terça-feira, fevereiro 19, 2008

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XVIII)



O Abrantes

Encontrei ontem o Abrantes, em São Carlos. Ele é o famoso bloguer que assina com a sua assinatura secreta e cuja defesa do poder tem revelado um herói que infelizmente continua anónimo e que me deu ontem um importante contributo para os meus carnets de filosofia política. O Abrantes não gosta dos holofotes e escondia-se na sombra do camarote ao lado do meu. Só o reconheci por ter resmungado quando alguém por erro abriu a porta do camarote onde se encontrava:
“Aqui, só com cartão do partido”, ordenou ele, antes da porta se fechar de novo.
Reconheci a voz. Aliás, sou o único bloguer que sabe quem é o Abrantes.
Cumprimentei através do tabique:
“Sabes onde está o FAL?”, perguntou o Abrantes, com maus modos.
“Não o vi”.
“Eu não dizia? É uma conspiração!”
Comecei a ler o programa. A ópera era de Mozart e contava a história de um líder benevolente, com maioria absoluta, cuja corte se envolve na intriga e na traição, tudo acabando com um gesto de clemência do bondoso dirigente.
“Vocês, no Corta-Fitas, continuam parvos”, disse o Abrantes.
“Porquê?”
“Recusam-se a ver a beleza da construção do poder e temos de vos pôr na ordem”.
“Achas que somos assim tão relevantes?”
“Pusemos na ordem os professores e os médicos e os funcionários públicos e os jornalistas e os sindicalistas. Vocês são umas formigas”.
Calou-se. As luzes apagavam-se. Começava a música.

Primeiro acto
No palco, um grupo de bajuladores tentava endrominar o chefe. Um lambe-botas ia tão longe que o imperador chegou a protestar, pois ninguém lhe dizia a verdade.
“É importante dizer a verdade ao chefe”, arrisquei, num sussurro para o camarote do Abrantes.
“Tu és muita burro, ò Adolfo Ernesto! E este gajo, o Mozart, não percebia nada de política! O importante é não dizer a verdade ao chefe. Se repetirmos mil vezes uma mentira, então ela transforma-se em verdade. Se só existir a nossa verdade, não haverá oposição. É preciso esmagar a oposição com a exclusividade do nosso ponto de vista”.
“Compreendo. Mas, e se a realidade for diferente?”
“Que queres dizer?”
“Por vezes, a realidade contrasta de forma chocante com as nossas fantasias”.
“Isso nunca acontece. A realidade molda-se ao desejo do líder. Por exemplo, a economia vai lindamente e melhorará”.
“Sem querer contestar, há quem fale em crise...”
“A crise é um estado de espírito e molda-se conforme os desejos do líder benevolente”.
“Mas a conjuntura internacional pode levar a um agravamento da situação”.
“O importante é que os números não o mostrem”.
“Pensei que o importante fossem as pessoas”.
“As pessoas importantes, que estão do nosso lado”.
Os sussurros estavam a incomodar a plateia, que nos mandou calar, com um shhhhh irritado.

Segundo acto
O primeiro impulso do imperador é punir os traidores, mas no último momento ele recua, mostrando humanismo e piedade.
“Sabes, Adolfo Ernesto”, murmurou o Abrantes, “o importante é nunca trair o chefe. E, para isso, devemos ter sempre boas notícias para lhe dar. É por isso que urge dominar os dissidentes e impedi-los de transmitir ideias que possam confundir o povo e ameaçar a maioria absoluta, a qual, como sabes, é a única maneira de governar”.
“Mas a tua função é controlar as notícias?”
“É essencial poder defender o indefensável com fanatismo, nem que por isso me transforme num pateta. Em última análise, quando não é possível controlar as notícias ou impor a nossa visão fanatizada, a minha função é desacreditar o mensageiro”.
“Mas isso não será pior do que aqueles coronéis...”
“É mais moderno...”
Não ouvi o resto desta importante reflexão porque a plateia protestou de novo, com um profundo shhhhhhhh.
No final, o imperador deixou ir em paz o seu amigo, que o tentou assassinar. Apagaram-se as luzes. Houve frenéticos aplausos.
O Abrantes não tinha gostado:
“Pareceu-me uma tentativa de descrever metaforicamente o actual poder. Mas o imperador hesitou em excesso, parecia o Guterres. Hoje em dia, isto seria impossível. Nós tomamos decisões...”
“Mesmo que estejam erradas.”
“Claro. É preciso não hesitar e tomar decisões. Pôr toda a gente na ordem. E há um erro fundamental nesta ópera, que é o facto de se partir do princípio de que a corte ama o seu imperador porque este tem grandes virtudes, quando o amor ao poder se baseia em interesses. A defesa de uma ideia sem ideias só se explica por haver interesses, por exemplo, um tacho.”
“É o teu caso?”
“Se não é, será”.
“Não achas isso demasiado simplista e até autoritário? Quero dizer: quando os assessores tentam limitar a liberdade de informação, isso não será um pouco perigoso?”
“O erro do imperador, nesta história, foi não ter impedido a conspiração inicial que o levou ao dilema de deixar ou não cair o amigo. E, aliás, sou assessor e não sou assessor. Parece paradoxo, mas não é. Afinal, assino com o meu nome no meu blogue, embora o meu nome não tenha qualquer significado e eu, de facto, não exista”.
“És uma personagem”.
“Sou uma personagem, mas tu também”.

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terça-feira, fevereiro 12, 2008

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XVII)



Segundo prémio João Villalobos de falsa entrevista

Porque decidiu destruir o ensino da música em Portugal, senhor primeiro-ministro?
Tive um vibe, ou seja, uma vibração, e telefonei logo à senhora ministra da educação para acabar com o ensino de música.
Que tipo de vibe?
Parecia assim uma corda de violino a ser tocada por um iniciado de seis anos. Um som estridente e prolongado.
Compreendo. Deve ter sido horrível. E qual é o seu plano?
Disfarçar por um jargão burocrático o que estamos de facto a fazer.
Pode dar exemplos?
Usamos expressões como ensino supletivo ou integrado para confundir a opinião pública e ninguém perceber.
Mas, trocando por miúdos, o que vai fazer?
Comecemos pelos miúdos. Na prática, os conservatórios deixam de ensinar crianças com menos de dez anos.
Mas, senhor primeiro-ministro, com o máximo respeito deste seu admirador, isso vai impedir as crianças de aprender desde o início.
O que quer dizer?
Eu é que devo fazer as perguntas, mas a minha Clotilde tem uma sobrinha a estudar violino e começou aos sete anos.
E toca bem?
Eu é que faço as perguntas nesta entrevista, senhor primeiro-ministro. A sobrinha da minha Clotilde já consegue tocar na corda mi e fazer um pizzicato.
Magnífico, o nosso ensino é demasiado eficaz. Temos de o transferir para as escolas primárias sem condições, para o destruir. Imagine um sistema que produz milhares de criancinhas como a sobrinha da sua senhora a tocar na corda mi segundo o método suzuki.
Parece terrível. Mas estava a explicar o seu plano...
Se as crianças chegarem ao conservatório com dez anos sem saberem tocar, vão certamente desistir. Mas para termos a certeza, as escolas de música públicas serão especializadas, quero dizer, terão um currículo próprio, mais concentrado.
Mas isso não irá acabar com os amadores, aquelas pessoas que estudam música mas não querem ser profissionais?
Claro. E não corremos o perigo de produzir centenas de músicos, como faz a Rússia. Se não houver amadores, toda a gente acreditará que o mestre Emmanuel Nunes é mesmo um génio e não haverá contestação às nossas apostas estéticas. Por outro lado, as crianças talentosas já desistiram.
Estou a ver. Mas não teme que os pais evitem colocar as criancinhas no conservatório?
O que quer dizer com isso?
A meio da sua formação, a criança não poderá mudar de música para ciências e toda a gente diz que uma escolha aos dez anos é demasiado prematura...
É essa a ideia. Se não houver alunos, fechamos a escola e poupamos dinheiro. Foi isto que eu expliquei à senhora ministra, quando lhe enviei as minhas orientações políticas.
Ou seja, no fundo está a privatizar a música...
Você tem grande argúcia, ò Adolfo Ernesto, podia ser meu assessor...
Não recuso o convite. Gostei muito de o entrevistar e prometo admirá-lo muito, pelo menos enquanto o senhor tiver maioria absoluta.

Adolfo Ernesto


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Comunicado do Provedor dos Leitores do Corta-Fitas

O provedor dos leitores do Corta-Fitas lamenta profundamente a publicação da falsa entrevista que pode ser lida acima e solicita ao conselho de curadores, com a veemência que se impõe, que este tenha maior prudência no futuro, evitando a publicação de textos como este, impedindo ataques torpes e cobardes à superior orientação política das autoridades.
Adolfo Ernesto

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sábado, fevereiro 02, 2008

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XVI)



O bastonário da desordem

Desde que fui escolhido para ser o bastonário da desordem dos bloguers que não posso abrir a boca sem que caia o carmo e a trindade. O meu espírito crítico não se compagina com estas dificuldades.
Se falo na corrupção, sou logo chamado à Assembleia da República e os deputados gritam-me: “Nomes, queremos nomes, ò Adolfo Ernesto”.
Se menciono a paralisia política e o conluio entre os dois partidos únicos, logo sou chamado ao Largo do Rato e à São Caetano: “Nomes, queremos nomes, ò seu taralhoco”.
Se falo na crise económica dos portugueses, logo os banqueiros me gritam: “Como é que sabe? Então e o sigilo bancário, seu energúmeno? Queremos nomes...”
Devo dizer que fui eleito bastonário contra a minha vontade. A blogosfera é um meio complicado, mas a lista do JPP estava condenada porque ele nunca linka ninguém. Eu também não, mas sou um nome fresco nestas coisas. Além disso, (como sabem tenho a cabeça fundida e o hemisfério esquerdo misturado com o direito) sou uma ponte ideal entre bloguers como Daniel Oliveira e alguns dos Cortafiteiros, como o Duarte Calvão. Em resumo, fui um estrondo: em inglês, usa-se o termo landslide para descrever este tipo de vitória, o que pode ser traduzido como derrocada.
Mal fui eleito, pensei escrever um post onde pudesse sintetizar o meu pensamento sobre o nosso regime. Tal como a minha mente, Portugal é um país algo misturado: o pessoal de esquerda é conservador (nem lhes falem em mudar a Constituição!); e os conservadores afirmam a pés juntos que são muito liberais.
A mistura é total, no plano do tempo e do espaço. A política é decalcada da monarquia constitucional, mas sem rei: há dois partidos iguais, com líderes semelhantes e políticas plagiadas um do outro. Um sistema já amplamente testado no século XIX, mas com o aperfeiçoamento de dispensar espermatozóides com pedigree.
Aqui, os bancos privados costumam ter administradores públicos, nomeados pelo Estado. E o Governo quer gerir o Estado como se fosse uma empresa privada.
Lá fora, quando os políticos mentem, as pessoas ficam indignadas e começam logo a construir barricadas; aqui, onde somos mais avançados, a mentira é vista como um passo bem dado no avanço de uma carreira e as pessoas encolhem os ombros. A um político, o que se exige é dignidade e sentido de Estado, pois a verdade costuma ser incómoda, assim como uma espécie de dor de barriga. E ninguém com dor de barriga mantém sequer a dignidade.
Os portugueses querem “mudança” e “reformas estruturais”, mas de maneira a que isso seja para os outros e não mexa com a vida deles.
Podia ter escrito estas coisas como simples Adolfo Ernesto, ninguém se ia incomodar. Mas, quando o fiz como bastonário dos bloguers, houve um coro de protestos, pois alegadamente perdera a dignidade e o sentido de Estado.
Assim, venho por este meio apresentar a minha demissão de bastonário da desordem dos bloguers, com efeito imediato.
Conto, apesar de tudo, prosseguir a minha actividade como provedor dos leitores no Corta-Fitas.

Adolfo Ernesto

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sexta-feira, janeiro 18, 2008

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XV)




Argumentação

Agora, que a greve de argumentistas está a acabar, posso seguir a minha vocação sem o anátema de ser amarelo ou fura-greves. O meu amigo Cecil B. Demille (na foto) costumava dizer: "Adolfo Ernesto, nunca esqueças, dá-lhes emoção e, quando eles não puderem mais, dá-lhes mais uma vez, com emoção". A minha mais recente proposta para Hollywood foi um projecto de argumento que enviei para a cidade dos anjinhos, e que terá por título Emoções sem Limite, embora tenha hesitado, pois havia a hipótese de Explosões sem Limite.
A história é singela. Começa no MidWest, entre paisagens paradisíacas. Conhecemos "o excelente e confiável Jim Smith (Brad Pitt), que procura o pai ausente, Tom Smith (George Clooney) e se apaixona pela sensual Belinda Jones (Scarlett Johansson). Depois de uma escaldante cena de sexo entre os dois protagonistas, temos uma frenética perseguição de automóveis onde conhecemos o malvado Lucas Cheney (Tommy Lee Jones), que mata quatro transeuntes. Jim Smith é forçado a juntar-se ao exército e enviado para o Afeganistão (cena de combate inspirada em Platoon); ali passa algum tempo (nova cena de combate com destruição de quatro dos melhores cenários dos estúdios Paramount), e é no Afeganistão que reencontra o malvado Cheney, que está a vender armas aos talibãs. Mais combates, Cheney morre três cenas depois de ser abatido, Smith regressa aos states na companhia do seu companheiro e herói Johnny (Will Smith) que diz uma piadas, mas o Smith personagem acaba nos braços de Belinda Jones (cena de sexo, suspense, de súbito reaparece o malvado Cheney, que julgávamos morto, mas que afinal estava em pleno estertor), golpe decisivo do herói, vitória final. Triunfam os bons".
Parece-me uma boa história, equilibrada e com momentos interessantes, sobretudo nos tiroteios.
Entretanto, recebi um telegrama urgente, da Mosfilm, que dizia assim:
"Kremlin enviou para Sibéria todos nossos argumentistas. Cruise grave. Adolfo Ernesto, favor enviar argumento, mosfilm".
O Cruise era, afinal crise, mas com uma letra a mais. E foi com Tom Cruise na imaginação que concebi o argumento para a Mosfilm, tarefa difícil, porque eles não gostam de cenas com menos de 40 minutos. O título será Discussões sem Limite, embora A Balada do Soldado não me soe mal:
"O bom Ivan Denisovitch (T. Cruise) cresceu nas paisagens magníficas do Volga, mas apaixonou-se pela bela Tatiana (Zhanna Prokhorenko); ele busca o seu pai, mas enfrenta o cruel Pavlovitch (Vladimir Ivashov)". Aqui, pensei numa cena tipo doutor jivago, mas sem o bigode. "Após longo diálogo de trinta minutos entre Denisovitch e Pavlovitch, o primeiro é cruelmente enviado pelo segundo para o exército e, depois, para a invasão do Afeganistão", (ou ocupação, ou lá o que foi, mas não escrevo argumentos de filmes políticos, quero apenas sublinhar as emoções e as sensações. E, claro, a pirotecnia).
"Enfim, no Afeganistão, dá-se o confronto final entre D. e P., o duelo prolonga-se por duas rápidas horas e o nosso herói consegue regressar aos braços da sua Tatiana, e ainda tem tempo para descobrir o pai, que afinal era um antigo stakhanovista da União Soviética que morrera na heróica luta contra a deskulakização e era muito chegado ao camarada Estaline". É um final bonito e comovente.
Estava satisfeito com esta nova prova superada, mas não sabia que os meus problemas ainda não tinham acabado. Para meu espanto, recebi um telegrama de Bollywood: "Adolfo Ernesto. Crise de argumentistas iminente. Favor enviar argumento de filme de Bollywwod".
Dito e feito. Concebi uma obra e pensei logo num título magnífico: Canções sem Limite. Tudo começa nas margens do sagrado Ganges, onde o nosso herói, Ayodhya Ramayana (Salman Khan) terá de lutar pelo amor eterno da sensual Sara Patel (Aishwaria Rai), apesar dos obstáculos do maléfico Pervez (Shah Rukh Khan). Haverá fugas por toda a Índia, com muita cor e dança, e os dois heróis fogem na direcção dos Himalaias (mais uma dança) e, depois para o Afeganistão, onde são apoiados por Jim Smith, um místico ocidental (George Clooney), mas Khan consegue apanhar o trio (há uma bela cena de dança, com uma notável canção e um coro talibã). Finalmente, o bem triunfa, com ajuda divina que permite uma cena apoteótica. Pervez é derrotado e haverá ainda tempo para uma sensual, mas púdica, cena de sexo, apimentada com uma dança".
Enfim, nesta minha carreira também há a possibilidade de colaborar com as telenovelas brasileiras, mas esse será um enorme desafio, já que as histórias são muito mais complicadas.

Adolfo Ernesto


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quinta-feira, janeiro 03, 2008

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XIV)



O sindicato

Não é só no Quénia ou no Paquistão que há violência. Assisti a um tumulto que rivalizou, por breves instantes, com situações caóticas típicas dessas regiões inóspitas.
Tudo aconteceu no restaurante onde se celebrava o almoço anual do sindicato dos gestores. O ambiente, já de si, era escaldante. Dada a minha fama de bombeiro voluntário, o senhor Silva, pacato proprietário do dito restaurante (ainda por cima chamado O Cavaco), pediu a minha comparência, com farda, para apagar qualquer fogo que viesse a surgir. Estava lá também para fazer cumprir as leis da república, embora apenas na condição de cidadão.
Foi já na fase dos discursos que a situação se agravou. Um homem obeso, com uma comenda na lapela, ergueu-se e deu as boas vindas aos 50 convidados:
“Ilustres gestores”, disse ele, “é com pesar no coração que vos recebo neste almoço comemorativo do aniversário da criação da nossa influente agremiação. Pesar no coração devido às palavras que o nosso líder transmitiu ao país, criticando os nossos salários, ou melhor, a diferença entre os nossos salários e os que recebem os nossos trabalhadores...”
“Apoiado...” ouviu-se na sala.
“Pelo contrário, ilustre sócio, não apoiado! Considero um escândalo que um dos pilares do regime nos critique. Temos salários altos? Sim, mas ainda não o suficiente. Carros de serviço? Chamar ao meu jaguar artilhado um carro de serviço é um escândalo. Ganhamos duzentas vezes mais do que os nossos funcionários... perdão, colaboradores? Retórica da esquerda! Críticas próprias do PREC! Um despautério, num órgão eleito. Toda a gente sabe que a diferença devia ser ainda maior.”
Houve uma pausa para lautos aplausos. E, depois, o orador prosseguiu.
“Se possuímos privilégios, é porque a nossa posição social assim o ditou. As quotas partidárias estão em dia, porque nos criticam? E mais, exigimos aumentos salariais, este ano, de 100%, porque a produtividade dos nossos trabalhadores só aumentou 3%, falhámos em toda a linha na elaboração de uma estratégia coerente para as nossas empresas e não criámos valor accionista. Por tudo isso, merecemos os privilégios de que gozamos, mais os chorudos prémios, as prebendas e bónus. Querem pauperizar a nossa classe? Mas não passarão, camaradas! Perdão, queridos confrades e consócios. Temos de nos erguer, indignados, contra as críticas às nossas benesses”.
Na sala houve um frémito de entusiasmo. Os gestores, galvanizados, ergueram-se em aplausos estrondosos.
“Viva o nosso sindicato”, gritava um dos gestores, muito gordo.
E seguiram-se palavras de ordem, das quais recordo as mais importantes:
“Descapitalizemos as nossas empresas!”
“Os barris de petróleo aumentam, os gestores não aguentam!”
“Vigésimo quinto mês, já!”
“Tragam mais champanhe!”
Embora houvesse copos pelo chão e algum tumulto na mesa, o almoço do sindicato dos gestores tinha até ali corrido de forma civilizada. Tudo descambou quando um dos gestores sacou de um enorme charuto. Ao que foi imitado pelos 50 gestores. De súbito, havia 50 charutos acesos naquela sala.
Na minha qualidade de cidadão bombeiro, não hesitei perante aquele nítido abuso. Puxei da mangueira de serviço e dirigi um poderoso jacto de água para aquela turba de poluidores-pagadores.
Houve um pânico, uma debandada. Em menos de trinta segundos, o capitalismo selvagem tinha ido por água abaixo.
Ainda recordo com nostalgia a figura pingada de um dos gestores que saía do restaurante do senhor Silva, numa indignação, o charuto apagado preso aos dentes. Olhou para a fileira de lindos topo de gama e disse:
“Isto de trocar de carro cada três semanas dá sempre nisto! Qual deles será o meu?”

Adolfo Ernesto

Ilustração: desenho de George Grosz (1893-1959)

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segunda-feira, dezembro 31, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XIII)



As previsões para 2008


A minha Clotilde convenceu-me a consultar a Dona Rosa, conhecida em todo o bairro por acertar no futuro. A dona Rosa é uma espécie de professor Marcelo dos anónimos.
O consultório fica num primeiro andar com cheiro a mofo. É uma sala escura, de ambiente pesado. E a Dona Rosa surgiu de repente, através de uma cortina ao fundo, com uma vassoura na mão.
Fiquei impressionado porque ela já sabia que eu era do Corta-Fitas.
"Estou um bocadinho chateada com vocês, os rapazes do Corta-Fitas", disse a dona Rosa.
"Então, porquê?", perguntei.
"Não me elegeram rapariga das sextas-feiras".
Quase mencionei a verruga no queixo e a pele esverdeada, mas contive-me, não fosse o comentário influenciar o meu futuro.
A Clotilde explicou que estava preocupada com o seu amor e a dona Rosa tranquilizou-a:
"Terás este ano um grande amor com um homem musculoso e bom".
Correspondia ao meu perfil e perguntei se eu, o grande amor da Clotilde, também estaria apaixonado.
"Que eu saiba, Adolfo Ernesto, não és musculoso nem bom. Eu estava a falar do Arnaldo, da mercearia em frente ao cabeleireiro. A Clotilde tem ali uma boa hipótese, pela circunstância de Plutão estar em conjugação com Saturno, numa órbita perfeita que, ainda por cima, se harmoniza com a trajectória de Mercúrio. Além disso, o Arnaldo depositou mil euros na conta bancária dele, na semana passada. Disse-me o gerente, que também veio à consulta".
"Mas gosto é aqui do meu fofinho...", disse a Clotilde, que estava assustada. (E o fofinho era eu).
"Ah, este é um inútil. Deixa-o".
"Mas ele até escreve num blogue, e tudo"
"O Corta-Fitas? Aquela porcaria?"
A Dona Rosa desatou-se a rir.
"Em previsões, são um desastre. Olha-me para as asneiras que escreveram no ano passado sobre o que ia acontecer este ano". Ligou a bola de cristal e apareceram este e este posts. Mas havia outros.
"Vocês escreveram que a presidência portuguesa ia correr mal ao Sócrates". A Dona Rosa ria-se, numa histeria. E eu já estava a ficar incomodado.
"E, então, quais são as suas previsões para 2008? Certamente melhores do que as nossas", atirei. Ela nem hesitou na resposta:
"É fácil: O Bush será substituído; há eleições no Paquistão e, no fim, fica um general; o Sarko casa com a Bruni; o Gordon vai à sua vida, a Merkel vai ser rapariga da sexta-feira no Corta-Fitas. Seus pedantes!".
Desligou com raiva a bola de cristal.
"E em Portugal, o que vai acontecer?"
"São mais cinco euros".
Paguei. E a bruxa ligou de novo o interruptor da bola de cristal.
"A economia de pantanas; Berardo na Caixa Geral de Depósitos; Sócrates no Governo; não haverá mais festarolas europeias, vem a factura; fogos no Verão; a economia de pantanas (já disse); o Benfica perde mais uma vez o campeonato; a Clotilde fica com o Arnaldo; Sarko no Allgarve com a Bruni; Adolfo Ernesto apaixonado por uma beldade chamada Rosa".
Quando saímos (ar fresco!), a Clotilde vinha a matutar naquelas previsões.
"Podias ter-me dito que amavas uma Rosa", disse a Clotilde.
Era inútil dizer que não conheço nenhuma beldade chamada Rosa.
"Enfim, se não posso ficar contigo, talvez o Arnaldo não seja má ideia", suspirou a Clotilde.

Adolfo Ernesto

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segunda-feira, dezembro 24, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XII)



O espírito natalício


O pior aconteceu na loja onde estavam a vender caviar Beluga a 410 mocas. Houve assim um tropel de cavalos, com resfolegar e tudo, aquilo a que o comendador Joe chamaria um utle stampede da CVM, mas que envolvia cotovelos, golpes baixos e empurrões mais ou menos subtis. Caí, pisaram-me três costelas e partiram-me os óculos.
Volto um pouco atrás: não tinha nada a ver com o Beluga, mas andava à cata de um presente de menos de cinco euros (tenho um orçamento catita desde que ganhei umas massas a escrever crónicas aqui no corta-fitas) para oferecer à minha nova namorada, a Clotilde, que é cabeleireira. E bastante boa. Pensei em comprar-lhe um enfeite de cabelo, mas lembrei-me a tempo de que ela é cabeleireira... Teria sido ensinar o padre nosso ao cura... Depois, sem ideias, andava a passear no centro comercial, no meio de uma multidão desenfreada, quando transitei ao largo da loja dos belugas...
De súbito, sem aviso, houve alguém que gritou "vende-se a última beluga" e a multidão entrou numa espécie de transe, parecia correr-lhe na espinha uma voltagem eléctrica. E foi isso que, enquanto o diabo esfrega o olho, lançou a tal cavalgada, ou boiada, ou lá o que foi; parecia uma enxurrada humana, como se tivessem aberto os portões do campo pequeno para deixar sair os touros e as pessoas começassem a fugir. Mas era para dentro.
Um homem gritava que dava 500 euros, outro enfiou-lhe um murro, e uma velhinha, com ar de tia, guinchava como se a estivessem a apalpar nos finalmentes. Foi horrível, cento e cinquenta pessoas histéricas precipitaram-se para a loja onde estavam a vender o caviar Beluga e fui atropelado. A caixinha, coitada, levitava um metro acima de dezenas de mãos que se erguiam, vorazes. Depois, tombou, com um som de lata, que deixou todas as pessoas hipnotizadas.
O resto da luta já não vi porque os meus óculos jaziam no chão, falecidos e estilhaçados.
Nem deu para perceber quem tinha ficado com a última caixinha. Foi aliás o primeiro rumor de que começavam a esgotar os produtos de luxo. E aquilo iniciou o pânico no centro comercial, onde se acotovelavam dezenas de milhares de consumidores, naquelas frenéticas e derradeiras horas das compras.
O pânico de consumidores rapidamente se propagou à loja de vinhos raros e à ourivesaria ao lado. De súbito, corriam pessoas aos gritos (como se tivesse estalado um incêndio) sobre a escassez de Laffite 31; "Já só resta uma garrafa", dizia um homem de braços no ar, com ar desvairado. "Compro, compro", ordenava um empresário, que engolira pelo menos meio charuto.
Eu tinha os óculos tão partidos, que estava a ver tudo muito fragmentado e até desfocado.
Nisto, houve uma correnteza da classe média, que vinha em sentido contrário, vociferando contra a falta iminente de produtos desta classe menos endinheirada. "Esgotaram as canecas de louça com frases brejeiras", gritava uma mulher, visivelmente alarmada; "não há mais pares de meias para oferecer", dizia outra, olhos muito abertos.
Vira antes sinais de uma verdadeira crise capitalista, mas nunca assistira a um alvoroço de consumidores. Sei que, na véspera, certos banqueiros entraram em pânico ali perto do Marquês. Foram vistos alguns, aos gritos, porque se estava a derreter todo o seu dinheiro dentro da caixa-forte.
Compreendo os banqueiros. Isto de derreter dinheiro é coisa séria.
Também compreendo os terrores dos líderes da oposição. Foi avistado um, desvairado, com choque pós-traumático e martelo pneumático na mão, a gritar que ia demolir o estado em seis meses e partidarizar o que sobrasse. O stress natalício foi excessivo, pois não é suposto dizer-se mal de alguém. Para mais, quando um governo faz tudo aquilo que a oposição prometeu, não há mesmo solução. Vivemos em tempos estranhos: a esquerda e a direita estão fundidas numa só entidade, tal como o meu cérebro. Desaparecem as referências. O governo é a única oposição a si próprio. E os ricos agem como os ricos, enquanto os pobres, por inveja ou tontice, só sabem imitar.
Mas voltemos ao caso. Fui arrastado pela correnteza da classe média, entre cotoveladas, murros e calduços; lutei com um homem disfarçado de pai natal que me tentou passar uma rasteira; passei por várias lojas de telemóveis fashion, jaguares e roupa de marca, onde iguais tumultos estavam em progresso. Ao fundo, aproximava-se a polícia de choque, que começou a distribuir valentes bastonadas. Mas o mais horrível foi quando a multidão enfurecida começou a lançar contra os polícias frascos de perfume Chanel, à maneira de cocktails molotov. Parecia uma final porto-benfica ou um arraial de porrada dos santos populares. Ficou a devastação de belos presentes de Natal destruídos, todos dispendiosos, e as montras sistematicamente partidas, tal como os meus óculos.
Quando dei por mim, tinham-me roubado os cinco euros, certamente alguém se aproveitara durante os apertões. Fiquei sem dinheiro para comprar um presente para a Clotilde. Ainda pensei em levar alguns cacos do rescaldo dos incidentes, mas estava tudo em pedaços.
Pensei, pensei... E decidi oferecer à minha Clotilde um beijo daqueles e, depois, desfazer-lhe o penteado numas cambalhotas, enquanto lhe desejo um bom natal...

Adolfo Ernesto


Este texto inspirou-se numa excelente crónica, essa séria, de Eduardo Pitta, que pode e deve ser lida aqui

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segunda-feira, dezembro 17, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XI)



O mau jornalismo


Ia a passar pelo Marquês, quando vi o Naves, de chapéu e gravata. Além de gordo, o homem parecia mesmo irritado. Aproximei-me, um pouco a medo, não fosse ele ter uma fúria. Só depois de perceber que já não ia reagir mal à minha presença é que lhe perguntei o que tinha.
"Sabes lá, Adolfo Ernesto! Estou farto!"
Quando o meu amigo diz estas coisas, o melhor é não insistir. No máximo, esperar que ele explique.
"Fui acusado de pensamento único pelo pensamento pré-fabricado", explicou.
"E o que é isso?"
Contou-me que tinha estado na cimeira EU-África e, depois, na assinatura do Tratado de Lisboa, a fazer a cobertura jornalística para um conhecido diário.
"Que giro", disse eu, "também estive no Tratado de Lisboa, a servir à mesa, no banquete. Até tive uma conversa engraçada com um poderoso deputado. Isso foi antes de aparecer a brigada da ASAE, que mandou fechar tudo, porque não estava de acordo com os padrões de uma directiva comunitária. Levaram as travessas e ninguém comeu".
"Não sabia disso..."
"A imprensa anda distraída e não conta estas coisas..."
De repente, o meu amigo explodiu de irritação:
"Também tu, bruto!"
Só então explicou o problema: estava aborrecido com o que tem saído nos blogues sobre o trabalho da comunicação social nas questões europeias. Que ninguém explica o tratado, que os jornalistas são todos propagandistas.
"Até no Corta-Fitas me chamaram propagandista. Mas há uma data de blogues onde dizem abertamente que ninguém explica o tratado. Ora, explicar é o que eu tento fazer. Aquilo é muito complicado. Se escreves comprido, ninguém lê. Se escreves curto, não explicas nada. Mas como me limitei a contar o que vi nas cimeiras, sem opinar, vá de levar bordoada. Estas não foram as cimeiras do porreiro, pá, mas as cimeiras da porrada, pá. Vê por exemplo os do Bloco de Esquerda, como miguel portas . Ninguém explicou o tratado, afirma ele. Mas bastava ter lido o Diário de Notícias, o Público, o Correio da Manhã, o JN, a Visão ou o Expresso, entre outros. Eu, entre outros, ando há meses a explicar este tratado, e antes expliquei a Constituição, ouviste, Adolfo Ernesto?"
O Naves estava no meio do Marquês, a gritar a plenos pulmões. Apesar do trânsito, eu estava a ouvi-lo bem.
"Houve um blogue, de Miguel Vale de Almeida, segundo o qual a comunicação social estrangeira é que tinha os títulos correctos. Que a nossa estava toda errada. Não resiste a cinco minutos de análise. Se olhares com atenção, nós escrevemos as mesmas coisas que os nossos colegas espanhóis, franceses ou ingleses. Com uma excepção, na cimeira EU-África ninguém viu o Mugabe. Mas os ingleses só falavam no Mugabe".
"Uns hooligans, os ingleses..."
"Os que criticam os jornalistas são muitas vezes políticos e, portanto, têm uma agenda política. Se aquilo que os jornais dizem não coincide com aquilo que eles querem que os jornais digam, então, os jornalistas são propagandistas. Em vez do pensamento único é a opinião pré-fabricada. Quando alguém tem a nossa opinião, é um excelente analista. Quando se limita a contar o que viu, é um propagandista. Esta é a melhor maneira de criticar o jornalismo. Excluído este, ficam apenas as explicações parciais da realidade".
"Eu às vezes também sinto problemas com parcelas da realidade", afirmei, sagazmente. "É como que um ardor no estômago".
A minha longa experiência de acalmar feras (cheguei a trabalhar num circo) resultou. O Naves acalmou e até parecia um cordeirinho. Ele estava satisfeito com a minha afirmação convincente. Escondi-lhe que, na qualidade de cidadão, adoro ideias pré-fabricadas. Com um cérebro fundido, como o meu, quero é a papinha toda feita, incluindo opiniões fast-food que possa ruminar no próximo jantar do Corta-Fitas.
"Ò amigão, faz-me um favor!", pedi eu, já na despedida.
"Se puder..."
"Isto dava uma boa crónica. Importas-te de pôr lá no blogue o meu textinho sobre esta conversa? Eu não posso, porque tenho a net toda arrebentada"
"Não me importo assim muito...".
Passei-lhe o papel para a mão, para ele copiar. Acenei ao Naves e fui fazer as minhas compras de Natal.

Adolfo Ernesto

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quinta-feira, dezembro 13, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (X)

Tratemos de Europa

O eurodeputado estendeu-me o copo, mas a princípio hesitei. Depois, inclinei a garrafa de Quinta dos Carvalhos 2004. Enchi o seu copo e ele ficou visivelmente satisfeito.
“Tu não és o Adolfo Ernesto?”, perguntou, com forte pronúncia da Saxónia.
“Sim. Mas não estou aqui como filósofo político. Estou aqui como empregado de mesa”.
Era a pura verdade. A cerimónia até foi bonita e observei tudo da varanda, onde esperava o banquete. Vi como a Europa deu um passo atrás e dois para a frente. Ou terá sido ao contrário, já não me lembro...
No claustro do velho convento, um cenário magnífico e multicolor. Estavam todos os famosos. Um clima excelente de confraternização.
“O que achaste dos tenores da Europa, Adolfo Ernesto?”, perguntou o poderoso dirigente, que entretanto engolira todo o tinto e pedia reforço. Inclinou-se, entaramelou os olhos, à espera da minha resposta.
Pensara ter assistido a uma assinatura de um novo tratado, mas esta informada pessoa esclarecera-me finalmente sobre a natureza daquele espectáculo de luz e som.
“Não cheguei a perceber bem”, ensaiei, com cuidado, pois não gosto de passar por ignorante. “Chamavam os tenores de cada país, mas nenhum deles cantava; limitavam-se a escrevinhar qualquer coisa no livro. Até pensei que estivessem a dar autógrafos. No fim, até houve uma canção, e ninguém votou nela”.
“Pudera, se a Dulce cantasse mais uma vez, havia uma crise europeia. Só o Sarkozy é que gostou da Dulce, com aquela touca de banho. Os cipriotas estavam prontos para sair da própria União”, explicou o meu interlocutor. “Felizmente, ela parou de cantar, o que impediu a ruptura das negociações”.
Enchi outra vez o copo dele.
“Mas julgo que não entendeste bem o que se passou aqui”, insistiu a personagem. “Mencionei tenores, mas não era de música. Designava os poderosos, a liderança, os que têm”.
“Ah! Mas então, não se diz tenores, mas possidónios, no sentido da posse”.
“Desculpa, mas a vossa maravilhosa língua portuguesa é tão difícil”, lamentou-se, com forte pronúncia da Saxónia. Depois, mudou de tema: “E o que achas desta nova Europa?”
“Tínhamos a tradição de dar 12 pontos à canção espanhola e eles davam 12 pontos à nossa. Era um arranjo simpático. Mas agora é mais difícil, porque há as coligações de países de leste, que competem contra nós pelos pontos. No fim, ganha sempre a canção irlandesa”.
Ele só dizia “wunderbar”. Bar tem a ver com vinho, chamei um colega, que é versado em coisas da bola e tinha na mão uma garrafa de branco, por abrir. E o meu colega meteu-se na conversa do seguinte modo:
“Na Europa, a competição entre clubes é feroz. É preciso evitar os grandes, ou não vamos longe”, disse. “É a sina dos pequenos. Não têm dinheiro para comprar bons jogadores ou bons árbitros e, depois, levam três secos. Mas estes gajos novos do leste são mais nabos e a gente consegue dar-lhes três secos a eles. E, no fim, ganham sempre os alemães”.
O deputado estendeu-me o copo, enquanto abanava furiosamente a cabeça.
“No fundo”, continuei, “há uma concentração de mercado vitivinícola no cabernet sauvignon, ou tendência para que este gosto se torne dominante, tornando invisíveis todos os outros. São as forças do mercado a funcionar, produzindo uniformização e massificação, onde devia existir sobretudo a diversidade. E, no fim, ganham sempre os franceses...”
“Cala-te, Adolfo Ernesto”, pediu o importante político, já convencido. “Pede à Dulce para cantar mais uma canção. Talvez ainda vá a tempo...”

Adolfo Ernesto

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Não se admite

A ausência do nosso Adolfo Ernesto num dia histórico como este.

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quinta-feira, novembro 29, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (IX)



Conversa em futebolês

Adoro discutir futebol, porque ninguém consegue ser racional durante uma discussão sobre futebol e, como sabem, tenho fascínio pelo irracional. Mas há sempre saborosas excepções. No bar futebolândia, onde costumo passar nas noites de derby, só há inteligentes análises e os utentes usam uma linguagem específica, o futebolês, nas suas sofisticadas conversas.
Também vão lá algumas pessoas que usam gel no cabelo.
Ontem, o Pedro e o Francisco estavam a discutir o seleccionador nacional e aquilo contagiou toda a gente. De súbito, não havia ninguém que não estivesse a discutir os méritos do senhor Scolari. Excepto eu, que estava sentado no bar, minding my own business, quando chegou um tipo (de gel na cabeça e cabelo espetado) que me perguntou o que eu pensava das tácticas do senhor Scolari.
“De facto, interessa-me mais a estratégia dele”, expliquei.
“Sem eggs no Hamlets, não acha?”
Fiquei calado, a saborear o meu uísque, enquanto ele desatava numa procastinação sobre acessibilidades, tecnicidade, a cobrança de cantos e a estatística de jogadas de cabeça.
“Acho fundamental poder encostar para o golo, reforçar o flanco esquerdo, mais talento e polivalência”, disse ele, com grande convicção. “Da primeira vez que tocou na bola, o senhor selecionador transformou um defesa de raiz num segundo poste, ainda por cima em crise de forma, apesar do remate forte e colocado. É preciso alavancar mais ataques e vitórias, não acha?”
“Se fala das clássicas vitórias morais, concordo”, respondi, para não parecer indelicado.
“E não teme que isso possa colidir com a nossa tradição da crítica permanente do sucesso?”, perguntou o desconhecido.
“A tradição evolui, como sabe”.
Ele ficou a pensar naquilo, com um ar muito sério.
“E o que acha do quatro, três, três?”
“Sou favorável... em princípio”
“Então, nesta questão, estamos os dois do mesmo lado. É preciso colocar mais unidades junto à baliza adversária, numa lógica de apostar em novos valores com grande categoria e confirmar a liderança com magia e individualismo”.
“Sim”, concordei, “numa palavra: Vencer”.
“Nesse ponto, discordamos. O importante é despedir o treinador”.
Bebi mais um gole (ou seria golo?) do meu uísque. Reflecti. Percebera, naquela conversa, que o sujeito não era adepto do meu clube favorito.
Ele deve ter percebido o mesmo e afastou-se, sussurrando um insulto irrelevante. Notei que tinha dois pés esquerdos, o tipo, além de gel na cabeça.

Adolfo Ernesto

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sexta-feira, novembro 23, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (VIII)



O rapto

O Pedro Correia lançou aqui um rapto ao Luís Naves, para ele dizer aqui qual era a sua crónica favorita. Encontrei o Luís na rua, vinha perturbado, com aquela pança enorme. Falou-me do rapto:
“Sei lá qual é a minha crónica favorita? É o mesmo que me perguntarem qual é o meu livro favorito”, disse ele.
Tentei confortá-lo:
“Para mim, era fácil responder a essa pergunta. Como só li cerca de 15 livros...”
“Talvez tu possas escrever a prosa...”
Ficou logo ali combinado que seria eu a explicar aos leitores isto da arte da crónica.
O melhor cronista que conheço é o Alcibíades, um gigante (muito parecido com o Jimmy Stewart) que está a escrever a crónica desde país tristonho e melancólico, amargurado e sorumbático. Infelizmente, a obra dele ainda não está publicada. O meu amigo ocupa o seu tempo a recortar velhos jornais, na cave onde mora, que está atafulhada de pedaços de textos que ele depois cola e anota, para integrar na sua vasta obra.
(O Naves diz que ele se parece com o Joe Gould “tal como foi descrito pelo genial cronista Joseph Mitchell, na sua obra ‘O Segredo de Joe Gould’”. limito-me a reproduzir o que o Naves disse).
Mas regressemos ao rapto, como se fôssemos Miss Marple a perseguir o professor Moriarty.
O Alcibíades é homem de poucas falas. Quando lhe perguntei o que devia explicar sobre isto da crónica, ele fez um ar pensativo, severo, absorto, cogitabundo e até vagamente sorumbático.
“Há dez regras: sendo a crónica um género literário, é fundamental elevar a hipérbole e desenvolver a substância”.
Fiquei extasiado.
“E as outras nove regras?”, perguntei.
“As outras sete são o prolongamento do ego e a faculdade opinativa, numa perspectiva de realismo brutal”.
“E o que usas para observar a realidade?”
“Prefiro a teleobjectiva aos binóculos”.
O Alcibíades parecia um bonzo imerso em pensamentos cavados, profundos, abissais e desmesurados. Sem dúvida, sorumbáticos.
“Isso torna difícil compreender a verdadeira arte da crónica”, exclamei, verdadeiramente surpreendido, a tentar quebrar aquele solilóquio.
“Dizes bem, Adolfo Ernesto. Uma bela crónica é como uma mulher bela. Nós, homens, gostamos delas redondinhas e esfuziantes”. O Alcibíades perdera o seu ar sorumbático, “Foi por isso que me tornei cronista. A realidade numa crónica é como a curvatura de uma cintura feminina, a redondez de um ombro feminino, a hesitação do artista perante um adjectivo feminino, ou até de um sorriso feminino, enfim, numa palavra, a imprecisão indefinida, mas ao mesmo tempo física e absolutamente concreta”.
“E qual é a tua crónica favorita?”
“Gostei de uma crónica do Art Buchwald, que ele escreveu pouco antes de morrer: o cronista estava num aeroporto, onde esperava um avião para o céu, e transformava a sua crónica numa descrição da confusão dos aeroportos na época de Natal. Um hino à vida e coisa de mestre, com humor auto-irónico que ainda hoje me faz rir e pensar”.
“Então, Alcibíades, a crónica não tem de tratar sempre do efémero?”
“Pode ser fútil, sim, mas anda tão confundida com a opinião editorial que se banalizou, como se tornou banal a espuma na superfície das águas. E, apesar de tudo, pode ir até aos abismos da alma. Há quem consiga”.
Foi mais ou menos assim que ele falou. Confesso que não percebi metade, mas não sou cronista. Limito-me a andar pelo mundo, a relatar o que vejo, aquilo que imagino e o que poderia ser. É esta a minha visão, distorcida pelo meu cérebro com duas metades coladas uma à outra.
Despedi-me do Alcibíades e deixei-o com os seus recortes de jornais, sorumbático, a fragmentar o mundo. "Ah! E não te esqueças de um bocadinho de poesia, que é o mais importante", rematou ainda..."E como isto é uma corrente, passa a bola ao doce poeta lírico".

Adolfo Ernesto

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terça-feira, novembro 20, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (VII)



O programa nuclear

O Hugo é um compincha, mas tem um feitio terrível. Começou a sua carreira como tenente-coronel paraquedista. Um dia, o salto correu mal e ele bateu com a cabeça. Foi aí que lhe surgiu a ideia de ser um típico caudillo latino-americano, porque tinha lido uma aventura do Tintim e aparecia aquele general Alcazar, que também é porreiro. Como o Hugo é voluntarista, dito e feito, agora é caudillo. A nossa amizade remonta ao tempo em que estivemos os dois exilados em Cuba, em tratamento. Ainda lhe chamo Huguito e ele trata-me por Che, que é uma forma de pá: “Tenemos lazos de amistad y hermandad antiimperialista, Adolfo Ernesto”, costuma dizer.
Hoje, o Hugo passou por aqui, em busca de almas gémeas, de companheiros de rota, como dizem os franceses. Fui vê-lo à sala VIP.
“Una viaje peligrosíssima, la antiaérea española intentó abater my avión. Soy el quinto exportador de petróleo del mundo”, estava o Hugo a explicar a um dos funcionários do SEF, que exigia um documento que provasse que o Hugo era quem dizia e não vinha para a emigração clandestina.
Exijo respeto para Irán”, exaltou-se o meu amigo, quando o tipo de SEF lhe perguntou para onde ia o presidente e a comitiva: “Para onde irão?”. Houve ainda uma acesa troca de palavras em torno dos conceitos de presunto implicado, mas tudo se regularizou quando o Hugo me viu. Foi uma grande festa, pá, com abraços e lágrimas. “Ay valores regulares”, dizia o meu amigo Hugo, enquanto me convidava para o visitar no seu país, onde lidera um processo político arrojado e inovador, muito apreciado pela esquerda moderna.
Tu vienes a mi país, para una estancia. Tengo hoteles de la revolución y un programa nuclear. Esse es un nuevo programa en television publica, donde yo soy el nucleo, pois hablo seis horas”.
Estava muito entusiasmado com estas inovações. O Hugo diz que quer transformar o seu, até agora, obscuro país num farol da revolução internacionalista, numa perspectiva dialéctica e de desenvolvimento sustentado.
Portugal será central para criar um eixo imbatível (América Latina, Portugal, Irão), para controlar a energia global e fazer uma finta ao império fascista do senhor Bush e do outro rapaz espanhol, de bigode, que já foi afastado e cujo nome me escapou entretanto.
Portugal es vital para mi estratégia”, explicou o Hugo, com um brilho nos olhos.
Eu já tinha posto o tipo do SEF em sentido, mas ele não desistia de querer controlar. Não se calava:
“Faço votos para que o senhor tenha uma boa estadia neste país”, disse o tolo do funcionário. O que foi ele dizer!
Por que no te callas? Votos? Falaste em votos, espécie de homúnculo pró-americano? Seu lacaio da burguesia putrefacta, seu eurocrata buxista, espécie de drácula da retórica. Eu, quando ouço a palavra votos tiro logo a minha pistola”.
Ainda tentou sacar a pistola, para abater o energúmeno, mas consegui a tempo evitar um novo incidente diplomático.
O Hugo entrara em parafuso, quase em órbita, numa irritação que só uma vez atingiu aquela dimensão tão épica e ciclónica, quando decidiu desmantelar a assembleia nacional, literalmente, pedra por pedra.
Já não há respecto por un idealista”, lamentou-se o Hugo, com um véu de melancolia naquele olhar solidário.
“Sim”, concordei, “Vivemos em tempos muito tristes”.

Adolfo Ernesto

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segunda-feira, outubro 29, 2007

Cadernos de filosofia política de Adolfo Ernesto (6)



Assunto corrente


Não sou menos do que o Pedro Correia e, como nunca fui convidado para uma corrente blogosférica, decidi fazer-me convidar.
Adoro correntes.
Já tive uma corrente e andava com ela ao pescoço, mas não dava bem com a minha tatuagem heavy metal e respectiva personalidade. A tatuagem foi na minha fase Gore, ou fase gótica, não confundir com a minha fase de Al Gore; é que também já fui ambientalista, mas era cansativo andar abraçado a árvores e uma vez fiquei colado a um pinheiro; aquilo deita uma resina que se agarra à pele; agora até acho muito bem que cortem as florestas, sobretudo as resinosas, que são um perigo público; nem de propósito, a tatuagem heavy metal ficou toda estragada, mesmo esfolada, e teve de ser raspada com uma lâmina de barbeiro, mas não vou entrar em pormenores, porque estávamos aqui a falar de correntes...
Uma vez entrei numa corrente para vender umas enciclopédias. Tinha de se pagar 500 euros para entrar. Paguei, mas nunca mais ouvi falar nos enciclopedistas...
É por isso que gosto mais das correntes blogosféricas. Não se paga jóia. Enfim, também é preciso ser convidado e nunca fui convidado, mas também acho isso dos convites uma cena-pequeno-burguesa-como-o-caraças.
Vai daí, o Pedro Correia entrou numa dessas correntes sobre o aspecto aleatório da literatura. Baril, também entro, não sou menos que o Pedro Correia.
Mas à partida não concordo com as regras instituídas. Isto da página 161 parece-me um bocadinho macabro, e tudo. 161 era o número da sala dos electrochoques e faz-me impressão. Como sabem, andei em tratamentos, porque a parte esquerda do meu cérebro não se distingue da direita. Tenho a tola fundida, sou anti-centrista e é por isso que me fascina o radicalismo político-cultural.
Assim, ainda pensei em inverter os termos das regras. Mas o inverso de 161 é 161. Foi então que me lembrei de colocar um zero. Ficou 1610. Quase cabalístico.
Fui à procura da página 1610, quinta frase, um livro ao calhas.
Que excitação! Parecia que estava numa cena à Código da Vinci. Talvez encontrasse um segredo ou uma frase que, vista de certo ângulo, desse para perceber um terrível mistério da humanidade, compreender as mulheres, uma coisa do camandro, sei lá, chekiraut.
Encontrei um livro ao calhas e as minhas mãos tremiam quando cheguei à página 1610. Abriam-se grandes perspectivas. Não conseguia esconder a minha perturbação. Li a primeira frase, li a segunda, engoli em seco, cheguei à quinta frase. Era um diálogo curto. E constava:
"Não".
Suspense. Pausa. Surpresa e perplexidade. Reli:
"Não".
Era isso. Era assim a quinta frase. Horror estupefacto. Comichão nociva. Constatação assombrosa. Apenas "não"?
Fechei o livro. Entreguei-o à estante, esquecendo até o título. Depois, peguei noutro. O mesmo método. A quinta frase dizia: "Silva, Luís, Ave. das Madressilvas, 44, 3º esq., tel. 54678922". Cruel decepção.
Mas tenho de levar o esforço às últimas consequências. De acordo com as regras, deixo aqui a corrente para os meus amigos Tó Zen, o poeta; Mike, o movie director; Vladimir, o espião; e João Villalobos, o ex-jogador de râguebi.

Adolfo Ernesto

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sexta-feira, outubro 26, 2007

Cadernos de filosofia política de Adolfo Ernesto (5)



Uma visita ao oceanário

O Vladimir é um russo depressivo e estava encostado, com ar lastimável, a uma das paredes do Oceanário. Gabardina cor de creme, óculos escuros. Viu-me, saudou-me sem spleen. De repente, muito pálido, desatou a vomitar na branca calçada portuguesa.
“Adolfo Ernesto, não suporto o cheiro a peixe”, disse o Vladimir.
“Pensei que tivesses estômago forte”, afirmei, numa alusão a uma carreira brilhante na espionagem internacional. Depois, perguntei-lhe o que estava ali a fazer e que era aquele ajuntamento.
(Ainda não expliquei que deambulava pela zona quando me deparei com forte aparato policial, algo que desperta sempre a minha curiosidade).
“O presidente sovié.. quero dizer, russo... está de visita e quis ver Eusébio e Amália”, explicou o Vladimir, num tom conspirativo. “Mas não te posso dizer mais do que isto”.
Passámos muita coisa juntos, eu e o Vladimir, quando estivemos uma temporada no sector da construção civil. Foi o suficiente para perceber que com aquele tom de voz não se brinca. Entretanto transformado num agente com anos de tarimba, ele é o novo chefe das operações do ex-KGB na zona oriental de Lisboa, com especial atenção aos bairros de Chelas e Madragoa, em cujos bas-fond circulam numerosos segredos internacionais vendidos a peso de ouro.
(Outro esquecimento da minha parte: Vladimir é nome de guerra; ele chama-se, de facto, José, como o grande José Estaline; após uma conturbada juventude, marcada por sexo, loucura e droga, e a tal passagem pela construção civil, teve uma meteórica ascensão na espionagem, com destaque para a descoberta de todos os segredos nucleares portugueses).
“Mas porquê o oceanário, Zé?”, perguntei, ingenuamente.
Vladimir teve um esgar de alarme, talvez escandalizado com a minha pergunta.
“Já expliquei, Adolfo Ernesto. O líder pediu para ver Eusébio e Amália e ouvi dizer que estavam os dois aqui”.
Nisto, o presidente saiu do oceanário, visivelmente irritado. Desceu a rampa, direito ao bravo espião e passou-lhe logo ali um raspanete.
“Aquilo, lá dentro, só tem tubarões, um tipo de peixe que conheço bem. Quero ver Eusébio e Amália! Investigue! Entretanto, vou ali praticar karaté com aqueles transeuntes portugueses”.
O Vladimir manteve enorme frieza e presença de espírito. Só mais tarde começou a chorar no meu ombro:
“Vão pôr Polónio 210 no meu chá! É muito amargo”
“O Polónio 210 é amargo?”
“Não. Amargo é o meu destino. Nisso, somos muito parecidos, os portugueses e os russos, o destino amargo, a fatalidade”.
Foi então que me ocorreu que talvez houvesse ali um equívoco simples: o presidente quisera ver Eusébio, o jogador de futebol, e Amália, a cantora de fado. Não quisera ver as duas lontras do oceanário com aquele nome.
“É uma mania que têm aqui, baptizar os animais com nomes famosos. As barracudas, por exemplo, têm nomes de ministros”, expliquei.
De súbito, o Vladimir caíra em si. Tratava-se de um gigantesco erro de análise.
“Horror, horror”, gritou o agente secreto, enquanto desatava a correr atrás do seu líder. “Serei chamado a Moscovo. E, depois, enviam-me para a Sibéria!”
Ao vê-lo partir para sempre, pensei, sem alarme: há pessoas que não mudam.

Adolfo Ernesto

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quarta-feira, outubro 24, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (IV)



O meu amigo Mike


Fui ver a ante-estreia do último filme do meu amigo Mike, Sicko, sobre o estado deplorável a que chegou o sistema de saúde americano. O meu lado guevarista exultava e, claro, a minha metade hitleriana estava feliz, por a América entrar em crise.
As luzes ainda estavam acesas, lá estava o meu amigo, a ocupar duas cadeiras e a dizer a toda a gente:
Hello, I’m Michael Moore, the pain-in-the-ass movie director”.
Aproximei-me. Ele fez uma grande festa:
How are you, Adolphe Ernest?”, perguntou, naquele vozeirão.
I’m in the biggest”, disse eu, no meu beautiful english.
And your lovely girlfriend?”
“Still good as the corn”.
Give me a hug”.
O Mike avançou, agarrou-se a mim, mas como é uma bisarma esmagou-me duas costelas, num abraço fraterno que também me torceu uma vértebra.
Fiquei dorido, sem fôlego. Tive de ser retirado da sala, com dores horríveis, acompanhado pelo Mike, que não parecia preocupado. Ele disse que não havia problema, pois Portugal tem um sistema de saúde universal e gratuito e, por isso, uma lesão destas não seria caso para tanta preocupação da minha parte:
In the states you would pay 600 thousand bucks for that, man”.
Ainda fiquei mais aflito. Coitados dos americanos.
Chamámos uma ambulância dos bombeiros e o Mike ficou muito excitado com aquilo de serem bombeiros e quis que eles se alinhassem numa formatura, para ver como eram os bombeiros portugueses, esses heróis. A cerimónia durou bastante tempo. O Mike distribuiu medalhas, houve lágrimas por causa do 11 de Setembro. As minhas dores aumentavam. Gemi, para ver se alguém me levava ao hospital.
Lembrei-me de um truque que vira em Casablanca, o filme:
What watch?”, perguntei, para ver se eles percebiam que se fazia tarde.
Ten watch”, informou um bombeiro.
Such much?”, três gargalhadas depois estava prestes a entrar em coma. Finalmente, recebi a atenção que merecia.
Fomos até ao centro de saúde do meu bairro. O elevador estava avariado e tivemos de subir quatro andares a pé. As dores aumentavam. Lá em cima, quando perguntei pelo médico de família, a funcionária desatou a rir-se.
“Não vejo o doutor há dois meses”.
O Mike só dizia:
You guys have a great system. Mr. Bush should see this. You don’t pay”.
Tentei explicar-lhe que não havia médico, mas ele tinha resposta para tudo:
You must bring some cubans”.
Afinal, estávamos também no sítio errado. De acordo com os dados do meu cartão de utente, eu estava no sítio errado. Para aquele problema, teria de atravessar a cidade.
“Mas, os bombeiros já se foram embora...”
Those heroes...”
“Que quer que lhe faça”, disse a funcionária, “apanhe um táxi”.
Estávamos ali num impasse, quando o Mike começou a vestir uma luvas cirúrgicas, enquanto me dizia que, durante as rodagens do seu novo filme, tinha aprendido muito sobre medicina. Os tipos fartam-se de fazer dinheiro, com isso, explicou ainda.
Não posso dizer que o tratamento de emergência tenha sido suave, ou algo assim. Foi duro, mas salvou-me a vida. O Mike é um amigo catita. Um compincha. Depois, apanhámos um táxi e fomos ao tal hospital, para os pensos. Recebi umas aspirinas, fui mandado para casa e, como não tinha dinheiro para as taxas moderadoras, o Mike teve de pagar. Ele estava furibundo. Um escândalo, gritava.
And this is a socialist country! Outrageous!”


Adolfo Ernesto

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sexta-feira, outubro 19, 2007

Cadernos de filosofia política de Adolfo Ernesto (3)




O primeiro círculo do inferno


Na filosofia política, sempre me intrigou a questão do populismo, que ficou agora mais actual com a discussão sobre o novo líder do PSD.
Nada melhor do que confrontar um especialista na matéria, pensei. No caso, dois.
A ideia de esclarecer a importante questão surgiu-me, ao saber que havia ontem uma cimeira em Lisboa, para aprovar o tratado europeu, aquele que foi rejeitado mas que agora revive como um zombie. Mas permitam-me primeiro explicar a geografia da questão, ou seja, que em termos policiais a cimeira funcionava em círculos concêntricos, com restrições cada vez mais fortes, à medida que me aproximava do centro da negociação, o núcleo onde estavam os meus especialistas, os gémeos Kaczynski, da Polónia, os dois famosos populistas que ontem consultei.
Não entro em pormenores sobre a maneira como me infiltrei através das barreiras policiais. Digo apenas que fui brilhante e corri muitos perigos.
Iludi a vigilância de 1352 polícias e cheguei a um corredor (tinham posto os polacos num canto das instalações, atrás do sol posto), onde estava o camarim dos gémeos. Mal os vi, interrompi a conversa em polaco e fui logo ao assunto, no meu melhor inglês técnico.
Um dos gémeos ainda estranhou o meu bigodinho à Hitler e a boina de Guevara, tive que explicar o meu caso de cérebro com as duas metades (esquerda e direita) fundidas.
"Precisamos de focar", disse eu. E tive de repetir, por um defeito de pronúncia, o "ou" da palavra inglesa focar tem de ser prolongado e eu disse um "fa" seco.
"Como te compreendo, Adolfo Ernesto", interrompeu o primeiro gémeo, a rir-se imenso da minha pronúncia. "Também eu sofro de um mal semelhante. Odeio os comunistas e os fascistas. É um pouco estranho, detesto-os, mas tenho tiques de ambos".
Então, entrei na questão que me trazia ali, o populismo.
O outro gémeo, que era o mais articulado, deu-me então uma grande lição de filosofia política:
"Esquece esse assunto. O populismo está a acabar. A Europa inventou um novo conceito político: o impopulismo. Estamos aqui no primeiro círculo do inferno num tal isolamento que aprovámos um tratado que, se fosse votado, era rejeitado. Passámos um dia inteiro a discutir quem ficava com o último deputado. A falar de vírgulas, com ar muito importante. O povo, no sétimo círculo do inferno, protestava, e nós, aqui mais dentro, fazíamos história, decidindo aprovar um texto que já chumbou uma vez. O tratado tinha de ser aprovado, com este nome ou outro qualquer, independentemente do que pensar a Europa real".
"Cheguei a pensar que os polacos nos iam salvar", disse eu, sagazmente.
"Não foi possível, estamos muito deprimidos. É que não aguentamos a rejeição e fomos enviados aqui para trás do sol posto. Ninguém gosta de nós, aqui no primeiro círculo. E, como somos populistas, assinámos imediatamente, rendidos aos novos ventos. O impopulismo é a verdadeira revolução desta era, como prova o vosso primeiro-ministro, que ouve cada vez menos o seu povo, que levou teimosamente até ao fim um tratado que ninguém quer e que ele jamais conseguirá explicar. Nós, os populistas, estamos ultrapassados. Finita la commedia".


Adolfo Ernesto

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segunda-feira, outubro 15, 2007

Encontro ao fim da tarde


Encontrei o Adolfo Ernesto, de faces avermelhadas e com os bofes de fora, em plena busca por uns lombinhos de carne argentina num Pingo Doce ali para os lados do Arco do Cego. Poucos o saberão, mas foram dois irmãos portugueses que levaram as primeiras vacas até ao país das pampas. E foi isto mesmo o que lhe disse, após apertar-lhe com genuíno regozijo a mão algo suada. Sem que nada o fizesse prever, numa reacção incompreensível, logo desatou aos gritos comigo em pleno corredor dos lacticínios. Indiferente aos olhares, em especial os lançados por um simpático casal de lésbicas estupefactas e semelhantes a suricates que connosco partilhavam a secção dos congelados, vociferou que eu podia - palavras suas - «enfiar a tua retórica pedagógica à Hermano Saraiva no mesmo lugar em que se encontra o dicionário de rimas, ó poeta de peluche». De início, assustei-me deveras e alertei-o para a subida da tensão. Mas logo percebi o que realmente apoquentava o meu amigo de longa data (sou aliás um dos poucos a conhecer a causa da troca de diversos fusíveis no interior da sua larga cabeça): Confessou-me que o desabafo decorria da pressão de ter já, por duas vezes, colocado textos no Corta-Fitas com um sucesso incomensurável e dezenas de comentários. Sofria agora - explicou-me após sorver um chá de tília na pastelaria vizinha - de um daqueles bloqueios que surgem após um início tão auspicioso quanto criador de uma expectativa colectiva. Os leitores, e em especial as leitoras, aguardavam agora uma série de «postas» (ele diz mesmo assim, postas) ainda mais brilhantes do que as primeiras.
Confesso que, ao ouvir um dislate daquele calibre, reprimi a custo uma gargalhada tonitruante. Mas a expressão façanhuda, acentuada pelo cofiar nervoso da barba, não dava lugar a qualquer dúvida: O Adolfo falava a sério. Despedi-me prometendo que escreveria umas palavras aos leitores, preparando caminho para o seu regresso. Agradeceu-me, quase sorriu e o ânimo inchou-lhe o peito com a vontade férrea da escrita. Já sem olhar acenou-me apenas, enquanto escrevia as primeiras palavras da «posta» na toalha de mesa. Quais foram elas em breve saberemos.

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sexta-feira, outubro 12, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (2)



A cadeira 13

O meu amigo Tó Zen esteve ontem à espera de um telefonema de Estocolmo. De manhã, olhou para o telefone e esperou que ele tocasse. Ficou cinco horas em frente do aparelho. Só mais tarde lhe disseram que uma velhinha inglesa tinha ganho.
“Confundiram os números de telefone. Já aconteceu no ano passado, com aquele rapaz turco”, explicou, encolhendo os ombros. “Não estou apenas na short list. Sei que ganhei pela segunda vez consecutiva”.
O Tó Zen frequenta o grupo de poetas exóticos do Atheneu de Gymnástica. Há também uma promissora adolescente (três sonetos e uma soneca), o poeta fofinho e um quixotista, além do autor mais fragmentado do mundo (entre outros).
As sessões são às terças, numa salinha do canto que alugaram ao grupo de maduros. O Tó Zen ocupa a cadeira 13, a única que está sempre vaga, porque aqueles que a ocupam têm imensa sorte. O anterior foi o Nunes da Seiva, de 95 anos, poeta com cerca de dois livros publicados e que nunca abriu a boca nas sessões de discussão literária. Só foi a uma reunião, porque estava conotado com a ala neo-realista e os existencialistas coligaram-se com os modernistas, porque o único pós-moderno, o Tó Zen, não chegou a votar por estar à espera do telefonema de Estocolmo, coisa que não lhe acontece apenas nos dias 11 de Outubro, mas todos os dias 11. O Nunes da Seiva acabou por ser expulso e perguntam-me, como justificar a anterior afirmação de que a cadeira 13 dá sorte? O facto é que ele ficou todo contente por ter sido expulso.
Tirando a política literária, onde é centrista, Tó Zen é esteticamente um radical como eu. “Sou um radical como tu, Adolfo Ernesto”, costuma dizer o poeta. “Não tenho o lado esquerdo do cérebro misturado com o direito, não uso bigodinho à Hitler e boina à Guevara, mas sinto-me radical. É um estado de espírito”.
Há, de facto, certo radicalismo na sua postura poética, embora não seja tão avançado como eu, que radicalizei os dois lados da minha realidade.
Os títulos mais importantes da obra poética do Tó Zen são, e cito exemplos gritantes, “a descontinuação das empresas” ou o “desenvolvimento das matas e florestas”, ou ainda “a minha vida sem défice”. Arranjar as rimas para este último foi tarefa de génio. Ele também é especialista em Haiku e escreveu um genial, sobre um enfermeiro a dar a injecção no paciente. E, como dizia o outro, o poeta é um fingidor, como se demonstra pelo facto do Tó Zen nunca ter dinheiro e, portanto, viver em défice crónico, como o País (eu sei que Sócrates não acredita, mas o défice é um estado de espírito).
Agora, eu e o Tó Zen somos também colegas. Na semana passada, quando lhe disse que ia escrever no Corta-Fitas, convidou-me para participar numa sessão do grupo de poetas exóticos do Atheneu de Gymnástica, onde todos os membros têm assento numa cadeira. A minha tinha só três pernas e aquilo mexeu comigo, pois uma parte de mim detesta discriminações. Também mexeu porque balançava e enjoei. Era a número 13, reparei. A dedicada aos pós-modernos. O Tó Zen aproveitou para ocupar a cadeira número 11.
“Como ganhei duas vezes o prémio de Estocolmo, acho que a minha obra pode agora evoluir para um estilo menos radical, Adolfo Ernesto”, explicou-me ele.

Adolfo Ernesto

Imagem: adolescente, poeta fofinho, quixotista e autor fragmentado cumprimentam o vate

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