Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Ai, ai, ASAE

Num destes dias de praia caí na imprudência de ler uma breve numa página de jornal que me voou para os pés que dava conta de uma investida da ASAE numa feira de sexo no Algarve. Os inspectores tinham apreendido uma série de artefactos que não tinham instruções em português. A partir desse momento, sofri um pesadelo recorrente: a ASAE entrava em minha casa na minha ausência e levava-me umas aspirinas fora de prazo e uns bifes que deixei no congelador.
De regresso a casa constatei, aliviada, que os meus bifes foram poupados. A mesma sorte não tiveram as meninas Trim Trim nem o Paulo Teixeira Pinto. Algo me diz que, a seguir, vai o Almerindo Marques.

New age

O moderníssimo aparelho do meu carro lê os CDs em MP3. Neste “formato” cabem quase vinte álbuns num simples CD de 700 megas. A fartura é tanta que o pobre desconfia. Com o ouvido atento, apercebo-me como o processo de compactação digital nos defrauda, prescindindo de tantos “bites e baites”, aparentemente redundantes. Ou eliminando os sons considerados inaudíveis ao ouvido "comum". Confesso que aquele som, redondo e de plástico, ao princípio até soa agradável. Mas ficamos com a ausência da alma, dos sombreados, dos degradés e das texturas mais subtis da peça. Desvanece-se a profundidade e o relevo, a coloração sonora impressa pelo espaço, pela sala ou pelo estúdio e os seus materiais.
Chegado a casa, cedo à urgência: ligo o amplificador, ponho a rodar o gira-discos, fecho a porta, ajusto o volume, ponho cuidadosamente o vinil a reproduzir o órgão de Tom Koopman, tocando a Tocata e Fuga BWV 565 de Bach. Respiro profundamente e deixo-me ir.
Infelizes os satisfeitos com o que os seus humanos e precários sentidos alcançam. Vendo pouco e crendo pouco. Conformados. Tantas vezes cínicos.

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Paulo Teixeira Pinto

Na hora em que se concretiza a saída de Paulo Teixeira Pinto de presidente do Conselho de Administração do Millennium BCP, e a sua substituição por Filipe Pinhal, não posso deixar de sublinhar que foram dois anos e cinco meses de audácia e de inteligência. Mas, infelizmente, e ao contrário do que diz o lema, nem sempre a sorte protege os audazes. PTP soube querer crendo, os ventos é que nem sempre estiveram de feição. Fica assim disponível para outros voos.

Vinte cidades que jamais esquecerei (XX)


SALZBURGO.
"Uma cidade que prolonga os sons até aos ouvidos de Deus."
(Ruben A.)

Pretéritas Sextas (II)

Laura Elliott... Porque sim.

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Porque hoje é sexta-feira

"Meu homem moderno tem orgasmos longos, erecções vítreas e telescópicas, meu homem feliz é bem informado e cínico, conhece bem as tragédias modernas mas se lixa para elas, não por maldade mas por uma crua "maturidade", um alegre desencanto. Meu homem vive em velocidade. O mundo da Internet, do celular, do mercado financeiro global imprimiu-lhe seu ritmo, dando-lhe o glamour de um funcionamento sem corrosão, uma eterna juventude que afasta a morte.
Meu homem feliz intui confusamente, que a aventura da verdadeira solidão é apavorante. Daí ele evita que qualquer profundidade existencial possa pintar, que a ideia de morte e finitude apareça à sua frente, senão sua "liberdade" ficava insuportável. E aí ele passa a viver um paradoxo: ligar-se sem ligar-se. Ele percebe que precisa do casamento protector como uma esperança de "sentido". Aí, ele se casa, entre risos dos amigos, como se tivesse cedido a uma fraqueza. E viverá infeliz, numa eterna insatisfação" - Arnaldo Jabor

Sexta-feira

Ana Beatriz Barros.

Confissões*


Vá lá, é quase uma da manhã e sinto-me generoso. Tão generoso que vou revelar alguns segredos até agora bem guardados, num espírito de partilha e dádiva com base naquele que foi o meu último dia de férias antes da partida para Barcelona. E são eles:
1. A piscina do Hotel da Quinta da Marinha (a do cavalheiro entre poucos que é José Carlos Pinto Coelho, não o de Miguel Champalimaud que...enfim...me prescindo de classificar) é de borla. Sim! Grátis! Sempre foi. O hotel tem agora cinco estrelas mas os mergulhos não custam um tostão. Se quiserem uma club sandwich ou uma cerveja servida como deve DE ser, estão à vontade. Se não, ninguém vos chateia. Qualidade de serviço.
2. O restaurante de Oitavos é também casa de chá. Pouca gente o visita em plena tarde. Tem uma vista que valha-me Deus. Chás e três scones a 4,50€, gin tónico a 3,50€. Uma vista que devolve a vida a qualquer um e uma paz que dá vontade de morrer. Pecado mortal, como é o de pensar em coisas sérias num sítio daqueles, a não ser para prometer noivado, casamento ou divórcio.
3. E Pecados é, imaginem vossas senhorias, o nome do restaurante em Paço de Arcos, mesmo junto ao jardim e à Marginal. Um pregado de quilo e meio, fresco fresco. Com grelos à séria a acompanhar, mas promessa de empada de perdiz e feijoada de leitão para quando o Verão terminar. O conhecedor Dante serve à mesa com a sabedoria minhota de quem percorreu o País de lés a lés e, na cozinha, o alentejano Ti Inácio garante a qualidade de vida e dos alimentos. A mesma qualidade de vida que existe ainda, em lugares como estes que mencionei. Não precisam de agradecer. Só de aparecer.
*Título roubado ao senhor Jean-Jacques Rousseau

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

Cinema Nostalgia (8)


Cinema é festa. E às vezes a festa espreitava em frestas do quotidiano, nos longos serões tropicais sulcados de sons nocturnos: o vagido do morcego, o grunhido da osga, o zumbido de besouros em demanda de luz. Era uma festa quando o meu pai instalava o projector de super 8 e exibia filmes para nós, garotos sem televisão, ávidos de ver imagens em movimento. Vinham colegas da escola, juntávamo-nos a beber limonada, indiferentes ao toqué na parede que acabava de engolir mais um mosquito – o grande lagarto pintalgado cuja presença, acreditavam os velhos em Díli, dava sorte às casas que os acolhiam.
Noite mansa no amplo bairro do Farol – o oceano, pacífico, alongava-se em frente. Barcos artesanais de pescadores rumavam ao largo, na sua faina diária. Havia vagas luzes de petromax em Ataúro, várias milhas náuticas adiante. Mas na varanda que circundava a moradia os olhos infantis só estavam concentrados na tela onde desfilavam as imagens. Filmes em super 8: pequenas bobinas extraídas de caixas quadrangulares e que se fixavam na parte mais recuada do projector. Começavam a girar e o cinema acendia-se na varanda, sob a ritmada vigilância das ventoinhas de tecto que mal disfarçavam o calor repassado de humidade. No chão, pivetes de incenso procuravam pôr os insectos à distância, empurrando-os na direcção das osgas e do tranquilo toqué que parecia petrificado, as ventosas das patas bem fixadas nas paredes.
O stock era limitado: mas revíamos sempre cada filmezinho ou cada documentário como se fosse a primeira vez. Uma versão condensada d' O Homem Invisível, de James Whalen: ainda hoje sinto um ligeiro arrepio quando recordo Claude Rains a tirar as insólitas ligaduras que lhe cobriam o rosto. Rio Grande, em formato pequeno. Lá surgia John Wayne de bigode e farda confederada despedindo-se da inconsolável Maureen O’Hara. Os Harlem Globettroters fazendo acrobacias nunca vistas em recintos de basquetebol. Os golos de Pelé e Jairzinho no inesquecível Campeonato do Mundo de 1970.
E havia os desenhos animados. O imparável Woody Woodpecker, esse endiabrado picapau que fez as delícias da minha infância. Speedy Gonzalez, o rato que corria mais rápido do que a própria sombra. Dick Tracy, o detective que solucionava todos os casos enquanto falava ao telefone com o relógio de pulso.
E havia as velhas comédias mudas, do tempo em que se usava pêra e cartola, que uma vez e outra e outra nos faziam irromper em gargalhadas. A luz projectava-se no ecrã branco, a bobina começava a girar e aparecia o rosto familiar de Charlot comendo sempre a mesma bota que já comera em tantas outras noites. Ou os inconfundíveis Bucha e Estica, que levavam o caos à mais pacífica das ruas, pondo impávidos cidadãos à batatada. E pondo-nos a rir até às lágrimas, apesar de sabermos cada cena de cor. Absurdamente felizes sem sabermos que o éramos – putos europeus longe do conforto europeu, nessas horas longínquas em que o Super 8 substituía os canais televisivos que não chegavam a Timor. E em que o popular projector fazia parte da mobília – e da família.
Por vezes sinto uma nostalgia imensa dessas improvisadas noites cinéfilas. E do toqué lá de casa. E daquelas ventoinhas que rodavam no tecto enquanto o Dick Tracy, o John Wayne e Laurel&Hardy alimentavam sem cessar os nossos sonhos.

A força está com ele

O veto político do Presidente da República à Lei Orgânica da GNR é mais um sinal forte de que o Governo começa a perder o pé. É também mais um sinal de que a tal cooperação estratégica só existe e só funciona quando estão em causa princípios básicos do relacionamento institucional entre Belém e São Bento. Aníbal Cavaco Silva não abdicará nunca do seu espaço de manobra e da sua influência cada vez mais decisiva no corolário do processo legislativo.
Ao vetar aquele diploma, Cavaco Silva quis deixar expresso que não permitia que o Governo socialista, por sua auto-recriação e contra todos os outros partidos políticos do arco constitucional, decidisse lançar uma espécie de quarto ramo das Forças Armadas. Fazendo-o, ainda por cima, à revelia do seu Comandante Supremo, o Presidente da República.

As razões invocadas pelo Chefe de Estado parecem-me perfeitamente lógicas. Que sentido faz, com três ramos das Forças Armadas, fazer equivaler um comandante-geral da GNR aos outros chefes militares? Ainda por cima quando se sabe que o chapéu político dos três ramos (Exército, Marinha e Força Aérea, que dependem do Ministério da Defesa Nacional) não seria o mesmo desse novo ramo? A GNR iria continuar sob a alçada da Administração Interna, só que fazendo deste ministro um titular de um autêntico exército pessoal, visto que o projecto visava ainda o lançamento de uma subcategoria profissional de oficiais generais: "Estas alterações não favorecem a necessária complementaridade entre as Forças Armadas e a Guarda Nacional Republicana e contendem com o equilíbrio e a coerência actualmente existentes entre ambas e com o modo do seu relacionamento, podendo afectar negativamente a estabilidade e a coesão da instituição militar por que ao Presidente da República cabe zelar, também pela inerência das suas funções de Comandante Supremo das Forças Armadas", sublinhou, e bem, Cavaco Silva.
Para já, o "saldo" é de quatro vetos políticos (Lei da Paridade, Estatuto do Jornalista, Responsabilidade Extracontratual do Estado e Orgânica da GNR).
Depois deste último veto, o PS pode insistir na sua e fazer aprovar com a sua maioria no Parlamento o mesmo texto. Acredito, por seu interesse, que não o fará. Neste último caso, e perante os reparos do Presidente, iria abrir brechas graves no relacionamento com Belém. Acredito que o Governo não quer entrar por caminhos mais bélicos. Basta perceber que errou e emendar a mão.

João, este é para ti

Caríssimo João Gonçalves,
Desculpa só te responder agora, mas estive uns dias de molho e sem acesso a estas coisas da blogosfera. Claro que fui informado sobre este teu post, ao qual respondo com cortesia, dizendo-te que o teu interesse revela que não só aquela matéria era notícia, como pelos vistos estás à espera de follow-up. Pois bem, fica sossegado que, mal saiba de novidades, não deixarás de ser o primeiro a saber.
Já agora, quem promoveu a senhora de que falas a vice-presidente da Comissão Política Nacional do PSD foi José Manuel Durão Barroso, não Pedro Santana Lopes. Fica a nota.

Vinte cidades que jamais esquecerei (XIX)


BANGUECOQUE.
"Lá estava ela, amplamente espalhada pelas duas margens, a capital do Oriente, aquela cidade ainda isenta da conquista branca."
(Joseph Conrad)

Na morte de Umbral (1)

Habituei-me, durante anos, a comprar El Mundo por causa das crónicas de Francisco Umbral: era obrigatório começar a ler o jornal pela última página, onde o escritor tinha há quase 18 anos a sua coluna Los Placeres y los Dias. "O prazer da leitura" - essa expressão que Bárbara Guimarães transformou em lugar-comum - tinha aqui pleno cabimento: Umbral dava prazer aos seus leitores (mesmo aos que discordavam dele) com o seu estilo mordaz, irónico, inconfundível. Era, a um tempo, moderno e clássico. Tanto se perdia por saborosíssimas digressões nostálgicas como abordava as mais quentes questões da actualidade. Sempre com uma voz própria, inimitável. Ele, que não era fértil em elogios, certa vez elogiou Camilo José Cela por saber "escrever vivendo e viver escrevendo". Poder-se-ia dizer o mesmo deste amante de charlas e tertúlias que "elevou a coluna de jornal a um género literário", como bem assinalou Pedro J. Ramírez, director de El Mundo. O mesmo que já tinha acontecido, no Brasil, com Rubem Braga e Nelson Rodrigues - género hoje prolongado por Luís Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor. Nada encontramos de semelhante na imprensa portuguesa.
Francisco Umbral morreu. Foi a pior notícia deste mês, uma das piores notícias deste ano.

Na morte de Umbral (2)

Li apenas um romance de Umbral. Mas foi um livro que me prendeu ainda mais à sua escrita: Madrid 1940 (editado em 1993). Era a história de um pequeno canalha de província que prospera como delator na capital franquista - a exemplar autópsia da ditadura "nacional", que se alimentava destes canalhas. Nas páginas de Madrid 1940 vemos desfilar a sociedade madrilena desse tempo: as fardas, as batinas, a intelectualidade de café, os toureiros, os cançonetistas, os viracasacas de várias espécies. "Aquilo a que Franco chamava Unidade Nacional não era senão a unidade em torno dele, e eu via isto sem mais malícia nem cinismo que os outros, pois penso que todos eram cínicos", observa o protagonista deste romance escrito na primeira pessoa do singular.
Madrid 1940 tem chancela portuguesa da Campo das Letras (com prefácio de José Saramago). Certamente por distracção minha, desconheço outros títulos de Umbral lançados em português - e ele é autor de cerca de cem obras, entre ficção, crónica e ensaio. Jamais entenderei este desinteresse generalizado das editoras portuguesas pelo que se vai produzindo em Espanha, ressalvando aqui casos pontuais como o da Dom Quixote, que nos últimos anos tem alterado esta tendência (o que não admira, pois passou a ser propriedade espanhola).
Mais criticável ainda é a cultura televisiva portuguesa, que concede todas as parangonas a um futebolista do Sevilha, falecido no mesmo dia de Umbral, enquanto praticamente esquece o grande escritor espanhol. O que justificou a deslocação de um enviado especial da RTP a Sevilha, por exemplo? O jogador, de 22 anos, marcara o "golo decisivo que pôs o clube na rota das grandes competições europeias". Nem mais. Afinal o que valem cem livros comparados com um só golo?

Quarta-feira, Agosto 29, 2007

Gostei de ler

Presidencialismo. Do Eduardo Pitta, no Da Literatura.
Pode repetir, sff? Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.
Leis 'à la carte'. Do João Caetano Dias, no Blasfémias.
Sol na moleirinha. Da Leonor Barros, na Geração Rasca.
O último analista absoluto. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
A sociedade fechada e os seus inimigos. De Miguel Morgado, n' O Cachimbo de Magritte.
Nacionalidade. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.
Notas soltas. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
A "orquestra negra". De Miguel Cardina, no Passado/Presente.
Aquela vontade de ir. De Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.
William Vance. De António Teixeira, no Herdeiro de Aécio.
Filiações. De Ana Vidal, na Porta do Vento.
Liberdade. De Jorge Assunção, no Despertar da Mente.
Pastelaria Avenida. De Henrique Fialho, na Insónia.

A ERC deve estar de férias

Ao fim de vários dias de jejum informativo, acompanho as notícias na televisão pública. Fico a saber que o ministro Rui Pereira, convocado pela oposição, prestou declarações no Parlamento a propósito dos meios aéreos de combate aos incêndios já adquiridos pelo Estado português mas ainda não utilizados neste Verão por alegados motivos burocráticos. Ouço várias declarações do ministro na peça da RTP. Mas nem um pio dos deputados da oposição. Presumo que os membros da ERC ainda estejam de férias. E a famosa "fita métrica" que instituiram para validar o rigor dos noticiários televisivos deve ter ido de férias com eles.

Vinte cidades que jamais esquecerei (XVIII)


PANGIM.
"Minúscula e asseada cidade de província, com os seus edifícios oitocentistas caiados, Pangim nada tem a ver com a 'terra esquecida dos deuses' que Lady Burton descrevia há um século."
(Graham Greene)

Eduardo

O meu último moleskine preto, não de linhas mas quadriculado, foi-me oferecido pelo Eduardo Prado Coelho. Começou por se enganar na oferta e presenteou-me com uma bolsinha para colocar moedas, daquelas de homem, que tinha comprado para si. Fez questão de sair do restaurante e ir ao carro buscar a lembrança certa bem como alguns dos seus livros.
Escreveu: Para a Inês, esperando que escreva todos, mas todos os dias.
Este é para si Eduardo. Também esperando que continue a escrever todos, mas todos os dias.
Um grande beijinho

Basta de paprika


Quantas vezes, na Hungria, eu e o Luís Naves recordámos com estima o nosso FAL. Pensávamos que ali ele viveria feliz. Cansado, porventura, mas feliz. A paisagem humana convidava a um périplo constante e deslumbrado. Apesar do calor de Agosto, as raparigas pareciam embalagens daquelas pré-congeladas, vistosas e coloridas, mas imprestáveis antes de aquecidas durante alguns minutos no micro-ondas.
Antes de partir, alguém me avisara que levava «areia para a praia». Outro – repleto de sabedoria arcana – lembrou o ditado «para a Hungria não leves companhia». Quando atravessámos um pequeno jardim onde dezenas de estónias despiam antes da festa os seus collants, numa apressada mudança de roupa para qualquer traje típico do seu país, parecia sexta-feira. Quando, sentados nas esplanadas, virávamos o pescoço para a esquerda e a direita e, na maior parte das vezes, para cima, num movimento espiralado capaz de dar um torcicolo duplo ao mais flexível instrutor de yoga, era sexta-feira outra vez. E no entanto…
Ao regressar, ao ver as nossas portuguesas, ao conseguir de novo vislumbrar sorrisos nas inocentes trocas de olhar que são o alimento da alma para qualquer praticante compulsivo do flirt como eu, ao vê-las descontraídas, bronzeadas, suspirei de alívio. Não sou por natureza contemplativo e muito menos adepto de refeições rápidas. Em todos os desportos que pratiquei, sempre detestei a fase de aquecimento. Pode ser que na Hungria seja sempre sexta-feira. Mas, se lá voltar, irei de novo acompanhado. Aquela não é a minha praia.

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A ameaça

Os incêndios no Peloponeso, a que pela TV assistimos atónitos do sofá, devem preocupar-nos profundamente. Apesar daquela estranha língua, os protagonistas, a acção e os cenários são-nos demasiado familiares. Depois, suspeito que aquela catástrofe não ocorre em Portugal apenas por mero circunstancialismo meteorológico. Quando, perante a estatística dos incêndios em Portugal este Verão, as autoridades se vangloriam da eficiência alcançada, fico desconfiado. É fácil atirar “postas de pescada” quando as circunstâncias são favoráveis, e manda a prudência um pouco de modéstia. Que a floresta, quando arde, chamusca qualquer governo.

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Terça-feira, Agosto 28, 2007

O Sporting em 1º

Depois não nos digam que não avisámos: o inquérito dos palpites prá bola aí na barra lateral, ao fim de quatro dias, já leva 157 votos e o Sporting vai destacado. E sabem porquê? Porque aquele voto se pode renovar diariamente. Trata-se de um autêntico campeonato virtual e interactivo. Tecnologia limpa, sem o patrocínio do Simplex ou ajudas de Bruxelas.
Tudo isto são razões suficientes para que o estimado leitor diariamente, depois do café da manhã, volte ao Corta-fitas, nem que seja só para deixar um votozinho no clube da sua preferência.
A ver quem ganha.

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Impressões Musicais (13)

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Segunda-feira, Agosto 27, 2007

As palavras dos leitores

"Com que então, no Alentejo, a melhor terra de Portugal. O contacto com a natureza dá-nos forças para lutar contra o socratismo. O Alentejo só tem um problema: é o Alqueva. Morreu. Passou a cano de esgoto de Badajoz e outras terras espanholas. As águas já estão contaminadas. Há pessoas que já tiraram de lá os barcos."
Betty
"Como te compreendo. Acabei de tirar um gafanhoto da piscina e deixei um pouco de bolo de mel para as formigas no canteiro junto ao tanque. Imagina tu que ontem até vi o Porco do Proença fazer um favor ao Pinto. Abraço e continuação de boa evasão.
Francis C. Afonso

"Banho de campo: sabe bem e importa para não esquecer o animal que insistimos vestir de marcas."
Lis

"Podia ter colocado o 'ponto' logo a seguir ao 'afogados', dispensando o 'na piscina'. Dessa forma teria um texto profundamente alentejano. Mas não. A atracção pela divulgação do pormenor pequeno-burguês falou mais alto. Não há pachorra. Acho que vou mesmo desistir do Corta-Fitas..."
Sofia
"CRÓNICA DA FORMIGA que FOI SALVA: Senhor Correia muito lhe agradeço a possibilidade de viver mais meia dúzia de diazinhos. As minhas duas irmãs e a prima Graciete, também lhe agradecem. O resto da turma até podia ter deixado entrar na piscina, são exímios nadadores, alguns medalhados em Olimpíadas. O Tio Zé Mocho tem uma casa de meninas lá para os lados da herdade da Chaminé, fez bem em não deixar as pobrezinhas órfãs. O Paxá é um canito com muito sentido de humor, tipo CÃO FEDORENTO, os dois gatos da vizinha que saiu nas últimas páginas do seu jornal estão fartos da solidão e entre uma e outra visita ao psicólogo, vão até aí. O raio das melancias andam a fugir à fileira branquinha dos dentes e as azeitonas que não se armem em sofisticadas, porque já estão boas para a mordidela. O Xico Ranço e o Victor Bigodaça, são os dois galos das noitadas, acabadinhos de chegar do Freedom 2007, ainda estão em transe. O Ganso Zeca lidera a Capoeira, enquanto for à manicura e o Peru está adoentado, pudera, porque só pensa no Natal e já vê a vidinha dele a andar para trás.
Bem vindo ao campo, tio Correia
(não escrevo mais porque vou pôr esta carta no correio, a 17 km daqui)"



(Tiradas, com a devida vénia, da caixa de comentários do meu postal alentejano. Dedico a imagem da piscina à leitora Sofia neste dia tão quente.)

Notícias do Alentejo profundo


Com um abraço ao Vítor, excelente anfitrião

Hoje salvei cinco formigas, um besouro, uma aranha, um gafanhoto e até dois louva-a-deus de morrerem afogados na piscina. Vimos um mocho imobilizado no asfalto da estrada: apeteceu-me logo adoptá-lo, mas ele parece ter-me adivinhado os pensamentos e não tardou a bater asa. O Paxá, um rafeiro alentejano de cinco meses, não pára de trincar as bolotas que caem dos sobreiros: é um brincalhão incorrigível. O pequinois Papu teima em mandar no outro cão, cinco vezes mais pesado. Dois gatos que viviam no monte de uma vizinha há pouco falecida começam a habituar-se a vir aqui comer, ganhando palmos de terreno em cada fim de tarde. As melancias vão-se desenvolvendo e as azeitonas estão quase prontas a ser colhidas. Os dois galos bem cantam - às vezes a desoras - mas continuam sem ver galinhas. O ganso Zeca continua a liderar o inconfundível clã de aves de capoeira - que inclui alguns patos - sem rival à vista. O Senhor Peru andou adoentado mas "tem registado sensíveis melhoras", como se dizia no Portugal do século XIX que sobreviveu quase até aos nossos dias.
Não me perguntem por outras coisas: só sei isto. E não faço questão de saber mais nada.

Vinte cidades que jamais esquecerei (XVII)


ESTRASBURGO.
"Era a hora do crepúsculo numa tarde fria em Estrasburgo. Nunca ali estivera. Deu um passeio calmo para avaliar o ambiente, que lhe agradou bastante. Pena não ir para ficar. Gostava de passar ali uns dias." (Nicolas Freeling)

Domingo, Agosto 26, 2007

O Sporting

"Nunca escondi essa característica da minha personalidade que é ter nascido sportinguista. Para falar verdade, não sei o que isto significa ao certo. Não consigo descobrir se se trata de um imperativo do destino, se de uma decisão racional (mas que racionalidade poderá existir aqui?). Sei apenas que sofro absurdamente quando o Sporting está a perder e que partilho a alegria de todas as vitórias, mesmo que seja sobre um clube da III Divisão: ganharam 4 a zero? São os melhores."
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Eduardo Prado Coelho
(De PÚBLICO, crónica A Pré-História da Minha Ida ao Futebol, 10 de Agosto de 2005)

Tomando sempre novas qualidades...

A maior "revolução" operada na sociedade contemporânea, subtil e orgânica, é aquela que aconteceu à relação entre o pai e os seus filhos. Mais até do que as conquistas femininas, de lugares nos estádios ou em promissoras carreiras.
Apercebo-me hoje que o meu pai ainda esboçou uns tímidos esforços, desajeitadas tentativas de intimidade, inspiradas nos inevitáveis sinais de mudança. Mas a rigidez dos "papéis" estava-lhe demasiado impregnada. Assim como aquela solidão.
A maior "revolução" dos tempos modernos é a revelação da plena paternidade. Hoje, conhecemo-nos cedo, com a ajuda da pele e de uma orgânica cumplicidade. Com muitas canções, lenga-lengas, banhos de banheira, de mar e de mundo. Depois de tudo isto, que venha a vida toda, com os seus anunciados terrores e tempestades. Seremos mais fortes, por certo, o que já não é pouco.

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O criador e a criatura

Tem razão o Rodrigo Moita de Deus quando observa isto. Afinal de contas, não pode passar apenas de uma simples coincidência. Alberto João Jardim, num piscar de olhos, pode muito bem ser o mentor de que Luís Marques Mendes estava necessitado... Num dia é o "grande líder", no outro é a figura de proa da comissão de honra da sua recandidatura e depois já está a dar directrizes e a sugerir frases feitas. Ou será mais que isso?

A ler

1. "Eduardo Prado Coelho, 1944-2007", do Francisco José Viegas.
2. "Comentar não comentando", do Paulo Gorjão.
3. "Postal de Chipre", do Vítor Matos.
4. "O icebergue", de Pedro Norton.
5. "Cocktail explosivo", do Rui Costa Pinto.
6. "Postais de férias I", de Pinho Cardão.

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 13, 22-30

Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».

Da Bíblia Sagrada

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Vinte cidades que jamais esquecerei (XVI)


BERNA.
"Voltaste à tua Berna, esta cidade adormecida, honesta, onde nunca se sabe com precisão quão morta ou quão viva está."
(Friedrich Dürrenmatt)

Sábado, Agosto 25, 2007

Descartáveis


Quando era criança havia um cão chamado Esquimó que vivia num dos quintais que se viam das traseiras da minha casa. Era um lindo Samoiedo, de pelo sedoso e branco, que com o passar dos invernos se foi enchendo de reumático. Por fim era penoso vê-lo a coxear para dentro da casota que os donos lhe haviam instalado mesmo virada ao vento norte. E um dia mandaram-no abater. “Já estava velho e doente”, disseram, em tom casual, à minha mãe.
Lembrei-me do Esquimó a propósito de um outro exemplar da mesma raça que vi aqui há dias, atarantado, a ziguezaguear pelo meio da estrada, indiferente aos carros que iam passando. Não precisava falar para se perceber o que lhe tinha acontecido. Tenho a certeza que me foi dado assistir aos primeiros momentos de aflição de um canito quando percebe que foi abandonado. Desorientado, assustado e triste, o que mais comovia na atitude do infeliz era perceber a sua incapacidade para compreender o que lhe tinham feito.
Aquela minha antiga vizinha, felizmente, nunca mais quis ter um cão. Mãe de uma única filha, agora já casada, queixa-se frequentemente do abandono a que ela a votou. Não admira. Agora, que já está velha e doente, tem sorte se não for despachada para um daqueles lares onde os velhos não duram mais de dois meses...

Música de todos os tempos (19)

Shirley Bassey - "Goldfinger"

EPC

Na morte de Eduardo Prado Coelho, não quero deixar de registar que, no auge dos ataques desferidos contra mim por um certo candidato do PS à Câmara Municipal de Lisboa, em 2005, ele não recuou. Manteve o que me disse e o que pensava: que Manuel Alegre seria um melhor candidato nas presidenciais de 2006 do que Mário Soares (o que, aliás, se comprovou). Mais, escreveu uma crónica no Público no dia seguinte à publicação da minha notícia, onde explicou o que pensava e ainda garantiu que o tal candidato sempre concordou com ele. Na altura, pareceu-me um gesto impecável.

Ao momento

Só para vos dizer que o Corta-Fitas passa a contar com mais uma inovação a partir de agora, devido ao empenho do João Távora e a pedido de várias famílias. Lá bem em baixo da página, ao meio, surge agora uma caixa que se chama Shiny Stat, um contador para se saber quantas pessoas estão connosco, online, em tempo real. Há bocado, a um sábado de manhã, já estavam quatro leitores a ver o que é que estava para aqui escrito...

Sexta-feira, Agosto 24, 2007

Mendes strikes back

O Corta-Fitas lançou esta semana um novo inquérito, pelo que, como é nosso costume, vamos divulgar os resultados da consulta anterior. À pergunta "Quem vai ser o próximo líder do PSD", responderam 276 leitores, repartindo as suas preferências desta forma: Luís Marques Mendes venceu, com 32% (87 votos), Luís Filipe Menezes ficou em segundo e teve 22% (61 votos) e Rui Rio chegou ao terceiro lugar com 14% (39 votos). Nos lugares seguintes ficaram Pedro Santana Lopes (8%, 21); António Borges (7%, 20); Manuela Ferreira Leite e José Pedro Aguiar-Branco (ambos com 6%, 17 votos); e Nuno Morais Sarmento (5%, 14).
Registe-se que o inquérito foi lançado logo na sequência das eleições intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa, minutos após Marques Mendes ter convocado as directas para a liderança. Na altura não estava ainda composto o actual quadro de candidatos, com Mendes, Menezes e o outsider Castanheira Barros, essa grande figura...
O novo inquérito já consta da nossa barra lateral - "Quem vai ganhar o campeonato de futebol 2007-2008?" - e adivinhem quem vai na frente? Eu juro que não votei...

P. S. - João, os seus desejos são ordens.

Na barra lateral...

Reparou por certo o estimado leitor que substituímos o inquérito sobre a disputa da liderança do PSD barra lateral. Sobre o resultado do mesmo, o Francisco Almeida Leite nos obsequiará em breve com o seu comentário aos resultados finais.
Agora, o novo questionário refere-se ao outro mediático circo, desta feita o lúdico campeonato de futebol que tanta paixão irradia, que com tanta discussão nos anima a cada época. Para o bem e para o mal, "a bola" marca inevitavelmente o nosso calendário, quer se goste quer não. Eu sou dos que alinham, dos que o consomem, sem complexos. Já a politica, é diferente, consome-me a mim.

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400 mil

Quatrocentos mil visitantes desde que cortámos a primeira fita. É só para registar.

Porque hoje é sexta-feira


When a man loves a woman

When a man loves a woman
Can't keep his mind on nothing else
He'll trade the world
For the good thing he's found
If she's bad he can't see it
She can do no wrong
Turn his back on his best friend
If he put her down


When a man loves a woman
Spend his very last dime
Tryin' to hold on to what he needs
He'd give up all his comfort
Sleep out in the rain
If she said that's the way it ought to be


Well, this man loves a woman
I gave you everything I had
Tryin' to hold on to your precious love
Baby, please don't treat me bad


When a man loves a woman
Down deep in his soul
She can bring him such misery
If she plays him for a fool
He's the last one to know
Lovin' eyes can't ever see


When a man loves a woman
He can do no wrong
He can never own some other girl


Yes when a man loves a woman
I know exactly how he feels
'Cause baby, baby, baby, you're my world


When a man loves a woman...

(Percy Sledge)

Vinte cidades que jamais esquecerei (XV)


HONG KONG.
"O rochedo mais rico do mundo." (André Malraux)

High in the sky

Joe Berardo voou com a Passarinha. A "estória", apesar do sigilo profissional da hospedeira, é deliciosa...

Sexta-feira


Adriana Lima.

Música de todos os tempos (18)


Gilbert O'Sullivan - "Alone Again"

Pretéritas Sextas (I)

Grace Kelly

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Quinta-feira, Agosto 23, 2007

História de algibeira (27)


A Lapa, bairro “pombalino” hoje no centro de Lisboa, desenvolveu-se após o terramoto de 1755 na sequência do loteamento dos terrenos adjacentes ao Convento das Trinas. Para as suas ruas veio a recuperar-se a toponímia da antiga e arruinada baixa lisboeta. Nos seus limites, e enquanto se desenvolve este dinâmico pólo urbano, em 1763, é construída no espaço hoje ocupado pelo Jardim da Estrela, uma praça de touros. Dezasseis anos depois iniciam-se nos terrenos adjacentes as obras de construção da Basílica da Estrela (na imagem, daqui).

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Música de todos os tempos (17)


Eagles - "Hotel California"
Os Eagles estão de volta. 28 anos depois regressam ao estúdio e à estrada.

Quarta-feira, Agosto 22, 2007

Nas colunas



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Da Hungria, com amor (2)


De uma cultura vivida assombrosa, os húngaros. Perto do crepúsculo, deslumbrados, ouvimos um violinista prodígio com nove anos de idade e que o mundo descobrirá certamente dentro em breve. Ouvimo-lo numa sala de estar de uma casa em Buda. A criança toca lendo uma pauta que praticamente desconhece, com a segurança só possível aos dotados com a aura do puro génio. O resultado emociona-nos. Muito mesmo. Noutra cidade, a 5 quilómetros da fronteira com a Sérvia, um museu expõe gravuras de Goya e de William Blake. Em cada esquina, livrarias e alfarrabistas. O primeiro livro que compro, por acidente ou não, é de um dos melhores poetas húngaros contemporâneos, János Pilinszky. Com poemas como este:

PATHOGRAPHY AND SWANSONG
A white arm from a snow-white mirror,
thin beautiful arm, with persistent force,
with a cold sponge, from the cold glass
tries since eternity to make somebody,
somebody or something vanish.

Da Hungria, com amor (1)

Curiosamente, o que mais me surpreendeu foram as retretes. Na Hungria, alguém algures numa data para mim incerta teve a mais escatológica ideia jamais oferecida ao universo: Colocar o buraco da retrete na extremidade oposta à que é tida como natural no resto do planeta. Talvez fosse vontade de deixar uma marca civilizacional, marcar a diferença. Como se não bastasse a língua capaz de levar ao desespero qualquer especialista em aramaico pré-diluviano. Talvez. Mas fruto de uma personalidade perversa foi certamente, e o homem que registou a patente detentor de uma mente distorcida, bem reflectida nesta tirania da visibilidade intestina.
Na Hungria - ó minha chocada e agora para sempre definitivamente perdida horda de leitores - sempre que libertamos aquilo que as entranhas rejeitam, esse mesmo aquilo tomba e permanece num planalto de louça, imóvel, expectante, em diálogo com os nossos piores receios e maiores incertezas, passível de ser removido pela enxurrada do autoclismo, é certo, mas não sem que antes tenhamos sido confrontados com a inevitabilidade do nosso mais secreto e indesejável interior.
É certo que nenhum húngaro sai de casa sem antes ficar informado, até à exaustão, sobre o seu estado de saúde e tudo o que não conseguiu digerir na refeição anterior, apesar desse milagre vegetal que é a paprika. Mas, ao mesmo tempo, é também confrontado com a maior cacetada ontológica que alguém pode receber. Nós somos o que comemos, como alguém disse. Mas também o que, daquilo que comemos, libertamos. Na Hungria, a retrete é o nosso espelho mais profundo. A porta indesejável que se abre para a saída final.

Tesourinho?



Hoje decidi seguir a sugestão dada por um comentário de I. Rodrigues e fui procurar no Google a música de Nel Monteiro que, de acordo com o nosso comentador, ilustrava a veia contestatária do cantor. Percebi que andava desactualizada.
Há coisas que devem ser partilhadas e os blogues servem para isso mesmo. Por isso, para quem também tenha andado fora deste universo, aqui fica uma pérola, um tesourinho (deprimente?) ou aquilo que lhe queiram chamar.

Nel Monteiro - "Puta vida merda cagalhões”, aqui.

Frases para estampar na T-Shirt (1)

A minha outra mulher é um Porsche.

Na mesma, como a lesma



Antes do relato das minhas peripécias húngaras, confesso que não esperava que a grande causa de agitação - durante o período em que estive ausente - fosse a invasão de um campo de milho por uma organização com nome de cooperativa vinícola e debaixo das barbas de uma GNR complacente. Quanto ao resto, o Benfica trocou de treinador para continuar na mesma, Paulo Teixeira Pinto deixou a Opus Dei e o granel em torno da AG do BCP continua na mesma, o relatório que vinha de Inglaterra ainda não veio e o caso Maddie continua na mesma, a ERC faz mais um relatório a dizer que não passa nada como todos os outros e na mesma continua. Entretanto, Menezes e Mendes cortejam Manuela Ferreira Leite, figura chave para garantir que, no PSD, nada fique diferente. Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, dizia-se durante a invasão de Junot. Nos dias que correm, parece que a única coisa que nos invade é o tédio.

Vinte cidades que jamais esquecerei (XIV)


PARIS.
"Paris é o único lugar do mundo onde um homem civilizado pode viver." (Somerset Maugham)

Wikipédia mexe e é mexida pelos nossos políticos

Depois de José Sócrates, agora é Luís Filipe Menezes que se vê a braços com uma polémica relacionada com o uso da Wikipédia, a maior enciclopédia online do mundo. O "lapso" que o Público revela hoje não é nada bonito. Nada.
A ler:
1. "Menezes", por Paulo Tunhas.
2. "O plagiador de Gaia", por Miguel.

Branco mais branco não há

Segundo o CM, "a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) ilibou, ontem, o primeiro-ministro, José Sócrates, e o seu Gabinete de alegadas pressões sobre órgãos de comunicação social. No entanto, a deliberação não foi consensual. Um dos quatro conselheiros discordou da decisão". Então? Parece que “existem elementos probatórios no processo que revelam a prática por parte do primeiro-ministro (tanto através da sua própria intervenção, como do seu Gabinete) de actos condicionadores do exercício da actividade jornalística, relativamente ao jornal 'Público' e 'Rádio Renascença', lê-se na declaração de voto de Luís Gonçalves da Silva, da ERC, que esteve contra a deliberação".
Absolutamente impecável a investigação da ERC. Diria mesmo muito limpinha. Assim é que é, um País muito arrumadinho e asseadinho. O membro da ERC que votou contra enganou-se, pela certa. Deve andar muito distraído...

Terça-feira, Agosto 21, 2007

Um Governo sem ninguém ao leme

Uma das coisas que mais me espanta no caso da Herdade das Lameiras é o completo desnorte político que, em dois ou três dias, este Governo deixou vir à tona. O problema desencadeado com a invasão de uma propriedade privada por uma série de anarco-ecologistas é bem mais grave do que à primeira vista se possa crer.
Primeiro, deixa à vista de todos que a jogada de José Sócrates, ao tirar António Costa do Executivo, foi, para além de arriscada, um autêntico flop estratégico. Para ter uma espécie de "mini-executivo socrático" na Câmara de Lisboa, desguarneceu o Governo de Portugal, ao amputá-lo do seu número dois. Ao retirar o ministro de Estado e da Administração Interna do Governo, substituindo-o por essa nulidade política chamada Rui Pereira, Sócrates deu o flanco, como agora se provou. Com o primeiro-ministro algures de férias, e sem número dois, o Governo dividiu-se em duas frentes, uma comandada pelo infeliz Pereira e outra pelo desnorteado Jaime Silva, ministro da Agricultura.
Só para se ter uma ideia, ontem o disparate político atingiu o auge. Jaime Silva foi visitar a herdade que foi invadida, acompanhado pelas televisões e pelo proprietário - que entretanto sofreu um AVC por causa do episódio - e acaba o passeio a atacar o Bloco de Esquerda, em vez de propor medidas imediatas para ressarcir o senhor dos danos que lhe foram causados. À noite, Rui Pereira, num esforço inglório para amparar a queda, vai à SIC Notícias explicar a posição do MAI. E, perante a insistência de Mário Crespo, entra no dislate. Da boca do ministro ouvi coisas como: não se pode intentar com nenhuma acção contra os manifestantes, pois o crime é semi-público e não houve queixa formal; não é grave só terem sido identificados seis dos cento e tal manifestantes, porque afinal são "os porta-vozes"; e ainda que há gente para tudo, até para defender animais e atacar pessoas. Isso mesmo, quem diria. Um ministro que fala assim, é o quê?
A segunda parte do problema é uma dúvida que me assola, desde ontem: como é possível Jaime Silva, membro de um Governo de maioria PS, ter atacado como atacou o líder do BE, Francisco Louçã, e a coligação para a Câmara de Lisboa ainda estar de pé? Ainda há quem se queixe das novelas da Globo não terem concorrentes à altura...

O imperador da música pimba (no mínimo)

Depois de clássicos como “Quero Cheirar Teu Bacalhau”, “Mestre de Culinária”, “Apita o Comboio”, entre outros, Quim Barreiros presenteia-nos com mais uma letra de uma simplicidade assombrosa. E ainda há por aí quem se ponha a musicar poemas de Fernando Pessoa ou Florbela Espanca…

O meu pópó no teu pipi
O teu pipi no meu pópó
O meu pipi no teu pópó
O meu pópó no teu tutu
O teu tutu no meu pópó
O meu pópó no teu pópó
O teu pópó no meu pópó
O meu pópó no teu pipi
O teu pipi no meu pópó…
(Ou qualquer coisa assim…)
Se o outro era considerado e se autointitulava de rei da música pimba (o Emanuel), este só pode querer ser o imperador, não?

Vinte cidades que jamais esquecerei (XIII)


AMESTERDÃO.
"Enquanto ia atravessando a ponte, lembrou-se de novo como Amesterdão era uma cidade calma e civilizada." (Ian McEwan)

Agosto

Que vento! No areal vai estar desagradável, detesto levar com areia na cara. Melhor apanhar sol na esplanada, naquela que tem uma protecção ideal para estes dias. (...) Oh!! Está cheia!

Podia rumar até ao meu bar de praia favorito. Esse é grande, nunca enche completamente, mas isso implica ir de carro e a esta hora apanho engarrafamento. Melhor nem tentar. Fico aqui mesmo, na rocha, a apanhar sol. (...) Cheira a fruta podre aqui. Que chatice! No início da época limparam a praia, mas agora isto já está um esterco. Desisto. Vou mas é para aquela tasquinha que descobri há tempos. Tem um pica-pau fabuloso. Fica escondida, só a gente daqui é que a frequenta, de certeza que tem lugar na esplanada. (...) Cá está ela! E a esplanada vazia! Vazia? Não me digas que... Oh, não! Fechada para férias!

Marcelo sobre o seu ex-amigo Portas

"O CDS tem tido uma história negra. Ribeiro e Castro assumiu uma liderança quase impossível. Não mandava no partido, a mensagem não passava, foi um compasso à espera de Paulo Portas. Este voltou cedo demais. Não tem a frescura de há dez anos. Se olharmos para a sua postura formal, passou do jovem irreverente e rebelde para o ministro de Estado de fato cinzento às riscas, continuou como comentador de fato cinzento às riscas na SIC Notícias, e agora deitou fora a gravata e quer continuar a ser o menino que era, só que já não é. O CDS está muito fragilizado e não tem tido a coragem de dar um salto tipo Pires de Lima. Não sei que milagre Paulo Portas vai fazer".
Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista ao Diário Económico

Let's fly

O Corta-Fitas aplaude o regresso da aeromoça, como dizem os brasucas, que faz o blogue A Passarinha.

Momentos Kodak (56)

Sejam de esquerda ou de direita, quando chego a uma urna para votar, procuro sempre o menos mau. Serei o único a pensar e a sentir isso?
(Abril 2005)
Fotografia: Rodrigo Cabrita

A barbearia

Quando era pequeno, ir à barbearia do bairro era um ritual da minha masculinidade. Nem sempre voluntário, mas periodicamente inevitável, quando a juvenil guedelha hirsuta assim o exigia. Ao princípio ia com a minha mãe, que me entregava aos cirúrgicos cuidados do barbeiro e logo saía apressada, talvez pouco à vontade, talvez para fazer outras coisas úteis. Percebo perfeitamente, pois eu também não me sentia bem no território feminino, quando infortunadamente era obrigado a acompanhar a minha Avó ao cabeleireiro Brito & Brito, na Avenida da Liberdade. Eram momentos de sufocante opressão, com a ideia clara de que era um intruso naquele ambiente assexuado a cheirar a laca e a verniz. Espantavam-me aqueles estranhos capacetes espaciais, com as circunspectas senhoras debaixo, de dedos em riste pintados de fresco. Eram todos aqueles rolos, papelotes e turbantes na cabeça que me deixavam verdadeiramente intimidado, estarrecido.
O que me lembro do meu barbeiro ali na Rua Almeida e Sousa em Campo d’Ourique, era das suas mãos lavadas e relógio dourado no pulso. Sempre de impecável bata branca e de conversa fácil, com os seus dedos duros e frios a endireitarem firmemente a minha cabeça fugidia. Lembro-me das pinceladas de sabão morno, e do raspar da navalha afiada na nuca e nas patilhas inexistentes. Era parte dos procedimentos. Lembro-me do fatal calendário de “garagem” com uma loira bem curvada, do horário e dos diplomas emoldurados. Também sobressaiam, ao lado dos grandes espelhos, umas fotografias a preto-e-branco de garbosas e antiquadas cabeleiras, bem penteadas com Bel Hair ou Restaurador Olex. Fascinavam-me também os pesados cadeirões em ferro pintado, onde me sentava soerguido num caixote “adaptador” para as crianças pequenas. E do estofo de cabedal redondo, que com duas espanadelas, se virava do avesso para assento do cliente seguinte. Naquele pequeno espaço, os homens comentavam as banalidades da política e do futebol, ao som do Rádio Clube, com as tesouras sempre a cortar, a cortar, em golpes ritmados, tchic, tchic, tchic, tchic. Depois, vinha aquela pergunta redentora: “o cabelinho é para molhar?” Finalmente o sacrifício acabava, era tempo de voltar para as brincadeiras, para casa ou para a praceta, com os cabelos caídos a picar nas costas.
Um dia destes, aburguesado e imprudente com as pressas, descobri perto do escritório um moderníssimo Cabeleireiro de Homens, cheio de paninhos quentes e inauditas mordomias. Surpreendi-me logo com o pretensioso recepcionista, de modos efeminados, casaco fantasia e gravata Disney que confirmava a marcação. Sentado na sala de espera, procurei em vão literatura apropriada, o Record ou o Correio da Manhã para me entreter. Só descobri as brochuras dos milagrosos produtos capilares. Logo uma menina, de rabo bamboleante, se abeirou de mim perguntando-me se eu queria arranjar as unhas... Eu, arranjar as unhas?!? Notei também as conversas dum cliente com a manicura, talvez um bem sucedido gestor de Import - Export, que me soou excessivamente íntima. O homem emitia confiantes e bombásticas opiniões, sobre a política e as finanças “de cordel”. Quando, de cabelos lavados, cheguei às mãos da decotada cabeleireira, balbuciei que não queria modernices, o que a deixou visivelmente contrafeita. Depois, veio uma jovem estagiária oferecer uma massagem capilar... e um café. No final paguei 25.00€. Nunca me saiu tão cara uma bica...
Duas semanas depois, quando o cabelo mal cortado definitivamente não assentava mais, decidi-me a visitar o velho e fiel barbeiro aqui de S. João do Estoril. Decidi-me a perder uma manhã de Sábado a ler o Record e o Correio da Manhã, e cortar o cabelo como deve ser. Ouvindo o Jogo da Mala e o Bola Branca em ondas médias, sem paninhos quentes ou embaraçosas mordomias. Afinal um conservador é um conservador.

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Segunda-feira, Agosto 20, 2007

Música de todos os tempos (17)


The Rolling Stones - "Fool To Cry"

Cavaquês

"Portugal tem um problema orçamental e deve corrigi-lo o mais depressa possível"; "é preciso gerir com muita eficiência e rigor os recursos disponíveis".
Aníbal Cavaco Silva sobre a necessidade de correcção do défice.

"A violação de propriedade privada é uma violação da lei e espero bem que as autoridades competentes não deixem de fazer as investigações necessárias"; "não pode restar quaisquer dúvidas de que lei em Portugal é para ser cumprida e quem tem o poder para a fazer cumprir não pode deixar de utilizá-lo".
O Presidente da República, sobre a invasão da Herdade da Lameira.

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Estas duas declarações, verdadeiramente determinantes no momento em que são produzidas, revelam mais uma vez um Presidente da República diferente da análise de alguns comentadores. Cavaco Silva pode falar pouco, mas quando fala marca a diferença. Não dá ponto sem nó. Faz por ser decisivo. Se pontuasse as suas intervenções como fez Mário Soares tornava-se repetitivo, interveniente em demasia, incomodativo até. Se fizesse da sua prática discursiva o que Jorge Sampaio fez, tornava-se monótono, circular e pouco objectivo. O "cavaquês", ao contrário do "sampaiês" ou do "soarês" (ou devo dizer "suaréz"?), é directo, perceptível e com um objectivo central: o de obter resultados.

Ao ter dito o que disse sobre a infeliz invasão da Herdade das Lameiras, Cavaco Silva quis deixar claros dois pressupostos. Primeiro, é preciso que se investigue como foi possível aquela invasão, acompanhada de câmaras de televisão, acrescento. Se lá estavam, é porque foram avisadas e porque a invasão estava a ser programada há muito. Ou seja, se as televisões sabem, a GNR também já deveria saber. Logo deveria ter actuado antes do acontecimento, de forma a evitá-lo.

Ponto dois: quando o PR diz que quem é detentor do poder deve saber "utilizá-lo", está subjacente, para mim, um mais que óbvio puxão de orelhas. A autoridade é para ser exercida, com responsabilidade.
Assim, de repente, apetece-me lembrar a quem anda distraído que o Presidente da República, só nos últimos tempos, vetou o novo Estatuto do Jornalista, a lei das incompatibilidades da Madeira voltou para trás e ainda teve dúvidas sobre o acesso do fisco às contas dos particulares. Quem disse que Cavaco Silva está quieto e calado?

O assalto e o papel da GNR

Ainda sobre o caso de Silves, que o Duarte já aqui ontem abordou, registo que, desta vez, Marques Mendes esteve bem ao exigir explicações do ministro da Administração Interna e do próprio primeiro-ministro sobre a invasão de uma propriedade por parte de uma série de irresponsáveis que deitaram abaixo uma plantação particular de milho transgénico. O presidente do PSD sugeriu ainda que deve haver uma reunião da comissão permanente da Assembleia da República sobre o assunto.
Parece que o ministro Jaime Silva, responsável pela pasta da Agricultura, vai hoje visitar a Herdade da Lameira, onde atacaram os "activistas". É pouco, digo eu. Porque o caso não tem só a ver com a contestação aos organismos geneticamente modificados, a legalidade ou a ilegalidade da plantação. Para mim, tratou-se de uma invasão de propriedade privada, que ainda por cima foi filmada em directo e a cores pelas televisões, pela certa devidamente avisadas pelos "activistas". Nessas filmagens o que eu vi foi uma GNR passiva, nada actuante perante um bando de encapuçados e com uma única preocupação: aparecer bem nas televisões. Ora, este é um caso que mina a autoridade do Estado, deixa-nos a todos nós preocupados com o que será a actuação de uma força de segurança num caso que se passe connosco. Com as nossas terras, os nossos bens, as nossas vidas. Em mais uma coisa estou de acordo com Mendes: tem que haver consequências. Uma força que actua com aquela passividade e bonomia numa invasão só pode estar corroída pela inércia e pelo desrespeito à sua função legal. Isto ainda é um Estado de Direito, ou não?

Chicote

Parece que o homem que ficou conhecido por "engenheiro do penta" vai deixar aquele clubezeco do outro lado da Segunda Circular. Que pena, eu achava que ele era uma mais-valia...

Domingo, Agosto 19, 2007

A estupidez num campo de milho


Sou completamente contra os transgénicos e, por isso, acho que há poucas coisas mais estúpidas do que destruir um campo onde eles são cultivados. Os manifestantes poderiam ir lá, chamar a Imprensa, fazer um número qualquer, destruir simbolicamente duas ou três maçarocas, mas fazer aquela invasão num país com memória de pequenos proprietários rurais, onde quase toda a gente tem, ou teve, um "quintalinho" ou uma horta (ou são os pais, ou os irmãos ou cunhados ou os amigos que têm) e destruir "o fruto do trabalho" é de uma imbecilidade exasperante. Ainda se a propriedade pertencesse a um grande latifundiário, um banco ou algo do género, em termos de opinião pública, e não de legalidade, seria um pouco melhor. Mas não há nada a fazer, esta gente destrói tudo o que toca com a sua estupidez militante.

Silly, me?

O João Gonçalves acha que é silly. Chama-lhe o que quiseres, eu acho que não é. Uma deputada que tem dois filhos ameaçados de morte e que apresenta queixa na GNR e na PJ é notícia em qualquer parte. Nos jornais de referência, nos mais populares, nas televisões ou nas rádios. Foi aliás isso que também fizeram, depois da tal notícia em primeira mão, a TSF, a RTP e a Lusa.
O que querias que se fizesse? Que se silenciasse? Que não se desse importância por se tratar de uma pessoa que toma parte no processo eleitoral em curso no PSD? Esse não é o caminho. Os órgãos de comunicação social servem para informar. Com verdade e com qualidade.

O poder na rua II

Fico atónito com as irresponsáveis declarações de Miguel Portas na última página do DN de hoje, relativizando e justificando o acto de vandalismo de Silves na passada sexta-feira. Pergunto-me se esse senhor, que é bom de ver, milita no Bloco de Esquerda, acharia bem que um grupo de zelosos marginais, encapuçados por razões estéticas, pegasse fogo ao seu automóvel, perigoso poluidor da comunitária atmosfera.

Imagem daqui

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Cinema Nostalgia (7)


O filme começa com ele (Jacques Perrin) no quarto com a mulher. Supõe-se que com uma das várias que já teve. Se houvesse verdadeira cumplicidade entre os dois, provavelmente não se teria fechado quanto ao motivo da viagem que teria de fazer no dia seguinte à sua terra natal, algures na Itália profunda. Mas a verdade é que só nós passamos a ter o privilégio de saber o que ele esconde. E o que ele esconde é provavelmente o sentimento que os homens têm mais dificuldade de assumir entre si. Falo de ternura.
A ternura entre dois homens heterossexuais é sempre tão difícil de gerir... É isso que nos comove em Cinema Paraíso, aquela amizade entre ele e o velho projeccionista cimentada pela paixão comum pelo cinema. Um amor construído aos repelões, tão desajeitado como o amor entre dois machos pode ser, sancionado apenas pelo fosso geracional que lhes permitia, enfim, uma certa liberdade, a mesma que é concedida a pais e filhos.
E foi com a autoridade moral de um pai que Alfredo - a personagem inesquecível de Philippe Noiret - tantas vezes o escorraçou da cabine de projecção, a defendê-lo do sacrilégio do cinema, daquela escravidão. Um esforço inglório, como se viu... e que nós celebramos a partir da plateia, conscientes como em nenhum outro filme do poder hipnótico do cinema...
A par desta bela amizade assistimos ainda à descoberta do amor romântico com a música de Enio Morricone em fundo, sempre ela. É impossível não nos comovermos com a generosidade daquele coração musculado por dezenas e dezenas de fade ins e fade outs a pontuar os melhores momentos de tramas onde os heróis mostram como se conquista uma dama. Tivesse ele passado a infância a jogar à bola e seria capaz de ficar assim, noite após noite, de olhos presos naquela janela?
São escassos os momentos em que a acção nos conduz ao tempo presente. Mas embora não estejamos a vê-lo deitado, distraído da mulher que tem ao lado, é sempre através dos seus olhos que assimilamos tudo. Daí a nostalgia, sempre tão evidente e a nossa situação de privilégio que nos permite adivinhar até o somatório de amores sem história que lhe aconteceram desde então e o transformaram no parente improvável daquele adolescente com tanta capacidade para amar. Cinema Paraíso, a obra-prima de Giuseppe Tornatore, realizada em 1988, e que venceu o Óscar para melhor filme estrangeiro e o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes, é uma das histórias de amor mais bonitas a que alguma vez assisti. Pena obrigar-me, de cada vez que o revejo, a puxar do lenço na cena final. A dos beijos, pois!

A política e a Fórmula 1

JN - 'Anda por aí' ou ainda está nas boxes?
PSL - Se vir a política como uma prova de Fórmula 1, é impressionante como cada vez se demora menos tempo a ir às boxes. Mas não deve regressar-se à pista antes de o reabastecimento terminar. E deixar passar quem quer e pode voltar primeiro.

Pedro Santana Lopes, em entrevista na última página do Jornal de Notícias

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É caso para dizer: Vrrrruuuuuummmmm...

Trinta anos sem Groucho


Era o meu cómico favorito: nunca houve outro como ele. Groucho Marx morreu faz hoje 30 anos. Deixou um riquíssimo legado no capítulo do humor - não só nos filmes que interpretou com os seus irmãos, mas também em livros cheios de máximas irónicas e corrosivas que nos fazem sorrir com gosto. E por vezes até irromper em gargalhadas.
Eis duas das minhas preferidas:
"Nunca me esqueço de uma cara, mas no seu caso abrirei uma excepção."
"Estes são os meus princípios. Se não gostarem, tenho outros."
Há ainda o célebre epitáfio dele, apócrifo ao que consta, mas nem por isso menos delicioso. E dentro do melhor espírito marxista - tendência Groucho:
"Peço-vos perdão por não me levantar."
Existirá algum melhor? De morrer a rir...

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 12, 49-53

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

Da Bíblia Sagrada

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Vinte cidades que jamais esquecerei (XII)


VIENA.
"Uma maravilha de serenidade." (John LeCarré)

Sábado, Agosto 18, 2007

A tirada das elites, segundo Marcelo

"Elites. Infeliz a a crítica de Paula Teixeira da Cruz a Menezes: com a sua vitória, as elites sairiam do PSD. Por vir de uma recém-derrotada em Lisboa; por avivar a errada clivagem Mendes versus Menezes=elites versus bases; porque as elites não saíram com Santana Lopes em S. Bento. O problema seria outro e não o da saída das elites. Confundir os dois é um mau serviço de Paula a Mendes".
Marcelo Rebelo de Sousa, Sol
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Mesmo tendo escrito isto, o professor diz que o serviço era "bem intencionado". "Como sempre", acrescenta. Fica a pergunta: e se não fosse bem intencionado? Havia de ser bonito. O problema no PSD tem sido este, que Marcelo pôs a nu. É tudo muito bem intencionado, só que os planos saem quase sempre furados e com grandes prejuízos para o partido laranja. Lisboa foi um exemplo disso mesmo.

Mendes no Pontal, segundo VPV

"Marques Mendes a cumprimentar os militantes de mesa em mesa (uma hora segundo um jornal, 20 minutos segundo outro) é a própria imagem do desespero. Alguém lhe devia ter dito que ficasse quieto ou mesmo que ficasse em casa, como fizeram, e muito bem, as notabilidades do partido".

"O discurso de Marques Mendes, demagógico e absurdo, não o recomenda para primeiro-ministro. Um comício desvaloriza por definição qualquer crítica séria, muito especialmente se ela vem à mistura com propostas como o reforço da Junta Metropolitana do Algarve, que não passa de um recado grosseiro a uma audiência de ocasião".

"No Pontal, Marques Mendes perdeu autoridade, sem ganhar um voto. E permitiu até que o inconcebível Bota o acusasse com alguma verosimilhança de oportunismo e de inconsequência".
Vasco Pulido Valente, Público
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Há uma semana critiquei aqui o VPV, o colunista que mais admiro e o único que acho genuinamente imperdível, por não conseguir ver os erros enormes que Marques Mendes tem cometido à frente do PSD. Na edição de hoje do Público, VPV conseguiu analisar com frieza e distância o que se passou na Festa do Pontal. E não se limitou a fazer como José Pacheco Pereira, para quem algumas conversas de day-after chegaram para zurzir nos jornalistas e culpá-los pela má figura do líder do PSD no Algarve, sobejamente retratada na imprensa. Embora tenha visado Marques Mendes como nunca o vi fazer, VPV de certeza que leu os jornais, viu as televisões, falou com pessoas e foi construindo a sua opinião ao longo da semana. Arrasou Menezes e Mendes Bota de caminho, mas deixou Mendes em muito piores lençóis. Embora VPV tenha dito há dias ao Diário Económico que Mendes e Mário Soares eram praticamente os únicos que tinham uma espécie de casca dura para não cortarem relações com ele, apesar da violência dos seus escritos, eu acho que este artigo abriu feridas profundas. Mendes pode ser para VPV o tal "homem civilizado e amável", só que não deve esquecer o que está plasmado naquele artigo. Um retrato fiel do que se passou lá em baixo e um aviso para o tipo de política que esta direcção do PSD está a fazer. Um aviso destes, vindo de quem vem, tem que pelo menos ser levado muito a sério.

Postais blogosféricos

1. Parabéns ao Eclético: quatro anos em grande forma.
2. Gosto deste blogue: entrada directa na nossa barra lateral.
3. Bom Fim de Semana é nome de blogue, também já nos nossos favoritos. Só podia, por ser tão bom.

O poder na rua

O sucesso da democracia liberal depende de uma justiça independente, funcional, e de um estado “curto” mas firme. Sobre a Justiça estamos conversados, com o impune assalto à plantação de milho ontem em Silves por um grupo de malfeitores, qualquer ilusão sobre a vulnerabilidade do regime fica desfeita. E se a moda pega?

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Tertúlia literária (216)

- Vi-te noutro dia com uma miúda bem gira. O que faz ela?
- É romancista.
- Ah. E quantos livros já escreveu?
- Até agora, nenhum. Mas era morena e já se tornou loura. Promete vir a ser um best-seller.

Vinte cidades que jamais esquecerei (XI)


MAPUTO.
"Viu a baía de Lourenço Marques pela última vez, viu os coqueiros da marginal pela última vez, viu os aluviões sujos da Costa do Sol pela última vez, mesmo sabendo, anos depois, que aquela não tinha sido a última vez, porque aquela luz não lhe saíra dos olhos, não o abandonara nunca, não poderia abandoná-lo porque o ferira para sempre." (Francisco José Viegas)

Sporting na pole position

O circo começou e ontem marquei presença no Sporting vs. Académica em Alvalade, jogo de arranque do campeonato 2007/2008. Após uns primeiros minutos titubeantes, logo a equipa da casa cresceu, chegando, durante o segundo tempo, a mostrar um futebol escorreito quase espectacular. O Sporting não deu uma goleada das antigas por azelhice do Liedson. Em campo, confirmou-se a mestria do Miguel Veloso que se nada de anormal acontecer será certamente a grande figura da nova época. De resto, confirma-se uma equipa coesa e afirmativa à imagem do último terço do campeonato passado, apesar das “deserções”. Gostei do Simon Vukcevic a tentar fazer esquecer Ismailov, rápido, com técnica e com um óptimo pé esquerdo. Finalmente uma palavra para Derlei: ou muito me engano, ou neste campeonato o homem vai fazer história.

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Sexta-feira, Agosto 17, 2007

Cuidado não se aleijem

Até tem uma certa graça ver os nossos queridos "libertários" assim engalfinhados... aqui e aqui.

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Porque hoje é sexta-feira

"- O sargento ajudante Barrousse acaba de ser morto, meu coronel - disse de uma assentada.
- E então?
- Foi morto quando ia a procurar o carro do pão na estrada Des Etrapes, meu coronel.
- E então?
- Foi despedaçado por uma granada!
- E então, com mil raios?!
- Só isso meu coronel...
- É tudo?
- Sim, é tudo, meu coronel.
- E o pão? - perguntou o coronel."
Céline in "Viagem ao Fim da Noite"

Vinte cidades que jamais esquecerei (X)


ROMA.
"Quem alguma vez tenha amado Roma, como só é possível amar quando se é jovem, jamais quererá deixar de a amar."
(Henry James)

A não perder...

O Museu da Electricidade recebe, pela primeira vez, as exposições das fotos vencedoras do 7º Prémio Fotojornalismo VISÃOBES e do World Press Photo 2007. A inauguração foi ontem e a exposição poderá ser visitada até dia 9 de Setembro, de domingo a quinta-feira, das 10h00 às 20h00; sextas e sábados das 10h00 às 22h30.
A não perder... até porque estão lá imagens de alguns fotógrafos do Corta-Fitas!

Momentos Kodak (55)

Mímica: arte de exprimir os pensamentos e/ou os sentimentos por meio de gestos. Terá esta senhora conseguido passar a mensagem?
(Outubro 2006)
Fotografia: Rodrigo Cabrita

A mais bela bandeira do mundo outra vez


Durante o Euro 2004 fui daqueles que entraram na histeria das “bandeiras à janela”. Além de gostar de futebol sou um sentimental patriota. Este sentido prevaleceu sobre o (mau) gosto que para mim representa a bandeira republicana. E ela por lá foi ficando, a flapejar de noite e de dia, estranhamente resistente às intempéries. Esse pequeno “milagre” e a minha inércia fizeram com que durante tempo demais eu tenha propagandeado umas cores que não gosto. Até ontem. Aquela privilegiada janela há muito que merecia uma bandeira diferente e que finalmente arranjei: a mais bela bandeira do mundo.

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Sexta-feira



Megan Fox.

O leitor corta fitas

Convém dar uma olhada ao debate originado por este inocente (?) texto da nossa Teresa Ribeiro. Tantos comentários a fazer concorrência ao mais fracturante e provocador post do João Villalobos. É o Corta-fitas como espaço de debate de ideias.

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Música de todos os tempos (16)


Jane Birkin & Serge Gainsbourg - "Je T'aime... Moi Non Plus"

Quinta-feira, Agosto 16, 2007

Tenho que ir apanhar umas conchas

Se alguém alguma vez me perguntasse qual é o meu restaurante preferido eu responderia sem hesitar que é do da Fábrica. Mas se o Duarte Calvão, agastado, me questionasse sobre a comida e o serviço, eu teria que lhe explicar que a expressão "favorito" é dúbia.
É certo que o arroz de lingueirão ali servido é bom, mas não é isso o principal. O principal é ir jantar de chinelos, areia nos pés e sal no corpo para ver o espectáculo do fim de tarde na ria Formosa, ouvir o ar ficar silencioso e baço e, nas línguas de areia e água, o fervilhar e borbulhar de tantas formas de vida. E, como sou portuguesa, empanturrar-me com aquela beleza toda porque nunca sei quando é que tudo acaba por causa de uma construção, um tapume, um miradouro, um ciber-café.
Não levo computador para sentir a falta, mas guardem-me um lugar no jantar. Até já.

Rentrée

O jantar Corta-Fitas que irá marcar a nossa rentrée vai realizar-se em Setembro. Logo na primeira semana. Mais adiante serão dados alguns pormenores aos principais interessados.

Os tugas (30)

Casal de meia-idade. Vêm do supermercado. Ele à frente, ela atrás. Ele de mãos nas algibeiras e palito na boca, ela segurando quatro sacos carregados de compras.
Às tantas, um dos sacos escorrega-lhe e cai no chão.
Logo ele:
- Caralho! Estás sempre a deixar cair essa merda.
Logo ela:
- Caralho! Porque é que não os levas tu?
E lá seguem ambos, a resmungar entre dentes. Ela atrás, com os sacos. Ele à frente, de mãos nos bolsos. Inseparáveis.

A ver

A televisão via Internet é já uma realidade por esse mundo fora. E Portugal não ficou atrás, sobretudo em termos noticiosos. Eu fui descobrir o que está dentro daquela caixinha, em directo, de hora a hora, e devo dizer que até gostei. A TV Net é uma excelente ideia e vale a pena.

Tertúlia literária (215)

- Camilo ou Eça?
- Essa que usa decotes até ao umbigo. Tem aspecto de saber escrever melhor.

Rapariga de Olhão

Alguém me explica porque é que a cantora Melanie C está frequentemente a actuar em Portugal? Nem o Festival de Olhão, ontem, lhe escapou. Mas o que é certo é que a ex-Spice teve a sua piada ao interpretar o nome da cidade. “Para mim é o Festival do Olho Grande”.
Digam lá que a rapariga não tem "Olhão"?

Tristes análises

"Tudo na festa do Pontal foi montado. A inocência deveria andar por lá perdida à procura de uma outra inocência para haver dois à mesa. O espectáculo mil vezes treinado, mil vezes ensaiado, feito para as câmaras, para os jornalistas, resulta sempre. No fundo, o que é que há para ver senão o espectáculo? E quando o espectáculo é um concurso em que só um fica à frente, como é que não pode deixar de haver "vencedores" e "vencidos" quando o mundo é uma arena? Triste representação para um triste jornalismo, feitos um para o outro. Enquanto no PSD não se compreender que tudo isto é um sinal de decadência, que dali não pode sair nada que aumente a sua credibilidade, a ferida quase mortal que o partido arrasta desde os tempos de Barroso-Lopes, não se vai a lado nenhum".
José Pacheco Pereira, no Abrupto

Mesmo sem ter estado na Festa do Pontal, que se realizou na passada terça-feira à noite, JPP não se inibe de comentar o que lá se passou. Baseado, quem sabe, em fontes de um dos lados. Os jornalistas, ao menos, estiveram lá. No terreno. Sabem do que falam. Acompanharam a evolução dos acontecimentos. Falaram com as pessoas. Afinal, Durão Barroso enganou-se quando chamou Zandinga a Santana Lopes no congresso do ano 2000. O PSD tem mais videntes...

Um poema de Torga para a ministra ler


Depoimento

Deponho no processo do meu crime.
Sou testemunha
E réu
E vítima
E juiz.
Juro
Que havia um muro
E na face do muro uma palavra a giz.
MERDA! – lembro-me bem.
– Crianças... – disse alguém
que ia a passar.
Mas voltei novamente a soletrar
O vocábulo indecente,
E de repente
Como quem adivinha,
Numa tristeza já de penitente,
Vi que a letra era minha.

(Do livro Câmara Ardente, 1962)
.........................................
ADENDA: excelente, esta reflexão do Francisco José Viegas. Com um título que não podia ser mais apropriado: "A memória não se apaga, mas o esquecimento é indigno"

Vinte cidades que jamais esquecerei (IX)


QUIOTO.
"Que cidade imensa, esta Quioto, que ocupa com os seus parques, os seus palácios, os seus pagodes, quase a superfície de Paris!"
(Pierre Loti)

Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Cinema Nostalgia (6)

Já aqui falei da minha actriz. Ou melhor, da primeira vez em que, muito miúdo, me apercebi da existência de uma mulher que se desdobrava de filme em filme – a inesquecível Jennifer Jones. Interpretando papéis diferentes, mas com características únicas, imutáveis. Nessa mesma altura, cinéfilo imberbe, conheci também o meu primeiro actor. Falava um idioma diferente do de Jennifer, mas tão fascinante como o dela. E com um rasgo de mistério comparável ao que a intrigante intérprete de Desde que tu Partiste irradiava no ecrã. Gérard Philipe – é dele que falo – tinha uma aura diferente dos astros de Hollywood. Talvez por ter morrido muito cedo, em circunstâncias trágicas. Parecia-me uma espécie de milagre vê-lo ali, renascido em celulóide, quase um fantasma em assombrosas sequências de chiaro-scuro, expressionistas como poucas, nos dois filmes dele que me cativaram para sempre. Eram ambos assinados por René Clair – “o mais francês dos cineastas”, como lhe chamou Georges Sadoul -, um homem que teve o mundo do espectáculo a seus pés e que as plateias de hoje praticamente ignoram.
Se um dos maiores atributos de um realizador é tornar imortais os seus actores, Clair tinha pelo menos esta qualidade indiscutível. Gérard sobressaía em cada cena – pela figura esguia, pelo rosto anguloso, pelo olhar tremendamente expressivo que nos transmitia a sensação de um ser atormentado pelas encruzilhadas do destino. E sobretudo pela voz – aquela dicção perfeita, que me aumentava a vontade de aprender francês. Língua fora de moda, dizem uns tantos, como se isso alguma vez fosse possível.


Já tinha falecido há muito, na flor da idade, quando o conheci. Primeiro ao lado de Michel Simon – outro gigante do cinema gaulês – em O Preço da Juventude, espantosa recriação do Fausto, de Goethe. Gérard, tentado pelo Mefistófoles-Simon, vendia a alma para obter a ilusão da eterna juventude. Prodigiosa ironia de que só o cinema é capaz: um actor atraiçoado pela vida encarnando na tela alguém que sobrevive a toda a erosão do tempo.
Apetecia-me falar em realismo mágico a propósito deste filme se o termo não tivesse já sido apropriado até à exaustão por tudo quanto cheire a literatura latino-americana. Mas é ainda esse termo que para mim melhor define a outra película de Gérard Philipe que jamais me foge da memória: O Vagabundo dos Sonhos. Personagem errante, ao jeito de um Mersault de Albert Camus, irremediável inadaptado num universo em convulsão. Parecia deste mundo mas já não era deste mundo, o malogrado Gérard Philipe. Como Camus, como Boris Vian, como Martine Carol, sua parceira neste filme. Morrem cedo os que os deuses amam, é bem verdade.
Nunca mais voltei a vê-lo. Nem sequer nas Ligações Perigosas (com Jeanne Moreau), que viria a ser o seu filme-testamento. Mas de vez em quando escuto-o ainda. Numa velha e preciosa gravação de Pedro e o Lobo, de Prokofiev. Gérard Philipe é o narrador: entre trechos musicais que sei de cor desde criança, chega-me de novo a sua dicção perfeita, uma e outra vez, para todo o sempre, ficando a ecoar no infinito.

Gostei de ler

Tudo em aberto. Do Carlos Manuel Castro, no Tugir.
A cartilha. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
Os longos braços da censura socrática. De Vasco de Carvalho, no Zero de Conduta.
Lições de democracia e de Estado de Direito. De Miguel Morgado, n' O Cachimbo de Magritte.
Desproporcionalidade. Do Eduardo Pitta, no Da Literatura.
Ainda o Tribunal Constitucional e o sigilo bancário. De Paulo Gorjão, na Bloguítica.
Portugal para o português. Do Sérgio Lavos, no Auto-Retrato.
Vestir a camisola. Da Paula Sanchez, em À Coca... em Lisboa.
O direito à memória. Da Leonor Barros, na Geração Rasca.
Venezuela, reforma constitucional. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.
O argumento do bom gourmand. Do Vasco M. Barreto, n' A Memória Inventada.
Efervescências. Do Pedro Soares Lourenço, no Arcádia.
Memórias. Do José Bandeira, no Bandeira ao Vento.
Os cães. De Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos.

Eu vi este homem! Várias vezes, só hoje.

O "El solitário" nacional é pequeno como a sardinha, modesto como a casa portuguesa e não-violento como a revolução dos cravos. Apesar disso, está a ser procurado.
A descrição divulgada pela polícia é sumarenta: "português, branco, tem entre 48 e 58 anos, é magro mas com uma ligeira barriga, mede entre 1,68 e 1,73 metros e tem o cabelo grisalho alourado, embora esteja quase careca na parte superior da cabeça".
Aguardo com expectativa detalhes, do tipo valores da sua tensão arterial, a unha do dedo mindinho mais comprida, um sotaque da Beira ou uma pulseira de ouro com uma chapa a dizer Serafim; caso contrário, sinto-me obrigada a denunciar o sr. Mateus da banca de jornais, o dono da churrascaria, um jardineiro, sete homens com quem me cruzei nas Amoreiras, vários utentes da blogosfera e um tio materno.

O inferno são os outros

O que mais me surpreendeu nesta entrevista de Paula Teixeira da Cruz, e também nesta, foi a total ausência de mea culpa, por parte da líder do PSD/Lisboa, em todo o descalabro que conduziu à queda do executivo municipal na principal autarquia do País, à retirada da confiança política em Carmona Rodrigues e à humilhante derrota do partido na capital, onde obteve o pior resultado de sempre. Como se ela não tivesse rigorosamente nada a ver com o assunto e apenas fosse uma espectadora que estivesse a observar de camarote. "Se tivesse que voltar a tomar as decisões que tomei, teria tido a mesma exigência", chega a afirmar na entrevista ao Diário Económico.
"O inferno são os outros", dizia Sartre. Cada vez penso mais nesta frase ao analisar o comportamento de certos protagonistas da política à portuguesa.

Mulheres...

Assisto a reportagem sobre concerto de Tony Carreira na televisão. Milhares de fãs em delírio. Em bandos ou de maridos e namorados à tiracolo elas choram, gritam, pedem mais e confessam com orgulho verdadeiras façanhas aos repórteres que as entrevistam: que lhe coleccionam os discos, devidamente autografados, que o seguem para onde quer que vá. São provas de amor. De um amor devoto que provavelmente nunca dedicaram aos homens que as acompanham, de sorriso condescendente.
Breguice? Não, estas paixões pimba não são mais exuberantes que as das fãs dos ícones da pop mais respeitada do planeta. Se há aqui um padrão é de género. Já alguém viu plateias masculinas neste despropósito? Não, eles quando se entregam é por outras razões, mais fáceis de entender, e sempre dentro de certos limites: não desmaiam, não se consomem por nada, não se consolam com tão pouco.
Ao vê-las desfilar no ecrã, novas, velhas, de olhos brilhantes e sorriso rasgado, não consegui, desculpem-me mas não consegui mesmo, impedir-me de pensar: "Vá lá alguém entender as mulheres!" (Provavelmente o chavão que mais nos irrita... eu sei, eu sei...)

O PSD e a sombra das "elites"

Paulo Gorjão, um pouco à semelhança do que Paula Teixeira da Cruz defendeu aqui, receia uma debandada das elites que gravitam "no universo de influência do PSD" se Luís Filipe Menezes for o mais votado em 28 de Setembro para a presidência do partido. Lamento, mas não estamos de acordo. Menezes, ao que julgo saber, não tem afugentado elites em Vila Nova de Gaia, concelho que lidera com aplauso geral (é um dos mais populosos do País, não esqueçamos). Claro que há uma grande diferença entre ser autarca de sucesso (mesmo no município onde está sediada a maior concelhia social-democrata) e um líder credível à escala nacional. Mas, caro Paulo, não seria certamente com Menezes que as "elites" começariam a divorciar-se do PSD. José Miguel Júdice, suposto membro histórico dessa "elite" laranja, bateu com a porta e abandonou o partido precisamente com Mendes no comando. E outros, sem serem tão drásticos, têm-se distanciado claramente: Vasco Rato, Pedro Passos Coelho, Luís Paes Antunes, Assunção Esteves...
O problema do PSD, parece-me, é outro. Passa pela necessidade de renovação radical das tais "elites" invocadas por Paula Teixeira da Cruz. Há mais de duas décadas que são sempre os mesmos a influenciar os destinos do partido. Militantes "notáveis" que agem na sombra, que se movimentam nos bastidores, que coroam e destronam "líderes" sem jamais sacrificarem um átomo da sua comodidade pessoal para se candidatarem a cargos executivos. Se esta gente continuar a influenciar o destino do partido como até aqui, em breve a expressão eleitoral do PSD a nível nacional tornar-se-á muito semelhante ao resultado que os sociais-democratas agora obtiveram em Lisboa.
Menezes afugenta tais "elites"? Tanto melhor. As outras, de que Júdice era um expoente, já estão no lado de lá. Na esfera de influência de José Sócrates.

Vinte cidades que jamais esquecerei (VIII)


ISTAMBUL.
"Se nos dessem a escolher uma só imagem do mundo, devíamos fixar-nos em Istambul." (Alphonse de Lamartine)

A ver vamos

Um grande susto logo pela manhã assim que ligo a televisão: "A notícia caiu como uma bomba..." Uma bomba? Não. Felizmente nada disso. Não percebi bem, mas pareceu-me que se tratava de um jogador que tinha sido vendido, que não podia jogar, ou algo parecido. Negócio de milhares, portanto.
Seguem-se mais imagens de jogadores e mais conversa sobre futebol, ou seja, mais negócios milionários.
Finalmente, o que verdadeiramente (me) interessa: "Custo de vida em Portugal é 20% inferior ao da UE15, mas portugueses ganham menos 40%." A proximidade das férias não me fez desanimar: pobrete, mas alegrete.
Voltando ao início, suponho que os jogos não sejam muito a sério, digo eu. O "day after" dos jogos discute-se ainda com alguma calma e o treinador que parece existir em cada um dos adeptos vai dando pareceres, opiniões e sugestões com tal credibilidade e veemência que não posso deixar de ficar surpreendida com tanto conhecimento. Ouvem-se palavras como "reforços, aposta, plantel, contratações, uns chegam de fresco, outros partem (os insubstituíveis?), mas sobre todos eles hão-de correr rios de tinta e muitas biqueiradas. Temos homens. Temos (sempre) notícias.
Já agora, não sei se isto terá alguma coisa relacionada com futebol, mas há uns tempos li uma notícia em que se falava de gémeas, polícia e até de um quadro valioso. Pensei para comigo: não é que esta história dava um livro? Ou até um filme, quem sabe?
Nada que me tire o sono. Haja sol e bom tempo, isso sim. Até breve.


Miss Pearls has left the building
(Frasier theme)

Terça-feira, Agosto 14, 2007

Atirem-lhes água fria, sff


Entusiasmada com elogios que ouvi a estas obras, dediquei-me nos últimos dias a ler livros sobre comportamento. Primeiro ataquei o Blink - Decidir num piscar de olhos, de um tal Malcolm Gladwell. A trajeta vermelha a anunciar 1 500 000 cópias vendidas garante que não sou a única. O livro diz que aquilo a que vulgarmente chamamos sexto-sentido ou intuição é, na verdade, uma percepção instantânea baseada em indícios racionais que apreendemos sem nos percebermos. E leva 266 páginas de gracinhas várias para dizer isto. Fiquei a meio.
Dediquei-me então ao Tropeçar na felicidade, de um tal Daniel Gilbert. A capa assegura, citando o Washington Post, que se trata de "um dos livro indispensáveis deste ano" (346 páginas). A coisa não estava a correr mal até à página 40, altura que o autor escolheu para descrever uma experiência científica curiosa: num lar de velhos muito velhos, metade é visitada assiduamente por um grupo de jovens universitários. Este grupo de idosos pode escolher o número de visitas que pretende e a duração de cada uma. Ao fim de algum tempo, só 15% destes velhos tinha morrido, enquanto que, no grupo sem visitas, a percentagem era de 30%. Acabada a experiência e recolhidos os jovens universitários à base, vieram as más notícias: abandonados, os velhos do grupo visitado estavam agora a morrer que nem tordos. Conclusão do autor: a sensação de domínio motiva os seres humanos.
Desisto. É defeito meu, ou esta gente escreve estas coisas porque foi lobotomizada?

Postais blogosféricos

1. Gratos ao Palácio do Marquês, que por estes dias tem posto o Corta-Fitas em destaque. Gostámos desta iniciativa. E do palácio também.
2. Chama-se Porta do Vento. Um blogue que passei a visitar e que recomendo.
3. Outro blogue de que gosto é A Curva da Estrada. Este com entrada directa na nossa barra lateral.
4. Também vale a pena espreitar Nos Cromos do Cosnos. Era para chamar-se "Nos Cornos do Cosmos", mas o autor enganou-se...
5. E parabéns aos confrades do Glória Fácil. Pelos quatro aninhos acabados de festejar.

Tertúlia literária (214)

- O Apelo da Selva faz o seu género?
- Faz. A personagem principal é um animal feroz. Nós, socialistas, gostamos disso.

Vinte cidades que jamais esquecerei (VII)


SÃO FRANCISCO.
"Não pensava que pudesse existir um lugar como São Francisco."
(Dylan Thomas)

Mudam-se os tempos...


Tinha a casa cheia de gente. Nestas reuniões de família, onde se misturam várias gerações, os adolescentes são sempre quem assume, com convicção, a posição de outsiders. Na ocasião havia dois. De head phones, ar enjoado, seguiam com indiferença as imagens que passavam na televisão. Eis se não quando, no meio de um zapping interminável, saltam do canal RTP Memória imagens de há precisamente 30 anos, que na época passaram no Telejornal. Tratava-se de um plenário de trabalhadores. Não percebi de que empresa - as conversas na sala quase abafavam o som da TV - só consegui entender que discutiam a hipótese de fazer greve, pois não aceitavam que os aumentos propostos pela administração fossem de apenas (e agora segurem-se...) 14%!!

Acreditem, de vez em quando é bom visitar este canal para descobrir pérolas como esta, que nos fazem perceber melhor a evolução que sofremos nas últimas décadas, para o melhor e para o pior...

Nilton, O Candidato

Já viram, na revista Focus, o novo candidato a primeiro-ministro?
Espreitem os milagres que os especialistas podem fazer, numa verdadeira construção de imagem, mudando a percepção que temos das pessoas. Neste caso, do candidato.

Palavras, leva-as o vento

Quando menos esperamos, o significado de uma velha e batida palavra ganha conotações malditas e nuances perversas, sendo logo proscrita do linguajar oficial ou engagé. Ao contrário do imprudente João Villalobos, dificilmente eu cometeria o pecado de chamar “criadas” às empregadas dos meus avós. Mesmo que de facto tivessem sido criadas naquelas casas e de lá saído verdadeiramente formadas para uma vida melhor.
A minha filha pequena, que está a dar os primeiros passos nesta existência complicada, depois de uma saudável aula de cidadania e solidariedade (nunca por nunca dizer “Caridade” - s. f., amor ao próximo; benevolência; bondade; compaixão; beneficência) já me veio dizer que verdadeiramente “não há pretos, pai”. Todos diferentes todos iguais pensei eu. E vejo com bons olhos todo o reforço da escola laica à nossa educação cristã, o importante é a pessoa, não as suas circunstâncias. Mas logo a miúda me informou que “eles não são pretos, são castanhos, pai; e os brancos também não são brancos, são cor-de-rosa, pai”. Fiquei na dúvida se aquele preciosismo cromático cairá bem socialmente. Eu, por mim, se tivesse ambições políticas ou tivesse que escrever “a sério” um artigo sério sobre negros, escolheria a palavra “africanos”. Omite-se a cor para lhe tirar importância... e amenizar os nossos complexos de culpa coloniais. Para mais, nesta fase da minha vida não tenho nenhum amigo ou colega “de cor”, o que se pode revelar uma enorme fragilidade.
É como o "doente" num hospital que afinal se chama “Utente”. Corrigiram-me tantas vezes quando por lá andei, às voltas com o meu fígado. “Doente”, não: o estatuto de “Utente” tem muito mais dignidade e é o melhor placebo para qualquer terrível maleita. E evita que alguém de má fé nos aponte o dedo, e nos mande para o... hospital.
De resto, é o que eu sempre disse: "o verdadeiro cego é aquele que não quer ver". Sei-o há muito tempo, mas percebo agora que os outros, os cegos involuntários, são apenas “invisuais”. Ou melhor, “Pessoas Portadoras de Deficiência”, não vá a boca fugir para a verdade a algum malandro que o designe de forma indecorosa.
Daqui por uns anos já não haverá mais “velhos”, aquele incómodo e degradado Ser que passa o dia a gastar a pedra nos nossos jardins a jogar dominó ou a dar milho aos pombos. No futuro seremos todos respeitáveis e dinâmicos “Seniores” cheios de dignidade e de PPRs. Velhos nunca, que é aí que a morte se esconde.
É nesta estonteante espiral reformadora da realidade que o Governo Sócrates em boa hora extinguiu a Comissão Para a Igualdade e Para os Direitos das Mulheres e instituiu a revolucionária Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Eu por mim nunca mais vou “fazer género” com qualquer um... Promiscuidades é que não!
Estranhas modernices estas, quando se recusa a mentira mas tolera-se a "inverdade", pecadilho próprio de políticos e de outros inimputáveis. E da IVG que não oculta a tragédia do aborto nem quero mais falar, para não azedar esta crónica.
Com esta sempre renovada linguagem se reinventam tabus e o regime promove a sua semântica instrumental, anódina e igualitária, à qual a implacável realidade se mantém totalmente indiferente.

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Segunda-feira, Agosto 13, 2007

O muro da vergonha

O famigerado Muro de Berlim - o "muro da vergonha" - começou a ser construído faz hoje 46 anos. É uma das mais tristes efemérides da segunda metade do século XX. Mais triste ainda, e mais lamentável, por se confirmar agora que os agentes da polícia secreta leste-alemã tinham ordens rigorosas para atirarem a matar contra quem ousasse transpor a muralha e rumar ao Ocidente.
"Não vacilem no uso de arma de fogo, mesmo nos casos de violação da fronteira por parte de mulheres ou de crianças", rezava um memorando distribuído a 1 de Outubro de 1973 aos agentes especiais da Stasi (polícia secreta da Alemanha Oriental) estacionados junto ao muro e agora revelado no jornal espanhol El País. O mesmo memorando sublinhava que era "dever" desses agentes responder à alegada "astúcia dos desertores" mediante a "detenção ou a liquidação".
Por esse motivo, um número indeterminado de pessoas - 1200, segundo os responsáveis do Museu do Muro de Berlim - acabaram por ser assassinadas quando corriam para a liberdade, fugindo do "paraíso" comunista.
Quarenta e seis anos depois, é quase chocante haver quem ainda defenda uma aberração destas, em nome da "libertação" do ser humano...

Vinte cidades que jamais esquecerei (VI)


SANTIAGO DE COMPOSTELA.
"A mais bela cidade de Espanha." (Ernest Hemingway)

Outras visões

Casa em Klosterneuburg, Áustria.

Como a vida não é só Fado, Fandango e Futebol (os três Fs), passem os olhos por estes dois sites de arquitectura e design. Do melhor que já se viu. Um espanhol e outro português.

Pau de dois bicos

Verde por fora, vermelho por dentro


A entrega do pelouro do Ambiente a José Sá Fernandes, no âmbito da coligação PS-Bloco de Esquerda em Lisboa (que os eleitores não votaram, mas que não tem outro nome), levanta-me algumas dúvidas, para além daquelas que o Pedro e o Duarte já aqui tão bem destacaram. Se bem me lembro, Sá Fernandes prometeu em campanha um "corredor verde" que dá a volta à cidade e que terá sido programado pelo respeitabilíssimo Gonçalo Ribeiro Telles. Já António Costa prometeu um "segundo pulmão verde" ali na Portela, onde agora se encontra o aeroporto a ser desmantelado pelo Governo PS, coisa à qual se opôs violentamente o bloquista. A minha pergunta é simples: como é que o "corredor verde" se coaduna com um "segundo pulmão verde"? Já agora, tenho passado por jardins que a CML devia cuidar como os de Belém e, ainda ontem, o do Parque das Conchas. O que constato é que há excelentes equipamentos, só que já a precisarem de manutenção. Lixo por todo o lado, lagos artificiais onde já não corre água e por aí fora. O Zé agora vai fazer falta para tratar disto. E não para fazer outras "pontes políticas"...

Ainda a Supertaça

Acho incrível que num blogue como este se chegue a segunda-feira e ainda não tenhamos enaltecido suficientemente a vitória do Sporting contra o FC Porto (1-0) na Supertaça. Gostei de ver o Sporting a arrancar a época com uma taça, gostei de ver o equilíbrio daquele meio-campo (Miguel Veloso, Moutinho e Romagnoli em grande) e, claro, do golo do Ismailov. Mas não gostei da fraqueza nas laterais, nem de ver Derlei em campo. Corrigidas estas lacunas, ainda vamos lá. E esperem até ver o Simon Vukcevic a jogar...

Música de todos os tempos (15)


Christopher Cross- "Arthur's Theme"

Homenagem

Porque o importante é a pessoa. E às vezes os verdadeiros heróis são anónimos.

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Domingo, Agosto 12, 2007

Trrrrrim trrrrrrrim

Há coisas fantásticas...

Não se pode ir a todas

Isabel Pires de Lima teve tempo, paciência e vocação para abrilhantar, enquanto ministra da Cultura, a festa do comendador Berardo no Centro Cultural de Belém. Mas hoje não teve tempo de assinalar em Coimbra o centenário de Miguel Torga, nem sequer de se fazer representar na ocasião. Percebo-a bem: não se pode ir a todas...
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Adenda: Se bem me lembro, José Sócrates foi pródigo em citações de Torga ao longo de várias entrevistas, nomeadamente naquela ao Expresso em que se proclamava um "animal feroz". O que pensará desta omissão?

No centenário de Miguel Torga



Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação.
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


Chama-se "Letreiro", foi publicado originalmente no livro Orfeu Rebelde (1958), e é um dos meus poemas preferidos do autor de São Martinho da Anta, que nasceu a 12 de Agosto de 1907. Faz hoje um século.

Gostei de ler

A novilíngua de Correia de Campos. Do Pedro Sales, no Zero de Conduta.
O novo Fausto. De António Godinho Gil, na Boca de Incêndio.
Elites ou oligarcas? Do Carlos Manuel Castro, no Tugir.
Cem dias. De Eduardo Pitta, no Da Literatura.
Uma vergonha do lulismo. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.
Holden, eu e os Led Zeppelin. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.
Complexo colonialista europeu (branco). De Paulo Carvalho, no Poviléu.
Torre Bela. De Pedro Picoito, n' O Cachimbo de Magritte.
Gravitas. Do Miguel Castelo-Branco, no Combustões.
Maravilhas a assobiar. De Jorge Assunção, no Despertar da Mente.
Há dias assim. De Ana Vidal, na Porta do Vento.

Adeus Ota, olá Alcochete

Mário Lino mandou suspender todos os estudos referentes à Ota, até estar concluída a avaliação da hipótese Alcochete para a construção do novo aeroporto. Mero bom senso face às circunstâncias, devemos concluir. Lá terá Vital Moreira que engolir um pacote de pastilhas contra a azia, depois de nos últimos meses, mais otista que Lino, ter andado a debitar "pérolas" num fervoroso zelo apostólico pró-Ota.
"Pérolas" como estas:
- "A localização do novo aeroporto de Lisboa movimenta compreensivelmente poderosos grupos de interesse, e só isso pode justificar a súbita campanha contra a Ota. Mas o principal interessado numa localização a sul do Tejo é naturalmente a Lusoponte, concessionária das pontes sobre o Tejo." (8 de Abril)
- "A oposição do Porto ao novo aeroporto de Lisboa, sobretudo contra a solução Ota, supondo que este vai contra os interesses do Norte, é verdadeiramente patética!" (29 de Abril)
- "A insensibilidade de certos engenheiros -- ainda por cima o bastonário da Ordem -- em relação aos constrangimentos ambientais que militam contra a localização do novo aeroporto de Lisboa a sul do Tejo só desqualifica quem a exibe com tanta suficiência. (...) O activismo de tantos engenheiros, nessa qualidade, no lobby a favor de outra localização para o aeroporto não tem cabimento. Um aeroporto é uma obra demasiado importante para ser decidida por engenheiros..." (9 de Maio)
- "O Poceirão e as Faias não ficam mais perto de Lisboa do que a Ota, muito menos de Cascais, Sintra ou Oeiras, que distam muito menos da Ota." (25 de Maio)
- "Na questão do aeroporto, alguns jornais mais militantes adoptaram a seguinte linha de orientação: todas as 'bocas' contra a Ota merecem manchete de primeira página; todos os argumentos contra as alternativas são desterradas para uma esconsa página ímpar interior. Assim vai a imprensa entre nós..." (21 de Junho)
- "Antologia do dislate político: 'O aeroporto na Ota coloca Lisboa na situação de uma cidade provinciana da Península Ibérica'. (Manuel Alegre)" (21 de Junho)
Aguardo agora com expectativa a reacção do professor de Coimbra ao flic-flac de Mário Lino, um ministro para quem a palavra "jamais", em português ou em francês, tem um valor muito relativo...

Vinte cidades que jamais esquecerei (V)


HAVANA.
"Se lhes disserem que me perdi, procurem-me em Havana."
(Federico García Lorca)

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 12, 35-40

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem».

Da Bíblia Sagrada

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Sábado, Agosto 11, 2007

Vinte cidades que jamais esquecerei (IV)


NOVA IORQUE.
"Uma pessoa pertence a Nova Iorque instantaneamente."
(Tom Wolfe)

Cinema Nostalgia (5)

A memória mais remota que eu tenho do cinema? Talvez a daquela tarde em que fui com o Manuel ver a matinée infantil. Para ser rigorosa, na verdade não se tratava de uma primeira vez. Por essa altura já seria talvez uma veterana em tais andanças, mas a diferença é que nesse dia não fui acompanhada pelos pais, nem por qualquer adulto. Aos nove estreava-me a ir ao nimas com o namorado, seja lá o que isso for quando se tem nove anos... O Manuel era um puto de franja, ligeiramente mais novo que eu, pele morena e olhos azuis. Um gato! Conheci-o nessas férias na praia, e foi amor à primeira banhoca. Nessa tarde de Agosto, enquanto nos encaminhávamos pela rua fora rumo à espelunca onde projectariam o nosso filme, percebi, enfim, todas as potencialidades do cinema. Nesse dia descobri que o que se passa na tela não esgota o prazer que sentimos e que há dias em que o filme que mais interessa é mesmo o nosso.
Que fita vimos nessa tarde? Sei lá! Sentados lado a lado, muito ajuizados, olhos cravados na tela, estivemos - e arrisco a falar pelos dois - demasiado ocupados a fazer de adultos. De tal maneira que nem nos rimos muito das maluqueiras dos bonecos animados. Acho que foi nesse dia que o cinema entrou na minha vida. Terá sido pelas piores razões? Talvez, mas há amores assim. Começam pelo avesso e só depois ganham corpo. Bom... confesso que quando o meu "ganhou corpo" passou a parecer-se com o Robert Redford (sim, é ele que está na foto) e o Steve MacQueen, os rapazes que eu ia ver... Só depois comecei a interessar-me realmente pelo resto: realizadores, fotografia, argumentos, tudo o que deve importar a um cinéfilo mas que talvez não chegue para nos conquistar verdadeiramente se antes não tivermos - nós e o cinema - deixado um lastro de irrelevâncias e cumplicidades único e irrepetível.
O Manuel, hoje posso dizê-lo com toda a firmeza, tinha os olhos do Mel Gibson e o cabelo do Warren Beatty.

Sexta-feira, Agosto 10, 2007

Hoje acordei assim

Melancias, gôndolas, praias desertas, glândulas... A sério, rapazes, do que é que estão a falar?

Provavelmente a melhor praia do mundo


A praia da areia branca, na ilha de Boracay, Filipinas. Quando me fartar de falar do PSD e do Bloco de Esquerda, prometo voltar a este assunto.

Porque hoje é sexta-feira

"Lembro-me de tentar imitar o sorriso do Burt Lancaster, depois de o ter visto, com Gary Cooper, em Vera Cruz. Dia após dia, no quintal, treinei o sorriso. Serpenteando no meio do tomatal. Rindo com desdém. Fazendo esgares, aquele esgar. Fazendo subir vagarosamente o lábio superior bem acima dos dentes. Após alguns dias de prática, ensaiei o sorriso perante as raparigas da escola. Não deram por nada."
Sam Shepard in Crónicas Americanas

Aprender a governar

“Enquanto o Bloco não passar pelo teste de cargos executivos terá muita dificuldade em ser visto como mais do que um partido de propaganda e em provar ao eleitorado da esquerda do PS, que tem de conquistar para si, que pode fazer a diferença na política portuguesa. A esse eleitorado não chega o discurso ideológico e a oposição firme. Que se comece no poder autárquico[*], mais próximo dos cidadãos, e em Lisboa, com dimensão e massa crítica suficientes para que as alternativas políticas sejam claras, parece-me uma excelente oportunidade que seria infantil recusar.”
Daniel Oliveira, Arrastão

* O sublinhado é meu

Um filme de acção

Não é a primeira vez que me acontece, nem será, por este andar, a última. Há dias fui buscar um filme ao Blockbuster das Amoreiras e qual não é o meu espanto quando vejo um carro da polícia, vulgo PSP, estacionado em frente, fora dos lugares reservados. Ainda pensei que tinham ido fazer alguma diligência ao clube de vídeo, mas afinal o polícia tinha ido alugar um filme. Como qualquer comum dos mortais. A grande diferença é que nós não o fazemos quando trabalhamos, por isso também não compreendo que os agentes da autoridade, em vez de patrulharem as ruas com olhos de lince, andem a ver filmes em aparelhos de DVD portáteis. Há dois anos vi exactamente a mesma cena no Blockbuster de Carcavelos, portanto deduzo que deve ser moda os polícias de hoje procurarem algum divertimento... enquanto trabalham. Só neste País.

Sienna Miller


Porque estamos no tempo das melancias.

Vinte cidades que jamais esquecerei (III)


VENEZA.
"O que teremos de pagar por tanta beleza?" (Ezra Pound)

A vida, o universo e tudo o mais


«Quiere, aborrece, trata bien, maltrata,
y es la mujer, al fin, como sangría,
que a veces da salud y a veces mata».
Lope de Vega, citado aqui pela rititi.

Talvez Pinto da Costa devesse ter lido Lope de Vega e antecipado melhor os efeitos secundários da «sangria». Talvez lhe tivesse sido útil ter também lido a rititi e o seu post sobre essa obsessão – para ela inexplicável - que os homens têm com as glândulas mamárias. Ou não. A vida, como todos os que já andam aqui há uns anitos aprenderam, não é explicável. E há, nas glândulas mamárias, uma afirmação exuberante da vida. É sabido, querida Rita, que quanto maiores elas são mais vitalidade transparecem. Não duvido de que existe, algures, um limite. Mas, qual Star Trek atrevendo-se «to boldly go, where no man has ever gone before», também um homem que o seja ambiciona o momento em que essa fronteira lhe surja para poder então, com a voz quiçá asfixiada, dizer basta. Para mim, como profetizavam os gauleses, «amanhã não será a véspera desse dia». E, se a mulher é como a sangria, venha daí um jarro dela. Tinta ou branca, tanto faz.

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Igualdade de géneros

Pouco se importaria que eu descobrisse a cura da calvície ou salvasse a Pátria. Condescende algum interesse nos livros que leio ou no que escrevo. Importante, importante, para a minha mulher é que eu faça a sopa do José Maria! Toda a família e arredores será rapidamente informada do prosaico acontecimento...

P.S.: Não queiram saber a dificuldade que é manipular o computador portátil com um miúdo de 6 meses aos guinchos ao colo. Nem vos digo!

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Quinta-feira, Agosto 09, 2007

Ele anda aí...

Taxista, simpático e suspirante: - Gostava de tirar uns dias de férias, mas para onde é que eu vou? Tenho uma irmã que tem uma casinha na margem sul, na Caparica, e convidou-me...
Eu: - A Caparica não é nada mau...
Taxista, aos gritos: - E ATURAR O MALUCO DO MEU CUNHADO? NEM PENSE NISSO!
(Silêncio)
Taxista mais calmo: - Já pensei ir até ao Algarve, preciso mesmo de descansar...
Eu, receosa: - Parece que este ano o Algarve está mais sossegado...
Taxista, aos gritos outra vez: - E O QUE É QUE EU FAÇO À NOITE? HEIM? COM OS SONOS TODOS TROCADOS! VOU ANDAR SOZINHO POR AQUELAS RUAS DE ALBUFEIRA? HEIM?
(Silêncio)
Taxista, com voz amorosa: - Também me falaram muito bem de Cabo Verde. E eu gosto muito de mar.
Eu, já a desafiar a sorte: - Se gosta de mar, em Cabo Verde pode nadar à vontade.
Taxista, de cabeça perdida, virado para trás e a espumar pela boca: - PARA QUÊ? PARA SER MORDIDO PELOS TUBARÕES E PELAS PIRANHAS? PARA FICAR SEM UMA PERNA?
Eu, sensatamente: - Pode parar aqui, fáxavor.

Corpos de Verão


Na escrita de dois homens atentos: Rui Albuquerque escreve sobre tatuagens e Francisco José Viegas sobre o (feliz) desaparecimento da moda das calças com cintura descaída.
(...)" Hoje mesmo, cruzei-me com dois desses últimos inexplicáveis exemplares. Ambos tinham gravadas tatuagens ao fundo das costas, no cóxis. Uma dizia simplesmente «Carvalho». Estava gravada em forma de meia-lua, como os néons florescentes dos bares de má nota, ou as marcas das ganadarias. (...) Imagine-se, pois, que a seguir ao dito «Carvalho» se sucedeu, ou sucederá, um Silva, um Mendes, um Antunes.
(...)O segundo caso é menos agressivo, mas mais ininteligível. Na mesma zona do fundo das costas, uma simpática veraneante exibia uma pujante tatuagem do brasão da Federação Portuguesa de Futebol. Se a explicação do «Carvalho» me pareceu de linear evidência, já o símbolo da FPF gravado no coxis, por mais que puxe pela imaginação, permanece, para mim, incompreensível.(...) "(Rui A.)
*
"Uma grande notícia, que descubro na Veja, é que deixam de estar na moda as calças de cós baixo. Ou seja: as mulheres voltam a ter cintura e deixamos de ter de ver excrescências deselegantes e disformes a saltar das calças. Guardado passará a estar o bocado, como deve ser.(...) O cós baixo das calças transformou a barriga (a barriguinha, esse pedaço fatal e delicioso) em pança e material elástico transbordante, deformando o corpo de milhões de adolescentes e traumatizando outros milhões de mulheres maduras que deixaram de poder comprar calças decentes, com cintura normal."(Origem das Espécies)

Partido Elitista Português

Paula Teixeira da Cruz presta hoje um péssimo serviço a Marques Mendes com a entrevista que deu ao Correio da Manhã (deu outra, ao Diário Económico, que ainda não li). E um péssimo serviço porquê? Pelo ultimato que faz aos militantes sociais-democratas: se estes, no pleno uso do seu direito de voto, escolherem Luís Filipe Menezes na eleição directa de 28 de Setembro, "assistir-se-á a uma debandada das elites do partido."
Com frases deste género, a ainda líder do PSD-Lisboa só acentua a noção de que Mendes, apoiando-se nos eternos barões do partido, está cada vez mais distante das bases. Terá piada ver Paula e as restantes duas dúzias de companheiros que formam a excelsa "elite" laranjinha fugirem a sete pés se o autarca de Gaia vencer. Ela e os outros podem até fundar o PEP: Partido Elitista Português. Populismo nunca mais (excepto se tiver sotaque madeirense, apreciar poncha e der urros pela putativa independência da Madeira, como gosta de fazer o "elitista" Jaime Ramos, lugar-tenente de Jardim e apoiante de Marques Mendes).

Impressões Musicais (12)

Estes levaram-me à Lua. Os sempre eufóricos e ribombantes Mike Scott and The Waterboys...
.

GLASTONBURY SONG


(…)

Dedicado ao nosso semi-dissidente João Villalobos que vai de férias atrás (ao lado) da sua Estrela.

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Vinte cidades que jamais esquecerei (II)


RIO DE JANEIRO.
"O Rio parece dispensar toda a colaboração humana, com a sua beleza universalmente proclamada." (Le Corbusier)

Genial

É mais para Sportinguistas, mas vale a pena ver uma acção marketing perfeita. Basta clicar aqui, preencher o nome e o numero de telemóvel e aguardar o descarregamento do filme. SURPREENDENTE.

Nota: Durante a operação tenha o telemóvel acessível!

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Lembrei-me, agora...

De perguntar se já alguém sabe como o coligado José Sá Fernandes se vai entender com o seu presidente António Costa sobre o novo aeroporto. E lembrei-me também que num dos seus números mediáticos durante a campanha, a versão lisboeta da Erin Brockovich andou de microfone em punho a perguntar aos passageiros da Portela se queriam ver o aeroporto desactivado.

Quarta-feira, Agosto 08, 2007

Vinte cidades que jamais esquecerei (I)


PRAGA.
"Praga não nos deixa partir." (Franz Kafka)

Os Correios

Gosto da marca, gosto do logótipo. A silhueta em branco de um cavaleiro de trombeta na mão, a cavalo e a galope. Melhor mesmo só se fosse sobre fundo verde, que eu cá sou do Sporting. A vida cruzou-me demasiadas vezes com esta vetusta “instituição” nacional: os CTT, que em tempos tinham como missão pôr as pessoas em contacto, pô-las a contar, a namorar, a dizer de sua justiça. Para o bem e para o mal, recebíamos lá em casa cartas ou postais de parentes ou amigos, multas, as inevitáveis “contas”, extractos bancários, e, às vezes, publicidade: um gorduchinho envelope das Selecções do Reader’s Digest, ou uma brochura dalgum ingénuo editor que nos elegia como potencial cliente de um caríssimo fac-símile. Acontecia às vezes ir levantar um registo ou despachar correspondência ao meu pai, uma enorme estucha sem recompensa possível. Aquela senhora de óculos fazia tudo muuuito devagarinho, os outro quatro modernos guichets estavam sempre fechados, e o quinto era para chamadas internacionais. Assim que se perdia uma boa manhã a preguiçar nas férias. E mesmo assim, ao final da longa espera, arriscava um ralhete da empregada por não trazer trocos, ou voltar a casa em busca do BI do Sr. Marquês.
Anos mais tarde percebi que esta “instituição” não era uma condescendente benesse do Estado ao mal agradecido e insolente cidadão da república - que eu apesar de contrariado também sou. Descobri com alguma surpresa que os correios eram uma empresa que vende serviços a quem os queira comprar. Que precisavam de público, de mercado, de clientes, por Deus!
Bom mesmo, foi quando o posto de correios de Campo d’Ourique, ali na esquina da Domingos Sequeira com a Rua do Patrocínio trespassou virando cervejaria com moelas, sapateiras e imperiais a rodos. Mesmo na altura em que comecei a ter uns trocos e bons amigos para a noitada reinadia.
De resto, os CTT hoje são aquilo que se sabe. No correio não recebo cartas ou postais. Só contas e avisos de impostos para pagar, e... toneladas de publicidade. Como os demais 80% dos habitantes de São João do Estoril, trabalho e passo o dia noutro Concelho, pelo que os correios “da minha terra” pouco serviço me fazem. Sei que vendem pratos e medalhas dos “três grandes” da bola, livros em edições raras, brinquedos especiais, selos de colecção e muito “marchandaising”. Também se “destrocam” vales postais e as pensões aos reformados, que pouca mais gente lá vai. É que o estabelecimento abre às nove e fecha às seis e está fechado para o almoço das 12.30 às 14.00. É só para quem quer meeesmo. E eu fico chateado quando o correio é registado ou não coube na caixa do prédio: pela certa, como mais alguns desgraçados bananas, vou ter que tirar uma manhã de trabalho para ir aos correios, não se dê o caso de ser uma coisa importante, dos tribunais ou das finanças. E a propósito, amanhã sem falta tenho que lá ir “levantar” um misterioso aviso que está mesmo a caducar. E não me vou esquecer de levar uns trocos, não vá alguém zangar-se comigo.

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Cinema Nostalgia (4)

A primeira vez que senti o verdadeiro impacto de uma presença feminina no ecrã foi com os filmes de Jennifer Jones, minha precoce paixão cinéfila. Não era uma estrela como as outras, das que faziam publicidade ao sabonete Lux mergulhadas em banheiras cheias de espuma. Jennifer cheirava a flores campestres: era muito morena, cabelos lisos, lábios cheios, uns olhos enigmáticos que me prenderam (ou me perderam) para sempre. Jennifer, a minha primeira actriz: aparição fulgurante como vidente de Lourdes n' A Canção de Bernadette. Mas nada havia de angelical nela: tinha uma sensualidade explosiva, como fui testemunhando de filme para filme, cada vez mais fascinado pela sua beleza exótica que deixava em brasa todos os homens com quem contracenava: Charlton Heston, em A Fúria do Desejo; William Holden, n’A Colina da Saudade, Gregory Peck, nesse fabuloso Duelo ao Sol; até o errático Montgomery Clift em Stazione Termini, de Vittorio de Sica, talvez a película mais atípica da sua carreira. Quem só descobriu o erotismo na Sétima Arte no momento em que Sharon Stone descruzou as pernas nem imagina do que falo...
Mas nunca ela me seduziu tanto como no mais intangível dos papéis que criou: n’ O Retrato de Jennie, de William Dieterle – perfil recortado no nevoeiro, fazendo acelerar a pulsação de Joseph Cotten. E a minha, rendida de vez ao seu encanto hipnótico.
Não há amor como o primeiro: prendi-me a outras mulheres, perdi-me por outras actrizes, mas nenhuma me fez esquecer Jennifer Jones. Nem os planos rodados no Central Park envolto em névoa desse filme onírico que nunca mais revi. Pergunto-me o que será feito dela: vislumbrei-a pela última vez dançando com Fred Astaire n’ A Torre do Inferno, mas ela parecia já não estar ali, parecia já não ser deste mundo. Senti-me como Joseph Cotten, enquanto do recanto mais fundo da memória emergiam trechos do belíssimo tema de Dimitri Tiomkin, inspirado em Debussy: “With a portrait of Jennie / I will never part / For there isn’t / Any portrait of Jennie / Except in my heart.”
A primeira actriz por quem me apaixonei há-de ser um eterno enigma para mim.

Bom investimento


"Gisele levanta em 15% ações de empresas, diz estudo: As empresas que utilizam a modelo brasileira Gisele Bündchen como garota-propaganda vêm suas ações valorizarem, em média, 15%, nas bolsas de valores, segundo o 'Gisele Bündchen Stock Index', índice criado pelo economista norte-americano Fred Fuld e divulgado em seu blog na Internet, o Stockerblog". Não podemos arranjar-lhe um contrato para fazer subir o rating da República ou o nosso PIB? Dava um certo jeito. Não há mal nenhum no facto de Gisele ser estrangeira, se também temos um mister Scolari à frente da selecção nacional de futebol e um Fernando Pinto à frente da TAP...

O "alívio fiscal"

À atenção do Pedro e do Paulo: "Eduardo Catroga, amigo de longa data de Marques Mendes e conotado com o cavaquismo no PSD, considerou ontem que 'não há condições para baixar os impostos' para já, até porque uma decisão desta natureza implica, em paralelo, o corte na despesa pública corrente. Contudo, se o Executivo alcançar reduções na despesa pública, então, em 2008 ou 2009, deve ser dado um sinal de 'um alívio da carga fiscal' para as famílias e as empresas. O ex-ministro de Cavaco Silva contraria, assim, as ideias de Miguel Frasquilho. Que preconizava já uma baixa de impostos. Em seu entender, o Estado deve concentrar esforços para criar condições para a baixa de impostos e aumentar a riqueza. Questionado sobre a razão pela qual decidiu integrar a equipa que elaborará a moção de Mendes, o economista explicou que tem colaborado pontualmente com o actual presidente do partido e que foi solicitado, mais que uma vez para o fazer. Catroga insiste que apoia Mendes em nome da estabilidade".
Como se sabe, Frasquilho é uma voz autorizada junto de Mendes. Está na direcção da bancada parlamentar, participou activamente na campanha de Negrão, é sempre ouvido pelo líder do PSD em matéria de economia e finanças. Mendes, que se saiba, pensa o mesmo que o seu deputado, mas acaba de ser contrariado por uma das pessoas que escolheu para fazer a moção de estratégia com que julga vir a ser reeleito presidente do partido. Que tal alguma estabilidade ao nível das ideias?

A importância do número dois

António Costa escolheu para vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa o simpático Marcos Perestrello. Escolhido para super-vereador (durante a campanha foi anunciado que teria a pasta do Ambiente, só que esta acabou por ser negociada com Sá Fernandes) este licenciado em Direito nunca exerceu advocacia por ter andado sempre nos gabinetes ministeriais de Guterres, tendo depois passado para o Parlamento, onde não se lhe conhece uma intervenção digna de registo, sob o consulado de Sócrates. Para além de ser o primeiro "costista", o secretário-nacional do PS para a organização, vulgo o aparelho, dá um salto de gigante dos gabinetes e da última fila na Assembleia da República, onde repetidamente se sentava, para a ribalta política como número dois da maior câmara do País. Como disse, e repito, acho que Marcos Perestrello é simpatiquíssimo. É fino no trato, bem educado, coisa rara entre os políticos da praça de hoje em dia, e repetem-me à exaustão que é inteligente e um valor socialista a acompanhar. Tem só 36 anos, também não acho que a idade possa ser apontada como factor de risco nesta indigitação.

É do lado de António Costa que vem o problema. O presidente da CML foi eleito com a tal "equipa" pluridisciplinar, onde pontificavam o arquitecto com mais obras assinadas na capital (Manuel Salgado), uma senhora autarca repescada às hostes de Manuel Alegre (Ana Sara Brito) e não é que quem é o número dois é o jovem Perestrello? Será que António Costa prefere não se entregar totalmente a quem é mais experiente e jogar pelo seguro, com uma pessoa que sempre dependeu de si política e profissionalmente? Ou terá deixado metade do seu exército no Governo e no PS, para quando for preciso dar o golpe na guerra da sucessão a Sócrates, lá para 2013? É bom lembrar que nos últimos anos o lugar de "vice" da CML deu quase sempre para uma entrada directa no hall of fame da política lusa: João Soares foi vice de Sampaio e chegou lá; Carmona foi vice de Santana e, mal ou bem, também chegou lá. Atenção à navegação de Perestrello, portanto.

Tertúlia literária (213)

- Sabe quem escreveu “amar amar amar perdidamente”?
- Desconheço. Mas acho que era alguém que estava mesmo mesmo mesmo a precisar que lhe oferecessem uma bússola.

O tempo voa


DUSTIN HOFFMAN faz hoje 70 anos.

Deixem-no ter férias...

Depois do "deixem-me trabalhar", que Cavaco Silva institucionalizou há uns anos, agora Pedro Santana Lopes inaugurou o "deixem-me descansar". No regresso àquele que supostamente é o seu blogue, PSL explica que ninguém lhe permite gozar férias descansado. Ora leia-se: "Há que ir atrás de quem? Presidente da República? Não, ninguém tem nada com isso!... Presidente da Assembleia? O que é que interessa? Ministros? Coitados, já chega o que passam durante o ano... Dirigentes da Oposição? Quem? Não, para variar um bocadinho, decidiram fazer outra escolha... Just guess who: claro,o autor deste blogue. Vejam lá que ando a fazer férias de luxo, com os filhos, no Algarve, e queria esconder as férias, queria andar sossegado. É preciso ser descarado. Quem? Eu, claro. Os nossos governantes e lideres da oposição podem assim descansar, que bem merecem". Por amor de Deus, Santana merece ter um bocadinho de paz. Quanto mais não seja, tem direito ao descanso do guerreiro...

Terça-feira, Agosto 07, 2007

Música de todos os tempos (14)


Eagles - "I can't tell you why"

Evidências

- Mãe, tu vais morrer?
- Vou, qual é o problema? Morremos todos. Mas falta muito tempo...
- Um dia eu também vou morrer?
- Claro que não!

Indignação cirúrgica

Os ares do Bósforo fizeram bem ao Daniel Oliveira, que veio da Turquia cheio de gás. Mas na sua habitual imitação do Lucky Luke, que dispara mais rápido do que a própria sombra, desta vez deu-lhe para disparar ao lado. Visa aqui (omitindo cirurgicamente, numa curiosa "selecção milimétrica", o nome de um dos signatários do artigo, como se não tivesse sido escrito a quatro mãos), quando pretendia chegar ali. Como eu o compreendo: deve ser chato ver Miguel Vale de Almeida, que foi um dos fundadores do Bloco de Esquerda, vir agora proclamar o seguinte: "Sou dos que acham que o destino natural do Bloco é o PS". Não ainda este PS, mas um PS "invadido, penetrado e contaminado pelo melhor do que o BE trouxe à política portuguesa". Daqui até 2009, não faltará ocasião para isso: les beaux esprits se rencontrent...

Sete horas e quarenta e três minutos


Hugo Chávez falou ininterruptamente durante sete horas e quarenta e três minutos na televisão estatal venezuelana. O caudilho de Caracas deve pretender entrar no Guinness com esta maratona verbal, que deixou derreados os mais intrépidos ouvintes, excepto Fidel Castro, que ouviu "deleitado" (talvez por estar retido no leito) todo o blablá do tenente-coronel. Eu não aguentava nem metade daquele tempo. E notem que tenho alguma experiência na matéria, pois já sobrevivi a dezoito minutos e sete segundos de gritaria da Júlia Pinheiro, treze minutos e quarenta e cinco segundos de paleio da Teresa Guilherme e uma hora, cinco minutos e quarenta e oito segundos de uma fita do Manoel de Oliveira protagonizada pelo Luís Miguel Cintra.

Nota de rodapé: a frase mais apreciada da discursata de Chávez terá sido o inevitável "Socialismo o muerte". Não admira: lá naquelas bandas é sinal de fim de papo...

Sawat dee *


Um postal do Wat Arun, em Banguecoque, a cidade dos mil sorrisos. Para o Miguel, por dois anos de Combustões.
..................................................................
* Palavra tailandesa que tanto pode significar "olá" como "até à vista".

Uma flor


Esta magnólia é para a Isabel por andar há dois anos a distribuir pérolas na blogosfera.

Tertúlia literária (212)

- Vamos brindar a quê?
- Olha, eu brindo sempre ao Fleming por ter descoberto a penicilina. Se não fosse ele...
- É verdade. E nos tempos livres ainda escrevia os livros do James Bond. Vamos lá brindar!

História de algibeira (26)

Debaixo de grande polémica, Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e "chefe de família", ousou votar nas primeiras eleições republicanas a 28 de Maio de 1912 aproveitando as indefinições existentes no enunciado da Lei.
Na sequência da controvérsia, é aprovada pelo senado em 1913 a Lei Eleitoral da República (nº 3 de 3 de Julho) onde pela primeira vez num texto legislativo se determina expressamente o sexo dos cidadãos eleitores: “são eleitores dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos, ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa".
O direito de voto às mulheres foi concedido (precariamente) pela primeira vez em Portugal, em 1931 sob o patrocínio legislativo do Estado Novo (lei nº 19:694 de 5 de Maio), restringido àquelas com o curso dos Liceus. Em 1934 nas eleições legislativas foram eleitas pela primeira vez mulheres para a assembleia nacional: Domitília Hormizinda Miranda de Carvalho, Maria dos Santos Guardiola e Maria Cândida Pereira.

Fonte: “A Concessão do Voto às Portuguesas” por Maria Reynolds de Souza, 2006 - Colecção Fio de Ariana editada pela Comissão Para a Igualdade e Para os Direitos das Mulheres.

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Segunda-feira, Agosto 06, 2007

É Agosto, é Agosto


Telediários das 20 horas: o grande acontecimento nacional é a chegada de uns cães da Grã-Bretanha que andam a farejar por tudo quanto é síto, lá nos Algarves, em demanda da pobre da miúda raptada há três meses.
Fazem-se directos, na praia e fora dela. Por causa dos cães. Gabam-se as características deles - dos cães. Enaltecem-se as capacidades que possuem para estas operações. Os cães, claro.
Nunca terá havido tanta presença canina em prime time na televisão portuguesa.
Mais palavras para quê? É Agosto, é Agosto.

O amor no Verão

Surpreendentemente as minhas férias desagradaram a alguns dos nossos habituais comentadores anónimos, uns cobardes seres que parasitam à volta deste blogue. O Sr. Sarkozy também teve que levar com os socialistas que queriam outro destino para os banhos do Sr. Presidente. Talvez a Colónia Balnear de “O Século” ali na Parede. Por castigo.
Entretanto soube que Portugal ganhou 200 milhas de território. As melhores notícias para o mal-amado "Território Nacional", desde a perda de Olivença e da independência das “Províncias Ultramarinas". Pena que as milhas sejam submersas, o que torna a especulação imobiliária mais difícil. Desconfio que a nossa ambicionada expansão terá que ser projectada em socalcos.

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Ceder na Madeira para ganhar o País? (I)


Um dos aspectos mais interessantes da blogosfera é permitir-nos dialogar serenamente com interlocutores com boa capacidade argumentativa. Reedita-se aqui, por exemplo, o espírito das antigas polémicas que dominaram a idade de ouro dos jornais e que parecem irremediavelmente em crise, (mal) substituídas pela estridência televisiva que pouco ou nada favorece a reflexão. Vem isto a propósito da troca de argumentos que venho mantendo com o Paulo Gorjão, que não parece impressionado com os sucessivos desaires estratégicos de Marques Mendes - o maior dos quais levou o PSD a perder de forma humilhante a câmara de Lisboa. O que mais me chocou no comportamento político do líder social-democrata, lembro, foi o seu recente alinhamento com Alberto João Jardim no Chão da Lagoa, contrariando os princípios de regeneração que apregoou desde o início do mandato. Diz o Paulo que Mendes se limita a reproduzir o comportamento de líderes anteriores (excepto Cavaco Silva e Santana Lopes, por motivos diferentes). É certo. Mas parece-me que Mendes tinha a obrigação de se demarcar das anteriores lideranças precisamente no caso madeirense, que prejudica todo o discurso crítico que o partido vem desenvolvendo no continente, em denúncia sistemática da "claustrofobia democrática". A Madeira constitui a parcela do território nacional onde essa claustrofobia é mais evidente, o que enfraquece toda a lógica discursiva do presidente social-democrata, que chegou ao ponto de chamar "grande líder" a Jardim. Talvez esteja muito enganado, mas não creio que se possa ganhar o País com cedências deste género no Funchal.

Ceder na Madeira para ganhar o País? (II)

Argumenta ainda Paulo Gorjão com a existência de uma implacável oposição interna para justificar as fragilidades de Marques Mendes. É um bom argumento. Mas não me parece que essa oposição seja mais vociferante do que foi o próprio Mendes nas suas duras críticas primeiro a Durão Barroso (que sabiamente o levou para o Governo) e depois a Santana Lopes. Não nego que estivesse então cheio de razão, mas admito que à actual oposição interna também não faltem motivos para criticar o líder social-democrata. Desde logo por este simples facto: não me lembro de um só debate parlamentar em que Mendes tivesse superado José Sócrates - e ninguém dirá que seja por falta de experiência como tribuno. Assisti a quase todos esses debates e saí de lá sempre com a mesma sensação: Sócrates prepara-se muito melhor do que Mendes para um confronto tão decisivo e com tanto impacto mediático.
Bem sei que o papel da oposição é mais difícil. Mas até por isso a preparação de quem a protagoniza deve ser maior. Não é isso que se tem visto. Pelo contrário, de cada vez que vai ao Parlamento Sócrates sai de lá reforçado politicamente - porque congrega as suas hostes e divide (ainda mais) a oposição à direita. Dir-se-á: Mendes tem um grupo parlamentar em grande parte hostil, que foi escolhido por Santana. Mas sabia bem ao que ia quando avançou em 2005. E se a sua prestação em São Bento fosse melhor certamente isso teria contribuído para acentuar a sua autoridade em vez de a diluir. Desde logo já há muito devia ter imposto uma regra aos seus deputados: é inaceitável que continuem a propiciar ao País o confrangedor espectáculo de se ausentarem em massa do hemiciclo, deixando a bancada laranja sistematicamente vazia nos dias dos grandes debates. Ao menos na Madeira, onde impera o "grande líder", as coisas não se passam assim...

Tertúlia literária (211)

- E o Saramago lá está, em Laçarote.
- Não é Laçarote. É Lanzarote.
- Ah, pois é. Como ele ainda há pouco tempo voltou a dar o nó, veio-me à cabeça esta palavra. Laçarote.

Domingo, Agosto 05, 2007

Cinema Nostalgia (3)


Sempre me intrigou o fascínio que me despertou aquele filme, já que foi um filme do qual eu não percebi quase nada. Tempos antes tinha lido no jornal que era uma obra de arte, imperdível. O nome do realizador, invocado com óbvia deferência, já me era vagamente familiar, de modo que quis, assim que a oportunidade surgiu, partilhar daquela comunhão, antecipadamente rendida à excelência do mestre.
Não, aos 13 anos, não recomendo a ninguém Lágrimas e Suspiros, por ser demasiado arriscado. De facto, eu podia ter-me incompatibilizado com Ingmar Bergman logo ali - era esse o risco - mas estranhamente deixei-me encantar por aqueles planos devoradores de almas, pelos silêncios mais eloquentes a que alguma vez tinha assistido, por aquela quase pornografia onde a nudez era a das angústias e paixões.
Se há coisa de que os adolescentes entendem é de emoções em estado puro. Penso que foi por essa via que um dos filmes mais densos e tristes de Bergman me enlaçou. Para além das palavras a que eu ainda não conseguia chegar, subsistiram aquelas dores que eu reconhecia tão bem e que até ao momento nunca tinha visto assim, magnificamente estampadas em ecrã gigante. A verdade é que nunca mais falhei um Bergman. A Fonte da Virgem, O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, Cenas da Vida Conjugal, Face a Face e o tão incompreendido pela crítica O Ovo da Serpente são os títulos de algumas das muitas missas a que passei a assistir, sempre com uma admiração renovada.
Através de Bergman conheci também uma das maiores actrizes do nosso tempo, a norueguesa Liv Ullman, tão presente na sua obra que passou a ser o rosto feminino que imediatamente lhe associamos. Em 2003 foi possível revê-la em Saraband, o último filme de Bergman, uma despedida que não defraudou as nossas expectativas, mas que sem ela não teria sido perfeita.
Há dias, morreu o mestre do cinema que primeiro amei. A ele devo alguns dos momentos mais intensos da minha vida de cinéfila.

A luta continua

A “soviética” revolução de Outubro, violentíssima génese do mais sanguinário regime conhecido, celebra 90 anos dentro de alguns meses, e é razão para entusiásticas celebrações na próxima festa do “Avante!”, órgão oficial do sistémico Partido Comunista. A inteligenzia apaniguada do regime fechará convenientemente os olhos à ignóbil celebração. Para tanto basta um convite para uma pública passeata no santuário do Seixal que logo o tinto carrascão e umas febras fumegantes, adormecem a sua sensibilidade democrática. A boa propaganda assim aconselha, pois afinal não é tudo tão “relativo”?
Entretanto, à conta do erário público, preparam-se os nacionalíssimos festejos do centenário da velha e caduca república do não menos passado Dr. Vital Moreira. Celebremos então a carbonária, a formiga branca e o camião da morte. Rejubilemos com as perseguições e o ressentimento sanguinário, o assassinato politico, a desregulação democrática, enfim, o completo caos.
A gananciosa fidalguia regimental, em plena posse da máquina de propaganda, rejubila com a previsível festança para o pagode iletrado. Para o povo historicamente analfabeto e acrítico, hoje alienado com as ilusões da fortuna pós-moderna: viagens enlatadas, telemóveis topo de gama, unhas de gel e outros ídolos do jet 7. Uma vertigem de prazer inusitado.
Abaixo da superfície, uma ligeira vibração é perceptível. Sinais de que a história não acaba aqui e de que a luta continua.

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Do bolo-rei para o altar

Que eu me recorde, nenhum outro político foi tão vítima de preconceito de classe como Cavaco Silva quando era primeiro-ministro. Recordo uma senhora, de cabelo levantado pela laca e coberta de anéis, que me disse uma vez, com ar levemente enjoado: "Ele faz-me lembrar aqueles filhos das criadas que entram em nossas casas...". Os "filhos" - provavelmente altos de mais e desajeitados demais, que as filhas podem sempre vir a ser úteis para dar uma mão na copa...
Os jornalistas sempre fizeram eco desse desdém, em parte por razões ideológicas, em parte por razões estéticas - veja-se o episódio do bolo-rei, repetido até à exaustão.
Se Cavaco Silva tiver sentido de humor, estará agora a gargalhar com a rendição da classe jornalística após o veto ao Estatuto dos Jornalistas. Acredito que não terá sido essa a razão por que chumbou a lei - fê-lo, certamente, porque acredita que uma imprensa forte é essencial em democracia, tanto quanto uma economia de mercado. Mas não deixa de ser irónico...

Postais blogosféricos

1. Miguel Portas mergulhou sem muros na blogosfera. Só lhe faz bem.
2. A Caixa de Pandora abriu-se há quatro anos e ainda está aí. Recomenda-se.
3. Rádio Macau pode ser nome de estação radiofónica. E de banda musical. E também de blogue, como é o caso.
4. Há monárquicos por aqui. Mesmo assim, estabelecemos ligação na nossa barra lateral com a Quarta República. Eles não se importam, com certeza.
5. Por cá, vota-se no novo líder do PSD: Mendes ainda lidera, com 32% (62 dos 194 votos já registados). No Sound+Vision, escolhe-se o melhor álbum dos Pink Floyd. Já lá deixei o meu voto. No Wish You Were Here, naturalmente. Não sei se o Nuno Galopim estará de acordo.
6. É evidente, Carlos: a mudança na direita só se concretizará com alterações de comportamentos. E de personalidades.
7. Só posso dar razão ao Francisco: a corrida à liderança do PSD está a parecer-se demasiado com "uma espécie de festival da sardinha". Ninguém se admire que tudo aquilo venha a acabar em caldeirada.

Lenda é paleio de mortos


"Don't call me a legend!" Palavras de Lauren Bacall, que aos 82 anos continua a trabalhar. Um bom exemplo para alguns políticos aspirantes ao estatuto de "lendas", já sequiosos da eterna veneração alheia quando ainda mal lhes secaram as borbulhas da cara.

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 12, 13-21

Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?».
Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».
E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

Da Bíblia Sagrada

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Blogues em revista

Combustões: "Sá Fernandes e o Bloco não resistiram à charcutaria da Baixa." (Miguel Castelo-Branco)
Hoje Há Conquilhas: "Alguém pensa que algum lisboeta se vai esquecer, quando chegar a altura, de que Sá Fernandes contou apenas com 6% dos votos em Lisboa?" (Tomás Vasques)
Tugir: "Num País onde é necessária a intervenção de um Presidente da República eleito pela direita para se protegerem as liberdades e garantias dos cidadãos é preciso começar a ter medo." (Luís Novaes Tito)
Zero de Conduta: "Já conhecemos a lengalenga. A indústria musical está em crise e a culpa é da pirataria. Desculpem lá contrariar o aparente consenso, mas não é. Só há uma razão para as vendas descerem de ano para ano: a música que nos querem impingir é uma porcaria que não vale um cêntimo." (Pedro Sales)
Da Literatura: "Num país com tanto desemprego, faz-me muita confusão que não seja possível colmatar as férias dos empregados com o trabalho sazonal de parte dos desempregados." (Eduardo Pitta)
Quatro Caminhos: "Quando os meus bloggers mais caros vão de férias amuo. Reservo-me o direito de fazer exactamente o mesmo, mas amuo." (Ana Cláudia Vicente)

Tertúlia literária (210)

- Mas afinal recomendas-me ou não o livro do Mantorras?
- Recomendo-te os 15 minutos antes do fim. É a especialidade dele.

Música de todos os tempos (13)


Gilbert O'Sullivan - "Clair"

Sábado, Agosto 04, 2007

Buda e Peste


Budapeste. Esta cidade vai roubar-nos o Luís Naves e o João Villalobos durante grande parte do mês de Agosto. Que faça(m) bom proveito!

O amigo Vasco


Começo por uma declaração de interesses: gosto imenso do Vasco Pulido Valente, leio-o atentamente há anos, compro os livros dele e acho que um dos pontos fracos do nosso País é o de só ter um analista político como ele. A escrever como escreve, a pensar como pensa. É único. Se tivesse vivido no século XIX era do calibre de um Eça. Depois do desaparecimento de Victor da Cunha Rego, VPV ficou sozinho. Nos jornais ingleses há alguns do nível dele, cá só temos um naquele patamar.
Posto isto, vou dizer aqui aquilo que não lhe diria por pudor se lhe ligasse hoje, como há uns poucos anos atrás. Acho que a sua investida na campanha interna do PSD, a favor de Marques Mendes e contra Menezes, se deve a uma boa razão: a amizade com o comandante Azevedo Soares, número dois de Mendes. Mas isso não o deveria deixar cego, perante a inabilidade política e os péssimos resultados que Mendes tem demonstrado. Nem o deveria ter deixado chegar a este ponto, que li hoje num artigo seu no Público: "Antigamente existiam à direita instituições, como a Igreja (e, de certa maneira, a Universidade) e forças sociais como o alto funcionalismo e as 'notabilidades' da província e das profissões liberais, que nunca permitiriam a ascensão de Menezes. Mas na tábua rasa em que a sociedade portuguesa se tornou é bom não contar excessivamente com elas. Marques Mendes pode perder. E Menezes, mesmo com uma cisão do PSD, pode começar uma campanha populista contra Sócrates, que deixaria o regime, já abalado, em estado de coma". Não sei o que VPV queria dizer com "antigamente" (o Antigo Regime?), mas certamente que essas instituições também não permitiriam a ascensão de Mendes. E permitiram.
É espantoso, VPV anda numa espécie de senda contra o homem de Gaia. Sinceramente, acha que vale o esforço? Mas parece que vale. Atente-se ao texto de VPV na semana passada, no mesmo jornal. VPV já nem se preocupa que um presidente de um partido como o PSD, partido que conheceu bem e cujo líder histórico o fez secretário de Estado da Cultura, possa ser "excelente" ou "muito bom", duas classificações que o meu analista político preferido se esqueceu de referir. A tese curiosa de VPV é esta: "Menezes vai perder. Mas, se não perder, o PSD, como o conhecemos, desaparece". Então qual é a alternativa a esse populismo? Chama-se Marques Mendes, um político com provas dadas. "Bom, mau ou medíocre, Marques Mendes deixou de ser uma escolha, é uma necessidade", diz VPV. Uma necessidade? Para o primeiro-primeiro, aliás, essa necessidade é imperiosa.

Gostei de ler

Um bom dia para a democracia. Do Pedro Sales, no Zero de Conduta.
Tiro no porta-aviões. Do Joaquim Vieira, no Observatório da Imprensa.
Parabéns ao Mário Bettencourt Resendes. De José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro.
Uma nova era partidária. Do Carlos Manuel Castro, no Tugir.
A boutade. De Eduardo Pitta, no Da Literatura.
Dalila e os filisteus. De Diogo Belford Henriques, no 31 da Armada.
O Zé ao poder. Do José Gomes André, no Bem Pelo Contrário.
O estado do País. De José Mexia, no Nortadas.
A bem da Nação! De Pinho Cardão, na Quarta República.
A chatice da democracia. Do Pedro Boucherie Mendes, na Atlântico.
A realidade ultrapassa o blogue. Da Laura Abreu Cravo, no Mel com Cicuta.
De malas e bagagens. Da Leonor Barros, na Geração Rasca.
Vidas de Verão. Série da Isabel, na Miss Pearls.
Coisas que me irritam no português. Série do Helder Robalo, no Pensamentos.

Cinema Nostalgia (2)


Há filmes que não se explicam e Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, é certamente um desses filmes. Quando o vi, pela primeira vez, tinha uns 15 anos e foi como se tivesse descoberto um novo continente. Há qualquer elemento que transporta o viajante para um universo etéreo, pictórico, narrativo, não sei, mas que paira a grande altitude. Lembro-me de ter pensado: “Então, o cinema é isto”. Mas, se me perguntam a que me refiro, não saberei dizer.
Barry Lyndon é a história de um aventureiro irlandês do século XVIII. Baseia-se num romance escrito em 1844 pelo escritor vitoriano William Makepeace Thackeray, As Memórias de Barry Lyndon. Kubrick fez uma mudança crucial: no filme, não há memórias, pois o narrador omnisciente conta-nos uma história real, cujas peripécias são autênticas, ao contrário da versão literária, onde o que se conta pode muito bem ser fantasiado. O herói participa em duelos, em batalhas, em espionagem; vive a adrenalina do jogo, da traição, do amor, da guerra; Barry Lyndon deserta, engana, é enganado; seduz mulheres, dá o golpe do baú; é odiado; acaba na miséria.
Apesar da preocupação realista, que inclui inovações técnicas que permitiram filmar à luz das velas ou da exactidão dos detalhes (uniformes, tácticas militares, castelos), Kubrick consegue criar uma atmosfera separada da realidade. Por vezes, as imagens são como pinturas e a vida de Redmond Barry flui como num sonho.
Podia também estender-me sobre a qualidade dos actores: Marisa Berenson ficou, para mim, como o arquétipo da beleza feminina. O esplendor da música barroca e a subtileza da música irlandesa. Podia falar da beleza esplendorosa das imagens, da precisão das palavras, do ritmo lento da narrativa.
Este é um filme tão perfeito, que deve ser visto várias vezes.
Kubrick foi um dos grandes realizadores do cinema e, na minha opinião, este filme é a sua obra-prima. Gosto muito de Roubo no Hipódromo e, sobretudo, o Caminho da Glória (julgo que é este o título em português), mas Barry Lyndon consegue o que nos outros filmes não surge tão nítido: criar um universo totalmente separado e levar-nos ao seu interior, deslumbrados.
Para mim, este é o filme mais europeu que jamais foi feito, no sentido de constituir uma espécie de tratado sobre o cerne da nossa civilização. E a ironia é que foi realizado por um visionário americano.

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Música de todos os tempos (12)


Gilbert O'Sullivan-"What's In a Kiss"

Sexta-feira, Agosto 03, 2007

Fim-de-semana

La rai la rai lai lai tu tu ru ru!

A quem possa interessar

A petição para apoio a Dalila Rodrigues já circula e pode ser acedida aqui.

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Sim, sr. ministro

"No quadro de uma sociedade aberta e pluralista, os diplomas relativos à actividade jornalística configuram-se sempre como essenciais para a estruturação de uma democracia de qualidade". Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República.
Depois desta mensagem do PR à Assembleia da República, a propósito do diploma que altera o Estatuto dos Jornalistas, o mínimo que se pode exigir é que o ministro da tutela, Augusto Santos Silva se retracte. Mas o que seria normal em qualquer País civilizado e que preza a ética na política era mesmo que o ministro dos Assuntos Parlamentares, que andou numa luta cega contra o que chamou de "jornalismo de sarjeta", apresentasse a sua demissão imediata. Isto porque não vejo em José Sócrates coragem e determinação para o fazer. E já hoje, se possível.

Pink Teixeira

Gostei de ver o ministro da Defesa, Severiano Teixeira, envergando um camuflado muito fashion e óculos escuros Ray Ban enquanto passava revista às tropas durante uma deslocação-relâmpago ao Líbano. Só a gravatinha cor-de-rosa que espreitava teimosamente debaixo do camuflado destoava um pouco daquele conjunto bélico...

Hoje somos todos cavaquistas

O Presidente da República decidiu vetar politicamente o diploma que altera o Estatuto dos Jornalistas.
...............................................................................
A ler:
- Veto presidencial ao Estatuto do Jornalista. Do Helder Robalo, no Pensamentos.
- À espera da demissão de Santos Silva. Do Rui Costa Pinto, no Mais Actual.
- A difícil posição de Augusto Santos Silva face ao veto de Cavaco Silva. Do André Azevedo Alves, n' O Insurgente.

Férias III

Férias é ter o carro cheio de pó, areia e pegadas,
sem querer saber, sem me chatear.
Férias é ver no telejornal de relance no café,
o Sá Fernandes e o país a arder.
Férias é ir ao cinema à noite, e ter a barba por fazer.
Escrever postais à família, comprar os selos,
e pô-los no correio mesmo a tempo do regresso.
As férias também dão uma trabalheira,
choros, amuos e muitas sanduíches de fiambre.

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Sexta-feira II


Tori Praver, ainda para a "SI". É daquelas peças de decoração que ficam bem em qualquer cantinho (carregar na imagem para aumentar).

Sexta-feira


Tori Praver, para a "Sports Illustrated". Quem disse que o vinil estava fora de moda?

Porque hoje é sexta-feira

"Então fui ter com Rita Bettencourt e levei-a para o meu apartamento. Convenci-a a ir para o meu quarto, após uma longa conversa na escuridão da sala da frente. Era uma miúda simpática, simples e franca, a quem as relações sexuais enchiam de pavor. Expliquei-lhe que era uma coisa bonita. Queria demponstrar-lhe isso. Ela deixou-me mostrar-lhe, mas eu estava demasiado impaciente e não provei coisa nenhuma. Ela suspirou no escuro.
- O que pretendes da vida? - perguntei. Costumava perguntar sempre isso às raparigas.
- Não sei - respondeu ela - apenas tentar servir à mesa e ir vivendo.
Ela bocejou. Tapei-lhe a boca com a minha mão e disse-lhe para não bocejar. Procurei explicar-lhe a que ponto me sentia entusiasmado com a vida e as coisas que podíamos fazer juntos, dizia isso e, ao mesmo tempo, tencionava deixar Denver dentro de dois dias" -- Jack Kerouac in "Pela Estrada Fora"

Quinta-feira, Agosto 02, 2007

À direita, toda a mudança será bem-vinda


Este meu texto (desculpem lá, mas engalinho com a palavra post) suscitou comentários do Jorge Ferreira e do Rui Castro. Ainda bem. Vamos lá então pôr a conversa em dia.

1. Caro Jorge, creio que a esquerda não se limitou a esperar durante os anos do cavaquismo. A esquerda viu-se forçada a mudar: há uma esquerda pré-Cavaco e uma esquerda pós-Cavaco. A esquerda pós-Cavaco abandonou em larga medida o dogma da economia estatizada, aprendeu a cultivar a autoridade do Estado e começou a aprender a fazer contas. Tal como haverá necessariamente uma direita pós-Sócrates, que não deve confundir-se com a anterior. Os sinais de decomposição da direita (de toda a direita) estão aí. Às vezes as melhores construções edificam-se sobre escombros.

2. Caro Rui, concordo com o que dizes. Mas vamos lá ver: se Sócrates não enfrenta oposição credível, isto poder-lhe-á também ser remetido a crédito. Ao adoptar alguns emblemas da direita (o "impulso reformista", elogiado pelo próprio Presidente da República) e sobretudo ao importar da direita uma pose de autoridade, que cultiva com inegável sucesso, Sócrates "secou" toda a oposição à direita. Disso não vem grande mal ao mundo: esta direita pós-cavaquista precisava de regenerar-se como de pão para a boca. Diferente é o papel de Sócrates como líder socialista, onde esterilizou quase todo o debate interno. Foram-se os dois Soares, Carrilho, Coelho, Vitorino, Roseta, Cravinho, Medeiros - sei lá quem mais. Sobrevive Manuel Alegre, quase só como flor de retórica na botoeira do "líder", que na recente entrevista à SIC Notícias se serviu das críticas do poeta para simular um quadro de pluralismo democrático nas fileiras socialistas que está longe de corresponder à realidade.
Mas isto é já outra conversa. Era da direita que falávamos. Aí só posso reiterar: toda a mudança será bem-vinda.

Ça va changer

Cheira a fim de ciclo político. À esquerda e à direita.

Do dicionário (6)

Delete - aquilo que acontece aos funcionários do Estado quando cometem um delito... de opinião.



Com Dalila Rodrigues, directora do Museu de Arte Antiga, agora afastada do cargo por criticar modelo de gestão dos museus, governo soma e segue.

O tempo passa

"É, de facto, algo de único nas democracias e na sua História: um Partido 'deitar fora', por acção de uns quantos militantes seus, o poder no País e na sua capital". Aí está Pedro Santana Lopes de volta àquele que se pensa ser o seu blogue íntimo e pessoal...

Outra casa

Onde podem encontrar-me, a partir de hoje. Fora do «mundo», Debaixo do Vulcão. All visitors welcome, except tax collectors and general pain in the ass comentators.

Se fosse com eles...

Caro Paulo Gorjão, cá fico então à espera de explicações mais detalhadas, que lerei com o habitual interesse. Entretanto, apetece-me fazer só uma pergunta: imagina Rui Rio ou Manuela Ferreira Leite, enquanto eventuais líderes do PSD, ao lado de Jardim no palco do Chão da Lagoa? Como dizia o outro, Deus está nos pormenores. E o diabo também.

Os blogues estavam lá

Onde há notícia, lá está a blogosfera. Seja onde for. Ontem, na tomada de posse do novo presidente da Câmara de Lisboa, gostei de ver bloguistas ilustres como a nossa Miss Pearls e o Tomás Vasques. Lá aguentaram estoicamente o calor impróprio para consumo ao longo de toda a cerimónia...

Jogatana

Com esta jogada de mestre de António Costa, ao conseguir que o "rebelde" José Sá Fernandes integre o executivo da Câmara Municipal de Lisboa, José Sócrates recebeu um presente de anos antecipado. Com que cara é que o Bloco de Esquerda vai agora contestar o Governo e a maioria PS estando coligado na maior câmara do País? Daqui até 2009, Louçã vai estar mais calmo que o costume e depois disso veremos se não será necessário para outros entendimentos, caso Sócrates não atinja a maioria absoluta. Sá Fernandes ficou com o Ambiente em Lisboa, Louçã irá ficar com que ministério em 2009? Quem é que julga que o homem se irá contentar com um acordo de incidência parlamentar? E não me venham com a conversa de que isto em Lisboa não é uma coligação, é um acordo, porque essa não pega. Houve negociações prévias, cedências mútuas e um entendimento formal. Se isto não é uma coligação, não sei o que será. Agora, prova-se mais uma vez a inexistência da oposição à direita que vê o PS aliar-se ao BE e sobretudo ao homem que mais obstáculos criou à gestão dos dois últimos executivos camarários. Por acaso executivos em que o centro-direita governou. Mas para este PSD e este CDS está tudo bem. O primeiro partido está envolvido numas directas agitadas, o segundo seguiu de férias para o Algarve ou sabe-se lá para onde com o dr. Portas, já que se trata de um partido unipessoal.

Música de todos os tempos (11)


Randy Vanwarmer - "Just When I Needed You Most"

Jardinagem

Este acordo de Sá Fernandes para Lisboa estabelece alguma regra nova para as verduras que plantamos na nossa janela? Ou vai tudo para o corredor verde do Monsanto?

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

O acordo entre o PS e o Bloco de Esquerda na Câmara de Lisboa é um prelúdio de um entendimento mais vasto entre as duas forças políticas, ao nível do Governo? Esperemos por 2009: basta apenas José Sócrates não revalidar a maioria absoluta. Como diz Helena Roseta, e com toda a razão, "agora percebe-se bem a quem o Zé fazia falta..."

É assim que os enganamos, no meu bairro

Às vezes vejo turistas tresmalhados às voltas no meu bairro, enganados pela propaganda ao percurso do eléctrico 28. Muito brancos no meio dos meus vizinhos de pele muito escura, fotografam as placas com os nomes das ruas e vê-se-lhes o espanto nos olhos: "Estranho país, tão confuso numas coisas e tão metódico na arrumação dos seus imigrantes por país de origem: rua de Angola, rua de Cabo Verde, rua do Zaire, rua de Goa, rua de Moçambique". Ao fim da tarde estão especados, à espera que o caos se transforme em ordenados carreiros que entrem na rua da sua origem e desapareçam atrás das portas de madeira verdes, ainda mais confusos quando vêem no mapa que estão no Bairro das Colónias.

Do populismo: estilo e substância

Caro Paulo,

Nunca disse, até porque isso seria faltar à verdade, que Marques Mendes é mais populista que Luís Filipe Menezes. O que disse é bem diferente: Mendes, ao contrário de Menezes, tem a estrita obrigação de evitar flirts com o populismo. Pela simples razão de que o actual presidente do PSD fez do antipopulismo a grande imagem de marca do seu mandato e quase uma condição sine qua non para assumir funções na São Caetano. Daí os elogios que justamente lhe foram tributados quando promoveu candidaturas alternativas a Valentim Loureiro em Gondomar e Isaltino Morais em Oeiras. Afinal, sabe-se agora, o antipopulismo de Mendes termina quando aterra no aeroporto de Santa Catarina. A sua aparição no palco do Chão da Lagoa, por razões de estrito calculismo político, pulveriza os salutares princípios que antes apregoou. Não se pode criticar no continente o que se aplaude na Madeira, pretendendo manter incólume a credibilidade política enquanto se viaja de lá para cá.

Tertúlia literária (209)

- Estou com vontade de ler o livro do Mantorras. E tu?
- Não sei se aquilo estará bem escrito. No estado em que ele tem os joelhos...

Férias II

Férias é tirar muitas fotografias com a máquina nova.
Férias é visitar a feira do livro local,
e ter mais olhos que barriga.
Férias é comprar um jornal desportivo,
e sonhar que esta época seremos campeões.
Férias é jantar peixe fresco e cerveja gelada,
com amigos reencontrados.
Férias é passar o dia de xanatas e calções,
e arranjado, sair à noite a namorar

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Música de todos os tempos (10)


Peter Frampton - "Baby I love your way"

Adeus

Ou, como escreveu Antonioni:
"Se me achas distante, é porque me estás a ver de longe".