Quinta-feira, Agosto 31, 2006

A derrota (ainda) mal digerida

Na entrevista hoje publicada no Diário de Notícias, e a que o João Villalobos já fez referência, Mário Soares revela a António José Teixeira que desde a derrota eleitoral de Janeiro decidiu "fazer uma pausa, de meses largos, para pensar". Interrogado, no entanto, se Manuel Alegre - que o ultrapassou em seis pontos percentuais, conseguindo o segundo lugar nas presidenciais - era afinal o melhor candidato da esquerda, Soares chutou para canto: "Sobre isso há análises diversas. Mas não serei eu a fazê-las." Mais de meio ano depois, teima em não reconhecer uma evidência ditada pelo resultado das urnas. De quantos mais "meses largos" de reflexão precisará para admitir o erro estratégico que cometeu?

De facto, uma notícia triste

A Inês já aqui escreveu sobre o encerramento do semanário O Independente, nos termos exactos em que eu próprio escreveria, e o Francisco também se pronunciou sobre o assunto, hoje muito glosado na blogosfera. Junto-me ao coro só para dizer que me custou entender como é que alguns profissionais da informação acolheram esta notícia com algumas expressões de alívio ou mesmo de mal disfarçado júbilo. O encerramento de um jornal é sempre um facto triste - ainda para mais tratando-se de um título que, queira-se ou não, marcou toda uma geração de jornalistas portugueses.

Impressões musicais (5)

Foi em meados dos anos 50 com o advento da indústria discográfica, e com o apoio da telefonia, que se democratizou o consumo da música. Desde então que falamos da música Pop (de popular). Neste “fenómeno” eu incluo toda uma variada gama de “rótulos”, que vão da simples "Cançoneta" à Música de Intervenção passando pelo Rock ao Folk (lore) até ao Fado, ao Jazz, etc.
Serve esta introdução para dizer que não possuo qualquer complexo ou sentimento de culpa por gostar de pequenas grandes criações do género. Inegavelmente reconheço grandes compositores especialistas no género - os pequenos temas musicais de 3 ou 4 minutos, com simplicíssimas e geniais melodias. Se nos despirmos de “snobeiras” ou preconceitos, admitiremos que gente tão diferente como Lennon e Mc Cartney, Jacques Brel ou Elton John, José Cid ou Sérgio Godinho, Caetano Veloso ou Chico Buarque, Paul Simon ou Paul Anka, deixarão para a posteridade intemporais pérolas musicais e às vezes poéticas; Canções como Eleonor Rigby, Quand on n’a que l’ amour, Your Song, 20 Anos, Balada de Rita, Leãozinho, Olhos nos olhos, Song for the Asking, ou My Way, ainda me comovem e não só marcam uma época como acredito que serão recuperadas no futuro, por intérpretes vindouros.
E, caro João Villalobos, quanta sofisticada música, aborrecida e empoeirada, jaz na minha discoteca, obras que a seu tempo se pretenderam revelações de “arte maior”, liberta e moderníssima? Alguém n’algum dia pegará nessa tralha?

PS: Os exemplos de canções e autores foram uma escolha (convicta) do momento.

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Da comunicação

O episódio da escolha do sucessor de José Souto Moura como Procurador-Geral da República tem demonstrado que, talvez por ser Agosto, o Governo de José Sócrates tem cometido os primeiros erros em matéria de política de comunicação institucional. O Governo parece estar a vacilar. O mesmo Governo que muitos consideravam sem mácula em matéria de comunicação governamental - não precisando sequer da central que Morais Sarmento e companhia (muito) limitada queriam montar na Gomes Teixeira no tempo de Durão Barroso. Veja-se: O primeiro-ministro dá uma entrevista a uma televisão onde demonstra que o mais provável é o Governo chamar a si a escolha, sem consultar a oposição. Depois, Vitalino Canas, porta-voz do PS, reforça aquela ideia e garante que "não há tradição, nem regra", que obrigue o executivo a partilhar a escolha com os outros partidos com assento parlamentar. Diz Vitalino que se houver alguma conversa, ela não passa de um exercício de "cortesia". A seguir, sabe-se que Belém prefere os consensos e lembram-se mesmo as palavras de Cavaco Silva durante a campanha e no discurso da tomada de posse. Logo no dia seguinte sabe-se que Sócrates telefona a Ribeiro e Castro e a Marques Mendes (por esta ordem curiosa) para falar do envio de tropas para o Líbano e acaba por introduzir o tema do processo de escolha do PGR.
A seguir vem o pior: Fontes do Governo, supõe-se que oficiais, dizem à Agência Lusa que Sócrates irá falar com todos os partidos e que há, afinal, uma hierarquização da escolha por categoria profissional, dando primazia aos magistrados do Ministério Público e colocando os advogados no fim da linha. Mais umas horas e é o próprio ministro Albero Costa que envia uma nota à agência noticiosa a desmentir "categoricamente" esta última notícia e a dizer que a mesma é destituída de qualquer fundamento. Por fim, o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, acusa "parte da oposição" (o odioso deve ser para o PSD e a deferência para o CDS) de andar a fazer "comícios" com o perfil do futuro PGR. Mais, acaba também por visar certas notícias com "fontes anónimas" e de informação "de corredor". Espantoso. Será que o Governo perdeu o pé na matéria? Ou terá razão Vasco Pulido Valente, quando dizia há dias que este Governo só fala por personagens que possam ser desmentidas quando o primeiro-ministro muito bem entender? Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos... Enquanto isto, a oposição dorme o sono dos justos e não age porque pensa sempre que alea iacta est. Os dados estão mesmo lançados?

Ainda o fecho do Indy

Manuel Falcão, que foi o primeiro subdirector do jornal (MEC era o director e Portas o adjunto), e o Vítor Cunha (que foi quase tudo naquele jornal, de redactor de política a editor, de editor executivo a director adjunto, até chegar a accionista e vender a sua posição) também já escreveram sobre o assunto. Aqui e ali.
A Marta R., por seu turno, revelou a relação que mantinha com o jornal. Ici.

Os comunistas são nossos "amiguinhos"...

Ainda acham que estou a exagerar?
Então leiam o lancinante testemunho
de mais uma vítima de Stress Pós-Traumático de Vasco Granja:

O Sr. Vasco Granja, que apresentava o seu programa sempre com um certo ar esgazeado, mostrou-nos milhares e milhares de filmes de animação todos iguais de autores polacos, checos, russos, búlgaros, com nomes ininteligíveis invariavelmente acabados em vsky, vitch ou lev. Estes filmes de animação ficaram popularmente conhecidos por “Konec’s”, pois era a única palavra que conseguiamos ler em todo o filme, para além de ser a mais aguardada pela audiência pois “Konec” quer dizer “Fim” em polaco.

Ao fim de alguns anos e, provavelmente após milhões de cartas de pais, preocupados com os danos físicos e morais que o Sr. Vasco Granja estava a provocar nas crianças de Portugal, este, a contragosto, reabilitou algumas das figuras da Warner, UPA, Hanna-Barbera, etc. As crianças portuguesas exultaram de alegria, mas como diz o ditado, não há bela sem senão, esta alegria durou muito pouco, pois Vasco Granja tinha as piores das torturas preparadas na sua manga, torturas essas que ainda hoje me provocam calafrios.

A primeira consistia na pronúncia dos nomes das personagens: descobrimos que Daffy Duck, popularmente conhecido até então pelo nome de “pato maluco”, se chamava “Páto Dáfi”, Bugs Bunny era o “Bugues Buní”, o cão Droopy era o “Drúpi”, Elmer Fudd era o "Élmer Fude", o Porky Pig era o "Pórqui Pigue", desta razia apenas escapou, por facilidade de tradução e fonética o Gato Silvestre.

A segunda..... era a pior de todas. Vasco Granja contava toda a história do filme antes dele começar. Ainda hoje, me assolam aquelas palavras.... neste filme o Elmer Fude anda a caçar coelhinhos, só que encontra o Bugues Buní, o qual se chega perto dele e diz “ o que se passa doutor?”

O PCP não é nosso "amiguinho"

O chega para lá a Carlos de Sousa, ainda se desculpa. Agora, aquilo que o PCP se está a preparar para fazer na Festa do Avante!, que arranca amanhã, é que já não tem remissão! Então não é que os comunistas programaram uma Homenagem ao cinema de animação na escolha de... Vasco Granja? Não bastou a minha geração? Querem traumatizar a da minha filha? E se a RTP decide recuperar o autor da aterradora frase "bom dia, amiguinhos!"?
Acham que estou a exagerar?
Cito Miguel Lopes:

E convidava miudinhos de tenra idade, aí nos seus 5 ou 6 anos, e entrevistava-os! Uma entrevista típica desenvolvia-se mais ou menos assim:
Vasco Granja - "então pequenino, como te chamas?"
Míudo - dizia o nome
VG - "e que idade tens?"
M - dizia a idade
VG - "Então e gostaste dos desenhos animados que mostrámos agora do polaco Miroslav Kusturica?"
M - acena com a cabeça dizendo que sim de forma pouco convincente
VG - "então e gostas dos desenhos animados do búlgaro Pavlov Meszaros?"
M - fica silencioso, com uma expressão entre o embaraçado e o atordoado
VG - "então e do romeno Miklosj Dragulescu?"
M - continua silencioso, ainda com uma expressão de profundo embaraço, e começa a ficar vermelho...
VG - "e então pequenino, diz lá de que de desenhos animados gostas mais?"
M - começava a desbobinar - "do Pernalonga, do Dáfidâque, do bipebipe..."
VG - "ah pois, esses hoje não temos para mostrar, por isso vamos antes ver uns lindos desenhos animados do soviético "Dmitryi Kurchatov..."

Natal é todos os dias

Vá lá, até concedo que a ideia dos dvd's à borla que alguém no marketing do Expresso teve foi bem bolada, e se lhes vai custar 1,6 milhões de euros (contas feitas pelo CM) é lá com eles.
Mas, imbatível no campo da prendazinha que nos alicia, é o 24 Horas. Hoje, por exemplo, tive direito ao molde de plástico de pintura da ursa Teresa*. O efeito disto nas vendas, e dados os milhares de fãs do Noddy por este país fora, só pode ser avassalador. Aguardo com expectativa a confirmação, depois de ver os números da APCT.
* Oferta limitada ao stock existente.

A união faz o blogue

Já que estou em dia de incentivos, aqui fica esta prenda para os meus camaradas mais preguiçosos em dar ao dedo. Onde estão três, imaginem a equipa toda.

É sempre triste...

Hoje, ainda em casa, recebi uma notícia que me deixou um pouco triste. E até nostálgica. Soube que o semanário O Independente vai fechar. O jornal que desde há longos anos me faz companhia (confesso que nos últimos tempos fazia cada vez menos) durante o fim de semana, a par do Expresso, das revistas Sábado e Visão, dos jornais Público e Diário de Notícias... Enfim, coisas de jornalista. Mas voltando ao que interessa. Não é só o facto de o semanário fechar portas que me entristece. Afinal, era uma referência no jornalismo português - também é verdade que cada vez menos o era. É sobretudo o facto de 25 funcionários, entre eles, colegas meus, jornalistas, ficarem assim, de repente, no desemprego. É assustador. Para eles deixo aqui uma mensagem de coragem e de apoio, dentro do que é possível. Não há tempestade que não seja seguida da bonança.

A frase da semana...

...mesmo não tendo ainda acabado, só pode ser esta:
«Gostava de ser ministro da Cultura».
José Cid, à TV7Dias.

Embora estivesse hesitante e quase a escolher esta:
«Dizem-me que o que eu defendo só se pode fazer em ditadura, mas então, para que serve a democracia?».
Medina Carreira, a O Diabo.

Generation Gap

Leio na Sábado e todo eu fico arrepiado até aos pelos do peito. A Joana tem 22 anos e foi «escarificada». Que raio é isso? É «uma técnica de marcar a pele deixando cicatrizes irreversíveis».
E o que decidiu gravar irreversivelmente na sua pele? «30 centímetros de cortes abaixo do umbigo, em carne viva, com a forma de duas caveiras e uma palavra - Psycho».
O que anda a estudar a jovem Joana que se descreve como «boa aluna e boa filha»? Psicologia. Em alturas assim, sinto-me muito, muito velho.

Toque feminino, precisa-se

Camaradas Corta-Fiteiras, minhas ausentes senhoras: Ofereço esta delicada flor-borboleta de folhas diáfanas e frágeis à primeira que voltar a escrever um post. Estou farto de mim, especialmente de manhã.
Bem sei que é singela e não tem um ar lá muito fresco, mas é dada de boa vontade.

Estou pasmado

O meu grande amigo Paulo Cunha Porto, autor de O Misantropo Enjaulado (esse blogue onde todos os dias são sexta-feira), leu O Avante.
Para quem o conhece bem, isto não pode deixar de ser um sinal preocupante dos efeitos irreversíveis da blogosfera.

Importa-se de explicar?

No dia em que projectos jornalisticos politicamente dirigidos forem dirigidos por jornalistas de corpo inteiro, com os dois pés na profissão e sem necessidade de fazerem do jornal uma arma de combate partidário e de promoção política pessoal - aí sim, talvez um jornal de cor política assumida sobreviva.
Caro João Pedro Henriques, li mas não percebi. Um jornal politicamente dirigido com jornalistas que o dirigem mas não fazem combate partidário? Cá para mim, ou seriam ingénuos ou esquizofrénicos. Mas se puder explicar melhor essa ideia, agradeço.

Uma seca, é o que é

Mais uma notícia cuidada e informada de Pedro Almeida Vieira. Os espanhóis fecham-nos a torneira e deixam sair umas pinguinhas, afectando gravemente Alqueva, albufeira essa que nunca encheu desde a sua inauguração.
A nossa dependência do controle dos rios por parte de Espanha promete continuar a ser, no futuro, ainda mais notória tendo em conta as modificações do clima.
Isto é grave, muito grave. Mas nem por isso debatido o suficiente num país que não tem recursos hídricos que se vejam e depende dos outros e da chuva.
Qualquer dia, como aos índios, só nos resta desatar aos pulinhos e a ulular aos Espíritos. Em espanhol, de preferência.

Eyes wide shut

O melhor e o pior desta entrevista:
Muito bem,a propósito dos voos da CIA: «Pretender-se não ir ao Parlamento Europeu quando responsáveis de outros países se dispõem a ir, não vejo razões para isso».
Mesmo mal, a propósito da insatisfação dos portugueses: «O parque automóvel continua a renovar-se, bastantes pessoas continuam a passar as suas férias (...) há muitos que continuam a comprar casa no Brasil».
Sem ter pedido autorização ao Leonardo Negrão, aqui fica a sua excelente fotografia de um ex-presidente caminhando, de olhos fechados para a realidade social que o cerca.

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

Postais blogosféricos

1. Um grande abraço de parabéns ao Francisco José Viegas pelo primeiro aniversário do seu blogue. A Origem das Espécies é de leitura obrigatória.
2. Adeus Cereja, olá Peixe na Água. Uma das nossas colegas favoritas da blogosfera tem um novo blogue. Vamos continuar a lê-la com a atenção de sempre.

O neto do prior

O André Moura e Cunha, no seu blogue Porque, anda a seleccionar as melhores primeiras frases da literatura portuguesa de ficção, como já assinalei aqui. Dei-lhe logo o meu contributo, mencionando este arranque - de inspiração existencialista - do excelente romance Alegria Breve, de Vergílio Ferreira: «Enterrei hoje a minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira.»
Não sei se ainda vou a tempo, mas deixo agora a frase de abertura d'A Relíquia, um dos romances que melhor ilustra o génio de Eça de Queirós: "Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em Teologia, autor de uma devota 'Vida de Santa Filomena' e prior da Amendoeirinha."
Quem é que resiste a um início destes?

PPM sobre o fecho do Indy

Acabei de ler o registo sentido do PPM sobre o fecho do Indy. E lembrei-me das notícias, entrevistas e reportagens dele no Internacional. Não era um assíduo da secção - lia mais a Política, com a qual concorri directamente anos a fio, e a opinião -, mas reconheci sempre ali qualidade. No que o PPM, o Vasco Rato e outros foram escrevendo. Sobre o encerramento do Indy, esperemos por sexta-feira para fazer comentários mais direccionados.

Portas, o Prado Coelho da direita

"O regresso de Paulo Portas só fará sentido se o objectivo for a dissolução deste CDS num movimento político mais alargado, mais moderno e com ambição de poder. E que possa ser uma alternativa à Esquerda social-democrata que está neste momento no Governo e à Esquerda moderada que controla ideologicamente o PSD. Se, pelo contrário, Portas quiser regressar para se perder de novo na gestão do pequeno baronato e das altas sensibilidades que poluem o CDS, neste caso seria melhor continuar a ocupar os serões de terça-feira a comentar cinema e livros – sempre se disse que a Direita precisa do seu EPC".
Vítor Cunha, in Atlântico

Ora aí está o VC, que conhece bem a peça, a pôr o dedo na ferida...

Vejo-me obrigado a confessar:

Não só me estou nas tintas para o Projecto MIT como, pior ainda, não faço a mínima ideia o que seja.

Ainda O Independente

Tendo em conta isto, e continuando a acreditar que a minha fonte estava suficientemente bem informada para me levar a escrever sobre o negócio de O Independente, estou muito curioso sobre os desenvolvimentos desta história.
No entanto, como bem sabe qualquer pessoa que tenha feito qualquer negócio na vida, no final o que interessa é por quanto se compra (quando se compra a totalidade) e quem é que manda (quando se compra apenas a maioria do capital).
Adicionalmente, também interessa quanto se herda de dívidas (e neste caso concreto, em moeda antiga, dizem-me que cerca de 700 mil contos). A ver vamos. E cá estarei para fazer a festa, se o jornal continuar e seja quem for que o compre. Como escrevia o outro, há razão e coração. E neste caso, em mim, conta mais o segundo.

Obrigado e um queijo

Recebi hoje as mesmas não sei quantas páginas habituais, que almas supostamente bem intencionadas me enviam com regularidade semestral para a caixa do correio.
Não lhes interessa um chavelho que eu não tenha carta de condução. Para os emissários, o importante é que não seja apanhado em transgressão, por essa «máfia perigosa» que é a polícia das estradas.
Desta vez, o aviso descreve com detalhe onde estão os radares, quais os modelos de carros utilizados pelas autoridades e até, imagine-se, as matrículas. Face a este gesto de solidariedade nacional, só comparável ao cordão humano para a independência de Timor Leste, não há muito a fazer.
São os mesmos que piscam os faróis em jeito de aviso cúmplice para avisar a proximidade da «bófia». São os bem intencionados cidadãos portugueses. Para eles, o meu profundo descontentamento por existirem.

Desafinidades electivas

Caríssimo João. Enquanto ouvias os Genesis com Peter Gabriel, para cujas músicas nunca tive pachorra e cujas letras nunca entendi, o que eu ouvia era isto. Eu, pecador, me confesso: Hoje classifico isto perto do inaudível. Seja como for, aqui fica a partilha.

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Sem Almodóvar

Volver, o último filme de Pedro Almodóvar, estreou-se em Março em Espanha. Quase seis meses depois, continuamos sem vê-lo por cá. Tratando-se o cineasta espanhol de um valor seguro de bilheteira, além da sua inegável valia artística, percebe-se mal a estratégia dos nossos exibidores cinematográficos, que continuam a apostar quase em exclusivo no lixo americano. Estiveram todos estes meses à espera de quê?

Assim dá gosto

Cada vez mais inspirado e acutilante, o João, como se lê aqui.

Dois buracos

A data para conclusão das obras do túnel do Rossio foi adiada para as calendas gregas. A semana passada, ao passar frente ao Cais das Ex-Colunas, reparei que o prazo anunciado para o final dos trabalhos, exposto nos cartazes, foi em Março passado.
Como é? Não é obrigatório actualizar a informação? Dados os sinais de vida no estaleiro da obra, equivalentes aos do ainda planeta Marte, estou muito curioso de ver qual será.

Duas imagens valem mais do que...

Já estou a ver o José Falcão a deitar os bofes pela boca depois de abrir o JN e o SOS Racismo a manifestar-se logo à tarde. O jornal, na sua capa da Edição Sul, ostenta uma fotografia onde um polícia numa mota, com óculos escuros, interroga sobre qualquer coisa um cidadão preto que espreita pela janela (Eu vivi em África e por isso escrevo a palavra «preto» sem complexos).
«Agentes passam a usar motas para vigiar ruas e becos de Alfama», subintitula o jornal.
Como se não bastasse, lá dentro, na abertura do Caderno, vem outra foto. Mas nesta o mesmo agente da autoridade ri-se desbragadamente ao lado de duas senhoras brancas e gordas (também me recuso a escrever «obesas»), perfeito exemplo da população que a PSP pretende proteger de pessoas, imagino eu, parecidas com o senhor da capa.
Se calhar estou a embarcar numa teoria da conspiração, mas que acho isto pleno de subentendidos, lá isso acho.

Três letrinhas apenas

Uma amiga que colaborará com o novo semanário Sol saiu de uma reunião desanimada. Em resposta a propostas de reportagem, dizem-lhe que o máximo de texto que o jornal admitirá são 4.000 caracteres por cada peça.
4.000 caracteres para escrever uma reportagem?! Afinal, os 30% de redução de texto do Expresso não são nada ao lado disto.
P.S. Quem viu algumas das suas páginas impressas disse-me que o Sol «se parece com um 24 Horas a querer ser Correio da Manhã». Confesso que estremeci.

Terça-feira, Agosto 29, 2006

O herdeiro do chefe Silva

Ao acaso do zapping televisivo, tropeço num canal que nunca vejo chamado SIC Mulher. Desta vez demoro-me uns momentos a olhar para aquilo. Porquê? Está lá a figura mais inesperada: Nuno Morais Sarmento, com um fogão à frente, tenta cozinhar alguma coisa. Segundo deduzo, aquilo destina-se a mostrar os putativos dotes culinários do antigo ministro de Santana Lopes. Grande plano do interior da panela: o cozinhado tem péssimo aspecto, mas a senhora que acolita Sarmento mostra-se entusiasmada, desfazendo-se em elogios ao social-democrata, como se estivesse perante o legítimo herdeiro do chefe Silva. Para quem tivesse dúvidas, esta incursão na cozinha da SIC Mulher só confirma que Morais Sarmento "anda por aí", cheio de ambições políticas. Também não é por acaso que surge igualmente numa foto a três colunas da última edição do Expresso, sob o sugestivo título "Marques Mendes conta com Borges e Sarmento".
Como dizia o outro, isto anda tudo ligado...

Faz sentido, não faz?

Quando googlamos a palavra Portugal, o primeiro site que aparece na lista é o da Federação Portuguesa de Futebol.

Impressões musicais (4)


Dancing with the Moonlit Knight, trecho do album dos Genesis Selling England by the Pound (1973) ao vivo.
Quando os meus ouvidos não necessitavam de alta-fidelidade, a banda de Peter Gabriel ajudava-me a crescer e a gostar da vida.

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E que tal azul às bolinhas encarnadas?

Os enfermeiros da unidade de saúde de Matosinhos entraram em greve. Ao que parece, não gostam de amarelo. Como diriam os Gato Fedorento, usar batas dessa cor faz-lhes baixar a taxa de prestígio. Ou isso, ou não lhes favorece a cútis.
Os enfermeiros também não gostaram que as batas amarelas lhes fossem «impostas» pela administração. Prefeririam, imagino, um plenário para apresentação e votação das várias colecções Outono/Inverno 2006. Entretanto, os utentes (como se diz agora) que se amanhem.
A piada é que os 13% que furaram a greve podem, com dupla apropriação, ser apelidados de «amarelos». Os outros, lamento muito, mas é que nem «vermelhos» têm a desculpa de ser...Só levianos.

Tolerância Zero vírgula tal

Leio no insuspeito 24 Horas que a Direcção-Geral de Viação «enviou um documento para a PSP, para que os agentes apliquem uma margem de tolerância aos condutores em excesso de velocidade», tal como fez com a taxa de alcoolémia.
Isto porque, continua a notícia, «os aparelhos usados pela PSP e pela GNR para medir a velocidade dos condutores não são fiáveis».
Cá para mim, que só vocês me ouvem, a DGV foi infiltrada por perigosos anarquistas que pretendem derrubar o Estado, provocando uma gigantesca insurreição civil nas estradas. Acabou a Tolerância Zero! Viva a Tolerância Zero Vírgula Logo Se Vê. Coitados dos PSPs e GNRs...Assim, nem com apoio psicológico aguentam.

Quem fala assim é inimigo do povo

«Se alguém sente saudades ou nostalgia da Cornélia e daqueles tempos deprimentes em que o único leite com chocolate disponível no mercado era o UCAL, ou bem que lhe dou os sentidos pêsames, ou lhe recomendo uma rápida ida ao médico»
Caro Fernando Martins, isto não é coisa que se escreva embora lhe fique bem o tom de jovem iconoclasta. Mas a Cornélia emparceira, com o Zip-Zip, como os dois melhores concursos de sempre da nossa televisão.
P.S. Já agora, o UCAL como leite com chocolate não precisava de concorrência para nada. Ainda hoje, aliás, não a tem que se veja. Dito isto, devolvo-lhe os pêsames e recomendo uma leitura nostálgica da revista «Pão com Manteiga».

Milagre em paralelo

Estou completamente de acordo com o que Vital Moreira escreveu hoje no Público sobre a Câmara de Setúbal e com o que Eduardo Prado Coelho escreveu, mesmo ao lado, sobre Gunter Grass.

A fase dos neutros

«Um Manifesto da Direita em Portugal» tem 22 páginas. Acabei de lê-las e tirar a seguinte conclusão: Faltam-lhe (ao Manifesto) tomates.
Bem redigido, o texto aponta os dedos todos ao cenário político pós-25 de Abril, inquinado por uma ideologia oficial e uma Constituição de bases marxistas que todos perfilharam.
Depois, acusa por um lado «alguns» políticos de Direita de contemporizarem com as políticas de Esquerda (não se esclarece quem e porquê, mas adiante) e a Esquerda de se arvorar em concessionária de alvarás de quem é ou não de Direita e Extrema-Direita. Até aqui, a lógica do discurso tem um encadeamento sustentado.
A Nação, o Estado e as dicotomias que separam a velha da nova Direita são apresentadas de forma a delinear a fronteira entre os territórios de uma e outra. De forma polémica, mas pelo menos com clareza e capacidade de síntese e sem lirismos rococós retóricos. Excelente.
Mas, e há aqui um grande mas, o Manifesto diz a certa altura isto: Que «uma Direita consciente de si própria deve ter, como missão primeira, o recentramento do regime». E que isso deve traduzir-se em «induzir neutralidade ao regime, lutando por uma Constituição ideologicamente neutra».
Aqui, pacientes leitoras e leitores, é que a suina torce o rabo. O PND quer uma união da Nova Direita, não para construir um regime de Direita com valores de Direita, mas para o recentrar neutralizando-o ideologicamente. É a sua «missão primeira». A mim, parece-me uma «missão primeira» não só frouxa como desnecessária e nada mobilizadora, porque vácua dos mesmos valores e conteúdos apresentados no manifesto. Ou, dito de uma forma eufemística, uma missão primeira que não os tem no sítio. É pena, porque assim não mobilizam ninguém. Mais ao centro o regime não poderia estar e ideologicamente neutros já andamos nós todos.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Como Vital Moreira vê Setúbal

Vital Moreira não acompanha o "generalizado criticismo" em torno da abrupta demissão do presidente da câmara de Setúbal, Carlos de Sousa. E procura explicar aqui porquê. Mas ou essa explicação ficou incompleta ou eu terei compreendido mal a conclusão decorrente do seu argumentário.
Vamos por partes.
Diz Vital que os partidos devem manter "um escrutínio sobre o exercício do mandato dos seus eleitos". Muito bem. Resta saber se esse "escrutínio" deve ser feito à revelia dos eleitores, não lhes facultando informações elementares sobre o veredicto a que as luminárias do partido chegaram no seu obscuro critério. Salvo melhor opinião, foi isso mesmo que agora sucedeu em Setúbal: a decisão do PCP, não cabalmente justificada, permite toda a margem de interpretação quanto à conduta do autarca, ainda há dez meses apresentado como modelar pelo próprio partido.
Diz também Vital que "devem ser ressalvados os princípios da transparência e da dignidade dos visados". Achará que esses princípios foram respeitados em Setúbal? Parece que não: de outra forma não diria, como diz, que as "razões" do PCP não foram "transparentes" (o que, presumo, não será propriamente uma revelação para o professor Vital, conhecendo como conhece o aparelho comunista desde 1974).
Em suma, o reputado constitucionalista lamenta o seguinte:
1) Que a "liberdade individual do titular do mandato" não tenha sido respeitada, uma vez que reconhece a existência, neste caso, de "uma imposição" do partido sobre Carlos de Sousa;
2) Que o partido maioritário em Setúbal "não tenha deixado transparecer as razões" que o levaram a afastar o presidente da câmara.
Mas sendo assim, escrevendo o que escreveu, como pode Vital Moreira sustentar afinal que não acompanha o "generalizado criticismo" face ao saneamento do autarca?

P. S. - E uma perguntinha adicional: gostava de saber por que motivo o constitucionalista nunca menciona o nome do presidente da câmara de Setúbal agora afastado pelo PCP. Carlos de Sousa terá lepra?

O cavaleiro branco

O El Confidencial, sempre bem informado, diz que a Sonae tem na France Telecom (com o Banco Santander envolvido, entre outros) o "cavaleiro branco" para voltar a agitar o mercado e aumentar a sua oferta de 9,50 euros para 10,5 euros/acção na luta renhida pela PT. Uma resposta à propalada unificação das redes fixa e móvel?
Já agora, e na definição medieval a que o site espanhol inteligentemente recorre, um "cavaleiro branco" opõe-se a um "cavaleiro negro": "Hace unos meses se barajó la posibilidad de que en caso de que France Telecom estuviera detrás de la oferta de Sonae, Telefónica podría responder con el lanzamiento de una contraopa".

Tão amigos que eles são

Eis a notícia que esperavam todos os cubanos. Há mais um furacão a deixá-los sem abrigo (ainda por cima com o mesmo nome de baptismo do Che, suprema ironia), a falha de uma central eléctrica deixou Havana às escuras e as incógnitas com o processo de transição política são o que se sabe. Mas não faz mal:
A partir de hoje, todos os milhares de cubanos em férias de luxo na China vão poder ver a televisão do seu país em 2.500 hotéis, via satélite. Ao mesmo tempo, Cuba nomeou no país amigo um novo embaixador. Como se diria em futebolês, é «um reforço».

Amaciador

Ninguém me tira da cabeça a ideia de que o Governo só se lembrou de convidar o Presidente da República para receber o primeiro passaporte electrónico português (ou "PEP", como já lhe chamam) porque, de alguma maneira, convém tentar ir "amaciando" a "coisa" com Belém por estes dias. O convite foi feito há algum tempo, dizem-me, mais concretamente na altura em que se soube que um aviãozinho israelita de transporte militar escalou a Base das Lajes e o executivo não terá dado qualquer informação ao Chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas. Para além disto, outras questões foram surgindo, nas quais se inclui o Líbano. Foi Cavaco Silva que introduziu alguma calma na questão, depois de os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa terem posto a carroça à frente dos bois. O Presidente aconselhou cautela, disse que era preciso ter atenção aos "condicionamentos políticos e militares" e chegou a dizer que era "extemporâneo" falar-se já do envio de tropas portuguesas para o Médio Oriente. Pelo meio, Cavaco aprovou a Lei da Paridade, sem notas, mas numa espécie de regime experimental, e a Lei Eleitoral dos Açores, cheia de notas e recomendações. Daí que o passaporte seja hoje entregue a Cavaco e não a Sócrates, que tem tido direito a tudo o que de mais moderno se faz neste País. De caixas electrónicas postais, a cartões únicos que ainda não existem, até procedimentos administrativos muito "simplexes". Desta vez, cede o lugar ao PR e aos dois artistas envolvidos na reconversão do nosso passaporte: Henrique Cayatte e Júlio Pomar. Enfim, é só uma ligeira desconfiança que tenho, mas acho que os spin doctors de São Bento não conhecem bem o terreno em que se movem agora. É que o "amaciador" não funciona sem "champô", passe a linguagem de barbeiro...

Foi publicado na Atlântico e tudo

Figo bem pode ser Figo, mas ler isto é de gritar pela mãezinha depois de um sonho mau.
(Estava aqui outra linha por baixo mas retirei-a porque, de facto, não era nada comigo).

Top Gear na terra das sardinhas...

Ou seja, em Lisboa!

Somos apelidados de "terror das sardinhas",
mas a corrida entre um Clio e uma BTT
até ao Campo das Cebolas desculpa tudo.

O Pirex

Preciso de um passaporte novo, desses digitais e com chip, iguais aos que vão ter Cavaco Silva e Henrique Cayatte. Parece que me custará 60 euros, isto se puder esperar seis dias. Caso contrário, são mais 45€ de taxas. Graças a Deus vivo em Portugal e, só por isso, não acrescento ainda a esta já redonda quantia outros 45€ para o envio (supõe-se que numa caixinha especial e numerada). Pago, pois, apenas mais 10€ para que me chegue à caixa do correio em território nacional (o passaporte deve pesar tanto como uma encomenda da La Redoute). São, ao todo, 115€ por um documento oficial.
Assim, percebe-se bem quem vai pagar o choque tecnológico. Iniciativas destas deviam incluir-se no PIREX. Parecem as refeições cozinhadas em minutos, na lógica do micro-ondas. Mas que, no final, nos saem mais caras do que uma ida ao Gambrinus.

Ninguém mexe, ninguém estraga

Ontem, no noticiário das 22.00 da SIC Notícias, os primeiros dezasseis minutos foram integralmente dedicados às notícias domésticas: Noticia 1 – Novela Mateus, com direito a “directo” e muitas bacoradas - um enjoo. Notícia 2 – Delinquência da claque do Boavista na estação de serviço de Aveiras. E foi tudo.
Eu assisti até ao fim, pois esperava ao menos ver uns "resumos da bola" e o golo do Jardel ao serviço do Beira-Mar, mas nem isso, nada, neribit!
Bem vistas as coisas até é bom sinal: A redacção do canal deve estar a banhos, os políticos estão "no defeso", os fogos e outras tragédias também tiraram uns dias de folga, nada mexe, e assim ninguém estraga nada.
Ah! Pois! Anda por aí alguém a “refundar” a direita, dizem.

Debaixo do pavimento, a direita

Manuel Monteiro desafia a direita a sair do armário e «assumir-se». Proponho, desde já, duas iniciativas para este efeito:
A primeira, à semelhança do que a C.M.L. patrocinou no período João Soarista para os gays, a publicação de um roteiro da Direita. «Onde comer», partilhando à mesa as conversas sobre o tempo em que Rolão Preto era vivo em torno de uma refeição integral; «Onde dormir», sonhando em hotéis de charme com o regresso de Salazar num dia sem nevoeiro e «Onde fazer amigos», agora que a esquerda invadiu os espaços do caviar.
A outra iniciativa seria, evidentemente, uma gigantesca Right Parade, que fosse da Fonte Luminosa à Quinta da Marinha numa Longa Marcha à qual se juntariam, pelo caminho, todos os que têm tido medo de «assumir-se» mas logo o perderiam, à vista da multidão qual caudal das avenidas lisboetas depois de uma chuvada.
Desta forma, assim assumida, a direita revelaria finalmente o que não tem feito nas urnas. A começar pela sua existência.

E aprende lá mais isto

O pardal que o João Fernandes reproduz aqui é macho. E fica mal assim solitário, num blogue com um nome tão sugestivo...

Confissões da 46ª mulher mais sexy (1)

Uma dessas revistas especializadas em temas de televisão abria há dias as páginas a "uma das estrelas de Morangos com Açúcar", que aos 20 anos "assume que está solteira". A menina, chamada Jessica, de facto "despe-se de preconceitos", como assinala a revista, exibindo a inevitável tatuagem suburbana da moça. Jessica confessa ter iniciado "um curso de seis meses" (faltou especificar de quê) em Londres mas 9o dias depois estava de regresso à parvónia por "já não suportar a ausência do sol, da família e dos amigos". A televisão interrompeu-lhe o sonho de ser "médica legista" e agora, com tanto trabalho, nas folgas só lhe resta tempo para "ir ao médico, ao banco e às finanças". Revela ter posto silicone nos seios, mesmo sem o apoio dos pais. E porquê? "Para gostar mais do meu corpo, embora nunca me tivesse achado feia." Aliás, acrescenta, "como encontrei um médico que me fazia sentir confortável, porque havia de esperar?"
É assim mesmo: o silicone não pode esperar.

Confissões da 46ª mulher mais sexy (2)

Depois de se ter "despido para uma revista masculina", Jessica sentiu-se "sensual pela primeira vez na vida", até por ter sido eleita a 46ª mulher mais sexy "a nível internacional". Deixou de ser católica por "ter perdido muitos amigos em desastres de carros", entre eles o tão chorado Francisco Adam. E só estranha ver a sua vida íntima "exposta perante o Mundo inteiro". Chegando a desabafar: "Não sei onde é que vários jornalistas foram buscar certas situações..."
Jessica, Jessica... Tanto papo prafrentex, tanta tatuagem, tanto silicone, e afinal acabas como o velho tio Alberto João lá da Madeira, bota-d'elástico até dizer basta: a culpa é sempre dos jornalistas. Põe lá um pouco mais de açúcar nesses morangos a ver se o azedume passa.

Não há pais para eles

Esta é uma pequena notícia do DN que diz muito sobre a nossa forma de ser no seu pior. Um parque infantil alerta para a falta de segurança das instalações em recuperação, mas os pais olimpicamente ignoram-no e acham que não há perigo. Eles é que sabem.
Haja um acidente, e lá estão na TVI aos saltinhos histéricos a exigir responsabilidades a quem de direito. A falta de cultura cívica é sempre triste, quando envolve crianças então, nem se fala. Não só pelo risco, como pela cultura que promove «em casa» de ignorar os avisos, as recomendações e as leis.
A Câmara devia ter fechado o parque infantil de Belém, mas optou pelo alerta. Por cá, como se vê mais uma vez, os alertas são como os semáforos amarelos. Só servem para nos fazer acelerar, em direcção à curva da inconsciência.

3 notinhas 3

Depois da leitura do Público de hoje, aqui ficam três pequenos apontamentos:

1. O meu agrado por, na sua coluna do «Diz-se», haver hoje lugar para três bloggers: O nosso Francisco, João Gonçalves e Paulo Gorjão. Mais um sinal do aumento de relevância da blogosfera no campo da opinião.

2. Os meus parabéns pelos seus 45 anos ao Jorge Ferreira, apresentado pelo jornal como «militante da Nova Democracia». Mais do que isso, é entre outras coisas autor do Tomar Partido. Um abraço.

3. A minha estupefacção pela leitura nas «Carta ao Director» do que escreveu Duarte Moral, chamando a José Manuel Fernandes «maoísta arrependido», «mestre da desfaçatez» arrogante, intelectualmente desonesto e outras coisas mais. A carta mais parece escrita por um daqueles leitores reformados que por vezes se passam dos carretos, do que pelo assessor de imprensa de um Ministro. Há um tom institucional para estas coisas. E não é o da indignação insultuosa com certeza.

Imperdível

É a série de artigos intitulados "Póquer de Ases", de Manuel Vicent, na última página das edições dominicais do El País. Começou há um mês por falar em Albert Camus, prosseguiu com evocações de Arthur Miller e Samuel Beckett, ontem mencionou Julio Cortázar, esse singular escritor argentino que "converteu a literatura fantástica, o jazz, a pintura vanguardista, o boxe e o cinema negro na sua única pátria e Paris numa metáfora, numa cartografia íntima". Infelizmente, não temos ninguém a escrever assim na imprensa portuguesa - muito menos no espaço nobre de um jornal. Não por falta de talentos mas porque entre nós não está na moda "gastar espaço" com textos deste género, com mais substância que espuma.

Domingo, Agosto 27, 2006

Só uma pergunta

As probabilidades de eu entender a embrulhada que se passa com o Gil Vicente são as mesmas de ganhar o Euromilhões. Só gostava que me assegurassem, dada a minha ignorância destes assuntos, se a conta que vai ser enviada à Liga e «às entidades competentes» por causa do jogo cancelado com o Benfica vai ser paga com dinheiros do futebol e privados. Se a pergunta é muito, muito estúpida, paciência. Vivo melhor com isso do que se não o for.

Descompressão II

Pausa para desanuviar

A malta do Top Gear andava aborrecida.
Até que lhes caiu um convite no colo...

Domingo nostálgico

Sangria, havia sempre muita sangria quando começava finalmente o primeiro slow da festa de garagem. Depois, a angústia da escolha no encontro dos pares. Entre aquela que se desejava e aquela que finalmente nos calhava.
Nas colunas, inevitável mais tarde ou mais cedo, Lionel Ritchie.
Os pés tentavam não se limitar a passinhos curtos circulantes. Para onde iam as mãos, isso dependia.
Nas colunas, inevitável mais tarde ou mais cedo, «Say you, say me...» ou «Once, twice, three times a lady...».
E em cima, testemunhando tudo, multiplicando por mil as mãos tacteando a penugem da nuca, a bola de espelhos.

Aviso aos nostálgicos masoquistas: «Lionel Ritchie Truly - The Love Songs», está editado em CD pela Motown.

Impressões musicais (3)

Soube esta boa notícia pela novíssima revista Blitz: foi editado para o mercado nacional o DVD Phantom of the Paradise uma original comédia musical (de terror?) realizada por Brian de Palma em 1974 . Fantasma do Paraíso, com William Finley, Jessica Harper e Paul Williams como intérpretes principais, possui uma esplêndida banda sonora escrita e composta pelo mesmo Paul Williams, distinto compositor pop norte-americano, pouco conhecido na Europa. O disco desta banda sonora é um dos vinis com mais patine que possuo na minha estante – está quase inaudível.
Injustamente ignorado à época em Portugal (estava toda a gente muito ocupada com o PREC, com o Ingmar Bergman ou com o novel erotismo à solta nos cinemas), o filme é uma bem-humorada miscelânea dos clássicos de terror como Fantasma da Ópera, Fausto, Frankenstein ou Drácula, e ao mesmo tempo uma paródia ao emergente meio do "show business rock n’ roll" e aos seus ídolos com pés de barro. A ver e ouvir, com a estereofonia bem alta.

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É o colectivo, é...

O Duarte retomou o tema de Setúbal, avançando com um interessante ponto de vista. O Carlos de Sousa, apesar de renovador, sabia muito bem em que partido estava. Por isso, agora não tem que se queixar, não havendo sequer lugar para críticas ao PCP. O Duarte teria razão se o PCP fosse como ele o pinta. Ou seja, um partido para quem o que conta é a ideologia e a decisão do colectivo. Mas não é. Querem um exemplo? Se o nome de um candidato a uma câmara lhe é assim tão indiferente (uma vez que o que conta é a decisão do colectivo), porque é que o PCP foi buscar o Carlos de Sousa a Palmela? Porque sabia que aquela pessoa, em particular, lhe garantia mais votos que qualquer outro militante...
Conclusão: Já nem o PCP é o que era...

Little Italy

O estado a que chegou o futebol português diz tudo do que somos como povo. Há muito que penso que o nosso Estado e as nossas instituições estão cada vez mais ao nível de Itália. De toda a Europa comunitária diria mesmo que somos o País que, em vários aspectos, mais se tem assemelhado, e pelos piores motivos, à Itália corrupta, politicamente ineficaz e que tão má imagem dá de si mesma. Mas em ponto pequeno. Copiamos só o pior, obviamente. Não fabricamos Ferraris, só que também ainda não temos a máfia. Aqui é tudo em ponto pequeno, temos o político malandro, o dirigente desportivo que mexe cordelinhos e o funcionário público que ostenta mais do que o ordenado que ganha.
A polémica em torno do Belenenses, Gil Vicente e Leixões ficarem na primeira ou na segunda divisão do nosso futebol é mais uma demonstração disto mesmo. Começa o campeonato e, tal como sucede em Itália (onde a Juventus também recorreu aos tribunais comuns, colocando tudo em suspenso), temos tudo baralhado. Os clubes portugueses e a selecção nacional, tal como em Itália, correm o risco de ficar interditos de participar em jogos oficiais. Porque houve um clube, cá o Gil, em Itália a Juve, que achou que a justiça "futeboleira" não era suficiente e recorreu aos tribunais da gente normal. E lá vem a denúncia do costume, que geralmente não vai para além disso: Houve "pressões", fala-se num ou noutro nome, mas fica tudo na mesma...
Já era tempo também do futebol (e a UEFA) não ser um mundo à parte. Ter leis à parte, isenções fiscais que nós não temos. E de descer à Terra.

P. S. - Já que me deu para isto: A vitória de ontem do Sporting fez-me um pouco mais feliz.

Singularidades de uma rapariga morena


Lido o artigo de Daniel Ribeiro na Única sobre Ségólene Royal, apresentada como «mãe de quatro filhos» e possível candidata à presidência francesa, confesso que enquanto o tom do mesmo me causa alguma perplexidade, a entrevista ainda causa mais.
No artigo, ficamos a saber do deslumbramento de Daniel com esta «mulher esbelta», com «físico de adolescente e um sorriso desarmante». E também que, com François Hollande, «mantém uma relação equilibrada» e «discute frequentemente na cama as grandes estratégias político-partidárias» (Valha-me Deus, nem vou fazer piadas sobre esta última frase, só me espanta que ainda não seja possível escrever sobre uma mulher política sem comentar-lhe o corpinho e falar de cama).
Na entrevista, para além de ser contra a despenalização das drogas leves, a legalização da prostituição e o casamento homossexual, Ségolène defende esta coisa linda: A inserção dos jovens delinquentes na instituição militar. Ou seja, em lugar da detenção para os criminosos, uma recruta e uma arma.
Que são necessárias alternativas de reinserção para os jovens em lugar da prisão, estou de acordo. Que se acredite que a tropa fará deles homens, canalizando-lhes a tendência para a transgressão na direcção do mortícinio legal em combate, ensinando-os a matar em ambientes legitimados, é outra coisa muito diferente.
Por tudo o que li, esta senhora é tão socialista como Manuel Monteiro. Mas talvez tenha lido mal, ofuscado pelo seu sorriso deslumbrante.

Gaiola aberta

Há semanas instalei uma gaiola na varanda, deixando-a aberta. Lá dentro meti um recipiente com sementes de milho e alpista. Um bando de pardais não tardou a rondá-la, sem arriscar entrar. Ontem à tarde, porém, deparei com uma fêmea (talvez tendo filhotes para alimentar) banqueteando-se enfim com o prato de sementes, o que motivou um monumental coro de inveja da restante pardalada. À noite, renovei as provisões. E esta manhã lá estava de novo a fêmea, agora já devidamente acompanhada, tratando de encher o papo. Por momentos, senti a tentação de fechar a porta da gaiola. Mas não o fiz: prefiro que estes pardais me visitem diariamente, como se fossem meus, enquanto voam sempre que lhes der na gana.
E entretanto, ao vê-los entrar assim voluntariamente numa gaiola que poderia ser prisão, fico a pensar: afinal, numa situação limite, o que é mais importante - dispor de pão com grades ou gozar a liberdade com fome? Vou continuar a espreitar os pardais, a ver se chego a alguma conclusão.

Coitadinho do renovador

Não me faz pena nenhuma ver o Carlos Sousa ir embora da Câmara de Setúbal. Viveu pelo partido, morreu pelo partido, e não percebo como é que ainda há comunistas "renovadores" dentro do PCP. Como é que alguém pode ser considerado como tal e assistir impávido e sereno a todas as expulsões, purgas, perseguições e difamações que os comunistas sempre fizeram aos seus próprios camaradas que se afastavam da linha oficial? Agora, foi a vez dele. Não foi o primeiro e não será o último. Também me parece absurdo, como o meu partido, o PSD, quis inicialmente (e o meu amigo Pedro Correia aqui defendeu), antecipar eleições. Temos que perder esta mania terceiro-mundista de achar que se vota em "pessoas" (salvo, evidentemente, para a presidência da república) e não em listas partidárias, tanto mais que agora há a possibilidade de quem quiser concorrer em listas de independentes. O PCP tem todo o direito de indicar o sucessor de Sousa desde que o faça dentro das regras. Se a Justiça provar que houve tantos envolvidos naquela tramóia que já não há quem possa tomar conta do cargo, aí então que se façam eleições.
O que mais me irrita no meio de tudo isto é que até sexta-feira (não li os jornais de fim-de-semana, salvo o DN de ontem), não tinha visto ninguém explicar-me quanto é que custou aos contribuintes a antecipação das reformas dos funcionários da Câmara de Setúbal. Quanto é que o "renovador" gastou do dinheiro dos impostos dos portugueses para beneficiar um pequeno grupo, fazendo a chamada "cortesia com chapéu alheio"?

Sábado, Agosto 26, 2006

Sexo na Cidade, sei lá

Todo o meu ser gemeu de antecipação ao saber que Margarida Rebelo Pinto será responsável por uma coluna , ao estilo do "Sexo na Cidade", no semanário "SOL". Para controlar as minhas expectativas imagino títulos para a coluna. "Preliminares na Aldeia", ficava bem...

Os limites da ciência

Há três dias, Plutão era um dos nove grandes planetas do sistema solar. Anteontem deixou de o ser, acabando agora rotulado de "planeta anão", o que constitui uma despromoção mais que evidente. Como escrevia aqui o Francisco, "hoje em dia nada dura para sempre, nem um planeta". Mas este facto é também uma clara demonstração dos limites da ciência contemporânea na interpretação e catalogação da realidade - incluindo a própria realidade "física", que muitos pensavam ser facilmente traduzível por fórmulas, equações e etiquetas. As velhas "certezas" sobre Plutão duraram 76 anos. Quanto tempo durarão as novas?

Postal de fim de férias

Uma incómoda sensação de melancolia acompanha-me no final das férias, que há muitos anos não gozava tão grandes. Estes últimos dias têm sido passados preguiçosamente entre os livros, jornais e o computador. Entre a casa, a praia da Azarujinha (na foto) e a esplanada do café.
O meu “ano lectivo” começa na segunda-feira, uma vez mais cheio de promessas, expectativas... e com muita vontade!

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Cherchez la chienne

Passeio a cadela à noite em Telheiras. Cruzo-me com uma mulher na casa dos trinta que traz um cão também vistoso pela trela. Trocam-se umas amenidades, já habituais nestas circunstâncias entre donos de animais, enquanto os bichos se farejam.
- É cadela?
- É, não tem mal. Ladra grosso aos cães, mas até gosta de socializar com eles.
Diz-me ela:
- As mulheres geralmente também são assim em relação aos homens.
Aqui para nós, até estou de acordo. Mas imagino só a vaia das feministas de serviço se fosse eu a dizer uma coisa destas...

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Indy

A confirmar-se a "cacha" da venda do semanário O Independente, que o João aqui deu em primeira mão, é uma óptima notícia para a minha amiga Inês Serra Lopes. E para a nossa comunicação social em geral, que assim não vê definhar mais um título. Mas será que o negócio é feito em euros ou em dólares?..

Assim vai a Pátria

1. Leio no Público que as "grávidas de Elvas escolhem ter bebés em Badajoz" e que "em três meses nasceram em Espanha 53 bebés portugueses".
2.
No mesmo jornal, o Vasco Pulido Valente continua em grande forma: "Na democracia portuguesa não houve até hoje um governo tão reservado e tão autoritário. A reserva sustenta a autoridade. Quem manda não discute. Principalmente em público. E, fora as sessões da Assembleia da República (uma pura comédia), Sócrates, na verdade, não discute nada. Proclama, anuncia, revela. Repete a propaganda oficial. Mas não desce a discutir com a oposição a sério ou sequer a justificar o que anda, ou não anda, a fazer, ao grosso do país. Pouco a pouco, acabou por se tornar numa figura remota e cerimonial. O corpo a corpo e a polémica perpétua, que são a essência da política, desapareceram. O regime a que Sócrates preside é hoje praticamente apolítico. E um regime apolítico tende a rejeitar tudo o que perturba a paz da rotina. Um incêndio no Gerês não cabe, por definição, na ordem estabelecida".
3. No Jornal de Notícias, lê-se que o "salário mínimo nacional dá pior nível de vida da UE". Segundo o jornal, "na Europa a 15, o poder de compra dos portugueses chega a ser 260 euros inferior ao dos gregos". E ainda: "Há 285 mil pessoas a ganhar 385,90 euros por mês, antes de fazerem os descontos".
4. No Correio da Manhã, fiquei a saber isto. Marques Mendes continua a tomar decisões muito acertadas...
5. O novo passaporte electrónico (que o Governo oferecerá na segunda-feira ao Presidente da República) irá custar a módica quantia de 60 euros. É o que acabo de saber, será verdade? O Estado moderniza-se à nossa custa?

Ouça um bom conselho...

Mantenha a sua mente aberta. Mas não tão aberta que os miolos caiam.

Sexta

Karolina Kurkova.
Vai estar bom tempo este fim de semana?

Estado da Nação

Pronto, se é ele quem querem, aqui está. O maior português de sempre, votado pelos nossos comentaristas. Posso agora dizer que o meu sentido de voto foi para El Rei Dom Diniz. Pelas cantigas e a Ordem de Cristo, para além do resto do qual sobra pouco, ali para os lados de Leiria.
Este resultado só espelha bem como a equipa do Corta Fitas está longe da organização do Comité Central do PCP e respeita a pluralidade da expressão democrática.
Bah! Para a próxima não abro as urnas e bem podem queixar-se à C.N.E.

Em excelente forma

Esta senhora, chamada Caroline Flint, está em foco na Grã-Bretanha. E por excelentes motivos: o primeiro-ministro Tony Blair acaba de nomeá-la secretária de Estado “para a boa forma”, um novo posto no Governo britânico destinado – segundo revela a conspícua BBC - a “estimular a actividade física” dos britânicos. A avaliar pelas primeiras impressões, a senhora parece ter sido uma boa escolha. E desde já aproveito para sugerir ao primeiro-ministro José Sócrates, que tão inspirado tem sido por Blair, a criação da mesma pasta no Executivo de Lisboa. Se há coisa de que os portugueses precisam é de alguém que zele pela sua boa forma ao mais alto nível. Aceitam-se sugestões dos leitores: quem teria mais vocação para desempenhar tal cargo?

O povo e o poder

Durante a Monarquia, as reformas que o PRP tão eloquentemente recomendava tê-lo-iam fortalecido nas grandes cidades e em meia dúzia de capitais de distrito. Com sorte, teriam talvez levado trinta e tal deputados republicanos ao Parlamento e permitido a conquista de outras tantas câmaras. Assentavam, porém, num postulado falso: o de que o país queria a República. Depois do 5 de Outubro, depressa se tomou claro que não queria. E, assim, esquecendo as suas mais solenes promessas, o PRP nunca decretou o sufrágio universal ou lutou pela descentralização eleitoral e administrativa. A longo prazo, o democratismo republicano não podia deixar de se revelar por aquilo que era: a expressão ideológica da vontade revolucionária da pequena burguesia urbana.

Vasco Pulido Valente - O Poder e o Povo, 1976 - Edição Gradiva 2004

Irão premiar a fraude?

Vítor Ramalho, dirigente distrital do PS/Setúbal, veio apontar o dedo crítico ao PCP a propósito da saída de Carlos de Sousa. "A lei possibilita a renúncia dos autarcas, mas como acto voluntário. O PCP utiliza métodos que a lei não consente, ao impor publicamente essa renúncia", declarou Ramalho ao Diário de Notícias, acrescentando: "Esta situação implica uma fraude à lei."
Certíssimo. Agora só falta o PS ser coerente com estas palavras, forçando a realização de eleições intercalares em Setúbal. A menos que pretenda premiar a "fraude à lei" que o seu líder distrital tão eloquentemente denunciou.

"Pioneira" promovida

Consulto o currículo da presuntiva sucessora de Carlos de Sousa à frente da câmara de Setúbal. O menos que posso dizer é que se trata de um currículo medíocre para quem se prepara para liderar uma importante capital de distrito. Maria das Dores Meira chega aos 50 anos (o "rejuvenescimento", para o PCP, é sempre muito relativo...) exibindo uma folha de serviço da qual, em termos políticos, se destaca apenas a actividade juvenil nos Pioneiros (a organização comunista de juventude, decalcada do modelo soviético) e a posterior militância no PCP. O que fez até hoje por Setúbal esta licenciada em Direito "especializada em propriedade industrial"? Limitou-se a integrar o executivo municipal liderado por Carlos de Sousa desde 2001. O mesmo autarca a quem ela agora ajudou a tirar o tapete, em nome dos "superiores interesses" do partido que insiste em substituir-se à vontade dos eleitores. O povo é quem mais ordena? Perguntem aos habitantes de Setúbal se isso é verdade.

Um Expresso curto

Menos 30% de «área de texto» é muito, mas muito, menos texto. De acordo com a notícia de hoje do DN, esta alteração no novo formato do Expresso visa «facilitar a leitura». Tenho muitas dúvidas de que os leitores do jornal queiram a sua leitura mais facilitada. É uma opção de combate ao inimigo com as suas próprias armas, já que o Sol se prevê também de fácil digestão. Mas uma aposta arriscada.
Para mais, com um O Independente que parece já ter sido finalmente comprado e que - segundo me disseram - terá o Pedro Rolo Duarte como Director, com grandes mudanças no horizonte.
Repito. Menos 30% de texto é muito menos texto. Dia 9 de Setembro, vamos ver como isso se reflecte naquilo que realmente interessa: as notícias e as reportagens. O que os leitores do Expresso querem, ou pelo menos o que eu queria, era que depois de o tirar do saco de plástico descobrisse lá dentro alguma coisa para ler. Por 3€, não quero mais bonecos mas mais "cachas", mais artigos de fundo e análise. A ver vamos. Pode ser que seja possível ter o Sol na eira e a chuva no nabal.

Parabéns ao Inimigo

A edição de hoje de oInimigoPúblico está do melhor. Não só as «notícias» provocam gargalhadas constantes, brincando com Cavaco, os boys, Luís Miguel Cintra e Margarida Rebelo Pinto (que admitiu também o seu passado nas SS :) como o tratamento gráfico das imagens subiu - e muito - de nível.
As montagens de um Vítor Constâncio, qual Paulo Cardoso revendo as previsões económicas com um mapa astral, ou de um Sócrates siamês resultam em cheio. A capa, essa então, está fora de série.
Parabéns a todos e ao Luís Pedro como chefe da malta, por um projecto que se mantém todo este tempo depois com uma criatividade acima da média. Muitos dirão que num país como o nosso é fácil fazer humor com tudo e com todos. Mas não é verdade. Pelo menos com esta qualidade, todas as semanas.

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Poema do jornal

O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.

Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.

Carlos Drummond de Andrade

Viva o bidé

Ao contrário do que dizem ser a tendência - e correndo o risco de parecer uma extraterreste aos olhos de algumas personalidades da nossa sociedade (veja-se a revista Sábado de hoje) - eu gosto do bidé. Sim, o bidé. Aquele acessório de higiene inventado em França já lá vão 300 anos. E que se diz neste país à beira-mar plantado estar em vias de extinção. Pois na minha casa não está e até tem algum uso. A minha filhota, por exemplo, que não passa dos 70 centímetros de altura (ainda só tem um ano, claro), adora abrir e fechar a torneira do bidé (sempre que está fora do meu campo de visão), para passar a sua mãozinha molhada pela boca. O bidé está para ela como o lavatório para os pais. Mas o bidé, se pensarem bem, tem muitas outras utilidades. Então não é ele, para quem gosta de andar descalço em casa, um bom acessório para se lavar os pés... uma, duas, três vezes ao dia?
Estou seriamente a pensar criar um movimento pró-bidé.

Plutão

Hoje em dia nada dura para sempre, nem um planeta. Pergunto: O que fazemos aos atlas e às enciclopédias que temos em casa? Uma coisa é haver países novos de tempos a tempos, outros que se desagregam, mas outra, completamente diferente, é um planeta deixar de o ser. E logo um planeta tão simpático como Plutão, sobre o qual se sabia ainda tão pouco. Descoberto por acaso em 1930, Plutão era o planeta mais longínquo do sistema solar. Era, pelos vistos. E ainda dizem que no Verão não há notícias...

Interlúdio humorístico

José Ribeiro e Castro também pretende ser ouvido no processo de escolha do novo procurador-geral da República.

Consensos

"O único consenso que o nosso sistema político constitucional prevê para a nomeação do procurador-geral da República é o que resulta do facto de o mesmo ser nomeado pelo Presidente da República sob proposta do Governo".
Francisco Teixeira da Mota, in Público
Será?

E se fosse em Lisboa?

Imaginemos o cenário: na Câmara Municipal de Lisboa havia uma espécie de golpe palaciano, perpetrado pelo PSD, que forçava a demissão do presidente Carmona Rodrigues dez meses depois de ter sido eleito na lista social-democrata e a ascensão do número três da vereação para o seu lugar, sem devolver a palavra aos eleitores. Como reagiria a isto um dos principais comentadores da área comunista, Ruben de Carvalho, que é simultaneamente vereador do PCP no município? Claro que não tardaria a exigir eleições intercalares - e bem. As mesmas que os comunistas pretendem a todo o custo evitar em Setúbal.

Estalinismo à moda de Setúbal

Carlos de Sousa, que já foi "autarca modelo" do PCP, tornou-se o primeiro presidente de uma grande câmara em Portugal forçado a renunciar por vontade do partido. Sem que os comunistas tivessem chegado a dar-se ao incómodo de comunicar aos habitantes de Setúbal por que motivo decidiram apear o homem que em 2001 lhes permitiu recuperar a câmara ao PS e há menos de um ano foi reconduzido nas urnas. Invocar a necessidade de "renovar energias, rejuvenescer e reforçar a equipa" autárquica, escassos dez meses depois do último acto eleitoral no mais importante município de que dispõem em Portugal, é não dizer rigorosamente nada. Estamos perante a habitual "transparência" à moda do PCP. Mas atenção: Setúbal não é a Rua Soeiro Pereira Gomes, onde o secretismo se tornou regra dominante e todo o indício de heterodoxia acaba sancionado. O que os eleitores escolheram por sufrágio directo e universal não pode ser alterado por uma manobra de secretaria destinada a entronizar uma ilustre anónima sem currículo: esta é uma regra sagrada do sistema democrático, que nenhum partido deve subverter. A vontade dos eleitores de Setúbal não é transferível, por reflexo estalinista, para uns apparatchiks que se imaginam tutores das consciências dos cidadãos. Se a moda pegasse, aliás, nem valeria a pena votar: limitávamo-nos a delegar a escolha nos directórios partidários.
Falta saber se os socialistas setubalenses estão à altura dos acontecimentos, assumindo com frontalidade a necessidade de eleições intercalares no concelho em nome dos melhores princípios democráticos, ou se condicionarão a aplicação desta regra a medíocres cálculos políticos de circunstância, idênticos ao que levaram o PS-Oeiras a um lamentável concubinato com Isaltino Morais, violando todas as promessas feitas aos eleitores.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

A “choldra”

Será possível que a nossa gente aprenda que é uma porcaria (ou seja, próprio de porcos) atirar as “beatas” para a areia das nossas praias?
Eu sei que não é tão grave como atear fogos na floresta, encher a mulher de pancada ou estampar-se de carro, mas é igualmente selvático infestar as praias com restos de cigarros – para não falar de outro tipo de detritos.
O (a) Tuga fuma, fuma, fuma, e a seguir discretamente enrosca a beata na areia, convencido que ninguém vê. E assim, fica de consciência tranquila - não se passou nada!
As "beatas" são uma VERDADEIRA PRAGA, e os nossos belos e dourados areais tornaram-se em autênticos cinzeiros. Testemunhei isso nas praias por onde passei nestas férias: Do Malhão, à Meia Praia, chegando à “minha” Azarujinha aqui em S. João do Estoril, encontram-se espalhadas aos milhares, todas as marcas, em vários estágios de degradação, sujas de batom… um nojo.
Às vezes sinto que este país realmente é uma “choldra”, uma “piolheira” sem remédio.

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Três minutos

Para quem ainda duvida que José Cid é o maior músico português de todos os tempos, aqui ficam três minutos inesquecíveis, próprios para descontrair após a dura jornada de trabalho e nos reconciliar com o Portugal.

Foi-se

Parece que o "Ai Jesus" de muitas meninas (algumas já senhoras) foi despedido pelos estúdios da Paramount. O contrato, que não foi renovado, durava há 14 anos e foi responsável por algumas das maiores piroseiras que a indústria de Hollywood produziu. A causa da rescisão será a conduta menos própria de Tom Cruise no campo amoroso e, mais que tudo, o seu relacionamento com a seita da Cientologia. A notícia está aqui e aqui. Obviamente não tem nada a ver com o fiasco que foi o Missão Impossível II ou as cenas que atiraram alguns duplos para os hospitais com queimaduras de segundo grau... Ou o nunca ter sido grande coisa para além de um chamariz de box offices.
Eu sou suspeito, porque não consigo ver filmes em que ele ou o Kevin Kostner entrem (já vi alguns, mas arrastado). Há mais um ou outro, mas chamem-lhe o que quiserem, eu chamo-lhe uma questão de pele. E de gosto. E do talento que eles não têm.

A mim, dá-me vontade de chorar

Neste momento, (quase) emparceiram nas votações para Maior Português de Sempre:
Eusébio (2 votos e 1/4) e
D. João II (2 votos da "casa").
A votação continua. Já agora, pode ser aqui nesta caixinha de comentários, que está mais a jeito.

O Mínimo Denominador Comum

Já estou um bocadinho cansado desta polémica toda em torno do artigo de Eduardo Cintra Torres (e isto nada tem a ver com o post do Francisco abaixo, do qual muito gostei). Mas passei a uma velocidade de cruzeiro do desconhecimento total sobre o mesmo, para uma overdose de opiniões difusas que me obrigam à automedicação. Cuja é:
Tanto quanto me disseram (e não vou revelar a fonte, na qual deposito toda a minha confiança) o Governo decidiu entabular conversas com os responsáveis dos principais canais televisivos e teve-as, personificado na figura do Ministro António Costa. A intenção revelada foi a de diminuir o sensacionalismo das imagens dos incêndios no País, diminuindo assim também os fenómenos de imitação e, em consequência, a sua propagação.
São sabidas, por todos os que seguem esta área (os temas da Sociedade), duas coisas:
1. Que muitos pirómanos o são por razões de protagonismo "indirecto": Ver a sua "obra" na TV incendeia-lhes o ego.
2. Que a proporção dos incêndios é, muitas vezes, menos catastrófica do que as televisões o fazem crer, em tempo de "não notícias".
Dito isto, a iniciativa do Governo faz sentido. É certo que António Costa, que substituiu Sócrates nas férias, tem contactos privilegiados para estabelecer este acordo. Tanto assim que o conseguiu, o que politicamente deu jeito ao P.S.
Mas o tema não é aqui o da censura da RTP ou o seu controle pelo Governo. É muito mais amplo do que isso. Infelizmente, é por ser mais amplo que ninguém tem paciência para o analisar e se torna necessário reduzi-lo ao mínimo denominador comum. Mais uma vez. E como sempre.

Para o Líbano e em força?

É impressão minha ou as mais recentes declarações do ministro da Defesa Nacional, Nuno Severiano Teixeira, representam um recuo estratégico em relação ao que foi sendo dito e escrito nas últimas semanas? Aqui entre nós, poderá mesmo ser a abertura de uma janela para o Governo inverter a posição relativa ao envio de tropas portuguesas para o cenário terrível do Líbano, no âmbito de uma força mais vasta da União Europeia e sob a chancela de uma resolução da ONU que há dias todos consideravam quase perfeita e que agora parece padecer das maiores enfermidades?
O mesmo ministro que há dias estava muito empenhado em que Portugal participasse no esforço de pacificação do Líbano, disse agora, depois do encontros com os partidos, que "o Governo, perante uma situação complexa, está a ponderar com muita exigência e prudência o envio de militares para o Líbano". Por outras palavras, se a missão ainda é exequível, com a informação que hoje existe e, sobretudo, com as reticências todas que o Presidente da República impôs. Desconfio que neste ponto concreto o comandante supremo das Forças Armadas, Cavaco Silva, quando disse que o assunto tem que ser pesado "com muita cautela", estava a pensar no sentimento que deve ir na alma dos militares mais experientes. Aquele não é um teatro onde Portugal possa e deva actuar assim sem mais nem menos. Por isso o PR soltou esta frase, citada (e adaptada) pela Lusa, que diz tudo: "Não se enviam soldados portugueses para um teatro de tão grande complexidade" sem pesar bem todos os condicionamentos "políticos e militares". Aqui para nós, esta é a doutrina do momento. Se calhar, em São Bento, no Restelo e nas Necessidades não se pesaram bem esses condicionamentos "políticos e militares". Ou então não viram que peso relativo esses condicionamentos teriam em Belém.

P. S. - Repeti a expressão "condicionamentos" de propósito. É que ela pode significar que já entrou em acção aquilo que muitos chamam de... magistratura de influência do Presidente da República.

ECT

Não sei que tipo de informação o Eduardo Cintra Torres terá para ter escrito o que escreveu, isso cabe-lhe a ele revelar em local próprio (se entender que o pode fazer), agora que a eventual governamentalização da RTP não é coisa de hoje, isso já todos sabemos. Basta lembrar, no Governo anterior, o caso do concurso para Madrid...
Mas uma coisa queria deixar aqui expressa: A confiança e o crédito que o ECT sempre me mereceu e merece. Conheci-o há uns bons anos, quando o fui convidar para ser colunista numa revista de televisão que dirigi, a par do jornalismo de política que sempre fui fazendo. Para meu espanto, aceitou e assim consegui algum equilíbrio nos colunistas da tal revista. De um lado o Edson Athayde, escolha de outro parceiro da revista, do outro o ECT. Lembro-me de ter pensado que ficámos muito bem servidos, embora por um curto período, pois o ECT passou a colaborar regularmente com o Público. Com a acutilância que se lhe reconhece.

Assumir a relação

Dizem que o CDS é um partido em crise, mas folheando as revistas cor-de-rosa ninguém diria. A Lux, por exemplo, descobriu que o líder parlamentar democrata-cristão e a empresária Catarina Flores "vivem um amor discreto e do qual poucos sequer desconfiavam". O "amor" pode ser "discreto", mas a revista é fértil em pormenores: tudo "começou há cerca de dois meses e Nuno Melo até já foi apresentado" à família de Catarina, "ex-namorada de Santana Lopes". Os dois (Nuno e Catarina) "passaram férias juntos na ilha de Formentera". Mas "o primeiro sinal público da paixão" aconteceu no Porto, no final do concerto dos Rolling Stones: "talvez levados pela euforia do momento" eles "não resistiram e beijaram-se", apesar de Mick Jagger não ter chegado a cantar Angie. Isto levou a Lux, sempre perspicaz, a concluir: "A atracção entre ambos foi imediata." A coisa promete. E muito embora "ainda não vivam debaixo do mesmo tecto", a verdade - garante a revista que tudo sabe dos famosos - é que "dividem os seus dias entre as casas de um e de outro, ambas em Lisboa".
O partido até pode estar em crise, mas o líder parlamentar do CDS nunca foi tão badalado em consultórios de dentistas e salões de cabeleireiro. Catarina Flores, diz-se, costuma dar boa sorte aos políticos. Com este impulso da empresária, Nuno Melo há-de prosseguir de vento em pôpa. Por isso não admira que Ribeiro e Castro ande com aquele ar cada vez mais angustiado.

O Senhor Garrincha

Hoje vou ao teatro. Ver «O Senhor Armand dito Garrincha» no Maria Matos. Diz o postal de divulgação que a peça é «sobre o tempo, esse vândalo, que destrói as almas e quebra as pernas dos artistas abençoados pelos deuses».
As pernas de Garrincha, mesmo tortas, eram de facto abençoadas. A sua vida foi trágica, o álcool destruiu-o por dentro primeiro e por fora depois. Enquanto Pelé alcançava o sucesso, Garrincha afundava-se na miséria.
Mas ver jogar Garrincha, mesmo em velhos filmes a preto e branco no pequeno ecrã, é vislumbrar algo para lá do humano. É assistir ao génio feito corpo. Hoje, em palco, vou relembrá-lo, à «estrela do Botafogo» que o Botafogo deixou apagar.

Mais silly não podia ser

Duas notícias que mostram bem quão silly a Estação pode ser. Que é como quem diz, mesmo idiota.
A primeira, a última página do Público, em torno de uma suposta paixão de Bin Laden por Withney Houston, incluindo planos para lhe matar o marido. Como se não bastasse à senhora estar nas lonas e dependente do crack.
A segunda, o tema de capa do 24 Horas. Conheço bem o Vasco Noronha, lamento o ataque nojento de que foi alvo e seriamente questiono a publicação da notícia por todas as questões que coloca: O facto de o Vasco não ser uma figura pública que justifique o destaque dado; a utilização das imagens privadas dele no artigo; a ausência de informação sobre o seu curriculum jornalístico, por cá e em Bruxelas, como jornalista reputado e sério. Para ele, mais uma vítima da silly season, um abraço mesmo grande.

Efeitos do Mundial?

Passei nos controles de segurança de Gatwick com uma bagagem de mão de formato inaceitável e uma mochila com duas garrafas apenas meio cheias de um líquido, o qual por acaso era água mas podia não ser. Isto para além de um equipamento de comunicação móvel da classe dos PDAs cheio de potencialidades tecnológicas.
Vinha de regresso num voo da TAP. Dizem que tive sorte. Mas, aqui entre nós, acho é que os ingleses não gostam de Portugal tanto quanto pensamos. Serão ainda efeitos do Mundial?

Um país de pedintes?

Sobre o post que o Francisco publicou aqui (O País Que Temos), também fiquei abismado com essa notícia do DN. Afinal, há poucos meses, não tinham dito que o Rendimento Mínimo estava a beneficiar cada vez menos pessoas, justamente porque as estava a tirar da miséria? Lembro-me de reportagens demonstrativas nas manhãs da TSF e de outros grandes trabalhos jornalísticos em que o contraditório é simplesmente ignorado...Afinal, o dito rendimento não era para situações excepcionais? A "excepção" já vai em mais de 250 mil famílias, o que, se as minhas contas não estiverem mal feitas, ou seja, com um média de quatro pessoas por agregado familiar, dá um milhão de portugueses (10% da população) a depender do assistencialismo do Governo. Que raio de País estamos a criar? Porque, caro Francisco, eu não acredito que sejamos assim.

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Dislates da semana

"Se tivesse um bulldozer, a primeira coisa que deitava abaixo era o Algarve."
Luísa Castel-Branco, Correio da Manhã

"Se não fosse a profissão, seria uma bola com pelo. Adorava não ter de me depilar."
Júlia Pinheiro, Sábado

"Aquilo que mais quero é ser mãe. Mas ainda não consegui tomar a decisão de deixar de tomar a pílula."
Paula Neves, TV Guia

Pedido de desculpas a JMF

Ao que parece, o post de João Morgado Fernandes sobre o qual pedi esclarecimentos um pouco mais abaixo era uma piada. Com um subtexto algo enclausurado, talvez, mas uma piada.
Voltei de Inglaterra há poucos dias e, provavelmente por isso, com o sentido de humor desfasado. Não a entendi.
Não peço, por isso, a JMF esclarecimentos alguns. Peço-lhe antes (neste caso depois) que me desculpe. Sans rancune.

Eu gosto de Música no Coração, da Mary Poppins e de Julie Andrews

E então? É isso que eu sinto e não tenho vergonha: Julie Andrews foi a musa da minha infância.

E perdoe-me o João Villalobos, eu não descubro nenhum apelo libidinoso na figura da Mary Poppins Scarlett em fato saia-casaco e soquetes que acompanha a sua posta Sobe sobe, Scarlett sobe aqui em baixo.

Aliás, há dias assisti e “relatei” integralmente à minha filha Carolina, de cinco anos, o filme Música no Coração (Robert Wise – 1965). Este filme marcou a minha infância e considero, para o género e à época, uma excepcional realização do cinema. Agora, para nosso castigo cá em casa, vê e dança e canta e revê o filme sistematicamente. Só lhe faz bem.

Compreendo que para as luminárias reinantes, herdeiras do jacobinismo “bem pensante”, o filme seja considerado mau e até algo perverso. O optimismo e a harmonia são duas perspectivas mal consideradas na dialéctica da luta de classes em curso.

Neste filme “conto de fadas” a Igreja Católica tem um papel digno, as freiras, para escândalo da nossa culta “polícia de costumes”, por uma vez saem das anedotas. Pior: uma família austríaca, burguesa e “fascizante” possui princípios e valores, enfrentando com coragem a encarnação do mal que no Ocidente é o nazismo. Finalmente inaceitável para a estética marxista, temos uma esplêndida banda sonora melodicamente vigorosa.

A minha filha Carolina (de forma diferente) encanta-se como eu me encantei. É seduzida com a figura maternal de “Maria” Julie Andrews, adora os vestidos das miúdas e as suas saias que fazem roda bem aberta. Trauteia canções de fácil memorização e, parece-me, acredita que o mal pode ser vencido e que o mundo é um sítio onde sempre poderá ser feliz.

De resto, quanto ao erotismo dos nossos heróis e dos nossos mitos, parece-me que muita gente tem ainda de acordar estremunhada para uma dura realidade: A vida das pessoas comuns, se bem que regida pela sua sexualidade, nunca será euforicamente plena de sexo e embriagante romance. Essa é uma redenção que a sociedade de consumo nos quer vender há 40 anos. E essa será a grande depressão da modernidade.

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O País Que Temos

No País Que Temos (PQT), o número de pessoas que vive à custa do rendimento mínimo (que mudou de nome para o pomposo "rendimento social de inserção") e que beneficia do abono de família quase duplicou num ano e sofreu um aumento nunca visto nos últimos seis meses. Em 2005, recebiam o rendimentozito 135 150 pessoas. Já este ano, o PQT dá o rendimentozito a 268 384 almas. De certo este aumento não está relacionado com a governação e deve-se única e exclusivamente a um problema conjuntural que afecta a Europa toda e, por conseguinte, o PQT...

P.S. - Obviamente que este também não é um tema que interesse à oposição, nem sequer àqueles políticos que prometeram um dia que, se fossem Governo (e foram), acabavam com a coisa. Que eu saiba esses mesmos políticos estão a banhos.

Descubra as semelhanças


Desemprego de longa duração aumenta 72% entre os jovens

A CIA vista do Atlântico

Caro Paulo, não concordo de todo contigo. Nenhum Governo português pode dizer que «recusa intromissões na sua política» por parte das instituições europeias.
Pela simples razão que quem lhes tem permitido sobreviver politicamente, aos diversos Governos, têm sido os dinheiros europeus. Armar ao pingarelho e pôr-se em bicos dos pés é muito bonito para quem se deixa deslumbrar por demonstrações de «orgulho nacional», mas é de uma hipocrisia sonsa.
É evidente, para mim, que o Governo deve dar as explicações todas ao Parlamento Europeu. É evidente que o Governo não vai explicar nada à Assembleia, mesmo que esta lhe peça. É evidente que os voos secretos da CIA são uma violação múltipla de direitos cuja gravidade extrapola a nossa «alegre casinha». E isto nada tem a ver com direita e esquerda.

Pedido de esclarecimento a JMF

João Morgado Fernandes escreve: «Informações de que disponho indicam que há blogues que recebem dinheiro para escreverem certas e determinadas coisas».
Peço a JMF que, se tal é verdade, diga Quais (as informações), Qual (a fonte), Quem (os autores dos blogues), Quanto (já agora, porque pessoalmente estou interessado) e O Quê (essas tais coisas). Escrita assim, a "revelação" parece parte de um sketch dos Gato Fedorento.
Dito isto, blogues não são jornais. Acho perfeitamente legítimo que existam alguns que não só recebam dinheiro como sejam criados por empresas ou instituições para dizerem «determinadas coisas». Desde que explicitamente o assumam, é evidente.
Quanto a casos mais opacos, seria realmente muito útil que JMF nos esclarecesse. Se o souber.

O que pensam os britânicos

A sondagem publicada na última The Spectator mostra essencialmente três coisas:
A primeira que os britânicos não acreditam num fim à vista para a ameaça terrorista. 44% dos inquiridos espera mesmo que o conflito com os grupos islâmicos dure mais de 20 anos.
A segunda, que os súbditos de Sua Majestade são maioritariamente a favor (45%) de um descolamento da política de Bush e favoráveis a um alinhamento com a Europa.
E a terceira e última, last but not least, que o Ocidente está a perder a guerra, como opina 79% da amostra.
Uma visão gloomy, ou realista, como quiserem. Que coloca a questão no âmbito de uma Guerra Mundial, para a qual o Ocidente precisa de encontrar novas formas de resposta, se a pretende vencer.
«Yes, we are at war - but we are losing», titula o artigo. Uma prova mais do raro senso comum que revela, nestas ocasiões, o povo do outro lado do Canal da Mancha.

Descanse em paz o fotógrafo de guerra

Morreu, aos 94 anos, Joe Rosenthal. Aqui fica a sua imagem de um grupo de soldados americanos, içando a bandeira no final da batalha pelo controlo da ilha japonesa de Iwo Jima.
Perto do fim, muito perto, daquela que foi a última guerra a preto e branco.

Sobe sobe, Scarlett sobe

Não é justo. Estes putos de agora têm mesmo direito a tudo. Enquanto nós tivemos que contentar-nos com Julie Andrews que, convenhamos, não apela ao imaginário de ninguém, os miúdos de hoje vão ter a Scarlett Johansson. É caso para dizer: «Dá Hollywood nozes a quem (ainda) não tem dentes».

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

Descompressão

As conversas aqui no buraco estão sérias demais. Uma pausa para desanuviar.

O passado não perdoa

A última coisa de que Günter Grass precisava era de um advogado de defesa chamado José Saramago. Mas o Nobel-98 lá veio em socorro do Nobel-99: em entrevista ao El País de ontem, o autor do Ensaio Sobre a Cegueira insurge-se contra as críticas a Grass, falando do alemão como se estivesse a defender-se das sombras do seu próprio passado. Nesta entrevista, intitulada "Regresso à Infância", Saramago indigna-se: "Surpreendeu-me a violência das reacções [contra Grass]. Ele tinha 17 anos. E o resto da vida não conta? Parece-me uma reacção hipócrita de muita gente que se calhar não consulta a sua própria consciência."
Numa coisa o "nosso" Nobel tem razão. Grass ainda pode alegar que o facto de se ter oferecido como voluntário, em 1944, para as Waffen-SS foi um pecadilho de juventude. Bem diferente dos vergonhosos saneamentos políticos de jornalistas promovidos por Saramago em 1975, quando tinha 52 anos, na redacção do Diário de Notícias. E o resto da vida não conta? Conta. Não venha é arrogar-se como autoridade moral perante nenhum de nós.

E agora?


«A República Islâmica do Irão tomou a sua própria decisão e, no caso nuclear, com a ajuda de Deus, com paciência e força, o Irão vai prosseguir o seu caminho»

Restaurantes populares ou talvez não

O Diário de Notícias tem vindo a eleger, todos os sábados, os melhores restaurantes portugueses, dividindo-os por variados géneros. Este sábado coube a vez aos "restaurantes populares", categoria talvez demasiado abrangente, que se presta a alguns equívocos. Nada tenho a dizer quanto ao primeiro lugar atribuído ao Galito - um dos melhores restaurantes de Lisboa, especializado em sabores tradicionais alentejanos - nem ao segundo posto, que recaiu ex-aequeo na Casa Aleixo (um restaurante bom e barato que nunca deixo de frequentar nas minhas frequentes idas ao Porto) e no lisboeta Salsa e Coentros (que desconheço). Mas se o meu amigo Duarte Calvão me permite a intromissão em terreno alheio, torço o nariz a algumas escolhas do júri, composto por dez gastrónomos tão amadores como eu. Incluir o Poleiro (Lisboa) e a Tia Alice (Fátima) entre os restaurantes "populares", atendendo nomeadamente aos preços que ali se praticam, é um pouco abusivo. Percebo mal também por que motivo houve quem incluísse nesta categoria o Casanova (Lisboa), mais conhecido pelas suas pizzas. Muitos outros omitidos pelo júri mereciam no mínimo uma menção - do Múni (Lisboa), ao Camelo (Santa Marta de Portuzelo), do Artur (Carviçais) à Presuntaria Transmontana (Gaia). Mas volto ao princípio: o Galito foi uma boa escolha. Quem ainda lá não foi não sabe o que perde...

Blogues em revista

Kontratempos: "Alguns dos piores canalhas deste mundo são escritores. O nosso acervo colectivo está repleto de sacaninhas que escreveram excelentes nacos de prosa. Nobelizados.” (Tiago Barbosa Ribeiro)
A Natureza do Mal: “A guerra das classes, a guerra fria, a política da classe contra classe, levaram à loucura homicida do século XX, o mais cruel dos séculos.” (Luís Januário)
A Sexta Coluna: “A guerra contra o terrorismo é uma guerra para ir travando e ganhando aos bocadinhos. Desiludam-se aqueles que ainda acham que é possível fazê-lo de um dia para o outro.” (Eduardo Nogueira Pinto)
O Franco Atirador: “Raramente conseguimos perdoar às pessoas que maltratamos.” (Luís M. Jorge)

Primus inter Tugas

A RTP vai adaptar um programa da BBC e «convidar os espectadores a escolher o melhor português de todos os tempos», de acordo com o Diário Económico.
Em Inglaterra venceu Winston Churchill. Por cá, antevejo a vitória de José Mourinho. Fica, no entanto, aqui aberto na caixa de comentários um espaço para a votação dos leitores, certo de que virão como sempre recheados com sugestões adequadas à selecção da figura mais representativa do Portugal que tivemos, se não o que temos.
Eu cá, não revelo ainda a minha indicação de voto, para não influenciar.

O desafio do centenário


Estou prestes a entrar em estágio: após um interminável “defeso” hoje à noite marcarei presença em Alvalade para assistir ao "jogo do centenário", o Sporting vs Inter de Milão.
Confesso que as expectativas para esta temporada estão altas: A equipa mantém a estrutura do ano passado, apresenta algum “fio de jogo” e os protagonistas assumem com coragem a “pole position” com vista ao título. Sem peias, o treinador Paulo Bento confirma que “tem o que precisa e está onde quer”. Gosto do discurso. Ontem o defesa esquerdo Caneira afirmava à RTP, olhos nos olhos: “Somos o principal candidato ao título.” Sem mais.
Sendo assim, todos a Alvalade! Viva o Sporting Clube de Portugal!

Domingo, Agosto 20, 2006

Oposição? Que oposição?

Mais vale reinar por um dia do que servir toda a vida, lá dizia D. Luísa de Gusmão. Por uma noite, Luís Filipe Menezes foi líder do PSD. Com Marques Mendes ausente da festa do Pontal, o autarca de Gaia tornou-se cabeça de cartaz. Cabendo-lhe o principal discurso do serão, lá tratou de disparar inanidades contra o Governo. O barrosista Morais Sarmento faltou à última hora, o marcelista António Borges fez o mesmo. Todos a pouparem-se para o dia seguinte, que pode afinal nunca chegar. É que José Sócrates, que iniciou a carreira política como militante da JSD, tem-se encarregado de demolir estrategicamente, na forma e no conteúdo, toda a lógica de actuação dos sociais-democratas. O "povo de direita" revê-se no estilo determinado, reformista e arrogante do primeiro-ministro, como ainda agora se viu no caso dos aviões da CIA, que arrancou elogios até de Vasco Graça Moura ao chefe do Governo. Com um CDS em irreversível processo de autofagia e um PSD suspirando por um líder como Sócrates, só resta mesmo a Marques Mendes resguardar-se dos pingos de chuva neste Verão fértil em nuvens. E desconfiar de tudo, a começar pelos elogios que Marcelo lhe faz semanalmente na RTP. Aquilo a que costumamos chamar direita é hoje uma espécie de barriga de aluguer, rendida ao charme de Sócrates. Como podia ser de outra maneira, com o Presidente Cavaco Silva a dar a sua bênção quotidiana ao Executivo e a oposição de esquerda a ser liderada pela frenética eurodeputada Ana Gomes? Cada vez que ela abre a boca para criticar o primeiro-ministro, alarga a base social e política de apoio ao Governo. Diz-me quem te critica, dir-te-ei quem és.

Hast du geld, Grass?

Já que falas do assunto, Duarte, aqui vai uma adenda mesmo a propósito. A primeira edição da autobiografia de herr Grass esgotou-se logo após ter sido posta à venda na Alemanha, aliás mais cedo do que estava previsto: 150 mil exemplares voaram dos escaparates. A editora Steidl accionou entretanto uma nova impressão: vêm aí mais cem mil cópias, num ritmo de fazer inveja à criadora do Harry Potter. Percebe-se agora melhor por que motivo a defunta "consciência moral" da Alemanha só agora tirou do armário um esqueleto com 60 anos...

Antes que a vida nos mude a nós (crónica)

Durante muito tempo deixei-me ir e vir de carro. Singrei nas estatísticas dos cidadãos automobilizados que diariamente engarrafavam as vias de acesso à capital. Todos os dias, sem falta, no meu carro a uma média de 20 km por hora, eu percorria vaidoso e solitário, cerca de 30 km para Lisboa pela manhã e igual dose para casa ao final da tarde. Impulsionado por cerca de 100 cavalos, e por uma ilusória sensação de poder, andei eu ao sabor dos caprichos do trânsito da Marginal, sempre pelo mesmo caminho, mas “cheio de liberdade de movimentos”. Diariamente, ouvia pela rádio as tendências do mercado bolsista onde nunca joguei nem pretendo gastar um tostão. Com a companhia da telefonia, muito me irritei com as constantes e leais notícias do trânsito, que previsivelmente nada adiantavam. A rotina do “pára-arranca” motorizado constituía no mínimo duas preciosas horas do meu dia.
Ao contrário de outros nunca senti razão de monta para me "desculpar" com as condições da oferta de transportes públicos de Lisboa. Na verdade as minhas esporádicas experiências decorriam a maior parte das vezes dentro dos limites do aceitável. Nas regulares visitas à minha envelhecida mãe algures nas avenidas novas, e noutras movimentações em trabalho dentro de Lisboa, a solução do transporte público sempre se revelava bastante eficiente.
Gradualmente fui-me apercebendo de que estava cada vez mais “dependente” e estupidificado pelo automóvel, que se revelava um isolante e insolente “aquário” a privar-me da vida e do pulsar da minha cidade: do cigano que apregoa a roupa “de marca” junto à estação, da paisagem que é viva de gente, de detalhes e nuances, nos monumentos, nas cores dos prédios, ou nuns olhos tristes de um qualquer passageiro cúmplice.
Há uns meses, simbolicamente, troquei um excedente e inútil cartão de crédito pelo passe social na minha carteira. Na posse desse mágico cartão revivi sensações antigas e descobri que me tornava mais livre. Agora, na pasta, trago um livro a preceito para me acompanhar nas quotidianas viagens. Hoje, gasto solas e calcorreio ruas, escadas e avenidas, misturo-me na minha cidade em movimento. Até, quem sabe, já nem necessite de um estúpido ginásio para mexer mais este meu revigorado corpo. E o novo “espaço” que ganhei para praticar a inteligência de ver as coisas da minha vida mais “adentro”, com mais perspectiva e menos stress?
De resto, ganhei um pouco de autoridade moral, no que refere as estas angustiantes “coisas da ecologia e da poluição”, sempre culpa dos governos e dos americanos: um assunto demasiadamente sério e sobre o qual, tão cedo, nenhum executivo ocidental terá coragem de agir, por forma a não incomodar o consumidor/eleitor, e colidir com a sua sagrada liberdade individual.

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Ele há cada uma...

Li vários comentadores na Imprensa portuguesa nos últimos dias e, mesmo entre alguns que são considerados de direita, o tom geral, o bom tom, é não "estranhar" a revelação de que Günter Grass foi das SS. Realmente, o que é que terá de "estranho" um homem de esquerda, que ganhou fama a escrever e a falar sobre o mal-estar dos alemães em relação ao seu passado nazi, a bramar contra os que queriam esconder ou esquecer esse passado, vir fazer uma revelação destas "só" 60 anos depois? Como é que alguém se lembra de achar isso não só estranho como, vejam só, profundamente desonesto?

Não vi e não gostei

O filme Os Amantes Regulares, de um tal Philippe Garrel, estreou-se em Lisboa com os habituais encómios da crítica bem-pensante - aquela que gosta de premiar com cinco estrelas as maiores chumbadas da Sétima Arte enquanto atribui bola preta a algumas obras-primas cinematográficas. Bastou-me o que o João Fernandes escreveu aqui para me pôr a milhas. Acreditem: não vou nem passar perto das salas de cinema onde esta fita esteja em exibição.

Os diamantes são eternos

Zapping nocturno. Vejo alguns minutos do genial Os Homens Preferem as Louras, com Marilyn Monroe e Jane Russell - que hoje, já octogenária, trocou a tela pelas canções, actuando em casinos de Las Vegas onde exibe ainda vestígios do antigo glamour. Às tantas lá surge a frase de que tanto gosto, uma das melhores do cinema, proferida pela loura Lorelei Lee (Marilyn): "Adoro descobrir sítios novos onde possa usar diamantes."

Sábado, Agosto 19, 2006

Rotunda incompetência

O Dolo Eventual está a fazer uma autêntica missão de serviço público, com o inventário de algumas das mais estapafúrdias rotundas existentes cá na parvónia. Como já se esperava, na esmagadora maioria dos casos, estas imagens constituem um monumento à rotunda incompetência do nosso "poder local".

A esquerda selectiva

Uma excelente pergunta de Bettencourt Resendes no Bicho Carpinteiro a propósito dos recentes incidentes que alarmaram Londres: "Ouviu-se alguma voz de indignação da parte do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista Português?" A resposta, lamentavelmente, é negativa. Nisto de indignações há uma certa esquerda que se mostra cada vez mais selectiva...

À espera do Sol

No meio jornalístico português, extremamente conservador, fazem-se já vaticínios negros sobre o futuro d'O Sol - o novo projecto que está a animar o mercado, dando origem a diversas transferências de redacção para redacção. Ouvi os mesmos vaticínios quando apareceu O Independente (1988) e quando arrancou o Público (1990), projecto editorial que tive o privilégio de integrar. Voltei a escutar as mesmas negras previsões quando a SIC começou, em 1992. Reflexos condicionados de uma sociedade avessa à mudança...
Contra esta corrente, quero desde já vaticinar o seguinte: apesar de alguns erros entretanto cometidos com certas contratações, O Sol vai ser um projecto de sucesso. Aguardemos mais umas semanas para ver. E até o nome deixará de parecer tão estranho.

Dois intelectuais a desconversar

- Gosto de literatura de combate.
- Para combater o quê?
- A sociedade de consumo.
- E isso é mau?
- É. Tal como a Coca-Cola.
- Também detestas Coca-Cola?
- Claro. Nem sumo nem cola: não há nada que chegue a umas imperiais bem tiradas e geladinhas.
- E com isso combates o quê?
- A sede.

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

A palavra ao leitor

A propósito desta posta, em que falava do excelente consulado-geral de Portugal em São Paulo, recebi um esclarecimento do embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, que passo a transcrever parcialmente. Um esclarecimento que naturalmente agradeço, aproveitando para incluir aqui uma fotografia do consulado, que bem merece um rasgado elogio.
"Meu Caro,
Vi a sua nota no Corta-Fitas, que muito lhe agradeço. Porém, uma precisão há que fazer-se: a mudança do consulado-geral em São Paulo para as novas instalações fez-se antes de eu chegar a Brasília. Desde que assumi funções, inaugurei duas instalações novas (Salvador e Curitiba) e tenho tentado garantir que o excelente trabalho desenvolvido em São Paulo se não perca."
Francisco Seixas da Costa

Pés-de-microfone

O jornalismo deixou de ser uma causa, uma vocação que se abraça com gosto, uma missão de serviço público, para passar a ser uma "coisa gira" que se experimenta durante dois ou três anos, "para ver como é", até se dar o salto para a ansiada assessoria de imprensa ou a sonhada cadeirinha na agência de comunicação pertencente ao amigo do amigo que nos deve uns favores. Nos últimos anos, a atitude mental de muitos jornalistas mudou. O "poder da pergunta", de que nos falava Milan Kundera, deixa demasiadas vezes de ser exercido por imperativo deontológico, dando lugar à questãozinha reverente, veneradora e obrigada, feita à medida dos desígnios do interpelado, "a bem da Nação". Na gíria jornalística, chamamos "pés-de-microfone" a esta gente. O nome não podia ser mais apropriado.
Ouvi há dias um destes "pé-de-microfone" - espécie em vias de expansão. Tinha um ministro pela frente e quase corava de vergonha (seria de emoção?) perante a iminência de o interrogar em directo. A perguntinha inócua lá saiu, sem beliscar a imensa autoridade do Senhor Ministro, que logo transformou aquela oportunidade em puro tempo de antena, sem sombra de contraditório.
Confesso que cheguei a ter pena daquele braço estendido à torrente verbal do governante. Já devia estar dormente, assim esticado durante largos minutos, segurando com tanto zelo o microfone...

A mancha nazi do avô Grass

Durante décadas, chamaram-lhe a "consciência moral" da Alemanha. Do alto do seu púlpito, verbo inflamado e dedo em riste, Günter Grass fulminava os incréus, anunciando-lhes uma aurora redentora. Aurora vermelha, claro. Foi ele, aliás, um dos compagnons de route do "pacifismo" soviético que nos anos 80 bradava a Ocidente "Antes vermelhos que mortos!" Sem se deixar sequer impressionar pela visão dantesca do Muro da Vergonha.
Sabe-se agora que o mesmo arauto da "moralidade" germânica, na juventude, foi voluntário das SS - a mais repugnante tropa de choque do nazismo. Confissão tardia do próprio, ainda para mais contaminada pela natural suspeita (se non è vero è bene trovato, Jorge) de que só o fez agora, rompendo um prolongadíssimo silêncio que durou mais de meio século, para ajudar a vender melhor a autobiografia, que dentro de dias surge nos escaparates.
Sobre a qualidade moral deste pilar da esquerda literata europeia, estamos conversados. Só me espanta que os indignadinhos do costume, aqueles que nunca deixam escapar nenhum comportamento de figura pública ao seu escrutínio crítico e ainda hoje não perdoam um elogio feito há 30 anos por Jorge Luis Borges ao ditador Videla, tenham desta vez permanecido em silêncio, encarando a mancha nazi na biografia do Prémio Nobel de 1999 como um mero devaneio adolescente. Não terão mesmo nada a censurar no comportamento dúplice do avô Grass?

Joana

Joana Amaral Dias. Por todos os motivos, a começar pela sua notável inteligência. E também porque hoje é sexta-feira...
(Abril 2006)
Foto: Leonardo Negrão

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Momentos Kodak (13)

Confesso que o dia não me está correr particularmente bem. Pela primeira vez na vida, vou de férias sem grandes motivos para levar um sorriso na cara...
A toda a equipa do Corta, aos anónimos e não anónimos que nos acompanham, um bem-haja. E até breve.
(Lisboa, 17 de Agosto de 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

Vermelho e branco

Pedro Namora, o mesmo que promoveu "marchas brancas" contra a pedofilia em Portugal, fundou este blogue, cujo único propósito visível é defender o regime cubano com o mesmo espírito dos "comités de vigilância da revolução" castrista. Nada mais coerente. Afinal, como todos sabemos, desde 1959 que não existe pedofilia em Cuba. As gineteras e os gineteros que vendem o corpo no Malecón são agentes infiltrados da CIA, pagos para denegrirem a obra heróica do Comandante.

Evocação a Marcelo Caetano no DN

Parabéns ao DN pela evocação dos 100 anos sobre o nascimento de Marcelo Caetano editada hoje em suplemento. Profusamente ilustrado, nele encontramos as opiniões de Adriano Moreira, Jorge Sampaio e Veiga Simão, além de uma pequena pérola jornalística – que peca por curta… – da autoria de Ana Sá Lopes numa visita e entrevista à filha do estadista.
É assim que se documenta a história que se irá escrever.

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Livros e livros

Não tive tempo para trazer recuerdos do Brasil. Mas entrei numa livraria, abasteci-me com algumas obras da excelente (e baratíssima) colecção de bolso da L&PM. Com títulos como o Génesis, O Vermelho e o Negro (Stendhal), Jardim de Inverno (Neruda), O Retrato de Dorian Gray, O Médico e o Monstro, Viagem ao Centro da Terra, O Enforcado (Simenon), Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, a poesia de Florbela Espanca, O Delírio Amoroso (Bocage), Viajante Solitário (Kerouac) e António e Cleópatra (Shakespeare). Trago dois destes livros para o meu amigo FM, que me fizera a encomenda, e outro para alguém a quem prometi "um cheirinho do Rio" - nunca deixo uma promessa por cumprir. E fico a pensar: por que estranho motivo as colecções de bolso, boas e baratas, terão desaparecido das livrarias de Portugal? Não consigo acreditar que seja por falta de procura...

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

O cinema e a vida

"Inverno" no Rio (com 22 graus às 7 da manhã) tem destas coisas: é possível subir ao Corcovado quase sem mais ninguém por perto. Fui lá com a Manuela, a Bárbara, a Madalena e o Paulo, que se revelou um excelente cicerone. Tínhamos o "bondinho" todo só para nós. Mal embarcámos, lembrei-me de um dos filmes da minha vida: o fabuloso Orfeu Negro, de Marcel Camus - Palma de Ouro em Cannes e Óscar para melhor filme estrangeiro em Hollywood -, com uma cena capital ali filmada.
Dica importante: é fundamental sentarmo-nos no lado direito do bonde, não só para vermos as belezas naturais da Tijuca mas também para não perdermos a célebre "curva do Ó", onde o panorama é tão deslumbrante que o forasteiro só consegue abrir a boca de espanto. Lá em cima, ao contemplar a Lagoa Rodrigo de Freitas, Ipanema e o Jockey Clube, lembrei-me de outro filme: Voando Para o Rio de Janeiro, com Fred Astaire e Ginger Rogers - a primeira vista aérea do Rio que o cinema americano nos proporcionou.
De facto, vendo a "cidade maravilhosa" daquele ângulo, estilo plongée, até parecíamos a bordo de um avião. O Corcovado e nós.

Em directo do Funchal

Desde o primeiro dia, tivemos leitores em várias partes do País - incluindo as regiões autónomas. A partir de hoje alargamos também a nossa "equipa redactorial", com um reforço da Madeira: a Marta Caires, jornalista do Diário de Notícias do Funchal, passa a integrar a turma do Corta-Fitas, confirmando-se assim que na blogosfera não existem diferenças geográficas. E também não há compartimentos estanques: tanto podemos escrever nós sobre Alberto João Jardim como ela sobre José Sócrates ou Cavaco Silva. Ou qualquer outro tema que nos apeteça, já que a política está longe de esgotar o cardápio cá da casa. Basta deixar a inspiração correr...
Bem-vinda, Marta. A orquídea lá de cima é para ti.

Final trágico

Ler Um Herói Português - Henrique Paiva Couceiro -, de Vasco Pulido Valente, é um pouco como a angústia de ver o filme Titanic. O trágico final é só uma "questão de tempo".

Corta-fitas, inaugurações

Perdi a conta às vezes que, de bloco na mão e gravador em punho, assisti à inauguração, ao descerrar da placa, ao levantar da cancela, ao hino tocado pela banda filarmónica e aos versos ditos por uma menina de vestido de folhos, papelinho numa mão, ramo de flores na outra. Sei o que diz a placa, o que querem dizer os versos. Todos falam do presidente, da sua imensa dedicação, da sua luta, das suas conquistas. Da estrada de asfalto negro que subiu pela montanha, da luz que iluminou as casas, das festas pelas freguesias e sítios, com vinho e espetada.
Conheço o ritual. Chega o carro, com a bandeirinha do governo a esvoaçar. De dentro, sai o homem apressado, cumprimenta todos com um "vai isso" e um "está boazinha". Há empurrões, apertões, caras cheias de sorrisos. Se for uma escola, nada começa sem tirar a bandeira azul e amarela à placa. Depois, o povo avoluma-se atrás do presidente para ver as salas de aulas, a cantina e a secretaria. Se a obra é uma estrada (de 100 ou 500 metros), espera-se pelo mexer da cancela e segue-se o líder como quem vai atrás do andor na procissão.
Nas imediações, há sandes de queijo em mesas improvisadas e um braseiro preparado para assar a carne no espeto. A comida só chega à boca com a visita terminada e o discurso feito. Num palanque ou pelo megafone que emerge sempre da multidão quando não há outro meio de fazer chegar a voz ao povo. Tão devoto, não perde as intervenções políticas. Ri das piadas brejeiras, aplaude as denúncias sobre o Terreiro do Paço e manifesta-se contra o garrote financeiro da República. Ri e aplaude, mas só exalta de júbilo quando a política passa à História e as mesas abrem às hostilidades. Carne assada com croquetes, pastéis de bacalhau com bolo de mel. Vinho seco ou uísque, brisa maracujá ou sumo de laranja. A propósito, o que será o garrote financeiro, onde fica o Terreiro do Paço?

As palavras dos outros

"O 'homem de bem' é um cadáver mal informado. Não sabe que morreu."
Nelson Rodrigues

Estes ministros existem?

Alguém dá pela existência de um ministro do Ambiente em Portugal? O titular da pasta, Nunes Correia, tem primado pela ausência desde que os fogos irromperam este Verão nas matas portuguesas. Com o ministro da Administração Interna, António Costa, a suportar todo o ónus da situação, o seu putativo colega do Ambiente não soube fazer melhor senão rumar a férias como se o País não estivesse a arder - inclusive nos parques naturais que dependem da tutela do seu ministério. Também o ministro da Agricultura, Jaime Silva, anda desaparecido, recusando responder às perguntas - naturalmente incómodas - sobre o caos em que se encontram as florestas do Estado que estão sob a alçada do seu ministério. Talvez por andar mais preocupado em promover a maçã de Alcobaça nos Morangos com Açúcar, como o Francisco ontem assinalou aqui...
Se nestes momentos críticos os dois ministros se eclipsam, é caso para perguntar se não deverão ser definitivamente dispensados das cansativas funções para as quais ambos já demonstraram não ter vocação nenhuma.

Dois marcos em São Paulo

1. O Museu da Língua Portuguesa. Eis o que se chama uma obra de referência - uma autêntica declaração de amor ao nosso idioma, aqui apresentado como uma realidade viva, dinâmica e pujante a partir das obras dos grandes mestres - de Camões a Pessoa, de Machado de Assis a Nelson Rodrigues, de Drummond a Sophia. Com um belíssimo cenário - envolvente, atraente, esteticamente irrepreensível. A grande actriz Fernanda Montenegro faz de cicerone oral numa irresistível viagem à volta de uma língua que é património de mais de 200 milhões de habitantes do planeta. E nem Macau e Timor ficam esquecidos nesta incursão pelo mundo onde se fala português, servida também pelas vozes inconfundíveis de Chico Buarque e Maria Bethânia.
Este museu, inaugurado em Março na concorridíssima estação ferroviária da Luz, está a ser um caso de sucesso. Com uma média de 50 mil visitantes por mês. Que tenha sido edificado pelos brasileiros e não por nós devia ser motivo suficiente para nos envergonhar a todos.
2. O Consulado-Geral de Portugal. Agora implantado num amplo prédio de traça colonial - exemplarmente restaurado - a meio caminho entre as avenidas Paulista e Faria de Lima, no eixo central da cidade, mais parece uma verdadeira embaixada. Melhor: tem mais categoria do que várias embaixadas portuguesas no estrangeiro (sei do que falo, pois conheço muitas). Esta recente transferência de instalações, em boa hora decidida pelo nosso dinâmico embaixador em Brasília, Francisco Seixas da Costa, só prestigia o nome de Portugal no Brasil. A boa imagem de um país também se mede por estas coisas.

Momentos Kodak (12)

Stand da Mcdonald's no recinto do festival do Sudoeste.
(Zambujeira do Mar, 4 de Agosto de 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

Terça-feira, Agosto 15, 2006

A lógica da maçã

A melhor notícia do dia está no 24 Horas de hoje. Segundo o tablóide, Jaime Silva, ministro da Agricultura, "encontrou uma forma original de promover um fruto nacional". Então não é que o ministro mais contestado do País se lembrou de pôr uma actriz da série da TVI "Morangos com Açucar" a trincar a fruta para ajudar a Associação de Produtores de Maçã de Alcobaça? Mais: diz o jornal, citando fonte do gabinete do ministro, que Jaime Silva teve esta brilhante ideia porque o seu filho de 15 anos é fã da série. "O ministro disse-me que era uma boa ideia tentar ver uma forma de meter as maçãs na telenovela. E assim foi", afirma Jorge Soares, um dos dirigentes daquela associação.
Mas o que é isto? Será que alguém perdeu o tino de vez? É por estas e por outras que o sr. Silva é o pior entre os membros do Governo nas sondagens e é o único ministro - até agora- que levou uma reprimenda pública do Presidente da República. "Os atritos entre diferentes responsáveis duram há demasiado tempo", disse o Presidente, num momento de grande agitação entre o ministro da Agricultura e a Confederação dos Agricultores Portugueses (CAP).
Recomendo ao senhor ministro a leitura do artigo de Maria Filomena Mónica no último número da revista Atlântico. Segundo a investigadora, a série é tão má que representa uma espécie de retrocesso civilizacional. Um regresso à "barbárie".

Nota final: Que fique claro que não tenho nada contra a "moranguita" em causa - Diana Chaves. Bem pelo contrário...

Blogues em revista

A Arte da Fuga: “Há uma enorme diferença entre tempo de Paz e tempo dado aos terroristas para se armarem até aos dentes.” (Adolfo Mesquita Nunes)

Estado Civil: “Se a potência hoje está à distância de um comprimido azul, então a potência não vale nada.” (Pedro Mexia)

Tomar Partido: “Marques Mendes não vai à maravilhosa e épica festa de Chão da Lagoa. Marques Mendes não vai à mítica festa do Pontal. Marques Mendes não vai a lado nenhum.” (Jorge Ferreira)

Carybé: a festa da vida

Exposição de Carybé no excelente Museu Afro-Brasil, em São Paulo: a arte do mestre baiano em todo o seu esplendor. Explosões de luz e cor em perfeita identidade com o melhor espírito brasileiro, de uma transbordante sensualidade. Observo cada uma das 80 telas com uma crescente sensação de deslumbramento: Carybé celebra a festa da vida com todas as tonalidades do arco-íris. Nada pode estar mais distante dos quadros asténicos e neuróticos tão em voga nas galerias do Velho Mundo.

Um mundo de contrastes

São Paulo convida ao lugar-comum: selva de betão. Quem vem de Portugal, onde raciocinamos sempre em diminutivo, não consegue apreender com facilidade a escala gigantesca da maior cidade do mundo onde se fala o nosso idioma. Uma cidade tão cheia de asperezas, de multidões errantes, de um trânsito caótico que nunca parece descomprimido. Mas é também uma cidade onde se nota um rasgo inigualável – na arquitectura, no urbanismo, num certo conceito de modernidade, numa sofisticação sem paralelo no Brasil. Uma cidade que vista de um dos melhores bares do mundo – o Skye, no último andar do hotel Unique – parece quase irreal, mergulhada em contrastes, simultaneamente agressiva e acolhedora. Saí de lá com esta interrogação: como foi possível os pequenos portugueses criarem do nada grande parte de tudo aquilo?

Gostei de ler

1. Os Patrulheiros. De Eduardo Pitta. Da Literatura.
2. O Esplendor de Grass. De André Moura e Cunha, no Porque.
3. Nunca é tarde para aprender: Kubrick como fotógrafo existencialista. De José Pacheco Pereira, no Abrupto.
4. A Imensa Tristeza. De Rui Bebiano, n'A Terceira Noite.
5. Da beleza e consolação dos géneros superiores. De Tiago Galvão, no Diário.
6. O Amor nos Tempos de Trela. De Vasco Barreto, na Memória Inventada.
7. Crítica de cinema em estado crítico. De Fernando Gouveia. Não Tenho Vida para Isto.
8. Beijem-me ou não me beijem. Da Isabela, n'O Mundo Perfeito.

Momentos Kodak (11)

Festival do Sudoeste. E assim o IC 19 deixou de ser por alguns dias o maior parque de estacionamento da Europa...
(Zambujeira do Mar, 5 de Agosto de 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

A “pequena história”

Acontece com a biografia de D. Maria II de Maria de Fátima Bonifácio da colecção Reis de Portugal editado pelo Círculo de Leitores: toda a conjuntura política, conspirações e pronunciamentos, manifestos e marchas são devidamente testemunhadas; do Duque de Palmela a Costa Cabral, do Duque de Saldanha a Sá da Bandeira todos os protagonistas dessas salgalhadas são devidamente revisitados. No fim, pouco encontramos da própria D. Maria II, seus amigos, acontecimentos e traços “privados” como seria de desejar numa boa biografia. Será o desprezo pela “pequena história”?
Por um estranho vício, sobreavaliamos por sistema o “jogo” do poder político e seus protagonistas. Fica-nos a faltar aquilo que os molda, e os nós de toda uma teia que transforma a realidade. Quase sempre aparentes “faits divers”.

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Postais blogosféricos

1. A partir de hoje, o blogue Fuga para Vitória fica inscrito na barra lateral do Corta-Fitas, entre outros 99 favoritos cá da casa. Um justo reconhecimento para quem assume ser devoto da eterna Sarah Vaughan...
2. Li este blogue. E gostei.
3. Li também este. E não gostei nada.

Aljubarrota

Num blogue como este, não faria qualquer sentido deixar de assinalar que a Batalha de Aljubarrota se realizou a 14 de Agosto de 1385, num fim de tarde provavelmente parecido com o de hoje. D. João I, o mestre de Avis, e o condestável D. Nuno Álvares Pereira merecem que nunca esqueçamos a data: foi há 621 anos.

P.S. - Já agora, para quem não sabia, existe uma fundação que se ocupa, sobretudo, de não deixar cair a data no esquecimento. Com um conselho de curadores de primeira linha, tudo gente patriótica...

Até a barba deixou de ser grisalha...

No hay problema. O comandante in jefe está a melhorar a olhos vistos, como documenta em rigoroso exclusivo o jornal Granma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano, que imortaliza o momento em que o debilitado Fidel Castro ganhou enfim algum alento. Tudo aconteceu quando o camarada Hugo Chávez, iluminado líder da Venezuela, entrou no quarto do hospital acompanhado de Raúl Castro, o irmão "caçula" de Fidel, que dele recebeu entretanto todos os poderes dinásticos. Logo a energia voltou ao rosto do ditador - a ponto de até a sua emblemática barba ter miraculosamente deixado de ser grisalha, readquirindo o tom que possuía em 1959, quando o filho do proprietário galego Angel Castro assumiu o poder absoluto em Havana para (dizia ele...) pôr fim à tirania.
"Tarde inolvidable entre hermanos", titulou o Granma. A fazer lembrar a primeira "cacha" publicada na edição inaugural do Diário de Notícias, a 29 de Dezembro de 1864: "Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes."

Afinal ela existe

Nuno Severiano Teixeira garante agora que o envio de uma força militar portuguesa para o Líbano será feito em estrita coordenação com o Presidente da República. E disse mesmo isto: "Não posso fazer comentários sobre essa matéria, mas o que posso dizer é que o quadro constitucional existe, a cooperação constitucional existe e é nesse quadro de cooperação que as coisas se farão". Muito interessante.

Jornais e blogues

Curioso que os grandes jornais mundiais não estão de costas voltadas para o fenómeno dos blogues, nem os temem. Veja-se o Libération, o La Repubblica ou a Folha de S. Paulo, só para dar três exemplos.

Bem visto

É óbvio que há nuances entre o que pensa o ministro dos Negócios Estrangeiros, o primeiro a lançar a lebre, o ministro da Defesa, que reforçou e muito o que disse o seu colega de Governo, e o que pensa o supremo magistrado da Nação. Que é também, parece que o Executivo se tem esquecido disso, o comandante supremo das Forças Armadas. Quando um Presidente diz que "é extemporâneo" falar-se neste momento no envio de tropas portuguesas para o Líbano e há dois responsáveis do Governo que não falam noutra coisa, está tudo dito. O que é ainda mais curioso é que quem põe água na fervura, passe a expressão, é o Presidente da República. Quando diz isto: "Como aliás o senhor ministro dos Negócios já teve ocasião de dizer, se essa questão nos for colocada, então será analisada, como tem acontecido com outras solicitações que nos chegam de organizações internacionais de que Portugal faz parte. Mas neste momento é extemporâneo estar já a falar sobre o assunto".
Algumas reflexões: 1) Se a questão nos for colocada, diz Cavaco. Ou seja, o PR não quer ficar fora da decisão, isso é claro como água. 2) Ao dizer que é extemporâneo, o PR diz não só que é cedo como diz que é preciso ter calma na forma como a questão é colocada. 3) Caso muitos não se lembrem, o Governo tem a responsabilidade da condução da política externa, mas é uma responsabilidade que pode ser partilhada com o PR, que não se limita assim a receber as credenciais dos embaixadores, a ir a recepções e a fazer umas viagens. Isso é o que consta da Constituição e o que decorre da prática das relações institucionais entre Governo e Presidente, quando se quer que as ditas relações sejam de cooperação. Caso contrário, é ir à história recente e lembrar casos como Sampaio-Cimeira dos Açores ou Soares-Acordos de Bicesse.

Parafraseando Gertrud Stein

Um ditador é um ditador é um ditador.

Socialismo ou morte (1)

Nenhum governo cometeu uma agressão maior contra o povo de Cuba do que o governo de Fidel Castro – responsável pelo maior êxodo do país de que há memória na história secular desta república. As obras dos exilados Cabrera Infante (leia-se Mea Cuba, um testemunho impressionante) e Reinaldo Arenas estão aí, a atestar a miséria moral do “comandante” Castro, que em 1959, em entrevista à americana CBS, fazia profissão de fé anticomunista e depois condenou a ilha a um regime pró-soviético que sobreviveu à onda libertadora de 1989, submetendo quatro gerações de cubanos à asfixia cívica sob a sua vontade férrea. O patético lema do regime diz tudo: “Socialismo ou morte”. Na ausência de socialismo, num país que voltou a ser o bordel das Caraíbas e o dólar do “inimigo” norte-americano é moeda de uso corrente, resta a morte. De facto, só a morte física do ditador vermelho permitirá aos cubanos que se mantiveram no país (cerca de dois milhões – um quinto da população – partiram desde 1959) concretizar as aspirações à liberdade.

Socialismo ou morte (2)

Nada mais chocante do que ver alguns intelectuais que ganharam fama e fortuna em regimes capitalistas virem a terreiro defender o demencial brado “socialismo ou morte” que Castro impôs ao seu povo. Entre eles, os prémios Nobel Dario Fo, Nadine Gordimer, Wole Soyinka e o inevitável José Saramago, preocupados com “a ameaça crescente contra a integridade” de Cuba, confundindo a nação de José Martí com o decrépito regime e o homem que o pastoreia. Quem nunca levantou um dedo contra as atrocidades cometidas em Havana vem agora em socorro do último ditador do hemisfério ocidental, vítima não de nenhuma “agressão dos Estados Unidos”, como os peticionários referem neste abaixo-assinado promovido pelo ministério cubano da Cultura, mas da inapelável lei da biologia que condena todos os seres humanos à morte física, sem exceptuar os déspotas.
Noam Chomsky, Oscar Niemeyer, Ignacio Ramonet, Alfonso Sastre, Luis Sepúlveda, João Ubaldo Ribeiro e Walter Salles também assinam este documento, de uma pobreza conceptual confrangedora e de um impressionante sectarismo ideológico. A tal ponto que nem Gabriel García Márquez, velho compagnon de route de Castro, o subscreve. Única nota positiva: entre os portugueses, apenas três assinaturas – a de Saramago e dos camaradas Boaventura Sousa Santos e Miguel Urbano Rodrigues, este último aliás residente em Cuba, numa louvável demonstração de coerência. Estivéssemos nos anos 80 e em vez de três haveria trezentos, o que é um inequívoco sinal de esperança. Apesar de tudo, até os intelectuais da nossa esquerda orgânica sabem interpretar os sinais do tempo.

Momentos Kodak (10)

Sanitário oficial no Festival do Sudoeste!
(4 de Agosto de 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

Domingo, Agosto 13, 2006

Se a minha avó tivesse rodas… (crónica)

Rui Tavares no seu curioso “Pequeno Livro do Grande Terramoto”, confronta as teses “deterministas” com as “pirronistas” (ou cépticas) e faz até alguns inconsequentes exercícios teóricos “do que teria sido” se “não tivesse acontecido”. Até põe a fictícia “Amália” a passear pela baixa “medieval” que existiria no séc. XXI se não fosse o Terramoto. E o que seria do Conde de Oeiras se não fosse o fatal evento?
Não sou historiador, mas prossigo atentamente a história do meu lugar e do nosso mundo com curiosidade. Atribuo em parte este gosto a uma necessidade de “aconchego existencial”. E também porque assim vou percebendo cada vez melhor a vida e o presente que me cabe em sorte.
Nestas minhas saborosas férias, já quase liberto das agitadas rotinas urbanas e laborais, intervalo os mornos banhos de mar salgado e mergulho na prometida "bibliografia balnear". Por ora não quero mais saber dos incêndios, da política nacional e sinto asco à malfadada guerra no Líbano.
Ao invés, com as minhas leituras, uma vez mais me "angustio" com a crueldade da arbitrária história e o assassinato de D. Carlos e de D. Luís Filipe, com a decadência das “elites” nacionais, com o “Deus dará” das patéticas e inconsequentes incursões monárquicas.
E, pegando nos exercícios lúdicos de Rui Tavares invento o seguinte cenário: D. Carlos e D. Luís Filipe escapavam ao brutal atentado de 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço… E com uma liderança efectiva da coroa não teria havido lugar à emergência da canalha jacobina no 5 de Outubro. Teria sido posteriormente, já com D. Luís Filipe, a monarquia constitucional devidamente modernizada, a exemplo do que se passava com os restantes estados europeus? Acredito que sim.
E depois, duas questões oportunas: neste quadro, sem o caos da 1ª república, o que é que justificava Oliveira Salazar? E assim importávamos uma guerra civil de Espanha? E os projectos coloniais para Angola de Henrique Paiva Couceiro teriam lugar?
Que "bater de asa" de uma qualquer borboleta na China nos teria desviado de tantos fados a que temos sobrevivido?

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Um cérebro sem coração

Palácio do Planalto: uma tremenda desilusão. Visto nas fotografias e nos telejornais, parece uma obra imponente. Visto ao vivo, de perto, por dentro, parece uma insignificância na grandeza sem escala de Brasília. Aliás, toda a obra emblemática de Oscar Niemeyer na capital brasileira, de uma impressionante fotogenia, perde no confronto directo com a realidade. Talvez porque falta a Brasília uma gama de condimentos que as mais deslumbrantes cidades do planeta possuem: coração, nervo, alma e os sonhos plasmados de sucessivas gerações de habitantes. Fundada em 1960, a urbe do futuro imaginada por Kubitschek é cerebral até à medula. Daí a sensação de distância que transmite aos visitantes desembarcados da Europa, onde apesar de tudo cidade ainda é sinónimo de vitalidade e calor humano.

Com dedicatória

(Bem sei: é melhor ouvi-la e dançá-la ao vivo, no Carioca da Gema, nas noites quentes da Lapa carioca. Mas fica aqui como inconfundível recuerdo do Brasil, a ecoar neste lado do Atlântico...)

Quem te viu, quem te vê

Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
Você era a favorita onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala mas a festa continua
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua

Hoje o samba saiu, lá lalaiá, procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer

Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia

Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você me assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade por favor não dê na vista
Bate palma com vontade, faz de conta que é turista

(Chico Buarque)

Portugal visto do Brasil

Noite adiantada em Brasília. No quarto do hotel, ligo a TV Cabo brasileira. Vou saltando canais, aparece-me a SIC Internacional com um programa de anedotas indigentes e boçais. Diz o fulano que apresenta aquilo, pretendendo ter graça: “Qual é a diferença entre os homens e os animais mais a Carla Matadinho? É que uns andam vestidos e outros não.” Parece mentira, mas é verdade: foi esta a primeira imagem de Portugal que me chegou ao Brasil.

Uma cidade estranha

Primeira imagem colhida do Brasil, nesta minha estreia na América do Sul: Brasília vista do céu. Estranha cidade esta, implantada no meio do nada. Meio século depois do sonho visionário de Juscelino Kubitschek de Oliveira, talvez o mais amado dos presidentes brasileiros, a capital espraia-se por uma distância impressionante no cenário ilimitado do vasto Planalto Central. Terra barrenta, vermelha, sequiosa – a lembrar as grandes planuras africanas. Também o cheiro que sentimos ao desembarcar recorda África. E a temperatura ambiente: mesmo sendo “Inverno” no Brasil, o sol brilha com força, tornando apetecível a mínima nesga de sombra.

Postais blogosféricos

1. A minha dama preferida da blogosfera, Miss Pearls, merece parabéns pelo primeiro aniversário. Não estive cá para a festa, mas deixo-lhe aqui os cumprimentos que merece. Com uma imagem a condizer, em jeito de prenda.
2. Parabéns também ao Miguel Castelo-Branco pelo aniversário do Combustões, um blogue que leio cada vez com mais prazer.

Sábado, Agosto 12, 2006

Frases para a vida

O André Moura e Cunha anda a publicar no seu excelente blogue as cem melhores frases de abertura de obras de ficção de todos os tempos, eleitas pela revista American Book Review. “Tratem-me por Ismael”, a frase inicial de Moby Dick, de Herman Melville, figura num discutível primeiro lugar. Lá surge, na quarta posição, o célebre arranque dos Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: «Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.» (Tradução portuguesa: Margarida Santiago).
Se eu tivesse de votar, talvez elegesse esta. Ex-aequeo com outras duas. As frases de abertura d'O Estrangeiro, de Camus: “Hoje, a mãe morreu.” (Tradução de António Quadros). E d'A Metamorfose, de Kafka: “Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto.” (Tradução de João Crisóstomo Gasco).
Frases geniais, que nos agarram logo à primeira vez que as lemos. Aconteça o que acontecer, acompanham-nos nas encruzilhadas da vida. E voltamos a elas nas ocasiões mais inesperadas. Como se fizessem parte de nós para sempre.

Mulheres

Perguntam-me pelas mulheres brasileiras. Neste capítulo só posso dizer que gostei de conhecer a Diana, a Estela e a Susana. Também gostei de rever a Bárbara, a Vera e a Sónia. Mas continuo sem poder responder à questão: nenhuma delas é brasileira.

Regresso

Estive uns dias no Brasil, voltei hoje. Calma, que já conto alguma coisa.

Um novo Fidel?

Depois da inacreditável crónica de Ruben de Carvalho no DN de quinta-feira, sobre a qual escrevi o post "O Hezbollah é de esquerda?", sei agora através da leitura de Alberto Gonçalves, na Sábado (que tem também um óptimo editorial sobre a forma como os jornalistas estão a cobrir o conflito no Líbano), que Miguel Urbano Rodrigues esteve no Irão e fartou-se de encontrar aspectos positivos, que relata no Avante muito ao estilo das crónicas de viagem que se faziam outrora sobre visitas a paraísos comunistas como Cuba, RDA ou Roménia. Ou, noutra linha, à China ou à Albânia. O ódio à América, que já tinha motivado Fernando Rosas a defender o programa nuclear iraniano, partilhado entre a esquerda portuguesa e fundamentalistas xiitas, começa a ter consequências delirantes.

Troca de informações

"A PJ e o SIS vão passar a actuar em conjunto no combate ao terrorismo, através da troca sistemática e rotinada de informações, com regras e protocolos a definir pelo Governo. O novo diploma está a ser discutido no interior do Executivo, desde o início do ano, e só falta José Sócrates marcar a data da aprovação em Conselho de Ministros". In Expresso

Então e até aqui os dois serviços funcionavam como? Sem troca de informações? De costas voltadas? Sinceramente... às vezes penso que este País, tal como está, não existe. E se existe ao menos que faça prova de vida.

Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Re: Sexta

O Nuno Sá Lourenço pediu-me para responder às "morenas à sexta". Não, não vou responder. Mas encontrei aqui uma possível resposta. Daí esta foto do nosso PM, praticante de jogging, a qual, aposto que as jovens brasileiras não se ensaiariam a candidatar ao top de fotografias masculinas da Sports Illustrated. E que elogio vindo do Brasil!

Bilhete postal do Sudoeste

Na fotografia, vista do quintal. (É o rio Mira!)

Com as idas e vindas das praias, do "Rio" ao "Malhão", miúdos para trás e miúdos para a frente, pão quente ao pequeno-almoço, cerveja fresca ao fim da tarde... Uma vez mais a “família pipocas” está de férias em Milfontes.
Com amizade,

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Cavaco sobre o Médio Oriente

Hoje damos uma ajuda ao excelente Bloguítica para resolver esta questão que o tem apoquentado, assim como a alguns dos nossos leitores. Foi ao 31.º dia...
Quem achava que o Presidente da República, Cavaco Silva, ainda não se tinha pronunciado sobre a questão do Médio Oriente e a crise entre Israel e o Líbano, enganou-se. Pode não ter ido muito longe - nem tem que o fazer, porque isso caberá ao MNE e, no limite, ao primeiro-ministro -, mas o facto é que o Presidente disse o que pensava sobre o escalar do conflito. Mas um PR não é um comentador de política nacional e internacional, para isso já bastam alguns conselheiros que o fazem e em prime-time. Agora, ninguém o impede de ter opinião: "É muito, muito perigoso para o mundo. O nível de conflitualidade que se atingiu no Médio Oriente é seriamente preocupante e espero bem que rapidamente a comunidade internacional faça sobre as partes a pressão necessária para que se volte às negociações".
"Os países do G-8 vão reunir-se e espero que seja posta aí a pressão para pôr termo a esta escalada de guerra", disse ainda o PR no dia 14 de Julho, de comboio a caminho do Algarve. E com os jornalistas por perto, como se pode atestar aqui e ali.
Pode ter sido pouco ou muito, preto ou branco, mas falou. Pode é não ter tido o eco que muitos desejariam.
E por hoje, Paulo, cessamos aqui as nossas "hostilidades", não?

Respeitosos cumprimentos do seu leitor atento,
FAL

Sexta

Depois de muitas pressões que sofremos por parte do Nuno, que quer impor as morenas à sexta-feira, eis Fernanda Motta, fotografada para essa bíblia que se chama Sports Illustrated.

Sopro

Sobre o que li aqui, algumas "notas telegráficas":
1) O PR não foi informado, ponto. E isso é notícia. Deveria ter sido? Julgo que sim, independentemente do que você diz e eu também escrevi. A matéria é da exclusiva competência do Governo. Mas do MNE. Então não se compreende porque razão o Ministério da Defesa foi posto ao corrente e o comandante supremo das Forças Armadas, o Presidente, fica a ver navios e não é informado. 2) A "coisa", como o Paulo Gorjão diz, é mesmo dinâmica e tende a ficar cada vez mais... 3) Sopros há muitos, de muitos lados, mas desta vez você enganou-se redondamente. O "detector de spin" não é a pilhas, pois não? Se for, recomendo umas alcalinas.

Respeitosos cumprimentos do seu leitor atento,
FAL

Jornalistas e assessores

Chegou a vez do Francisco sentir na pele os efeitos de uma discussão que, de tempos a tempos, se instala entre jornalistas. A passagem de um jornalista 'para o outro lado'.
Meto-me ao barulho, porque, como o Francisco sabe, estranhei a sua opção. Não por achar errado ou indigno. Não acho que essa profissão seja indigna. Simplesmente, não pensava que esse tipo de trabalho o atraísse.
Para mim, o cerne da questão não está na ida de jornalistas para as assessorias de imprensa. Está no regresso aos jornais.
Há quem ache que esse regresso se pode fazer como se nada tivesse acontecido. Que o ex-assessor, agora jornalista, vai conseguir fazer o seu trabalho de forma imparcial.
Eu acho isso difícil. Acho humanamente difícil que uma pessoa que trabalhou durante anos com outra, estabelecendo uma relação de amizade e proximidade, seja depois capaz de tratar noticiosamente essa pessoa de forma imparcial.
Acho inevitável que, mais tarde ou mais cedo, o jornalista se veja perante um dilema deste tipo. Parece-me inevitável que o jornalista tenha que passar o resto da sua carreira a combater a tentação para relativizar, vitimizar ou desculpar.
Para mim, a transferência para a assessoria de imprensa é uma mudança de carreira. Perfeitamente legítima. Mas no caso de um jornalista deve ser devidamente ponderada. Porque me parece um caminho sem retorno.

British born

"Não estamos perante vítimas sem defesa de uma 'globalização' cruel. Estamos perante gente sofisticada, que o Ocidente educou e deixou crescer". Vasco Pulido Valente, in Público

Com a devida distância, era isto que eu queria dizer ontem, quando escrevi isto. Esta tentativa de atentado muda tudo. Se bem que em ocasiões anteriores também já tenham estado envolvidos naturais dos países alvos dos atentados, nunca como ontem em Inglaterra isso ficou tão claro. Para além disto, os meios são outros, envolvem licenciados em química, com conhecimentos técnicos muito acima da média. Li hoje no Público que os dispositivos até poderiam ser accionados a partir de um i-Pod ou de um MP3 e li no DN que os explosivos usados são resistentes à água, portanto não detectáveis nos controles dos aeroportos. Seja pelas máquinas ou pelos cães. Aquilo não tem cheiro. Este é um tipo de terrorismo sem cheiro, mas com consequências que podem ser devastadoras se não se investir - como os ingleses têm feito - na prevenção e na investigação.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Actualidade

Esta música, salvo as óbvias diferenças, ganha cada vez mais actualidade à medida que as hostilidades continuam no Médio Oriente. Sting escreveu-a em plena Guerra Fria. Mantém-se actual.





In Europe and America, there's a growing feeling of hysteria
Conditioned to respond to all the threats
In the rhetorical speeches of the Soviets
Mr. Krushchev said we will bury you
I don't subscribe to this point of view
It would be such an ignorant thing to do
If the Russians love their children too

How can I save my little boy from Oppenheimer's deadly toy
There is no monopoly in common sense
On either side of the political fence
We share the same biology
Regardless of ideology
Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too

There is no historical precedent
To put the words in the mouth of the President
There's no such thing as a winnable war
It's a lie that we don't believe anymore
Mr. Reagan says we will protect you
I don't subscribe to this point of view
Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too

We share the same biology
Regardless of ideology
What might save us, me, and you
Is that the Russians love their children too

Born in the UK

As notícias de hoje não são boas. Acordei de manhã com a informação de que a Scotland Yard e o MI5 (who else?..) tinham desmantelado um plano terrorista para deitar abaixo entre dez a vinte aviões. Todos os aeroportos ingleses estão agora sob vigilância apertada. A polícia britânica diz que a ideia dos terroristas já presos - "de origem paquistanesa" na maioria, segundo dados inicialmente divulgados - era provocar explosões nos voos entre a Inglaterra e os EUA. Os ingleses adiantam também que o objectivo era provocar "mass murder on an unimaginable scale". O pior voltou. O mundo está outra vez em estado de pânico, Tony Blair acompanha o assunto com preocupação a partir das Caraíbas, onde está de férias, mas desta vez o tema tem nuances. É que os 21 detidos, "de origem paquistanesa", são quase todos british born. E isto muda tudo. Muda a maneira como olhamos para o terrorismo internacional, para os culpados de sempre, para os alvos mais óbvios. Estes alvos, agora, estão dentro das nossas fronteiras. Vivem por aí, respiram o mesmo ar, têm até alguns dos nossos hábitos. Mas não os mesmos valores e crenças. Por isso, muda também a maneira como temos de pensar as políticas de imigração e, sobretudo, as de integração. Senhor Blair, dê um mergulho nessas águas límpidas e enquanto bebe um gin tónico pense nisto tudo. Eu era para dar um salto a Londres este Verão e já não vou. Fico por cá, porque, por enquanto, os "paquistaneses" que andam por aí em Lisboa só nos rebentam a cabeça para que lhes compremos flores nos restaurantes e bares.

P.S. - A fotografia de Blair foi tirada não nas Caraíbas ou nos Barbados, onde esteve no ano passado, mas quando teve como anfitrião Silvio Berlusconi há dois anos. Numa mini-cimeira caseira.

O Hezbollah é de esquerda?

Leio hoje a crónica de Ruben Carvalho na última página do Diário de Notícias e fico estupefacto com o tom de satisfação com que ele regista a "ineficácia" militar dos israelitas contra o Hezbollah. É triste ver a esquerda portuguesa (toda, ou só o PCP e o BE?) a alinhar com o Partido de Deus, xiita e fundamentalista, que tem por grande objectivo destruir Israel. Até que ponto de indigência intelectual pode levar o ódio cego contra os americanos e os seus aliados?

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Boas novas

A saída de Co Adriaanse do cargo de treinador do FC Porto, motivada pela nega de Jorge Nuno Pinto da Costa à contratação de um tal de Hesselink, ameaça ser a melhor notícia do dia. Esta novidade, a juntar à excelente campanha que Fernando Santos tem feito no outro clube da Segunda Circular, faz do Sporting de Braga (com quem o Sporting empatou há dias 1-1, um resultado injusto) o nosso principal adversário para o campeonato que se avizinha.

Crise

Quase tudo o que precisa ser dito e pensado sobre a crise está neste post do Paulo Gorjão. Excelente leitura para reflexão.

Apoiar Rui Rio (II)

Aqui há uns tempos, escrevi um post a dizer que era preciso apoiar Rui Rio e, tal como já estava à espera, levei com uma data de comentários contrários, alguns deles vindos de pessoas que julguei mais lúcidas, acompanhadas de uma série de insinuações sobre o carácter e até a honestidade do homem. Pois bem, hoje eu repito: é preciso que as pessoas que têm uma determinada visão do modo como a sociedade portuguesa deve evoluir, que estão cansadas de verem os políticos contemporizarem com interesses instalados que só atrasam o país, que estão fartas de verem políticos com medo do que dizem jornalistas e comentadores, apoiem gente como Rui Rio. Por ele ser perfeito? Claro que não. Fez asneira naquela história de só atribuir verbas às instituições culturais que não criticassem a autarquia. Mas perdoo-lhe facilmente e fico até do lado dele quando o vejo ser acusado de "fascista" e patetices do género po causa disso. Porque não há nada que se compare com o gozo que me dá ver uma série de figuras da nossa cultura, e os seus amigos jornalistas e opinion makers, ficarem à rasca só porque Rui Rio decidiu passar o Rivoli para a gestão privada e, assim, tal como ele explicou num artigo no último Expresso, insuficientemente citado, poupar-nos algo como 1500 contos de prejuízo diário. Pode discutir-se politicamente qual o grau de intervenção dos poderes públicos na área da cultura e eu aceito até que haja pessoas honestas que acreditem que ele deva ser grande. Mas eles também têm que aceitar que, tal como acontece em muitos outros países, haja gestão privada de equipamentos culturais como o Rivoli e que pessoas como Rui Rio a possam propor sem serem insultadas.

Terça-feira, Agosto 08, 2006

Verde mais verde...

Chamaram-me a atenção para este post do João Caetano Dias no Blasfémias. E diga-se que, depois o ler, fiquei com a leve sensação de que o nosso blogue até é de um sportinguismo muito moderado...
Por isso, quero questionar o que li hoje no jornal A Bola online. No site daquela instituição li isto e não pude deixar de ficar estupefacto: "Douala tem ainda três semanas para decidir o seu futuro mas antes de terminar o prazo para poder atingir aquilo que tem sido o seu grande objectivo, a transferência para um clube de referência, o jogador camaronês reafirmou esta manhã que «o mais certo é manter-se no Sporting»".
Para além do português, que deixa muito a desejar em relação ao que se praticava no jornal dos velhos tempos, gostava de saber o que se entende ali por "clube de referência"!? Será o Middlesbrough, para onde o jogador anda a tentar transferir-se há pelo menos um ano e que há pouco tempo levou uma tareia do Sporting para a UEFA? O que se terá passado pela cabeça do autor do texto, que não percebe que num clube de referência já o Douala está!? Ele tem é de jogar para tentar um lugarzinho no banco.

Morenas, Pum!

Este é o meu manifesto. Tenho notado um exagerado predomínio de loiras neste blog. Uma situação à espera de ser rectificada. Assumo a tarefa porque a minha vida sempre foi dominada por morenas. É nelas que respiro a força da natureza. Escolho a Sandra Bullock como exemplo, numa foto tirada para uma edição da Esquire que ainda guardo lá em casa. Vivam as morenas, pum!

Claro como água

Leio no 24 Horas, esse must, que as vendas da Água das Pedras com sabor a melão e hortelã dispararam e que estão acima da média geral. Segundo o jornal, "os 95 centímetros da modelo ajudaram na promoção". Quem viu o anúncio sabe do que estou a falar.
Agora, isto leva-me a pensar o que é feito da água pura e dura. Daquela que é só água. Hoje em dia não há bicho careta que não peça uma destas águas com sabor a framboesa, morango ou limão.
Eu, confesso, não suporto a água com sabores. Com sabores só os sumos. Água, para mim, só do Luso ou Serra da Estrela. Ou então da torneira (que às vezes também tem sabor). Também gosto de Água das Pedras só com uma rodela de limão - mesmo os copofónicos já não sabem que o whisky não se bebe com água das pedras, mas sim com Água Castelo (ou água lisa).

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Cinquenta mil

Faltam poucas horas para recebermos o visitante nº 50 mil. No preciso dia em que este blogue assinala seis meses de vida. Tivemos mais de 155 mil consultas de página neste mesmo período. E nem o Verão nos tem prejudicado muito a audiência, que ronda os 400 leitores por dia. Estamos mais animados que nunca, vamos continuar a cortar fitas com a mesma energia de sempre.

Uma nódoa

Um transexual brasileiro, vivendo no Porto, foi insultado, enxovalhado, agredido, apedrejado e no fim deitado a um fosso de um prédio inacabado por um bando de 13 energúmenos que assim o deixaram morrer. Os energúmenos tinham entre 13 e 15 anos, razão que levou o tribunal a “condenar” 11 deles a “penas” entre 11 e 13 meses de “confinamento em centros educativos, em regime semiaberto”, recebendo os outros dois a “pena” de “acompanhamento educativo” por 12 meses. Tudo por aquilo a que o juiz do Tribunal de Menores do Porto define espantosamente de “brincadeira de mau gosto”.
Esta sentença é uma nódoa, que devia envergonhar toda a justiça portuguesa. Os gestos obscenos que os criminosos fizeram à saída do tribunal, aliás, dizem tudo sobre o desfecho deste caso. Obsceno, todo ele – do princípio ao fim.

Os intelectuais no mundo contemporâneo

Escreve Manuel Vicent, no El País de ontem: Albert Camus "era um escritor profundamente moral que soube perceber em devido tempo que o compromisso [do escritor] deve ser com os que sofrem a História, não com os que a fazem".
É esta a questão, que o raro exemplo de Camus tão bem ilumina: os intelectuais, testemunhas privilegiadas de qualquer época, deixam-se cegar excessivas vezes pelas luzes da ribalta política, esquecendo quantos sofrem na penumbra dos bastidores, no pó das ruas ou nas ruínas ainda fumegantes dos conflitos bélicos. Estar com os que suportam injustiças impostas por todas as cores e todos os credos devia ser um imperativo ético de qualquer intelectual. São cada vez menos, no entanto, os que mantêm a "profissão de fidelidade à literatura de escombro", de que nos falava Heinrich Boll, que também fez questão de estar sempre - como Camus - no sítio certo. "As pessoas sobre as quais escrevemos viviam nos escombros, vinham da guerra, homens e mulheres igualmente feridos, crianças também... e nós, os escritores, sentíamo-nos tão próximos delas ao ponto de nos identificarmos com elas", sublinhava em 1952 o grande autor alemão, galardoado vinte anos mais tarde com o Nobel da Literatura.
Quantos escritores hoje seriam capazes de afirmar o mesmo?

Paridade para cinco anos

Cavaco Silva promulgou hoje a segunda versão que o PS cozinhou para uma Lei da Paridade. A partir de agora as listas eleitorais terão de ter um mínimo 33% de mulheres (ou homens). Caso contrário, em vez de multas, o Estado vai à caça das subvenções estatais. A esquerda deve rejubilar neste momento, mas a verdade é que creio que o Presidente da República só promulgou para não haver crispação com o partido da maioria, visto que a questão sancionatória fica resolvida. E porque, sobretudo, a lei é revogável qualquer um destes dias - e isso deve deixar o centro-direita mais descansado. Não se conhece nenhuma nota do Presidente sobre a promulgação, nem tem de a fazer, mas para mim a razão principal para a lei não sofrer novo veto centra-se no artigo 8.º, sob o título "reapreciação": "Decorridos cinco anos sobre a entrada em vigor da presente lei, a Assembleia da República avalia o seu impacto na promoção da paridade entre homens e mulheres e procede à sua revisão de acordo com essa avaliação". Alguém tem dúvidas de que um novo veto a esta lei só está adiado no tempo, cooperação institucional oblige? Resta saber se será o próprio Cavaco Silva, que em situação normal nessa altura estará já na fase da reeleição, a reapreciar a utilidade das quotas. Alguns, como Marcelo e Durão, pensam que não. O primeiro deu o tiro de partida ao Expresso, este fim de semana, e teve o requinte de falar nos dez anos que faltam para cumprir o sonho (que antes era, desde pequenino, São Bento), embora secretamente pense e reze para que sejam só cinco. O segundo vai mandando recados pelos seus vários emissários políticos, cada vez melhor colocados, e gerindo a vida pós-Bruxelas. Mas isso já é outra conversa.

Domingo, Agosto 06, 2006

O pecado mora ao lado

Fez ontem 44 anos que Marilyn Monroe morreu. Não era um “número redondo”, mas foi quanto bastou para a efeméride ser assinalada em todo o mundo – e levou até, entre nós, a sisudíssima RTP2 a exibir um enésimo “ciclo Marilyn”. Como se fosse necessário um pretexto destes para pôr em antena obras-primas como Niagara, Os Homens Preferem as Louras, Quanto Mais Quente Melhor ou Os Inadaptados. Tantos anos depois, qual o segredo para tanta celebridade póstuma? É fácil explicar: ao morrer prematuramente, no apogeu da beleza, Marilyn perpetuou o mito da eterna juventude. Ela, como James Dean, entrou sem uma ruga na eternidade. “Viver depressa, morrer novo, ter um bonito cadáver” – alegado lema de Dean, intemporal arauto do excesso de velocidade – tornou-se uma espécie de ideal revisitado às avessas nos nossos dias, em que tanta sexagenária e tanto cinquentão se exibem em páginas de revista com o ar intocável de quem mal dobrou o cabo da adolescência. Nunca como hoje o comércio de ilusões associado à vontade de renegar o envelhecimento esteve tão próspero. Viver de falsas aparências é uma das mais inequívocas bandeiras desta época de narcisos sem causa, que regressaram à contemplação do próprio umbigo após o naufrágio de todas as utopias.
E no entanto, cada vez mais perto de nós, há quem continue a viver depressa e a morrer jovem – não por opção existencial mas pela trágica marca do destino, que teima em restituir-nos os cavaleiros do Apocalipse ao ritmo frenético de cada imagem de telejornal nos abismos do inferno do Médio Oriente ou do continente africano.
Os cadáveres, nessas imagens, nunca são bonitos. É por isso que regressamos ciclicamente a Marilyn e a James Dean. Com eles em reprise contínua no ecrã das nossas vidas, o pecado mora sempre ao lado.

A palavra ao leitor

Esta posta que aqui deixei há dois dias, sobre o desaparecimento progressivo da caricatura política na imprensa portuguesa, suscitou na caixa de comentários do Corta-Fitas um interessante conjunto de reflexões do José Bandeira, um dos nossos melhores cartunistas. É útil que estas reflexões fiquem acessíveis a um maior número de leitores cá do blogue, o que me leva a transcrevê-las aqui. Com a devida vénia e um abraço ao Bandeira, que não é só bom a desenhar - é também bom a escrever. Nota: o "boneco" aqui reproduzido é um cartune de Angeli - originalmente publicado no jornal brasileiro Folha de São Paulo - que figurava no meu texto que esteve na origem desta réplica:

"1. O cartune português não é menos acutilante que o brasileiro; é a situação política que é diferente. A única semelhança que consigo ver entre Lula e Sócrates é que um usa barba e o outro está de férias. Das condições políticas que os rodeiam, nem vale a pena falar. A «qualidade» da situação política é fundamental para gerar bons cartunes. Exemplos: a queda da URSS, o 11 de Setembro, as duas guerras do Golfo, quando D. Duarte Pio disse a palavra «merda», o dilema de Sampaio, PSL, PSL e PSL. Sócrates é muito pouco caricaturável; Cavaco, sendo facilmente caricaturável, não fez ainda nada que justificasse grandes rasgos de humor. Lá chegaremos, lá chegaremos.
2. Na verdade, os cartunistas portugueses – sobretudo os que não têm carreiras de 20 anos que lhes dêem a protecção do nome – até têm razões de sobra para receios: a sua situação laboral é sempre precaríssima, sujeita a dispensa ao primeiro excesso ou à primeira mudança de director. A protecção legal é praticamente inexistente e depende exclusivamente da solidariedade da direcção. A excepção ao recibo verde era precisamente o meu bom amigo Onofre Varela, que tinha um contrato de trabalho – mas apenas porque também era gráfico, note-se (foi dispensado, há alguns anos, do jornal onde trabalhava com uma indemnização). Isto não significa que os cartunistas, por muito filhos que tenham para criar e casas para pagar (os que conseguiram levar o banco a crer que eram pessoas de bem), não façam o seu trabalho sem receios. A maior parte é meio passada e está-se nas tintas para a segurança no trabalho. Em suma, quem tem medo tem à escolha outras carreiras mais agasalhantes que a de cartunista.
3. O caricaturista não decide do destaque que o seu trabalho tem ou não num jornal: esse é um critério puramente editorial. Note-se, a propósito, que Rafael dirigia os jornais para onde desenhava.
4. As reacções mais virulentas, nos dias que correm, vêm da «sociedade civil», sobretudo quando se fala de religião, aborto, homossexualidade e temas afins; e não dos políticos, que de há dez, quinze anos a esta parte aprenderam a conviver com o humor político (a contragosto, é certo, mas aprenderam).
5. Cada cartunista tem o seu estilo próprio. No Brasil também os há para todos os gostos. O Sam e o seu Guarda Ricardo, por exemplo, jamais teriam tido o sucesso que tiveram se a bitola fosse apenas a da agressividade. Claro, há sempre quem esteja disposto a ver boçalidade onde outros vêem acutilância, e elegância ou subtileza onde outros não vêem senão pusilanimidade.
6. Para concluir: shit happens. Descendente que é (diz-se) de um antepassado comum aos humanos, o cartunista passa por períodos de maior e menor inspiração e qualidade, assim como de maior ou menor agressividade. Acontece a todos, não é assim?"
José Bandeira

Moinhos de vento

Dois em um...

Foto: José Carlos Carvalho

Sábado, Agosto 05, 2006

Não apaguem a memória

"Quanto a Salazar, filho e protegido da Igreja, prendeu, torturou e matou (não tanto como se alega e não tanto com certeza como a I República). O que não faz dele um fascista. No Estado Novo não houve um partido (a UN não passava de pequeno grupo de "notáveis"), nenhuma tentativa séria para arregimentar e militarizar a sociedade, belicismo ou racismo. Houve uma ditadura reaccionária e "antimoderna", que isolou Portugal e o conservou numa ancestral miséria.

Vasco Pulido Valente, Público, 5 de Agosto, 2006

As palavras dos outros

"Por que tanta pesquisa para saber quem vai ganhar a eleição? A maioria sempre sabe (tanto que vota no candidato que ganha)."
Millôr Fernandes

Gosto muito

Das crónicas inigualáveis - na forma e no conteúdo - de Francisco Umbral, um dos melhores prosadores da Espanha contemporânea. Só por elas já vale a pena comprar o El Mundo todos os sábados.

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

Sexta-feira (para ser lido com um sotaque doce)

A pedido de muitos leitores e respectivas famílias, aqui vai: Ana Beatriz Barros. Faz todo o sentido este pequeno registo do nosso país-irmão, até porque parece que na próxima terça-feira parte uma comitiva importante para o Brasil. É o nosso primeiro-ministro, acompanhado de quatro ministros e uns tantos ajudantes. É impressão minha ou no Brasil vive-se agora em plena campanha eleitoral para as presidenciais? Será de bom tom haver encontros ao mais alto nível enquanto Lula se debate com tantas dificuldades?

Onde param os cartunistas?

O Francisco perguntava aqui onde param as feministas. Excelente questão. Pois apetece-me perguntar também onde param hoje os cartunistas políticos com as suas caricaturas carregadas de humor corrosivo e de verve satírica. Desde o tempo do rei D. Carlos que existe em Portugal a saudável tradição de criticar os (maus) costumes políticos através do desenho - uma tradição que nem a longa ditadura de Salazar fez desaparecer. Subitamente, nos últimos tempos, os hábitos mudaram. Alguém se lembra de um bom cartune do Presidente Cavaco? Ou do primeiro-ministro Sócrates? Os nossos caricaturistas políticos terão emigrado?
Este é um dos muitos motivos que me faz sentir inveja do Brasil. Lá, ao contrário de Portugal, a caricatura está viva e recomenda-se. E cartunistas como o fabuloso Angeli, na Folha de São Paulo, não receiam fazer dos políticos o tema dominante dos seus trabalhos (como bem se verifica pelo que aqui se reproduz, com a devida vénia). Um óptimo exemplo que bem gostaria de ver seguido cá nestas bandas.

A guerra tal como ela é

Pelo menos, para um dos lados. Na Guerra do Iraque os 'mancebos' americanos levaram para o deserto as câmaras com que antes do 11 de Setembro filmavam "back home" os aniversários, os jogos de basebol e as férias. O resultado são depoimentos horripilantes, pela sua honestidade. A forma como eles olham para os iraquianos, o que fazem quando encontram uma cabeça decepada na estrada, as discussões sobre a verdadeira cor de um intestino. A mulher a dizer que o seu marido já não é o mesmo homem desde que voltou... No meio de tudo isto, um apontamento curioso. A dada altura, os 'National Guard' divertem-se com uma luta entre uma aranha e um escorpião. Tal como os soldados romanos o faziam há milhares de anos. Com apostas e tudo. A tecnologia muda, o homem não. Vejam.

A propósito de semântica

Recordo Hannah Arendt: "Não há verdade que não seja instrumentável ideologicamente"

Onde é que param as feministas?

Aconselho a leitura deste post do Carlos Leone, no Esplanar. E acrescento à lista dele isto: Já viram aquele anúncio em que aparecem umas raparigas em grupo numa praia e que, ávidas por uma cervejinha, desafiam uns rapagões para um jogo de vólei na areia? Resultado final: Elas tiram a parte de cima do biquini e ficam a emborcar umas cervejolas na praia com os rapazes. Onde é que está o nexo disto? E, já agora, como diz o meu amigo Leone, onde param as feministas?

Resistentes sim, dissidentes não

Não percebo por que motivo o termo "dissidente" continua a ser usado no discurso jornalístico para classificar os opositores da ditadura cubana. Noutras ditaduras, de sinal contrário, os opositores merecem outro qualificativo: são resistentes...
Nestas coisas, a semântica não é de somenos. Quem disside, foge da normalidade - como se tivesse distúrbios psicológicos. Quem resiste ao arbítrio de tiranos, ascende a um dos mais elevados patamares éticos. Os corajosos opositores à tirania dos irmãos Castro não merecem que lhes chamemos dissidentes. Contra ventos e marés, eles resistem. Não desvirtuemos com uma palavra imprópria o valor da sua luta.

Ovelha negra

Leio a crítica de João Pedro Oliveira no DN. Relembro a razão porque me recusei a dar 60€, para poder sentar-me na única zona onde - previsivelmente - conseguiria ouvir Caetano Veloso. Alguém que lá esteve disse-me que se sentou ao lado da «elite», elencando-me em seguida os respectivos e reconhecíveis nomes.
Acontece que eu nunca gostei(s) da elite(s). Cuspi, aliás, na sopa que me deram a provar. Recusei dois convites para a Opus Dei e outros dois para a Maçonaria. A mensagem era comum: «São as elites que governam, que mandam, que decidem». Com 17 anos, sentei-me com mais 29 numa apresentação aos alunos do Propedêutico de Direito na Universidade Católica. Estávamos ali sem saber porquê. Na lista de admissão não havia, nessa altura, notas. Apenas nomes. E ouvi: «Vocês são a elite das elites». Embasbacado, olhei em volta para ver se mais alguém achava aquilo delirante. Não me pareceu.
Não sou monárquico, sou aristocrático. Estou-me marimbando para as nossas elites e quanto mais cresço mais comprovo que com elas nunca fomos, nem iremos, a lugar algum. Gosto do Povo, com pê grande. E é com ele que Portugal será, ou não, alguma vez alguma coisa em que se acredite.
Não tenho veleidades a pastor nem paciência para carneiro. Em suma, um dia destes terei que mudar de País.

Its only rock n’ roll, but I like it!

Ainda a propósito da minha posta de 30 de Julho sobre o álbum The Lamb Lies Down on Broadway, acabo de descobrir esta pérola: a banda de Peter Gabriel, (imagino que por volta de 1977) a “desbundar” esse mesmo tema dos Genesis.

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Yes, what's so funny about...

Peace, Love and Understanding?

O descanso do pacifista

Finalmente vou de férias.
Esta vai ser a vista da minha janela. Se alguém adivinhar onde fica, ofereço-lhe «A Morte de Artur» (Sim, os dois volumes!). Um abraço a todos, um beijo a cada uma e até dia 21.

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

Primavera de 1987. But very up to date

The death of a disco dancer
well, it happens a lot'round here
and if you think Peace
is a common goal
well, that goes to show
just how little you know
The death of a disco dancer
well, I'd rather not get involved
I never talk to my neighbour
I'rather not get involved
Love, peace and harmony?
Love, peace and harmony?
Oh, very nice
very nice
very nice
very nice
...but maybe in the next world


words Morrisey music Johnny Marr

Inverno no Verão

Na sufocante noite de Verão, o contraste não podia ser maior: ouço com o deslumbramento de sempre o "Inverno", das Cuatro Estaciones Porteñas, do eterno Astor Piazzolla. Não conheço tema musical mais pungente. Nem mais belo.

Postais blogosféricos

1. O atento El Ranys, na Revisão da Matéria, fornece uma imagem do Sporting bem diferente daquela que o nosso José Carlos Carvalho aqui deixou. Vale a pena comparar.
2. Novas adições à nossa barra lateral: Balbec, Combustões e O Sexo dos Anjos.

La barrera de fuego, la frontera*

ZARAGOZA. Ayer salieron de la factoría zaragozana de General Motors en Figueruelas los primeros coches del nuevo Opel Corsa, la cuarta generación de este modelo (...) El lunes volvieron al trabajo los 7.500 empleados de esta fábrica, después de tres semanas de vacaciones. (ABC)

Do outro lado, parece viver-se melhor. Deve ser impressão minha. Afinal, a economia espanhola só cresceu 3,6%.

*Com os agradecimentos aos GNR.

Sinais dos tempos

Chama-se Coup de Boule e é uma música sobre a cabeçada que o capitão da selecção francesa, Zinedine Zidane, deu ao italiano Marco Materazzi na final do campeonato do mundo. Muitos receberam o vídeo na caixa de e-mail, mas o que muitos outros não esperavam (onde me incluo) era que a musiquinha virasse um estrondoso hit, número um do top em França, com mais de 60 mil cópias vendidas e um contrato assinado com a Warner Music.
De facto, vivemos tempos novos, onde o kitsch e o nonsense de hoje podem ser grandes sucessos amanhã. O mercado das massas, acéfalo dá para isso e para muito mais. Por cá, nenhuma alma teve a ideia peregrina de pegar na murraça do João Pinto ao árbitro no mundial da Coreia ou no murro do Sá Pinto ao Artur Jorge e lucrar com isso. Mas não tarda. Na asneira e no mau gosto não estamos na cauda da Europa. Não perdemos por esperar, isso é certo, e qualquer dia andam por aí a entoar um "Zidane, il l'a frappé, la Coupe, on l'a ratée..." versão... Quaresma.

O socialismo mumificado

Na Coreia do Norte, falecido em 1994 o "Grande Líder" Kim Il-Sung, logo o trono vermelho foi herdado pelo seu primogénito, o "Querido Líder" Kim Jong-Il. Agora em Cuba, Fidel Castro, que se mantinha há 47 anos agarrado ao poder absoluto, transmite por motivo de doença ao mano menos idoso todos os cargos que detinha: presidente do Conselho de Estado, presidente do Governo, comandante supremo das Forças Armadas "Revolucionárias" e primeiro-secretário do Comité Central do Partido Comunista de Cuba (uff!). Caídas todas as máscaras, eis o "socialismo real" travestido de monarquia hereditária, dependente mais que nunca do ditame pessoal do chefe, à total revelia da vontade popular e já sem qualquer simulacro de consulta aos órgãos do partido único. Com a saúde do tirano das Caraíbas transformada em "segredo de Estado" dá-se outro passo decisivo na degeneração da "revolução" cubana numa grotesca caricatura de socialismo, capaz de ofender até os mais devotos praticantes desta fé.
Em paralelo à agonia do quase octogenário comandante in jefe, que há muito passou de "libertador" a opressor do seu próprio povo, é a própria concepção de comunismo que entra definitivamente em colapso. Deixou de ser "o espectro que assombra a Europa" para se tornar numa espécie de múmia assombrada no silêncio do sarcófago.

Silly Season

Por vezes, acontece ao Jeremy Clarkson, do programa Top Gear não gostar de um carro. É assim que surgem grandes momentos televisivos.

Momentos Kodak (9)

Vida de cão...
Foto: José Carlos Carvalho

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

Momentos Kodak (8)




Alguém aí falou em ínfima minoria? Em montagens fotográficas? Numa cabala contra o SCP? Meus caros, factos são factos... Pois bem, este exemplar encontra-se num bairro na periferia de Lisboa.
(Amadora, 2 de Agosto de 2006)
Foto: Rodrigo Cabrita

Os fins e os meios

As palavras lapidares de Albert Camus contra o terrorismo, proferidas em 1957, logo após ter recebido o Prémio Nobel da Literatura, ecoam nestes dias em que o Médio Oriente volta a estar a ferro e fogo. “Sempre condenei o terrorismo. Devo condenar um terrorista que opera cegamente nas ruas de Argel e um dia pode atingir a minha mãe e a minha família. Acredito na justiça, mas defenderei a minha mãe antes da justiça”, disse o escritor francês perante um auditório de estudantes em Estocolmo.
Ele sabia do que falava. Até porque esteve sempre do lado certo, sem a duplicidade moral que caracterizou a maioria dos seus pares das letras francesas daquela época. Não basta ser justa a nossa causa: é fundamental não a tornarmos injusta pelo meios que empregamos. E nenhum meio pode ser tão injusto como a bomba que estoira à hora mais inesperada, no local mais surpreendente, à mercê de um capricho de ocasião e a coberto da impunidade do acaso. Na Argélia natal de Camus como em qualquer ponto do globo nos nossos dias.
“Na perspectiva do marxismo, cem mil mortos nada são, afinal, se fizerem a felicidade de centenas de milhões de pessoas. Mas a morte certa de centenas de milhões de pessoas, em troca da suposta felicidade das que escaparem, é um preço demasiado caro. O progresso vertiginoso dos armamentos, facto histórico ignorado por Marx, obriga a uma reformulação do problema do fim e dos meios”, assinalou ainda Camus. Nenhuma reflexão podia ser mais actual que esta.

Corpo são


"A expressa menção à «actividade física», a par da referência ao «desporto», visa enfatizar o propósito do Governo de não só apoiar a prática desportiva regular e a de alto rendimento – tradicional objecto das nossas políticas desportivas – como também criar condições para se promover e desenvolver, entre a população em geral, a «actividade física» enquanto instrumento essencial para a melhoria da condição física, da qualidade de vida e do bem estar, bem como para encorajar os portugueses a integrar a actividade física nos seus hábitos de vida quotidiana pelos efeitos benéficos que tem para a saúde. Neste sentido, incumbe à Administração Pública promover programas, com vista à criação de espaços públicos adequados para a prática desportiva, assim como adoptar medidas que facilitem a adopção de estilos de vida activa".
Esta pérola não foi encontrada em nenhuma história do desporto e da condição física do Estado Novo ou nos fundamentos da Mocidade Portuguesa. É antes parte integrante da "Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto", que se encontra em discussão pública, em fase de especialidade, na Comissão de Educação, Ciência e Cultura da Assembleia da República. Eu concordo com o meu amigo (e antigo colega de mestrado) Laurentino Dias, secretário de Estado da tutela, quando diz que era preciso pôr alguma ordem no sector. Sobretudo no futebol, nas relações com o Estado, as autarquias e os governos regionais. E também nas federações, ligas e quejandos. Mas, sinceramente, não percebo o que o Estado e o Governo têm a ver com a "actividade física" de cada um. Com o que cada um come ou bebe. Se corre e faz jogging, se levanta pesos ou se, por outro lado, bebe uns whiskies, fuma uns charutos e é avesso a qualquer "actividade física". Uma lei de bases do desporto faz sentido, a segunda parte é que era dispensável. O meu caso não é preocupante, mas o Estado não tem nada a ver com o tamanho da minha barriga. Ou tem?

Estarão eles a sobrar noutro sítio?

Nestes primeiros dias das minhas férias fico-me “em quarentena” por S. João do Estoril. Um demorado processo de “desligar do trabalho”. Em baixo do meu prédio, ao lado de uma simpática esplanada, há uma tabacaria onde costumo comprar os jornais e espreitar as manchetes. Apesar de subúrbio, esta ainda é uma zona estival, notam-se os forasteiros aqui na praceta. Ontem e hoje, depois das onze da manhã, já não consegui comprar o DN. Bons sinais ou má distribuição? Não estarão os jornais a sobrar noutro sítio?

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Viva a sinceridade

“Nunca tinha reparado nessa história de as mulheres alegadamente não darem importância à beleza dos homens. Se não dessem importância a isso, davam importância a quê? Confesso que mais depressa me apaixono por um homem bonito e não muito, digamos, brilhante, do que por um homem muito brilhante mas nada bonito” , f. , Glória Fácil, 20 de Dezembro, 2005

Esta posta chegou há tempos à minha caixa de correio electrónico vinda da parte de não sei quem com um comentário apenso: "viva a sinceridade". Também gostei da suposta "sinceridade". É claro que as mulheres dão importância à beleza dos homens e, o que é ainda mais verdade, muitas não perdoam que o brilhantismo de um homem venha acompanhado de fealdade, como se de uma deficiência estranha se tratasse. Desde os clássicos gregos que a beleza física parece impor-se como beleza moral. Eis o engano. Foi por isso que Sócrates, o sábio que era feio, não só foi um escândalo como não foi amado pelos atenienses...

Momentos Kodak (7)

Para quem tinha dúvidas, afinal há mais exemplares...
Camarada Távora, espero continuar a ser convidado para os nossos jantares. Abraço!

Terça-feira, Agosto 01, 2006

Uma rua exemplar

Ia há bocadinho a chegar a casa, quando vejo o ministro do Ambiente a saltar de um carro escuro e a entrar apressadamente numa conhecida pastelaria da minha rua. Ando mais dois passos e vejo que o carro, com o respectivo motorista dentro, ficou estacionado em cima da zona reservada à paragem de autocarros, devidamente assinalada com riscas amarelas no asfalto. É pena que, embora seja Verão e a rua tenha uma data de lugares vazios para estacionar, o ministro que zela pelo civismo ambiental de todos nós não tenha pedido ao seu ex-colega dos Negócios Estrangeiros para utilizar o lugar que ele tinha reservado à porta de casa, uns metros mais adiante. É que o mesmo lugar continua reservado mas, em vez de MNE, agora vê-se na placa uma matrícula cuja origem ainda não verifiquei. Quase que apostava que pertence à viatura de algum ex-governante que andou a dar louvores a um motorista, a quem nós todos pagamos o ordenado, por ter dado apoio à sua família.

Para ler. Sem preconceitos

«Research teaches us that our reasons and our pains are more palpable, more obvious and real, than are the reasons and pains of others. This leads to the escalation of mutual harm, to the illusion that others are solely responsible for it and to the belief that our actions are justifiable responses to theirs». Daniel Gilbert, professor de psicologia em Harvard e autor de «Stumbling on Happiness».

Testosterona

Estou de volta. Trago um brinde. Três minutos do melhor programa televisivo de todos os tempos.

Luz ao fundo do túnel?

Faltam quase oito meses para finalmente vermos a luz ao fundo dos túneis do Marquês de Pombal. Não é bem uma "boa notícia" porque há tempo de mais que os lisboetas penam com aquele estaleiro e as contingências daquela obra. Aliás o principal responsável pelo imbróglio paira e advoga por aí impunemente, qual "velho do Restelo" travestido de "polícia de costumes".
Para mim, que hoje trabalho na Avenida da Liberdade, e morei quase uma vida em Campo d’Ourique, parece-me que esta obra será uma solução que peca por tardia. Aguardo ansioso pela inauguração dos túneis que estou certo virão desatar este antigo nó cego no coração da minha cidade. Esperamos todos que a rotunda do Marquês não seja mais um “fado” de Lisboa.
De resto parece-me que o maior problema da cidade de Lisboa é o da sua ruína e dramática “desertificação” de que falava o Pedro Correia aqui há dias. Esse problema sim, aguarda medidas urgentes e radicais. Que obviamente ultrapassam os poderes de uma câmara municipal, e merece uma abordagem e mobilização com consensos nacionais.
Lisboa não foi bombardeada, mas que precisa de algo tipo “plano Marshall”, lá isso precisa!

Dívida infinita

130 milhões em dívida, a dividir por 288 contribuintes, dá como resultado uma dízima periódica infinita. Parece-me um mau prenúncio. Mas também, como dizia um anónimo, as estatísticas pode ser usadas para demonstrar tudo. Até a verdade.

Festa adiada

Através de uma nota manuscrita, lida na televisão pelo seu secretário Carlos Valenciaga, Fidel Castro delegou no irmão Raul os cargos no partido, no Conselho de Estado e no Exército. Áreas chave da governação, no entanto, como a da política energética, ficam a cargo do vice-presidente Carlos Lage.
De acordo com o New York Times, as celebrações marcadas para o dia do seu octogésimo aniversário, a 13 de Agosto, serão adiadas para 2 de Dezembro, altura em que se comemorará o 50º Aniversário das Forças Armadas cubanas.
Apesar desta transferência de poder ser apresentada como temporária, há várias razões para suspeitar que assim o não será. A festa corre o risco de ser transformada num funeral. E depois, veremos o que acontece. Uma coisa é certa: Alguém, algures, já deve estar a escolher a imagem certa para a impressão das T-Shirts.

Momentos Kodak (6)

O verdadeiro sportinguista...

(Berlenga, 31 de Julho de 2006)

Foto: José Carlos Carvalho