Domingo, Setembro 30, 2007
Fora de série (9)
Que saudades da série The Fugitive que a RTP2 em tempos passava religiosamente às oito horas da noite e a que eu, também religiosamente, assistia dia sim dia sim. Lembro-me da ansiedade que antecedia o início de cada episódio, que eu via a preto e branco numa enorme Nordmende. Ansiedade é, aliás, a melhor palavra que encontro para definir o que se passava em todos e em cada um dos episódios. O bom do dr. Richard Kimble sempre em perseguição do One-Armed Man que ele sabe ter assassinado a sua belíssima mulher. Incansável, Kimble (interpretado por David Janssen) percorre os EUA de lés a lés, movido por um sentimento de raiva e de vingança pelo que perdeu, o amor da sua vida.No meio da sua saga, Kimble, com uma moral cristã acima de toda a prova, encontra sempre tempo, forças e disponibilidade para ajudar o próximo - mesmo foragido à Justiça e sempre com o tenente Philip Gerard à perna. Seja uma dona de casa em apuros, um negro injustiçado pelo racismo ou um gato em cima do telhado (estou a exagerar). A série de Roy Huggins e Quinn Martin foi um estrondoso sucesso nos EUA, sendo emitida de 1963 a 1967 na ABC. Quando a série deu em filme, nos anos 90, e com Harrison Ford no papel de Kimble, não fiquei desiludido. Pelo contrário. A angústia de episódios sem um fim à vista resolveu-se ali em duas horas e tal. Mas resolveu-se bem e a fuga do One-Armed Man, que escapava sempre por um triz na televisão, ali não dura muito. Sempre é menos angustiante.
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Notas duma viagem no fim de Setembro
Cheguei já de noite ao hotel em Belfast depois de ter percorrido Londres e Dublin em três dias. Trata-se da última etapa duma maratona de trabalho. Cheguei lá de comboio, atravessando as verdejantes planícies irlandesas na companhia de Eça. O tempo está cinzento e frio, à maneira do Inverno português. Chove. Quando, oriundos de Lisboa descíamos para Dublin e atravessávamos as nuvens negras, um casal irlandês de regresso a casa lamentava a sua negra e húmida fatalidade. Fontes Pereira de Melo gabava o clima em Portugal, como uma divina compensação do nosso crónico atraso cultural, industrial, infraestrutural. Na Irlanda até há pouco tempo tinham as duas coisas: o atraso e o mau tempo. Valeu-lhes sempre uma alma enorme.Em Belfast a chuva não é um acontecimento. Ela cai num choro contínuo, de mágoas ancestrais. Um casal jovem passeia o bebé em Donegall Square num carrinho de coberto por uma capota transparente. As bicicletas rolam indiferentes sob os oleados dos seus ciclistas. O povo ávido de se esquecer, escapa pelo meio da chuva para os seus pubs e bares, para bem regar o fim da tarde.
Em Londres, um gigantesco formigueiro humano, multirracial - o sonho realizado de qualquer verdadeiro internacionalista - labora numa impressionante eficiência e harmonia. Do aeroporto, ao trânsito na cidade, ou numa loja de pronto a comer, tudo funciona "sobre rodas". Nota-se prosperidade, e as pessoas são simpáticas e cooperantes. A mim, até um tardio jantar de Fish and chips me soube pela vida no Langan’s em Mayfair (o local indicado para encontrar genuínos indígenas na tradicional e entusiástica copofonia).
Cai sempre bem um sorriso ou uma piada de ocasião ao viajante solitário, em ambiente estranho e natural tensão. Aconteceu de madrugada, no hall do hotel em Belfast à espera de um táxi para mais uma jornada de viagem e aeroportos, quando comentei com o recepcionista um curioso pássaro de cauda comprida que observava a saltitar no jardim. O simpático irlandês, disse-me o nome do bicho (perdi a nota); e com um sorriso irónico tratou de me informar que, segundo o saber popular, eu teria que ver outro igual antes de partir, ou a visão significava um sinal de azar. Não vi, e cheguei esta tarde a Lisboa, à Portela, sentado na fila treze, de boa saúde e disposição.
Memória
As emoções básicas (crónica) XIV
Trata-se evidentemente de uma história. Mas o ponto é que a maior parte das obras de arte estão à partida condenadas ao esquecimento. E muitos autores vivem na doce ilusão de que podem eventualmente criar obras que lhes sobrevivam. A estatística é, no entanto, muito desfavorável. Talvez um trabalho em cada mil consiga ser lembrado dez anos depois de ter sido feito; talvez um em cada cinco mil sobreviva 50 anos. E um em dez mil, um século.
Pensei nisto enquanto lia um livro em que paguei quase por acaso. Chama-se Atlântida, escrito por um francês, Pierre Benoit. O livro foi famoso no seu tempo (1919) e teve duas versões em cinema, uma das quais devo ter visto parcialmente, há muitos anos, certamente a sonora, de Pabst, em 1932.
Nesta fantasia, dois exploradores percorrem no deserto zonas inexploradas e encontram o reino de Atlântida, dominado por uma rainha, Antinea, que manipula e mata os seus amantes, formando uma verdadeira colecção. Para o efeito pouco importa. A história é cruel e mexe com o imaginário erótico masculino. O enredo é algo ultrapassado, com um fantástico pouco interessante e menos credível.
E, no entanto, dei por mim a devorar o livro. Se as últimas páginas foram mais penosas, o início pareceu-me fulgurante.
De súbito, estava a revisitar as aventuras de Beau Geste (lembrei-me do filme); e também recordei O Deserto dos Tártaros, de Buzzati; parecia por instantes que poderíamos viajar dali, directamente para O Céu que nos Protege, de Paul Bowles; existia o mesmo fascínio pelos abismos de um conto de Camus que me impressionou. Sobretudo, detectavam-se pedaços de um autor que marcou a minha juventude, Jules Verne.
Atlântida não ficará na história da literatura, mas há farrapos seus que contaminam outras paragens.
Cada obra de arte é como um código genético pessoal. E assim é com os livros, cujas histórias atravessam as gerações, em diferentes variações de emoções básicas.
Um escritor de ficção científica, Clifford Simak, escreveu uma pequena novela, Time and Again, traduzida em português por Guerra no Tempo, número 34 da famosa colecção Argonauta. Foi um livrinho que me impressionou muito, quando o li, talvez aos 14 ou 15 anos. A história é complexa, com vários patamares de tempo e personagens que viajam do futuro para tentarem alterar o seu presente e personagens do presente que vão para o passado para se refugiarem do futuro, deixando mensagens do passado para o presente. Lembram-se dos filmes Terminator? Era a mesma ideia.
Recentemente, passou nos cinemas um filme europeu feito com meios sofisticados, O Som do Trovão, que não recolheu os aplausos da crítica. A meu ver, mal. Uma empresa faz viagens aos passado, mas num desses saltos, o passado é alterado. Essa mudança temporal chega em ondas que vão alterando o presente, em camadas sucessivas, apagando tudo o que passou. No final, percebemos que a única alteração foi a morte de uma borboleta, 65 milhões de anos atrás. A história é de Ray Bradbury, outro autor cujas ideias têm contaminado muitas obras alheias.
Vivemos na era do explícito, sexo explícito, action replay em câmara lenta, mensagens sem subtileza, morte em directo, repetida, repetida. Parece não haver lugar para metáforas ou exercícios de estilo. Mas trata-se sobretudo de uma ilusão. A alma humana, atrás dos gestos, esconde os mesmos mistérios de sempre.
Parece que já descobrimos tudo, mas a nossa fantasia sabe que não é assim.
O maior desconhecido não tem a ver com desertos inexplorados, mas com o que não sabemos sobre nós próprios. Os nossos medos (da morte, do sexo), as alegrias e tristezas, as aversões e fúrias.
A inveja de Salieri pelo génio de Mozart, por exemplo, que pode ser medo, mas que tem uma componente de angústia e outra de surpresa pelas maravilhas que o rival compõe. O conflito é semelhante ao de Atlântida: sabemos à partida que um dos exploradores matou o outro e, quando o sobrevivente conta a história, percebemos de imediato que a rivalidade entre os dois era inevitável. Mas de que paixão nasceu? Da ira, da inveja, do desprezo?
Tal como o capitão Saint-Avit dessa história, na posse de um terrível segredo, rejeitado pelos seus camaradas, também o compositor Salieri vive consumido pelo que não pode confessar: o seu ódio silencioso a um rival que o parece derrotar além da vida, o genial Mozart, a quem os deuses permitiram a imortalidade.
Etiquetas: Crónicas, emoções básicas, surpresa
Da vida na cidade


Domingo
Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas.
Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, ou daí para junto de nós, não poderia fazê-lo’. O rico insistiu: ‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’. Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas. Que os oiçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão’.
Da Bíblia Sagrada
Etiquetas: Cristianismo, Religião
Sábado, Setembro 29, 2007
Postais blogosféricos
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Os barões assinalados
Etiquetas: Política-PSD
A minha reacção primeira e última
Primeiras reacções
Eis a questão…
Em cheio
Preparem-se
Vai começar a debandada das "elites" sociais-democratas. Paula Teixeira da Cruz bem avisou.
Etiquetas: Política-PSD
Mais derrotados
Etiquetas: Política-PSD
Derrotado
Etiquetas: Política-PSD
Sexta-feira, Setembro 28, 2007
Portugal
Etiquetas: ocidental praia
O mundo está perdido, é o que é
Etiquetas: Bocas
They are the world
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XIX)
Etiquetas: cidades
Porque hoje é sexta-feira
- Ha, ha - respondi.
- Você é... uma pedra. Vai morrer sem amar. Como o Super-Homem.
- Eu amo seis mulheres. Sete, incluindo a crioula. Sete, conta de mentiroso. Amo sete mulheres. Uma delas é preta e outra é japonesa.
- Não acredito.
- Amo mesmo. Amo qualquer mulher que vá para a cama comigo. Enquanto dura o amor, amo como um doido.
- Você muda de mulher toda semana - disse F.A.
- Toda a semana porra nenhuma. Mariazinha eu conheci no baile do Municipal, ela estava sambando em cima de uma mesa e eu dei uma dentada na bunda dela, vai fazer um ano que isso aconteceu.
- Porque você fez isso? - perguntou F.A.
- O quê?
- Deu a dentada na, na moça.
- Sei lá. Tinha quinhentas mulheres trepadas na mesa, toda mesa tinha uma mulher em cima se exibindo, acho que aquilo me irritou. E a Mariazinha estava com a bunda quase de fora.
- E ela? O que foi que ela fez?
- Ela deu um grito. Então os caras da turma dela engrossaram e partiram pra cima de mim, e você sabe como é que é, tem sempre alguém levando as sobras e entrando na briga também, foi um sururu espectacular, durou só uns cinco minutos, mas acho que até o governador gostou de ver. Quando saí da enfermaria ela estava na porta e disse “bem feito”. Respondi “eu te amo”, e amava mesmo, e amo até hoje.
Fora de série (8)
Justificar o meu deslumbramento por uma música, por uma tela ou por qualquer performance artística afigura-se quase sempre pena maior do que arrancar um dente. Daquilo que eu gosto muito, gosto como um autêntico basbaque, com arrepios no corpo e pele de galinha na alma. E a relação que desenvolvo com o objecto da minha percepção é sempre muito condicionada pelas circunstâncias emocionais. Os estímulos e impressões daí resultantes são assunto terrivelmente solitário e de difícil expressão. Antes assim não fosse.
Vem isto a propósito de Os Vingadores (Grã Bretanha 1961-69), a minha saudosa série de TV que eu devorava fascinado cada episódio, através da velha televisão a válvulas da casa dos meus pais. No início, quando ainda mal sabia ler as legendas, assistia aos episódios numa semi-clandestinidade. É que numa família pouco liberal como a minha, a criançada tinha impreteríveis horas para se deitar. Mas havia truques e manhas para me fazer passar despercebido: no chão, de pernas cruzadas a respirar baixinho, num discreto recanto. Até que o meu pai dava conta que eu ali estava, tenso, mas flagrantemente feliz. Às vezes ele, adorável como sabia ser, suspirava e lá condescendia; outras, corria-me dali para a cama, cortante e autoritário, mesmo na altura do emocionante desenlace. Construí a relação com o meu pai com cumplicidades e desavenças. Ele era enorme, irascível e... meigo. Quantas vezes ficávamos os dois noite fora a ver Os Vingadores ou o Comissário Maigret... Os anos que passaram, progressivamente, acentuaram a nossa crónica incomunicabilidade. Mas como eu o admirava, mesmo quando na adolescência lhe ganhei os primeiros jogos de xadrez... 
Num rebanho de cinco irmãos, cada um tinha que sobreviver e afirmar-se como podia, e nós lá arranjávamos os nossos "fetiches" ou "causas". Eu, além do Sporting – um factor não diferenciador -, era simplesmente pela Inglaterra, nas marcas de carros, no futebol, no rugby ou na Fórmula I. Até me dava um secreto prazer saber que a criadora do Noddy era britânica.
Os Vingadores possuía arrebatadores atributos para me seduzir: mistério, um herói com estilo, carros, perseguições de automóveis e mulheres deslumbrantes. Sabiam que Catherine Gale, a miúda (Honor Blackman) da terceira série veio a ser a Bond Girl de 007 contra "Goldfinger"?
John Steed (Patrick McNee) era um gentleman, imperturbável herói, com o seu charmoso meio sorriso, um inseparável chapéu de coco anti-balas e o conveniente guarda-chuva, não só por causa do britânico clima, mas por ser uma arma secreta, ao bom estilo de 007.
O resto eram lustrosos e potentes automóveis sport, em perseguições pelas ruas de Londres, nas estradas e nos campos da minha mistificada Inglaterra dos Beatles. John Steed conduzia um espectacular Rolls Royce Silver Ghost de 1927. Gostava do jeito afidalgado do herói e daquela pronúncia ao estilo BBC. Gostava dos cenários rocambolescos, dos palácios, bibliotecas e frondosos jardins. Também me deixei seduzir por Emma Peel, (Diana Rigg) mulher resoluta e ágil no seu macacão de couro, quase tão feminina como a idílica fada do Pinóquio. Mais tarde foi substituída por Tara King (Linda Thorson), na quinta série, também sexy mas mais irreverente, a acompanhar o decurso das modas da revolucionaria década de sessenta. Por fim lembro-me da “Mãe”, o fleumático e misterioso chefe da organização ao serviço de Sua Majestade. Só no início da penúltima série nos é revelado o seu aspecto físico: um homem imensamente obeso sempre sentado na sua cadeira de rodas e rodeado de telefones.Mas nem sempre devemos voltar aos locais onde um dia fomos felizes. Há uns anos revi um episódio da série e confesso que sofri uma certa desilusão: os efeitos especiais não eram nada do outro mundo, e o guião menos sofisticado do que me parecia então. Essa simpática ilusão fora criada à conta da minha ingenuidade, e dos afectos vividos nesse tempo. É talvez por isso que a série Os Vingadores me trará para sempre boas memórias.
Etiquetas: fora de série, Memórias
Quinta-feira, Setembro 27, 2007
Muito barulho para nada
A direita em convulsão
A ver se nos entendemos, Paulo. Quando digo que este PSD acabou refiro-me ao partido híbrido existente desde 1974 - um partido que (con)funde populistas, liberais, conservadores e sociais-democratas. A partir de agora é impossível manter em funcionamento esta espécie de albergue espanhol. Se Luís Filipe Menezes ganhar, a reduzida ala social-democrata do partido e boa parte da falange liberal não tardarão a debandar: era isto que Paula Teixeira da Cruz queria dizer ao alertar contra o provável êxodo das "elites". Se Marques Mendes for confirmado líder, a facção saudosa do velho PPD sentirá mais que nunca a tentação de fundar um novo partido, que sirva de efectivo eco à "voz do povo". Desaparecerá o ténue traço de união entre o PPD e o PSD, que o cimento do poder manteve inalterado mais tempo do que mandava a lógica. Lisboa, onde o tradicional eleitorado laranja ficou recentemente dividido entre Fernando Negrão e Carmona Rodrigues, constitui um sério teste à recomposição da direita política. Foi também um teste à recomposição da esquerda, como a seu tempo se perceberá melhor. Mas para já é sobre o PSD que se abate a tempestade. Depois de sexta-feira nada ficará na mesma.Etiquetas: Política-PSD
E lá fora... (2)
Portela + 1
E lá fora...
É obra
No youtube hoje às 15:55, o video : Santana Lopes versus José Mourinho versus SIC Notícias era referido no indicador "Honors for This Video como:
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#9 - Top Favorites (Today) - News & Politics
e
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Maringá
O Corta-Fitas sofreu hoje uma explosão de visitas made in Brasil. Será que os militantes do PSD de Maringá nos estão a honrar com a sua entrada neste humilde blogue?
Já agora, estas militantes de outras causas (mais nobres) são dedicadas ao Pedro Dória - uma prova que a fama das nossas sextas-feiras já chegou ao Brasil...
Nota falsa
Etiquetas: Fracturas expostas
Fora de série (7)
Michael Landon nunca escondeu a agenda moralista da série. Ele próprio decidiu fazer dos escritos de Laura Ingalls Wilder (Little House, 1938) um exemplo. E o que é certo é que durante nove anos consecutivos (de 1974 a 1983) a NBC fez sucesso ao defender os valores da família unida que superava sempre todo o tipo de contrariedades e até as discriminações de cara alegre. À parte o irrealismo moral, foi uma série que me prendeu à televisão e que hoje me leva a questionar o que fez desaparecer tão repentinamente a figura do Pai da cultura familiar ocidental.
Etiquetas: fora de série
Quarta-feira, Setembro 26, 2007
10 elevado a 23
Etiquetas: Fracturas expostas
A pedido de alguns anónimos salivantes de expectativa
Etiquetas: Grandes obras
Então é assim...

Etiquetas: Profetas da desgraça
Mudar de caras ou transfigurar
Muito mais que um mero post, isto é uma excelente análise política. Pedro, concordo, no essencial, contigo. Aliás, ainda hoje de manhã falava com um amigo que conhece tão bem o PSD como nós, e que já foi jornalista em tempos, que me dizia que o melhor era fazer o que o José Miguel Júdice sugeriu quando bateu com a porta: fechar aquilo e depois abrir de novo, com novas ideias, outras gentes e um programa mais ambicioso. Começo a ver vantagens nessa solução. Foi o que fez o velho RPR, partido neo-gaullista francês, que se reconverteu e transfigurou na UMP. Nicolas Sarkozy ganhou as presidenciais e a França está outra vez a dar cartas no cenário mundial. Aquela que parecia uma direita velha e caduca sob o signo de Chirac, de repente revelou alma sob os auspícios de "Sarko".O PSD acabou
Às vezes, é preciso dizer o evidente
Etiquetas: Política
Vamos a eles!
Carlos Charmeur
12 moedas
Fui de férias há três semanas, para fora do país, e a grande discussão entre as duas candidaturas à liderança do meu partido era sobre quotas. Voltei, e a discussão, cada vez mais acesa e atentamente acompanhada pela Imprensa, é sobre quotas. Para quem ainda não saiba o valor desta magna questão, que motiva visitas a caixas Multibanco às duas da manhã para pagamentos colectivos, falsificações de moradas, ameaças de queixas à polícia e ao Tribunal Constitucional, debates na televisão, etc, etc, estamos a falar de uma quota de 12 euros. Por ano. Ou de uma moeda de um euro por mês.Terça-feira, Setembro 25, 2007
When the child was a childIt walked with its arms swinging,
wanted the brook to be a river,
the river to be a torrent,
and this puddle to be the sea.
(...)When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?
Ainda o Aquilino e a festança dos jacobinos
Os monárquicos não querem Aquilino em Santa Engrácia por causa da sua eventual participação no regicídio, os órfãos do Dr. Afonso Costa querem-no em Santa Engrácia precisamente por isso.
Sobre os dislates da jornalista Fernanda Câncio, a respeito da monarquia constitucional e o regicídio, ler na integra o brilhante texto de Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte.
P.S.: Ó Pedro, tem paciência, mas confessa lá onde gamaste esta preciosa ilustração, e eu prometo não te chamar monárquico!
Etiquetas: Centenário da república, Ler os outros
Novos, Velhos Brinquedos
Isto fez-me pensar. Agora que sei que vou ser mamã de um rapaz, fico a reflectir naquilo que ainda terei guardado e poderei passar ao meu filho. Vale-me ter sido uma verdadeira Maria-rapaz. O meu irmão herdou uma colecção de berlindes e uns carrinhos que faziam intermináveis filas à volta da cama - como se eu já adivinhasse o futuro - e uns Playmobiles que já viveram um grande número de histórias inventadas por abundantes mãos. Tenho uma colecção de borrachas, de diferentes formas e feitios, que de vez em quando vou espreitar para ver se ainda cheiram a novas. Aquele perfume faz-me andar alguns anos para trás, onde me vejo de vestidinho e cabelo bem mais curto.
Espero que o pequeno bebé que aí vem também um dia possa dizer com o mesmo orgulho: “São da minha mãe” e que isso não lhe cause muita estranheza. Pelo sim, pelo não, o pai já está encarregue de ir ao sótão procurar também os seus brinquedos.
Prognósticos só no fim
Retalhos da vida de um médico*
- Então, sr. dr., hoje está de serviço?
*título de Fernando Namora
Desculpem qualquer coisinha
Diz-me o que lês...
Sim Cristina, lá estão os dois príncipes da III república em animada "cavaqueira", sentados nos presidenciais cadeirões. Uma lição prática do perdão e da caridade cristãs à desapiedada sociedade civil. Mas a mim, o que me salta à vista na fotografia de capa do DN, é aquele grande e fabuloso livro na mesa logo à frente de Mário Soares: Legenda Áurea de Tiago de Voragine, editado pela Civilização em 2004Originariamente intitulado Legenda Sanctorum, esta brilhante obra sobre “o que deve ser lido dos santos” publicado em meados do Século XIII, terá sido um dos primeiros bestsellers da nossa civilização cristã, com cerca de dez mil cópias manuscritas. De resto pergunto-me se o livro (sublimemente ilustrado com obras de Giotto, Duccio, Fra Angelico, Simone Martini, Piero della Francesca, Masaccio, Masolino, Pietro Lorenzetti, Ambroggio etc.) será um mero adereço decorativo, ou se algum dos recentes inquilinos daquele palácio, se dignou a folhear o aquele histórico tesouro literário e artístico.
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Estações fora de horas
As vidas foras de horas têm que se lhes diga. Isto a propósito de um post antigo que transcrevo para o Corta-Fitas. Uma destas noites, nos arredores de Lisboa, a fila no exterior do guichet da estação de serviço era imensa e a clientela a mais variada para as compras do costume: cigarros, cervejas, embalagens de leite e claro, combustível, quase sempre muito pouco. Junto ao vidro chegavam-nos vozes azedas para com o funcionário que afanosamente ia e vinha até junto do cliente. (Imaginem agora as deixas para a plateia sempre que o rapaz se afastava...). Entretanto, a malta cá fora dividia-se entre sentimentos de indignação para com a incompetência do empregado e a falta de educação daquele comprador intolerante. Nós estavamos obviamente do lado do rapaz que zelosamente procurava despachar aquele exigente pedido fora de horas. O pedido? Ah, sim! Comida para gato.
Um outro mundo, as estações de serviço fora de horas. Falo daqueles estabelecimentos com pré-pagamento, onde se vende gasolina, bebidas, pão, congelados, jornais, revistas e até comida para animais. Certamente saberão do que estou a falar. Em Lisboa há algumas deste género, que dão um grande jeito de dia para um litro de leite ocasional ou uma embalagem de queijo. À noite, pertencem a outro tipo de pessoas. Principalmente frequentadas por noctívagos sem gasolina, mas sobretudo procuradas para compra de cervejas ou cigarros, sem acesso ao interior, todas estas transacções se fazem através de um vido, sem qualquer contacto com o paciente funcionário.
Acredito que estejam todas vigiadas por câmaras, o que, apesar de dar uma certa segurança não nos impede de sentir algum receio. Muitas vezes são miúdos ou maduros em estado alcoolizado ou com vontade de ficar, a avaliar pela quantidade de álcool que levam nos sacos. Outras vezes são solitários, com noites longas, a quem se acaba a companhia da cerveja e dos cigarros. São também locais para taxistas, funcionários com turnos nocturnos, local de passagem entre um bar e outro, viajantes que chegam com frigoríficos vazios, uma última paragem, uma necessidade.
Quando os vejo partir ao volante, de voz entaramelada e com passo incerto, fica por ali um amargo sentimento de impotência e comigo um aperto no coração. À nossa frente, um jovem casal de namorados leva uma noite cheia de precauções, funcionários de uniforme recolhem a casa com cigarros e chocolates e um cavalheiro pede uma revista com capa de corpo inteiro.
A todos, uma boa noite.
Segunda-feira, Setembro 24, 2007
Payote
Foram uns cogumelos que comi ao almoço.
Fora de série (6)
Boy the way Glenn Miller played
Songs that made the hit parade.
Guys like us we had it made,
Those were the days.
E logo um zoom nos introduzia na residência de Archie Bunker. O irascível, antipático, furibundo Archie Bunker – uma das mais perenes personagens da ficção televisiva de todos os tempos. O típico americano médio, cheio de preconceitos sociais, culturais e raciais. Reaccionário até à medula, apoiante cego de Richard Nixon e da guerra do Vietname, inimigo figadal dos ventos da História que nesses idos de setenta prometiam uma revolução cultural no país mais poderoso do planeta.
And you knew who you were then,
Girls were girls and men were men,
Mister we could use a man
Like Herbert Hoover again.
Um dos mais deliciosos ingredientes da série era o modo como subvertia o dogma então vigente sobre a classe operária como vanguarda social. Archie era operário – “explorado pelo capital”, um remediado sem horizontes –, o que não o impedia de destilar ódio contra os imigrantes que vinham “roubar-nos os postos de trabalho”. Contra os negros, “delinquentes por natureza”. Ou contra os judeus, que “assassinaram Cristo”. Conservador empedernido, rogava pragas ao desconserto de um mundo onde todas as peças lhe pareciam subitamente fora do lugar. Daí nasciam as homéricas discussões que mantinha com o genro, Mike, um intelectual de esquerda que lhe servia de contraponto ao exibir uma fé inquebrantável no progresso.
Didn’t need no welfare state,
Everybody pulled his weight.
Gee our old LaSalle ran great.
Those were the days.
All in the Family (que uma feliz tradução portuguesa baptizou de Uma Família às Direitas ao ser exibida na RTP) tinha diálogos de cinco estrelas, que nos faziam rir até às lágrimas, tornando Archie num ícone popular, malgré lui e as ideias que propagava. Algumas das suas expressões incorporaram-se no vocabulário comum, como “fecha a matraca” (a ordem da praxe para mandar calar a incomparável Edith, a mulher que lhe aturava todos os caprichos) ou “cabeça de abóbora” (o feroz qualificativo que reservava ao genro). Era uma série de texto, mas também de actores, servida por um quarteto de intérpretes de luxo. Carroll O’Connor (Archie), Jane Stapleton (Edith), Sally Struthers (a filha, Gloria) e Rob Reiner (o genro, que na vida real se tornaria realizador de filmes inesquecíveis, como Misery ou When Harry Met Sally). Era um tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e de todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta.
“A ‘seriedade’ não costuma ser um sinal inequívoco de sabedoria, como julgam os pasmados: a inteligência deve saber rir”, como nos ensinou Fernando Savater. É nisso que penso ao rever hoje cada episódio desta extraordinária série que psicanalizava a classe média americana e se mantém actual, superando as barreiras da moda, do gosto e do tempo. Porque a América de Archie Bunker não morreu: apenas se alterou o suficiente à superfície para continuar tão tacanha como dantes.
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Once again in the West
Domingo, Setembro 23, 2007
Adeus Verão, olá Outono
Robert Jordan perdeu a corrida contra a morte: faleceu aos 58 anos, deixando inacabado o último volume da sua popularíssima saga Wheel of Time. Os russos – pós-comunistas mas sempre imperialistas – reclamam uma parcela do Pólo Norte. Dois Dias em Paris, um dos melhores filmes que vi nos últimos meses, é arrasado pela crítica lisboeta. Os bilhetes para o concerto dos Police, no Estádio Nacional, são vendidos a bom ritmo: a nostalgia é que está a dar. Morreu Marcel Marceau. Rogério Alves aceita patrocinar o casal McCann, mostrando assim que também para o bastonário dos Advogados há uns processos mais prioritários do que outros. A nomeação do novo director-geral dos impostos gera parangonas equivalentes às de uma remodelação governamental. A ministra da Cultura foi pela primeira vez de autocarro para o seu gabinete no Palácio da Ajuda e levou com ela um batalhão de jornalistas, o que diz tudo sobre a arte de governar em Portugal nos tempos que correm.Cinema Nostalgia (13)
De joelhos esfolados, invariavelmente sentada no chão, ainda não tinha idade nem paciência para ficar a olhá-las por muito tempo. Nessa época só as sondava por escassos minutos, para logo regressar à segurança das minhas brincadeiras de menina.
Mas fui crescendo. Do chão passei para o sofá e à medida que as cicatrizes iam desaparecendo dos meus joelhos ganhei, sei lá porquê, o hábito de traçar a perna. Alguns rostos já me eram familiares: Marilyn Monroe, Grace Kelly, Audrey Hepburn... mulheres lindas, de olhos estonteantes, bocas sensuais, perfis perfeitos. Alguma vez viria a ser como elas? Era óbvio que não, mas a sua beleza insuperável não me desencorajava nem ofendia. Era, pelo contrário, uma inspiração.
Passei a estudar-lhes os gestos e a guardar na memória momentos de puro encantamento, como o de Marilyn a sussurrar “Kiss” em Niagara, ou de Lauren Bacall, em Ter ou Não Ter a dizer com ar de provocação para o seu Boogie “Sabes assobiar, não sabes? É só juntar os lábios e soprar!” Conseguiria alguma vez atirar o fumo do meu cigarro para a cara de um rapaz com aquele estilo?
Às vezes gostava de esquecer-me que existia e vestir-lhes a pele. Mesmo depois dos filmes terminarem alimentava a fantasia de que os outros conseguiam, de alguma forma, revê-las em mim. Nessas ocasiões a voz saía-me levemente alterada, assim como as expressões do rosto e a linguagem corporal. Mais determinada se o filme era protagonizado por Jodie Foster ou Jane Fonda, mais doce se tinha acabado de ver Michelle Pfeiffer no ecrã...
O cinema, para mim, também foi isto. A possibilidade de aprender com as mulheres mais fascinantes do mundo. Se não tive aproveitamento garanto que a culpa não foi das mestras... tenho provas que as ilibam. Em filme.
Etiquetas: Cinema nostalgia
Os tugas (34)
- Minha senhora, porque está a buzinar tanto?
Etiquetas: tugas
Domingo
Naquele tempo, reuniu-se uma grande multidão, que vinha ter com Jesus de todas as cidades, e Ele falou-lhes por meio da seguinte parábola: «O semeador saiu para semear a sua semente. Quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho: foi calcada e as aves do céu comeram-na. Outra parte caiu em terreno pedregoso: depois de ter nascido, secou por falta de humidade. Outra parte caiu entre espinhos: os espinhos cresceram com ela e sufocaram-na. Outra parte caiu em boa terra: nasceu e deu fruto cem por um». Dito isto, exclamou: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça». Os discípulos perguntaram a Jesus o que significava aquela parábola e Ele respondeu: «A vós foi concedido conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros serão apresentados só em parábolas, para que, ao olharem, não vejam, e, ao ouvirem, não entendam. É este o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem, mas depois vem o diabo tirar-lhes a palavra do coração, para que não acreditem e se salvem. Os que estão em terreno pedregoso são aqueles que, ao ouvirem, acolhem a palavra com alegria, mas, como não têm raiz, acreditam por algum tempo e afastam-se quando chega a provação. A semente que caiu entre espinhos são aqueles que ouviram, mas, sob o peso dos cuidados, da riqueza e dos prazeres da vida, sentem-se sufocados e não chegam a amadurecer. A semente que caiu em boa terra são aqueles que ouviram a palavra com um coração nobre e generoso, a conservam e dão fruto pela sua perseverança».
Da Bíblia sagrada.
Etiquetas: Cristianismo, Religião
Sábado, Setembro 22, 2007
Fora de série (5)
A minha infância e adolescência tiveram pouca televisão. Por razões que já não sei precisar, tudo lá fora parecia mais interessante do que estar sentada em frente ao ecran. E foi só com o Fame que ficar em casa a ver televisão passou a ser o plano A. Etiquetas: fora de série
Gostei de ler
Sentimentalices matutinas. De António Mira, n' O Insubmisso.
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XVI)
Etiquetas: cidades
O mercado dos horrores
A obra do Diabo, definitivamente, não precisa de assessoria mediática. Com a nossa animal apetência para o voyeurismo, o macabro é uma fonte inesgotável de negócio, e um sucesso editorial sempre garantido. Do cinema até à literatura de faca e alguidar, vários são os “suportes” da próspera indústria do horror, da obscenidade. Pelo menos para o nosso anafado e confortável modo de vida, já que as desgraçadas vítimas não devem achar piada nenhuma reverem-se nas suas rotineiras fatalidades.
Mas como em matérias de desgraças a realidade supera muitas vezes a mais histérica ficção, a Comunicação Social logo se revelou o mais bem sucedido suporte desse "produto". Quanto mais aberrante melhor. Haverá sempre por aí um Homem Elefante ou uma família de tarados para desvendar ao ávido público. No princípio, as notícias “de horror” eram publicadas em desinibidos jornais especializados, como uma espécie de pornografia popular tolerada. Hoje, o eterno filão é explorado despudoradamente e qualquer doentio caso de violência doméstica facilmente ganha estatuto de “tema de fundo” num diário ou semanário de referência: a mãe que serrou os filhos aos bocados, a criança sequestrada pelo vizinho, o "respeitável" economista que afinal é pedófilo, o irmão que esventra o irmão... E o interminável caso Maddie. E à noite, se não me cuido, ainda sou apanhado por um psicólogo no canal de notícias que pretende aconselhar os incautos progenitores como explicar às criancinhas aqueles fenómenos psicossociológicos. Não vão os meninos começar a desconfiar da mãe, recusarem-se ir à mercearia do Sr. Aníbal, ou ao Jardim Zoológico com o tio José.
Sob o liberalíssimo império do mercado, o voyeurismo, a notícia de sangue e a depravação, rende monstruosos dividendos e emprego a muita gente. Nesta lucrativa cultura do pavor, promove-se a perspectiva do moscardo, que desvendará sempre a partícula de excremento na mais idílica paisagem.
Sem discernimento ou sentido crítico para optar com liberdade, uma enorme plateia, alienada, assiste impávida ao degradante espectáculo diário. Com o tempo, mudarão os protagonistas desta hedionda telenovela, um reality show da miséria humana. Até que todos acreditem mesmo que o mundo é afinal uma enorme e depravada pocilga, e que tudo o resto não é mais do que uma gigantesca conspiração para nos fazer acreditar que vale a pena sermos melhores, amarmos mais e sermos felizes.
Etiquetas: Coisas da vida, Crónicas
Sexta-feira, Setembro 21, 2007
Outono
Postais blogosféricos
Uma dúvida angustiante
É uma dúvida que persiste. Cada vez mais angustiante, à medida que pequenas parcelas deste puzzle começam a juntar-se. Formando um quadro bem diferente do que todos supúnhamos ser real.
Etiquetas: Jornalismo
Notícias do futebol
Etiquetas: desporto-rei
Tertúlia literária (220) *
Etiquetas: tertúlias literárias
Porque hoje é sexta-feira
"Pontapé na tola"
Quinta-feira, Setembro 20, 2007
Nas colunas
Etiquetas: Música
O Mourinho de Abramovich
O despedimento de Mourinho por Abramovich tem uma consequência evidente e imediata: o Chelsea vai voltar ao lugar que ocupava nos últimos anos na primeira liga inglesa: do meio da tabela para baixo. E por motivos muito práticos, que começam logo pelo facto de a partir de agora Abramovich poder pôr a jogar os dois craques que comprou à revelia do técnico português - Ballack e Sevchenko. O pior é quando estas duas estrelas perceberem que estão sozinhas, pois os jogadores mais influentes, como John Terry, Frank Lampard, Didier Drogba e os portugueses começarem a remar para outro lado, com óbvio ressentimento pelo afastamento do técnico que lhes deu a fama e o proveito.Quanto a Mourinho, deixou-se arrastar numa situação que não controlava. Em vez de ter saído no fim da época passada, ainda na mó de cima, embora tenha perdido o campeonato para o Manchester United, resolveu esticar a corda e esperar pela indemnização multimilionária. Manchou o currículo, embora saia de Inglaterra com obra feita.
P.S. - A fotografia é do "Daily Mail", jornal muito na moda por cá.
It's Middle East, stupid (7)
Fora de série (4)
Criada e produzida por Aaron Spelling – falecido o ano passado e mentor de outros grandes sucessos, como Os Anjos de Charlie e Beverly Hills 90210 –, O Barco do Amor inspirou-se no bestseller autobiográfico escrito por Jeraldine Saunders, que focava as proezas românticas da tripulação de um navio. Mas, The Love Boat ia mais longe, pois contava as aventuras e desventuras vividas no cruzeiro, não só pelos membros da tripulação – alguns eram frescos… –, como pelos passageiros. A série americana, que começou a ser transmitida no final dos anos 70 e que se prolongou até 1986, tinha os condimentos necessários: romance, comédia, mistério e a magia e glamour que, quem já embarcou na experiência, diz ser própria dos cruzeiros.
O Barco do Amor era uma das séries que muitas vezes estava presente no magazine Agora Escolha, apresentado por Vera Roquette, que nos apresentava duas opções de visionamento. Nós éramos os seus “amiguinhos”. Enquanto os telespectadores votavam – eu nunca senti o apelo de pegar no telefone e ligar – entre Os Três Duques e o Barco do Amor ou Um Anjo na Terra contra O Barco do Amor, ou O Barco do Amor contra Soldados da Fortuna – eram múltiplas as combinações – assistia ao “Boi Bocas” ou à “Ana dos Cabelos Ruivos” e ia controlando a votação no canto superior esquerdo do ecrã. Quase sempre torcia pelo Barco do Amor. Não sei se pelo fascínio que era imaginar que também podia fechar os olhos e ser transportada a bordo do Pacific Princess, ou se pelo lado mais romântico de ver finais felizes – todos os passageiros, apesar de problemas que tivessem tido, saíam com um sorriso na cara. Enterrada no sofá, a lanchar, ficava a imaginar se, também eu, um dia iria viver um amor a bordo de um navio. Em criança, são sempre muitas as nossas divagações, enquanto mastigamos o pão com qualquer coisa e bebemos o leite.
E porque a memória é selectiva, as caras que num primeiro momento logo me vêm à memória são sempre as mesmas. A do comandante Merrill Stubing (Gavin MacLeod) – já sabia apreciar e entender qual o significado da palavra “charmoso” –, a simpatia e o sorriso de Julie McCoy (Lauren Tewes) e a do Dr. Adam Bricker (Bernie Kopell), o médico do navio que encontrava algumas das suas ex. Mas depois vem o barman de serviço e os seus conselhos, Isaac Washington (Ted Lange); Burl “Gopher” Smith (Fred Grandy), com tendência para atrair situações mais problemáticas e Vicki Stubing (Jill Whelan), a filha de 12 anos do comandante. Resumindo: “Love, exciting, and new”.
Etiquetas: fora de série
It's Middle East, stupid (6)
See with good eyes e outras expressões igualmente hilariantes. Sócrates vintage. A consultar aqui.
It's Middle East, stupid (5)
Faltam oito dias
Depois de um bem sucedido inquérito sobre quem irá vencer o campeonato de futebol 2007-2008, o Corta-Fitas lança agora um novo questionário: "Quem vai ganhar a liderança do PSD?" Uma questão cheia de oportunidade, a apenas oito dias das directas. Neste momento, e enquanto escrevo, Luís Filipe Menezes vai à frente com 11 votos, contra os sete de Luís Marques Mendes. Se fossem hoje as directas no PSD, Menezes teria 61% e Mendes 39%.It's Middle East, stupid (4)
Um gesto
O Sporting ontem jogou de igual para igual com o Manchester United. Gostei de ver, embora o resultado final (0-1) tenha entrestecido todos os sportinguistas. Também registei que o Cristiano Ronaldo não comemorou o golo que marcou ao seu antigo clube e que até pediu desculpa aos adeptos, num gesto que fica para a história do futebol. Mas não tenho gostado do embandeirar em arco de alguns jogadores do nosso plantel. Há meses ouvi o Djaló dizer que está a trabalhar para ir para o Barcelona FC, ontem, diz-me o Pedro, foi a vez do Miguel Veloso garantir que o seu sonho é jogar em Old Trafford. É preciso é que joguem futebol (Veloso tem jogado, apesar de tudo) e sigam o exemplo de João Moutinho. Poucas palavras e muita acção.It's Middle East, stupid (3)
Etiquetas: José Sócrates
It's Middle East, stupid (2)
It's Middle East, stupid
Etiquetas: Babilónia
Tertúlia literária (219)
- Gosta de Aquilino?
- Nem por isso. Prefiro um nariz bem arrebitado.
Etiquetas: tertúlias literárias
Momentos Kodak (58)
Cerimónia de trasladação dos restos mortais do escritor Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional. Pode ler e ver mais sobre este assunto no DN. A fotografia visualizada na edição em papel e no site é da agência Lusa. Não me perguntem porquê.(Setembro 2007)
Fotografia: Rodrigo Cabrita
O lugar de Aquilino
Etiquetas: Fracturas expostas, Tertúlia literária
Quarta-feira, Setembro 19, 2007
Fora de Série (3): Goodbye city life. Green Acres, we are there!
Olá caros leitores,
Etiquetas: fora de série
De mal a pior
Etiquetas: Política-PSD
Gostei de ler
O debate. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Questão de Estado. Do Eduardo Pitta, no Da Literatura.
É normal?! De Tony Almeida, nos Pontos Soltos.
Bella ciao. Do Hugo Ramos Alves, no Amarcord.
Ervas daninhas. De Jorge Lima, nos Incontinentes Verbais.
Allez Sporting
O inquérito do Corta-Fitas sobre as públicas expectativas para o campeonato de futebol doméstico iniciado recentemente, obteve imenso sucesso, com 778 participações. A vitória final foi do Sporting Clube de Portugal, como é de bom tom suceder nesta "casa" de lagartos ferrenhos. Foi à tangente, mas não bastou a vontade dos seis (dezoito?) milhões de lampiões. Confirma-se que o tamanho não é o importante.Etiquetas: Corta-Fitas
Fora de Série (2)
A insustentável leveza do leste
Em 1974 e 1975, Portugal descobriu que até aí ignorara uma parte do mundo. Nesse tempo, houve excursões ao paraíso do leste e chegavam ao Coliseu as danças e cantares de Krasnoiarsk, a ópera moldava e os acrobatas de Moscovo. Houve um fascínio quase doentio pelo bloco socialista. De tal forma o fenómeno se tornara ideológico, que deixou de ser possível ficar no meio da barricada a apreciar o panorama: ou se bebia a propaganda até à última gota (eles viviam numa gigantesca Vida Soviética a cores e Soljenitsyne, o agente da CIA, inventara cada palavra do seu Gulag); ou os do leste eram todos comunas, comiam criancinhas e até os periquitos nasciam já com cor vermelha.
Enfim, esta crónica não pretende falar de política, mas apenas lembrar que na televisão, no pequeno quadradinho mágico, essa clivagem também se fez sentir.
Um dos heróis da época chamava-se Kloss e tinha a patente de capitão. Acho que esta série polaca foi vista por todos nós um pouco ao contrário, pois era mais complexa do que parecia. Hoje, é fácil chegar a esta afirmação, na medida em que já sabemos o que a História ditou para o bloco socialista, que começou a ruir exactamente na Polónia.
Tento explicar melhor. Kloss era um agente polaco infiltrado no poderoso exército nazi. A sua inteligência superior permitia-lhe descobrir os segredos militares alemães e passá-los à resistência e aos aliados. Em cada episódio, após muitos perigos, o espião triunfava.
Na altura, escapavam-nos as subtilezas das divisões polacas entre comunistas e nacionalistas, os crimes, a partilha da Polónia no pacto germano-soviético (aqui, entrava bem uma história real, do dia em que deixei de acreditar no sistema de ensino). Mas, sobretudo, não podíamos compreender a metáfora escondida naquela história de duplicidade. Kloss era também um símbolo da Polónia submetida, obrigada a esconder a verdadeira natureza e os sentimentos mais íntimos. O destino do agente duplo era, nessa perspectiva, íntimo. Para mim, adolescente, aquilo não passava de uma boa história; mas Kloss era um herói sem esperança de regressar aos seus, envolvido numa luta desesperada, visto como eterno Judas. Pensando bem, era o jogo duplo dos povos submetidos no império soviético. Compreenderia isso mais tarde, ao ver os filmes de Andrzej Wajda (Kanal ou Cinzas e Diamantes)
Dizem-me que o actor Stanislaw Mikulski foi brilhante em Kloss, mas confesso que não me lembro desse aspecto. Por vezes, na minha memória incerta, as histórias de Kloss confundem-se com as dos Quatro Amigos e um Cão, que a bordo do seu T-34 vão pulverizando os panzers nazis. Era outras das séries de leste, essa menos metafórica.
Enfim, nesse tempo aprendi a gostar da Polónia. Ainda sei dizer “Muito bem, senhor Capitão”, com irrepreensível pronúncia varsoviana. Chateia-me quando vejo um snob a desvalorizar o leste. Tenho nostalgia destas séries ingénuas com tantas coisas nas entrelinhas e uma sensação de bom recuo no tempo quando leio a palavra koniec.
Etiquetas: fora de série
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XIV)
Etiquetas: cidades
Os tugas (33)
Etiquetas: tugas
Era uma vez...
D. Carlos em Cascais
Enquanto hoje, para deleite dos apaniguados da república, Aquilino Ribeiro vai a trasladar para o Panteão Nacional - não sei sob que critério - permitam-me dar nota de que foi inaugurada no passado Sábado, aqui no meu concelho de Cascais, na rotunda D. Carlos I, Areias – Guincho, uma singela estátua desse nosso notável Chefe de Estado, penúltimo rei constitucional de Portugal, herói e mártir, a quem o país e a história tardam em fazer justiça. Na cerimónia de inauguração marcaram presença António Capucho, Presidente da Câmara Municipal e D. Duarte de Bragança.P.S.I: Infeliz o povo acrítico que ignora a sua história, despreza os seus heróis e mitifica a mediocridade.
M&M
Terça-feira, Setembro 18, 2007
Para onde vai o guito?
Bushismos
O que há a reter da visita de José Sócrates aos EUA? Quase nada. O primeiro-ministro português puxou dos seus galões enquanto presidente do conselho da União Europeia em exercício para ser recebido na sala oval da Casa Branca e tirar umas fotografias com George W. Bush. Para além disso, fez um jogging matinal à frente do Capitólio, ouviu umas piadas sobre a sua boa forma física e estamos conversados. A verdade é que Sócrates deve ao Iraque esta visita (como Durão Barroso deve o estar onde está) e ao facto de estar seis meses à frente da UE.Fora de série (1)
Este domingo Os Sopranos receberam mais três Emmys. Desde 1999, o ano da sua estreia, foram distinguidos com 18 Emmys e nomeados 111 vezes. Terão comprado os votos? Com a máfia nunca se sabe... A mim devem ter-me drogado, porque na verdade, viciei-me. Se tivesse psicanalista discutia isto com ela: acho que tanta dependência se ficou a dever sobretudo a essa empatia que eu criava com Tony à minha própria revelia. Durante 50 minutos por semana perdoar ou compreender aquilo que no meu perfeito juízo só poderia rejeitar veementemente era como dar uma voltinha na montanha russa e cheia de adrenalina gostar de ficar a ver tudo de pernas para o ar...
Etiquetas: fora de série
Segunda-feira, Setembro 17, 2007
Um pouco de cocó, sff
Promessas em série
A ternura dos 50
As emoções básicas (crónica) XIII
A arma encravada
Parece que chego tarde a todas as conversas. Quando tenho alguma coisa de interessante para dizer sobre os temas do dia, já antes alguém disse algo de bem mais inteligente. Isto acontece-me tantas vezes, que me habituei a ficar calado. Vejo os outros a conversar, treinei-me nessa observação. Gosto do exercício. Estou sempre a torcer por alguém, quando há debate de ideias, e fico maravilhado como algumas pessoas têm a arte de, no tempo que demora a incendiar um fósforo, rematar com um argumento demolidor.
O gosto de ouvir os outros a falar tem certamente lados negativos: quando sei que posso ser pertinente, num determinado ponto da conversa, sinto tal desejo de dizer coisas acertadas, que interrompo os outros à bruta, para dizer essa tal frase que entretanto me escapou da ideia. E, no embaraço, levanto a voz, à qual dou uma ênfase que não queria dar à partida.
Ainda é pior quando me fazem uma pergunta: aí, ou a pergunta é certeira e dou a minha opinião ou, o que é mais normal, começo por tentar levar a conversa para o ponto que achava mais importante, mas que não estava contido na pergunta. E o exercício torna-se fútil, pois quem perguntou resiste aos meus esforços. Se, por qualquer milagre, consigo entrar no ponto que queria sublinhar, geralmente já acabou o tempo.
Era isto que eu queria escrever, não apenas chego tarde às conversas, mas parece que não tenho a inteligência social para me moldar às conversas dos outros. Anteontem, estava tão impaciente, num ambiente estranho para mim, que fui de uma brutalidade extrema com uma pessoa. Depois, nem lhe pedi desculpa. Os que me conhecem sabem que posso ser invulgarmente bruto numa banal troca de impressões. Como se aquilo que quero verdadeiramente dizer não seja formulado da maneira que pretendia, como se houvesse uma máquina na minha mente que muda todo o sentido das frases pensadas, por causa da urgência, por não haver tempo para fluir o raciocínio inicial e ser necessário entrar num programa acelerado, mais de combate do que de descontraído diálogo. E, claro, o programa transforma num turbilhão confuso o que, no meu pensamento, parecia estruturado. Enfim, há muitas conversas onde não acerto uma. Algumas pessoas pensam que é arrogância, mas é falha de outra natureza.
Por isso, muitas vezes, prefiro ficar calado e sonhar com o que diria, se as circunstâncias me permitissem. É engraçado como no silêncio todos os discursos se tornam tão perfeitos.
Na imaginação, sou um grande orador. Se estiver sozinho, sem medo, posso declamar um poema. Não me embrulho nas sílabas e o vocabulário expande-se, como que por milagre. Os erros gramaticais dissipam-se (é curioso como, em conversa, cometo tantos erros gramaticais, sobretudo quando me enervo).
E, agora, reparo: escrevi uma crónica confessional. O que querem as pessoas saber destes receios absolutamente individuais? E, tendo estado toda a tarde a meditar sobre outros assuntos, de como o mundo contemporâneo é demasiado explícito, virado para prazeres do indivíduo, esquecido da solidariedade, muito técnico e superficial, feito de fogo-de-artifício e luzes de néon, é curioso que me tenha saído esta crónica meio atabalhoada e cheia de autocomiseração, sem nenhum tema que se veja, sem uma palavra sobre os assuntos que afligem os nossos contemporâneos e que, afinal, já foram devidamente dissecados por toda a gente desta imensa conversa, a blogosfera, onde chego sistematicamente atrasado.
Uma palavra sobre a ilustração: foi tirada do filme "O Homem que Matou Liberty Valance", de John Ford, que devia ser o tema desta crónica. Como não consegui escrever sobre o filme, e na medida em que as ideias são como as cerejas, lembrei-me da importância da palavra nesta obra-prima do cinema, pois o bruto é vencido também pela força dos argumentos retóricos, que funcionam na sua qualidade de rolo compressor da História. O filme fala de um problema muito contemporâneo: a incerteza sobre o que é a verdade. Lembram-se do famoso "print the legend" que tanto nos explica sobre aquilo que nos rodeia?
Etiquetas: crónica, emoções básicas, medo
Sócrates só corre para o boneco
Mão bondosa já fez saber aos jornalistas da comitiva que, quando forem 8 da manhã em Washington, o nosso primeiro-ministro vai fazer o seu jogging pelas ruas da cidade. Apesar de este ser um número repetido sempre que Sócrates muda de continente, não deixa de ser estranho que, por cá, não o vejamos na rua nem a saltar à macaca. Parece que prefere o ginásio. Pois sr. PM, vou dar-lhe uma informação que vai simplificar a sua vida: nesses sítios onde vai também há ginásios. Palavra! Mude lá de gracinha, que essa já enjoa.«No problem»
No primeiro dia, após a conferência de imprensa, assisti ao recolocar da poltrona na qual o Dalai Lama se sentara. Voltou ao seu costumeiro lugar, no átrio do hotel. Muitas centenas de pessoas sentar-se-ão nela, desconhecendo quem a utilizou e para que serviu. Pouco importa. Importante é a repercussão das suas palavras e dos seus actos naqueles que o viram e ouviram. Quanto às atitudes dos políticos, com as suas desculpas de agenda, real politik ou protocolo, valem o que valem e pesam o que pesam. Ou seja, absolutamente nada.
Um filme de horror
O Corta-Fitas teme pela segurança e pelo bem-estar da Passarinha, a nossa hospedeira de bordo preferida. O problema da Maria do Céu - que considera o Pedro Mexia um "teddy bear super querido" que "adora imenso" - é que está metida numa tripulação que parece saída de um filme de terror: Emilia, Jennifer, Peter, Jade, Thomas, Katie e Viki não a deixam em paz. Percebo agora que viajar com o comendador Berardo possa ter sido uma lufada de ar fresco... A ler
2. "Quem anda a matar a Justiça", de José.
3. "Grande vantagem", do Rui Costa Pinto.
4. "Bandeiras terceiro-mundistas", de Filipe Melo Sousa.
Sintra, sempre
A estratégia da ausência
A estratégia do propagandista-mor é simples: anda pela Europa e pelo Mundo, aparece aos sábados no País profundo a oferecer computadores a preço de amigo e vai passando por entre os pingos da chuva. Quem se molha são os seus ministros. Jaime Silva e Rui Pereira em casos como o da herdade de Silves e os assaltos de Viana do Castelo, Alberto Costa no CPP e em vários outros. Quando todos eles falham e ninguém aparece a dizer "presente", Sócrates deixa que Cavaco Silva se auto-responsabilize por ter promulgado o diploma que naquele momento estiver a ser alvo de críticas. Governar assim é fácil. O problema é que a estratégia não dura para sempre e Cavaco só se compromete quando quer (mesmo neste caso, sublinhou que é preciso pôr o Parlamento vigiar a aplicação da lei). Sem um número dois, desde a saída de António Costa para a Câmara de Lisboa, Sócrates optou por não reforçar o Governo com pesos políticos. É ele e "os outros". Os "outros" servem para tudo. Apagam os fogos, ficam com a má imagem, mas como também não têm peso político próprio são dispensáveis quando se fizer a remodelação pré-eleitoral lá para 2008. Sócrates fica limpinho até lá.
Domingo, Setembro 16, 2007
O trágico declínio dos melhores escritores
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
Etiquetas: Leituras
Vontade de ler

O Céu que nos Protege, de Paul Bowles. Tradução de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim). Um dos melhores romances que li na última década. Já sinto vontade de o reler. E de zarpar para o norte de África. A melhor literatura é assim: faz-nos mudar por dentro, faz-nos mudar a vida. Ou até mudar de vida.
A Fogueira e Outros Contos, de Jack London. Tradução de Ana Barradas (Antígona). Um dos grandes ficcionistas de todos os tempos, traduzido de forma impecável por uma das suas melhores divulgadoras em Portugal. Todos os contos são bons, mas há dois de antologia: o que dá nome ao livro e “O Bife”. Histórias intemporais sobre a condição humana.
Artur ou a Felicidade de Viver, de Françoise Giraud. Tradução de Rute dos Santos Leote (Inquérito). Um livrinho de memórias daquela que foi talvez a mais célebre jornalista francesa de todos os tempos. Lê-se de um fôlego mas sabe a pouco: ela tinha obrigação de fazer mais.
Avenida Paulista, de João Pereira Coutinho (Quasi). Excelentes crónicas de um dos melhores colunistas actuais da imprensa portuguesa. Num estilo distante do falso cinismo provocador que se tornou sua imagem de marca.
Film Noir, de vários autores (Overlook Press). Terceira edição de uma obra organizada por Alain Silver e Elizabeth Ward que constitui a referência definitiva sobre o fabuloso cinema negro americano. Uma colecção de ensaios que nos contam tudo quanto queríamos saber sobre filmes que nos marcaram para sempre. Laura, de Preminger. O Arrependido, de Tourneur. Pagos a Dobrar, de Wilder. Matar ou Não Matar, de Ray. O Desconhecido do Norte-Expresso, de Hitchcock. Gilda, de Charles Vidor. Os Assassinos, de Siodmak. A Dama de Xangai, de Welles. Quando a Cidade Dorme, de Houston. E tantos outros.
Etiquetas: Leituras
Gostei de ler
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (XIII)
Etiquetas: cidades
Maddie (bis)
Maddie
Domingo
Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».
Da Bíblia Sagrada
Etiquetas: Cristianismo, Religião
Sábado, Setembro 15, 2007
Vão ao dicionário
A defesa do sr. Scolari continua a dar cartas um pouco por todo o lado, incluindo aqui neste blogue. Respeito a opinião de quem acha que os actos do sr. Scolari não passaram de uma excitação púbere após um jogo quente. Mas é assim a vida, com diferenças de opinião e de pontos de vista.Para mim, a atitude inacreditável de um seleccionador de futebol, que leva ao peito o símbolo de Portugal e veste as nossas cores, é motivo para afastamento imediato do cargo que ocupa. Eu estou à vontade, porque critiquei desde o princípio as opções do seleccionador, contra tudo e contra todos, quando muitos aqui no blogue achavam o brasileiro o máximo. Viu-se o resultado: não ganhámos nada. Por isso, reforço o que tenho dito, não me interessa que o apuramento para o Europeu de 2008 pudesse ser posto em causa com a rescisão do contrato milionário com o técnico brasileiro (eu até acho que está em causa com a sua continuidade), mas os actos depois do Portugal-Sérvia não o habilitam a comandar jogadores portugueses, nem a envergar a nossa camisola. Pelo que fez em Alvalade, pelo que disse depois na conferência de imprensa e pelas desculpas de mau pagador que deu desde aí. Mesmo que o árbitro, Markus Merk, garanta que o seleccionador foi provocado. É-me indiferente, aquele tipo de comportamento é o fim da linha.
Já agora, registo que a única pessoa que teve bom senso foi Cavaco Silva, que ontem afirmou isto: "Um gesto lastimável, principalmente tendo presente que estava em causa a selecção das quinas". Esta declaração do Presidente da República diz tudo. E para quem não sabe o significado de "lastimável", recorro ao dicionário - "digno de lástima; deplorável; lamentável". Chega? Ou é preciso dizer mais alguma coisa?
Merkel
Lembro-lhe ainda o facto de Merkel ter passado pelo que passou na antiga RDA, o seu historial de resistência e a vida que teve, sobretudo passada na universidade (é física de formação). Essa vivência habilita-a fazer o que faz e a ser como é, como lembrou - e bem - o Le Monde há umas semanas num editorial muito interessante que lhe sugiro que leia. Depois conversamos. Acho que o engº Sócrates não dá lições de liberdade a ninguém, nem me parece muito habilitado a falar de Direitos Humanos, com a sua vida entre a Covilhã e São Bento. Merkel sabe do que fala. Viveu na pele.
Coisas boas deste sábado
- A entrevista de Dalai Lama ao Expresso ("A religião é um assunto individual, mas a ética diz respeito a todos") e a fotografia, em que os ângulos do corpo apontam para diferentes direcções e em grande plano surge um pé desproporcionado e surpreendente.
Grace
Grace Kelly morreu há 25 anos. E eu achava-a linda com aquele preppy look só ao alcance de alguns e de algumas. Provavelmente só Gwyneth Paltrow looks preppy now.
O melhor de Grace Kelly seria após ter encontrado Alfred Hitchcock. "Este grande fetichista de louras tornou-se o seu mentor e potenciou-lhe ao máximo na tela o glamour distinto, a sofisticação erótica e a elegância altiva em Chamada para a Morte, Janela Indiscreta (ambos de 1954) e Ladrão de Casaca (1956)." (DN)
Com ele fez esta cena encantadora:
Lisa: How's your leg?
Jeff: Hurts a little.
Lisa: Your stomach?
Jeff: Empty as a football.
Lisa: And your love life?
Jeff: Not too active.
Lisa: Anything else bothering you?
Jeff: Uh-huh, who are you?
Cinema Nostalgia (12)
Essa moda limitou-se afinal a substituir uns esterótipos por outros, bem menos estimulantes. A “mulher comum”, com uma absorvente carreira profissional e as preocupações de todas as mulheres, era personificada nos ecrãs por actrizes que mal nos fariam virar a cara num movimento de instintiva, irreflectida e patética admiração se as encontrássemos na rua. Actrizes cheias de talento mas desprovidas de glamour, como Diane Keaton, Mia Farrow, Sally Field, Meryl Streep. Actrizes que ocultavam os traços congénitos de beleza para surgirem na tela como epítomes da “classe trabalhadora” ou do radicalismo político, como Jane Fonda e Vanessa Redgrave. Actrizes que podiam ser iguais a qualquer mulher com quem nos cruzávamos num transporte público, como Karen Allen e Geneviève Bujold. Insuportáveis ruivas britânicas, como Samantha Eggar e Sarah Miles. Actrizes desprovidas de qualquer traço de beleza, como Karen Black, Liza Minnelli ou Shelley Duvall.
Acreditem: foram tempos pavorosos. Papei as estreias de todos os filmes de todas estas inenarráveis “mulheres comuns” e abominei a minha má sorte de espectador. Havia encanto no nariz de Barbra Streisand? Talvez não. Mas nessa era onde o romantismo havia sido praticamente varrido dos ecrãs por estar fora de moda até Barbra Streisand parecia esbanjar charme num filme ousadamente romântico como O Nosso Amor de Ontem (Sydney Pollack, 1973). Que, não por acaso, nos transportava aos anos 40.
Mero problema de geração, que me fazia olhar para as actrizes dos tempos dos meus pais e avós com um fascínio que só agora entendo devidamente. No período dos grandes estúdios, quando era uma “fábrica de sonhos” sem complexos de qualquer espécie, Hollywood mostrou ao mundo as melhores mulheres de sempre. Carole Lombard, Heddy Lamarr, Paulette Goddard, Olivia de Havilland, Ginger Rogers, Gene Tierney, Rita Hayworth, Ava Gardner, Ingrid Bergman, Joan Fontaine, Kim Novak, Audrey Hepburn, Cyd Charisse, Grace Kelly, Jane Russell, Alida Valli, Lauren Bacall, Shirley MacLaine, Jean Peters, Lee Remick, Marilyn Monroe. Que, não raras vezes, eram também excelentes actrizes – como podemos comprovar hoje melhor que nunca. Não admira que me tivesse tornado adepto fervoroso de filmes antigos: para ver “mulheres comuns” não era preciso ir ao cinema...
Foi com alívio que vi chegar a nova era. Demi Moore moldando barro n’ O Espírito do Amor. Michelle Pfeiffer subindo para um piano n’ Os Fabulosos Irmãos Baker. Meg Ryan a ser cortejada à moda antiga por Billy Crystal em Um Amor Inevitável. No topo dos cartazes passaram a figurar os nomes (e os rostos e os corpos) de Sharon Stone, Diane Lane, Nicole Kidman, Gwyneth Paltrow, Charlize Theron, Kate Winslet, Cameron Diaz, Salma Hayek, Catherine Zeta-Jones, Natalie Portman, Rachel Weisz. E – thank heaven for little girls – Scarlett Johansson. Tão belas como as deusas de outrora.
Às vezes interrogo-me o que será feito de Karen Black. E de Karen Allen. Mas, com toda a franqueza, quero lá saber...
Etiquetas: Cinema nostalgia
Postais blogosféricos
Etiquetas: postais blogosféricos
Voltou o tempo das vitórias morais
Etiquetas: povo que lavas no rio
Sexta-feira, Setembro 14, 2007
Ainda é sexta-feira?
Estava a ler um livro do Super Homem aos meus filhos quando eles gritaram: "Não é possível! Grande aldrabice!". Sorri, recostei-me e tentei recordar-me de como tinha corrido quando foi do Pai Natal. "- Como é que ele pode voar se acabou de receber uma carga de kriptonite?!? Grande aldrabice!". Afinal, os poderes do Super Homem não estavam em causa. A descrença no detalhe ainda reforçava mais a fé no mais estranho de tudo, que é a possibilidade de voar com uma capa e ter super-poderes.As coisas nos seus lugares
Inveterado emocional como sou, na quarta-feira deitei-me com um amargo de boca, incomodado com a tragicomédia que foi o desfecho do Portugal vs. Sérvia. Tudo correra mal, e o pior ainda era o humilhante comportamento do treinador. Admiro quem logo no dia seguinte friamente opinou, julgou e escreveu, enquanto eu fiquei literalmente amuado. Privilégio(?) de quem não é colunista ou jornalista.Etiquetas: Futebol, Quotidiano
Povo que lavas no rio
As televisões e as rádios abriram ontem os microfones às opiniões do "povo" a propósito do lamentável caso Scolari. E, como seria de esperar, logo o dislate andou à solta. Atingindo níveis raramente registados mesmo neste género de programas que dão púlpito nacional à conversa de taberna. Um dos "populares" com direito a antena chamava ontem a Scolari um "imigrante arrogante, agressivo e mentiroso". Outro foi ao ponto de dizer que o seleccionador, "como imigrante, devia deixar o nosso país por decisão do ministro dos Negócios Estrangeiros".Etiquetas: povo que lavas no rio
Quem sabe, sabe
É bom falar de livros
Etiquetas: Livros
Porque hoje é sexta-feira
Harry estava deitado ao lado de Brenda na borda da psicina, entontecido pelo calor e pela ponderação de todos estes quebra-cabeças e paradoxos. De súbito sente-se trespassado por uma flecha de desejo perverso: ver a sua mulher nua e desejá-la através dos olhos dos outros homens. Rolou por cima do seu estômago e colocou a boca junto ao ouvido de Brenda.
- Se tirares o teu top – sussurrou – compro-te aquele vestido que vimos em St Raphael." – David Lodge in Histórias de Verão Contos de Inverno
Quinta-feira, Setembro 13, 2007
Crítica construtiva
Limpeza de imagem
Duas nódoas numa noite só
Etiquetas: Jornalismo
Fechar a porta na cara
Uma simples questão de higiene mental
Não admira que cada vez mais pessoas virem costas à política – a esta política. É uma simples questão de higiene mental.
Etiquetas: Política
As portas de São Bento II
Bob Geldof, ao contrário de Dalai Lama, não traz melindres diplomáticos a S. Bento e é um famoso ícone do moralismo Pop, “we are the world” (de esterilidade garantida) que é muito caro à esquerda "moderna".
Etiquetas: Quotidiano
Gostei de ler
Do Dalai Lama a Mugabe. De Pinho Cardão, na Quarta República.
Dalai Lama? Quem é? Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Quem fala em nome do PSD? Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.
Uma campanha edificante. Do Pedro Sales, no Zero de Conduta.
11 de Setembro, queiramos ou não. Do Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.
Aniversário. Do Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.
Escolas e valores. Da Helena Garrido, no Visto da Economia.
Apenas comovido. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
De Scolari à madailização que nos envolve. De José Adelino Maltez, no Sobre o Tempo que Passa.
Futebol burguês. De José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro.
O descampado do Oriente. De Vital Moreira, na Causa Nossa.
Mania de ser do contra. Do António Figueira, no Cinco Dias.
Deve ser a isto que chamam pós-modernidade. Do Henrique Raposo, na Atlântico.
Momento Gina: vidas patéticas. Da Rita Barata Silvério, na Rititi.
As portas de São Bento
Etiquetas: Governo
Tertúlia literária (218)
- Não ando a gostar dele. Empata muito e convence cada vez menos.
- É como o Scolari. Os brasileiros são assim.
Etiquetas: tertúlias literárias
O major e o aprendiz
Vamos lá a ver. O Governo faz bem em querer dar oportunidades a quem não as tem. Faz bem em querer que o País tenha índices tecnológicos superiores. Faz bem em pensar que isso pode trazer uma repercussão positiva no estado caótico da Educação lusa. O que não faz bem é fazer campanha com isso. Sim, campanha. Ter um primeiro-ministro que diz que a coisa que lhe dá mais gozo hoje em dia é distribuir computadores aos sábados de manhã é para rir. Fazer com que mais dois ou três ministros passem pela mesma figura (inclusive os da Administração Interna e da Justiça, coisa que me custou a acreditar e tive que ver com os meus olhos na televisão) é a prova de que a campanha para as legislativas de 2009 está aí. Com material de propaganda que é fornecido com o apoio do Estado e de empresas privadas.
Se o Governo pretendia lançar programas deste tipo, que o fizesse, deixando claros os requisitos mínimos para quem queria candidatar-se a receber as benesses, depois cada professor e aluno ia buscar o seu computador onde bem entendesse. Não era o chefe do Executivo a distribuir benesses, em forma de um computador entregue em mão, com um beijinho e uma palmadinha nas costas para as televisões verem e gravarem. Isto é o populismo no seu estado mais puro.
Quarta-feira, Setembro 12, 2007
Má figura
Só para se ter a ideia do perfil da figura, acabo de ouvir no carro a "flash-interview" da RTP (via TSF). E o que oiço? O senhor Scolari a dizer isto: "o jogador (sérvio) que diga se lhe toquei num único cabelinho". E a dúvida passa a ser esta. Se tocou ou não. Eu já vi as imagens e não tocou ou não lhe acertou como pretendia, mas isso é indiferente. Avançou para ele tipo "jagunço", com a intenção de lhe dar um murro. Se os jogadores perdem a cabeça, ele não pode. Devia ser um pedagogo, uma referência. E não é. É só mais um da tribo.
Como Mourinho e Queiroz estão impedidos de voltar agora a Portugal, como Paulo Bento está lindamente onde está, acho que a solução imediata seria Manuel José vir do Egipto para tomar conta da loja, fazendo sair a outra "múmia"...
Dalai, dalai
Tenho muita simpatia pelos homens que vestem de laranja em todas as estações com uma manta vermelha pelos ombros. Também tenho simpatia pelos prémios Nobel da Paz, mas menos, sobretudo desde que Ramos Horta foi vencedor da categoria. O que eu não suporto é que uma religião tenha nos seus 10 mandamentos a proibição de falar de futilidades! Isso é que não, meus senhores!!! Aproveito o ensejo para duas declararaçõezinhas fúteis:Hipocrisia política
O Dalai Lama vem a Portugal. O Governo, pela boca do ministro dos Negócios Estrangeiros, já anunciou que não o receberá: Luís Amado tem medo dos protestos de Pequim, indiferente ao facto de o líder espiritual tibetano ser uma das mais prestigiadas personalidades do nosso tempo. O Presidente da República vai pelo mesmo caminho: só espero que não acabe por encontrar-se envergonhadamente com o Dalai Lama no interior do Museu de Arte Antiga, como aconteceu com o seu antecessor, Jorge Sampaio. Devia haver limites para a hipocrisia política. Já por bandas do PCP, nada de novo: os comunistas, sempre prontos a abraçar os mais repugnantes ditadores do planeta, como os camaradas norte-coreanos, vêm agora avisar tudo e todos contra o Dalai Lama. Vendo bem, é o melhor elogio que o líder tibetano poderia receber...Etiquetas: Política
Os tugas (32)
Etiquetas: tugas
Então... feliz ano novo!
Talvez seja uma ilusão, mas o final do Verão sempre me pareceu demasiado abrupto: no espaço de uma ou duas semanas, os longos e radiosos dias quentes escurecem e minguam vertiginosamente, trazendo consigo uma suave nostalgia, quando não uma recôndita angústia. De repente sentimos saudades do Verão que passou... ainda na semana passada, num fim de tarde na Adraga, com chinelos e poeira, um petisco e uma cerveja, aquela eufórica sensação de liberdade e o coração tão aceso. Confesso que, apesar de trabalhar durante grande parte do Verão, vivo-o com o jovial espírito de “férias grandes” de outrora. São os jantares tardios na varanda, a cidade utopicamente deserta, as coloridas esplanadas para beber um simples café ou as longas saídas de fim-de-semana.E de repente a rotina doméstica altera-se com a preparação do retorno às aulas. Umas "cópias" e umas leituras forçadas vêm cortar a indolência das tardes de Setembro à pequenota. Há uns amuos e os sonos ainda trocados. Os mais velhos resistem como podem ao fim da época balnear, e numa manhã destas finalmente lá foram, contrafeitos, tomar nota dos horários.
Hoje, a trovoada e uma impiedosa chuva matinal aqui em Lisboa desfizeram definitivamente qualquer veleidade: apesar da praia estar logo ali atrás, começou de vez o ano lectivo, uma nova época de trabalho, aventuras e novas oportunidades. Para todos aproveitarmos com renovadas forças. Afinal, o meu verdadeiro ano novo ainda começa sempre no fim do Verão.
Etiquetas: Coisas da vida, Crónicas
Terça-feira, Setembro 11, 2007
Na era do digital...
... as fotografias não ficam amareladas. Não há manchas nem riscos a criar distância entre nós e as imagens. O tempo não passa. Nada mais acontece, nem antes nem depois. Fica só o momento que mostra o impossível.Etiquetas: Eu vi o fim do mundo
A irreprimível nostalgia do estalinismo
A pretexto do 90º aniversário da Revolução de Outubro - uma das mais dramáticas efemérides do século XX - o PCP usou a recente Festa do Avante! para fazer a glorificação de Estaline, acolhendo as mentiras e as mistificações da propaganda oficial do Kremlin dessa época. A revista da festa comunista reproduz quatro páginas de fotos soviéticas que mostram uma população trabalhadora alegre e feliz em plena ditadura estalinista.Postais blogosféricos
Etiquetas: postais blogosféricos
A Coca-Cola é vermelha, pá!
A revista da Festa do Avante!, repito, está tecnicamente bem feita. E foi bem gerida comercialmente: os camaradas nestas coisas não perdoam. Quarenta e uma das suas 112 páginas são de publicidade - na grande maioria referente a municípios geridos pelo PCP (a Câmara de Setúbal, certamente por falta de verba, só adquiriu um quarto de página, enquanto as de Almada e de Arraiolos reservaram uma página e a do Seixal ficou com a contracapa). Mas o facto mais relevante foi a página inteira de anúncio à Coca-Cola, o que só comprova que "todo o mundo é composto de mudança". A "água suja do imperialismo" andará agora menos turva?Etiquetas: Política-PCP
9/11
INTO THE FIRE
The sky was falling and streaked with blood
I heard you calling me, then you disappeared into the dust
Up the stairs, into the fire
Up the stairs, into the fire
I need your kiss, but love and duty called you someplace higher
Somewhere up the stairs, into the fire
May your strength give us strength
May your faith give us faith
May your hope give us hope
May your love give us love
(...)
Bruce Springsteen
9/11 Tribute Video
O "fascismo" vem aí
Os responsáveis pela Festa do Avante! - e desde logo o seu director, José Casanova - editaram uma revista (bem feita, diga-se, e cheia de publicidade) com um editorial violentíssimo contra o Governo.Etiquetas: Política-PCP
Atracção fatal
Desde Maio que prevalece vistoso e altaneiro o cartaz da Juventude Socialista a propagandear a tolerância aos “costumes” sexuais "alternativos". Na rotunda do Marquês o provocador painel publicitário apresenta duas joviais carinhas larocas, num pleno e generoso ósculo facial. As moças da foto, provavelmente de um banco de imagens de refugo, são um mimo, com beicinhos carnudos e insinuantes, e sedutores olhinhos de carneiro-mal-morto, como os das nossas míticas freguesas das Sextas-feiras. Deve ser assim que os jovens publicitários socialistas pretendem deleitar o empedernido macho lusitano, excitando a sua tolerância e compaixão. O apelo aos seus susceptíveis sentidos certamente resulta à Sexta, como em qualquer outro dia. A malta assim tolera.Etiquetas: Bocas, Fracturas expostas
Segunda-feira, Setembro 10, 2007
Mudar ou não mudar: eis a questão
Que literatura é capaz de mudar a nossa vida? Vai aceso o debate na blogosfera (por exemplo aqui, aqui, aqui, aqui e também aqui), a partir da excelente proposta do Manuel Domingos para que trocássemos umas ideias sobre o assunto. É matéria que dá pano para mangas: vivendo nós na civilização do Livro, nem poderia ser de outra forma. A simples frase “Não matarás”, impressa na Bíblia, mudou milhões de vidas.Mas atenção: aqui acaba por discutir-se muito mais a vida do que a literatura. Porque, se virmos bem, os livros que foram fundamentais para a nossa transformação interior raras vezes coincidem com aqueles que o critério académico – incluindo o da Academia de Estocolmo – consagra como decisivos. Conheço, por exemplo, muita gente que decidiu cursar Direito por influência do bom desempenho de Perry Mason como advogado de ficção – e ninguém incluirá decerto Erle Stanley Gardner entre os maiores escritores do século XX. Gostar e admirar raras vezes coincidem. Sei bem do que falo: gosto de toda a obra de Ernest Hemingway, incluindo vários títulos que estou longe de admirar. Gosto de tudo quanto me transmite George Orwell, ainda que possa estar longe de admirar a sua escrita. Gosto de todo o Graham Greene, talvez o autor que mais me ensinou como se deve escrever, embora não partilhe o essencial das suas ideias. Basta a menção dos apelidos Kafka, Borges ou Malraux para me fazer reviver o prazer da leitura – e no entanto nenhum destes escritores ganhou o Nobel, o que não altera um milímetro a minha devoção de leitor por eles. Já o consagradíssimo Thomas Mann, pelo contrário, me faz bocejar de tédio perante o pedantismo da sua escrita, a que nunca aderi, por melhor que entenda a importância que o cânone oficial lhe atribui como romancista de “ideias”. Vale a pena lê-lo por “dever” intelectual? Certamente que sim. Retiraremos daí algum prazer? Essa é uma questão muito diferente.
São insondáveis os caminhos que nos transportam nas mais diversas direcções literárias. No seu leito de morte, Lenine pedia que lhe lessem contos de Jack London: o grande autor americano teria mudado mais a vida do fundador da União Soviética do que alguém fora capaz de imaginar. Tudo seria bem diferente se a literatura nada tivesse a ver com a vida. Mas felizmente que tem. E nenhum de nós gostaria que não tivesse.
Etiquetas: Leituras
Gostei de ler
Tenzin Gyatso. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (VII)
Etiquetas: cidades
Os tugas (31)
Naquela tarde, Maria das Dores saiu de casa com algum receio. Mas o receio dissipou-se mal chegou à carruagem do metro. Sentadas à sua frente, duas volumosas mulheres – mais ou menos da sua idade, a caminho acelerado dos 50 – pareciam tão ousadas como ela.Etiquetas: tugas
O pulo dos Lobos
Etiquetas: Fracturas expostas
Cinema Nostalgia (11)
A Oeste Nada de Novo
Embora seja um belíssimo filme, A Oeste Nada de Novo, de Lewis Milestone, é uma daquelas obras sem sorte, um dos clássicos perdidos.
Talvez seja o filme mais escuro, quase negro, que jamais vi. Está repleto de sombras, chuva, noite. Os cinzentos são carregados. É um filme sem esperança, desolado e amargo. Devia ter sido um belo aviso, mas não passou de um grito inútil.
Nesse ano, 1930, Howard Hawks realizou um dos filmes da minha juventude (talvez mesmo da minha infância), A Patrulha da Alvorada. Já o escrevi noutra crónica, mas essas imagens ainda hoje perduram na minha memória como algo de inimitável, de extraordinariamente poderoso. Só vi esse filme uma vez. Não se tratava da glorificação da guerra, bem pelo contrário, ali se exibia toda a crueza e desperdício, mas a película de Hawks não perdia de vista certas emoções que ocupam a motivação dos guerreiros, a tranquila coragem, por exemplo, uma espécie de vertigem a que alguns chamam heroísmo, mas que também pode ser definido como inelutável destino.
A Oeste Nada de Novo era talvez mais cru e ganhou o óscar desse ano. Tratava-se de uma película radicalmente pacifista, que não fazia concessões à fantasia, pelo seu realismo bruto e simples, hoje tão interessante.
No entanto, apesar da consagração, o filme de Milestone estava destinado a uma certa maldição. Era um grito dado fora de tempo, claro; chegavam os anos de chumbo e o pacifismo não passava de uma ingenuidade.
Tem qualquer coisa de ingénuo, este filme. Começa com a espantosa ingenuidade dos rapazes que vão para a guerra salvar a pátria em perigo; nos primeiros combates, sentimos a incrível ingenuidade do treino militar, que não preparou os recrutas para a verdade do terreno. Morre-se no caos do combate, na confusão nocturna do campo de batalha.
A Oeste Nada de Novo impressionou-me pela sua autenticidade. Baseado num romance então muito popular de um escritor alemão, o filme americano mostrava a passagem pelo inferno da primeira guerra mundial de quatro soldados alemães. Este era, pois, um objecto estranho: um filme em que os heróis eram soldados inimigos, afinal exactamente como "nós".
O filme levou-me a ler o livro de Erich Maria Remarque com o mesmo título, sem dúvida uma das obras-primas da literatura do século XX. Este é um pequeno romance de grande pureza, reduzido ao essencial e sem fogo-de-artifício técnico. Assim despido, tem a força de um exército.
Vendo à distância, a versão de cinema não atinge as mesmas altitudes, pois não se resiste à tentação sentimental da época. Milestone era um técnico competente (um judeu russo, imigrante, chamado Milstein) e manteve-se o mais próximo possível da narrativa original, mas há passagens algo lamechas, com excessos ainda típicos do cinema mudo, que se extinguira poucos anos antes.
Estes defeitos não explicam a forma como o filme também se apagou. Quatro anos depois, Hitler estava no poder na Alemanha e, uma década depois, o mundo estava de novo em guerra. O actor principal, Lew Ayres (um curioso nome português), tentou ser um pacifista na segunda guerra e condenou a carreira, perdendo a sua oportunidade. Lew Ayres tem uma história interessantíssima, com altos e baixos que fazem deste, de facto, o seu único filme importante. Ayres foi casado com Ginger Rogers, que surge neste blogue, alguns posts mais abaixo.
Enfim, A Oeste Nada de Novo motivou um remake, em 1979, uma película sem qualquer interesse, que se limita a actualizar as imagens da versão de 1930.
Claro, é preciso ver a pobreza do segundo para se perceber a força do primeiro. Não existe a mesma consciência do peso das sombras e das trevas do inferno. A segunda versão é um banal filme de guerra, com personagens fardadas. O primeiro é um filme contra todas as guerras, um panfleto que ninguém soube ler.
Etiquetas: Cinema, Cinema nostalgia, crónica
Domingo, Setembro 09, 2007
As emoções básicas (crónica) XII
Os derrotados da história
No meu habitual passeio pela blogosfera, deparei com uma estranha discussão entre dois indivíduos. No seu Arrastão, Daniel Oliveira, comentava um comentário de Blasfémias nos tradicionais termos contundentes. Fui ler o que os liberais tinham escrito e deparei com um texto de JCD sobre a Festa do Avante, onde teria sido celebrado o 90º aniversário da Revolução de Outubro, a da Rússia de 1917. "É angustiante ver toda aquela gente, na Festa do Avante, comemorar os 90 anos de uma das maiores tragédias da humanidade", escrevia JCD. Seguia-se um parágrafo mais explicativo da "tragédia", com o seu rol de mortos e, à frente, a seguinte frase, bastante retórica, que indignara Daniel Oliveira: "não seria muito diferente celebrar a peste negra, o holocausto, o último tsunami ou a SIDA".
O autor de Arrastão respondia com uma tirada dramática: "o grande problema dos que se julgam no lugar certo da história, sejam eles comunistas ou liberais, é que rapidamente se deixam de dar ao trabalho de pensar. Não é que não consigam, apenas ninguém lhes exige esse esforço quando falam dos derrotados".
JCD ficou-se a rir e eu fiquei fascinado com esta última frase. Para Daniel Oliveira, as pessoas que celebram a revolução de Outubro, o leninismo, são os derrotados da história. Daniel podia ter demolido a fraqueza das comparações de JCD como quem acalma leões, mas saiu-lhe assim. É que não faz sentido comparar Revolução de Outubro com peste negra. A coisa ainda passava se fosse com a revolução francesa. Podia ter escrito: "não seria muito diferente do que celebrar a revolução francesa", mas não o fez, apesar da comparação ser possível, com o rol de mortos, de injustiças e guerra civil, apesar de tudo numa escala mais modesta. Será que JCD se angustia todos os 14 de Julho?
Digo isto por estar fascinado com o uso da palavra "angustiante" por JCD, na primeira frase do seu post: "É angustiante ver toda aquela gente a comemorar os 90 anos...". As religiões mataram incontáveis vítimas e todos os dias são celebradas em cerimónias públicas. Acontece em todo o mundo, e JCD deve andar muito deprimido. Um pequeno exemplo: os cristãos falharam de forma clamorosa na protecção dos judeus europeus, nos anos 30 e 40; o Papa até pediu anteontem desculpa, embora sem se colocar no lado dos derrotados da história; o cristianismo cometeu outros crimes, da Inquisição à conversão forçada de milhões de pessoas; o mesmo se pode dizer de outras religiões; mas talvez isto tenha mais a ver com pessoas do que com ideologias, embora eu não esteja certo de que JCD concorde comigo.
A revolução de Outubro não foi exactamente uma peste negra, ou um tsunami, pois não teve nada de catástrofe natural. Foi uma catástrofe provocada pelo Homem, por homens de uma determinada época, com as motivações do seu tempo. É o que acontece na construção de qualquer beco sem saída. Ao longo da história, houve sociedades, civilizações inteiras, que se suicidaram. As provas são mais ténues, mas sabe-se hoje que os Maias viviam em constante conflito interno, com devastações regulares de cidades-Estado rivais. Alguns arqueólogos pensam que o colapso desta civilização se deve a algum azar, mas sobretudo a problemas ecológicos graves, devido ao excesso de uso de recursos escassos. De qualquer forma, tratava-se de um cultura violenta, com uma religião que praticava sacrifícios humanos.
Será que JCD se teria angustiado, ao ver-me a escalar pirâmides maias, boquiaberto com a sua magnificência?
Neste género de texto, os factos são como as cerejas e, de súbito, lembrei-me de um pequeno crime da minha autoria. (Não, não vos vou contar uma história policial passada nas ruínas de uma cidade maia)...
Em Chichen Itzá, decidi (mal) saltar um muro que me pareceu sólido, mas aquilo era tão frágil que, com o (enorme) peso do meu corpo, se soltou uma pedra. Para meu horror, vi a ancestral relíquia rolar pela relva. Em pânico, peguei naquele frágil testemunho do passado (que pesava um horror) e tentei colocá-lo de novo no muro, mas a construção ainda era bastante alta e não tive força. Estava calor, confesso que fiquei enervado. Olhei para um lado e outro e (cobarde) deixei a pedra onde ela tinha caído, a dois metros do sítio onde mil anos a tinham deixado, até ao meu inqualificável acto de vandalismo.
Ajudei, pois, a arruinar uma pérola do património mundial, como um qualquer turista americano.
Ah! Felizmente, os guardas eram todos maias, portanto, derrotados da história.
Na vergonhosa fuga ainda vi pessoas a celebrarem uma espécie de religião inventada, na escadaria da pirâmide principal, vestidas com roupas pós-modernas. A cerimónia incluía umas rezas, murmuradas de frente para o sol, que desmaiava no final de tarde. Os celebrantes estavam de braços abertos, ar compenetrado de quem fala com deuses apenas adormecidos.
Os pós-modernos ignoraram-me tanto como os guardas. Eu sentia a culpa de ter transformado em ruínas uma sábia cultura antiga, mas confiei no lusco-fusco. O céu estava cheio de nuvens coloridas e a grande pirâmide parecia feita de ouro, banhada pela luz exuberante, que se retirava no horizonte. Foi uma visão breve. Depois, a montanha de pedra tombou na escuridão da noite...
Etiquetas: crónica, emoções básicas, tristeza
O cisco no olho... do vizinho!
Curioso depararmo-nos com o inefável Daniel Oliveira a julgar “os que se julgam no lugar certo da história”. Claro que a condenação se refere aos frívolos críticos dos métodos bolchevistas e à revolução de Outubro, não se tratando de uma iluminada declaração autocrítica. Dentro da sua barricada é de facto difícil a apreciação da história e do mundo, Daniel.
Etiquetas: A luta continua, Ler os outros
As mulheres na pintura (Via Arrastão)
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (VI)
Etiquetas: cidades
Domingo
Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: ‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».
Da Bíblia Sagrada
Etiquetas: Cristianismo, Religião
Sábado, Setembro 08, 2007
Cinema Nostalgia (10)
Por maioria de razão, a minha memória do cinema em parte também é feita assim: de filmes sem nome, rostos desfocados, frases lapidares, passos de dança, trechos musicais. Uma espécie de patchwork onde tudo acaba por se conjugar.
A maioria dessas memórias difusas é constituída, evidentemente, pelos filmes que vi muito precocemente na televisão. Enterrada no sofá, desfiei muitas tardes de domingo a ver musicais, filmes de cóbois e de gangsters dos anos 30/ 40, a época de ouro de Hollywood.
Muito antes de aprender a usar a palavra western, já conhecia John Wayne de ginjeira. E embora não soubesse explicar, se me perguntassem, o que era um filme negro, já era cliente assídua das histórias protagonizdas por Humphrey Bogart e Edward G. Robinson.
Esses primeiros passos que damos como consumidores de filmes são sempre vacilantes. Às vezes aborreciam-me os intermezzos musicais intermináveis das fitas do Fred Astaire, tanto que chegava a adormecer. Outras vezes ficava, fascinada, a vê-lo flutuar com a Ginger Rogers nos braços e a perguntar-me se afinal seria legítimo eu estar a gostar tanto de uma coisa tão demodée.
Não raramente, os meus pais contribuíam, ainda mais, para estas minhas inquietações quando se punham a comentar, com ar cúmplice, como aquelas estrelas eram lindas “no seu tempo” e tinham envelhecido tanto com o passar dos anos. Esses desabafos recorrentes dividiam-me: faria sentido eu criar empatia com aquele friso de múmias, algumas já falecidas, outras retiradas há anos do cinema?
Do alto dos meus nove, dez anos passava-os então em revista. Roupas, penteados, atitudes, tudo fora de moda! Por um lado aborreciam-me aquelas minhas simpatias tão anacrónicas, mas o que fazer de tantas horas de intimidade partilhadas domingo após domingo naquela fase da minha vida em que não me acontecia absolutamente nada que se comparasse às suas aventuras na tela?
“A Dama de Xangai”, “Do Céu Caiu uma Estrela”, “Relíquia Macabra”, “Ter ou Não Ter”, “Rio Bravo”, “A Roda da Fortuna” e “Ritmo Louco” foram algumas das obras que passaram pelos meus olhos distraídos de miúda. O que terei retido de Astaire, de Rita Hayworth, de Boogie e de James Stewart? E do génio de Frank Capra, Orson Welles, John Huston, Howard Hawks, Vincente Minnelli e George Stevens, os mestres que os dirigiram? Coisas de nada (a minha memória é muito imprecisa quanto a esta matéria). Porém suficientes para ter ficado com um vício. Dos bons.
Etiquetas: Cinema nostalgia
Sexta-feira, Setembro 07, 2007
Televisão em queda
Os três principais canais televisivos espanhóis perdem audiência em simultâneo: baixaram 2,4 por cento no último ano. A Telecinco está agora com 20,7 por cento (tinha 21,4 por cento em Junho de 2006), a Antena 3 baixa para 17,4 por cento (tinha 18,2 por cento há um ano) e a TVE-1 queda-se nos 16,3 por cento (tinha 17,2 por cento). Conclusão: em Espanha, tal como em Portugal, a programação medíocre e a informação anódina afugentam os espectadores dos ecrãs, em números crescentes – e tão maior é a fuga quanto aumenta o grau de exigência do público, o que por sua vez afasta a publicidade de produtos topo de gama. Não por acaso, os canais temáticos espanhóis registam uma acentuada subida de audiência: passaram de 8,3 por cento para 11,2 por cento no último ano. Fica o aviso aos programadores portugueses: apostar mais no mesmo é caminhar para o desastre.Etiquetas: TV
Já sabiam?
Um círculo cada vez mais fechado
Etiquetas: TV
Última hora
Onde está Bin Laden... e muitos outros
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (V)
Etiquetas: cidades
É obra
Só para vos dizer que este vosso bloguezito já ultrapassou UM MILHÃO de page views em ano e meio. Nada mau, hein?
Jantar II
«Conversação mundana»
"- Parece que o senhor, decididamente, prefere as criadas!
- Que quer, senhor? São mais frescas!"
Puskine, A Dama de Espadas
Etiquetas: Fracturas expostas
Porque hoje é sexta-feira
Jantar
Partido Transgénico
Os episódios da campanha das directas no PSD dão ideia que cada candidato olhou para o partido e declarou "Se não fores meu, não serás de mais ninguém". Seja qual for o vencedor, espera-se que o resultado não seja um partido transgénico: sem sementes, intolerante a outras formas de vida, mas a alimentar o ego de muita gente. Quinta-feira, Setembro 06, 2007
Um desafio
Está ao rubro o campeonato de futebol virtual no inquérito aqui ao lado. Vale um voto por dia, por cada IP. Já “entraram” mais de 428 votos na contenda. O Sporting segue desde o inicio à frente, destacado do Porto e com uns votozitos a mais do que os lampiões. Assim rés-vés. Coisa aliás difícil de entender, sabendo nós que eles são milhões e milhões, uma coisa assim colossal. É sempre assim: ao fim e ao cabo, na prática não se nota nada...A não ser que votem diariamente, e em força! Fácil, não é?
Etiquetas: Futebol
O amante de cinema pirata
Etiquetas: Política - CDS
Caras ou coroa
A propósito da crónica de hoje do Pedro Lomba "O país nos talões multibanco", um post que já escrevi há algum tempo: Curiosity killed the cat
Quem vê caras, não vê saldos de multibanco. Foi isso que pude comprovar com o talãozinho que aquele cavalheiro deixou descuidadamente na máquina após ter levantado... dez euros. Garanto que nunca tinha visto um talão com tantos números. Antes de chamar o senhor, não consegui resistir. Duas Avé Marias e três Pais Nossos.
Missionária da Caridade
(...) Eis que por detrás de anos de aparente tranquilidade surge a notícia de uma travessia sofridíssima face ao apelo de Deus para fundar as Missionárias da Caridade, na fidelidade intocável a essa vocação e na depuração total de uma noite começada nos anos 50 e que só terminaria a 5 de Setembro de 1997.
Não poucos cristãos, ligeiros na fé, reduzem esta a um sentimento que certifica a existência de Deus, ficando assim o Senhor refém das emoções de cada um. Mais sentimento, mais Deus. Mais sensação, mais certeza. Mais emoção, mais fé. Portanto, mais eu ‘contente’ mais Deus ‘contido’ em mim (donde, alguma razão teriam os que acusam os cristãos de serem gente que confunde a sua transpiração emocional com uma entidade pessoal a que chamam Deus). Como é óbvio, quem assim pensa e vive não deixará de encontrar motivos de desalento nas dúvidas da Madre Teresa.
Enganam-se os que sentem que Deus salva o mundo com bons sentimentos, borbulhas gasosas e outras sensações agradáveis. (...)
Ler tudo aqui.
Etiquetas: Ler os outros
A ternura dos quarenta
Era inevitável enfrentar o problema. Desde que deixei de fumar há quase quatro anos, num também histórico 1º de Dezembro, iniciei um lento processo de expansão adiposa. Esse foi um duro período de provação e de alguma incontinência emocional, confesso. Com a tolerância à frustração nos mínimos dos mínimos, recorrentemente descompunha meio mundo (decididamente unido para me tramar), quase me divorciava e perdia o emprego. No início desse tempo de trevas, engordava só de olhar para os bolos na montra da pastelaria ou de ler a ementa do restaurante. Prescindira do prazer de fumar e chegara à plenitude dos “quarentas”. Simplesmente continuei jovialmente a gostar de Alheiras fritas, ou da bela Feijoada com pãozinho para molhar... sem esquecer uns deliciosos Ovos Moles ou um Suspiro de vez em quando. Não resistia a uma Fartura frita na feira ou a um belo Bacalhau à Braz ensopado em azeite lá da terra (nem sei qual, que eu sou de Lisboa). Ainda olhava com desprezo para todos os subprodutos light, "zero", magro, saladas e quejandos. Seria capaz de me inspirar nisso para escrever a mais mordaz crónica sobre a proliferação gastronómica para dondocas, anorécticas e metrossexuais. "Pela boca morre o peixe", e eu às vezes também me lixo.Até há pouco tempo, o meu organismo sempre queimava desprendidamente a mais vasta gama de gorduras e guloseimas. Mas esse tempo lá se foi, fui inchando lentamente até começar a ficar com a roupa mais justa, apertar mal o casaco e o botão do colarinho. Estes foram os emergentes e dolorosos alertas. Depois de deixar de fumar, chegara a hora de deixar de comer.
Assim, há uns meses iniciei um exigente regime alimentar, tudo como mandam as regras. Primeiro, comecei por engolir o orgulho, o que suponho é do mais dietético que há; para logo de seguida me tornar freguês daqueles absurdos restaurantes de comida dita “saudável”. Até começar a encher o carrinho do supermercado com comida “a fingir” cheia de coraçõezinhos estilizados e silhuetas femininas na embalagem. Aqui nas Amoreiras, com total confiança na minha masculinidade, hoje circulo com surpreendente à vontade no meio das mais esbeltas ou escanzeladas figuras femininas. Todas elas fãs de queijos frescos e daquelas saladas cheias de nada e umas raspas de noz moscada. Agora também bebo aqueles sumos e sopas, mistelas indizíveis, a saber a pouco ou coisa nenhuma. Tudo isto para almoçar e ficar esganado de fome. Aliás é muito fácil comer poucas bolachas quando estas sabem a casca de árvore. E depois, já me oriento no supermercado no meio daquelas prateleiras cheias de comida Zen, "zeros" e lights, manteiga magra (!)... ou ainda aquelas infusões de ervas e águas amargosas, livres de calorias (!) mas com fibras e a bela carnitina... a fome acessível à endinheirada freguesia!
Ao fim-de-semana, com mais tempo, uma Dourada grelhada é que marcha mesmo bem... e depois p’rali fico, oprimido, a salivar pelos Bitoques dos miúdos e a ver a minha mulher feliz (mas culpada, eu sei!) a comer um delicioso Bolo de Claras.
Agora, estou quase a atingir o meu peso ideal, estou quase a acabar com o tormento, esta louca cruzada, de que me rio para não chorar. E sinceramente acho que vou voltar a comer aquilo que me apetecer. E que, com um pouco mais de ginástica, até vou controlar as coisas!
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Quarta-feira, Setembro 05, 2007
O olho vigilante da censura
É nesse mundo asséptico que pretendemos viver? Eu não quero.
Postais blogosféricos
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O quinto idioma da Península Ibérica
O português acaba de ser despromovido a "quinto idioma da Península" (após o castelhano, o catalão, o galego e o basco) por D. Pilar del Rio, consorte de José Saramago e recém-nomeada presidente (ela faz questão de ser tratada por "presidenta") da Fundação que leva o nome do marido. Numa entrevista concedida à jornalista Isabel Lopes, do Expresso, D. Pilar falou sempre "num castelhano cerrado": nem o convívio de 21 anos com Saramago a tornou praticante deste "quinto idioma". Mas ainda bem que o idioma existe: sem português não teria havido Nobel nem haveria fundação nem tanta projecção mediática sobre esta mulher que se gaba de ter oferecido "um continente" ao autor de Levantado do Chão e de ter chegado ao comunismo "pela caridade do catolicismo". Sempre "num castelhano cerrado". Por supuesto...Tertúlia literária (217)
Etiquetas: tertúlias literárias
As Emoções Básicas (crónica) XI
Os Livros e a vida
Segue na blogosfera um interessantíssimo debate sobre literatura, baseado numa corrente onde cada bloguer elabora uma lista de livros que não mudaram a sua vida. Peço a vossa atenção, não apenas para a lista do Pedro Correia, um pouco mais abaixo neste blogue, mas para os interessantíssimos textos que Francisco José Viegas, Carla Quevedo e Luís Mourão, entre outros, já publicaram sobre o tema.
Esta crónica não surge como comentário à iniciativa, mas a diversidade das listas e, sobretudo, a sua pequenez, surpreendeu-me e suscita esta observação:
No início do século XX, os europeus burgueses e cultos liam todos mais ou menos as mesmas coisas. Se fossem ricos, teriam uma excelente biblioteca, com 6 ou 7 mil volumes, incluindo clássicos romanos e gregos, romance francês e russo, muitos autores alemães, italianos e ingleses. Uma boa biblioteca teria poesia, pequena novela, o essencial da literatura dos respectivos países; os nomes seriam quase sempre idênticos. Poderíamos viajar por toda a Europa civilizada e as bibliotecas seriam parecidas, à excepção da parte de autores nacionais.
Isto, claro, já não é assim. As pessoas cultas lêem livros diferentes. Suponho que a maior razão para a diversidade tenha a ver com a quantidade de livros que a civilização contemporânea produz. Cito de cor, mas havia uma notícia recente sobre alguém que se deu ao trabalho de fazer as contas: este ano, serão editados tantos livros como na década de 80, um número idêntico ao do século XIX, a mesma quantidade que foi produzida entre o ano 1000 e o ano 1700.
O fenómeno da aceleração não é exclusivo da literatura, aplica-se a todas as áreas do pensamento. Há milhões de cientistas no mundo e certamente milhares a estudarem ao mesmo tempo os mesmos detalhes de especialidades absolutamente incompreensíveis para a restante humanidade.
Na arte, acho que este fenómeno produz uma sensação de que ninguém é verdadeiramente culto. É impossível ler tudo. Não há tempo suficiente. Somos massacrados com imagens, espectáculos, cultura popular, banalidades. Dispersamo-nos em jogos, trabalhos complexos, múltiplas actividades.
Por isso, qualquer cânone literário sugerido terá sempre importantes lacunas, pois também os clássicos aceleram: há mais nomes, mais obras imortais.
Existe outro problema: nas esponjas em que se transformaram os nossos pobres cérebros, não há tempo para absorver as culminações da arte ocidental. Uma pessoa que tenha ouvido menos de cinco vezes a Paixão Segundo São Mateus compreende verdadeiramente a sua profundidade? E Guerra e Paz, quantas vezes é preciso ler?
No fundo, quero dizer que tudo se tornou um pouco arbitrário; e o nosso gosto, uma defesa contra a enxurrada de estímulos, funciona como um cone que está à nossa frente e nos impede de procurar outras sensações. Não há tempo para explorar novas propostas, prometemos para outra ocasião, adiamos.
Por vezes, temos sorte, encontramos por acidente uma obra de arte que nos encanta.
Digo isto por ter chegado de férias com o papo cheio. Tive a sorte de ver uma exposição de gravuras de Francisco Goya.
Eram demasiadas, claro, e tinha pouco tempo para as ver. Memorizei o possível, observei atentamente cada gravura, percorri as salas com disciplina, tentando esvaziar a cabeça de outras questões, concentrado naquilo que via.
E, passadas umas semanas, sinto que o essencial de Goya me escapou, que as mensagens do autor estão perdidas algures na minha memória incompetente e traiçoeira, na minha cultura cada vez mais incompleta.
Como admiro aqueles cavalheiros antigos que podiam dissertar com os amigos sobre as órbitas mais altas do seu mundo intelectual, bebendo o seu brandy enquanto jogavam xadrez junto a desempoeiradas e gigantescas bibliotecas. Era um universo previsível e sensato, onde o tempo valia. Que inveja! Eu, contemporânea barata tonta, ando a saltitar de sensação em sensação, num nevoeiro de drogado. Para mim, o tempo cavalga e corre, literalmente.
ilustração: pintura de Jan Vermeulen, séc. XVII
Etiquetas: Crónicas, emoções básicas, surpresa
Terça-feira, Setembro 04, 2007
Código de Processo Penal (2)
- Tenho muito gosto nisso, sim senhor. Não ponha é aquela parte do saco azul, que soa mal. Diga antes que é uma doação para fins de beneficência.
- Mas eu não posso fazer isso...
- Qual é o problema? Fique descansado, que não o vou processar por me ter citado mal. Já se me citar bem...
Código de Processo Penal (1)

Momentos em tempo real
Hoje, no Riverview Terrace, usando o Corta-Fitas como janela.* Nada melhor que um banco imaginário em Manhattan a ver o pôr do sol nas sombras da ponte.
All about M.
É inútil e uma perda de tempo. Ao perguntarmos a alguns homens, quem é M, por exemplo, é escusado pensar que obtemos uma resposta. Quanto muito cerca de meia dúzia de palavras como "trabalha numa empresa mas não sei qual". Olha que novidade, que excesso de informação, ou seja, nada de relevante. Dito de outra forma, não é isso que se quer ouvir. Criaturas menos parcas com as palavras poderão eventualmente referir-se à idade, uma coisa vaga, no género "mais nova que tu". Desconfio que seja alguma estratégia para desmobilizar.Ora se perguntarmos a algumas mulheres quem é M, não há quaisquer manobras dilatórias, digamos assim: " A M? Foi minha colega na Faculdade, uma bronca, praticamente analfabeta, uma panhonhas, nem sei como terminou o curso. Casou rica. Olha, por acaso encontrei-a na semana passada na Castilho. Estava a comprar uma botas caríssimas. Um desperdício. Ela e o marido compravam sempre os sapatos ali, disse ela cheia de manias. Quem a viu e quem a vê!! Queixou-se que o início das aulas é uma canseira, tadinha. Nem trabalha! Grande lata. Mas afinal o que querias saber?
- Já me esqueci.
Estes dez não vou reler
Etiquetas: Leituras
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (II)
Etiquetas: cidades
Cinema Nostalgia (9)

Alguns filmes valem pela atmosfera que os seus autores conseguem criar. É uma qualidade difícil de definir, talvez relacionada com detalhes quase invisíveis: um reflexo no fundo da imagem, a brisa que agita o cabelo, o som da música que mal se ouve. A capacidade de criar um ambiente geral que se inscreve mais na imaginação de quem vê do que na sequência real das imagens ou da história é própria dos grandes filmes. Explico-me melhor: nem todos os grandes filmes têm esta qualidade intangível, mas quando ela existe, estamos geralmente perante obras-primas.
Serve o longo preâmbulo para lembrar Noites Brancas, de Luchino Visconti (1957). O grande realizador italiano é geralmente mais citado por causa do sublime O Leopardo (1963) ou pelo esplendoroso Morte em Veneza (1971). O prazer de ver um bom filme é algo de pessoal e, no que respeita à obra de Visconti, confesso que fiquei mais impressionado com Obsessão (1943), com Senso (1954), mas sobretudo com este Noites Brancas, baseado na novela homónima de Fiodor Dostoievski.
Na realidade, não se passa muito no filme. Não há uma acção complexa, nem uma história com linha nítida, diálogos imortais. Por vezes, a câmara parece apenas seguir as suas personagens, na húmida escuridão de uma qualquer cidade italiana. Noites Brancas é uma obra sobre a solidão, sobre a ilusão do amor, e um percurso poético pelos labirintos da alma. Uma deambulação onírica.
Um homem apaixona-se com uma mulher que ama outra pessoa e, por breves instantes, sonha com a possibilidade de conquistar aquele amor. A narrativa é apenas isto, mas Visconti consegue ir muito além deste dispositivo aparentemente simples, transformando a cidadezinha numa espécie de palco. Na obra literária, falta a profundidade dos trabalhos posteriores de Dostoievski, a compreensão total do humano. No fundo, é quase ingénua, banal e infantil a personagem feminina que, todas as noites, espera ansiosamente o homem por quem se apaixonou. E é patético o narrador, que ouve a sua história sem que ela compreenda o amor que lhe provocou. E, de súbito, surge o amante que prometera regressar e temos o desenlace esperado. O narrador vivera uma quimera.
No entanto, ao retirar este triângulo da esfera do real, ao dar-lhe uma dimensão flutuante, própria dos sonhos, Visconti recria a obra literária, concedendo uma importância surpreendente à luz, às sombras, à noite, ao canal que atravessa a vila, à pedra molhada da rua, às paredes mal iluminadas e às janelas ocultas.
Tudo é encenado ao pormenor, num ambiente frio, cheio de neblinas e desencontros, que parece vazio de emoções, mas que afinal se transforma na testemunha quase viva das ridículas paixões humanas.
Sim, parece ser esse o triunfo de Visconti: a atmosfera pulsa, com vida, como se fosse ela a figura principal que observa as pobres personagens. O ambiente, o cenário, é onde nós estamos, os espectadores, absolutamente fascinados com aquela ópera turbulenta que se move à nossa frente.
Etiquetas: Cinema, Cinema nostalgia, Crónicas
O que é Nacional é bom!
“O mês passado vendemos 25 mil pastéis por dia. Faziam filas lá fora. Eram emigrantes, espanhóis, não lhe passa pela cabeça.”
Pois é… não me passava pela cabeça… em meses normais, exceptuando Agosto, parece que o número diminui para metade. Mas não deixa de impressionar… 12 500 pastéis por dia!
Velocidade + do que furiosa
Etiquetas: Seriamente avariados da pinha como eu
Segunda-feira, Setembro 03, 2007
Mais vinte cidades que jamais esquecerei (I)
Etiquetas: cidades
Nós
Etiquetas: Nós e os outros
Onde há fumo...
Etiquetas: Política-PSD
Gostei de ler
Dez livros
O Eduardo Pitta lança-me este repto. Vou pensar no assunto e não tardarei a dar notícias.
Os novos obstáculos de António Costa
A recente investida do ministro da Agricultura contra o Bloco de Esquerda, a propósito da destruição de um hectare de milho transgénico em Silves, não poderia ter ocorrido num momento politicamente mais inoportuno para António Costa, ex-número dois do Governo. Costa precisa do Bloco no seu frágil executivo em Lisboa: sem o apoio de Sá Fernandes, a sua tarefa na capital tornar-se-á ainda mais complicada. Seguramente o ex-ministro da Administração Interna não aplaudiu a diatribe de Jaime Silva contra os bloquistas (iniciada junto ao milheiral de Silves e reiterada no dia seguinte em entrevista à SIC Notícias). E a sua irritação será ainda maior por saber – funcionando este Governo como funciona, e sendo José Sócrates como é – que o titular da pasta da Agricultura nunca falaria como falou sem a conivência, senão mesmo com o estímulo, do primeiro-ministro. Ao atacar o Bloco, Jaime Silva marcou pontos junto de Sócrates, o que poderá valer-lhe uma pasta mais apetecida na próxima remodelação governamental. E confirmou que Costa terá de enfrentar obstáculos de que mal suspeitava quando decidiu correr em pista própria, enfrentando o desafio de Lisboa.Etiquetas: Política-PS
Diana
Não tenho grande pachorra para "socialites" ou intriguinhas “cor de rosa”. Nunca dei muita atenção às fofocas sobre o casamento do Príncipe Carlos com Diana Spencer, assim como também não "cusco" os casamentos ou a vida privada de ninguém, pois já me entretenho o suficiente com a minha. Sobre o cansado assunto da morte da Princesa do Povo, o melhor comentário saiu ontem no DN da pena de Alberto Gonçalves na sua (divertida) rubrica semanal à laia de blogue: (...) não esquecer, comemorou-se o acidente de Diana Spencer, e o facto de um carro conduzido a 200 km/h por um ébrio não ter morto parisienses inocentes. Assunto arrumado.Etiquetas: Quotidiano
Domingo, Setembro 02, 2007
As bocas de Marcelo
Este homem intriga-me
Dias depois da notícia de que Paulo Teixeira Pinto tinha abandonado a Opus Dei dá-se a sua tentativa de tomada do poder no BCP. 































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