segunda-feira, setembro 24, 2007

Fora de série (6)


A América de Archie Bunker

Bastavam os primeiros acordes do genérico para me porem colado ao ecrã. Um genérico fabuloso, com um casal de meia-idade entoando uma cançoneta ao piano no recato doméstico. Os versos da cançoneta diziam tudo sobre a intenção satírica desta série da CBS. Nunca os esqueci.
Boy the way Glenn Miller played
Songs that made the hit parade.
Guys like us we had it made,
Those were the days.

E logo um zoom nos introduzia na residência de Archie Bunker. O irascível, antipático, furibundo Archie Bunker – uma das mais perenes personagens da ficção televisiva de todos os tempos. O típico americano médio, cheio de preconceitos sociais, culturais e raciais. Reaccionário até à medula, apoiante cego de Richard Nixon e da guerra do Vietname, inimigo figadal dos ventos da História que nesses idos de setenta prometiam uma revolução cultural no país mais poderoso do planeta.
And you knew who you were then,
Girls were girls and men were men,
Mister we could use a man
Like Herbert Hoover again.
Um dos mais deliciosos ingredientes da série era o modo como subvertia o dogma então vigente sobre a classe operária como vanguarda social. Archie era operário – “explorado pelo capital”, um remediado sem horizontes –, o que não o impedia de destilar ódio contra os imigrantes que vinham “roubar-nos os postos de trabalho”. Contra os negros, “delinquentes por natureza”. Ou contra os judeus, que “assassinaram Cristo”. Conservador empedernido, rogava pragas ao desconserto de um mundo onde todas as peças lhe pareciam subitamente fora do lugar. Daí nasciam as homéricas discussões que mantinha com o genro, Mike, um intelectual de esquerda que lhe servia de contraponto ao exibir uma fé inquebrantável no progresso.
Didn’t need no welfare state,
Everybody pulled his weight.
Gee our old LaSalle ran great.
Those were the days.

All in the Family (que uma feliz tradução portuguesa baptizou de Uma Família às Direitas ao ser exibida na RTP) tinha diálogos de cinco estrelas, que nos faziam rir até às lágrimas, tornando Archie num ícone popular, malgré lui e as ideias que propagava. Algumas das suas expressões incorporaram-se no vocabulário comum, como “fecha a matraca” (a ordem da praxe para mandar calar a incomparável Edith, a mulher que lhe aturava todos os caprichos) ou “cabeça de abóbora” (o feroz qualificativo que reservava ao genro). Era uma série de texto, mas também de actores, servida por um quarteto de intérpretes de luxo. Carroll O’Connor (Archie), Jane Stapleton (Edith), Sally Struthers (a filha, Gloria) e Rob Reiner (o genro, que na vida real se tornaria realizador de filmes inesquecíveis, como Misery ou When Harry Met Sally). Era um tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e de todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta.
“A ‘seriedade’ não costuma ser um sinal inequívoco de sabedoria, como julgam os pasmados: a inteligência deve saber rir”, como nos ensinou Fernando Savater. É nisso que penso ao rever hoje cada episódio desta extraordinária série que psicanalizava a classe média americana e se mantém actual, superando as barreiras da moda, do gosto e do tempo. Porque a América de Archie Bunker não morreu: apenas se alterou o suficiente à superfície para continuar tão tacanha como dantes.

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