Sexta-feira, Agosto 31, 2007
New age
O moderníssimo aparelho do meu carro lê os CDs em MP3. Neste “formato” cabem quase vinte álbuns num simples CD de 700 megas. A fartura é tanta que o pobre desconfia. Com o ouvido atento, apercebo-me como o processo de compactação digital nos defrauda, prescindindo de tantos “bites e baites”, aparentemente redundantes. Ou eliminando os sons considerados inaudíveis ao ouvido "comum". Confesso que aquele som, redondo e de plástico, ao princípio até soa agradável. Mas ficamos com a ausência da alma, dos sombreados, dos degradés e das texturas mais subtis da peça. Desvanece-se a profundidade e o relevo, a coloração sonora impressa pelo espaço, pela sala ou pelo estúdio e os seus materiais.
Chegado a casa, cedo à urgência: ligo o amplificador, ponho a rodar o gira-discos, fecho a porta, ajusto o volume, ponho cuidadosamente o vinil a reproduzir o órgão de Tom Koopman, tocando a Tocata e Fuga BWV 565 de Bach. Respiro profundamente e deixo-me ir.
Infelizes os satisfeitos com o que os seus humanos e precários sentidos alcançam. Vendo pouco e crendo pouco. Conformados. Tantas vezes cínicos.
Etiquetas: Coisas da vida, Quotidiano
Paulo Teixeira Pinto
Porque hoje é sexta-feira
"Meu homem moderno tem orgasmos longos, erecções vítreas e telescópicas, meu homem feliz é bem informado e cínico, conhece bem as tragédias modernas mas se lixa para elas, não por maldade mas por uma crua "maturidade", um alegre desencanto. Meu homem vive em velocidade. O mundo da Internet, do celular, do mercado financeiro global imprimiu-lhe seu ritmo, dando-lhe o glamour de um funcionamento sem corrosão, uma eterna juventude que afasta a morte.Confissões*
Quinta-feira, Agosto 30, 2007
Cinema Nostalgia (8)
Noite mansa no amplo bairro do Farol – o oceano, pacífico, alongava-se em frente. Barcos artesanais de pescadores rumavam ao largo, na sua faina diária. Havia vagas luzes de petromax em Ataúro, várias milhas náuticas adiante. Mas na varanda que circundava a moradia os olhos infantis só estavam concentrados na tela onde desfilavam as imagens. Filmes em super 8: pequenas bobinas extraídas de caixas quadrangulares e que se fixavam na parte mais recuada do projector. Começavam a girar e o cinema acendia-se na varanda, sob a ritmada vigilância das ventoinhas de tecto que mal disfarçavam o calor repassado de humidade. No chão, pivetes de incenso procuravam pôr os insectos à distância, empurrando-os na direcção das osgas e do tranquilo toqué que parecia petrificado, as ventosas das patas bem fixadas nas paredes.
O stock era limitado: mas revíamos sempre cada filmezinho ou cada documentário como se fosse a primeira vez. Uma versão condensada d' O Homem Invisível, de James Whalen: ainda hoje sinto um ligeiro arrepio quando recordo Claude Rains a tirar as insólitas ligaduras que lhe cobriam o rosto. Rio Grande, em formato pequeno. Lá surgia John Wayne de bigode e farda confederada despedindo-se da inconsolável Maureen O’Hara. Os Harlem Globettroters fazendo acrobacias nunca vistas em recintos de basquetebol. Os golos de Pelé e Jairzinho no inesquecível Campeonato do Mundo de 1970.
E havia os desenhos animados. O imparável Woody Woodpecker, esse endiabrado picapau que fez as delícias da minha infância. Speedy Gonzalez, o rato que corria mais rápido do que a própria sombra. Dick Tracy, o detective que solucionava todos os casos enquanto falava ao telefone com o relógio de pulso.
E havia as velhas comédias mudas, do tempo em que se usava pêra e cartola, que uma vez e outra e outra nos faziam irromper em gargalhadas. A luz projectava-se no ecrã branco, a bobina começava a girar e aparecia o rosto familiar de Charlot comendo sempre a mesma bota que já comera em tantas outras noites. Ou os inconfundíveis Bucha e Estica, que levavam o caos à mais pacífica das ruas, pondo impávidos cidadãos à batatada. E pondo-nos a rir até às lágrimas, apesar de sabermos cada cena de cor. Absurdamente felizes sem sabermos que o éramos – putos europeus longe do conforto europeu, nessas horas longínquas em que o Super 8 substituía os canais televisivos que não chegavam a Timor. E em que o popular projector fazia parte da mobília – e da família.
Por vezes sinto uma nostalgia imensa dessas improvisadas noites cinéfilas. E do toqué lá de casa. E daquelas ventoinhas que rodavam no tecto enquanto o Dick Tracy, o John Wayne e Laurel&Hardy alimentavam sem cessar os nossos sonhos.
A força está com ele
Ao vetar aquele diploma, Cavaco Silva quis deixar expresso que não permitia que o Governo socialista, por sua auto-recriação e contra todos os outros partidos políticos do arco constitucional, decidisse lançar uma espécie de quarto ramo das Forças Armadas. Fazendo-o, ainda por cima, à revelia do seu Comandante Supremo, o Presidente da República.
Para já, o "saldo" é de quatro vetos políticos (Lei da Paridade, Estatuto do Jornalista, Responsabilidade Extracontratual do Estado e Orgânica da GNR).
Depois deste último veto, o PS pode insistir na sua e fazer aprovar com a sua maioria no Parlamento o mesmo texto. Acredito, por seu interesse, que não o fará. Neste último caso, e perante os reparos do Presidente, iria abrir brechas graves no relacionamento com Belém. Acredito que o Governo não quer entrar por caminhos mais bélicos. Basta perceber que errou e emendar a mão.
João, este é para ti
Na morte de Umbral (1)
Habituei-me, durante anos, a comprar El Mundo por causa das crónicas de Francisco Umbral: era obrigatório começar a ler o jornal pela última página, onde o escritor tinha há quase 18 anos a sua coluna Los Placeres y los Dias. "O prazer da leitura" - essa expressão que Bárbara Guimarães transformou em lugar-comum - tinha aqui pleno cabimento: Umbral dava prazer aos seus leitores (mesmo aos que discordavam dele) com o seu estilo mordaz, irónico, inconfundível. Era, a um tempo, moderno e clássico. Tanto se perdia por saborosíssimas digressões nostálgicas como abordava as mais quentes questões da actualidade. Sempre com uma voz própria, inimitável. Ele, que não era fértil em elogios, certa vez elogiou Camilo José Cela por saber "escrever vivendo e viver escrevendo". Poder-se-ia dizer o mesmo deste amante de charlas e tertúlias que "elevou a coluna de jornal a um género literário", como bem assinalou Pedro J. Ramírez, director de El Mundo. O mesmo que já tinha acontecido, no Brasil, com Rubem Braga e Nelson Rodrigues - género hoje prolongado por Luís Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor. Nada encontramos de semelhante na imprensa portuguesa.Na morte de Umbral (2)
Quarta-feira, Agosto 29, 2007
Gostei de ler
O último analista absoluto. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
A "orquestra negra". De Miguel Cardina, no Passado/Presente.
Filiações. De Ana Vidal, na Porta do Vento.
A ERC deve estar de férias
Eduardo
Escreveu: Para a Inês, esperando que escreva todos, mas todos os dias.
Este é para si Eduardo. Também esperando que continue a escrever todos, mas todos os dias.
Um grande beijinho
Basta de paprika
Antes de partir, alguém me avisara que levava «areia para a praia». Outro – repleto de sabedoria arcana – lembrou o ditado «para a Hungria não leves companhia». Quando atravessámos um pequeno jardim onde dezenas de estónias despiam antes da festa os seus collants, numa apressada mudança de roupa para qualquer traje típico do seu país, parecia sexta-feira. Quando, sentados nas esplanadas, virávamos o pescoço para a esquerda e a direita e, na maior parte das vezes, para cima, num movimento espiralado capaz de dar um torcicolo duplo ao mais flexível instrutor de yoga, era sexta-feira outra vez. E no entanto…
Ao regressar, ao ver as nossas portuguesas, ao conseguir de novo vislumbrar sorrisos nas inocentes trocas de olhar que são o alimento da alma para qualquer praticante compulsivo do flirt como eu, ao vê-las descontraídas, bronzeadas, suspirei de alívio. Não sou por natureza contemplativo e muito menos adepto de refeições rápidas. Em todos os desportos que pratiquei, sempre detestei a fase de aquecimento. Pode ser que na Hungria seja sempre sexta-feira. Mas, se lá voltar, irei de novo acompanhado. Aquela não é a minha praia.
Etiquetas: A Mulher esse princípio activo do Universo
A ameaça
Os incêndios no Peloponeso, a que pela TV assistimos atónitos do sofá, devem preocupar-nos profundamente. Apesar daquela estranha língua, os protagonistas, a acção e os cenários são-nos demasiado familiares. Depois, suspeito que aquela catástrofe não ocorre em Portugal apenas por mero circunstancialismo meteorológico. Quando, perante a estatística dos incêndios em Portugal este Verão, as autoridades se vangloriam da eficiência alcançada, fico desconfiado. É fácil atirar “postas de pescada” quando as circunstâncias são favoráveis, e manda a prudência um pouco de modéstia. Que a floresta, quando arde, chamusca qualquer governo.Etiquetas: Quotidiano
Terça-feira, Agosto 28, 2007
O Sporting em 1º
Tudo isto são razões suficientes para que o estimado leitor diariamente, depois do café da manhã, volte ao Corta-fitas, nem que seja só para deixar um votozinho no clube da sua preferência.
A ver quem ganha.
Etiquetas: Corta-Fitas
Segunda-feira, Agosto 27, 2007
As palavras dos leitores
"Com que então, no Alentejo, a melhor terra de Portugal. O contacto com a natureza dá-nos forças para lutar contra o socratismo. O Alentejo só tem um problema: é o Alqueva. Morreu. Passou a cano de esgoto de Badajoz e outras terras espanholas. As águas já estão contaminadas. Há pessoas que já tiraram de lá os barcos."Betty
"Como te compreendo. Acabei de tirar um gafanhoto da piscina e deixei um pouco de bolo de mel para as formigas no canteiro junto ao tanque. Imagina tu que ontem até vi o Porco do Proença fazer um favor ao Pinto. Abraço e continuação de boa evasão.
Francis C. Afonso
"Banho de campo: sabe bem e importa para não esquecer o animal que insistimos vestir de marcas."
Lis
"CRÓNICA DA FORMIGA que FOI SALVA: Senhor Correia muito lhe agradeço a possibilidade de viver mais meia dúzia de diazinhos. As minhas duas irmãs e a prima Graciete, também lhe agradecem. O resto da turma até podia ter deixado entrar na piscina, são exímios nadadores, alguns medalhados em Olimpíadas. O Tio Zé Mocho tem uma casa de meninas lá para os lados da herdade da Chaminé, fez bem em não deixar as pobrezinhas órfãs. O Paxá é um canito com muito sentido de humor, tipo CÃO FEDORENTO, os dois gatos da vizinha que saiu nas últimas páginas do seu jornal estão fartos da solidão e entre uma e outra visita ao psicólogo, vão até aí. O raio das melancias andam a fugir à fileira branquinha dos dentes e as azeitonas que não se armem em sofisticadas, porque já estão boas para a mordidela. O Xico Ranço e o Victor Bigodaça, são os dois galos das noitadas, acabadinhos de chegar do Freedom 2007, ainda estão em transe. O Ganso Zeca lidera a Capoeira, enquanto for à manicura e o Peru está adoentado, pudera, porque só pensa no Natal e já vê a vidinha dele a andar para trás.
Bem vindo ao campo, tio Correia
(não escrevo mais porque vou pôr esta carta no correio, a 17 km daqui)"
(Tiradas, com a devida vénia, da caixa de comentários do meu postal alentejano. Dedico a imagem da piscina à leitora Sofia neste dia tão quente.)
Notícias do Alentejo profundo
Domingo, Agosto 26, 2007
O Sporting
(De PÚBLICO, crónica A Pré-História da Minha Ida ao Futebol, 10 de Agosto de 2005)
Tomando sempre novas qualidades...
Apercebo-me hoje que o meu pai ainda esboçou uns tímidos esforços, desajeitadas tentativas de intimidade, inspiradas nos inevitáveis sinais de mudança. Mas a rigidez dos "papéis" estava-lhe demasiado impregnada. Assim como aquela solidão.
A maior "revolução" dos tempos modernos é a revelação da plena paternidade. Hoje, conhecemo-nos cedo, com a ajuda da pele e de uma orgânica cumplicidade. Com muitas canções, lenga-lengas, banhos de banheira, de mar e de mundo. Depois de tudo isto, que venha a vida toda, com os seus anunciados terrores e tempestades. Seremos mais fortes, por certo, o que já não é pouco.
Etiquetas: Fracturas expostas, Post intimista
O criador e a criatura
A ler
1. "Eduardo Prado Coelho, 1944-2007", do Francisco José Viegas.
2. "Comentar não comentando", do Paulo Gorjão.
3. "Postal de Chipre", do Vítor Matos.
4. "O icebergue", de Pedro Norton.
5. "Cocktail explosivo", do Rui Costa Pinto.
6. "Postais de férias I", de Pinho Cardão.
Domingo
Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».
Da Bíblia Sagrada
Etiquetas: Cristianismo, Religião
Sábado, Agosto 25, 2007
Descartáveis
Lembrei-me do Esquimó a propósito de um outro exemplar da mesma raça que vi aqui há dias, atarantado, a ziguezaguear pelo meio da estrada, indiferente aos carros que iam passando. Não precisava falar para se perceber o que lhe tinha acontecido. Tenho a certeza que me foi dado assistir aos primeiros momentos de aflição de um canito quando percebe que foi abandonado. Desorientado, assustado e triste, o que mais comovia na atitude do infeliz era perceber a sua incapacidade para compreender o que lhe tinham feito.
Aquela minha antiga vizinha, felizmente, nunca mais quis ter um cão. Mãe de uma única filha, agora já casada, queixa-se frequentemente do abandono a que ela a votou. Não admira. Agora, que já está velha e doente, tem sorte se não for despachada para um daqueles lares onde os velhos não duram mais de dois meses...
EPC
Ao momento
Sexta-feira, Agosto 24, 2007
Mendes strikes back
P. S. - João, os seus desejos são ordens.<>
Na barra lateral...
Agora, o novo questionário refere-se ao outro mediático circo, desta feita o lúdico campeonato de futebol que tanta paixão irradia, que com tanta discussão nos anima a cada época. Para o bem e para o mal, "a bola" marca inevitavelmente o nosso calendário, quer se goste quer não. Eu sou dos que alinham, dos que o consomem, sem complexos. Já a politica, é diferente, consome-me a mim.
Etiquetas: Corta-Fitas
Porque hoje é sexta-feira
When a man loves a woman
Can't keep his mind on nothing else
He'll trade the world
For the good thing he's found
If she's bad he can't see it
She can do no wrong
Turn his back on his best friend
If he put her down
When a man loves a woman
Spend his very last dime
Tryin' to hold on to what he needs
He'd give up all his comfort
Sleep out in the rain
If she said that's the way it ought to be
Well, this man loves a woman
I gave you everything I had
Tryin' to hold on to your precious love
Baby, please don't treat me bad
When a man loves a woman
Down deep in his soul
She can bring him such misery
If she plays him for a fool
He's the last one to know
Lovin' eyes can't ever see
When a man loves a woman
He can do no wrong
He can never own some other girl
Yes when a man loves a woman
I know exactly how he feels
'Cause baby, baby, baby, you're my world
When a man loves a woman...
(Percy Sledge)
High in the sky
Joe Berardo voou com a Passarinha. A "estória", apesar do sigilo profissional da hospedeira, é deliciosa...Quinta-feira, Agosto 23, 2007
História de algibeira (27)
Música de todos os tempos (17)
Eagles - "Hotel California"
Os Eagles estão de volta. 28 anos depois regressam ao estúdio e à estrada.
Quarta-feira, Agosto 22, 2007
Da Hungria, com amor (2)
De uma cultura vivida assombrosa, os húngaros. Perto do crepúsculo, deslumbrados, ouvimos um violinista prodígio com nove anos de idade e que o mundo descobrirá certamente dentro em breve. Ouvimo-lo numa sala de estar de uma casa em Buda. A criança toca lendo uma pauta que praticamente desconhece, com a segurança só possível aos dotados com a aura do puro génio. O resultado emociona-nos. Muito mesmo. Noutra cidade, a 5 quilómetros da fronteira com a Sérvia, um museu expõe gravuras de Goya e de William Blake. Em cada esquina, livrarias e alfarrabistas. O primeiro livro que compro, por acidente ou não, é de um dos melhores poetas húngaros contemporâneos, János Pilinszky. Com poemas como este:
PATHOGRAPHY AND SWANSONG
A white arm from a snow-white mirror,
Da Hungria, com amor (1)
Na Hungria - ó minha chocada e agora para sempre definitivamente perdida horda de leitores - sempre que libertamos aquilo que as entranhas rejeitam, esse mesmo aquilo tomba e permanece num planalto de louça, imóvel, expectante, em diálogo com os nossos piores receios e maiores incertezas, passível de ser removido pela enxurrada do autoclismo, é certo, mas não sem que antes tenhamos sido confrontados com a inevitabilidade do nosso mais secreto e indesejável interior.
É certo que nenhum húngaro sai de casa sem antes ficar informado, até à exaustão, sobre o seu estado de saúde e tudo o que não conseguiu digerir na refeição anterior, apesar desse milagre vegetal que é a paprika. Mas, ao mesmo tempo, é também confrontado com a maior cacetada ontológica que alguém pode receber. Nós somos o que comemos, como alguém disse. Mas também o que, daquilo que comemos, libertamos. Na Hungria, a retrete é o nosso espelho mais profundo. A porta indesejável que se abre para a saída final.
Tesourinho?
Há coisas que devem ser partilhadas e os blogues servem para isso mesmo. Por isso, para quem também tenha andado fora deste universo, aqui fica uma pérola, um tesourinho (deprimente?) ou aquilo que lhe queiram chamar.
Nel Monteiro - "Puta vida merda cagalhões”, aqui.
Na mesma, como a lesma

Antes do relato das minhas peripécias húngaras, confesso que não esperava que a grande causa de agitação - durante o período em que estive ausente - fosse a invasão de um campo de milho por uma organização com nome de cooperativa vinícola e debaixo das barbas de uma GNR complacente. Quanto ao resto, o Benfica trocou de treinador para continuar na mesma, Paulo Teixeira Pinto deixou a Opus Dei e o granel em torno da AG do BCP continua na mesma, o relatório que vinha de Inglaterra ainda não veio e o caso Maddie continua na mesma, a ERC faz mais um relatório a dizer que não passa nada como todos os outros e na mesma continua. Entretanto, Menezes e Mendes cortejam Manuela Ferreira Leite, figura chave para garantir que, no PSD, nada fique diferente. Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, dizia-se durante a invasão de Junot. Nos dias que correm, parece que a única coisa que nos invade é o tédio.
Wikipédia mexe e é mexida pelos nossos políticos
Depois de José Sócrates, agora é Luís Filipe Menezes que se vê a braços com uma polémica relacionada com o uso da Wikipédia, a maior enciclopédia online do mundo. O "lapso" que o Público revela hoje não é nada bonito. Nada.
A ler:
1. "Menezes", por Paulo Tunhas.
2. "O plagiador de Gaia", por Miguel.
Branco mais branco não há
Segundo o CM, "a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) ilibou, ontem, o primeiro-ministro, José Sócrates, e o seu Gabinete de alegadas pressões sobre órgãos de comunicação social. No entanto, a deliberação não foi consensual. Um dos quatro conselheiros discordou da decisão". Então? Parece que “existem elementos probatórios no processo que revelam a prática por parte do primeiro-ministro (tanto através da sua própria intervenção, como do seu Gabinete) de actos condicionadores do exercício da actividade jornalística, relativamente ao jornal 'Público' e 'Rádio Renascença', lê-se na declaração de voto de Luís Gonçalves da Silva, da ERC, que esteve contra a deliberação". Terça-feira, Agosto 21, 2007
Um Governo sem ninguém ao leme
O imperador da música pimba (no mínimo)
Agosto
Que vento! No areal vai estar desagradável, detesto levar com areia na cara. Melhor apanhar sol na esplanada, naquela que tem uma protecção ideal para estes dias. (...) Oh!! Está cheia!
Marcelo sobre o seu ex-amigo Portas
"O CDS tem tido uma história negra. Ribeiro e Castro assumiu uma liderança quase impossível. Não mandava no partido, a mensagem não passava, foi um compasso à espera de Paulo Portas. Este voltou cedo demais. Não tem a frescura de há dez anos. Se olharmos para a sua postura formal, passou do jovem irreverente e rebelde para o ministro de Estado de fato cinzento às riscas, continuou como comentador de fato cinzento às riscas na SIC Notícias, e agora deitou fora a gravata e quer continuar a ser o menino que era, só que já não é. O CDS está muito fragilizado e não tem tido a coragem de dar um salto tipo Pires de Lima. Não sei que milagre Paulo Portas vai fazer".Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista ao Diário Económico
Let's fly
O Corta-Fitas aplaude o regresso da aeromoça, como dizem os brasucas, que faz o blogue A Passarinha.
A barbearia
Quando era pequeno, ir à barbearia do bairro era um ritual da minha masculinidade. Nem sempre voluntário, mas periodicamente inevitável, quando a juvenil guedelha hirsuta assim o exigia. Ao princípio ia com a minha mãe, que me entregava aos cirúrgicos cuidados do barbeiro e logo saía apressada, talvez pouco à vontade, talvez para fazer outras coisas úteis. Percebo perfeitamente, pois eu também não me sentia bem no território feminino, quando infortunadamente era obrigado a acompanhar a minha Avó ao cabeleireiro Brito & Brito, na Avenida da Liberdade. Eram momentos de sufocante opressão, com a ideia clara de que era um intruso naquele ambiente assexuado a cheirar a laca e a verniz. Espantavam-me aqueles estranhos capacetes espaciais, com as circunspectas senhoras debaixo, de dedos em riste pintados de fresco. Eram todos aqueles rolos, papelotes e turbantes na cabeça que me deixavam verdadeiramente intimidado, estarrecido.O que me lembro do meu barbeiro ali na Rua Almeida e Sousa em Campo d’Ourique, era das suas mãos lavadas e relógio dourado no pulso. Sempre de impecável bata branca e de conversa fácil, com os seus dedos duros e frios a endireitarem firmemente a minha cabeça fugidia. Lembro-me das pinceladas de sabão morno, e do raspar da navalha afiada na nuca e nas patilhas inexistentes. Era parte dos procedimentos. Lembro-me do fatal calendário de “garagem” com uma loira bem curvada, do horário e dos diplomas emoldurados. Também sobressaiam, ao lado dos grandes espelhos, umas fotografias a preto-e-branco de garbosas e antiquadas cabeleiras, bem penteadas com Bel Hair ou Restaurador Olex. Fascinavam-me também os pesados cadeirões em ferro pintado, onde me sentava soerguido num caixote “adaptador” para as crianças pequenas. E do estofo de cabedal redondo, que com duas espanadelas, se virava do avesso para assento do cliente seguinte. Naquele pequeno espaço, os homens comentavam as banalidades da política e do futebol, ao som do Rádio Clube, com as tesouras sempre a cortar, a cortar, em golpes ritmados, tchic, tchic, tchic, tchic. Depois, vinha aquela pergunta redentora: “o cabelinho é para molhar?” Finalmente o sacrifício acabava, era tempo de voltar para as brincadeiras, para casa ou para a praceta, com os cabelos caídos a picar nas costas.
Um dia destes, aburguesado e imprudente com as pressas, descobri perto do escritório um moderníssimo Cabeleireiro de Homens, cheio de paninhos quentes e inauditas mordomias. Surpreendi-me logo com o pretensioso recepcionista, de modos efeminados, casaco fantasia e gravata Disney que confirmava a marcação. Sentado na sala de espera, procurei em vão literatura apropriada, o Record ou o Correio da Manhã para me entreter. Só descobri as brochuras dos milagrosos produtos capilares. Logo uma menina, de rabo bamboleante, se abeirou de mim perguntando-me se eu queria arranjar as unhas... Eu, arranjar as unhas?!? Notei também as conversas dum cliente com a manicura, talvez um bem sucedido gestor de Import - Export, que me soou excessivamente íntima. O homem emitia confiantes e bombásticas opiniões, sobre a política e as finanças “de cordel”. Quando, de cabelos lavados, cheguei às mãos da decotada cabeleireira, balbuciei que não queria modernices, o que a deixou visivelmente contrafeita. Depois, veio uma jovem estagiária oferecer uma massagem capilar... e um café. No final paguei 25.00€. Nunca me saiu tão cara uma bica...
Duas semanas depois, quando o cabelo mal cortado definitivamente não assentava mais, decidi-me a visitar o velho e fiel barbeiro aqui de S. João do Estoril. Decidi-me a perder uma manhã de Sábado a ler o Record e o Correio da Manhã, e cortar o cabelo como deve ser. Ouvindo o Jogo da Mala e o Bola Branca em ondas médias, sem paninhos quentes ou embaraçosas mordomias. Afinal um conservador é um conservador.
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Segunda-feira, Agosto 20, 2007
Cavaquês
"Portugal tem um problema orçamental e deve corrigi-lo o mais depressa possível"; "é preciso gerir com muita eficiência e rigor os recursos disponíveis".Aníbal Cavaco Silva sobre a necessidade de correcção do défice.
"A violação de propriedade privada é uma violação da lei e espero bem que as autoridades competentes não deixem de fazer as investigações necessárias"; "não pode restar quaisquer dúvidas de que lei em Portugal é para ser cumprida e quem tem o poder para a fazer cumprir não pode deixar de utilizá-lo".
O Presidente da República, sobre a invasão da Herdade da Lameira.
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Ao ter dito o que disse sobre a infeliz invasão da Herdade das Lameiras, Cavaco Silva quis deixar claros dois pressupostos. Primeiro, é preciso que se investigue como foi possível aquela invasão, acompanhada de câmaras de televisão, acrescento. Se lá estavam, é porque foram avisadas e porque a invasão estava a ser programada há muito. Ou seja, se as televisões sabem, a GNR também já deveria saber. Logo deveria ter actuado antes do acontecimento, de forma a evitá-lo.
Ponto dois: quando o PR diz que quem é detentor do poder deve saber "utilizá-lo", está subjacente, para mim, um mais que óbvio puxão de orelhas. A autoridade é para ser exercida, com responsabilidade.
Assim, de repente, apetece-me lembrar a quem anda distraído que o Presidente da República, só nos últimos tempos, vetou o novo Estatuto do Jornalista, a lei das incompatibilidades da Madeira voltou para trás e ainda teve dúvidas sobre o acesso do fisco às contas dos particulares. Quem disse que Cavaco Silva está quieto e calado?
O assalto e o papel da GNR
Parece que o ministro Jaime Silva, responsável pela pasta da Agricultura, vai hoje visitar a Herdade da Lameira, onde atacaram os "activistas". É pouco, digo eu. Porque o caso não tem só a ver com a contestação aos organismos geneticamente modificados, a legalidade ou a ilegalidade da plantação. Para mim, tratou-se de uma invasão de propriedade privada, que ainda por cima foi filmada em directo e a cores pelas televisões, pela certa devidamente avisadas pelos "activistas". Nessas filmagens o que eu vi foi uma GNR passiva, nada actuante perante um bando de encapuçados e com uma única preocupação: aparecer bem nas televisões. Ora, este é um caso que mina a autoridade do Estado, deixa-nos a todos nós preocupados com o que será a actuação de uma força de segurança num caso que se passe connosco. Com as nossas terras, os nossos bens, as nossas vidas. Em mais uma coisa estou de acordo com Mendes: tem que haver consequências. Uma força que actua com aquela passividade e bonomia numa invasão só pode estar corroída pela inércia e pelo desrespeito à sua função legal. Isto ainda é um Estado de Direito, ou não?
Chicote
Parece que o homem que ficou conhecido por "engenheiro do penta" vai deixar aquele clubezeco do outro lado da Segunda Circular. Que pena, eu achava que ele era uma mais-valia...
Domingo, Agosto 19, 2007
A estupidez num campo de milho

Sou completamente contra os transgénicos e, por isso, acho que há poucas coisas mais estúpidas do que destruir um campo onde eles são cultivados. Os manifestantes poderiam ir lá, chamar a Imprensa, fazer um número qualquer, destruir simbolicamente duas ou três maçarocas, mas fazer aquela invasão num país com memória de pequenos proprietários rurais, onde quase toda a gente tem, ou teve, um "quintalinho" ou uma horta (ou são os pais, ou os irmãos ou cunhados ou os amigos que têm) e destruir "o fruto do trabalho" é de uma imbecilidade exasperante. Ainda se a propriedade pertencesse a um grande latifundiário, um banco ou algo do género, em termos de opinião pública, e não de legalidade, seria um pouco melhor. Mas não há nada a fazer, esta gente destrói tudo o que toca com a sua estupidez militante.
Silly, me?
O poder na rua II
Fico atónito com as irresponsáveis declarações de Miguel Portas na última página do DN de hoje, relativizando e justificando o acto de vandalismo de Silves na passada sexta-feira. Pergunto-me se esse senhor, que é bom de ver, milita no Bloco de Esquerda, acharia bem que um grupo de zelosos marginais, encapuçados por razões estéticas, pegasse fogo ao seu automóvel, perigoso poluidor da comunitária atmosfera.Imagem daqui
Etiquetas: A luta continua, Política, Quotidiano
Cinema Nostalgia (7)
A ternura entre dois homens heterossexuais é sempre tão difícil de gerir... É isso que nos comove em Cinema Paraíso, aquela amizade entre ele e o velho projeccionista cimentada pela paixão comum pelo cinema. Um amor construído aos repelões, tão desajeitado como o amor entre dois machos pode ser, sancionado apenas pelo fosso geracional que lhes permitia, enfim, uma certa liberdade, a mesma que é concedida a pais e filhos.
E foi com a autoridade moral de um pai que Alfredo - a personagem inesquecível de Philippe Noiret - tantas vezes o escorraçou da cabine de projecção, a defendê-lo do sacrilégio do cinema, daquela escravidão. Um esforço inglório, como se viu... e que nós celebramos a partir da plateia, conscientes como em nenhum outro filme do poder hipnótico do cinema...
A par desta bela amizade assistimos ainda à descoberta do amor romântico com a música de Enio Morricone em fundo, sempre ela. É impossível não nos comovermos com a generosidade daquele coração musculado por dezenas e dezenas de fade ins e fade outs a pontuar os melhores momentos de tramas onde os heróis mostram como se conquista uma dama. Tivesse ele passado a infância a jogar à bola e seria capaz de ficar assim, noite após noite, de olhos presos naquela janela?
São escassos os momentos em que a acção nos conduz ao tempo presente. Mas embora não estejamos a vê-lo deitado, distraído da mulher que tem ao lado, é sempre através dos seus olhos que assimilamos tudo. Daí a nostalgia, sempre tão evidente e a nossa situação de privilégio que nos permite adivinhar até o somatório de amores sem história que lhe aconteceram desde então e o transformaram no parente improvável daquele adolescente com tanta capacidade para amar. Cinema Paraíso, a obra-prima de Giuseppe Tornatore, realizada em 1988, e que venceu o Óscar para melhor filme estrangeiro e o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes, é uma das histórias de amor mais bonitas a que alguma vez assisti. Pena obrigar-me, de cada vez que o revejo, a puxar do lenço na cena final. A dos beijos, pois!
A política e a Fórmula 1
Trinta anos sem Groucho
Domingo
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».
Da Bíblia Sagrada
Etiquetas: Cristianismo, Religião
Sábado, Agosto 18, 2007
A tirada das elites, segundo Marcelo
Mendes no Pontal, segundo VPV
"O discurso de Marques Mendes, demagógico e absurdo, não o recomenda para primeiro-ministro. Um comício desvaloriza por definição qualquer crítica séria, muito especialmente se ela vem à mistura com propostas como o reforço da Junta Metropolitana do Algarve, que não passa de um recado grosseiro a uma audiência de ocasião".
"No Pontal, Marques Mendes perdeu autoridade, sem ganhar um voto. E permitiu até que o inconcebível Bota o acusasse com alguma verosimilhança de oportunismo e de inconsequência".
Vasco Pulido Valente, Público
Postais blogosféricos
O poder na rua
Etiquetas: Política, Quotidiano
Tertúlia literária (216)
- É romancista.
- Ah. E quantos livros já escreveu?
- Até agora, nenhum. Mas era morena e já se tornou loura. Promete vir a ser um best-seller.
Vinte cidades que jamais esquecerei (XI)
Sporting na pole position
O circo começou e ontem marquei presença no Sporting vs. Académica em Alvalade, jogo de arranque do campeonato 2007/2008. Após uns primeiros minutos titubeantes, logo a equipa da casa cresceu, chegando, durante o segundo tempo, a mostrar um futebol escorreito quase espectacular. O Sporting não deu uma goleada das antigas por azelhice do Liedson. Em campo, confirmou-se a mestria do Miguel Veloso que se nada de anormal acontecer será certamente a grande figura da nova época. De resto, confirma-se uma equipa coesa e afirmativa à imagem do último terço do campeonato passado, apesar das “deserções”. Gostei do Simon Vukcevic a tentar fazer esquecer Ismailov, rápido, com técnica e com um óptimo pé esquerdo. Finalmente uma palavra para Derlei: ou muito me engano, ou neste campeonato o homem vai fazer história. Etiquetas: Futebol
Sexta-feira, Agosto 17, 2007
Cuidado não se aleijem
Até tem uma certa graça ver os nossos queridos "libertários" assim engalfinhados... aqui e aqui.
Etiquetas: A bica em S.Bento é a 25 cêntimos, Fracturas expostas
Porque hoje é sexta-feira
A não perder...
O Museu da Electricidade recebe, pela primeira vez, as exposições das fotos vencedoras do 7º Prémio Fotojornalismo VISÃOBES e do World Press Photo 2007. A inauguração foi ontem e a exposição poderá ser visitada até dia 9 de Setembro, de domingo a quinta-feira, das 10h00 às 20h00; sextas e sábados das 10h00 às 22h30.A mais bela bandeira do mundo outra vez
Etiquetas: Quotidiano
O leitor corta fitas
Etiquetas: Corta-Fitas
Quinta-feira, Agosto 16, 2007
Tenho que ir apanhar umas conchas
Se alguém alguma vez me perguntasse qual é o meu restaurante preferido eu responderia sem hesitar que é do da Fábrica. Mas se o Duarte Calvão, agastado, me questionasse sobre a comida e o serviço, eu teria que lhe explicar que a expressão "favorito" é dúbia.Os tugas (30)
A ver
Tertúlia literária (215)
- Essa que usa decotes até ao umbigo. Tem aspecto de saber escrever melhor.
Rapariga de Olhão
Tristes análises
Mesmo sem ter estado na Festa do Pontal, que se realizou na passada terça-feira à noite, JPP não se inibe de comentar o que lá se passou. Baseado, quem sabe, em fontes de um dos lados. Os jornalistas, ao menos, estiveram lá. No terreno. Sabem do que falam. Acompanharam a evolução dos acontecimentos. Falaram com as pessoas. Afinal, Durão Barroso enganou-se quando chamou Zandinga a Santana Lopes no congresso do ano 2000. O PSD tem mais videntes...
Um poema de Torga para a ministra ler
Deponho no processo do meu crime.
Sou testemunha
E réu
E vítima
E juiz.
Juro
Que havia um muro
E na face do muro uma palavra a giz.
MERDA! – lembro-me bem.
– Crianças... – disse alguém
que ia a passar.
Mas voltei novamente a soletrar
O vocábulo indecente,
E de repente
Como quem adivinha,
Numa tristeza já de penitente,
Vi que a letra era minha.
Quarta-feira, Agosto 15, 2007
Cinema Nostalgia (6)
Já aqui falei da minha actriz. Ou melhor, da primeira vez em que, muito miúdo, me apercebi da existência de uma mulher que se desdobrava de filme em filme – a inesquecível Jennifer Jones. Interpretando papéis diferentes, mas com características únicas, imutáveis. Nessa mesma altura, cinéfilo imberbe, conheci também o meu primeiro actor. Falava um idioma diferente do de Jennifer, mas tão fascinante como o dela. E com um rasgo de mistério comparável ao que a intrigante intérprete de Desde que tu Partiste irradiava no ecrã. Gérard Philipe – é dele que falo – tinha uma aura diferente dos astros de Hollywood. Talvez por ter morrido muito cedo, em circunstâncias trágicas. Parecia-me uma espécie de milagre vê-lo ali, renascido em celulóide, quase um fantasma em assombrosas sequências de chiaro-scuro, expressionistas como poucas, nos dois filmes dele que me cativaram para sempre. Eram ambos assinados por René Clair – “o mais francês dos cineastas”, como lhe chamou Georges Sadoul -, um homem que teve o mundo do espectáculo a seus pés e que as plateias de hoje praticamente ignoram.Se um dos maiores atributos de um realizador é tornar imortais os seus actores, Clair tinha pelo menos esta qualidade indiscutível. Gérard sobressaía em cada cena – pela figura esguia, pelo rosto anguloso, pelo olhar tremendamente expressivo que nos transmitia a sensação de um ser atormentado pelas encruzilhadas do destino. E sobretudo pela voz – aquela dicção perfeita, que me aumentava a vontade de aprender francês. Língua fora de moda, dizem uns tantos, como se isso alguma vez fosse possível.
Já tinha falecido há muito, na flor da idade, quando o conheci. Primeiro ao lado de Michel Simon – outro gigante do cinema gaulês – em O Preço da Juventude, espantosa recriação do Fausto, de Goethe. Gérard, tentado pelo Mefistófoles-Simon, vendia a alma para obter a ilusão da eterna juventude. Prodigiosa ironia de que só o cinema é capaz: um actor atraiçoado pela vida encarnando na tela alguém que sobrevive a toda a erosão do tempo.Apetecia-me falar em realismo mágico a propósito deste filme se o termo não tivesse já sido apropriado até à exaustão por tudo quanto cheire a literatura latino-americana. Mas é ainda esse termo que para mim melhor define a outra película de Gérard Philipe que jamais me foge da memória: O Vagabundo dos Sonhos. Personagem errante, ao jeito de um Mersault de Albert Camus, irremediável inadaptado num universo em convulsão. Parecia deste mundo mas já não era deste mundo, o malogrado Gérard Philipe. Como Camus, como Boris Vian, como Martine Carol, sua parceira neste filme. Morrem cedo os que os deuses amam, é bem verdade.
Nunca mais voltei a vê-lo. Nem sequer nas Ligações Perigosas (com Jeanne Moreau), que viria a ser o seu filme-testamento. Mas de vez em quando escuto-o ainda. Numa velha e preciosa gravação de Pedro e o Lobo, de Prokofiev. Gérard Philipe é o narrador: entre trechos musicais que sei de cor desde criança, chega-me de novo a sua dicção perfeita, uma e outra vez, para todo o sempre, ficando a ecoar no infinito.
Gostei de ler
Desproporcionalidade. Do Eduardo Pitta, no Da Literatura.
Vestir a camisola. Da Paula Sanchez, em À Coca... em Lisboa.
O direito à memória. Da Leonor Barros, na Geração Rasca.
Eu vi este homem! Várias vezes, só hoje.
O inferno são os outros
Mulheres...
Assisto a reportagem sobre concerto de Tony Carreira na televisão. Milhares de fãs em delírio. Em bandos ou de maridos e namorados à tiracolo elas choram, gritam, pedem mais e confessam com orgulho verdadeiras façanhas aos repórteres que as entrevistam: que lhe coleccionam os discos, devidamente autografados, que o seguem para onde quer que vá. São provas de amor. De um amor devoto que provavelmente nunca dedicaram aos homens que as acompanham, de sorriso condescendente.O PSD e a sombra das "elites"
A ver vamos
Um grande susto logo pela manhã assim que ligo a televisão: "A notícia caiu como uma bomba..." Uma bomba? Não. Felizmente nada disso. Não percebi bem, mas pareceu-me que se tratava de um jogador que tinha sido vendido, que não podia jogar, ou algo parecido. Negócio de milhares, portanto. Terça-feira, Agosto 14, 2007
Atirem-lhes água fria, sff
Postais blogosféricos
2. Chama-se Porta do Vento. Um blogue que passei a visitar e que recomendo.
3. Outro blogue de que gosto é A Curva da Estrada. Este com entrada directa na nossa barra lateral.
Tertúlia literária (214)
- Faz. A personagem principal é um animal feroz. Nós, socialistas, gostamos disso.
Mudam-se os tempos...
Nilton, O Candidato
Espreitem os milagres que os especialistas podem fazer, numa verdadeira construção de imagem, mudando a percepção que temos das pessoas. Neste caso, do candidato.
Palavras, leva-as o vento
A minha filha pequena, que está a dar os primeiros passos nesta existência complicada, depois de uma saudável aula de cidadania e solidariedade (nunca por nunca dizer “Caridade” - s. f., amor ao próximo; benevolência; bondade; compaixão; beneficência) já me veio dizer que verdadeiramente “não há pretos, pai”. Todos diferentes todos iguais pensei eu. E vejo com bons olhos todo o reforço da escola laica à nossa educação cristã, o importante é a pessoa, não as suas circunstâncias. Mas logo a miúda me informou que “eles não são pretos, são castanhos, pai; e os brancos também não são brancos, são cor-de-rosa, pai”. Fiquei na dúvida se aquele preciosismo cromático cairá bem socialmente. Eu, por mim, se tivesse ambições políticas ou tivesse que escrever “a sério” um artigo sério sobre negros, escolheria a palavra “africanos”. Omite-se a cor para lhe tirar importância... e amenizar os nossos complexos de culpa coloniais. Para mais, nesta fase da minha vida não tenho nenhum amigo ou colega “de cor”, o que se pode revelar uma enorme fragilidade.
É como o "doente" num hospital que afinal se chama “Utente”. Corrigiram-me tantas vezes quando por lá andei, às voltas com o meu fígado. “Doente”, não: o estatuto de “Utente” tem muito mais dignidade e é o melhor placebo para qualquer terrível maleita. E evita que alguém de má fé nos aponte o dedo, e nos mande para o... hospital.
De resto, é o que eu sempre disse: "o verdadeiro cego é aquele que não quer ver". Sei-o há muito tempo, mas percebo agora que os outros, os cegos involuntários, são apenas “invisuais”. Ou melhor, “Pessoas Portadoras de Deficiência”, não vá a boca fugir para a verdade a algum malandro que o designe de forma indecorosa.
Daqui por uns anos já não haverá mais “velhos”, aquele incómodo e degradado Ser que passa o dia a gastar a pedra nos nossos jardins a jogar dominó ou a dar milho aos pombos. No futuro seremos todos respeitáveis e dinâmicos “Seniores” cheios de dignidade e de PPRs. Velhos nunca, que é aí que a morte se esconde.
É nesta estonteante espiral reformadora da realidade que o Governo Sócrates em boa hora extinguiu a Comissão Para a Igualdade e Para os Direitos das Mulheres e instituiu a revolucionária Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Eu por mim nunca mais vou “fazer género” com qualquer um... Promiscuidades é que não!
Estranhas modernices estas, quando se recusa a mentira mas tolera-se a "inverdade", pecadilho próprio de políticos e de outros inimputáveis. E da IVG que não oculta a tragédia do aborto nem quero mais falar, para não azedar esta crónica.
Com esta sempre renovada linguagem se reinventam tabus e o regime promove a sua semântica instrumental, anódina e igualitária, à qual a implacável realidade se mantém totalmente indiferente.
Etiquetas: Crónicas, Fracturas expostas
Segunda-feira, Agosto 13, 2007
O muro da vergonha
Verde por fora, vermelho por dentro
Ainda a Supertaça
Acho incrível que num blogue como este se chegue a segunda-feira e ainda não tenhamos enaltecido suficientemente a vitória do Sporting contra o FC Porto (1-0) na Supertaça. Gostei de ver o Sporting a arrancar a época com uma taça, gostei de ver o equilíbrio daquele meio-campo (Miguel Veloso, Moutinho e Romagnoli em grande) e, claro, do golo do Ismailov. Mas não gostei da fraqueza nas laterais, nem de ver Derlei em campo. Corrigidas estas lacunas, ainda vamos lá. E esperem até ver o Simon Vukcevic a jogar...Homenagem
Porque o importante é a pessoa. E às vezes os verdadeiros heróis são anónimos.
Etiquetas: Ler os outros
Domingo, Agosto 12, 2007
Não se pode ir a todas
Isabel Pires de Lima teve tempo, paciência e vocação para abrilhantar, enquanto ministra da Cultura, a festa do comendador Berardo no Centro Cultural de Belém. Mas hoje não teve tempo de assinalar em Coimbra o centenário de Miguel Torga, nem sequer de se fazer representar na ocasião. Percebo-a bem: não se pode ir a todas...No centenário de Miguel Torga
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação.
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.
Gostei de ler
Complexo colonialista europeu (branco). De Paulo Carvalho, no Poviléu.
Adeus Ota, olá Alcochete
Domingo
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem».
Da Bíblia Sagrada
Etiquetas: Cristianismo, Religião
Sábado, Agosto 11, 2007
Cinema Nostalgia (5)
A memória mais remota que eu tenho do cinema? Talvez a daquela tarde em que fui com o Manuel ver a matinée infantil. Para ser rigorosa, na verdade não se tratava de uma primeira vez. Por essa altura já seria talvez uma veterana em tais andanças, mas a diferença é que nesse dia não fui acompanhada pelos pais, nem por qualquer adulto. Aos nove estreava-me a ir ao nimas com o namorado, seja lá o que isso for quando se tem nove anos... O Manuel era um puto de franja, ligeiramente mais novo que eu, pele morena e olhos azuis. Um gato! Conheci-o nessas férias na praia, e foi amor à primeira banhoca. Nessa tarde de Agosto, enquanto nos encaminhávamos pela rua fora rumo à espelunca onde projectariam o nosso filme, percebi, enfim, todas as potencialidades do cinema. Nesse dia descobri que o que se passa na tela não esgota o prazer que sentimos e que há dias em que o filme que mais interessa é mesmo o nosso. Sexta-feira, Agosto 10, 2007
Porque hoje é sexta-feira
Aprender a governar
Daniel Oliveira, Arrastão
* O sublinhado é meu
Um filme de acção
Não é a primeira vez que me acontece, nem será, por este andar, a última. Há dias fui buscar um filme ao Blockbuster das Amoreiras e qual não é o meu espanto quando vejo um carro da polícia, vulgo PSP, estacionado em frente, fora dos lugares reservados. Ainda pensei que tinham ido fazer alguma diligência ao clube de vídeo, mas afinal o polícia tinha ido alugar um filme. Como qualquer comum dos mortais. A grande diferença é que nós não o fazemos quando trabalhamos, por isso também não compreendo que os agentes da autoridade, em vez de patrulharem as ruas com olhos de lince, andem a ver filmes em aparelhos de DVD portáteis. Há dois anos vi exactamente a mesma cena no Blockbuster de Carcavelos, portanto deduzo que deve ser moda os polícias de hoje procurarem algum divertimento... enquanto trabalham. Só neste País.A vida, o universo e tudo o mais
Talvez Pinto da Costa devesse ter lido Lope de Vega e antecipado melhor os efeitos secundários da «sangria». Talvez lhe tivesse sido útil ter também lido a rititi e o seu post sobre essa obsessão – para ela inexplicável - que os homens têm com as glândulas mamárias. Ou não. A vida, como todos os que já andam aqui há uns anitos aprenderam, não é explicável. E há, nas glândulas mamárias, uma afirmação exuberante da vida. É sabido, querida Rita, que quanto maiores elas são mais vitalidade transparecem. Não duvido de que existe, algures, um limite. Mas, qual Star Trek atrevendo-se «to boldly go, where no man has ever gone before», também um homem que o seja ambiciona o momento em que essa fronteira lhe surja para poder então, com a voz quiçá asfixiada, dizer basta. Para mim, como profetizavam os gauleses, «amanhã não será a véspera desse dia». E, se a mulher é como a sangria, venha daí um jarro dela. Tinta ou branca, tanto faz.
Etiquetas: A Mulher esse princípio activo do Universo
Igualdade de géneros
P.S.: Não queiram saber a dificuldade que é manipular o computador portátil com um miúdo de 6 meses aos guinchos ao colo. Nem vos digo!
Etiquetas: A Mulher esse princípio activo do Universo, Férias
Quinta-feira, Agosto 09, 2007
Ele anda aí...
Taxista, simpático e suspirante: - Gostava de tirar uns dias de férias, mas para onde é que eu vou? Tenho uma irmã que tem uma casinha na margem sul, na Caparica, e convidou-me...Eu: - A Caparica não é nada mau...
Taxista, aos gritos: - E ATURAR O MALUCO DO MEU CUNHADO? NEM PENSE NISSO!
(Silêncio)
Taxista mais calmo: - Já pensei ir até ao Algarve, preciso mesmo de descansar...
Eu, receosa: - Parece que este ano o Algarve está mais sossegado...
Taxista, aos gritos outra vez: - E O QUE É QUE EU FAÇO À NOITE? HEIM? COM OS SONOS TODOS TROCADOS! VOU ANDAR SOZINHO POR AQUELAS RUAS DE ALBUFEIRA? HEIM?
(Silêncio)
Taxista, com voz amorosa: - Também me falaram muito bem de Cabo Verde. E eu gosto muito de mar.
Eu, já a desafiar a sorte: - Se gosta de mar, em Cabo Verde pode nadar à vontade.
Taxista, de cabeça perdida, virado para trás e a espumar pela boca: - PARA QUÊ? PARA SER MORDIDO PELOS TUBARÕES E PELAS PIRANHAS? PARA FICAR SEM UMA PERNA?
Eu, sensatamente: - Pode parar aqui, fáxavor.
Corpos de Verão
Na escrita de dois homens atentos: Rui Albuquerque escreve sobre tatuagens e Francisco José Viegas sobre o (feliz) desaparecimento da moda das calças com cintura descaída.Partido Elitista Português
Impressões Musicais (12)
Estes levaram-me à Lua. Os sempre eufóricos e ribombantes Mike Scott and The Waterboys...
.
(…)
Etiquetas: Música
Genial
É mais para Sportinguistas, mas vale a pena ver uma acção marketing perfeita. Basta clicar aqui, preencher o nome e o numero de telemóvel e aguardar o descarregamento do filme. SURPREENDENTE.
Nota: Durante a operação tenha o telemóvel acessível!
Etiquetas: Comunicação, Futebol
Lembrei-me, agora...
Quarta-feira, Agosto 08, 2007
Os Correios
Gosto da marca, gosto do logótipo. A silhueta em branco de um cavaleiro de trombeta na mão, a cavalo e a galope. Melhor mesmo só se fosse sobre fundo verde, que eu cá sou do Sporting. A vida cruzou-me demasiadas vezes com esta vetusta “instituição” nacional: os CTT, que em tempos tinham como missão pôr as pessoas em contacto, pô-las a contar, a namorar, a dizer de sua justiça. Para o bem e para o mal, recebíamos lá em casa cartas ou postais de parentes ou amigos, multas, as inevitáveis “contas”, extractos bancários, e, às vezes, publicidade: um gorduchinho envelope das Selecções do Reader’s Digest, ou uma brochura dalgum ingénuo editor que nos elegia como potencial cliente de um caríssimo fac-símile. Acontecia às vezes ir levantar um registo ou despachar correspondência ao meu pai, uma enorme estucha sem recompensa possível. Aquela senhora de óculos fazia tudo muuuito devagarinho, os outro quatro modernos guichets estavam sempre fechados, e o quinto era para chamadas internacionais. Assim que se perdia uma boa manhã a preguiçar nas férias. E mesmo assim, ao final da longa espera, arriscava um ralhete da empregada por não trazer trocos, ou voltar a casa em busca do BI do Sr. Marquês.Anos mais tarde percebi que esta “instituição” não era uma condescendente benesse do Estado ao mal agradecido e insolente cidadão da república - que eu apesar de contrariado também sou. Descobri com alguma surpresa que os correios eram uma empresa que vende serviços a quem os queira comprar. Que precisavam de público, de mercado, de clientes, por Deus!
Bom mesmo, foi quando o posto de correios de Campo d’Ourique, ali na esquina da Domingos Sequeira com a Rua do Patrocínio trespassou virando cervejaria com moelas, sapateiras e imperiais a rodos. Mesmo na altura em que comecei a ter uns trocos e bons amigos para a noitada reinadia.
De resto, os CTT hoje são aquilo que se sabe. No correio não recebo cartas ou postais. Só contas e avisos de impostos para pagar, e... toneladas de publicidade. Como os demais 80% dos habitantes de São João do Estoril, trabalho e passo o dia noutro Concelho, pelo que os correios “da minha terra” pouco serviço me fazem. Sei que vendem pratos e medalhas dos “três grandes” da bola, livros em edições raras, brinquedos especiais, selos de colecção e muito “marchandaising”. Também se “destrocam” vales postais e as pensões aos reformados, que pouca mais gente lá vai. É que o estabelecimento abre às nove e fecha às seis e está fechado para o almoço das 12.30 às 14.00. É só para quem quer meeesmo. E eu fico chateado quando o correio é registado ou não coube na caixa do prédio: pela certa, como mais alguns desgraçados bananas, vou ter que tirar uma manhã de trabalho para ir aos correios, não se dê o caso de ser uma coisa importante, dos tribunais ou das finanças. E a propósito, amanhã sem falta tenho que lá ir “levantar” um misterioso aviso que está mesmo a caducar. E não me vou esquecer de levar uns trocos, não vá alguém zangar-se comigo.
Etiquetas: Coisas da vida, Crónicas, Memórias
Cinema Nostalgia (4)
A primeira vez que senti o verdadeiro impacto de uma presença feminina no ecrã foi com os filmes de Jennifer Jones, minha precoce paixão cinéfila. Não era uma estrela como as outras, das que faziam publicidade ao sabonete Lux mergulhadas em banheiras cheias de espuma. Jennifer cheirava a flores campestres: era muito morena, cabelos lisos, lábios cheios, uns olhos enigmáticos que me prenderam (ou me perderam) para sempre. Jennifer, a minha primeira actriz: aparição fulgurante como vidente de Lourdes n' A Canção de Bernadette. Mas nada havia de angelical nela: tinha uma sensualidade explosiva, como fui testemunhando de filme para filme, cada vez mais fascinado pela sua beleza exótica que deixava em brasa todos os homens com quem contracenava: Charlton Heston, em A Fúria do Desejo; William Holden, n’A Colina da Saudade, Gregory Peck, nesse fabuloso Duelo ao Sol; até o errático Montgomery Clift em Stazione Termini, de Vittorio de Sica, talvez a película mais atípica da sua carreira. Quem só descobriu o erotismo na Sétima Arte no momento em que Sharon Stone descruzou as pernas nem imagina do que falo...Não há amor como o primeiro: prendi-me a outras mulheres, perdi-me por outras actrizes, mas nenhuma me fez esquecer Jennifer Jones. Nem os planos rodados no Central Park envolto em névoa desse filme onírico que nunca mais revi. Pergunto-me o que será feito dela: vislumbrei-a pela última vez dançando com Fred Astaire n’ A Torre do Inferno, mas ela parecia já não estar ali, parecia já não ser deste mundo. Senti-me como Joseph Cotten, enquanto do recanto mais fundo da memória emergiam trechos do belíssimo tema de Dimitri Tiomkin, inspirado em Debussy: “With a portrait of Jennie / I will never part / For there isn’t / Any portrait of Jennie / Except in my heart.”
A primeira actriz por quem me apaixonei há-de ser um eterno enigma para mim.
Bom investimento
O "alívio fiscal"
A importância do número dois
Tertúlia literária (213)
- Desconheço. Mas acho que era alguém que estava mesmo mesmo mesmo a precisar que lhe oferecessem uma bússola.
Deixem-no ter férias...
Terça-feira, Agosto 07, 2007
Indignação cirúrgica
Sete horas e quarenta e três minutos
Sawat dee *
Tertúlia literária (212)
- Olha, eu brindo sempre ao Fleming por ter descoberto a penicilina. Se não fosse ele...
- É verdade. E nos tempos livres ainda escrevia os livros do James Bond. Vamos lá brindar!
História de algibeira (26)
Debaixo de grande polémica, Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e "chefe de família", ousou votar nas primeiras eleições republicanas a 28 de Maio de 1912 aproveitando as indefinições existentes no enunciado da Lei.Na sequência da controvérsia, é aprovada pelo senado em 1913 a Lei Eleitoral da República (nº 3 de 3 de Julho) onde pela primeira vez num texto legislativo se determina expressamente o sexo dos cidadãos eleitores: “são eleitores dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos, ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa".
O direito de voto às mulheres foi concedido (precariamente) pela primeira vez em Portugal, em 1931 sob o patrocínio legislativo do Estado Novo (lei nº 19:694 de 5 de Maio), restringido àquelas com o curso dos Liceus. Em 1934 nas eleições legislativas foram eleitas pela primeira vez mulheres para a assembleia nacional: Domitília Hormizinda Miranda de Carvalho, Maria dos Santos Guardiola e Maria Cândida Pereira.
Fonte: “A Concessão do Voto às Portuguesas” por Maria Reynolds de Souza, 2006 - Colecção Fio de Ariana editada pela Comissão Para a Igualdade e Para os Direitos das Mulheres.
Etiquetas: Centenário da república, História
Segunda-feira, Agosto 06, 2007
É Agosto, é Agosto
O amor no Verão
Etiquetas: Estação pateta, Férias
Ceder na Madeira para ganhar o País? (I)
Ceder na Madeira para ganhar o País? (II)
Tertúlia literária (211)
- Não é Laçarote. É Lanzarote.
- Ah, pois é. Como ele ainda há pouco tempo voltou a dar o nó, veio-me à cabeça esta palavra. Laçarote.
Domingo, Agosto 05, 2007
Cinema Nostalgia (3)
Não, aos 13 anos, não recomendo a ninguém Lágrimas e Suspiros, por ser demasiado arriscado. De facto, eu podia ter-me incompatibilizado com Ingmar Bergman logo ali - era esse o risco - mas estranhamente deixei-me encantar por aqueles planos devoradores de almas, pelos silêncios mais eloquentes a que alguma vez tinha assistido, por aquela quase pornografia onde a nudez era a das angústias e paixões.
Se há coisa de que os adolescentes entendem é de emoções em estado puro. Penso que foi por essa via que um dos filmes mais densos e tristes de Bergman me enlaçou. Para além das palavras a que eu ainda não conseguia chegar, subsistiram aquelas dores que eu reconhecia tão bem e que até ao momento nunca tinha visto assim, magnificamente estampadas em ecrã gigante. A verdade é que nunca mais falhei um Bergman. A Fonte da Virgem, O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, Cenas da Vida Conjugal, Face a Face e o tão incompreendido pela crítica O Ovo da Serpente são os títulos de algumas das muitas missas a que passei a assistir, sempre com uma admiração renovada.
Através de Bergman conheci também uma das maiores actrizes do nosso tempo, a norueguesa Liv Ullman, tão presente na sua obra que passou a ser o rosto feminino que imediatamente lhe associamos. Em 2003 foi possível revê-la em Saraband, o último filme de Bergman, uma despedida que não defraudou as nossas expectativas, mas que sem ela não teria sido perfeita.
Há dias, morreu o mestre do cinema que primeiro amei. A ele devo alguns dos momentos mais intensos da minha vida de cinéfila.
A luta continua
A “soviética” revolução de Outubro, violentíssima génese do mais sanguinário regime conhecido, celebra 90 anos dentro de alguns meses, e é razão para entusiásticas celebrações na próxima festa do “Avante!”, órgão oficial do sistémico Partido Comunista. A inteligenzia apaniguada do regime fechará convenientemente os olhos à ignóbil celebração. Para tanto basta um convite para uma pública passeata no santuário do Seixal que logo o tinto carrascão e umas febras fumegantes, adormecem a sua sensibilidade democrática. A boa propaganda assim aconselha, pois afinal não é tudo tão “relativo”?Entretanto, à conta do erário público, preparam-se os nacionalíssimos festejos do centenário da velha e caduca república do não menos passado Dr. Vital Moreira. Celebremos então a carbonária, a formiga branca e o camião da morte. Rejubilemos com as perseguições e o ressentimento sanguinário, o assassinato politico, a desregulação democrática, enfim, o completo caos.
A gananciosa fidalguia regimental, em plena posse da máquina de propaganda, rejubila com a previsível festança para o pagode iletrado. Para o povo historicamente analfabeto e acrítico, hoje alienado com as ilusões da fortuna pós-moderna: viagens enlatadas, telemóveis topo de gama, unhas de gel e outros ídolos do jet 7. Uma vertigem de prazer inusitado.
Abaixo da superfície, uma ligeira vibração é perceptível. Sinais de que a história não acaba aqui e de que a luta continua.
Etiquetas: Centenário da república, Política, Quotidiano
Do bolo-rei para o altar
Que eu me recorde, nenhum outro político foi tão vítima de preconceito de classe como Cavaco Silva quando era primeiro-ministro. Recordo uma senhora, de cabelo levantado pela laca e coberta de anéis, que me disse uma vez, com ar levemente enjoado: "Ele faz-me lembrar aqueles filhos das criadas que entram em nossas casas...". Os "filhos" - provavelmente altos de mais e desajeitados demais, que as filhas podem sempre vir a ser úteis para dar uma mão na copa... Postais blogosféricos
Lenda é paleio de mortos
Domingo
Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?».
Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».
E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».
Da Bíblia Sagrada
Etiquetas: Cristianismo, Religião
Blogues em revista
Tertúlia literária (210)
- Recomendo-te os 15 minutos antes do fim. É a especialidade dele.
Sábado, Agosto 04, 2007
O amigo Vasco
Gostei de ler
Uma nova era partidária. Do Carlos Manuel Castro, no Tugir.
A boutade. De Eduardo Pitta, no Da Literatura.
O Zé ao poder. Do José Gomes André, no Bem Pelo Contrário.
O estado do País. De José Mexia, no Nortadas.
A bem da Nação! De Pinho Cardão, na Quarta República.
De malas e bagagens. Da Leonor Barros, na Geração Rasca.
Cinema Nostalgia (2)
Há filmes que não se explicam e Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, é certamente um desses filmes. Quando o vi, pela primeira vez, tinha uns 15 anos e foi como se tivesse descoberto um novo continente. Há qualquer elemento que transporta o viajante para um universo etéreo, pictórico, narrativo, não sei, mas que paira a grande altitude. Lembro-me de ter pensado: “Então, o cinema é isto”. Mas, se me perguntam a que me refiro, não saberei dizer.
Barry Lyndon é a história de um aventureiro irlandês do século XVIII. Baseia-se num romance escrito em 1844 pelo escritor vitoriano William Makepeace Thackeray, As Memórias de Barry Lyndon. Kubrick fez uma mudança crucial: no filme, não há memórias, pois o narrador omnisciente conta-nos uma história real, cujas peripécias são autênticas, ao contrário da versão literária, onde o que se conta pode muito bem ser fantasiado. O herói participa em duelos, em batalhas, em espionagem; vive a adrenalina do jogo, da traição, do amor, da guerra; Barry Lyndon deserta, engana, é enganado; seduz mulheres, dá o golpe do baú; é odiado; acaba na miséria.
Apesar da preocupação realista, que inclui inovações técnicas que permitiram filmar à luz das velas ou da exactidão dos detalhes (uniformes, tácticas militares, castelos), Kubrick consegue criar uma atmosfera separada da realidade. Por vezes, as imagens são como pinturas e a vida de Redmond Barry flui como num sonho.
Podia também estender-me sobre a qualidade dos actores: Marisa Berenson ficou, para mim, como o arquétipo da beleza feminina. O esplendor da música barroca e a subtileza da música irlandesa. Podia falar da beleza esplendorosa das imagens, da precisão das palavras, do ritmo lento da narrativa.
Este é um filme tão perfeito, que deve ser visto várias vezes.
Kubrick foi um dos grandes realizadores do cinema e, na minha opinião, este filme é a sua obra-prima. Gosto muito de Roubo no Hipódromo e, sobretudo, o Caminho da Glória (julgo que é este o título em português), mas Barry Lyndon consegue o que nos outros filmes não surge tão nítido: criar um universo totalmente separado e levar-nos ao seu interior, deslumbrados.
Para mim, este é o filme mais europeu que jamais foi feito, no sentido de constituir uma espécie de tratado sobre o cerne da nossa civilização. E a ironia é que foi realizado por um visionário americano.
Etiquetas: Cinema, Cinema nostalgia, Crónicas
Sexta-feira, Agosto 03, 2007
A quem possa interessar
A petição para apoio a Dalila Rodrigues já circula e pode ser acedida aqui.
Etiquetas: Fracturas expostas
Sim, sr. ministro
Depois desta mensagem do PR à Assembleia da República, a propósito do diploma que altera o Estatuto dos Jornalistas, o mínimo que se pode exigir é que o ministro da tutela, Augusto Santos Silva se retracte. Mas o que seria normal em qualquer País civilizado e que preza a ética na política era mesmo que o ministro dos Assuntos Parlamentares, que andou numa luta cega contra o que chamou de "jornalismo de sarjeta", apresentasse a sua demissão imediata. Isto porque não vejo em José Sócrates coragem e determinação para o fazer. E já hoje, se possível.
Pink Teixeira
Hoje somos todos cavaquistas
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A ler:
- Veto presidencial ao Estatuto do Jornalista. Do Helder Robalo, no Pensamentos.
- À espera da demissão de Santos Silva. Do Rui Costa Pinto, no Mais Actual.
Férias III
Férias é ter o carro cheio de pó, areia e pegadas,sem querer saber, sem me chatear.
Férias é ver no telejornal de relance no café,
o Sá Fernandes e o país a arder.
Férias é ir ao cinema à noite, e ter a barba por fazer.
Escrever postais à família, comprar os selos,
e pô-los no correio mesmo a tempo do regresso.
As férias também dão uma trabalheira,
choros, amuos e muitas sanduíches de fiambre.
Etiquetas: Férias
Porque hoje é sexta-feira
Quinta-feira, Agosto 02, 2007
À direita, toda a mudança será bem-vinda
Do dicionário (6)
Delete - aquilo que acontece aos funcionários do Estado quando cometem um delito... de opinião.
Com Dalila Rodrigues, directora do Museu de Arte Antiga, agora afastada do cargo por criticar modelo de gestão dos museus, governo soma e segue.
O tempo passa
Outra casa
Se fosse com eles...
Os blogues estavam lá
Jogatana
Com esta jogada de mestre de António Costa, ao conseguir que o "rebelde" José Sá Fernandes integre o executivo da Câmara Municipal de Lisboa, José Sócrates recebeu um presente de anos antecipado. Com que cara é que o Bloco de Esquerda vai agora contestar o Governo e a maioria PS estando coligado na maior câmara do País? Daqui até 2009, Louçã vai estar mais calmo que o costume e depois disso veremos se não será necessário para outros entendimentos, caso Sócrates não atinja a maioria absoluta. Sá Fernandes ficou com o Ambiente em Lisboa, Louçã irá ficar com que ministério em 2009? Quem é que julga que o homem se irá contentar com um acordo de incidência parlamentar? E não me venham com a conversa de que isto em Lisboa não é uma coligação, é um acordo, porque essa não pega. Houve negociações prévias, cedências mútuas e um entendimento formal. Se isto não é uma coligação, não sei o que será. Agora, prova-se mais uma vez a inexistência da oposição à direita que vê o PS aliar-se ao BE e sobretudo ao homem que mais obstáculos criou à gestão dos dois últimos executivos camarários. Por acaso executivos em que o centro-direita governou. Mas para este PSD e este CDS está tudo bem. O primeiro partido está envolvido numas directas agitadas, o segundo seguiu de férias para o Algarve ou sabe-se lá para onde com o dr. Portas, já que se trata de um partido unipessoal.Jardinagem
Este acordo de Sá Fernandes para Lisboa estabelece alguma regra nova para as verduras que plantamos na nossa janela? Ou vai tudo para o corredor verde do Monsanto?Quarta-feira, Agosto 01, 2007
Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és
É assim que os enganamos, no meu bairro
Às vezes vejo turistas tresmalhados às voltas no meu bairro, enganados pela propaganda ao percurso do eléctrico 28. Muito brancos no meio dos meus vizinhos de pele muito escura, fotografam as placas com os nomes das ruas e vê-se-lhes o espanto nos olhos: "Estranho país, tão confuso numas coisas e tão metódico na arrumação dos seus imigrantes por país de origem: rua de Angola, rua de Cabo Verde, rua do Zaire, rua de Goa, rua de Moçambique". Ao fim da tarde estão especados, à espera que o caos se transforme em ordenados carreiros que entrem na rua da sua origem e desapareçam atrás das portas de madeira verdes, ainda mais confusos quando vêem no mapa que estão no Bairro das Colónias. Do populismo: estilo e substância
Tertúlia literária (209)
- Não sei se aquilo estará bem escrito. No estado em que ele tem os joelhos...
Férias II
Férias é visitar a feira do livro local,
e ter mais olhos que barriga.
Férias é comprar um jornal desportivo,
e sonhar que esta época seremos campeões.
Férias é jantar peixe fresco e cerveja gelada,
com amigos reencontrados.
Férias é passar o dia de xanatas e calções,
e arranjado, sair à noite a namorar
Etiquetas: Férias



















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