Se o Governo pretendia lançar programas deste tipo, que o fizesse, deixando claros os requisitos mínimos para quem queria candidatar-se a receber as benesses, depois cada professor e aluno ia buscar o seu computador onde bem entendesse. Não era o chefe do Executivo a distribuir benesses, em forma de um computador entregue em mão, com um beijinho e uma palmadinha nas costas para as televisões verem e gravarem. Isto é o populismo no seu estado mais puro.

Música para os seus ouvidos


John Legend - "Save Room"

Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Má figura

Se Gilberto Madaíl não fosse o presidente da FPF, provavelmente Luiz Felipe Scolari cessava hoje o seu contrato (ou "vínculo", como se diz no mundo tão particular da bola) como seleccionador de Portugal. A atitude do treinador, já nem vamos aos erros técnicos, que passam para segundo plano, a tentar agredir um jogador da Sérvia demonstram que não está à altura do emblema que leva ao peito. Mas, enfim, é o País que temos. Nada irá acontecer.
Só para se ter a ideia do perfil da figura, acabo de ouvir no carro a "flash-interview" da RTP (via TSF). E o que oiço? O senhor Scolari a dizer isto: "o jogador (sérvio) que diga se lhe toquei num único cabelinho". E a dúvida passa a ser esta. Se tocou ou não. Eu já vi as imagens e não tocou ou não lhe acertou como pretendia, mas isso é indiferente. Avançou para ele tipo "jagunço", com a intenção de lhe dar um murro. Se os jogadores perdem a cabeça, ele não pode. Devia ser um pedagogo, uma referência. E não é. É só mais um da tribo.
Como Mourinho e Queiroz estão impedidos de voltar agora a Portugal, como Paulo Bento está lindamente onde está, acho que a solução imediata seria Manuel José vir do Egipto para tomar conta da loja, fazendo sair a outra "múmia"...

Dalai, dalai

Tenho muita simpatia pelos homens que vestem de laranja em todas as estações com uma manta vermelha pelos ombros. Também tenho simpatia pelos prémios Nobel da Paz, mas menos, sobretudo desde que Ramos Horta foi vencedor da categoria. O que eu não suporto é que uma religião tenha nos seus 10 mandamentos a proibição de falar de futilidades! Isso é que não, meus senhores!!! Aproveito o ensejo para duas declararaçõezinhas fúteis:
- o jogador número 14 é, sem dúvida, o meu favorito da selecção de rugby (desporto do qual não sei absolutamente nada, além de que cantam o hino com ganas);
- depois de Servidão Humana, o único livro que mudou a minha vida foi o de cheques, numa altura em que ninguém me dava crédito.

Hipocrisia política

O Dalai Lama vem a Portugal. O Governo, pela boca do ministro dos Negócios Estrangeiros, já anunciou que não o receberá: Luís Amado tem medo dos protestos de Pequim, indiferente ao facto de o líder espiritual tibetano ser uma das mais prestigiadas personalidades do nosso tempo. O Presidente da República vai pelo mesmo caminho: só espero que não acabe por encontrar-se envergonhadamente com o Dalai Lama no interior do Museu de Arte Antiga, como aconteceu com o seu antecessor, Jorge Sampaio. Devia haver limites para a hipocrisia política. Já por bandas do PCP, nada de novo: os comunistas, sempre prontos a abraçar os mais repugnantes ditadores do planeta, como os camaradas norte-coreanos, vêm agora avisar tudo e todos contra o Dalai Lama. Vendo bem, é o melhor elogio que o líder tibetano poderia receber...

Etiquetas:

Os tugas (32)

Ela: Deve-se estar bem nesta esplanada do jardim. Queres ficar um bocadinho?
Ele: Não. Já estamos atrasados. Combinámos passar a tarde no centro comercial.

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (IX)


LONDRES.
"Quem está cansado de Londres está cansado da vida."
(Samuel Johnson)

Etiquetas:

Então... feliz ano novo!

Talvez seja uma ilusão, mas o final do Verão sempre me pareceu demasiado abrupto: no espaço de uma ou duas semanas, os longos e radiosos dias quentes escurecem e minguam vertiginosamente, trazendo consigo uma suave nostalgia, quando não uma recôndita angústia. De repente sentimos saudades do Verão que passou... ainda na semana passada, num fim de tarde na Adraga, com chinelos e poeira, um petisco e uma cerveja, aquela eufórica sensação de liberdade e o coração tão aceso. Confesso que, apesar de trabalhar durante grande parte do Verão, vivo-o com o jovial espírito de “férias grandes” de outrora. São os jantares tardios na varanda, a cidade utopicamente deserta, as coloridas esplanadas para beber um simples café ou as longas saídas de fim-de-semana.
E de repente a rotina doméstica altera-se com a preparação do retorno às aulas. Umas "cópias" e umas leituras forçadas vêm cortar a indolência das tardes de Setembro à pequenota. Há uns amuos e os sonos ainda trocados. Os mais velhos resistem como podem ao fim da época balnear, e numa manhã destas finalmente lá foram, contrafeitos, tomar nota dos horários.
Hoje, a trovoada e uma impiedosa chuva matinal aqui em Lisboa desfizeram definitivamente qualquer veleidade: apesar da praia estar logo ali atrás, começou de vez o ano lectivo, uma nova época de trabalho, aventuras e novas oportunidades. Para todos aproveitarmos com renovadas forças. Afinal, o meu verdadeiro ano novo ainda começa sempre no fim do Verão.

Etiquetas: ,

Terça-feira, Setembro 11, 2007

Na era do digital...

... as fotografias não ficam amareladas. Não há manchas nem riscos a criar distância entre nós e as imagens. O tempo não passa. Nada mais acontece, nem antes nem depois. Fica só o momento que mostra o impossível.

Etiquetas:

A irreprimível nostalgia do estalinismo

A pretexto do 90º aniversário da Revolução de Outubro - uma das mais dramáticas efemérides do século XX - o PCP usou a recente Festa do Avante! para fazer a glorificação de Estaline, acolhendo as mentiras e as mistificações da propaganda oficial do Kremlin dessa época. A revista da festa comunista reproduz quatro páginas de fotos soviéticas que mostram uma população trabalhadora alegre e feliz em plena ditadura estalinista.
Vale a pena transcrever aqui as legendas. Melhor do que todas as proclamações politicas, elas traduzem fielmente o pensamento dos actuais dirigentes do PCP. Façam o favor de apreciá-las:

1. Jovem trompetista, 1930. O avanço cultural das mais amplas massas do povo russo foi, em si mesmo, uma importante conquista de Outubro.
2. Colheita, 1937. A colectivização, ao garantir trabalho e terra a milhões de camponeses soviéticos, foi uma das mais profundas transformações revolucionárias da Revolução de Outubro.
3. Maternidade feliz, 1935. A nova vida da Rússia Soviética, em todos os seus aspectos, foi alvo das objectivas dos fotógrafos.
4. No voo, 1936. O socialismo trouxe avanços cientifico-técnicos sem precedentes na indústria, na medicina, na engenharia aeronáutica ou aeroespacial. Na foto, uma jovem aviadora observa um dirigível.
5. Komsomol ao leme. Complexo de celulose, 1931. A industrialização tirou a Rússia do feudalismo, tornando-a num dos mais avançados países do mundo. Nesta como noutras conquistas, a juventude esteve na primeira linha.

Recapitulando a matéria dada: Estaline, esse herói, "tirou a Rússia do feudalismo". Distribuiu terra por "milhões de camponeses". Proporcionou o "avanço cultural das mais amplas massas do povo". Gerou "avanços cientifico-técnicos sem precedentes" na indústria e na medicina. Imaginem: com Estaline, o "pai dos povos", havia até uma "maternidade feliz".
Ai que saudades, ai, ai...

Postais blogosféricos

1. Cisão no Tugir. Lamento-a, mas a vida é mesmo assim: nestas alturas há que seguir em frente. Vou continuar a ler o Carlos nesse blogue e o Luís na sua Barbearia.
2. Atenção aos Saraus Literários do Jorge. O primeiro foi bem divertido...
3. É o momento de dar as boas vindas ao Nuno Azinheira pelo seu novo blogue. Ficaremos atentos ao Blog do Azinhas.

Etiquetas:

11 de Setembro


Seis anos depois.

A Coca-Cola é vermelha, pá!

A revista da Festa do Avante!, repito, está tecnicamente bem feita. E foi bem gerida comercialmente: os camaradas nestas coisas não perdoam. Quarenta e uma das suas 112 páginas são de publicidade - na grande maioria referente a municípios geridos pelo PCP (a Câmara de Setúbal, certamente por falta de verba, só adquiriu um quarto de página, enquanto as de Almada e de Arraiolos reservaram uma página e a do Seixal ficou com a contracapa). Mas o facto mais relevante foi a página inteira de anúncio à Coca-Cola, o que só comprova que "todo o mundo é composto de mudança". A "água suja do imperialismo" andará agora menos turva?

Etiquetas:

9/11

INTO THE FIRE

The sky was falling and streaked with blood
I heard you calling me, then you disappeared into the dust
Up the stairs, into the fire
Up the stairs, into the fire
I need your kiss, but love and duty called you someplace higher
Somewhere up the stairs, into the fire

May your strength give us strength
May your faith give us faith
May your hope give us hope
May your love give us love
(...)
Bruce Springsteen
9/11 Tribute Video

O "fascismo" vem aí

Os responsáveis pela Festa do Avante! - e desde logo o seu director, José Casanova - editaram uma revista (bem feita, diga-se, e cheia de publicidade) com um editorial violentíssimo contra o Governo.
Nesse editorial lê-se o seguinte:
- "O Governo PS/José Sócrates tem vindo a levar por diante a mais perigosa ofensiva contra o regime democrático."
- "O Governo PS/José Sócrates leva essa ofensiva mais longe e mais fundo do que qualquer governo anterior e confere-lhe uma tónica crescentemente antidemocrática."
- "Trata-se, com efeito, de uma política (...) que tem como alvo prioritário os valores de Abril que venceram o fascismo."
- "Trata-se de uma política de cujo conteúdo essencial emergem sinais de iniludível cariz fascizante."
- "Os perigos que espreitam a democracia no nosso país são por demais evidentes."

(os sublinhados são meus)
Daqui se infere que eles - os responsáveis pela Festa do Avante!, o director do jornal e a direcção do partido - já chamam fascista a Sócrates.
Bem sei que o PCP - como o pastor da história, sempre a clamar que vira lobo - vê o "fascismo" em todos os cantos. Mas, que me recorde, há muito que não ia tão longe numa invectiva a um governo do PS. Notícia, pois. Quem falou em fascismo e no eufemístico fascizante foram eles. Não eu.
Dá para perceber, não dá?

Ups, parece que não...
Escandaliza-se o Filipe Moura não com este linguajar extremo dos editorialistas do PCP mas com o título do DN. "Eles são dos portugueses mais honestos, bravos e trabalhadores que se podem encontrar", proclama. José Casanova, Jerónimo de Sousa, o "bravo" Bernardino Soares e tutti quanti bem podem agradecer-lhe: é difícil haver elogio mais rasgado.
Esteja descansado o Filipe: para a próxima prometo-lhe um título mais respeitoso (o respeitinho é muito bonito). Se entretanto "os sinais de iniludível cariz fascizante" não me fizerem perder o pio.

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (VIII)


SINGAPURA.
"Irei onde quiseres: Istambul, Singapura..." (Henry Miller)

Etiquetas:

Atracção fatal

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Setembro 10, 2007

Mudar ou não mudar: eis a questão

Que literatura é capaz de mudar a nossa vida? Vai aceso o debate na blogosfera (por exemplo aqui, aqui, aqui, aqui e também aqui), a partir da excelente proposta do Manuel Domingos para que trocássemos umas ideias sobre o assunto. É matéria que dá pano para mangas: vivendo nós na civilização do Livro, nem poderia ser de outra forma. A simples frase “Não matarás”, impressa na Bíblia, mudou milhões de vidas.
Mas atenção: aqui acaba por discutir-se muito mais a vida do que a literatura. Porque, se virmos bem, os livros que foram fundamentais para a nossa transformação interior raras vezes coincidem com aqueles que o critério académico – incluindo o da Academia de Estocolmo – consagra como decisivos. Conheço, por exemplo, muita gente que decidiu cursar Direito por influência do bom desempenho de Perry Mason como advogado de ficção – e ninguém incluirá decerto Erle Stanley Gardner entre os maiores escritores do século XX. Gostar e admirar raras vezes coincidem. Sei bem do que falo: gosto de toda a obra de Ernest Hemingway, incluindo vários títulos que estou longe de admirar. Gosto de tudo quanto me transmite George Orwell, ainda que possa estar longe de admirar a sua escrita. Gosto de todo o Graham Greene, talvez o autor que mais me ensinou como se deve escrever, embora não partilhe o essencial das suas ideias. Basta a menção dos apelidos Kafka, Borges ou Malraux para me fazer reviver o prazer da leitura – e no entanto nenhum destes escritores ganhou o Nobel, o que não altera um milímetro a minha devoção de leitor por eles. Já o consagradíssimo Thomas Mann, pelo contrário, me faz bocejar de tédio perante o pedantismo da sua escrita, a que nunca aderi, por melhor que entenda a importância que o cânone oficial lhe atribui como romancista de “ideias”. Vale a pena lê-lo por “dever” intelectual? Certamente que sim. Retiraremos daí algum prazer? Essa é uma questão muito diferente.
São insondáveis os caminhos que nos transportam nas mais diversas direcções literárias. No seu leito de morte, Lenine pedia que lhe lessem contos de Jack London: o grande autor americano teria mudado mais a vida do fundador da União Soviética do que alguém fora capaz de imaginar. Tudo seria bem diferente se a literatura nada tivesse a ver com a vida. Mas felizmente que tem. E nenhum de nós gostaria que não tivesse.

Etiquetas:

Momentos Kodak (57)

Que estaria Luís Filipe Menezes a dizer tão sorrateiramente ao telemóvel? E com quem seria este bate-papo? E a propósito de quê? Hum, cheira-me a coisa polémica...
Foto: Rodrigo Cabrita

Gostei de ler

Dalai Lama. Do Carlos Malmoro, na Geração Rasca.
Valha-nos o Dalai Gama! De Ana Gomes, na Causa Nossa.
Tenzin Gyatso. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
Os blogues, o 'Avante! e o espaço público. Do Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
Tema para debate. De João Caetano Dias, no Blasfémias.
Ku Klux Klan no sofá. De Pedro Picoito, n' O Cachimbo de Magritte.
O efeito Agatha Christie. Do Luís M. Jorge, n' A Vida Breve.
Estranhos bichos. Da Isabela, n' O Mundo Perfeito.
Onde se misturam corvinas e chineses. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
O Direito em forma de gente. De Laura Abreu Cravo, no Mel com Cicuta.
Mapa cor-de-rosa. Da Ana Cláudia Vicente, no Quatro Caminhos.
Cinema e literatura. De Manuel A. Domingos, no Meia-Noite Todo Dia.

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (VII)


CÓRDOVA.
"Embora conheça os caminhos, nunca chegarei a Córdova."
(Federico García Lorca)

Etiquetas:

Os tugas (31)

Naquela tarde, Maria das Dores saiu de casa com algum receio. Mas o receio dissipou-se mal chegou à carruagem do metro. Sentadas à sua frente, duas volumosas mulheres – mais ou menos da sua idade, a caminho acelerado dos 50 – pareciam tão ousadas como ela.
Uma vestia calção muito curto, de ganga, que lhe deixava bem à mostra a coxa descomunalmente larga, muito branca. E uma blusa sem alças, com vastíssimo decote, que permitia vislumbrar grande parte dos seios intermináveis, descaídos quase até ao abdómen. Na base do seio esquerdo, via-se a tatuagem de uma ave – talvez uma águia, denunciando a filiação clubística da avantajada e atarracada mulher.
A outra, igualmente baixa e volumosa, envergava uns jeans desesperadamente justos: o botão da cintura ameaçava saltar do seu posto a qualquer momento. Dores teve ainda tempo, antes de a outra se sentar, de reparar que usava fio dental, o que lhe acentuava ainda mais a imensidão das nádegas. Sorriu de novo, ao contemplar as vizinhas da carruagem: qualquer uma pesava obviamente mais de 80 quilos. Nada que andasse longe do seu próprio peso.
Foi assim, notoriamente mais descontraída, que se levantou ao chegar ao seu destino, mostrando com algum orgulho as calças de cós descaído que lhe deixavam bem visíveis três ou quatro largos círculos de gordura em redor do que mal poderia chamar-se cintura. Quem a visse, julgaria talvez tratar-se de uma campanha publicitária aos pneus Good-Year. Dores, assim à la page, nem queria saber. Só a incomodava que mal se conseguisse vislumbrar o piercing que acabara de plantar no seu rechonchudo umbigo...

Etiquetas:

O pulo dos Lobos


Este post do Pedro Marques Lopes não tem ponta por onde se lhe pegue. Tenho-o na conta de pessoa estimável porque, para mim, todos e todas no 31 da Armada são estimáveis, mesmo sendo mais do que as senhoras suas progenitoras e só conheça pessoalmente 3 ou 4 (ainda por cima todos homens, arre!).
Como PML, também tenho por natureza um coração empedernido quando se trata de «declarações grandiloquentes sobre a pátria» ou de «umas lagrimitas durante o hino», resultado em simultâneo de uma família de militares e de ter sido rejeitado pela tropa. Mas a presença da nossa selecção - amadora - no Mundial de Rugby, sendo obviamente um pequeno passo de bebé para o PML, é um passo de adulto bem encorpado na direcção certa, na longa marcha que ainda falta percorrer para a semi-profissionalização da modalidade no futuro.
A lógica é esta: Hoje perdemos mas estivémos lá. Amanhã estamos lá outra vez e perdemos por menos. Depois de amanhã voltamos a estar e ganhamos. Deliro? Extravaso a minha culpa por ter recusado ingressar nas fileiras do Dramático do Cascais há anos sem fim? Quiçá (Embora compense com nunca ter fracturado uma parte do corpinho).
Mas, se agora os Lobos levarem inevitáveis «cabazadas» (e digo «se» porque o resultado com a Escócia esteve longe de o ser), estou certo de que mesmo assim a sua presença no Mundial vai - obrigatoriamente - provocar várias consequências: Atrair mais praticantes; Fazer com que os patrocinadores olhem de outra forma para a modalidade; Criar uma maior solidez no treino de todas as equipas. E tudo isto é bom, nada disto é fado.

Etiquetas:

Cinema Nostalgia (11)




A Oeste Nada de Novo

Embora seja um belíssimo filme, A Oeste Nada de Novo, de Lewis Milestone, é uma daquelas obras sem sorte, um dos clássicos perdidos.
Talvez seja o filme mais escuro, quase negro, que jamais vi. Está repleto de sombras, chuva, noite. Os cinzentos são carregados. É um filme sem esperança, desolado e amargo. Devia ter sido um belo aviso, mas não passou de um grito inútil.
Nesse ano, 1930, Howard Hawks realizou um dos filmes da minha juventude (talvez mesmo da minha infância), A Patrulha da Alvorada. Já o escrevi noutra crónica, mas essas imagens ainda hoje perduram na minha memória como algo de inimitável, de extraordinariamente poderoso. Só vi esse filme uma vez. Não se tratava da glorificação da guerra, bem pelo contrário, ali se exibia toda a crueza e desperdício, mas a película de Hawks não perdia de vista certas emoções que ocupam a motivação dos guerreiros, a tranquila coragem, por exemplo, uma espécie de vertigem a que alguns chamam heroísmo, mas que também pode ser definido como inelutável destino.
A Oeste Nada de Novo era talvez mais cru e ganhou o óscar desse ano. Tratava-se de uma película radicalmente pacifista, que não fazia concessões à fantasia, pelo seu realismo bruto e simples, hoje tão interessante.
No entanto, apesar da consagração, o filme de Milestone estava destinado a uma certa maldição. Era um grito dado fora de tempo, claro; chegavam os anos de chumbo e o pacifismo não passava de uma ingenuidade.
Tem qualquer coisa de ingénuo, este filme. Começa com a espantosa ingenuidade dos rapazes que vão para a guerra salvar a pátria em perigo; nos primeiros combates, sentimos a incrível ingenuidade do treino militar, que não preparou os recrutas para a verdade do terreno. Morre-se no caos do combate, na confusão nocturna do campo de batalha.
A Oeste Nada de Novo impressionou-me pela sua autenticidade. Baseado num romance então muito popular de um escritor alemão, o filme americano mostrava a passagem pelo inferno da primeira guerra mundial de quatro soldados alemães. Este era, pois, um objecto estranho: um filme em que os heróis eram soldados inimigos, afinal exactamente como "nós".
O filme levou-me a ler o livro de Erich Maria Remarque com o mesmo título, sem dúvida uma das obras-primas da literatura do século XX. Este é um pequeno romance de grande pureza, reduzido ao essencial e sem fogo-de-artifício técnico. Assim despido, tem a força de um exército.
Vendo à distância, a versão de cinema não atinge as mesmas altitudes, pois não se resiste à tentação sentimental da época. Milestone era um técnico competente (um judeu russo, imigrante, chamado Milstein) e manteve-se o mais próximo possível da narrativa original, mas há passagens algo lamechas, com excessos ainda típicos do cinema mudo, que se extinguira poucos anos antes.
Estes defeitos não explicam a forma como o filme também se apagou. Quatro anos depois, Hitler estava no poder na Alemanha e, uma década depois, o mundo estava de novo em guerra. O actor principal, Lew Ayres (um curioso nome português), tentou ser um pacifista na segunda guerra e condenou a carreira, perdendo a sua oportunidade. Lew Ayres tem uma história interessantíssima, com altos e baixos que fazem deste, de facto, o seu único filme importante. Ayres foi casado com Ginger Rogers, que surge neste blogue, alguns posts mais abaixo.
Enfim, A Oeste Nada de Novo motivou um remake, em 1979, uma película sem qualquer interesse, que se limita a actualizar as imagens da versão de 1930.
Claro, é preciso ver a pobreza do segundo para se perceber a força do primeiro. Não existe a mesma consciência do peso das sombras e das trevas do inferno. A segunda versão é um banal filme de guerra, com personagens fardadas. O primeiro é um filme contra todas as guerras, um panfleto que ninguém soube ler.

Etiquetas: , ,

Domingo, Setembro 09, 2007

As emoções básicas (crónica) XII




Os derrotados da história

No meu habitual passeio pela blogosfera, deparei com uma estranha discussão entre dois indivíduos. No seu Arrastão, Daniel Oliveira, comentava um comentário de Blasfémias nos tradicionais termos contundentes. Fui ler o que os liberais tinham escrito e deparei com um texto de JCD sobre a Festa do Avante, onde teria sido celebrado o 90º aniversário da Revolução de Outubro, a da Rússia de 1917. "É angustiante ver toda aquela gente, na Festa do Avante, comemorar os 90 anos de uma das maiores tragédias da humanidade", escrevia JCD. Seguia-se um parágrafo mais explicativo da "tragédia", com o seu rol de mortos e, à frente, a seguinte frase, bastante retórica, que indignara Daniel Oliveira: "não seria muito diferente celebrar a peste negra, o holocausto, o último tsunami ou a SIDA".
O autor de Arrastão respondia com uma tirada dramática: "o grande problema dos que se julgam no lugar certo da história, sejam eles comunistas ou liberais, é que rapidamente se deixam de dar ao trabalho de pensar. Não é que não consigam, apenas ninguém lhes exige esse esforço quando falam dos derrotados".
JCD ficou-se a rir e eu fiquei fascinado com esta última frase. Para Daniel Oliveira, as pessoas que celebram a revolução de Outubro, o leninismo, são os derrotados da história. Daniel podia ter demolido a fraqueza das comparações de JCD como quem acalma leões, mas saiu-lhe assim. É que não faz sentido comparar Revolução de Outubro com peste negra. A coisa ainda passava se fosse com a revolução francesa. Podia ter escrito: "não seria muito diferente do que celebrar a revolução francesa", mas não o fez, apesar da comparação ser possível, com o rol de mortos, de injustiças e guerra civil, apesar de tudo numa escala mais modesta. Será que JCD se angustia todos os 14 de Julho?
Digo isto por estar fascinado com o uso da palavra "angustiante" por JCD, na primeira frase do seu post: "É angustiante ver toda aquela gente a comemorar os 90 anos...". As religiões mataram incontáveis vítimas e todos os dias são celebradas em cerimónias públicas. Acontece em todo o mundo, e JCD deve andar muito deprimido. Um pequeno exemplo: os cristãos falharam de forma clamorosa na protecção dos judeus europeus, nos anos 30 e 40; o Papa até pediu anteontem desculpa, embora sem se colocar no lado dos derrotados da história; o cristianismo cometeu outros crimes, da Inquisição à conversão forçada de milhões de pessoas; o mesmo se pode dizer de outras religiões; mas talvez isto tenha mais a ver com pessoas do que com ideologias, embora eu não esteja certo de que JCD concorde comigo.
A revolução de Outubro não foi exactamente uma peste negra, ou um tsunami, pois não teve nada de catástrofe natural. Foi uma catástrofe provocada pelo Homem, por homens de uma determinada época, com as motivações do seu tempo. É o que acontece na construção de qualquer beco sem saída. Ao longo da história, houve sociedades, civilizações inteiras, que se suicidaram. As provas são mais ténues, mas sabe-se hoje que os Maias viviam em constante conflito interno, com devastações regulares de cidades-Estado rivais. Alguns arqueólogos pensam que o colapso desta civilização se deve a algum azar, mas sobretudo a problemas ecológicos graves, devido ao excesso de uso de recursos escassos. De qualquer forma, tratava-se de um cultura violenta, com uma religião que praticava sacrifícios humanos.
Será que JCD se teria angustiado, ao ver-me a escalar pirâmides maias, boquiaberto com a sua magnificência?
Neste género de texto, os factos são como as cerejas e, de súbito, lembrei-me de um pequeno crime da minha autoria. (Não, não vos vou contar uma história policial passada nas ruínas de uma cidade maia)...
Em Chichen Itzá, decidi (mal) saltar um muro que me pareceu sólido, mas aquilo era tão frágil que, com o (enorme) peso do meu corpo, se soltou uma pedra. Para meu horror, vi a ancestral relíquia rolar pela relva. Em pânico, peguei naquele frágil testemunho do passado (que pesava um horror) e tentei colocá-lo de novo no muro, mas a construção ainda era bastante alta e não tive força. Estava calor, confesso que fiquei enervado. Olhei para um lado e outro e (cobarde) deixei a pedra onde ela tinha caído, a dois metros do sítio onde mil anos a tinham deixado, até ao meu inqualificável acto de vandalismo.
Ajudei, pois, a arruinar uma pérola do património mundial, como um qualquer turista americano.
Ah! Felizmente, os guardas eram todos maias, portanto, derrotados da história.
Na vergonhosa fuga ainda vi pessoas a celebrarem uma espécie de religião inventada, na escadaria da pirâmide principal, vestidas com roupas pós-modernas. A cerimónia incluía umas rezas, murmuradas de frente para o sol, que desmaiava no final de tarde. Os celebrantes estavam de braços abertos, ar compenetrado de quem fala com deuses apenas adormecidos.
Os pós-modernos ignoraram-me tanto como os guardas. Eu sentia a culpa de ter transformado em ruínas uma sábia cultura antiga, mas confiei no lusco-fusco. O céu estava cheio de nuvens coloridas e a grande pirâmide parecia feita de ouro, banhada pela luz exuberante, que se retirava no horizonte. Foi uma visão breve. Depois, a montanha de pedra tombou na escuridão da noite...

Etiquetas: , ,

O cisco no olho... do vizinho!

Curioso depararmo-nos com o inefável Daniel Oliveira a julgar “os que se julgam no lugar certo da história”. Claro que a condenação se refere aos frívolos críticos dos métodos bolchevistas e à revolução de Outubro, não se tratando de uma iluminada declaração autocrítica. Dentro da sua barricada é de facto difícil a apreciação da história e do mundo, Daniel.

Etiquetas: ,


As mulheres na pintura (Via Arrastão)

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (VI)


NAGASÁQUI.
"Era aqui, em Nagasáqui, que eu desejava passar o resto da minha vida, à sombra destas árvores que não têm parceiras no mundo."
(Venceslau de Morais)

Etiquetas:

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 14, 25-33

Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: ‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».

Da Bíblia Sagrada

Etiquetas: ,

Sábado, Setembro 08, 2007

Cinema Nostalgia (10)


A minha memória é uma péssima ficcionista. Invariavelmente envia-me guiões com datas pouco fiáveis, personagens que não encaixam nas histórias que reinventa e, o que é pior, argumentos que pecam pela inverosimilhança. Fascinada por detalhes, é capaz de sacrificar o todo a um pormenor: um sorriso, um gesto, uma inflexão de voz por vezes são apenas o que ela é capaz de guardar de uma pessoa com quem me cruzei na vida.
Por maioria de razão, a minha memória do cinema em parte também é feita assim: de filmes sem nome, rostos desfocados, frases lapidares, passos de dança, trechos musicais. Uma espécie de patchwork onde tudo acaba por se conjugar.
A maioria dessas memórias difusas é constituída, evidentemente, pelos filmes que vi muito precocemente na televisão. Enterrada no sofá, desfiei muitas tardes de domingo a ver musicais, filmes de cóbois e de gangsters dos anos 30/ 40, a época de ouro de Hollywood.
Muito antes de aprender a usar a palavra western, já conhecia John Wayne de ginjeira. E embora não soubesse explicar, se me perguntassem, o que era um filme negro, já era cliente assídua das histórias protagonizdas por Humphrey Bogart e Edward G. Robinson.
Esses primeiros passos que damos como consumidores de filmes são sempre vacilantes. Às vezes aborreciam-me os intermezzos musicais intermináveis das fitas do Fred Astaire, tanto que chegava a adormecer. Outras vezes ficava, fascinada, a vê-lo flutuar com a Ginger Rogers nos braços e a perguntar-me se afinal seria legítimo eu estar a gostar tanto de uma coisa tão demodée.
Não raramente, os meus pais contribuíam, ainda mais, para estas minhas inquietações quando se punham a comentar, com ar cúmplice, como aquelas estrelas eram lindas “no seu tempo” e tinham envelhecido tanto com o passar dos anos. Esses desabafos recorrentes dividiam-me: faria sentido eu criar empatia com aquele friso de múmias, algumas já falecidas, outras retiradas há anos do cinema?
Do alto dos meus nove, dez anos passava-os então em revista. Roupas, penteados, atitudes, tudo fora de moda! Por um lado aborreciam-me aquelas minhas simpatias tão anacrónicas, mas o que fazer de tantas horas de intimidade partilhadas domingo após domingo naquela fase da minha vida em que não me acontecia absolutamente nada que se comparasse às suas aventuras na tela?
“A Dama de Xangai”, “Do Céu Caiu uma Estrela”, “Relíquia Macabra”, “Ter ou Não Ter”, “Rio Bravo”, “A Roda da Fortuna” e “Ritmo Louco” foram algumas das obras que passaram pelos meus olhos distraídos de miúda. O que terei retido de Astaire, de Rita Hayworth, de Boogie e de James Stewart? E do génio de Frank Capra, Orson Welles, John Huston, Howard Hawks, Vincente Minnelli e George Stevens, os mestres que os dirigiram? Coisas de nada (a minha memória é muito imprecisa quanto a esta matéria). Porém suficientes para ter ficado com um vício. Dos bons.

Etiquetas:

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

Televisão em queda

Os três principais canais televisivos espanhóis perdem audiência em simultâneo: baixaram 2,4 por cento no último ano. A Telecinco está agora com 20,7 por cento (tinha 21,4 por cento em Junho de 2006), a Antena 3 baixa para 17,4 por cento (tinha 18,2 por cento há um ano) e a TVE-1 queda-se nos 16,3 por cento (tinha 17,2 por cento). Conclusão: em Espanha, tal como em Portugal, a programação medíocre e a informação anódina afugentam os espectadores dos ecrãs, em números crescentes – e tão maior é a fuga quanto aumenta o grau de exigência do público, o que por sua vez afasta a publicidade de produtos topo de gama. Não por acaso, os canais temáticos espanhóis registam uma acentuada subida de audiência: passaram de 8,3 por cento para 11,2 por cento no último ano. Fica o aviso aos programadores portugueses: apostar mais no mesmo é caminhar para o desastre.

Etiquetas:

Já sabiam?

Ignoro se esta é uma notícia fresquinha ou tenho andado distraído, mas anda aí alguém a tentar criar um partido com o nome de MMS. Não sei quem, mas deve ter um director de marketing daqueles bem treinados no jargão entre as suas hostes. O manifesto, com 52 páginas, inclui pérolas como esta: «Com uma direcção global bem definida e com ambição, será adequado associar o made in de produtos, serviços e know-how de Portugal e respectivos atributos diferenciadores».
Não critico mais porque até pode ser alguém que conheço e era um bocado aborrecido. O nome, esse, é que está definitivamente mal escolhido. MMS, como toda a gente sabe, é o envio de mensagens multimedia por telemóvel. Ou se calhar é de propósito. Alguém diz ao amigo: «Eh pá! Manda-me aí uma MMS gira das tuas férias». E pronto. Aparece-lhe uma militante em casa toda giraça a tentar catequizá-lo por todos os meios ao seu dispor.
As siglas significam «Movimento Mérito e Sociedade» e o site chama-se Mudar Portugal, como se tal coisa ainda fosse possível. Seja como for - ó malta disposta a tudo para começar na política logo pelo topo da pirâmide alimentar - estão abertas candidaturas para responsáveis regionais. Quem sabe what tomorrow will bring? como se interrogava o nosso Pessoa antes de esticar o pernil.

Um círculo cada vez mais fechado

A Quadratura do Círculo voltou (SIC Notícias, quartas, 23 horas). E com os defeitos do costume. Prometem-se temas que não chegam a ser abordados devido à eterna "falta de tempo", como se o cronómetro andasse por lá sempre avariado. A oratória de José Pacheco Pereira sobrepõe-se a tudo o resto, cada vez mais em jeito de monólogo do que de diálogo. E a esquerda esgota-se... em Jorge Coelho. António Lobo Xavier, filiado num partido que teve 4% de votos na recente eleição em Lisboa, tem lugar cativo no programa, que continua sem representantes do PCP e do Bloco de Esquerda. Este círculo anda cada vez mais fechado.

Etiquetas:

Última hora

Luís Marques Mendes conseguiu, segundo o seu site oficial, o apoio de alguns independentes de peso - um factor determinante em eleições internas partidárias, como se sabe. Desde logo o apoio do "independente" Vasco Graça Moura...

Onde está Bin Laden... e muitos outros

Não é que hoje, numa livraria, estava à procura do livro “Onde está o Wally” e o que encontro é “Onde está Bin Laden”? Com o original subtítulo: “E muitos outros”. Será que a ideia é colocar, desde cedo, as criancinhas à procura do terrorista, ainda que, para já, só em livro? Apesar de não ter muito tempo, tentei fazer esse exercício e, tal como os americanos, não consegui encontrar nenhum Bin Laden. Acho que o Wally “punha-se mais a jeito” de ser encontrado.

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (V)


ESTOCOLMO.
"Estocolmo tem beleza báltica de maravilhas aquáticas. Hei-de aqui voltar - é a cidade mais bonita que paisagei até hoje." (Ruben A.)

Etiquetas:

É obra

Só para vos dizer que este vosso bloguezito já ultrapassou UM MILHÃO de page views em ano e meio. Nada mau, hein?

Sexta-feira tradicional (parte II)


MARIA SHARAPOVA é sinónimo de ténis. A minha modalidade favorita.

Etiquetas:

Jantar II

Como já referi no post anterior, entre convivas cansados, bronzeados, fatos claros de férias longínquas, mulheres elegantes, uma grávida feliz, nestes jantares fala-se de tudo um pouco: o que se escreveu, o que ficou por dizer, o que se comentou, o Julio Iglesias, o Vitor Espadinha, os outros blogs, outros bloggers, afinidades, discordâncias e controvérsias entre gente bem humorada. Houve até alguém que terá ficado surpreendido com este mundo por detrás do blogger, convencida de que por aqui era tudo anónimo. Anónimo sim, mas pouco.
Já agora, e estou certa que a minha indiscrição não será levada a mal, estou em condições de comprovar a dieta que o amigo João Távora se está a submeter: nem pinga de álcool e fruta para sobremesa, enquanto os restantes convivas se encantavam com mousses, farófias, panquecas e chantilly.
Para terminar, foi decidido criar uma nova série de posts cujo título será da responsabilidade da Teresa Ribeiro. É uma coisa gira: cada um vai escrever sobre séries antigas de televisão a seu gosto. Assim, vai começar a Teresa com a série Sopranos, seguindo-se:
o João Villalobos com Heimat e Baywatch;
o Pedro Correia com Dallas;
a CFA escreve sobre Sete Palmos de Terra, Fame e Seinfeld;
o João Távora com Carrocel Mágico e Os vingadores;
a Inês Almeida com Love Boat e Verão Azul;
Eu escrevo sobre Viver no campo;
o FAL com Shaolin, Twilight Zone, Twin Peaks, Famous Five e O Fugitivo;
o Luis Naves com Caminho das Estrelas e outra série que não consigo decifrar nas minha notas;
Aguardo que as sugestões da ITM e, pela vossa saúdinha, alguém que me envie uma fotografia do jantar. Tanto telemóvel XPTO e é o que se vê.
Acho que foi isto. Gostei muito e até ao próximo jantar. Um abraço aos meninos e beijinhos às meninas.
M Isabel

«Conversação mundana»

"- Parece que o senhor, decididamente, prefere as criadas!
- Que quer, senhor? São mais frescas!"
Puskine, A Dama de Espadas

Etiquetas:

Sexta-feira tradicional


Anna Kournikova

Etiquetas:

Porque hoje é sexta-feira


"We are men. Throughout history we have always needed in times of difficulty to retreat to our caves. It so happens in this modern age that our caves are fully plumbed. The toilet for us is the last bastion , the final refuge, the last few square feet of man space left to us. Somewhere to seat, something to read, something to do and who gives a damn about the smell. Because that for us is happiness. Because we are men. We are different. We have only one word for soap. We do not own candles. We have never seen anything of any value in a craft shop. We don’t have any magazines full of photographs of celebrities with all their clothes… on. When we have conversations we actually take it in turns to talk. We don’t know how to get excited about really, really boring things like… ornaments, bath oil, the countryside, vases, small churches. We don’t even know what, what in the name of God’s ass is the purpose of potpourri! Looks like breakfast, smells like your aunty. Why do we need that? So please, in this strange and frightening world. Allow us one last place to call our own. This toilet. This blessed pot. This fortress of solitude. You girls, you may go to the bathroom in groups of two or more. We do not pass comment. We do not make judgement. That is your choice. But we men will always walk the toilet mile alone." - dissertação feita por Steve, uma das personagens da série da BBC Coupling, que passou na RTP 2 e na Sic Mulher, agora só disponível em DVD.

Pretéritas Sextas (III)


Etiquetas:

Jantar

Algures num restaurante de Lisboa teve lugar mais um jantar do Corta-Fitas. Lá bem no alto, a noite quente que se fazia sentir lá fora trazia-nos uma cidade iluminada e encantadora, cenário de tantas confidências, boa disposição, razoável consonância, alguma discordância, com e sem gravata, humor e prazer de nos voltarmos a ver.
De fazer inveja a qualquer democracia participativa e a alguns blogs colectivos (hello?), o Corta-Fitas tem o grato prazer de se apresentar perfeitamente proporcional, sem recorrer a qualquer lei da paridade ou sistema de quotas. Devo acrecentar que inclusivamente houve lugar a votações secretas para eleição de alguns pontos da ordem do dia, apesar de ter havido quem as quisesse impugnar devido a eventuais irregularidades nos boletins de voto e na contagem dos mesmos. Finalmente tudo regressou à paz e à ordem assim que foi encontrado o voto em falta e que se encontrava a boiar à minha frente, em cima de um restinho de farófias que já não consegui comer.
De resto, os bifes de chorizo e as folhas de alcatra estavam perfeitas. Lamentavelmente, é tudo o que posso acrescentar sobre a ementa: as notas que tomei serviram de "boletins de voto". Como saberão, a democracia não é um sistema perfeito.
Mas há ainda muito mais a dizer. Eu é que já não consigo dizer mais nada. Amanhã conto tudo, ou quase tudo. E com a fotografia do costume, assim alguém tenha competências para fazer uso de tanta high tech que só visto. Até já.
foto

Partido Transgénico

Os episódios da campanha das directas no PSD dão ideia que cada candidato olhou para o partido e declarou "Se não fores meu, não serás de mais ninguém". Seja qual for o vencedor, espera-se que o resultado não seja um partido transgénico: sem sementes, intolerante a outras formas de vida, mas a alimentar o ego de muita gente.

Quinta-feira, Setembro 06, 2007

Um desafio

Está ao rubro o campeonato de futebol virtual no inquérito aqui ao lado. Vale um voto por dia, por cada IP. Já “entraram” mais de 428 votos na contenda. O Sporting segue desde o inicio à frente, destacado do Porto e com uns votozitos a mais do que os lampiões. Assim rés-vés. Coisa aliás difícil de entender, sabendo nós que eles são milhões e milhões, uma coisa assim colossal. É sempre assim: ao fim e ao cabo, na prática não se nota nada...
A não ser que votem diariamente, e em força! Fácil, não é?

Etiquetas:

O amante de cinema pirata


Depois de noutra encarnação ter andado a saltar de feira em feira, esse reino da cassete pirata, Paulo Portas dedica-se agora aos filmes. Mas prefere vê-los antes da estreia. Ou seja, recorre a cópias clandestinas. Cinema pirata, pois (não confundir com fitas de piratas). Este edificante exemplo já foi devidamente realçado pelo Pedro Sales. Só faltava a merecida bandeirinha, dedicada ao líder do CDS-PP. Não queremos que lhe falte nada: ei-la aqui.
.....................................................................................................
Adenda: a atitude de Portas está longe de ser inédita. Também Nuno Gomes e Petit, num treino da selecção, confessaram gostar de ver cinema "pirata". A diferença é que nenhum deles lidera um partido que faz gala em defender, proteger e valorizar a propriedade privada.

Etiquetas:

Ave Maria


1935-2007

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (IV)


XANGAI.
"Coração vivo da China." (André Malraux)

Etiquetas:

Caras ou coroa

A propósito da crónica de hoje do Pedro Lomba "O país nos talões multibanco", um post que já escrevi há algum tempo:

Curiosity killed the cat
Quem vê caras, não vê saldos de multibanco. Foi isso que pude comprovar com o talãozinho que aquele cavalheiro deixou descuidadamente na máquina após ter levantado... dez euros. Garanto que nunca tinha visto um talão com tantos números. Antes de chamar o senhor, não consegui resistir. Duas Avé Marias e três Pais Nossos.
.
Como escreve o Pedro Lomba: "(...) Não vale a pena fingir que ninguém anda por aí nas caixas Multibanco a espreitar talões esquecidos. Nada de hipocrisias escusadas. Claro que anda. Quando se trata de espiolhar a vida dos outros, não há muita gente a manter o sangue-frio civilizacional e controlar a curiosidade. Primeiro, a curiosidade não se controla, mesmo que talvez se possa evitar. Segundo, a vida dos outros interessa-nos instintivamente, pelas melhores e piores razões. E, terceiro, há sempre, por mais inofensiva que seja, a experiência do ilícito. (...)

Missionária da Caridade

Na passagem dos 10 anos sobre a morte de Madre Teresa de Calcutá, ler as pertinentes palavras de Pe. Pedro Quintela, sobre os caminhos da fé no Fora de Estrutura:

(...) Eis que por detrás de anos de aparente tranquilidade surge a notícia de uma travessia sofridíssima face ao apelo de Deus para fundar as Missionárias da Caridade, na fidelidade intocável a essa vocação e na depuração total de uma noite começada nos anos 50 e que só terminaria a 5 de Setembro de 1997.
Não poucos cristãos, ligeiros na fé, reduzem esta a um sentimento que certifica a existência de Deus, ficando assim o Senhor refém das emoções de cada um. Mais sentimento, mais Deus. Mais sensação, mais certeza. Mais emoção, mais fé. Portanto, mais eu ‘contente’ mais Deus ‘contido’ em mim (donde, alguma razão teriam os que acusam os cristãos de serem gente que confunde a sua transpiração emocional com uma entidade pessoal a que chamam Deus). Como é óbvio, quem assim pensa e vive não deixará de encontrar motivos de desalento nas dúvidas da Madre Teresa.
Enganam-se os que sentem que Deus salva o mundo com bons sentimentos, borbulhas gasosas e outras sensações agradáveis. (...)


Ler tudo aqui.

Etiquetas:

Típico

Costumo dizer, meio a brincar meio a sério, que o povo é igual em todo o lado. Há, no entanto, uma séria diferença. Os portugueses notam-se logo a curta distância quando atendem o telemóvel em terras que não são as suas: "Tô, tô?"

A ternura dos quarenta

Era inevitável enfrentar o problema. Desde que deixei de fumar há quase quatro anos, num também histórico 1º de Dezembro, iniciei um lento processo de expansão adiposa. Esse foi um duro período de provação e de alguma incontinência emocional, confesso. Com a tolerância à frustração nos mínimos dos mínimos, recorrentemente descompunha meio mundo (decididamente unido para me tramar), quase me divorciava e perdia o emprego. No início desse tempo de trevas, engordava só de olhar para os bolos na montra da pastelaria ou de ler a ementa do restaurante. Prescindira do prazer de fumar e chegara à plenitude dos “quarentas”. Simplesmente continuei jovialmente a gostar de Alheiras fritas, ou da bela Feijoada com pãozinho para molhar... sem esquecer uns deliciosos Ovos Moles ou um Suspiro de vez em quando. Não resistia a uma Fartura frita na feira ou a um belo Bacalhau à Braz ensopado em azeite lá da terra (nem sei qual, que eu sou de Lisboa). Ainda olhava com desprezo para todos os subprodutos light, "zero", magro, saladas e quejandos. Seria capaz de me inspirar nisso para escrever a mais mordaz crónica sobre a proliferação gastronómica para dondocas, anorécticas e metrossexuais. "Pela boca morre o peixe", e eu às vezes também me lixo.
Até há pouco tempo, o meu organismo sempre queimava desprendidamente a mais vasta gama de gorduras e guloseimas. Mas esse tempo lá se foi, fui inchando lentamente até começar a ficar com a roupa mais justa, apertar mal o casaco e o botão do colarinho. Estes foram os emergentes e dolorosos alertas. Depois de deixar de fumar, chegara a hora de deixar de comer.
Assim, há uns meses iniciei um exigente regime alimentar, tudo como mandam as regras. Primeiro, comecei por engolir o orgulho, o que suponho é do mais dietético que há; para logo de seguida me tornar freguês daqueles absurdos restaurantes de comida dita “saudável”. Até começar a encher o carrinho do supermercado com comida “a fingir” cheia de coraçõezinhos estilizados e silhuetas femininas na embalagem. Aqui nas Amoreiras, com total confiança na minha masculinidade, hoje circulo com surpreendente à vontade no meio das mais esbeltas ou escanzeladas figuras femininas. Todas elas fãs de queijos frescos e daquelas saladas cheias de nada e umas raspas de noz moscada. Agora também bebo aqueles sumos e sopas, mistelas indizíveis, a saber a pouco ou coisa nenhuma. Tudo isto para almoçar e ficar esganado de fome. Aliás é muito fácil comer poucas bolachas quando estas sabem a casca de árvore. E depois, já me oriento no supermercado no meio daquelas prateleiras cheias de comida Zen, "zeros" e lights, manteiga magra (!)... ou ainda aquelas infusões de ervas e águas amargosas, livres de calorias (!) mas com fibras e a bela carnitina... a fome acessível à endinheirada freguesia!
Ao fim-de-semana, com mais tempo, uma Dourada grelhada é que marcha mesmo bem... e depois p’rali fico, oprimido, a salivar pelos Bitoques dos miúdos e a ver a minha mulher feliz (mas culpada, eu sei!) a comer um delicioso Bolo de Claras.
Agora, estou quase a atingir o meu peso ideal, estou quase a acabar com o tormento, esta louca cruzada, de que me rio para não chorar. E sinceramente acho que vou voltar a comer aquilo que me apetecer. E que, com um pouco mais de ginástica, até vou controlar as coisas!

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

O olho vigilante da censura


Tintim no Congo é racista? É. Deve ser retirado das prateleiras? Claro que não. Se o fizéssemos, toda a obra de Rudyard Kipling, por exemplo, teria igualmente que ser alvo da censura “politicamente correcta”. Aliás, como recentemente salientava um leitor do El País, se víssemos bem à lupa, livro atrás de livro, talvez só escapassem aos rigores da censura pós-moderna O Principezinho, de Saint-Exupéry, e as obras de Paulo Coelho e Corín Tellado.
É nesse mundo asséptico que pretendemos viver? Eu não quero.

Postais blogosféricos

1. Um abraço de parabéns ao Francisco pelo segundo aniversário d' A Origem das Espécies. Parabéns também aos confrades do Blogame Mucho, que festejaram o quarto aniversário.
2. Atenção a estas duas excelentes séries de postas. A de Vítor Dias, sobre cartazes de cinema clássico, n' O Tempo das Cerejas. E a de Luís Carmelo, no Miniscente, sobre cerveja e literatura. Já agora, reparem também na série de discos que o Pedro Vieira salvaria das garras do ministério para a promoção da virtude e prevenção do vício. No Irmão Lúcia.
3. Boa cotação do Corta-Fitas no Porque Posso. Registamos com muito agrado.

Etiquetas:

O quinto idioma da Península Ibérica

O português acaba de ser despromovido a "quinto idioma da Península" (após o castelhano, o catalão, o galego e o basco) por D. Pilar del Rio, consorte de José Saramago e recém-nomeada presidente (ela faz questão de ser tratada por "presidenta") da Fundação que leva o nome do marido. Numa entrevista concedida à jornalista Isabel Lopes, do Expresso, D. Pilar falou sempre "num castelhano cerrado": nem o convívio de 21 anos com Saramago a tornou praticante deste "quinto idioma". Mas ainda bem que o idioma existe: sem português não teria havido Nobel nem haveria fundação nem tanta projecção mediática sobre esta mulher que se gaba de ter oferecido "um continente" ao autor de Levantado do Chão e de ter chegado ao comunismo "pela caridade do catolicismo". Sempre "num castelhano cerrado". Por supuesto...

Tertúlia literária (217)

- Tens um leitor de MP3?
- MP3? Não sei o que isso é. Eu sou é leitor do Saramago.

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (III)


BARCELONA.
"Luz e sol e pintura." (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Etiquetas:

As Emoções Básicas (crónica) XI



Os Livros e a vida


Segue na blogosfera um interessantíssimo debate sobre literatura, baseado numa corrente onde cada bloguer elabora uma lista de livros que não mudaram a sua vida. Peço a vossa atenção, não apenas para a lista do Pedro Correia, um pouco mais abaixo neste blogue, mas para os interessantíssimos textos que Francisco José Viegas, Carla Quevedo e Luís Mourão, entre outros, já publicaram sobre o tema.
Esta crónica não surge como comentário à iniciativa, mas a diversidade das listas e, sobretudo, a sua pequenez, surpreendeu-me e suscita esta observação:
No início do século XX, os europeus burgueses e cultos liam todos mais ou menos as mesmas coisas. Se fossem ricos, teriam uma excelente biblioteca, com 6 ou 7 mil volumes, incluindo clássicos romanos e gregos, romance francês e russo, muitos autores alemães, italianos e ingleses. Uma boa biblioteca teria poesia, pequena novela, o essencial da literatura dos respectivos países; os nomes seriam quase sempre idênticos. Poderíamos viajar por toda a Europa civilizada e as bibliotecas seriam parecidas, à excepção da parte de autores nacionais.
Isto, claro, já não é assim. As pessoas cultas lêem livros diferentes. Suponho que a maior razão para a diversidade tenha a ver com a quantidade de livros que a civilização contemporânea produz. Cito de cor, mas havia uma notícia recente sobre alguém que se deu ao trabalho de fazer as contas: este ano, serão editados tantos livros como na década de 80, um número idêntico ao do século XIX, a mesma quantidade que foi produzida entre o ano 1000 e o ano 1700.
O fenómeno da aceleração não é exclusivo da literatura, aplica-se a todas as áreas do pensamento. Há milhões de cientistas no mundo e certamente milhares a estudarem ao mesmo tempo os mesmos detalhes de especialidades absolutamente incompreensíveis para a restante humanidade.
Na arte, acho que este fenómeno produz uma sensação de que ninguém é verdadeiramente culto. É impossível ler tudo. Não há tempo suficiente. Somos massacrados com imagens, espectáculos, cultura popular, banalidades. Dispersamo-nos em jogos, trabalhos complexos, múltiplas actividades.
Por isso, qualquer cânone literário sugerido terá sempre importantes lacunas, pois também os clássicos aceleram: há mais nomes, mais obras imortais.
Existe outro problema: nas esponjas em que se transformaram os nossos pobres cérebros, não há tempo para absorver as culminações da arte ocidental. Uma pessoa que tenha ouvido menos de cinco vezes a Paixão Segundo São Mateus compreende verdadeiramente a sua profundidade? E Guerra e Paz, quantas vezes é preciso ler?
No fundo, quero dizer que tudo se tornou um pouco arbitrário; e o nosso gosto, uma defesa contra a enxurrada de estímulos, funciona como um cone que está à nossa frente e nos impede de procurar outras sensações. Não há tempo para explorar novas propostas, prometemos para outra ocasião, adiamos.
Por vezes, temos sorte, encontramos por acidente uma obra de arte que nos encanta.
Digo isto por ter chegado de férias com o papo cheio. Tive a sorte de ver uma exposição de gravuras de Francisco Goya.
Eram demasiadas, claro, e tinha pouco tempo para as ver. Memorizei o possível, observei atentamente cada gravura, percorri as salas com disciplina, tentando esvaziar a cabeça de outras questões, concentrado naquilo que via.
E, passadas umas semanas, sinto que o essencial de Goya me escapou, que as mensagens do autor estão perdidas algures na minha memória incompetente e traiçoeira, na minha cultura cada vez mais incompleta.
Como admiro aqueles cavalheiros antigos que podiam dissertar com os amigos sobre as órbitas mais altas do seu mundo intelectual, bebendo o seu brandy enquanto jogavam xadrez junto a desempoeiradas e gigantescas bibliotecas. Era um universo previsível e sensato, onde o tempo valia. Que inveja! Eu, contemporânea barata tonta, ando a saltitar de sensação em sensação, num nevoeiro de drogado. Para mim, o tempo cavalga e corre, literalmente.

ilustração: pintura de Jan Vermeulen, séc. XVII

Etiquetas: , ,

Terça-feira, Setembro 04, 2007

Código de Processo Penal (2)

- (...) e, sendo assim, queria saber se nos autoriza a publicar a transcrição da escuta que consta do processo.
- Tenho muito gosto nisso, sim senhor. Não ponha é aquela parte do saco azul, que soa mal. Diga antes que é uma doação para fins de beneficência.
- Mas eu não posso fazer isso...
- Qual é o problema? Fique descansado, que não o vou processar por me ter citado mal. Já se me citar bem...

Código de Processo Penal (1)

- (...) e portanto queria pedir a sua autorização para publicarmos a transcrição das escutas...
- Claro, com todo o gosto! Ponha lá aquela parte inicial em que eu digo que a temperatura está a descer e ele responde que o verão este ano não foi nada de especial e eu remato que já não há estações. Sem crise! E que foto é que vai publicar minha? Veja lá se não é muito antiquada porque eu agora aparo as sobrancelhas.


Momentos em tempo real
Hoje, no Riverview Terrace, usando o Corta-Fitas como janela.* Nada melhor que um banco imaginário em Manhattan a ver o pôr do sol nas sombras da ponte.
Gershwin-"Someone to Watch Over Me
*copyright Abrupto

All about M.

É inútil e uma perda de tempo. Ao perguntarmos a alguns homens, quem é M, por exemplo, é escusado pensar que obtemos uma resposta. Quanto muito cerca de meia dúzia de palavras como "trabalha numa empresa mas não sei qual". Olha que novidade, que excesso de informação, ou seja, nada de relevante. Dito de outra forma, não é isso que se quer ouvir. Criaturas menos parcas com as palavras poderão eventualmente referir-se à idade, uma coisa vaga, no género "mais nova que tu". Desconfio que seja alguma estratégia para desmobilizar.
Ora se perguntarmos a algumas mulheres quem é M, não há quaisquer manobras dilatórias, digamos assim: " A M? Foi minha colega na Faculdade, uma bronca, praticamente analfabeta, uma panhonhas, nem sei como terminou o curso. Casou rica. Olha, por acaso encontrei-a na semana passada na Castilho. Estava a comprar uma botas caríssimas. Um desperdício. Ela e o marido compravam sempre os sapatos ali, disse ela cheia de manias. Quem a viu e quem a vê!! Queixou-se que o início das aulas é uma canseira, tadinha. Nem trabalha! Grande lata. Mas afinal o que querias saber?
- Já me esqueci.

Estes dez não vou reler

Em resposta ao repto do Eduardo, a que achei graça, deixo aqui a lista de dez obras literárias que não mudaram a minha vida. Nem a minha relação com a literatura. Há muitos outros livros do género, claro, mas estes foram os primeiros que me vieram à cabeça. Ei-los:
- Bonjour Tristesse, de Françoise Sagan
- Cadernos de Lanzarote, de José Saramago
- A Montanha Mágica, de Thomas Mann
- Auto dos Danados, de António Lobo Antunes
- A Cabra-Cega, de Roger Vailland
- Onze Contos de Futebol, de Camilo José Cela
- Finisterra, de Carlos de Oliveira
- Outono em Pequim, de Boris Vian
- Miguel Littín, Clandestino no Chile, de Gabriel García Márquez
- Até Amanhã, Camaradas, de Álvaro Cunhal
Lanço agora o mesmo desafio a cinco companheiras/companheiros da blogosfera:

Etiquetas:

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (II)


BUDAPESTE.
"As ruas brancas sobre fundo bege, os jardins em matizes de verde e o Danúbio azul." (Chico Buarque)

Etiquetas:

Cinema Nostalgia (9)



Noites Brancas

Alguns filmes valem pela atmosfera que os seus autores conseguem criar. É uma qualidade difícil de definir, talvez relacionada com detalhes quase invisíveis: um reflexo no fundo da imagem, a brisa que agita o cabelo, o som da música que mal se ouve. A capacidade de criar um ambiente geral que se inscreve mais na imaginação de quem vê do que na sequência real das imagens ou da história é própria dos grandes filmes. Explico-me melhor: nem todos os grandes filmes têm esta qualidade intangível, mas quando ela existe, estamos geralmente perante obras-primas.
Serve o longo preâmbulo para lembrar Noites Brancas, de Luchino Visconti (1957). O grande realizador italiano é geralmente mais citado por causa do sublime O Leopardo (1963) ou pelo esplendoroso Morte em Veneza (1971). O prazer de ver um bom filme é algo de pessoal e, no que respeita à obra de Visconti, confesso que fiquei mais impressionado com Obsessão (1943), com Senso (1954), mas sobretudo com este Noites Brancas, baseado na novela homónima de Fiodor Dostoievski.
Na realidade, não se passa muito no filme. Não há uma acção complexa, nem uma história com linha nítida, diálogos imortais. Por vezes, a câmara parece apenas seguir as suas personagens, na húmida escuridão de uma qualquer cidade italiana. Noites Brancas é uma obra sobre a solidão, sobre a ilusão do amor, e um percurso poético pelos labirintos da alma. Uma deambulação onírica.
Um homem apaixona-se com uma mulher que ama outra pessoa e, por breves instantes, sonha com a possibilidade de conquistar aquele amor. A narrativa é apenas isto, mas Visconti consegue ir muito além deste dispositivo aparentemente simples, transformando a cidadezinha numa espécie de palco. Na obra literária, falta a profundidade dos trabalhos posteriores de Dostoievski, a compreensão total do humano. No fundo, é quase ingénua, banal e infantil a personagem feminina que, todas as noites, espera ansiosamente o homem por quem se apaixonou. E é patético o narrador, que ouve a sua história sem que ela compreenda o amor que lhe provocou. E, de súbito, surge o amante que prometera regressar e temos o desenlace esperado. O narrador vivera uma quimera.
No entanto, ao retirar este triângulo da esfera do real, ao dar-lhe uma dimensão flutuante, própria dos sonhos, Visconti recria a obra literária, concedendo uma importância surpreendente à luz, às sombras, à noite, ao canal que atravessa a vila, à pedra molhada da rua, às paredes mal iluminadas e às janelas ocultas.
Tudo é encenado ao pormenor, num ambiente frio, cheio de neblinas e desencontros, que parece vazio de emoções, mas que afinal se transforma na testemunha quase viva das ridículas paixões humanas.
Sim, parece ser esse o triunfo de Visconti: a atmosfera pulsa, com vida, como se fosse ela a figura principal que observa as pobres personagens. O ambiente, o cenário, é onde nós estamos, os espectadores, absolutamente fascinados com aquela ópera turbulenta que se move à nossa frente.

Etiquetas: , ,

O que é Nacional é bom!

Ontem fui com uma jovem portuense dar-lhe a provar o seu primeiro Pastel de Belém. Curiosa, pergunta-me se sei quantos pastéis vendem por dia, interrogação essa que reencaminhei para o empregado que nos atendia.
“O mês passado vendemos 25 mil pastéis por dia. Faziam filas lá fora. Eram emigrantes, espanhóis, não lhe passa pela cabeça.”
Pois é… não me passava pela cabeça… em meses normais, exceptuando Agosto, parece que o número diminui para metade. Mas não deixa de impressionar… 12 500 pastéis por dia!

Velocidade + do que furiosa


Regresso às «aulas» feito num oito. E oito são precisamente os loopings da maior montanha-russa da Europa e que fica aqui. Eu estive lá, sobrevivi e nem uma «lousy t-shirt» trouxe (há, no entanto, fotografias jamais publicáveis mas que o comprovam). Também viajei no Baco Furioso, uma máquina do Demo que vai dos 0 aos 135Km/h em menos de três segundos e espirala que se farta que nem um saca-rolhas. Só não vi a vida toda passar-me à frente dos olhos porque, entretanto, já a tinha ultrapassado a grande velocidade. Também lá havia uma torre com queda vertical de 100 metros de altura que mais pareciam 500. Não saltei. Ainda não desisti de aumentar um dia a minha progenitura, o que é que querem?

Etiquetas:

Parabéns


À nossa Maria Inês de Almeida por mais um bebé Corta-Fitas que aí vem!

Diana e Carolina, a mesma luta

Há raparigas que lidam muito mal com a rejeição e depois dão uma trabalheira a toda a gente.

.
.
.

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

Mais vinte cidades que jamais esquecerei (I)


JAIPUR.
"Jaipur, a cidade cor-de-rosa." (Marcello Duarte Mathias)
.............................................................

Etiquetas:

Nós

Segundo o ranking Technorati, o Corta-Fitas é o 12º blogue com mais audiência em Portugal. Fica o registo. Que naturalmente nos agrada. E nos estimula para muitos outros textos que hão-de vir.

Etiquetas:

Onde há fumo...

Marcelo Rebelo de Sousa, no seu estilo muito peculiar, dá-nos conta do nervosismo reinante na sede do PSD nestes dias que antecedem a decisiva eleição directa do presidente do partido. "Problema sério naquela sede: o fumo. O líder fuma desalmadamente. Mais as duas secretárias. Mais o vice Azevedo Soares. Mais o secretário-geral Miguel Macedo. Saí de lá fumador passivo de milhares de cigarros impregnados naqueles gabinetes. Mais os que fumei sem querer enquanto lá estive...", escreve Marcelo, com talento de repórter, no seu "Blogue" do semanário Sol. Palavras mais significativas do que muitas análises políticas...

Etiquetas:

Gostei de ler

O PCP, os ditadores e o anticomunismo. Do Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
A desonestidade política do PCP. Do Carlos Manuel Castro, no Tugir.
Da superioridade moral. De António Pais, no Fim de Semana Alucinante.
Devem estar a gozar com o pagode. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
Propaganda pura. De José Gomes André, no Bem Pelo Contrário.
Estatística. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
Uma desculpa esfarrapada. Do Pedro Sales, no Zero de Conduta.
Ode ao vinil. Do Henrique Fialho, no Insónia.

Dez livros

O Eduardo Pitta lança-me este repto. Vou pensar no assunto e não tardarei a dar notícias.

Os novos obstáculos de António Costa

A recente investida do ministro da Agricultura contra o Bloco de Esquerda, a propósito da destruição de um hectare de milho transgénico em Silves, não poderia ter ocorrido num momento politicamente mais inoportuno para António Costa, ex-número dois do Governo. Costa precisa do Bloco no seu frágil executivo em Lisboa: sem o apoio de Sá Fernandes, a sua tarefa na capital tornar-se-á ainda mais complicada. Seguramente o ex-ministro da Administração Interna não aplaudiu a diatribe de Jaime Silva contra os bloquistas (iniciada junto ao milheiral de Silves e reiterada no dia seguinte em entrevista à SIC Notícias). E a sua irritação será ainda maior por saber – funcionando este Governo como funciona, e sendo José Sócrates como é – que o titular da pasta da Agricultura nunca falaria como falou sem a conivência, senão mesmo com o estímulo, do primeiro-ministro. Ao atacar o Bloco, Jaime Silva marcou pontos junto de Sócrates, o que poderá valer-lhe uma pasta mais apetecida na próxima remodelação governamental. E confirmou que Costa terá de enfrentar obstáculos de que mal suspeitava quando decidiu correr em pista própria, enfrentando o desafio de Lisboa.

Etiquetas:

Diana

Não tenho grande pachorra para "socialites" ou intriguinhas “cor de rosa”. Nunca dei muita atenção às fofocas sobre o casamento do Príncipe Carlos com Diana Spencer, assim como também não "cusco" os casamentos ou a vida privada de ninguém, pois já me entretenho o suficiente com a minha. Sobre o cansado assunto da morte da Princesa do Povo, o melhor comentário saiu ontem no DN da pena de Alberto Gonçalves na sua (divertida) rubrica semanal à laia de blogue: (...) não esquecer, comemorou-se o acidente de Diana Spencer, e o facto de um carro conduzido a 200 km/h por um ébrio não ter morto parisienses inocentes. Assunto arrumado.

Etiquetas:

Domingo, Setembro 02, 2007

This one is for you


James Morrison - You Give Me Something

As bocas de Marcelo

"O CDS é o Bloco de Esquerda da direita e o Bloco de Esquerda é o CDS da esquerda" - não concebo algo mais irritante para os dois partidos visados! A frase é de Marcelo Rebelo de Sousa. Disse-a há pouco, na RTP, a propósito do tipo de acções a que os dois partidos se têm dedicado na rentrée, acções que não se destinam a grandes plateias.

Este homem intriga-me

Dias depois da notícia de que Paulo Teixeira Pinto tinha abandonado a Opus Dei dá-se a sua tentativa de tomada do poder no BCP.
O facto de, até ver, Teixeira Pinto ter saído derrotado contra o seu ex-correligiário da Obra, Jardim Gonçalves, não tira nada àquilo que verdadeiramente me intriga: a Opus Dei remete para o campo da fé e da obediência baseada na aceitação de dogmas existenciais; o BCP é um banco, que visa dar dinheiro a ganhar aos seus accionistas. Sair da Opus Dei para tentar tomar o poder no BCP não é um pouco como matar o pai e a mãe para ir ao baile do orfanato?

A raiz do equívoco