Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Ainda é sexta-feira?

Sarai Givati, numa produção do Daily Mail.

Este ditador vem a Lisboa (13)


Meles Zenawi

Primeiro-ministro da Etiópia desde 1995 (onde o cargo de presidente é quase só cerimonial). Tem 51 anos.
Numa guerra, como é sabido, a primeira vítima é a liberdade de imprensa. Uma regra válida para a Etiópia, que tem andado em guerra com a vizinha Somália. Prisões e deportações de jornalistas são uma constante neste país que passou sem transição do domínio de um monarca absoluto para um dos mais asfixiantes regimes marxistas-leninistas do continente africano. A promessa de democracia nunca passou do papel: a "eleição" de 2005 foi considerada fraudulenta pela comunidade internacional. Todos os jornais que ousaram denunciar a fraude foram encerrados enquanto os mais destacados opositores do chefe do Governo eram detidos. Existem centenas de presos políticos, parte dos quais nunca submetida a julgamento. Têm melhor sorte do que os 193 mortos em 2005, pelas forças de "segurança", durante uma manifestação de protesto contra o Executivo.
Os métodos de tortura da polícia etíope, de acordo com a Amnistia Internacional, incluem choques eléctricos e violentas cacetadas nos pés das vítimas, penduradas de cabeça para baixo. "Na prisão de Kaliti, pelo menos 17 detidos foram liquidados nas suas celas", denuncia aquela prestigiada organização, galardoada com o Nobel da Paz.
Zenawi é um déspota. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Homo Socraticus (2)

José Luis Rodríguez Zapatero é líder incontestado do PSOE (socialistas espanhóis) e o quinto presidente do Governo desde a mudança para a Democracia (que diferença connosco, contem quantos primeiros-ministros tivemos). Ganhou as eleições em 2004 (um ano antes de Sócrates) e desde aí mandou regressar as tropas do Iraque (e mandou outras para o Afeganistão), começou a negociar com os terroristas da ETA e legalizou o casamento entre homossexuais. É um modernaço e, como já me disseram alguns "periodistas" do país vizinho, é "um clone" de Sócrates.
Tive acesso ao "índice presidencial e de cenários políticos" em Espanha de Outubro, da autoria do conhecido consultor político José Luis Sanchís e fiquei meio surpreendido, meio conformado. Sanchís, para quem não sabe ou não se lembra, foi o homem que ajudou Francisco Sá Carneiro a ganhar as legislativas de 1979 e que inaugurou a comunicação política em Portugal. Ele diz que Zapatero (59%) tem mais hipóteses que Rajoy (41%) de vencer as próximas legislativas. Mas alerta para o facto de alguns temas ainda poderem baralhar as contas: a presidência do Tribunal Constitucional e a sua decisão sobre o estatuto da Catalunha; a ocorrência de algum atentado da ETA ou de cariz islâmico; uma crise de infraestruturas em Barcelona; e as posições "soberanistas" face à Catalunha e ao País Basco.
Ao menos, por lá, ninguém dá nada por adquirido. Por mais adquirido que possa parecer, à primeira vista.

Uma sexta-feira altruísta

Este belíssimo Baby Doll que suspira «classe» foi fabricado com chifon multifibras e é ideal para completar qualquer celebração. Agora que o Natal se aproxima, oferte-o à sua cara-metade e termine o ano de forma mais cor de rosa. (Modelo não incluída)

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Para eles, isto é uma coisa boa

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Se não é, parece

Intitula-se «A Culpa dos McCann». O autor é Manuel Catarino, chefe de redacção do Correio da Manhã e quem escreve o prefácio é Francisco Moita Flores. Livro, capa e mais informações têm embargo até dia 3 de Dezembro, mas a editora Guerra & Paz vai avisando: «O título deste livro, A Culpa dos McCann, não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida. Este livro é essencialmente um trabalho jornalístico (…) Não aponta um dedo acusador aos McCann». Claro que não. Que disparate! Enfim…Há notas de imprensa capazes de ensinar spin ao vigário.

As leis do mercado (4)


Nas últimas duas décadas as dívidas à banca substituíram os filhos como garante da estabilidade matrimonial. Prevê-se que a situação se inverta à medida que o mercado de arrendamento se for animando.

Zzzzzzzzzzzzz

Às duas e quarenta da madrugada, pázinhos! É a essa hora que a RTP anuncia a transmissão do programa de Rui Ramos «O Portugal de...», hoje com Miguel Esteves Cardoso. Quantas italianas duplas querem que eu engula? O que me vale é a certeza de que a festa de aniversário da Casa Fernando Pessoa terá todos os condimentos para afugentar o sono.

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Falemos de coisas sérias


Alguém tem aí 500 notas destas que possa dar a António Costa? Estou um bocadinho farto de eleições.

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Friday's special


Pouco depois de Liduvina ter saído, entrou o cão.
Vem cá, Orfeu – disse o dono – vem cá! Pobrezito, que já tens poucos dias para viveres comigo! Ela não te quer lá em casa. Mas aonde te vou largar? que vou fazer de ti? que serás tu sem mim? És capaz de morrer, eu sei! Só um cão é capaz de morrer quando não vê o seu dono. E eu fui mais que o teu dono, fui o teu pai, o teu deus! Ela não te quer lá em casa, afasta-te de junto de mim! Porque tu és o símbolo da fidelidade, estorvarás lá em casa? Quem sabe!... Acaso um cão surpreende os mais secretos pensamentos das pessoas com quem vive e embora se cale... Mas eu tenho de me casar, não tenho outro remédio senão casar-me... De contrário, sabes, nunca mais deixo de sonhar! E tenho de despertar.
Mas porque me olhas desse modo, Orfeu? Parece que choras sem lágrimas... Queres dizer alguma coisa? Vejo que sofres por não poderes falar. Mas depressa me apercebi que tu não sonhas! Tu é que me estás a fazer sonhar, Orfeu! Porque é que existem cães, gatos, cavalos, bois, ovelhas e animais de toda a espécie e sobretudo domésticos? Na falta de animais domésticos para descarregar o peso da animalidade da vida, o homem podia chegar à sua humanidade? Se o homem não tivesse domesticado o cavalo, não andaria uma parte da nossa linhagem às costas da outra metade? Sim, é a vós que se deve a civilização. E também às mulheres. Mas não será a mulher outro animal doméstico? E se não houvesse mulheres, os homens seriam homens? Ah, Orfeu, vem de fora quem da casa te põe fora!
E apertou-o contra o peito e o cão, que parecia estar de facto a chorar, lambia-lhe a barba. – Miguel de Unamuno in Névoa

Já, pois!

Esperem aí! Acho que a Susan Ward que procurava era outra...

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Thank God it's Friday


Gwyneth Paltrow

Já é sexta-feira?

Consegui chegar a tempo?

Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Declaração de voto

Para além do bem escrito que está, da reconstituição brilhante de uma época e tudo o mais, o que me intrigou em Glória, de Vasco Pulido Valente, foi o "chico-espertismo" do herói do livro. Porque é que alguém perde anos de vida a biografar uma figura menor é algo que me escapa. E se as crónicas semanais do VPV são de adesão imediata - amar ou odiar - a entrevista que deu ao Expresso é, para mim, um mistério. O cronista que não esconde o quanto ficou aborrecido com as inconfidências factuais do livro de memórias de Maria Filomena Mónica não pestaneja quando faz declarações surpreendentes sobre assuntos que temos como íntimos, como é o caso da relação com a filha ou com as mulheres com quem casou. Qual a linha que separa o íntimo do privado? Pulido Valente não explica, temos que adivinhar. É perturbante, sem dúvida. Voto nele. Vou lá clicar.

Palavras para ocasiões especiais (5)

Façanhudo

Nas colunas

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Cinema Nostalgia (19)


No tempo em que na lua havia rios

Há aparições na tela que ficam para sempre gravadas na memória do cinema. Uma das mais inesquecíveis é a de Audrey Hepburn à janela do seu apartamento novaiorquino, de viola na mão, cantando uma melodia que Henry Mancini compôs para ela como se estivesse em estado de graça: “Moon River”.
Cantava num sussurro, ao jeito da bossa nova. Talvez não por acaso: nesse filme – Breakfast at Tiffany’s (1961) – ela representava uma “boneca de luxo”, pronta a rumar ao Brasil, onde daria um presumível golpe do baú. E chega até a pronunciar umas frases num português bem perceptível.
O golpe jamais se concretiza: Audrey troca a miragem da fortuna por um amante sem dinheiro. E em nenhuma outra actriz isso soava tão credível. Da novela ácida de Truman Capote, Blake Edwards fez uma deliciosa comédia romântica que ainda hoje parece não ter ganho rugas. Um filme só possível por incluir Audrey à cabeça do elenco: ela deixava sempre um rasto de fascínio na tela. Todas as películas que protagonizou perduram no subsconsciente do espectador.
O que havia nela de tão especial? Uma espantosa fotogenia que desafiava os padrões de Hollywood à época, sem dúvida. Mas, mais que isso, dela se poderá dizer o que Truman Capote escreveu sobre Holly Golighly, a rapariga de província que desembarca em Nova Iorque para satisfazer todos os sonhos: “Ele triunfava sobre a fealdade, o que tantas vezes é mais sedutor que a verdadeira beleza.” Como se o autor de Música Para Camaleões soubesse de antemão quem encarnaria a sua criação literária na adaptação para cinema.
Com aquela silhueta esguia e um par de olhos capazes de iluminar a escuridão de uma viagem ao fim da noite, Audrey Hepburn triunfou sobre a fealdade numa sucessão de obras-primas que a transformaram num dos maiores ícones da modernidade forjados nas salas de espectáculo. Quer fizesse de manequim (Funny Face, de Stanley Donen, 1957) ou de religiosa (A História de uma Freira, de Fred Zinnemann, 1959), em épicos como Guerra e Paz (de King Vidor, 1956), em westerns como O Passado não Perdoa (de John Houston, 1960) ou até em fitas de espionagem (Charada, outra vez de Donen, 1963). Milhões de jovens dos anos 50 imitaram-lhe o original penteado quando a viram cortar o cabelo numa cena de Férias em Roma (William Wyler, 1953), filme que lhe valeu o Óscar com apenas 24 anos. Lançaria uma nova mode de calçado baptizada com o nome da sua personagem ao interpretar Sabrina (Billy Wilder, 1954). E deu uma sofisticação sem par ao cockney londrino com a sua fabulosa Eliza Doolittle, em My Fair Lady (George Cukor, 1964).
“As pessoas julgam que uma estrela de cinema tem necessariamente um ego gigantesco. Na verdade, é essencial não ter ego nenhum.” São ainda palavras de Capote nesse tratado sobre as luzes e sombras da sedução que é Breakfast at Tiffany’s. Palavras que parecem aplicar-se em cheio à tocante fragilidade de Audrey, actriz mais etérea do que carnal, nos antípodas de várias divas suas contemporâneas, como Kim Novak ou Ava Gardner.
Tantos anos depois, é ainda o fio da sua voz que irrompe entre as nossas melhores recordações das noites de cinema: “Oh dream maker, you heart breaker, / Wherever you’re going I’m going your way...”
Onde quer que vamos, ela acompanha-nos. E se ela nos disser que existem rios na lua, nem por um instante somos capazes de duvidar.

Publicado no DN

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Homo Socraticus (1)

O senador norte-americano Barack Obama é uma figura de proa do Partido Democrata, entrou na corrida às presidenciais de 2008 e, dizem, tem sex appeal. Também usa aqueles fatinhos escuros muito apertadinhos, gravatas monocolores e tem um discurso feito à medida. Usa a comunicação como ninguém. Ah, ao fim de semana usa o tal fatinho completo com camisa branca e sem gravata. É o mais descontraído que o conseguem apanhar.

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (IX)



Conversa em futebolês

Adoro discutir futebol, porque ninguém consegue ser racional durante uma discussão sobre futebol e, como sabem, tenho fascínio pelo irracional. Mas há sempre saborosas excepções. No bar futebolândia, onde costumo passar nas noites de derby, só há inteligentes análises e os utentes usam uma linguagem específica, o futebolês, nas suas sofisticadas conversas.
Também vão lá algumas pessoas que usam gel no cabelo.
Ontem, o Pedro e o Francisco estavam a discutir o seleccionador nacional e aquilo contagiou toda a gente. De súbito, não havia ninguém que não estivesse a discutir os méritos do senhor Scolari. Excepto eu, que estava sentado no bar, minding my own business, quando chegou um tipo (de gel na cabeça e cabelo espetado) que me perguntou o que eu pensava das tácticas do senhor Scolari.
“De facto, interessa-me mais a estratégia dele”, expliquei.
“Sem eggs no Hamlets, não acha?”
Fiquei calado, a saborear o meu uísque, enquanto ele desatava numa procastinação sobre acessibilidades, tecnicidade, a cobrança de cantos e a estatística de jogadas de cabeça.
“Acho fundamental poder encostar para o golo, reforçar o flanco esquerdo, mais talento e polivalência”, disse ele, com grande convicção. “Da primeira vez que tocou na bola, o senhor selecionador transformou um defesa de raiz num segundo poste, ainda por cima em crise de forma, apesar do remate forte e colocado. É preciso alavancar mais ataques e vitórias, não acha?”
“Se fala das clássicas vitórias morais, concordo”, respondi, para não parecer indelicado.
“E não teme que isso possa colidir com a nossa tradição da crítica permanente do sucesso?”, perguntou o desconhecido.
“A tradição evolui, como sabe”.
Ele ficou a pensar naquilo, com um ar muito sério.
“E o que acha do quatro, três, três?”
“Sou favorável... em princípio”
“Então, nesta questão, estamos os dois do mesmo lado. É preciso colocar mais unidades junto à baliza adversária, numa lógica de apostar em novos valores com grande categoria e confirmar a liderança com magia e individualismo”.
“Sim”, concordei, “numa palavra: Vencer”.
“Nesse ponto, discordamos. O importante é despedir o treinador”.
Bebi mais um gole (ou seria golo?) do meu uísque. Reflecti. Percebera, naquela conversa, que o sujeito não era adepto do meu clube favorito.
Ele deve ter percebido o mesmo e afastou-se, sussurrando um insulto irrelevante. Notei que tinha dois pés esquerdos, o tipo, além de gel na cabeça.

Adolfo Ernesto

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Pacheco em baixa

José Pacheco Pereira, com 42 votos, desceu para o quinto lugar no nosso inquérito. Atrás de Vasco Pulido Valente (173 votos), Miguel Sousa Tavares (71), Rui Ramos (50) e Alberto Gonçalves (46). Isto promete.

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Palavras que odeio (46)

Rentabilidade

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Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Palavras para ocasiões especiais (4)

Castanholas

Nas colunas

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Um erro

Como devem imaginar, se há coisa sobre a qual não me apetece escrever é sobre o Manchester United-Sporting Clube de Portugal, de ontem. Mas devo a mim mesmo uma ou outra observação. Digo apenas e só que o Sporting jogou lindamente na primeira parte, podia ter marcado um segundo golo (aliás marcou um, mal anulado) e acabou por cair depois do intervalo. Não sei o que se passa, mas a equipa não é a mesma. Sobre Paulo Bento, que tem feito do melhor e do pior nos últimos tempos, só uma nota: não percebi durante muito tempo a insistência em Djaló (que ainda tem que comer muita papa para ser um Jogador a sério), tal como não compreendi a aposta insistente no Purovic em Old Trafford. Num jogo rápido, de taco-a-taco, Purovic foi um jogador perdido na frente de ataque, que nem sequer prendia os defesas do United. A substituição que devia ter sido feita ao intervalo era a saída deste para entrar Vukcevic. Leandro Romagnoli, esse, ficaria sempre em campo. É por estas e por outras que Paulo Bento começa a ver a sua cabeça no cepo.
Sobre a "polémica" entre Filipe Soares Franco e Carlos Queirós, só me ocorre de momento pensar e dizer que um Presidente de um clube como o Sporting não entra em "diálogo" com um treinador-adjunto de um clube. Seja ele qual for. Mesmo que esse treinador-adjunto tenha em tempos trabalhado em Alvalade e tendo em atenção que o clube em causa é só o nosso melhor "cliente". Por falar em cabeça no cepo...

Este ditador vem a Lisboa (12)


Mswati III

Rei da Suazilândia desde 1986. Tem 39 anos.
Ao contrário dos monarcas europeus e asiáticos, cujos poderes são drasticamente condicionados pelas constituições dos seus países, o da Suazilândia é um monarca absoluto: cabe-lhe a última palavra nos domínios legislativo, executivo e judicial. A "liberdade de expressão", a "liberdade de reunião" e a "liberdade de manifestação" são reconhecidas por lei, mas podem ser suspensas por decisão discricionária do monarca, como tem acontecido com excessiva frequência. Os partidos políticos estão proibidos neste país que regista a maior taxa mundial de infectados com o vírus HIV - 42%. A corrupção é outro dos problemas mais graves deste pequeno reino da África Austral, onde a violência policial e a tortura fazem parte do quotidiano, segundo denuncia a Amnistia Internacional.
Mswati III é um tirano. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Os homens e os sacos ou nós e os sacos…

Podes trazer-me um saco para colocar os sapatos? Podes trazer-me um saco para colocar uns brinquedos? Podes trazer-me um saco para colocar uma roupa? Qualquer uma destas perguntas feita a um homem só tem um resultado: eles aparecem sempre com um saco de plástico, daqueles que nos são dados no hipermercado em quantidade e que utilizamos, posteriormente, para forrar o caixote de lixo. Confesso que não entendo porque um saco para um homem é sempre um saco de plástico, independentemente da função que lhe vai ser dada. Depois, voltam para trás, com um ar muito enfadado, como quem diz: what ever. Mas quando, finalmente, trazem a nova versão de saco e exclamamos “Isto sim é um saco!”, percebemos que não é por mal. São só as diferenças entre o cérebro feminino e o masculino a vir ao de cima.

O chá ou a falta dele


O primeiro-ministro acha muito mais importante cumprimentar Bernard Kouchner, Javier Solana, Nicolas Sarkozy, Angela Merkel, Gordon Brown, José Manuel Durão Barroso, entre outros, do que o seu "ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros". Kouchner, por acaso MNE francês, reparou e não deixou Luís Amado de mão pendurada. Um Senhor. A Euronews fez esta bela peça, que realmente diz tudo, na sua rubrica No Comment. E não é preciso, pois não?

Por que não te calas?

Há um palerma de um blogue chamado Câmara Corporativa que insiste em visar-me. Ora alega que fui, enquanto editor, um "censor", ora dá a entender que sou muito amigo do dono de uma agência de comunicação (por acaso até sou, mas de várias agências, concorrentes entre si). No limite até disse que eu, "pela calada", tinha apagado o link para o seu blogue de terceira categoria da nossa lista lateral. Na verdade nem fui eu, mas aplaudo a medida. Este palerma, que não tem outro nome, não dá a cara. Atreve-se a chamar os piores nomes e a lançar as piores infâmias sob a capa do anonimato. "Miguel Abrantes", nome que nem merece usar, é na verdade um pequeno grupo de dois ou três boys ligados ao Governo, uns spin-doctors de meia tigela que, a soldo de quem bem sei, resolvem denegrir quem bem lhes apetece, deixando sempre impoluto o seu governozeco. Ó "Miguelito", faça o que lhe apetecer, a mim é-me perfeitamente indiferente o que escreve, diz e lança para aí. Vocês, situacionistas, não me conhecem, mas eu sei quem vocês são. A diferença entre nós é só essa. Se conhecessem, não diriam as bestialidades que têm dito ou que têm dado a entender.

A má educação

Parece-me de quase total ineficácia a catequização da moral cívica oficial, pregada pelo regime no ensino escolar. Sei por experiência própria os resultados práticos das “lavagens de cérebro” efectuadas aos miúdos, massacrados desde a creche pelos bons princípios do amor à natureza, do amor à reciclagem e à solidariedade universal - bem mais bombástica e fácil do que a mesquinha e concreta “caridade” (palavra maldita) doméstica.
Sempre me pareceram deprimentes aquelas festas das escolas dos nossos miúdos (tenho em casa quatro saudáveis exemplares) em que as criancinhas, sob o olhar nervoso e cúmplice do pedagogo, ao ritmo duma dança étnica qualquer, apontam os ensaiados dedinhos aos progenitores babados, acusando-os pelo racismo ou a fome existentes no mundo... Ou no Natal aqueles bem intencionados presépios vivos, em materiais reciclados, ao som dum hino à “solidariedade”, em karaoke, contra a injustiça global. Incrédulo, ouvi os meus miúdos, chegados à 2ª classe, declamarem durante meses a "roda dos alimentos", também pintada a lápis de cera numa enorme cartolina. Isto até à próxima indigestão de chocolates ou gomas. Quanto ao seu amor à natureza, estamos conversados: sempre que nos distraímos, os higiénicos rotineiros “duches” dos miúdos dão para encher uma piscina municipal. Mais; há infindáveis anos que todos os dias de todos as semanas lembramos os adoráveis petizes para desligar as luzes que se acendem magicamente por onde passam. Quanto à propalada solidariedade é o que se sabe: basta observar atentamente a miudagem à pêra no recreio, a fanarem os cromos uns dos outros ou a gozarem até à náusea o mais fragilizado colega. Lá em casa, se não houver uma “ortopédica” voz de comando, bem vejo como funciona esse solidário cívismo principalmente se isso implicar o sacrifício dum interesse pessoal. Até a nossa mais pequenita, na hora de pôr a loiça na máquina, já aprendeu a refugiar-se “aflita” na casa de banho. Os irmãos, que não gostam de passar por otários, rapidamente reclamam, e lá se vai a preciosa harmonia no lar.
A batalha da “educação” trava-se principalmente em casa, e depende, além das referências do meio, da persistência e do exemplo categórico dos pais. Na escola, de onde Deus foi definitivamente banido, ensina-se o Mundo de acordo com a cartilha do regime. Na política, o que é importante é a ilusão de que vamos mudá-lo, amestrá-lo, mesmo que saibamos como desde sempre esse Mundo teima manter-se imutavelmente desconcertante, à imagem dos seus protagonistas.
É fácil arguir contra a violência ou injustiça, queimar automóveis e partir as montras na rua em prol da harmonia no mundo. Difícil, difícil, é olharmo-nos com humildade cristã para melhorarmos o pouco que seja em nós mesmos - a única fórmula para benignamente influenciarmos o nosso pequeno meio. Organicamente. Mas essa tarefa, tão anónima quanto imensa, quase sempre esbarra com o nosso orgulho e interesse imediato. Para nos revolucionarmos “por dentro” quase sempre somos demasiadamente comodistas e dificilmente encontramos uma motivação peremptória. E cristalizamo-nos a um passo da verdadeira redenção, e a verberar contra os outros, contra o Mundo tão injusto, num acto de desesperada catarse.

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Scolari e as carpideiras


Já que puxas o assunto, Francisco

Uma das piores características que noto em muitos portugueses é uma espécie de apologia permanente do insucesso: adoramos os derrotados, os perdedores, os deserdados. Paralelamente, abunda entre nós a inveja pelo mérito alheio. As caixas de comentários deste blogue estão cheias de proclamações raivosas contra Luiz Felipe Scolari em reacção a textos que aqui tenho escrito há mais de um ano. Dir-se-ia que toda esta gente convive mal com o facto de se tratar do treinador com melhor currículo da história do futebol português, a nível internacional. Não é matéria de opinião: é matéria de facto.
Há muito de xenofobia nestas críticas: no Fórum da TSF e na "Opinião Pública" da SIC Notícias não faltaram sequer apelos ao ministro dos Negócios Estrangeiros para "deportar o brasileiro" de território nacional na sequência do Portugal-Sérvia. São opiniões tão irracionais que não merecem mais comentário: mas funcionam como um sintoma. Esclarecedor.
O que pretendiam muitos detractores de Scolari? O seu insucesso - mesmo que isso acarretasse, obviamente por extensão, o insucesso da selecção portuguesa. Isso ficou bem patente, vezes de mais, nos sucessivos atestados de incompetência passados ao técnico por todo o género de treinadores de bancada. Tudo serviu para o denegrir: ou porque não sabia escolher a equipa, ou porque lia mal o jogo, ou porque tinha mau feitio, ou porque "não via os jogos do campeonato português", ou porque ousou confrontar "o senhor Jorge Nuno Pinto da Costa", ou porque convenceu os portugueses a pôr bandeiras às janelas num sinal de perigoso "populismo".
Ouviu-se de tudo. Na TV, em pleno Mundial da Alemanha, não faltaram sequer os pessimistas encartados - com ou sem gel no cabelo - prevendo sempre o pior resultado de jogo para jogo.
Foi assim? Infelizmente para eles, não. Scolari, depois de levar o Brasil à reconquista do Campeonato do Mundo, transformou Portugal numa das equipas mais admiradas e mais temidas à escala planetária. Este é o seu maior feito, superior até aos resultados em campo, ainda assim nada negligenciáveis: vice-campeão da Europa em 2004, quarto lugar no Campeonato do Mundo de 2006 (com o dobro das equipas em torneio, comparado com o mítico Mundial de 1966, em que Portugal ficou em terceiro).
Mais que isso: com Scolari não houve Saltillos, não houve a vergonha do Mundial de 2002 na Coreia do Sul que deixou a imagem de Portugal pelas ruas da amargura. O "sargentão", como lhe chamam, construiu uma equipa, moralizou-a e disciplinou-a. Mais ainda: chamou para os estádios portugueses milhares e milhares de mulheres, anteriormente divorciadas do desporto-rei. Depois dele, o futebol entre nós não voltará a ser um desporto só para homens.
Cometeu erros? Claro - a começar pela absurda exclusão de Vítor Baía da baliza da selecção, nunca explicada. Mas de homens infalíveis está o inferno cheio. E de infalíveis génios domésticos cobertos de "vitórias morais" está cheia a história do nosso futebol.
Cansámo-nos desse futebol que nos dava uma alegria fugaz de vinte em vinte anos. Eu, pelo menos, fartei-me. Estou com Scolari, estou com a selecção. Contra o coro de carpideiras que têm falhado sucessivas profecias, vaticinando desaire após desaire para depois poderem dizer que foram as primeiras a prevê-los. Azar dessas carpideiras: Scolari soma muito mais triunfos que derrotas. Por isso o apoio. Faço questão de não ser ingrato.

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Postais blogosféricos

1. Vim a este blogue. E gostei do que li.
2. Tem sotaque nortenho e orgulha-se disso. É a Bússola, um novo blogue que recomendo. Até porque já tinha saudades da boa prosa do Jorge Fiel.
3. O Arrastão tem endereço novo. Será que também recebe correspondência endereçada ao Senhor José Pinto de Sousa?
4. Faz você muito bem em gostar da nossa cor.

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José Pinto de Sousa

Encontrei ontem na minha caixa do correio uma carta destinada a um tal José Pinto de Sousa. É a prova que faltava para me convencer: os correios portugueses estão muito longe de funcionar com a eficiência que deviam.

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Catedráticos do esférico

"Especialistas" encartados, quase todos com o nó da gravata bem apertado, peroram na pantalha sobre o Benfica-Milan, de logo à noite. Com ar dramático, como se não houvesse assunto mais relevante. Quase como se estivesse em causa a sobrevivência de Portugal como nação independente. E o que dizem? Coisas como esta: "O Benfica tem que ganhar. Não vai ser nada fácil."
São "especialistas", repito. Falam pelos cotovelos, com tempo de antena ilimitado. Falam falam falam falam falam falam falam falam falam. Sem dizer nada.

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Cobertos de razão

O João Gonçalves, o Rui Castro e o Francisco.

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Este parte, aquele parte


Ao enviarmos soldados de uma tropa de elite para um cenário de guerra, há algo que devemos ter presente nas nossas consciências: Há fortes hipóteses de algum deles morrer. E há também algo mais a ter em consideração: Quando se voluntariam para um Corpo como os pára-quedistas e em seguida para integrar missões como a do Afeganistão, os soldados sabem ao que vão. Que o soldado Pedrosa tenha morrido aos 22 anos num desastre de viação durante uma patrulha nocturna, é estúpido e chocante. Fosse uma bala que o atingisse numa emboscada seria igualmente estúpido e chocante?
Não existem, nunca existiram, guerras sem mortos. Sem jovens soldados a regressar em caixões entre as lágrimas dos familiares, camaradas e amigos. É bom que os portugueses se apercebam de algo, no meio de toda esta catarse de luto em torno do que aconteceu ao soldado Pedrosa. Como reagiríamos se, num confronto com fogo inimigo, tivessem morrido bastante mais? Quando entenderemos que, quando uma Nação envia os seus melhores para a batalha, o faz para que morram por ela se preciso for, ou se aqueles contra com quem combatem forem superiores no terreno? Ou os soldados partem, ou não partem. Essa decisão é nossa. A partir daí, o que acontece tem muito de imprevisível. Mas também uma antecipada e negra certeza ensombrando a missão de todos e cada um.

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Palavras que odeio (45)

Alavancagem

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O que me vale é que sou católico...


Ontem à noite, depois do jogo Manchester vs Sporting, telefona-me o meu sogro, bem humorado, e diz: "Eh pá, você é sportinguista, de direita e monárquico - é bom que não tenha tendências suicidas, hem!”
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Há coisas lixadas, não há?


É injusto! Tanto que se investe em propaganda para manter a moral e na volta acontece isto: de vez em quando lá vem uma estatística europeia, ou da ONU, medir-nos e pesar-nos e - o que é verdadeiramente embaraçoso e inconveniente para os nossos rapazes que governo após governo tanto se têm esforçado por nós - comparar-nos com os outros!

O índice de desenvolvimento humano de Portugal desceu entre 2000 e 2005, o que acontece pela primeira vez nos intervalos quinquenais desde 1975. Portugal foi mesmo o único país da União Europeia e do conjunto da Europa onde esta tendência se registou nesse período, de acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2007-2008, divulgado ontem pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Entre os 13 países que acompanharam Portugal nesta tendência estão sobretudo Estados africanos, como a África do Sul, o Zimbabwe e outros da região, ou ainda o Gana, o Quénia, o Togo e o Chade.

Terça-feira, Novembro 27, 2007

"SIS avisa Manuel Monteiro...

... da existência de elementos de extrema direita no seu partido"



- Tá lá? Xenhor Manuel Monteiro?
- Sou eu. Quem fala?
- Icho não interecha. Xó quero avijá-lo da ejistênxia de elementos de extrema-direita no xeu partido.
- Quem é o senhor?
- Chame-me Xis. Apenas Xis.

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Na paz de Estaline


O PCP decidiu expulsar a deputada Luísa Mesquita. O camarada Estaline pode repousar em paz na sua tumba: os seus discípulos mais devotos continuam a proceder de acordo com as normas que o pai ideológico lhes ministrou.
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ADENDA Ler também:
- No limbo, de Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos
- Um saneamento é sempre um saneamento, de Rui Costa Pinto, no Mais Actual
- Traição, de Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas

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O inspector martelada


Noutro país, as declarações do desembargador António Clemente Clima ao Expresso, numa excelente entrevista conduzida pela jornalista Valentina Marcelino, já teriam produzido consequências. Uma demissão, por exemplo. Ou duas. Ou um caudal de polémica. Mas foi quase como se o inspector-geral da Administração Interna não tivesse dito nada.
A verdade é que disse.
Frases como estas:

"Há por aí muita impertinência, muita intolerância, muita impaciência da parte da polícia. O que significa incompetência. E ainda mais intolerável é a atitude das chefias."
"Temos tido alguns problemas na GNR, com perseguições iniciadas por motivos que me parecem inadequados, como por exemplo, por passar um sinal vermelho. (...) A autoridade não se defende a tiro. (...) Não podemos ter como resultado de uma infracção de trânsito a pena de morte."
"[Alguns] jovens oficiais da GNR encaram o cidadão como o inimigo."
"Há por aí muita 'cowboyada' de filme americano na mentalidade de alguns polícias. Muito gosto na exibição da pistola. Muito gosto por andar à paisana. (...) É preciso muito cuidado com estes agentes policiais que andam à paisana, muitas vezes armados em agentes da PJ, fazendo um trabalho descontrolado."

Depois disto, nem ao menos o "rigoroso inquérito" do costume?

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Nas colunas

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Momento tablóide

Huma Abedin vista pelo The Observer:
Ou aqui o artigo do The Times:

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Nós por cá todos bem

Outra corrente. Esta visa apurar os vinte blogues que mais visitantes encaminham para cada um dos nossos tascos. Coube-nos a vez de sermos interpelados. Segue a resposta, com a lista (por ordem alfabética) dos vinte blogues que geralmente nos trazem mais leitores.
Miss Pearls (olá, Isabel)
Esta corrente lembra-nos a importância do intercâmbio de endereços, fundamental nas ligações blogosféricas. Desde o início, aqui temos mantido em permanência a indicação de pelo menos uma centena de blogues. Nada mais natural: estamos convictos de que a blogosfera é também uma agradável forma de convívio. Entre os blogues mencionados na nossa barra lateral, numa lista que vai sofrendo alterações com o rodar do tempo, incluem-se mesmo alguns que não se dão ao incómodo de passar cartão a mais ninguém. Mas são cada vez menos. Até porque não faz muito sentido mencionar quem persiste em ignorar os outros e até cultiva isso como uma espécie de imagem de marca. Que lhes faça bom proveito lá no Olimpo onde se instalam. Nós por cá todos bem.

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Os tugas (38)


Local: num transporte público. Personagens: uma criancinha de quatro ou cinco anos, a mãe e vários outros passageiros.
Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Mãe: Está caladinha, Vanessa.
Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Mãe: Já disse que te calasses. Olha que incomodas estas pessoas...
Criancinha: Hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Mãe: És sempre assim. Eu digo para te calares e tu nunca ligas. Já nem sei o que hei-de fazer contigo.
Criancinha: HIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
Mãe (virando-se para os outros passageiros): É mesmo uma gracinha, não é?

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Postais blogosféricos

1. Um abraço de parabéns a todos quantos fazem o dinâmico 31 da Armada. Um ano de vida e já tanta prosa no activo!
2. Aceite o teu desafio, Francisco. Volto ao tema Scolari daqui a pouco.

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Palavras que odeio (44)

Invisual

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Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Nas colunas

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Palavras para ocasiões especiais (3)

Insone

Este ditador vem a Lisboa (11)


Faure Gnassingbé

Presidente do Togo desde 2005. Tem 41 anos.
Torturas, perseguição aos opositores políticos, detenções ilegais, asfixia das liberdades públicas - incluindo a liberdade de reunião e a liberdade de imprensa. É este o quadro dominante no Togo, onde o presidente Eyadema, falecido em 2005, chegou a liderar a mais antiga ditadura do continente. Gnassingbé, filho do ditador, foi instalado no poder pelos militares, numa espécie de sucessão dinástica. As eleições que se seguiram, dando-lhe a vitória com 60%, foram consideradas fraudulentas por observadores estrangeiros. Segundo a Amnistia Internacional, os presos de consciência continuam detidos sem julgamento. A corrupção impera: em matéria de transparência administrativa, o Togo está classificado na 130ª posição entre 163 países escrutinados por organismos independentes. O poder judicial, na prática, depende do poder político.
Gnassingbé é um ditador. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Notável

Este artigo de António Barreto no Público. Tirado daqui.

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Da extrema-direita a Chávez

Um professor espanhol que costumava cantar a Cara ao Sol (o hino franquista) de braço esticado é agora o cérebro das mudanças constitucionais na Venezuela "socialista". Outros talvez se admirem. Eu não. Esta malta gosta imenso de fardas e de "pulso forte".

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Lapidado

Os furiosos detractores de Scolari continuam irritadíssimos pelo facto de o brasileiro ter conduzido a selecção portuguesa ao Euro-2008. Se fossem ingleses, que ficaram fora do Euro, a esta hora o seleccionador lá do sítio já teria sido lapidado...

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Adeus, cálculo mental


Esta manhã comprei dois artigos num quiosque: um custou 2,75 euros, o outro custou 80 cêntimos. Para pagar, estendi uma nota de cinco euros. Antes de me dar o troco, a vendedora – uma mulher de cerca de 25 anos – teve de utilizar uma máquina calculadora para fazer duas elementaríssimas operações aritméticas – a de somar e a de diminuir. Mais palavras para quê? Esta cena é suficiente para servir de atestado de incompetência à galeria de cérebros que têm gizado todas as “reformas educativas” das duas últimas décadas em Portugal. O retrato perfeito da escola que temos, multiplicado em milhares de pequenos episódios quotidianos deste género nas nossas cidades, vilas e aldeias – onde quer que os efeitos benéficos da antiga quarta classe “obscurantista” já não conseguem chegar.

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Palavras que odeio (43)

Autóctone

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Palavras para ocasiões especiais (2)

Excruciante

Domingo, Novembro 25, 2007

Nas colunas

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Cartas ao director (1)

Não se passa nada. Há quase uma semana que os noticiários destacam, com mais ou menos honras "de abertura", o caso do prédio de Setúbal e as desventuras dos seus azarados inquilinos. O LNEC, a solidez do edifício, a senhora do 5º andar, os pertences, a Protecção Civil, e demais “ondas de choque”. Por mim já chega: sobre o assunto há muito que estou informado e como folhetim acho-o pouco interessante. E se não se passa mesmo mais nada, "passem" antes uns desenhos animados ou entrevistem o Dr. Mário Soares.

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Qualquer dia cai o tabuleiro

O regime que mandou prender Kasparov por uma alegada manifestação ilegal é dirigido pelo mesmo senhor que foi recebido há semanas em Lisboa com pompa e discursos de circunstância. O mesmo homem que põe Kasparov atrás das grades é aquele que se emociona ao ver as lontras Amália e Eusébio no Oceanário do Parque das Nações. Que políticos são estes?

O caminho faz-se caminhando

É claro que ontem li o Público e a monumental crítica de Vasco Pulido Valente ao novo livro de Miguel Sousa Tavares, "Rio das Flores". Como o Pedro já aqui aflorou (outra para o rol das palavras odiosas) a coisa, vou deter-me noutra pérola: o artigo de Pedro Passos Coelho sobre o Orçamento do Estado e a posição assumida pelo PSD. Leia-se: "É incompreensível que o PSD, enquanto maior partido da oposição, se tenha deixado ficar preso ao passado, nos rostos e nas palavras. Quando teve a oportunidade de confrontar os socialistas com a fantasia orçamental e o engodo reformista, apresentando um caminho alternativo e preparando uma escolha diferente de que o país precisa, preferiu deixar enredar-se em desforras retóricas e distraiu-se com incidentes de carácter institucional".
Passos Coelho cita como uma das tais distracções a substituição dos presidentes das comissões parlamentares (óbvio, Miguel Relvas, um dos seus apoiantes de presente e futuro, foi um dos visados), ao mesmo que deixa claro, pela segunda vez (a primeira foi no congresso de Torres Vedras), que está a preparar-se para o que der e vier. Para o pós-Menezes, para o pós-2009. Mas pode muito bem acontecer que as suas ambições só possam materializar-se bem mais tarde. De uma coisa o antigo deputado e ex-vice de Mendes não pode ser acusado: de não trilhar um caminho próprio. É o primeiro a fazê-lo, o que pode ter a vantagem de marcar terreno e a desvantagem de se desgastar até ao momento em que surjam outros.

Dia da Liberdade

Hoje dia 25 de Novembro celebram-se 32 anos sobre o fim do PREC (Processo Revolucionário em Curso) – a interrupção da via para o socialismo de Cunhal, Otelo e camaradas.
Hoje, festeja-se o sonho de um Portugal mais próspero e livre. Mesmo sabendo que temos ainda tanto, tanto que fazer...

Na imagem Danny Kaye.

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«Mila kuda su plania» ou «Mila kura si planina»?

Consta que a derrota da Inglaterra frente à Croácia na passada quarta-feira não foi marcada apenas pelo afastamento dos ingleses do Euro-2008. O momento alto da festa (Croata) foi mesmo uma interpretação algo original do seu hino. Esta originalidade pode ter escapado à maioria dos 80 mil espectadores do estádio de Wembley, visto serem ingleses, mas não deixou de suscitar dúvidas aos adeptos croatas: “O que foi que ele disse?”, terão perguntado. É que Tony Henry, cantor de ópera britânico, ao invés de ter dito «Mila kuda su plania», que quer dizer «sabes querida como gostamos das tuas montanhas», entoou «Mila kura si planina», que significa «minha querida, o meu pénis é uma montanha». Mas parece que os croatas atribuem a vitória sobre a selecção inglesa a esse episódio – que terá, porventura, relaxado os jogadores – e, assim, como em equipa que ganha não se mexe, convidaram-no já para entoar o hino nacional por alturas do Europeu. Pelos vistos, a língua croata é, também, muito traiçoeira…

Domingo

Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

Irmãos: Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados. Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura; Porque n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações, Principados e Potestades: por Ele e para Ele tudo foi criado. Ele é anterior a todas as coisas e n’Ele tudo subsiste. Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos; em tudo Ele tem o primeiro lugar. Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus.

Da Bíblia Sagrada

Nota: No próximo Domingo começa o Advento, a preparação para o Natal cristão. Assim, durante essas quatro semanas festivas, esta rubrica será devidamente ilustrada.

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Cinema Nostalgia (18)

Os dois no carro. Ela tensa e desconfiada, ele pragmático e demasiado descontraído. Têm pela frente uma longa viagem e nós, em total dissonância com o par, instalamo-nos no assento de trás, a pressentir que o que vem a seguir só pode ser imperdível. E é.
Um homem e uma mulher podem ser amigos, ou o sexo aparece sempre no meio? – esta é uma das questões provocatórias que saltam, do diálogo fabuloso que se desenrola entre os dois, para a nossa agenda. Podem? (Quando saí do cinema tratei logo de averiguar. Os resultados, confesso, ainda hoje me dão que pensar. Mas isso é outra conversa...)
Presos cada um às suas idiossincrasias, Meg Ryan e Billy Crystal lançam-se numa disputa que os transcende. O que se desenha ali, desde o começo, é uma guerra dos sexos, mas ao contrário das muitas disputas de género que já vimos no cinema esta é sustentada por um guião brilhante, servida por desempenhos inesquecíveis e sublinhada a cores por uma banda sonora de luxo.
Um Amor Inevitável
(no original When Harry Met Sally), dirigido por Rob Reiner e com argumento de Norah Ephron (que recebeu uma nomeação para o Óscar), tem a capacidade rara de nos prender ao ecrã desde os primeiros minutos porque é uma comédia inteligente e manipuladora. Inteligente porque prescinde desde logo do modelo baseado em personagens estereotipadas a que nos habituámos nesta categoria de filmes. E manipuladora porque ao sermos surpreendidos por um Harry e uma Sally (as personagens de Crystal e Ryan) credíveis, envolvemo-nos mais do que é suposto acontecer quando se trata, afinal, de assistir a uma comédia.
Porque é muito real, este par não permanece estático. Vemo-lo evoluir, assim como a relação que vai construindo ao arrepio da lógica e da sua própria vontade, como tantas vezes acontece na nossa vida.
Cada um investido das razões que naturalmente os qualificam como oponente do outro, Harry e Sally são também a metáfora do que pode ser, sobretudo nos tempos que correm, a relação entre um homem e uma mulher. Da luta à rendição, desenrola-se um novelo feito de conflitos de interesses, interferências hormonais despropositadas - e mesmo inconvenientes - , curiosidade, desconfiança e admiração.
Quando, na cena final do filme, os protagonistas assumem, enfim, o romance, o nosso sorriso flutua entre a condescendência e a ternura, como quem pensa “que parvos!” E no fundo, estamos, provavelmente a pensar em nós: orgulhosos, complicados, patéticos e divertidos, donos da metade de uma verdade que para ter graça precisa mesmo de encaixar na outra.
Um Amor Inevitável foi, para mim, um amor à primeira vista. E em vinte anos não envelheceu. Continua irresistível!

Nota: na foto a célebre cena do falso orgasmo de Meg Ryan, aliás Sally Albright

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Palavras para ocasiões especiais (1)

Cáspite

Sábado, Novembro 24, 2007

As tendências no CDS

Li hoje no insuspeito Expresso que o CDS vai mesmo institucionalizar as tendências (políticas) internas. Quando se falou nisso há uns meses pensei, sinceramente, que não podia passar de uma brincadeira. Agora que li e vi a coisa impressa temo o pior. Então como é possível que um partido que tem três ou quatro por cento nas intenções de voto queira oficializar a divisão e as divergências político-ideológicas? A coisa é meia disparatada, mas só quando estiver a andar é que vamos poder aquilatar (outra palavra para o Pedro) das suas reais potencialidades. Parece que o líder da tendência liberal ou seita é o simpático António Pires de Lima. Mas há mais: a tal tendência, como Pires de Lima é um homem muito ocupado fora da política, até vai ter direito a um porta-voz. Um homem que dá a cara e uma "declaração programática escrita". Como se não bastasse, o CDS (que ou muito me engano ou vai voltar em breve a ser o partido do táxi) tem mais duas tendências já em andamento. Uma "democrata-cristã conservadora", liderada pelo muito católico (eu sei, porque ele tem as crianças na mesma escola que a minha filha) Paulo Núncio, e a outra que se diz dona da "direita do partido". Esta última, que se assume como "eurocéptica" e "anti-regionalista", tem como figura de proa Ismael Pimentel, ou seja o herdeiro do "monteirismo" sem Monteiro no CDS/PP. Agora começo a perceber melhor as razões profundas para este regresso de Paulo Portas não estar a correr nada bem. É que nunca se volta ao lugar onde já se foi feliz (ou infeliz), em especial se esse lugar tiver virado um lugarejo infestado de vários pequenos senhores feudais.

As nossas guerras

Por Rui Ramos (que não está mal colocado no inquérito aqui ao lado), no Blogue Atlântico
(...)
Morreram mais portugueses em combate na Flandres num ano, entre 1917 e 1918, do que durante 13 anos de guerra em Angola entre 1961 e 1974 (1380 contra 1098).
Há uma primeira explicação para a escassez de memória pública. Estas foram guerras numa sociedade politicamente polarizada e comprimida. A intervenção na I Guerra Mundial foi a guerra de Afonso Costa, da esquerda republicana e da sua “ditadura da rua”; as campanhas de África, a guerra de Salazar, da direita nacionalista e da ditadura da PIDE.
(...)
48 anos de ditadura, e 33 anos de democracia: para além dos mortos e dos traumas, eis o que, até ver, devemos às nossas guerras. >>Ler tudo>>

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Vasco 'versus' Miguel

Vasco Pulido Valente arrasa hoje Miguel Sousa Tavares numa implacável crítica ao romance Rio das Flores dada à estampa no Público. No inquérito do Corta-Fitas Pulido Valente também arrasa: lidera com 35%. Sousa Tavares segue num distante segundo lugar (14%), já com mais de 300 votos recebidos.

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Ai se ele ganha...

Consta que José Ramos-Horta, que este ano é presidente da República de Timor-Leste (nunca sabe quando quererá voltar a trocar com Xanana Gusmão...), propôs ou vai propor um senhor chamado José Manuel Durão Barroso (e a União Europeia) para o Prémio Nobel da Paz de 2008. Espantados? Eu também, agora imaginem como devem andar a sofrer os bloquistas, comunistas, socialistas e muitos dos que se opuseram à invasão do Iraque e à remoção de Saddam. Difícil de engolir, de certeza. Nos próximos dias iremos assistir ao desferir de ataques nunca vistos a Barroso. Eu estou a prever o primeiro dos argumentos: dar o Nobel da Paz a Barroso, um dos quatro figurões da Cimeira das Lajes, seria o mesmo que dar o Nobel da Literatura a Margarida Rebelo Pinto...
Caso o homem entre mesmo na short-list e se, por incrível que nos possa parecer agora, viesse a ganhar, aí então nem quero pensar. À direita iria ser um rebuliço, com o professor Marcelo Rebelo de Sousa a ser ultrapassado na sucessão a Aníbal Cavaco Silva em Belém. Mas isso, para já, não passa de um cenário. Esse filme ainda vai nas apresentações.

Irreguláveis

Totalmente de acordo com o que o Henrique Fialho escreve na sua Insónia: não pode ser mais peregrina, esta ideia de "regular" os blogues. Que são essencialmente, não o esqueçamos, díários pessoais. E por natureza irreguláveis.

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Não sabia


A autora deste blogue diz que divide as pessoas entre "as que gostam e as que não gostam de Frank Sinatra". Não sabia que havia quem não gostasse.

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Este ditador vem a Lisboa (10)


Laurent Gbagbo

Presidente da Costa do Marfim desde 2000. Tem 62 anos.
Neste país mergulhado há vários anos em guerra civil (entre os cristãos, a sul, e os muçulmanos, a norte) registam-se os mais diversos atropelos aos direitos humanos. Ficou definitivamente desfeita a imagem da Costa do Marfim como um oásis de estabilidade no turbilhão africano.
Embora a Constituição estabeleça um prazo de cinco anos para cada eleição presidencial, o prazo foi há muito ultrapassado: Gbagbo perpetua-se no palácio presidencial. A liberdade de imprensa é cada vez mais frágil: a maioria dos meios de informação pertence ao Estado e limita-se a fazer propaganda ao poder. Nas zonas controladas pela guerrilha anti-Governo, a asfixia da liberdade informativa é ainda mais evidente.
Os direitos de reunião e de manifestação não passam do papel. Segundo o mais recente relatório da Freedom House, "nos últimos anos, diversas manifestações da oposição foram violentamente reprimidas por forças do Governo, que causaram vários mortos".
O país não tem um sistema judicial independente: os juízes funcionam como delegados do poder político e são extremamente permeáveis à influência do Governo e dos seus agentes.
Segundo o relatório anual da Amnistia Internacional, "as forças de segurança têm praticado detenções arbitrárias, torturas e execuções extrajudiciais".
Laurent Gbagbo é um ditador. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.
................................................................................................
Prossigo esta série agora animado pelo extenso decalque que a revista Sábado, embora sem citação de origem, lhe fez na sua última edição (páginas 86 e 87). A causa é excelente: alertar a opinião pública portuguesa para as ditaduras africanas que não tardarão a ser enaltecidas até à náusea em Lisboa. Por isso só posso sentir-me lisonjeado com tal decalque.

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Abruptamente

O Abrupto abandonou o Blogómetro, onde nunca chegou ao topo, apesar de recorrer cada vez mais a fotos e textos dos leitores, num sintoma de manifesto populismo. Há coisas fantásticas, não há?

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Palavras que odeio (42)

Propositura

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A descobrir hoje, em Londres

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Sexta-feira, Novembro 23, 2007

Este ditador vem a Lisboa (9)


Zine Ben Ali.

Presidente da Tunísia desde 1987. Tem 71 anos.
Há vinte anos, liderou um golpe militar contra o decrépito presidente Bourguiba. Gostou tanto da experiência que decidiu ficar: ocupou o palácio presidencial de então para cá, tornando-se uma espécie de Grande Irmão dos tunisinos. Nada se passa no país sem o seu consentimento e sem a vigilância tutelar da sua polícia de choque.
Ciclicamente, organiza "eleições". Em 1989, obteve 99,27%. Dez anos depois, conseguiu aumentar a percentagem de "votos", recolhendo 99,44%. Em 2005, registou um ligeiro recuo, ficando-se pelos 94,5%. Estes escrutínios, totalmente manipulados, confirmam o carácter despótico deste general que persegue e prende sistematicamente os opositores políticos.
Segundo a Amnistia Internacional, existem centenas de presos de consciência na Tunísia, a pretexto do combate ao terrorismo internacional. As condições de detenção são "cruéis, inumanas e degradantes". Muitos prisioneiros são condenados em "julgamentos injustos", inclusivamente em tribunais militares.
Os jornalistas tunisinos queixam-se das pressões da censura: a liberdade de imprensa é fortemente condicionada no país.
Ben Ali é um ditador. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Espreitando por cima do muro

Nunca pensei que o Miguel Portas fosse capaz de fazer uma coisa destas. Só posso considerar concorrência desleal no que diz respeito às nossas sextas-feiras especiais, institucionalizadas desde o início como um espaço de respeito. O Portas do Bloco de Esquerda, a propósito das FARC, resolveu pôr uma guerrilheira que de guerrilheira tem pouco. Ou tem tudo? Estou confuso...

Porreiro, pá?

«Segundo o requerimento de abertura de instrução, que o Expresso consultou, o assistente pretende que José Sócrates e Manuel Pinho prestem depoimento sobre duas conversas telefónicas entre Manuel Espírito Santo e José Manuel de Sousa (administradores do grupo Espírito Santo) nas quais estes fazem referências a novos acordos ao mais alto nível com a nova governação sobre o empreendimento Portucale em Benavente, 'nomeadamente com o primeiro-ministro e com o ministro da Economia'.» Notícia de última hora no Expresso Online.
Sobreiro, que eu saiba, não tem qualquer tipo de tradução em inglês. Pelo menos em inglês técnico... É possível?

Viernes

Paz Vega.
P. S. - Nunca pensei que me iria caber a mim lutar pelos direitos, liberdades e garantias das morenas neste blogue. Mas esse dia chegou. Não sei se repararam, mas até a lingerie é da mesma cor que a da menina Scarlett. Olho por olho, dente por dente. E a Paz Vega tem uma vantagem: é da terra do rei que mandou calar o populista sul-americano que é grande amigo de Portugal...

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (VIII)



O rapto

O Pedro Correia lançou aqui um rapto ao Luís Naves, para ele dizer aqui qual era a sua crónica favorita. Encontrei o Luís na rua, vinha perturbado, com aquela pança enorme. Falou-me do rapto:
“Sei lá qual é a minha crónica favorita? É o mesmo que me perguntarem qual é o meu livro favorito”, disse ele.
Tentei confortá-lo:
“Para mim, era fácil responder a essa pergunta. Como só li cerca de 15 livros...”
“Talvez tu possas escrever a prosa...”
Ficou logo ali combinado que seria eu a explicar aos leitores isto da arte da crónica.
O melhor cronista que conheço é o Alcibíades, um gigante (muito parecido com o Jimmy Stewart) que está a escrever a crónica desde país tristonho e melancólico, amargurado e sorumbático. Infelizmente, a obra dele ainda não está publicada. O meu amigo ocupa o seu tempo a recortar velhos jornais, na cave onde mora, que está atafulhada de pedaços de textos que ele depois cola e anota, para integrar na sua vasta obra.
(O Naves diz que ele se parece com o Joe Gould “tal como foi descrito pelo genial cronista Joseph Mitchell, na sua obra ‘O Segredo de Joe Gould’”. limito-me a reproduzir o que o Naves disse).
Mas regressemos ao rapto, como se fôssemos Miss Marple a perseguir o professor Moriarty.
O Alcibíades é homem de poucas falas. Quando lhe perguntei o que devia explicar sobre isto da crónica, ele fez um ar pensativo, severo, absorto, cogitabundo e até vagamente sorumbático.
“Há dez regras: sendo a crónica um género literário, é fundamental elevar a hipérbole e desenvolver a substância”.
Fiquei extasiado.
“E as outras nove regras?”, perguntei.
“As outras sete são o prolongamento do ego e a faculdade opinativa, numa perspectiva de realismo brutal”.
“E o que usas para observar a realidade?”
“Prefiro a teleobjectiva aos binóculos”.
O Alcibíades parecia um bonzo imerso em pensamentos cavados, profundos, abissais e desmesurados. Sem dúvida, sorumbáticos.
“Isso torna difícil compreender a verdadeira arte da crónica”, exclamei, verdadeiramente surpreendido, a tentar quebrar aquele solilóquio.
“Dizes bem, Adolfo Ernesto. Uma bela crónica é como uma mulher bela. Nós, homens, gostamos delas redondinhas e esfuziantes”. O Alcibíades perdera o seu ar sorumbático, “Foi por isso que me tornei cronista. A realidade numa crónica é como a curvatura de uma cintura feminina, a redondez de um ombro feminino, a hesitação do artista perante um adjectivo feminino, ou até de um sorriso feminino, enfim, numa palavra, a imprecisão indefinida, mas ao mesmo tempo física e absolutamente concreta”.
“E qual é a tua crónica favorita?”
“Gostei de uma crónica do Art Buchwald, que ele escreveu pouco antes de morrer: o cronista estava num aeroporto, onde esperava um avião para o céu, e transformava a sua crónica numa descrição da confusão dos aeroportos na época de Natal. Um hino à vida e coisa de mestre, com humor auto-irónico que ainda hoje me faz rir e pensar”.
“Então, Alcibíades, a crónica não tem de tratar sempre do efémero?”
“Pode ser fútil, sim, mas anda tão confundida com a opinião editorial que se banalizou, como se tornou banal a espuma na superfície das águas. E, apesar de tudo, pode ir até aos abismos da alma. Há quem consiga”.
Foi mais ou menos assim que ele falou. Confesso que não percebi metade, mas não sou cronista. Limito-me a andar pelo mundo, a relatar o que vejo, aquilo que imagino e o que poderia ser. É esta a minha visão, distorcida pelo meu cérebro com duas metades coladas uma à outra.
Despedi-me do Alcibíades e deixei-o com os seus recortes de jornais, sorumbático, a fragmentar o mundo. "Ah! E não te esqueças de um bocadinho de poesia, que é o mais importante", rematou ainda..."E como isto é uma corrente, passa a bola ao doce poeta lírico".

Adolfo Ernesto

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Short list para a RTP


Ponce de Leão, Emídio Rangel, António Mega Ferreira.
Não está por ordem alfabética, como é bom de ver. No entanto, como se pode ler aqui, o escolhido foi Guilherme Costa. A short list não deixa por isso, no que respeita aos dois últimos nomes, de ser reveladora do que ainda está para vir.

Este Domingo em Madrid

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As perigosas religiões laicas

Patrícia Lança n' O Insurgente:

Para quem tenha recuperado ou nunca foi contaminado pelo vírus, é perfeitamente evidente que existem diversas formas de religião laica. Os contaminados, precisamente porque estão possuídos irracionalmente por uma fé, têm problemas no uso da razão. Daí a grande dificuldade em manter um debate racional com eles. Pior, quando se trata de pessoas de inteligência, cultura ou autodisciplina fracas, a ameaça à fé suscita fúrias e excessos de linguagem impróprios de pessoas civilizadas. >Ler mais>>

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Porque hoje é sexta


“Ruth sabia do caso com Ayala e sofria muito. Eu, por meu lado, odiava-a por ela não me obrigar a escolher entre as duas e por aquela sabedoria discreta que a aconselhava a esperar. Sofrer e esperar: nem uma só vez durante aqueles meses horríveis se mostrou zangada ou hostil, mas também não manifestava qualquer submissão, nem me deixava perceber a sua humilhação. Pelo contrário: eu era o macho com cio, acalorado, que andava à roda de duas mulheres sem saber o que queria. E no rosto sem beleza de Ruth via toda a sua força e sabedoria: os seus movimentos eram mais lentos que nunca. Irradiava dela um aviso sereno: era extremamente forte; como qualquer ser humano, continha em si forças muito grandes e perigosas e por isso tinha que agir com moderação; para não ferir os outros, tinha que se conter e ter paciência: sugerir sem gritar, propor sem impor. Eu odiava-me pelo sofrimento que lhe causava.” – David Grossman in Ver: Amor

Parabéns, Scarlett


Esta moçoila acaba de fazer 23 aninhos. É signo Escorpião, claro. Só podia.

Vai uma Tagus?

«O orgulho hetero não tem de ser afirmado, já que além de ser hegemónico, faz parte da linguagem de um partido de extrema-direita». Este e outros dislates de igual calibre aqui, numa notícia da Meios & Publicidade.
Ler e ver aqui a contra-campanha das Panteras Rosa (Frente de Combate à LesbyGay Transfobia): «Orgulho hetero é o que temos todos os dias, e afirma-se a todo o momento sem necessitar sequer de ser afirmado, porque é hegemónico».

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Quanto a vocês não sei

Mas a mim as sextas-feiras deixam-me cada vez mais indiferente.

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Palavras que odeio (41)

Majoração

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Postais blogosféricos

1. Parabéns à Causa Nossa, de Ana Gomes e Vital Moreira. Quatro anos de blogosfera é uma idade muito respeitável.
2. Segue daqui um abraço ao Rui. Pelo segundo aniversário do seu Portugal Contemporâneo.
3. André, não me esqueci do teu desafio. Aliás, como calculas, para mim é sempre um prazer falar dos filmes de que mais gosto. Só tenho mesmo de fazer a selecção: segunda-feira voltamos a conversar. Depois tenho eu um desafio a fazer-te.

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O processo Casa Pia

Cinco anos depois, o processo Casa Pia é a maior prova de pujança do nosso virtuoso regime, um exemplo prático de genuína moral republicana. Não há "jornalismo de causas" que lhe valha. Alguém ainda tem dúvidas de como tudo vai acabar? Está à vista de todos que o culpado será o mordomo, e talvez o “estado” que é sempre tão infeliz no recrutamento de mão d’ obra. E que impunemente continua a apadrinhar os programas sociais nocturnos das crianças a seu cargo.
Já vos tinha dito que não acredito na Justiça portuguesa?

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Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Sem oposição

Só 60 dias sem oposição, João? Olha que não, olha que não... José Sócrates está sem oposição desde que tomou posse, em Março de 2005.

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O binóculo de Mário Prata

A Leonor Barros fez-me este desafio no excelente blogue Geração Rasca. Repto aceite: passo a falar de uma crónica de que gostei muito.


Há quem espreite o mundo por um microscópio. Há quem prefira um telescópio. E houve aquele fotógrafo interpretado por James Stewart no filme de Alfred Hitchcock que observava a vizinhança pela tele-objectiva da sua máquina. Porque não ver o que se passa à nossa volta com um vulgaríssimo binóculo? Esta é a premissa aparentemente banal de Binóculo, uma deliciosa crónica-quase-conto de Mário Prata, inserida na colectânea Boa Companhia: Crónicas, editada pela Companhia das Letras (São Paulo, 2005).
Escrita na primeira pessoa, como mandam as boas regras quando se pretende estabelecer um clima de intimidade com o leitor, esta crónica mostra-nos bem a destreza e a plasticidade da língua portuguesa quando é usada no outro lado do Atlântico: “Claro que quem dá um binóculo para uma pessoa como eu, solteiro e rodeado de prédios e janelas tentadoras e indiscretas, tá mais a fim é de me ver procurando mulher pelada. Todo mundo sabe que a única finalidade do binóculo é o peito nu da vizinha. Foi inventado em 1645 com essa primordial finalidade.”
A vida do cronista, tal como a do fotógrafo de Hitchcock, não voltou a ser a mesma. “O que seria daquela janela sem o binóculo?” Somaram-se surpresas: a empregada do oitavo andar do prédio da frente, por exemplo, “além da falta de um canino, tem um joanete descomunal”. Ao contrário do “felicíssimo casal gay da direita, 3º andar”, a vizinha de cima “tem sistema nervoso, como diria a minha empregada”: o cronista surpreende-se por haver “ainda algum prato na casa dela”. E há “a loiraça do décimo primeiro”, de aliança no dedo, em parceria acelerada “com o desempregado do quinto, também de aliança”. O dono do binóculo acredita que não tardará a acontecer alguma coisa: “Mulher, quando ri muito das besteiras dos homens, está a um passo de perguntar o horóscopo, o que, como você sabe, é propor eminente e iminente sacanagem.”
Tudo vai bem até que descobre o adolescente do 11º, da direita, com “uma fantástica luneta” virada para a sua própria janela: “Eu aqui escrevendo e o garoto lá, me olhando. Vai virar cronista, quando crescer.”
Mário Prata, de 61 anos, é romancista e autor de argumentos para televisão, teatro e cinema. Durante mais de uma década, assinou uma crónica no diário O Estado de São Paulo. Releio Binóculo e interrogo-me: quantos escritores portugueses seriam hoje capazes de escrever um texto destes, com tanta graça, desenvoltura e perfeito domínio do idioma?

E passo agora a bola ao Luís Naves, meu parceiro de blogue. Para que também ele nos fale de uma das suas crónicas favoritas.

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É obra

A Marta Rebelo lançou hoje o seu novo livro, que se chama Descentralização e Justa Repartição de Recursos entre o Estado e as Autarquias Locais. Na impossibilidade de responder ao convite e de estar presente fica aqui a nota e o aviso: a Marta não se ficará por aqui. Tem menos de 30 anos e, que eu saiba, já vai no terceiro ou quarto livro técnico na sua área de eleição. A fiscalista é também militante destacada do PS, assistente universitária e chefe de gabinete de um secretário de Estado com sorte. É das poucas pessoas da nova geração que dá gosto ouvir e ler naquele partido. Parabéns Marta, em nome do Corta-Fitas.

Nos bastidores do jantar 500 mil

Este é um dos membros do Conselho de Curadores do Corta-Fitas, fotografado na terça-feira em pleno jantar das 500 mil visitas ao blogue. No jantar do Tamarind foram vários os fotografados por um amador de serviço, mas os próprios não autorizaram a publicação neste blogue. Talvez a pedido de algumas famílias eles possam concordar, mas isso já não me cabe a mim...

500.000 visitantes!?


Salta já a rolha de uma garrafa de Alfred Rothschild Brut, que isto ainda não é fim do mês.

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Os abraços e o aval

"Penso que é bom que as relações que o primeiro-ministro português tem com Chávez sejam de amizade. Obviamente, é melhor ser abraçado por Chávez do que ser chamado de Diabo", disse ontem Alfred Hoffman Jr., embaixador dos EUA em Lisboa. O diplomata, que se encontrou com Jaime Gama, presidente da Assembleia da República, ainda deixou mais esta pequena farpa: "Bem, parece que Espanha e EUA estão na lista do Diabo e Portugal está na lista dos abraçados". Mas alguém acha que um embaixador norte-americano acreditado em Lisboa diz coisas deste calibre à saída de um encontro com a segunda figura do Estado português sem pedir autorização ou informar Washington? Não diz, ele teve com certeza um alto aval para produzir declarações como estas.

Meio milhão

Interrompemos a nossa programação habitual só para anunciar que acabamos de receber o nosso visitante número 500 mil. Vinte e um meses depois de tudo começar.

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Um conto com final feliz


Tenho uma ideia para um conto que aqui deixo a quem queira aproveitá-la: A personagem principal é redactor na filial portuguesa da Multinacional do Medo. Em cubículos exíguos, semelhantes ao de um call center, é apenas um entre muitas centenas de outros, responsáveis por escrever e enviar mensagens de correio electrónico com boatos geradores de pânico que, depois, os ingénuos e desinformados receptores disseminam por todos os seus amigos e conhecidos, aliviados por cumprirem o papel de denúncia, de vigias em prol de um mundo melhor.
O redactor sabe que não. Que quem reencaminha os e-mails do medo é apenas outra minúscula engrenagem na fábrica desse medo, outro degrau na pirâmide do spam: A criancinha que desapareceu no supermercado ou numa loja de chineses, os animais geneticamente modificados transformados em hambúrguer, o iogurte que causa doenças, o refrigerante que foi desenvolvido pela CIA e chegou aos hipermercados, o homem que morreu ao beber por uma lata com urina de rato, são apenas os mais corriqueiros.
A imaginação dos redactores da Multinacional não tem limites. O seu trabalho é trazer para a superfície os mais irracionais boatos, rumores e receios. É um trabalho criativo, de certa forma. Pelo menos assim pensa o nosso herói quando precisa de justificar-se o ganha-pão. Não pode dizer o que faz a quem quer que seja, imagina as represálias e treme.
Mas um dia, em que se encontra bloqueado e nenhuma ideia lhe ocorre, não resiste a escrever: «Existe uma Multinacional do Medo que inunda as caixas do correio com boatos falsos e assustadores para criar listas de spam e provocar o caos nos servidores e nas mentes de pessoas em todo o Mundo! É preciso denunciá-los!!! Envia este aviso para todos os contactos na tua caixa de correio». Surpreso, vê a mensagem bater todos os recordes da história da Companhia. É nomeado empregado do mês.
Inspirado na notícia do Pedro Sousa Tavares hoje no DN, «DECO alerta para falsos avisos que circulam na Net». Obrigado Pedro.

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História de algibeira (28)


1909 – Cerimónia oficial da inauguração oficial da estátua do Marechal Saldanha, presidida pelo chefe de estado, rei D. Manuel II. Na imagem, a estátua da autoria do escultor Tomás Costa e do arquitecto Ventura Terra. Ao fundo, sob as bandeiras nacionais, vislumbra-se a avenida Ressano Garcia, renomeada avenida da República pelo regime subsequente.

Imagem daqui.

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Graças a Scolari

Vamos ao Europeu. Graças a Scolari. E contra as aves agoirentas do costume. Por mim, aplaudo. Como o João Caetano Dias e o Rui Castro, não troco este seleccionador - e esta selecção - por nenhum dos anteriores, campeões das "vitórias morais" que só nos deram desgostos.

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Nó cego

Escreve o Tomás: "António Costa e Sá Fernandes deram um nó cego ao Bloco em Lisboa." Pois. Só um cego é que não vê.

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Novo inquérito

No primeiro dia, mais de cem votos recebidos. Vasco Pulido Valente lidera, destacado.

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Palavras que odeio (40)

Conceptualizar

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Caso Esmeralda


Os pedopsiquiatras que acompanharam este caso têm razão ao defender que Esmeralda não deve ser privada compulsivamente do convívio com o casal que a criou. O pai biológico deveria ter sensibilidade para perceber que não está a requisitar um objecto numa secção de perdidos e achados. Sobre a decisão do tribunal nem comento. Já se sabe que nestes casos a nossa justiça costuma ser mesmo muito cega.

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Pequena memória de Ian Smith

No início dos anos 90 entrei no Zimbabwe com visto de turista. Assim que aterrei no aeroporto de Harare enviaram-me para os serviços de imigração: receavam que eu pretendesse ficar lá ilegalmente. Lembro-me que achei enternecedor pensarem que uma europeia quereria viver fora da lei naquelas paragens, até que percebi o que achavam que eu ia lá fazer. Contra mim ou a meu favor, a administração pública funcionava bem.
Uns passos fora do aeroporto bastaram para confirmar que aquela África não tinha nada a ver com a vizinha Zâmbia, de onde eu vinha. Crianças em uniforme a marchar pelas ruas, transportes públicos que chegavam às paragens à hora certa, jardins públicos irrepreensivelmente tratados - eu tinha caído numa Inglaterra rural, cosmopolita e preta.
O meu entrevistado, Ian Smith, morava num bairro de vivendas, nos intervalos de grandes temporadas que passava numa fazenda no Norte, com receio de que os primeiros boatos de ocupações das terras dos brancos se viessem a concretizar. Cuba tinha escolhido a vivenda em frente para instalar a sua embaixada no país.
Velho, seco, olhos azuis penetrantes, tinha o discurso amargo dos que acham que fizeram a revolução para os outros estragarem tudo.
Eu tinha lido sobre a independência unilateral da Rodésia e esperava que Ian Smith tivesse uma memória política de Portugal. E tinha. O que não esperava era a memória afectiva: na sala acanhada estilo Laura Ashley, mostrou-me a mesa de centro em mármore de Estremoz e os pratos da Vista Alegre nos nichos da parede.
Morreu ontem, na África do Sul.

Jantar Meio Milhão

Não sei se foi por me acharem esfomeada, ou se chegou mesmo a minha vez, mas coube-me fazer a “acta” de mais um jantar, que ontem teve lugar no Restaurante Tamarind, na Rua da Glória. Não me perguntem nada sobre os nomes dos pratos que devorámos, nem sobre as entradas pousadas na mesa. Nestas situações eu só saboreio, não fixo. Retenho, isso sim, as conversas, que são sempre a melhor entrada, prato e sobremesa. Só sei que dividi uma dose não picante de borrego picado com feijão e vegetais com o doce João Villalobos e que estava delicioso. Para além disso, a única coisa que me chamou a atenção foi mesmo a “Cobra”, marca de cerrveja que mais se vende na Índia. O nosso especialista, Duarte Calvão, até ensinou a deixar escorrer o líquido no copo da forma mais correcta.
O Luís Naves chegou esbaforido e, provavelmente, com vontade de dar umas dentadas. A quem? Ao Duarte. Seguiu a sugestão do colega corta-fiteiro e desceu a Avenida da Liberdade a pé. As indicações não foram as melhores. (Homem a explicar a outro Homem, só podia dar nisto)!
Comentámos como estava bem João Távora na revista Notícias Sábado, do DN, de sábado passado, na reportagem “Nobres do Século XXI”, onde diz com piada: “O mais comum é o nobre moderno ser funcionário público e morar num T3”. O Francisco sempre pôde vir ao jantar uma vez que a conferência de imprensa do presidente venezuelano no Meridien, foi desmarcada à última hora. Foi o fotógrafo de serviço, juntamente com a nossa Miss Pearls, que também fez um filme. A vitíma que estava entre os dois, Isabelinha, foi, certamente, a mais fotografada. Mas com sucesso. Falou-se de ditadores, da ASAE, de filmes, de blogues, dos nossos comentadores e de novos inquéritos. Um deles já está hoje on-line. Pois é, Teresa, a vitória de José Castelo Branco não foi assumida! Mas como a Adelaide de Sousa até parece ser simpática, acho que vamos gostar de tê-la como convidada. Concluiu-se também (ou, as mulheres firmaram) que as sextas-feiras masculinas são para continuar. Nem que o senhor escolhido seja o Manuel de Oliveira.
Não sei se estivemos todos a guardar-nos para o próximo jantar (com a Cristina presente) ou para o Natal, mas ninguém cobiçou sobremesa. Contudo, a dada altura pareceu-me ouvir: Não pedem sobremesa? Era o elegante João Távora… Aí a dieta, a dieta!
Já devem estar a perguntar: e o meio milhão? Mas que título é esse? Passo a explicar: o nosso Marlon Brando, Pedro Correia, deu-nos a boa nova: Entre hoje e amanhã atingimos o meio milhão de visitantes.
À nossa!

Mi casa es su casa

A forma entusiástica como José Sócrates recebeu Hugo Chávez diz tudo do primeiro-ministro que temos. Eu sei que a diplomacia obriga a muitos amargos de boca, tolera o intolerável, só que o eufórico Sócrates ultrapassa todas as marcas. Portugal pode usar de toda a cautela por causa do mais de milhão e meio de portugueses e luso-descendentes na Venezuela, pode também estar muito interessado numa parceria entre a Galp e a o estado venezuelano, até pode querer que a língua portuguesa seja ensinada nas escolas. Não pode é esquecer os exageros de linguagem de Chávez na Cimeira Ibero-Americana há menos de 15 dias, onde o socialista revolucionário e populista chamou "fascista" a José Maria Aznar e acusou as empresas espanholas de estarem envolvidas no golpe da Venezuela. E também não é nada bom sinal que Chávez aterre em Lisboa a exigir um pedido de desculpas de Juan Carlos de Borbón. Sócrates devia ter evitado o espectáculo "chavista" na capital portuguesa, em plena presidência da União Europeia. Fechava os negócios discretamente e poupava-nos à vergonha de até afirmar que Chávez em Portugal deve sentir-se em casa. Sobretudo quando milhares e milhares de emigrantes estão preocupados com a possibilidade de não se sentirem em casa depois do referendo constitucional de 2 de Dezembro. É que no dia 3, e com as mexidas que Chávez quer introduzir no direito de propriedade, muitos desses portugueses podem nem ter casa. E vêm aterrar na Portela, numa segunda versão do pós-guerra colonial. Serão os retornados do século XXI. E que bonita imagem do País se daria a à Europa...

Adelaide de Sousa


Ganhou ela. Com uma fortíssima concorrência e após mais de 1300 votos recebidos. Uma prova inequívoca de bom gosto dos leitores do Corta-Fitas.

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Afinal quem é o melhor colunista?

Enquanto procuro o número de telefone da Adelaide de Sousa, aproveito para vos apresentar o nosso novo inquérito, decidido ontem - o mais democraticamente possível - por quase todos os elementos do Corta-Fitas (só faltou a Cristina) num divertidíssimo jantar de blogue, à mesa do restaurante Tamarind.
Vamos então eleger o melhor colunista da imprensa portuguesa. Estão já a votos na nossa barra lateral os seguintes nomes:
Alberto Gonçalves
António Barreto
Carlos Castro
Ferreira Fernandes
Helena Matos
Joana Amaral Dias
João Miguel Tavares
José António Saraiva
José Pacheco Pereira
Miguel Sousa Tavares
Rui Ramos
Vasco Pulido Valente
Para tudo ficar ainda mais transparente (ainda não chegámos à Venezuela...), explico como chegámos a esta lista. Cada um dos membros do blogue escolheu um nome, sob a condição de não repetir nenhum dos mencionados pelos restantes colegas.
Ressalvo que se pretende escolher o melhor colunista e não o mais bonito (ou bonita). Caso contrário, e perante uma lista destas, nem era preciso haver votação...
Vamos lá então exercer o nosso direito cívico. Eu já votei.
.........................................................................................
* Para o jantar com a Adelaide de Sousa convidaremos também, com todo o gosto, o Pedro Mexia

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E a mulher mais bonita da TV é...

Caros Leitores:


Aproveitando um súbito assomo de bom senso dos nossos leitores (e leitoras) que sabiamente colocaram a apresentadora Adelaide de Sousa no primeiro lugar do nosso inquérito, decidimos então terminar esta veleidade que a todos nos ia deixando ficar mal. Não foram necessários os métodos antidemocráticos propostos pelo João Villalobos, posto que imperou o bom gosto e a decência neste concorridíssimo passatempo. Tudo acabou em mais uma prova da maturidade democrática dos portugueses anónimos. É assim tempo de mudarmos rapidamente para uma nova página das nossas vidas, ou seja, para num novo inquérito que vos será apresentado já daqui a pouco pelo ilustríssimo curador Pedro Correia. (Manda-me o cheque para a morada do escritório, sff)

Sempre vosso e leal escriba,

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Dedicado ao Pedro Correia

A meretriz procastinava meditabunda a resolução do seu berbicacho. Era um problema de flexigurança. Deixara ela alegadamente de fazer parte da criadagem para se encontrar nesta nova e abstrusa situação, cuja difícil sustentabilidade a levara a postergar resoluções. Agradava-lhe outrossim a interdisciplinaridade da sua profissão. Mas a necessidade de constante resiliência face às abencerragens que lhe surgiam quotidianamente não facilitava epistemologicamente a decisão de vida que concatenava. No hebdomadário, terminara de ler um artigo sobre a eventual implementação de uma nova lei que legalizaria residências, sem que entendesse o alcance dos efeitos na acessibilidade aos seus serviços. Tratava-se de obstaculizar ainda mais quem trabalha, parecia-lhe a ela. «A governabilidade não devia ser isto», matutou. Mas era despiciendo problematizar. Sem desculpabilização, restava-lhe a calendarização de acções concretas e concomitantemente despoletar e descontextualizar as suas dúvidas. Encontrar uma forma de habitabilidade que, sustentada porventura pelo ósculos alheios e as idiossincráticas perversões, não tornasse a sua vida uma inverdade. Tinha que ser proactiva, decidiu então. E não se arrependeu.

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Postais blogosféricos

1. Só queria dar-vos dar nota, já com algum atraso, do novo blogue do Rui Vasco Neto. Que tem sete vidas, como os gatos.
2. Como mandam as boas regras, aqui ficam os nossos agradecimentos a estes simpáticos companheiros da blogosfera.
3. Confirmo, Luís: a série é para continuar.
4. Se há coisa que aprecio em ti, Paulo, é o bom humor. Para além do apurado sentido estético, cada vez mais indesmentível.
5. Um plágio é a melhor das homenagens, caro Jorge. Embora isto nem plágio seja...
6. Caro Luís Serpa: como é óbvio, estou de acordo consigo.

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Palavras que odeio (39)

Meretriz

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Terça-feira, Novembro 20, 2007

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (VII)



O programa nuclear

O Hugo é um compincha, mas tem um feitio terrível. Começou a sua carreira como tenente-coronel paraquedista. Um dia, o salto correu mal e ele bateu com a cabeça. Foi aí que lhe surgiu a ideia de ser um típico caudillo latino-americano, porque tinha lido uma aventura do Tintim e aparecia aquele general Alcazar, que também é porreiro. Como o Hugo é voluntarista, dito e feito, agora é caudillo. A nossa amizade remonta ao tempo em que estivemos os dois exilados em Cuba, em tratamento. Ainda lhe chamo Huguito e ele trata-me por Che, que é uma forma de pá: “Tenemos lazos de amistad y hermandad antiimperialista, Adolfo Ernesto”, costuma dizer.
Hoje, o Hugo passou por aqui, em busca de almas gémeas, de companheiros de rota, como dizem os franceses. Fui vê-lo à sala VIP.
“Una viaje peligrosíssima, la antiaérea española intentó abater my avión. Soy el quinto exportador de petróleo del mundo”, estava o Hugo a explicar a um dos funcionários do SEF, que exigia um documento que provasse que o Hugo era quem dizia e não vinha para a emigração clandestina.
Exijo respeto para Irán”, exaltou-se o meu amigo, quando o tipo de SEF lhe perguntou para onde ia o presidente e a comitiva: “Para onde irão?”. Houve ainda uma acesa troca de palavras em torno dos conceitos de presunto implicado, mas tudo se regularizou quando o Hugo me viu. Foi uma grande festa, pá, com abraços e lágrimas. “Ay valores regulares”, dizia o meu amigo Hugo, enquanto me convidava para o visitar no seu país, onde lidera um processo político arrojado e inovador, muito apreciado pela esquerda moderna.
Tu vienes a mi país, para una estancia. Tengo hoteles de la revolución y un programa nuclear. Esse es un nuevo programa en television publica, donde yo soy el nucleo, pois hablo seis horas”.
Estava muito entusiasmado com estas inovações. O Hugo diz que quer transformar o seu, até agora, obscuro país num farol da revolução internacionalista, numa perspectiva dialéctica e de desenvolvimento sustentado.
Portugal será central para criar um eixo imbatível (América Latina, Portugal, Irão), para controlar a energia global e fazer uma finta ao império fascista do senhor Bush e do outro rapaz espanhol, de bigode, que já foi afastado e cujo nome me escapou entretanto.
Portugal es vital para mi estratégia”, explicou o Hugo, com um brilho nos olhos.
Eu já tinha posto o tipo do SEF em sentido, mas ele não desistia de querer controlar. Não se calava:
“Faço votos para que o senhor tenha uma boa estadia neste país”, disse o tolo do funcionário. O que foi ele dizer!
Por que no te callas? Votos? Falaste em votos, espécie de homúnculo pró-americano? Seu lacaio da burguesia putrefacta, seu eurocrata buxista, espécie de drácula da retórica. Eu, quando ouço a palavra votos tiro logo a minha pistola”.
Ainda tentou sacar a pistola, para abater o energúmeno, mas consegui a tempo evitar um novo incidente diplomático.
O Hugo entrara em parafuso, quase em órbita, numa irritação que só uma vez atingiu aquela dimensão tão épica e ciclónica, quando decidiu desmantelar a assembleia nacional, literalmente, pedra por pedra.
Já não há respecto por un idealista”, lamentou-se o Hugo, com um véu de melancolia naquele olhar solidário.
“Sim”, concordei, “Vivemos em tempos muito tristes”.

Adolfo Ernesto

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Este ditador vem a Lisboa (8)


Hosni Mubarak.

Presidente do Egipto desde 1981. Tem 79 anos.
Este marechal da força aérea, que foi vice-presidente de Anwar Sadate entre 1975 e 1981, decretou o estado de emergência logo no início do mandato - e tem governado assim desde então. De seis em seis anos, numa tentativa de lançar poeira para os olhos da comunidade internacional, organiza uma "eleição" presidencial em que é sistematicamente reeleito com percentagens muito próximas dos cem por cento.
No último escrutínio, realizado em 2005, não permitiu a presença de observadores estrangeiros no país - um facto que, só por si, já foi uma confissão de fraude.
Associações humanitárias têm alertado contra as detenções arbitrárias de opositores políticos e a generalização da tortura nos estabelecimentos prisionais egípcios.
Mubarak é um ditador. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Não há pão para malucos


Fala-se da depressão como de uma epidemia. Segundo a O.M.S., esta será, num futuro próximo, a segunda doença mais incapacitante, já que a sua incidência não pára de aumentar em todo o mundo.
Quando saltam para os jornais dados estatísticos sobre este assunto – e foi agora o caso, a propósito do III Congresso Nacional de Psiquiatria que decorreu há dias no Estoril – logo se avançam teorias para explicar o fenómeno: a vida está cada vez mais difícil, a pressão é constante, a instabilidade na família e no emprego uma ameaça ao nosso equilíbrio emocional. Também já ninguém ignora quais são os sinais da doença e o sofrimento que provoca, levando as pessoas, em casos limite, ao suicídio.
A compreensão parece ser total, a familiaridade com o problema inquestionável. No entanto, quem conhece casos destes – infelizmente eu conheço – sabe que em Portugal as pessoas que sofrem de depressão vivem num inferno. E em boa parte, porque a saúde mental neste país é de uma vacuidade gritante. A psicoterapia – fundamental no tratamento da depressão – é considerada pelo Serviço Nacional de Saúde um luxo. Há muitos centros de saúde que não têm sequer consultas de Psicologia e muitos dos que têm estão a rebentar pelas costuras.
Nos hospitais a dificuldade é a mesma. Espera-se demasiado tempo por uma primeira consulta. Restam os calmantes e anti-depressivos, que sem apoio psicológico só servem para criar uma nova classe de drogados, os drogados com licença para se drunfarem ou para se speedarem conforme as horas do dia e os dias da semana. Há cada vez mais gente à minha volta a viver assim. Movida a comprimidos, devidamente receitados na consulta de Psiquiatria. Porque para se tratarem a sério não têm dinheiro e no Serviço Nacional de Saúde não há pão para malucos...

Notas:
- Na última década, segundo dados da indústria farmacêutica, o consumo de anti-depressivos em Portugal duplicou
- De acordo com estudo apresentado neste congresso, cerca de 20% dos portugueses sofrem de depressão

Seis meses à vista

A poucos dias de chegar aos seis meses de gravidez, quase a entrar no último trimestre, já me sinto capaz de poder dizer: gosto de estar grávida. A vida continua, normalmente, e o que mudou foi apenas o tamanho da barriga. Uma barriga que nem sempre é obvia para todos. Para alguns é pequena: “Ah, parece que engoliste uma azeitona”. Para outros, devo ter engolido uma oliveira: “Já está tão grande!” E para outros, mais desatentos, não existe: “Então, e quando é que pensas ter filhos”? Há também aqueles que tocam na barriga e outros para quem o respeito será sempre intocável, sendo que, a minha barriga, lisa ou não, é um local sagrado – e o meu marido acha muito bem... Tenho pensado em teorizar sobre um tema: Diz-me como tocas na barriga, dir-te-ei que tipo de pessoa és.
Quanto à roupa, confesso que tenho tentado comprar o indispensável. Reforcei o guarda-roupa com mais uns vestidos que dão para qualquer altura e ontem comprei as minhas primeiras calças de grávida. São confortáveis e pelos vistos já há modelos tamanho S. O que é bom, pois sempre nos faz manter visíveis as nossas formas e não parecer um saco de batatas!
Já oiço algumas vezes: “Queres que te ajude a descalçar?”, proposta que vou aceitando.
Verdade seja dita, não damos trabalho ao pai pois não temos desejos. Talvez em breve, inventemos um ou outro pedido, só para ele poder passar por essa experiência.
Cada vez gosto mais de estar grávida. Cada manifestação do bebé - que ainda não tem nome - é um sorriso meu. E cá estou eu, sempre à espera de mais.

Ainda bem que me fazem essa pergunta

Em homenagem ao tema da conferência do Sindicato de Jornalistas marcada para amanhã com o título «O Jornalismo tem Sexo?», deixo aqui três hipóteses à vossa consideração:

a) Não. Os jornalistas são todos anjinhos.
b) Talvez. É difícil distinguir porque andam todos/as de calças.
c) Sim. E de que maneira! Cala-te-boca-se-eu-dissesse-as-coisas-que-sei-um-dia-ainda-vou- escrever-sobre-isso-mas-não-enquanto-for-vivo.

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Para bem da nossa auto-estima...

Assim como se aceita a inevitabilidade da realpolitik na relação entre estados, parece-me essencial que os nossos representantes logo ao jantar, entre sabujas mesuras e gulosos acepipes, não percam a oportunidade de afirmar o alinhamento político do Portugal democrático... por muita contrariedade que isso cause ao flanco “rebelde” do Sr. Pinto de Sousa. Isso para bem da auto-estima nacional, e para que ele não seja confundido com um qualquer Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irão e também muito “amigo” de Hugo Chavez.

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Palavras que odeio (38)

Flexigurança

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Procura-se


Maçarico-de-bico-direito. «Pode inviabilizar a opção do novo aeroporto em Alcochete», de acordo com o LNEC. A última vez que foi visto, encontrava-se de férias a Sul.

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Alanis Morissette no filme "De-Lovely" ("Let's Do It, Let's Fall In Love" by Cole Porter)

Alerta laranja

Devido aos ventos fortes que se fazem sentir, aconselha-se a todos os bloggers que fechem as janelas dos respectivos blogs a fim de evitarem possíveis acidentes.

Este candidato a ditador vem a Lisboa...



...e eu estou-me nas tintas. Nas relações internacionais, sou a favor daquela história do "Estado a Estado", independentemente de quem ocupa a chefia do dito. O problema é dos venezuelanos, que o elegeram, e não nosso.
Quanto à questão com o rei de Espanha, fiquei contente por ter sido um momento clarificador no meio de tanta confusão ideológica que há no mundo. Quem tem uma ponta de simpatia por Chávez (ainda que não confessada) na polémica da cimeira, ou tenta justificar a sua actuação como presidente, pode ter a certeza que é de esquerda. Mas, felizmente, nem toda a gente de esquerda o desculpa.
Quanto a mim, tenho a enorme satisfação de saber que a minha cidade, segundo as últimas previsões meteorológicas, o vai receber com mau tempo.

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

De quem é a rua, afinal?

Hoje a minha rua acordou com fitas plásticas vermelhas e brancas em volta dos automóveis estacionados. Ninguém entrava, e, sair, só depois de uma troca de impressões com um polícia, naquele tom típico português: "Ó xô guarda, o que é que se passa?"; "Isto dura até quando?"; "E agora, xô guarda, onde é que podemos estacionar?" (sendo que a esta última pergunta ele respondia sempre com um levantar de ombros e um virar de costas, deixando claro que, se alguém tinha direitos legais naquela situação, não éramos nós, os da rua). Horas depois, carros de exteriores de cinema, carros das luzes, do cattering, da produção, etc., ocupavam a nossa rua com indisfarçável arrogância, anunciando-se para quatro ou cinco dias.
Lembrei-me de um artigo de Gomes Canotilho, "Uma peregrinação constitucional pela rua da interioridade", e fui lá buscar este bocado: "A rua era o lugar das pessoas e das coisas. Para um jurista, era um verdadeiro alfobre de direitos. É triste reconhecê-lo: a cidade matou a rua, já não há direitos da rua e na rua. A rua já não tem a alegria do primeiro vagido nem a angústia do último suspiro".
A maior árvore de Natal do Mundo, os desfiles de aniversário na Avenida, os filmes, anúncios e mais não sei quê, o assadouro de castanhas no Terreiro do Paço e tudo aquilo que nos priva da rua tem um efeito humilhante: mostra-nos que a rua não é nossa, é "deles".
É preciso estar atento. Nunca sabemos quando vamos precisar de sair para a rua e só nessa altura reparar que já nem isso é possível.

Cozinha de fusão

«Um caso de juízes ou um caso de médicos?», interroga o Paulo Ferreira hoje no Público em editorial. Acreditando no Paulo como sempre o fiz, leio que «o argumento que sustenta a decisão» de despedimento do cozinheiro com HIV de um hotel foi «o suor, a saliva, as lágrimas ou o sangue que podem ser derramados sobre a comida e, desta forma, transmitir o vírus a quem tenha na boca uma ferida e coma esses alimentos». Sendo alguém informado e que sobreviveu aos anos 80, estou-me é borrifando para se o cozinheiro tem HIV ou não. Muito mais relevante é ficar a saber que suor, saliva, lágrimas ou sangue podem ser «derramados» no meu prato como se o mesmo fosse um estaleiro da Lisnave ou uma ilha dos Bijagós em tempo de guerra. Que raio de controlo de qualidade nas cozinhas têm os hotéis do nosso país, hem?! No fundo, isto é um caso para a ASAE mal acabem de emborcar as ginjinhas, é o que é.

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Justiça e censura

Convém evitar confusões, Daniel. Ou partimos do princípio de que o Estado de Direito funciona em Espanha (é o princípio de que eu parto) ou não. Em caso afirmativo, o caso da revista com uma capa obscena que foi agora alvo de uma condenação judicial em primeira instância está longe do fim: basta ver que o processo transitou para recurso. Tudo poderá acabar com uma absolvição.
O que sucedeu foi simplesmente a justiça a funcionar. Só isso. Nada a ver com censura, que é outra coisa. Recordo que no Portugal democrático cartunistas como Vilhena e Cid foram alvo de sanções judiciais (e ambos com a obra parcialmente apreendida à ordem do tribunal) por queixa de particulares ou demanda do Ministério Público.
Criticável? Claro. Mas todos quantos escrevemos ou desenhamos no espaço público sabemos que o direito de expressão não é absoluto nem irrestrito. A ele corresponde sempre o direito de um eventual lesado poder accionar-nos judicialmente por abuso de liberdade de expressão.
Bem diferente é a censura que existe em quase todo o mundo islâmico e que nada tem a ver com isto. Não confundamos o que não deve ser confundido, sob pena de perdermos por completo o sentido das proporções.

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Não há duas sem três


Em busca de uma explicação para a nova imagem dos cartazes da Juventude Socialista que incluem um rapaz com ar matreiro abraçado entre uma jovem loura e outra morena (nítida mensagem subliminar do género: «Podes não perceber agora para que são os 25.400 lugares em creches, mas vais ver quando tiveres duas famílias para sustentar) fui até ao site da instituição. Verifiquei então que o logótipo da JS também é composto pela imagem de um trio (desta vez MMF), dançando em volteio qual ritual pagão em prol das colheitas (e não é preciso viver no campo para saber como estas coisas acabam).
Reparei também que o secretário-geral da JS se chama Pedro Nuno Santos. É impossível não reparar. Acredito que seja um rapaz estimável. É, pelo menos, imparável. Logo na página de entrada não há notícia que não fale do que anda a fazer. A estratégia assenta numa precoce descrença na capacidade de retenção da memória dos seus simpatizantes e inclui duplicados: Da informação e das fotografias. Não ficamos esclarecidos sobre o que motivou a escolha de imagem da campanha. Mas, pelo menos sobre quem é e o que diz o secretário-geral da JS, somos informados à exaustão.

Há esquerdas e esquerdas

Concordo em pleno com o texto do Pedro, aqui em baixo. Estive a ler o Vargas Llosa e na realidade ali está quase tudo sobre o infeliz episódio do encerramento da XVII Cimeira Ibero-Americana. Duas notas: a primeira para lamentar muito do que se tem dito e escrito por aí, sobretudo à esquerda, sobre o caso "Por qué no te callas?". Na grande maioria escrevem pessoas que viram a coisa por alto na televisão, foram aos blogues do costume e toma lá, desata a escrever disparates; a segunda, para reconhecer que há esquerdas e esquerdas, veja-se o caso da latino-americana (a que não é chavista, fidelista, moralista ou orteguista) e da espanhola vs a nossa. A nossa, de facto, e neste caso, revelou-se muito pobrezinha de argumentos.
"Convém a Espanha ter relações privilegiadas com países que encarnam a civilidade e a liberdade", diz Vargas Llosa no artigo de ontem no El País. Não posso estar mais de acordo, ao mesmo tempo que lamento que José Sócrates receba, assim sem mais nem menos, Hugo Chávez no auge desta crise. Eu sei que há os 600 mil portugueses oficialmente radicados na Venezuela (mais os luso-descendentes, a coisa deve ir para cima de um milhão e meio), eu sei que há interesses importantes naquele país, em termos de energias combustíveis (a Galp está lá com um pé, com a ajuda do dr. Soares), mas na política não vale tudo. Não pode valer.

Não se pode dizer, a um momento, que a nossa política externa e comercial deve ser "Espanha, Espanha e Espanha" e depois ter atitudes ou gestos destes. Nesta altura, o primeiro-ministro de Portugal devia estar do lado certo. E parece não querer estar. Ele é real politik de alto a baixo, ao ponto de minutos antes do episódio (e eu estava lá, em Santiago do Chile) ter dito que a diplomacia portuguesa não pode ser "infantil" (a expressão é de Sócrates) no que diz respeito à Venezuela. Se não podia ser "infantil" na altura, acho que depois disto tudo já podia ter, pelo menos, passado a puberdade...

O Mussolini venezuelano


Disse Carlos Fuentes em entrevista ao jornal La Nación, de Buenos Aires: "Já era tempo de alguém perder a paciência com Chávez. Ainda bem que foi o Rei, perante uma arremetida grosseira desta personagem tosca, prepotente e ignorante que se chama Hugo Chávez. Alguém tinha de dizer: 'Basta, pára!' Hoje acusa o Rei de manobrar para a sua queda. Isso é ignorar que o Rei Juan Carlos conduziu a transição do franquismo para a democracia e enfrentou o golpe militar de Tejero. (...) Atacá-lo é outra grosseria desse homem perturbado que se chama Chávez. Estamos perante um Governo fascista típico: a sua organização, a sua retórica, os seus objectivos, os seus uniformes, as suas varandas, tudo. Chávez é um Mussolini venezuelano."

Escreveu Mario Vargas Llosa no jornal El País, de Madrid: "O senhor Chávez tem umas credenciais que o exoneram de toda a respeitabilidade civil e democrática, pois, a 4 de Fevereiro de 1992, traiu o seu uniforme e actuou com deslealdade promovendo um golpe militar contra um Governo constitucional e legítimo no qual morreram dezenas de oficiais e soldados venezuelanos em defesa do Estado de Direito. (...) É possível que, ao reagir como reagiu, o Rei de Espanha transgredisse o protocolo. Mas que alegria deu a tantos de nós, latino-americanos, a tantos milhares de venezuelanos!"

Dois escritores latino-americanos de esquerda pronunciam-se assim, em termos inequívocos, sobre a frase que Juan Carlos atirou a Chávez: Por qué no te callas? Palavras para reter numa altura em que o Mussolini venezuelano é o novo herói de uma certa esquerda portuguesa.

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Palavras que odeio (37)

Criadagem

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Bota abaixo


Lendo o Tomás Vasques, descubro que a ASAE apreendeu na Ginjinha do Rossio umas 18 garrafas de ginja «com elas». A ASAE não quer saber da qualidade dos shots servidos às crianças no Garage ou dos efeitos de misturas publicitadas à «malta jovem» em cartazes, como o do Martini com cerveja. Preocupa-se é com o fígado dos frequentadores daquele castiço estabelecimento. Devem ser malta nova, estes ninjas. Tivessem eles barba e um bocadinho de vida e saberiam que o prazo de validade não se aplica a uma garrafa de ginjinha e, em acréscimo, que o fígado de quem por lá pára já passou há muito a fase dos paternalismos. Rapazes da ASAE: Ainda vocês comiam mioleira com ovos mexidos ofertada pela vossa mamã e já aqueles senhores trabalhavam de Sol a Sol sem outra razão de viver que não o 13 no Totobola e o copito de ginjinha ao fim do dia. O que é que vocês querem afinal, hã? Tornar-nos a todos uma cambada de suiços? Bebam mas é as 18 garrafitas e ganhem juízo.

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O avião do amor


Exactamente quantas pessoas pensam os nossos jornalistas que se vão enfiar num avião, em busca de uma cara-metade para a vida? Pelos vistos, no mínimo uns bons milhares. Só isso justifica que, tenha eu aberto qualquer que fosse o jornal ou revista nos últimos dias, deparasse inevitavelmente com duas páginas sobre essa verdadeira manifestação de crise relacional pós-pós-moderna que é o skydating. Para quem não vai lá pelo nome da coisa, é uma viagem de avião durante a qual os passageiros vão mudando de lugar a cada cinco minutos enquanto decidem se o/a parceiro/a do lado cumpre os critérios elegíveis para a) Casamento, b) Andar com, c) Dar pelo menos uma queca em pleno voo quando a organização não estiver a olhar (dizem que há um clube só de malta que já passou pela experiência).
Com excepção da alínea c), cinco minutos parece-me manifestamente pouco para a tomada de decisão. Isto dito por alguém que admite desde já ter feito escolhas de vida decisivas em menos tempo, embora nem sempre em lugares bem iluminados. A meu favor, saibam pelo menos que quando viajo sozinho de avião não perco tempo em conversas com ninguém, excepto com a hospedeira. Tenho idiossincrasias cá muito minhas.

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O Inverno nas colunas

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Aproveitem que não duro sempre

O soundbyte que Luís Filipe Menezes deveria ter proferido, após a vitória nas eleições da freguesia de Caldas de S. Jorge, Santa Maria da Feira: «Primeiro vencer em S.Jorge, a seguir vencer o dragão». Espera aí...o dragão prestava-se a dúbias interpretações portistas. Talvez fosse melhor substitui-lo pela hidra das sete cabeças.

Domingo, Novembro 18, 2007

Numa aldeia que resiste (ainda) ao invasor


Almoçámos um Cozido à Portuguesa excepcional no restaurante da Aldeia de José Franco, no Sobreiro. Eram tão saborosas as couves e as batatas que comprei umas e outras, idênticas, vendidas também numa banca do outro lado da estrada. Depois da refeição, falei com o próprio Mestre Oleiro que conta agora 87 anos. Pediu-me que arranjasse a antena da televisão (sem remédio), ligasse a aparelhagem que logo estoirou música de acordeão a mais de 20 decibéis e, enquanto moldava para nós uma peça e me oferecia uma ginjinha com elas, contou com os olhos inflamados e a pele das mãos avermelhadas pelo barro uma história triste sobre como o genro o enganara, o ameaçara e qualquer coisa sobre uma Fundação e outro museu que pretende abrir para as crianças. No final, pediu-me pela peça o que lhe quisesse dar. Eu dei, mas saí triste.
José Silos Franco, como escrevi linhas antes e pode comprovar-se através das peças e das obras que criou, é um Mestre artesão e homem de uma casta que se extingue. Ignoro que questões familiares existem e qual a história real por detrás do que me confessou. Mas depois de tudo o que criou entendo que merecia outro fim de vida em lugar de estar ali, olhos inflamados com as mãos trémulas em redor do torno, um prato com ossos de frango em cima da mesa e uma cantiga do bandido montada para os trocos dos visitantes.

NU tícias

Ao fim de uma semana de notícias diárias sobre o seu colega pivô José Rodrigues dos Santos, José Alberto Carvalho tirou a gravata.
Pelo que me apercebi, conseguiu umas chamadas de primeira página. Espero que tudo se resolva rapidamente na RTP. Não sei se o país está preparado para José Alberto Carvalho tirar mais peças de roupa.

Post provavelmente enjoativo


Falar disto ao domingo de manhã é capaz de não ser muito apropriado. Ainda por cima o céu limpou e está um dia radioso. Mas na devida altura não comentei o assunto e este tema, apesar de batido, complica-me sempre com o sistema nervoso. Esta semana, foram suspensos dois funcionários da Casa Pia. Um deles por suspeita de envolvimento em organização pedófila. O outro é apenas, ao que se sabe, acusado de negligência na vigilância das crianças que tem a seu cargo. Aos detractores de Catalina Pestana, que veio recentemente a público denunciar que os abusos parecem continuar, apeteceu-me dizer: “Afinal, aparentemente, ela até tem razão!”

Joaquina Madeira, a actual presidente do conselho directivo da Casa Pia, entretanto disse em entrevista à RTP que o que é preciso é manter a discrição para preservar o bom nome e normal funcionamento da instituição. Pois! Foi o que durante décadas aconteceu, com os resultados que sabemos. Neste caso, é bom não esquecer, foi a inconveniente, sensacionalista, abelhuda, comunicação social que tornou possível que finalmente algo se fizesse em defesa daquelas crianças. Catalina Pestana percebeu isto e agiu em conformidade. Só a posso saudar. Por que se manteve calada durante tanto tempo, uma vez que ela teve responsabilidades naquela casa durante muitos anos? Boa pergunta. Talvez ela um dia explique.Por que ficaram as pessoas tão incomodadas por ela voltar a por o tema da pedofilia nas páginas dos jornais? Confesso que neste momento é a questão que mais me inquieta. Será por cansaço, enjoo? Talvez já não haja pachorra para a mesma conversa, sei lá! Será que foi isto que irritou a plateia? Prefiro não acreditar que seja assim. Seria horroroso demais!

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 21, 5-19

Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

Da Bíblia Sagrada

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Sábado, Novembro 17, 2007

Palavras que me metem nojo

Ao ler nos jornais que uma jovem saudita, vítima de violação repetida (14 vezes), viu a sua pena agravada de 90 chicotadas para 200 chicotadas e seis meses de prisão por ter recorrido da sua sentença socorrendo-se do apoio dos media. E ao perceber que o seu crime foi estar acompanhada por um homem que não era da sua família no momento em que foi atacada pelos violadores (num total de sete), apeteceu-me fazer uma variante dos posts do Pedro sobre as palavras que odeia.
Mais que ódio

sharia

inspira-me um profundo asco

Tributo à Bolacha Maria

Composição: Farinha de trigo, açúcar, gordura de palma, xarope de glucose, água, emulsionante, (lecitina de girassol), sal mineral, levedante químico (bicarbonato de sódio), agente de tratamento de farinha (metabissulfito de sódio) e glúten.
Valores nutricionais por 100 g: Valor energético: 1779KJ (421 Kcal) Proteína: 6,8g Glícidos 78,9 g, Lípidos: 8,7g.



Ainda as comprei ao quilo envoltas em farripas de papel, dispostas em caixas de cartão. Naquele tempo, pouco antes do advento dos supermercados, já havia uma variedade enorme de bolachas, em saquetas ou a peso. Vendiam-se numa qualquer mercearia ou charcutaria de bairro. Com recheio, sem recheio, d’Araruta, de Baunilha, Belinhas, Torrada, de Areia, Água e Sal, Línguas de gato, de veado ou da sogra, etc., etc., etc.
Mas as “bolachas” mais “bolachas” de todas; mais saborosas e que porventura eu levaria para uma ilha deserta - juntamente com os meus CDs e livros preferidos - seriam sem dúvida uns quantos pacotes de “bolachas” Maria... (e uns litros de refrigerante para desembuchar, s.f.f.).
Lembro-me em pequeno quando comprava quinze tostões delas na mercearia da Sra. Natália, que m’as aviava profusamente num cartucho de papel pardo. Sabia melhor e satisfazia bem mais do que um rebuscado e módico bolo da pastelaria do Sr. Manel ali na outra esquina. Depois ainda tinha que as comer avaramente, à pressa, num recanto escuro das escadas do prédio, subjugado pela gula - para não ter que as repartir com os meus insaciáveis irmãos.
A Bolacha Maria é uma receita simples de enorme sucesso. Por mais que se inventem mais variedades, bolachas mais finas ou sofisticadas, a previsível Bolacha Maria nunca enjoa, cai sempre bem. Por exemplo, ao lanche sabem tão bem aos pares, com uma redundante porção manteiga de entremeio, acompanhadas com um chá quente ou uma laranjada fresca.
Num mundo pleno de imprevistos, novas experiências, radicais performances, jornalistas de causas, cozinha de fusão ou apenas nouvelle; cheio de modas e novos conceitos, experimentais ou definitivos, novíssimos softwares e hardwares, mais às suas actualizações, online ou offline... é muito reconfortante saber que existem algumas sensações previsíveis, experiências que não mudam, sabores resistentes e imutáveis.

Raios partam esta ingrata dieta... que exacerba o meu apetite, e que mal resiste a uma frugal escapadela... ali ao armário da cozinha.

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Não tem nada a ver

É um disparate comparar o caso dos cartunes dinamarqueses que em 2006 fez incendiar os ânimos no mundo islâmico, originando manifestações violentas e sangrentas, com o da revista espanhola agora condenada em primeira instância (e estando o processo naturalmente em fase de recurso). Num caso, houve a pressão ilegítima da "rua árabe". Noutro, pelo contrário, é o estado de direito a funcionar - com o poder judicial independente do poder político. Nada a ver uma coisa com outra, mesmo que alguns insistam em confundi-las.

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Avançar para trás

Em Portugal, 2007, ainda há quem defenda o Muro de Berlim (1961-1989). No Avante!, claro.

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Bem-vindo

É oficial: o jornalista que em tempos não gostava de blogues entrou na blogosfera.

Alugo terraço

A ditador que precise de montar tenda em Lisboa. Ambiente
familiar. Bom estendal para lenços de pescoço. Pequeno-almoço não incluído.
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Retrato da "crítica" em Portugal


A crítica em papel impresso que se consome em Portugal é um coito de bons rapazes. "Crítica" de livros onde não há uma linha a criticar. "Crítica" teatral onde nenhum dos eternos bonzos do teatro "independente" jamais é beliscado. "Crítica" de música onde nunca se desafina do cânone oficial e/ou comercial. "Crítica" de cinema que arrasa os americanos (que estão longe e não lêem a imprensa portuguesa) enquanto entoa hossanas a tudo quanto é filme português ou cinema "europeu" com produção ou co-produção portuguesa. "Crítica" de restaurantes onde tudo quanto se come é imperdível, fabuloso, sublime, excepcional.
A "crítica" em Portugal. É isto.

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Palavras que odeio (36)

Berbicacho

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Também eu estou pensativa

Depois de gerir com eficácia uma empresa que é um sorvedouro de dinheiros públicos, como é a RTP, Almerindo Marques vai gerir - certamente com eficácia - uma empresa que é um sorvedouro de dinheiros públicos, como é a Estradas de Portugal. Alguém tinha que o fazer, bem sei, mas ainda não percebi se é uma boa notícia.
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Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Sexta-feira em beleza (Parte II)

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Nas colunas


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Sexta-feira

Diana Chaves, por Leonardo Negrão.


P. S. - Confesso que não sei quem é que se esqueceu de pôr esta menina na lista do concurso aqui da barra lateral. De certeza que ela não deixava que aquela ave rara liderasse a prova...

Este ditador vem a Lisboa (7)


Muammar Kadhafi.

Presidente da Líbia desde 1969. Tem 65 anos.
Era capitão quando liderou um golpe militar que derrubou do trono o rei Idris. E nunca mais abandonou o poder: reina há 38 anos em Trípoli como senhor todo-absoluto. Financiou o terrorismo internacional. Sob o seu mandato, pelo menos 250 presos políticos "desapareceram" misteriosamente. Os partidos são rigorosamente proibidos no país. A liberdade de expressão é uma miragem. A tortura generalizou-se como instrumento de combate ao "crime". Muitas mulheres suspeitas de adultério são remetidas a casas de "reabilitação".
Na Líbia de hoje, uma crítica ao Governo pode ser punida com a prisão. Ou ainda pior: a tristemente célebre Lei 71 pune a "dissidência", em casos extremos, com a pena de morte.
Kadhafi é um tirano. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.
....................................................................
ADENDA: Sobre o Zimbábue, leia-se o que o Tiago Barbosa Ribeiro escreve aqui.

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Para a nossa Maria Inês

Um poema recuperado da minha caixa:

«Não foi como recordas. É mentira
a folha seca tombada sobre o teu colo,
no exacto momento em que disseste
a palavra que não queria ouvir.

Interpretas em excesso a Natureza,
nem tudo sucede porque acontecemos.
Ontem mesmo quando chorei não choveu
e isso prova a inexistência dos deuses.

Também acontece sentir-te, ausente
não estares ali mas antes a tua sombra.
Fosse um sinal estaria louco
e não é assim porque te respondo como existisses.

Foi talvez ontem. Entrei clandestino no teu quarto
abandonado e branco, no chão as cartas
que escrevi atadas pelo cordel do Tempo.

Enquanto as abria, uma folha seca tombou.

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Notícias provincianas

Que País é este que transmite em directo logo de manhã, e durante largos minutos, a adjudicação de um troço (uma palavra para o Pedro) da CRIL, com direito a discursata do presidente da Câmara de Lisboa, do ministro das Obras Públicas e do primeiro-ministro? Só pode ser muito provinciano mesmo. Pior é quando o canal, dito de notícias (e não de publicidade), acaba a peça com um dos pivôs a elogiar o mérito e a necessidade de concluir a obra. Sim, isso mesmo. Vi isto claramente visto.

Isso tem ar de doer

«Tal como o castor que cortou os próprios testículos para desencorajar os perseguidores que lhos queriam arrancar, Menezes poderá ser vítima da estratégia».

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Nem sei mais o que diga

Surpreendi-me. Às vezes ainda me surpreendo. Veio parar-me às mãos uma crónica de Clara Pinto Correia publicada dia 3 na revista do 24 Horas, com o título «Então mas isto é uma democracia ou é uma casa de putas?». Uma pergunta à qual a autora - cujas madeixas somos informados contarem com o alto patrocínio do cabeleireiro Verissima - não chega a responder de forma cabal. Em troca, a dita crónica finaliza com outra questão de elevado calibre: Se «é desta» que «vamos ao focinho» ao Primeiro-Ministro. Porquê «desta»? Porquê agora? Porque, vejam só, «já deu sobejas provas de que não gosta de ser criticado. Se não fizermos nada, ele é muito menino para revogar mesmo a lei» (dos direitos de interpretação para os autores).
Clara Pinto Correia advoga pois, em lugar das críticas tão do desagrado de José Sócrates, o seu espancamento preventivo. Uma espécie de vingança avant la lettre. «Ainda não revogaste a lei? Ah, mas és gajo para isso. Toma lá um uppercut nos queixos antes que te portes mal». Atrever-me-ia a dizer que, mesmo numa casa de profissionais do sexo, não é hábito incitar ao afiambramento do Chefe de Governo eleito. Numa democracia, pelos vistos e a avaliar por esta crónica, acontece de vez em quando.

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As nossas caixas

Descobri na minha caixa de recordações - aquela que escondia, há 10 anos, estrategicamente da minha mãe, mas que agora ficou no meu antigo quarto - cartas recebidas, poemas escritos, desenhos que representam dias, anos, lugares, momentos. Curioso como as coisas mudam. Parece que, de há uns anos para cá, a minha mãe pode saber e vasculhar, se quiser, aquilo que eu tinha de mais precioso, na altura. Parece que agora não faz sentido trazer o passado para o presente dentro de caixas. Às vezes, também penso se a estabilidade emocional nos corta a inspiração e amarra as mãos para qualquer poema que teima em não nascer. Mas, a ver pelo João Villalobos, isso não é uma regra.
Apeteceu-me deixar aqui uma das folhas que lá se encontram.
É tão bom abrir algumas caixas.
«Nunca sei quando as carícias provocantes das pontas dos meus cabelos voltam a roçar o teu rosto indefinido.
Nunca sei quando o vento, o calor e o frio se encontram e desencontram nos nossos corpos.
Nunca sei quando a timidez tem tempo para ser vencida, nem quando volto a ver as luzes sempre diferentes que nos iluminam, mas igualmente tímidas.
Nunca sei quando tem início o jogo de reflexos, nem o novo dia, para que me encontre fascinada pelo prazer do toque, do tacto, como um cego que lê braile pela primeira vez.
Nunca sei quando o sol da noite me volta a abrilhantar o caminho até ti, até nós, nem quando a lua me pintará com cores vivas e fulvas.
Nunca sei quando os teus olhos voltam a ser a catedral de granito na qual me confesso sempre que a minha boca vai de encontro aos teus lábios.
Nunca sei quando irei olhar as estrelas e enviar-lhes aquele sorriso beatífico, audível e inacabável que adquiro antes, durante e depois de te ter olhado, de nos termos sentido.
Nunca sei qual vai ser a porta que tu vais abrir e que vai ser a ponte para a nossa saudade se afundar num abraço.
Nunca sei quando volto a escutar a noite mais silenciosa e ousada.
Nunca sei quando voltas a filtrar a luz dos meus olhos, pelos teus olhos, nem quando as palavras e os sentidos se namoram e se escondem, com aquela ingenuidade e ternura quase infantis, por detrás de nós.
Nunca sei quando é possível que as flores que decoram o céu assistam a este entrelaçar de sentimentos, depositado na união de duas mãos.
Nunca sei quando volto a ter memórias porque nunca sei quando voltas».

Depois de amanhã, outra vez Domingo

Reconsiderei. Pelos mails recebidos, comentários identificados e telefonemas de amigos, apercebi-me de como afinal estava tão legitimada a minha desaforada transcrição dominical. Porque afinal o Corta-fitas é um inesgotável espaço de pluralidade. Ainda bem!

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Hoje já não durmo

O João Gonçalves já me ofereceu uma imagem de pesadelo para este fim de semana: Salazar vestido com uma camisa de dormir, daquelas de flanela azul bebé com folhinhos. A figura não se me remove da cabeça. O João leu o livro da Micas e ela revela assertiva este detalhe de profunda intimidade doméstica: «O Senhor Doutor não usava pijama». Que terão os seus olhos visto? O mesmo que imagino? Algo pior? Se para mim só a visualização já é traumática q.b. , não faço ideia que efeitos terá tido na pobre rapariga.

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O fado das sextas


Hoje com ANA MOURA. Uma das melhores vozes portuguesas.

Roubei a imagem ao Bruno. Tenho a certeza de que ele não se importa...

Sexta-feira em beleza

Salma Hayek

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Porque hoje é... o vosso dia


"Minha jóia querida:

Escrevo-te de manhã, no gabinete da enfermaria, enquanto espero mais três evacuados. Foi o outro médico que aqui está comigo que, desta vez, os foi buscar. Ontem à noite acordámos todos ao som de tiros: devias ter-me visto, de pijama e arma como um coronel de reserva, a sair a correr para a parada, descalço! Começo a compreender Che Guevara: há qualquer coisa de realmente emocionante nisto, palavra, e até o contacto frio e duro da espingarda é agradável. Não penses, contudo, que ando por aqui aos tiros armado em parvo. Talvez, realmente como o Hemingway sustentava, a experiência de guerra seja importante para um homem.”
António Lobo Antunes in D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto

Palavras que odeio (35)

Abstruso

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Postal de Natal

Ao chegar a casa cruzo-me muitas vezes com um casal com um bebé. Acho que só não os encontro sempre porque as veias deles precisam de mais químicos do que aqueles que o amor pelo bebé lhes desperta e esse tipo de exigência impõe-se a qualquer rotina.
A pele lustrosa do bebé contrasta com a deles. Os olhos redondos e luminosos do bebé não param de olhar em volta, abismados com tudo; os olhos do rapaz e da rapariga só se fixam no chão. Mas o mais estranho naquele grupo é a forma como agarram o bebé: uma vez a rapariga, outra o rapaz, seguram-no frente ao peito, com os braços afastados do corpo, como se transportassem o filho numa peanha.
Às vezes, pela forma concentrada com que o olham, parece que o bebé é uma bússola. Outras vezes, parece que é o bebé que vai à frente, erguido do chão, a decidir o caminho.

Quinta-feira, Novembro 15, 2007

Estrelas de cinema (8)


A ESTRANHA EM MIM ***
Quando as estruturas do Estado falham, é moralmente aceitável, e mesmo legítimo, fazer justiça pelas minhas próprias mãos? É esta a questão central de um estimulante filme agora em cartaz entre nós – The Brave One, que recebeu em português um título bem mais interessante do que o original: A Estranha em Mim.
A “estranha” é Erica Blair, uma citadina a meio da vida, a meio da escala social, a quem um bando de energúmenos rouba para sempre a oportunidade de ser feliz. Matam-lhe o namorado, deixam-na à beira da morte. Aconteceu com ela, poderia acontecer com qualquer de nós.
A recuperação é demorada. E a Erica que sai do hospital pouco ou nada tem a ver com a Erica anterior. É uma mulher dilacerada, torturada, obcecada pela vingança. Esta obsessão amplia-se quando é confirmada a ineficácia das forças policiais.
A partir daí, passa a travar o seu combate solitário contra as forças do mal. Um combate que não a redime de nada, mas que ela executa com a voracidade de um anjo vingador. Os tempos são propícios a esta cartilha do “olho por olho, dente por dente”: só sobrevives se adoptares a conduta moral de quem te pretende destruir.
A Estranha em Mim podia ser um vulgar fita de “acção” ou de suspense feita a pensar no consumo acelerado de pipocas. Mas destaca-se da mediania em boa parte graças à interpretação de Jodie Foster, que encarna na perfeição a personagem de uma mulher dual, vítima e verduga, estigmatizada pela violência urbana hoje sem fronteiras definidas.
O carácter simbólico da trama é destacado pelo experiente realizador irlandês Neil Jordan, que nos introduz numa Nova Iorque baça e densa, quase desfocada, quase irreconhecível. A banda sonora sublinha o desenrolar do drama interior de Erica com uma intensidade semelhante à partitura composta por Bernard Herrmanm para acentuar o errante itinerário do Travis Bickle de Taxi Driver (1976) – uma longa-metragem estranhamente simétrica a esta, aliás intensificada pela aparição de Jodie Foster em ambos os filmes. Repare-se no tema “Answer”, de Sarah McLachlan: “If it takes my whole life / I won’t break, I won’t bend / It will all be worth it / Worth it in the end.”
Mas o melhor desta A Estranha em Mim – melhor ainda do que a extraordinária interpretação de Foster – é o seu subtexto, com evidentes alusões à atmosfera política e social posterior ao 11 de Setembro de 2001 e aos demónios que se soltaram nesta data, transformando a nossa vida para sempre.
Neste preciso ponto situam-se, no entanto, também alguns dos aspectos mais equívocos deste filme, que parece justificar primitivas e demenciais formas de violência em nome do instinto de sobrevivência inerente à condição humana. Neste aspecto, A Estranha em Mim tem múltiplos antecedentes, que remontam aos dirty westerns de Clint Eastwood, na pele do justiceiro implacável que chega à cidade montado num cavalo negro, à série de fitas protagonizadas nos anos 70 por Charles Bronson, vingador solitário ainda sem as circunstâncias atenuantes em vigor no mundo pós-11 de Setembro.
Nós, espectadores, tendemos a simpatizar com Erica Bain e a secundá-la nos seus propósitos de erradicar o mal daquela cidade (de todas as cidades) patrulhada por uma legião de polícias impotentes. Mas o que sucederá quando ela amanhã deixar de matar por vingança e passar a matar por prazer, tornando-se igual aos energúmenos que hoje persegue?
Eis uma pista que o filme abre sem resolver. E é preocupante a propositada ambiguidade em que nos deixa.

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Mea culpa

Como responsável pela introdução do nome de Castelo Branco no inquérito da barra lateral (pensei que teria um efeito moderadamente piadético - enfim - e provocaria alguma saudável celeuma e respectiva subida de audiências) considero ser a pessoa mais indicada para, de forma assumidamente não democrática, anunciar que o nome não será jamais considerado como vencedor mesmo que obtenha uma votação superior. A pergunta é «Qual a mulher...?» e, que saiba, o rapaz ainda não mudou de sexo. Pelo que: Abóbora. Ganha a moça que mais votos obtiver e não se fala mais no assunto. Cumpra-se.

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Tropeçar na bengala

Há pessoas a quem acontece tudo. É o caso do filho daquela fulana da baixa sociedade agora em julgamento por ter mandado matar o marido. O rebento, ao que consta, também não é flor que se cheire: mal a mamã recolheu à cadeia, desatou a vender ao desbarato os tarecos da família, acabando igualmente por ser detido. O facto de ser uma espécie de protegido desse tal de Castelo-Branco não foi considerado circunstância atenuante, mas agravante. Como seria de esperar.
Pois não há nada que não aconteça a este rapaz. Abro o 24 Horas e leio o seguinte: "David Motta, filho de Maria das Dores, chegou ao tribunal de bengala. A meio da manhã ainda teve um percalço: tropeçou na bengala e caiu. Mas rapidamente se levantou."
A quem tropeça na bengala só falta mesmo cair-lhe o céu em cima...

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Palavras que odeio (34)

Coevo

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Sto. António dos Olivais

É verdade que passei uma boa temporada em Coimbra, vivi em Sto. António dos Olivais. Lembro-me que ouvia Lloyd Cole de mais, e que um dia uma bem intencionada alma me ofereceu um gatito siamês para minha salutar companhia. Acho que o animal chegou demasiado crescido às minhas mãos, já elegante e lustroso. Desde então tentámos com afinco domesticarmo-nos mutuamente, mas a causa era perdida - foi curta e inglória a sua passagem na minha vida. O bichano, além de não me ligar peva, possuía uma estranha extravagância: subir às arvores que não sabia descer. Uma noite, de madrugada, acordei estremunhado com os seus miados aflitos. Espreitei ensonado para o quintal, e lá estava ele, empoleirado num tronco da alta árvore. Na noite seguinte ao chegar a casa, àquela pacata rua de província, o gato lá permanecia, balanceante, num ramo ainda mais alto e mais frágil, com um miar mais sonoro e desesperado. Pressenti os olhares estremunhados e recriminatórios dos meus vizinhos, ocultos pelas suas térreas gelosias. Ao terceiro dia, finalmente entrou em casa despenteado, rouco e a coxear. Dei-lhe uma reconfortante refeição, e nessa noite ambos dormimos um sono profundo e retemperador.
Que eu me lembre, a cena repetiu-se mais duas vezes. À medida que o tempo passava, o bicho subia mais alto, para os mais frágeis e trémulos ramos, ao nível de um segundo andar. O pânico da vertigem impelia-o para o alto. Atirei-lhe com pinhas, chamei os bombeiros, a situação era desesperada. Até que o gato caía de maduro, pelo cansaço ou pela força do vento.
O bicho era bonito. Olhos verdes claros, por detrás duma mascarilha castanha a condizer com as botas e luvinhas, sobre um pelo sedoso bege claro. Uns dias mais tarde o bichano desapareceu. Foi algum incauto forasteiro que o roubou, atraído pela fidalga figura do estúpido animal. Ou então um vizinho mais zeloso lhe deu um curativo fatal. Para bem da boa vizinhança.
Demorou algum tempo mais para que eu próprio, pelo meu pé, descesse da minha árvore.

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Quarta-feira, Novembro 14, 2007

Sempre a pensar na Pátria

Enquanto Hugo Chavez pensa numa forma de boicotar as empresas e bancos espanhóis na Venezuela, as empresas e bancos portugueses deveriam aproveitar este mercado e ocupar o espaço que os nossos irmãos vão deixar em aberto.
Era bom para a nossa economia, e estou convencida de que Hugo Chavez ainda ia demorar uns meses a descobrir que tinha sido enganado. No lo crés?

Postais blogosféricos

1. O André Abrantes Amaral anda há quatro anos na blogosfera. Ainda bem que tarda em cansar-se.
2. A Rua da Judiaria festejou o quarto aniversário. Muitos parabéns ao Nuno Guerreiro.
3. Visito cada vez com mais frequência este blogue. E gosto cada vez mais dele, a começar no título.
4. É a altura de dar as boas-vindas a este colega recém-chegado.

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Lisistrata*


Isto tem que ser dito: Noto as mulheres desta casa muito preocupadas consigo mesmas. Elas poderão dizer com as outras, mas o argumento não me convence. É a Teresa e as leis do mercado, a Maria Inês e se os homens serão todos iguais, a Cristina e a sua affirmative action sempre que alguém (o FAL, sempre o nosso FAL :) coloca aqui a imagem de uma miúda de tirar o chapéu (da cabeça dela, porque hoje só as mulheres usam chapéu).
Ora, como já a Cristina aqui escreveu num comentário a um dos meus posts (ou terá sido a Teresa?), «os homens são muito básicos» (ou «simples». Enfim, vai dar ao mesmo). Respondendo à Maria Inês, era bom que fossemos todos iguais mas alguns são menos homens do que os outros. Tirando esses, somos de facto todos Playmobil. Uns encarnados, outros azuis, mas iguais (já estou a ver alguém a ter a brilhante ideia de realçar que os Playmobil não têm, enfim, «Aquilo». Não interessa para o caso).
Não percebo que mais querem as mulheres. Têm a suprema vantagem competitiva de saberem o que queremos, como somos e os limites do que podemos ser. Já os homens são todos Freudezinhos que se vêem em palpos de aranha para perceber o que querem realmente as senhoras por detrás daquilo que dizem querer. Com a idade, tendemos a perder a paciência para as compreender. Ou encontramos uma mulher que nos diga claramente o que quer, ou outra para a qual nos estejamos nas tintas sobre o que pretende. Isto é um bocado abrutalhado de dizer-se. Mas os homens, por natureza, são abrutalhados. Há-os sensíveis, não duvido, mas a prazo saem um bocado caros no deve e haver do coração. Valha a verdade, sou adepto de que uma mulher só procura um homem sensível quando desistiu dos outros, da mesma forma que o homem abdica do cartão de crédito. Voltando ao início, já conheço cada uma das mulheres que escrevem neste espaço. Todas elas, sem excepção, têm razões para provocar deslumbramento em qualquer homem que se preze. Fosse eu solteiro e continuaria a sê-lo com cada uma. Isto é um elogio? Para mim sim. O que é que se pode fazer? Como homem, não tenho remédio.

*Título roubado a um gajo grego

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Entre o salpico e a mancha

É provável que o PSD não queira, à primeira vista, levantar grandes ondas por causa do caso pivô/estação pública. Sobretudo porque os alegados (detesto a expressão, tal como tu, Pedro) factos remontam a 2004, altura em que o partido estava no Governo coligado com o CDS. Sucede que a política, quando é séria e combativa, não se compadece com medos do passado e com esqueletos no armário. Por isso, os social-democratas não deviam temer alguns salpicos ao tentar fazer oposição num caso em que a mancha poderia muito bem atingir a tutela...

Este ditador vem a Lisboa (6)


Idriss Déby Itno.

Presidente do Chade desde 1991. Tem 55 anos.
Tenente-general, tomou o poder por um golpe militar em Dezembro de 1990. Dois meses depois, declarou-se titular da chefia do Estado. A "eleição" de 2001, em que recolheu 63% dos votos, foi considerada fraudulenta por observadores internacionais. Cinco anos depois, viria a ser "reeleito", num escrutínio boicotado pelo que restava da oposição política. Para trás ficou a cláusula constitucional que impedia um presidente de cumprir mais de dois mandatos consecutivos: um "plebiscito" às ordens de Idriss aboliu este impedimento formal à sua perpetuação no poder.
Segundo a revista Forbes, o Chade é uma das nações mais corruptas do mundo. Enquanto os víveres essenciais escasseiam, mais de 30 milhões de dólares são aplicados na compra de armamento neste país que há dois anos está em guerra com o vizinho Sudão.
A detenção de opositores, pacifistas e jornalistas - "vítimas de julgamentos injustos", como assinala a Amnistia Internacional - é frequente. O conflito com o Sudão levou entretanto o Governo a "tomar a absurda e insensata decisão de reintroduzir a censura" à imprensa, como assinala a organização Repórteres sem Fronteiras.
Idriss é um tirano. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Palavras que odeio (33)

Alegadamente

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As leis do mercado (3)


- Prefiro as mulheres de vinte. São lindas, frescas e ainda têm muito para aprender comigo...
- Eu gosto é das balzaquianas, porque conciliam alguma juventude com o charme que só se ganha com um certo amadurecimento.
- Nada disso. O meu alvo são as quarentonas. É a partir dessa idade que elas começam a perceber que estão a perder mercado e por isso tornam-se deliciosamente vulneráveis. Deixam-se de exigências e ficam-nos tão agradecidas que se dispõem a tudo para nos conservar.

Demolir é o melhor remédio

Eu sei que fica muito bem em revistas de arquitectura ou em reportagens sobre a "Lisboa moderna", e que, na euforia da Expo'98, só olhámos para a sua espectacularidade quando foi inaugurada. Mas, para mim, a Gare do Oriente é uma das obras mais absurdas que já se construiram na cidade. Feia, com o betão que aparece a dar-lhe um ar rasca e sempre inacabado, sem conforto, com o vento frio (mesmo no Verão) a entrar por todos os lados, com os vidros sujos pela inevitável poluição e difíceis de limpar, confusa, sem se perceber onde são as plataformas e as ligações com a superfície e o metro, sempre que lá fui fiquei arrependido de não ter ido apanhar o comboio a Santa Apolónia.
Por isso, tremi quando hoje ouvi num telejornal que querem fazer dela a estação central do prometido comboio de alta velocidade e que vão encomendar estudos ao infeliz arquitecto que a concebeu, o espanhol Santiago Calatrava. Eu sei que ele é considerado um génio e até já admirei obras suas, como as pontes em Bilbau e em Mérida, por exemplo. Mas em Lisboa não acertou. O único remédio é demolir o monstrengo e fazer algo menos espectacular mas bem mais funcional e confortável. Os utentes agradecem.


Foto: Vítor Ribeiro

Terça-feira, Novembro 13, 2007

Os Homens não são todos iguais. Ou serão?

Conversa entre um casal de namorados, à saída do filme Corrupção:

Ela - O próximo que agora vamos ver é o Call Girl.
Ele - Para quê? Eu não vou. A ver pela apresentação é mais do mesmo. A Soraia Chaves a passear-se, meio despida, durante 90 minutos. Para isso vou para casa e coloco o DVD do Crime do Padre Amaro.

Mudam-se os tempos

Quando o rei Juan Carlos mandou calar Tejero de Molina, Milán del Bosch e outros militares golpistas, nostálgicos de Franco, o Daniel não falava assim.

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Inveja de ti, Juan

Muitas vezes, em momentos especialmente enfadonhos ou excessivamente formais, dou por mim a imaginar que alguém pisa uma casca de banana e cai de pernas para o ar, como nos livros do Tintin; ou que o jornalista, na frieza do estúdio, da maquilhagem e das câmaras, deixa escapar um irritado "disparate!" para o político; ou que o actor, em cima do palco, declara a meio da peça "isto hoje não me está a sair muito bem, desculpem lá"...
Esta característica tem-me prejudicado. Em momentos em que eu própria deveria ser formal pressinto, ao lado da orelha direita, um diabinho risonho a sussurrar: "deixa-te de tretas. Vamos comer chocolates". E eu vou.
Tenho que esperar pela velhice ou por uma deficiência numa enzima, que me asseguram ter o mesmo efeito, mas sei que um dia vou dizer tudo o que me apetecer. Vou dizer a verdade. Como só os velhos, os malucos e os reis fazem.

... E ele calou-se mesmo


Coitados dos venezuelanos. Como se não lhe bastasse terem um proto-ditador que quer mudar a Constituição para se perpetuar no palácio presidencial e poder decretar o estado de excepção a qualquer momento, que encerra canais de televisão à medida dos seus caprichos, que manda a polícia de choque carregar sobre os estudantes universitários que protestam contra as suas arbitrariedades, que funde os partidos existentes numa caricata "união nacional", que proíbe de actuar no país um cantor espanhol que teve a ousadia de criticá-lo, que ameaça suprimir qualquer propriedade privada "por motivos de utilidade pública ou interesse social", que financia com o dinheiro dos contribuintes a decrépita tirania cubana, que já é duramente criticado pelo camarada de armas que o acompanhou desde os tempos de golpista contra o governo legítimo da época, que fala horas seguidas nos canais de propaganda do regime num crescente monólogo que constitui um perfeito quadro do país... como se já não lhes bastasse tudo isto, os venezuelanos vêem ainda o proto-ditador receber uma humilhante ordem do rei de Espanha para fechar a matraca. "Por qué no te callas?", atirou-lhe Juan Carlos, na recente cimeira ibero-americana, já enjoado de ouvir as arengas insultuosas do tenente-coronel.
E a verdade é que ele calou-se, batendo a bola baixa perante o representante máximo da antiga potência colonial. Humilhante mesmo. O Simón Bolívar, a estas horas, deve estar às voltas na tumba: andou ele a bater o pé à coroa espanhola no século XIX para agora o seu disparatado herdeiro que entoa hossanas ao "socialismo do século XXI" fazer uma triste figura destas na cimeira do Chile. Entradas de leão, saídas de sendeiro...

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Nas colunas

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Sábias palavras


Nunca conheci ao director do Público, José Manuel Fernandes, simpatias monárquicas, mas no seu editorial de hoje, a propósito do que se passou entre o rei de Espanha e o presidente da Venezuela, há passagens que vale a pena transcrever:


“(...)Têm sido utilizados dois argumentos para desqualificar a atitude do Rei: primeiro, não é um chefe de Estado eleito; segundo, falou como um antigo senhor colonial.
O primeiro argumento carece de fundamento, pois a legitimidade de Juan Carlos enquanto chefe de Estado provém da sua aceitação pelo povo espanhol, que nele se revê e o respeita como referência unificadora num Estado plurinacional, e que lhe está reconhecido pelo papel que desempenhou aquando da tentativa de golpe antidemocrático. Figura acima dos partidos, limitou-se a defender os espanhóis: dirigiu-se a Chávez dizendo-lhe que se calasse porque o actual primeiro-ministro de Espanha defendia o seu antecessor, por sinal um seu adversário político, de um ataque à margem de todas as regras. Pediu boa educação a quem a desconhece.(...)
Na Europa há muito que as monarquias sobreviventes convivem bem com a democracia em países onde se aceita e respeita monarcas não eleitos, conferindo-lhes tanta ou mais legitimidade do que a efémeros líderes populistas. (...)
Juan Carlos actuou com a clareza com que o fez porque não possui poder, antes tem a autoridade de ser, para muitos, uma referência. (...)”.

Uma história com moral

Fernando Ruas foi apanhado em Viseu numa operação stop em excesso de velocidade. De acordo com o Público, o presidente da ANMP terá continuado viagem leve e solto depois de uma conversa tu cá tu lá com o governador civil. O episódio fez-me lembrar uma incursão minha ao Portugal profundo em que conheci outro Governador Civil. A dita incursão incluiu jantar - uma churrascada das antigas - e uma quantidade de cerveja e vinho verde capaz de inundar um país pequeno como o Canadá. Face aos naturais pruridos em emborcarmos minis antes de nos fazermos à estrada, o governador civil não foi de modas e ofereceu-nos cartõezinhos pessoais, para exibirmos à Guarda caso surgisse no caminho. Agradecemos e bebemos pouco na mesma, não fosse o Diabo tecê-las. À saída da povoação, numa recta ladeada por apenas uma gigantesca vivenda, fomos obrigados a parar mas não pela polícia. Aquele desabitado pedaço de estrada incluía três lombas, uma passadeira e um semáforo. Mais tarde, viemos a saber porquê. A única casa era a residência do dito governador, pouco amigo do ruído automóvel. The End
Moral da História: Com um amigo governador civil, podes beber até um barril.

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Palavras que odeio (32)

Outrossim

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Segunda-feira, Novembro 12, 2007

Um «lamento mas não posso ajudá-lo» bastaria

Amigos meus morreram. Mais depressa do que era suposto. Novos ainda. Cedo para a idade que tinham. Para a idade que tenho. Hoje, depois de passar um dia inteiro preocupado com um Amigo que está tão dentro de mim que não consigo nomear o lugar onde se encontra, armei-me em idiota. O Fernando fez um transplante e eu, ingenuamente, tentei saber como se encontrava o seu estado de saúde. Nestas coisas, sou como um Buldogue. Liguei para o director do hospital, tinha o telemóvel desligado. Liguei para o professor doutor Eduardo Barroso, antigo ou ainda chefe da equipa responsável pelo transplante em causa. Atendeu-me. Quis saber se a pergunta era digna de interromper-lhe o jantar. Depois de ouvi-la, entendeu que não e desligou o telefone. Podia dizer aqui que o professor doutor Eduardo Barroso é um poço de ar. E digo. Infelizmente, nunca soube escrever sobre o vácuo ou a inanidade e só por isso não desenvolvo. Já editei a prosa do professor doutor Eduardo Barroso. Já sabia o que ele vale quando escreve. Sei agora o que vale quando lhe interrompem o jantar. Vale o mesmo.

Cinema Nostalgia (17)


No princípio era o western

No princípio era o western. Foi com O Grande Assalto ao Comboio, uma fita de 1903 com apenas 12 minutos de duração, que nasceu o cinema como arte ficcional. A força da imagem impressa em película era tão grande que permitia ao cinema ir mais longe e mais fundo do que a História: a mitologia do Velho Oeste recriada nas salas de espectáculo impôs-se ao que realmente aconteceu. Cada país tem direito às suas epopeias: os Estados Unidos ganhavam enfim a sua. Na larga tela, todos os sonhos se tornavam possíveis. Ou, como diz uma célebre personagem de John Ford, “when the legend becomes fact, print the legend.”
Onde começa a ficção, onde acaba a realidade? A pergunta tem pleno cabimento nos casos dos westerns protagonizados por John Wayne. Porque, se como disse alguém, o cinema americano é o western, do mesmo modo este género cinematográfico nada seria sem John Wayne. O mítico, o único, o inconfundível John Wayne.
Não terá havido actor mais “tarimbeiro” no cinema americano do que Marion Morrison, nascido a 26 de Maio de 1907 (era um típico Gémeos, o signo de todas as transfigurações). Os registos de Hollywood contabilizam cerca de cem películas que terá rodado entre 1926, ainda no tempo do mudo, e 1939. Quase todos westerns baratuchos, de série B, quase todos filmes medíocres, rodados em meia dúzia de dias nos estúdios da Republic. Foi uma longa aprendizagem até se recriar aos 32 anos, no papel de Ringo, em Stagecoach (Cavalgada Heróica). Surgia o western tal como o conhecemos, Marion Morrison dava lugar a John Wayne. Print the legend.
Nascia uma estrela. E nenhuma foi maior do que Wayne. Ao ponto de se confundir com todo um género cinematográfico, transportando a mesma personagem de filme para filme. Uma personagem com espessura, com passado, marcada pelo tempo e magoada por conflitos de toda a espécie mas que nunca perde uma certa integridade interior. Não há moralismo mas há sempre uma moral nos filmes de Wayne, cowboy que nunca abandona os códigos de honra num mundo onde a única lei é a da bala.

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Cinema Nostalgia (17-II)


Peter Bogdanovich escreveu em 1972 esta frase que hoje nos parece uma evidência: “Podemos estar contra as posições da direita de Wayne, mas isso não tem a mínima importância quando analisamos o seu trabalho.” É ainda Bogdanovich, nas páginas de Pieces of Time (um dos mais fascinantes livros sobre cinema de todos os tempos), que elabora o melhor retrato de Wayne como actor: “Uma figura familiar, clássica – inconfundível seja qual for o ângulo -, que se move num mundo de ilusão que conquistou em absoluto”. No fundo, as estrelas de cinema são assim. Nunca interpretam tão bem como quando se interpretam a si próprias. Wayne era genial a fazer de Wayne: o passo lento e bem medido, a fala breve e ríspida, o olhar duro onde ainda perpassa um rasto de candura.
Dirigido por John Ford e Howard Hawks, protagonizou mais obras-primas do que qualquer actor do seu tempo e provavelmente do que qualquer actor de todos os tempos. Fiquemo-nos pelo western: depois de Cavalgada Heróica, rodou Forte Apache, Os Dominadores, Os Três Padrinhos, Rio Grande, A Desaparecida, O Homem que Matou Liberty Valence (de Ford), Rio Vermelho, Rio Bravo e El Dorado (de Hawks). Além de outras que jamais se apagarão da memória de nenhum cinéfilo, como Homens Para Queimar e O Homem Tranquilo (ainda de Ford).
Mas em nenhum outro ele vai tão bem como no seu filme-testamento: O Atirador (The Shootist, de Don Siegel, 1976). Aqui personagem e intérprete fundem-se como nunca: na vida real, Wayne é um homem à beira do fim, devorado por um cancro; o mesmo se passa com o protagonista, John Bernard Books, um mito ainda em vida, sobrevivente do Velho Oeste em pleno século XX. Aquele mundo em que o cavalo dava lugar ao automóvel já não era o seu. Mas Books-Wayne mantinha intacto o lema que o tornara célebre: “Não serei enganado, não serei insultado, não deixarei que outros me deitem a mão.”
Nessa Carson City que já nada tinha a ver com o tempo dos pioneiros, o temível “atirador” confessava afinal à viúva Rogers (interpretada por Lauren Bacall): “Sou um homem à beira da morte, que tem medo do escuro.” Frágil Wayne, vulnerável Wayne, enfim regressado à condição humana neste maravilhoso western crepuscular que marcava também o fim de uma era em Hollywood. John Wayne não voltaria a filmar. O western praticamente desapareceu como género cinematográfico. E nós não voltaríamos a ver cinema com os nossos olhos encantados de meninos.

Publicado no DN

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Um país sem governo


Felizes, os cidadãos belgas: faz hoje 154 dias que estão sem governo. Um facto que não parece perturbar minimamente o funcionamento do país que serve de sede central às instituições políticas “europeias”. Em Bruxelas, o primeiro-ministro em funções continua a ser Guy Verhofstadt, o liberal que perdeu as legislativas de 10 de Junho. Limita-se a tratar dos "assuntos correntes" e parece que o faz menos mal: não consta que haja grandes protestos nas ruas nem que a população belga esteja à beira de um ataque de nervos. O vazio político permite até bater recordes bem divertidos. Desde logo o recorde de permanência da Bélgica sem governo, anteriormente cifrado em 148 dias – o tempo que o então primeiro-ministro Jean-Luc Dehaene demorou, entre 1987 e 1988, a formar o seu executivo.
Tudo começou desta vez com a exigência do vencedor da eleição, o democrata-cristão Yves Leterme, em fazer uma reforma profunda do Estado. Esta reforma, na prática, ameaça separar de vez as duas grandes regiões do país – Flandres e Valónia. O partido de Leterme conquistou 81 deputados (num total de 151), maioria ainda assim insuficiente para levar por diante a tal reforma, que requer dois terços de votos no parlamento.
Enquanto o impasse se prolonga, os belgas parecem satisfeitos. É um exemplo a seguir com atenção: agora que recebemos tantas lições de Bruxelas, saibamos acolher mais esta. Um país sem governo. Que bom.

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Palavras que odeio (31)

Adrede

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Por que não o Velho Testamento?

«When you're feelin' really down, read the Book of Job, and see what that sombitch had to go trough». The Wit and Wisdom of Forrest Gump

À atenção do Provedor

Não sei que raio de contrato foi o celebrado entre os Gato Fedorento e a RTP. Mas não foi redigido a pensar nos espectadores ou nas mais elementares regras da programação. Se o Isto é uma Espécie de Magazine é semanal, deve ser emitido todas as semanas. Elementar. A equipa dar-se um período de descanso após apenas três emissões, substituindo-se por um best of a tão curto espaço da difusão inicial, é um disparate que só pode ter como consequência a saturação. Rapaziada: Se querem descansar, tirem um ano de sabática. Assim, não nos servem carne nem peixe. Eu, pelo menos e para mal dos meus pecados, não aprecio particularmente tofu.

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Melhor do que o Euromilhões, só a GALP


Ainda guardo a breve carta que Américo Amorim me enviou há década e meia. Guardo-a porque foi uma das duas únicas que recebi de leitores em muitos anos, sendo a outra de uma velhinha que me vergastava por apelar ao «pombicídio». Na altura, escrevera eu um breve comentário em resposta a uma notícia de primeira página do Expresso, com parangonas acusando o empresário de ter enganado Robert Maxwell num negócio qualquer. O que dizia, no meu estilo habitual, era que em lugar de criticá-lo devíamos considerar-nos de parabéns por termos em Portugal um empreendedor capaz de aldrabar esse maior dos aldrabões que era Maxwell.
Na volta do correio, a missiva de Amorim dizia simplesmente isto: «Muito obrigado pelo seu comentário, o qual corresponde à verdade dos factos». Ri-me a bom rir.
Hoje, Amorim foi novamente notícia de capa, no Jornal de Negócios, por ter valorizado a sua fortuna em 500 milhões de euros com a GALP em apenas dois dias. Discretamente, na petrolífera como na Banca, na Indústria e no Imobiliário, o império de Amorim é gigantesco à nossa escala e tão low profile quanto é possível sê-lo pela sua dimensão e natureza. Acredito até que Amorim seja o homem mais rico de Portugal. Na lista habitual onde pontificam os nomes de Belmiro e Soares dos Santos, valoriza-se a cotação bolsista. Mas a fortuna de Amorim, sendo também parte dela cotada, tem uma base material de activos que me parece ser hoje superior à dos seus dois «rivais».

Domingo, Novembro 11, 2007

Treinador de blogue

Embora eu simpatize com Paulo Bento e seja contra chicotadas psicológicas, tenho a impressão de que com ele o Sporting não vai a lado nenhum. Uma das razões para esta tradicional culpabilização do treinador, que hoje assumo, é a insistência em escalar o inenarrável Yannick Djaló na equipa inicial para depois substitui-lo, lá para os 70 minutos de jogo, quando confirma que foi mais um jogo em que ele não marcou golos, não fez bons passes e teimou em jogadas individuais para que não tem talento. Por isso, a minha receita de sucesso para o próximo treinador do Sporting começa por este singelo pedido, inspirado num programa antigo do Jô Soares: tira o Djaló!!!

Caro João Villalobos:

Foi com muito gosto e com emoção que comparecemos na festa de anteontem, na Casa Fernando Pessoa, ali a Campo d’ Ourique, pró lançamento do teu pequeno livro de poemas. Não sei se reparaste que durante aquela noite morna não tocavas com os sapatos no chão: planavas. É com certeza salutar um banho de amigos assim. A casa estava cheia, e eu até tive de ouvir a apresentação lá do alto das escadas, por detrás de uns quantos ombros anónimos. Pareceu-me aliás que por lá formigavam uns quantos... talvez não como os das nossas caixas de comentários, mas daqueles que se encontram na bicha do trânsito ou nas vernissages. De resto, pelo que me foi dado observar, todos compraram o teu livro, que é uma coisa própria para os bons anónimos fazerem - fica já aqui o repto.
Depois tiveste ali, incondicional e veneradora, toda a trupe corta-fiteira, à parte do Francisco que anda lá por fora a lutar p’la vida. E olha que notava-se bem como as donzelas do nosso blogue não andam de autocarro... Enfim, todos boa gente, não te deixamos ficar mal, deves ter reparado: integramo-nos bem, não partimos muita loiça, não dissemos mal do Sócrates assim muito alto. Enfim até demos algum ambiente à coisa; o Francisco José Viegas, bom anfitrião, deve ter ficado aliviado.
Mas olha João, que foi ainda na sexta-feira à noite que me deliciei com alguns dos teus poemas. Uns eram apenas umas curtas frases encantadas, de amor ou não; nalguns notava-se-lhes até umas nesgas de carne viva; coisa boa, vinda dum poeta.
Um abraço, parabéns e até sempre!

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O final de Domingo

Tão justificada como me pareceu há quase um ano a minha partilha dominical de tocantes leituras do Novo Testamento aqui no Corta-fitas, considero hoje pertinente terminar esta minha iniciativa que vos garanto ter sido bem intencionada. Faço-o em plena liberdade, e por ter dúvidas sobre a legitimidade e eficácia da mensagem tornada “sistemática” neste ambiente tão heterogéneo, para mais sem um enquadramento teológico. Naturalmente jamais prescindirei de reflectir a minha fé e as minhas convicções pessoais que são indissociáveis dos meus escritos. Pela condescendência de todos, os meus sinceros agradecimentos.

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Sem cortinas


Chegada recentemente de Amsterdão onde, de início, facilmente poderia ser reconhecida por atravessar passadeiras a correr com receio da mudança de sinal (velhos hábitos custam a perder), terminada a ressaca do silêncio e da falta de tubos de escape e de novo reconciliada com o ruído constante que me entra do eixo norte-sul (em Lisboa há hábitos que não se perdem) abro uma janela neste blog, prendo as cortinas, deixo entrar o sol e os olhos dos que nos leêm.

Amsterdão, uma cidade sem cortinas nas casas que ladeiam os canais, abertas aos olhares de quem passa nas ruas, nos barcos, de dia e de noite. São as janelas sem estores que sobressaem da escuridão dos prédios sem curiosidade de os desvendar, são contornos que a distância não identifica, são casas com gente dentro, as estantes, as luzes, as paredes, um pedaço de intimidade sem som nem legendas, cheias de vidas sem máscaras, corações libertos, de amores, desamores, boas vidas e outras nem tanto.

Como um leitor também observou : "E apelo ao interior das casas?" É isso. Cheguei com essa inesquecível impressão dos interiores da casas, principalmente à noite, as que ladeavam os canais, com janelas amplas e sem cortinas. Coisa estranha. E eu que pensava que eram coisas minhas, habituada a uma cidade barricada em black outs de cortinas corridas.

"Quem vive em Amsterdão e tem a casa ao nível da rua não está mininamente preocupado com os olhares dos forasteiros para dentro do seu ninho. Faz parte. Afinal, esta é a cidade das vitrinas, do bairro da Luz Vermelha", escreveu ontem o jornalista do Notícias Sábado no artigo "Bom tempo no canal".

Afinal não eram coisas minhas. Sábios, os habitantes dos canais sabem que são só sombras, formas, luzes, imagens de passagem, fugidias, sem identidade e que a distância faz sumir. É o que se deixa ver, o que se permite vislumbrar sem poder adivinhar. São como posts com vidro fosco.

Sábado, Novembro 10, 2007

Sábado amargo

Não conheço as circunstâncias protocolares em que o Rei Juan Carlos terá mandado calar o seu homólogo venezuelano na cimeira ibero-americana em Santiago do Chile. No entanto está comprovado o cariz irresponsável e déspota de Hugo Chavez, e comprovada está a superior legitimidade dum regime democrático como o da nossa vizinha Espanha.
O mundo livre teme pelo futuro do povo venezuelano. Nós vivemos resignados à fatal e submissa realpolitik da nossa virtuosa república, em prol da qual impunemente se subjugam os mais sagrados valores civilizacionais, quantas vezes por um mero prato de lentilhas.
Mesmo assim não nos devíamos todos envergonhar com as atabalhoadas declarações de apoio a Hugo Chaves proferidas à imprensa pelo nosso primeiro ministro na sequência do incidente, numa desprezível disposição subalterna?
Para além de medíocres, teremos que actuar como cobardes?

Imagem do Sol

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A propósito de nada

Roger Federer fotografado por Annie Leibovitz para uma campanha da Disney

A propósito de tudo

Falamos da morte,
de como se parte o sopro que unia
esta tão frágil, vívida fantasia.
Um último passo, leve, despercebido
nos aproxima da terra e do seu sentido.

Falamos de como pouco tanto sabe
e tanto sabe a tanto antes que acabe.
Da nossa voz tornada eco na memória
de quem fugaz partilhou a mesma história.

Falamos da vida. Imensa e clara,
seja ela a da formiga ou da cigarra.
Do amor, da alegria, da certeza,
de uma família partilhando a sua mesa.

Tudo o que temos está aqui e está agora.
Tão vivo está quem ri como quem chora.
Falamos de nós, centelhas de luz
Batendo asas por aquilo que reduz.

Quando afinal bastaria descansar
De mãos dadas respirando junto ao mar.
Um só fôlego, uma única tarde,
Que nada existe tão mais perto da verdade.


(Do livro de poesia do João Villalobos, "As mulheres bonitas não viajam de autocarro", que foi ontem lançado na Casa Fernando Pessoa)

Na morte de Mailer


Outono sob o signo da morte: acabo de saber que morreu Norman Mailer. Talvez não fosse o melhor dos escritores norte-americanos contemporâneos - ao nível de um John Updike, de um Gore Vidal, de um J. D. Salinger ou até de um Tom Wolfe. Não era seguramente o "novo Hemingway", como chegou a sonhar na juventude. E ninguém poderia considerá-lo um paradigma da "intelectualidade", o que aliás só lhe ficava bem. Mas escreveu Os Nus e os Mortos, sem dúvida o melhor romance sobre a II Guerra Mundial - e um dos grandes romances de todos os tempos. Não era preciso mais para merecer figurar na história da literatura. Ele, aliás, estava-se nas tintas para isso. Foi um dos motivos por que sempre o admirei.

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Assim

Tinha um texto engraçado para aqui pôr sobre a festa de lançamento do livro do nosso João Villalobos, ontem à noite. Mas a notícia brutal da morte do Armando Rafael, um excelente amigo e um dos melhores jornalistas que conheci no Diário de Notícias, inutilizou esse texto. Como muito bem escreveu o Duarte, todas as mortes são estúpidas, mas algumas são tão estúpidas que nos deixam completamente atordoados.
É assim que estou.

Perda

Todas as mortes são estúpidas, mas algumas são tão estúpidas que nos deixam completamente atordoados. A morte de Armando Rafael, com tudo aquilo que ele ainda poderia fazer e toda a alegria que poderia vir a espalhar pelo mundo, é das mais estúpidas que tenho visto.

Palavras que odeio (30)

Sustentabilidade

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Sexta-feira, Novembro 09, 2007

Parada militar

A pedido de algumas famílias, eis a Marisol Vargas. A tal militar chilena - logo uma subteniente - a quem armaram uma grande "cilada" com imagens digamos que mais íntimas...

Este ditador vem a Lisboa (5)


Paul Biya.

Presidente dos Camarões desde 1982. Tem 74 anos.
Lidera um dos países mais corruptos do mundo, onde as execuções extrajudiciais, cometidas por elementos das forças de "segurança", são uma constante. A homossexualidade é considerada um crime pelo qual foram recentemente condenados nove homens e quatro mulheres. De acordo com a Amnistia Internacional, a prática de tortura é ali muito frequente, tal como a violência exercida contra mulheres, nomeadamente por funcionários estatais.
"Ainda é perigoso ser jornalista nos Camarões", alerta a organização Repórteres Sem Fronteiras, relatando diversas situações de abusos contra a liberdade de imprensa. Incluindo a detenção de vários jornalistas. Existe no país um simulacro de democracia. É só fachada: há hoje mais de 170 "partidos", 99% dos quais juram fidelidade ao presidente.
Paul Biya é um déspota. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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A Man Needs A Maid

de Neil Young, um dos maiores trovadores do nosso tempo.
É uma pequena provocação ao nosso João Villalobos neste seu dia especial.
Até logo!

Viernes


Catalina Barra. É a mujer do momento no Chile. Quer dizer, tirando a Marisol Vargas, uma subteniente do exército chileno que está em apuros por causa de umas imagens mais polémicas...

Vai um pisco?

Caro João Villalobos,

Como não posso estar hoje à noite presente no lançamento do teu novo livro, bem como na festa de arromba que se lhe segue, mando-te daqui os parabéns pela obra e pelos teus anos. Mais logo bebo um "pisco sauer" em tua honra. A bebida é peruana, mas foi completamente adoptada aqui pelos chilenos. Eu sei que ias gostar. Um abraço de Santiago do Chile para Lisboa.

Puxão de orelhas a Mourinho?

Ao ouvir as notícias da manhã fico a saber que José Mourinho, ontem, não levou os filhos à escola. Porquê? Parece que uma criança terá, alegadamente, insultado a filha Matilde e o treinador, em defesa do seu rebento, decide confrontar o jovem colega com um puxão de orelhas.
Damos-lhe cartão amarelo? Ou vermelho?

Porque hoje é sexta...


- A minha mulher há bocado disse que eu a tinha trocado... Eu gosto de fazer mas também sinto o pecado, a frustração, que não me deixam estar à vontade, não porque não me saiba bem, mas porque sinto que estou a fazer mal...
- Como é que se sentiria se tivesse sido a sua mulher a ter relações com outro homem?
- Completamente revoltado; seria capaz de tudo, inclusive de matar, porque não compreendo que se tenha que fazer isso. Admito que a minha mulher já tenha cobiçado ter relações com outra pessoa, mas uma coisa é querer tê-las e outra é tê-las. Eu tive, mas sinto-me culpado dessa situação. – excerto de entrevista conduzida por Afonso de Albuquerque e Catarina Soares in Sexologia em Portugal

Antes que se faça tarde *


Bonjour, Sophie. Toujours Sophie.
.......................................................
* Como digo em baixo, odeio postergar

Palavras que odeio (29)

Postergar

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Here Comes The Flood

When the night shows
the signals grow on rádios
All the strange things
they come and go, as early warnings
Stranded starfish have no place to hide
still waiting for the swollen Easter tide
There's no point in direction we cannot
even choose a side.

I took the old track
the hollow shoulder, across the waters
On the tall cliffs
they were getting older, sons and daughters
The jaded underworld was riding high
Waves of steel hurled metal at the sky
and as the nail sunk in the cloud, the rain
was warm and soaked the crowd.

Lord, here comes the flood
We'll say goodbye to flesh and blood
If again the seas are silent
in any still alive
It'll be those who gave their island to survive
Drink up, dreamers, you're running dry.
When the flood calls

You have no home, you have no walls
In the thunder crash
You're a thousand minds, within a flash
Don't be afraid to cry at what you see
The actors gone, there's only you and me
And if we break before the dawn, they'll
use up what we used to be.

Lord, here comes the flood
We'll say goodbye to flesh and blood
If again the seas are silent
in any still alive
It'll be those who gave their island to survive
Drink up, dreamers, you're running dry.

Peter Gabriel - 1975

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Quinta-feira, Novembro 08, 2007

Momentos Kodak (64)

Por favor voltem...e tragam as outras amigas mais velhas e negras carregadas de água para molhar este nosso Portugal. No caminho apanhem o frio. Dava jeito. Sem ele, a festa do Outono/Inverno nunca é a mesma. E não, não tenho nenhuma loja de vestuário sequiosa de vender as já poeirentas roupas da estação que teimam em não sair da montra. Quero apenas apreciar umas belas castanhas. Quentes e boas. Ao frio e à chuva. Bem como muitas outras coisas.
Vai embora Verão de Novembro...
(Novembro 2007)
Fotografia : Rodrigo Cabrita

Até amanhã


Confirmado e já oficial, o showcase da festa de lançamento amanhã, sexta-feira, estará a cargo do Tiago Bettencourt. Quero deixar aqui um grande obrigado ao Tiago e dizer apenas o seguinte: Senhoras, se não por mim, apareçam por ele :) Entre autores e convidados/as, nunca tanta verve esteve reunida no mesmo espaço. Daqui a uns anos, poderão contar aos netos como conheceram a vossa alma gémea. Relembro que a entrada só custa dois beijos, que isso de dar só um foi chão que deu uvas. Até amanhã.

A História na primeira pessoa (1)

Editam-se em Portugal cerca de mil livros por mês. Nada mau, para um país com tão poucos hábitos de leitura. Mas continuo a espantar-me com a ausência de títulos importantes no nosso mercado editorial. Há tempos sugeri a um amigo, dono de uma das mais importantes chancelas editoriais do País, o lançamento da versão portuguesa de A Life, o fabuloso livro de memórias de Elia Kazan – uma impressionante viagem ao mundo do cinema. Ele encolheu os ombros, resignado: “Os portugueses não apreciam autobiografias.”
Será mesmo? Custa-me acreditar nisto. Sempre gostei de autobiografias, um género que só agora começa a cultivar-se entre nós. Cavaco Silva escreveu a dele (com um terceiro volume, referente à passagem pelo Palácio de Belém, entretanto prometido) e Mário Soares também anda a redigir as memórias – embora, se não o fizesse, já teria deixado esse precioso legado que é o seu livro-entrevista com Maria João Avillez, mistura de retrato pessoal com um vasto fresco da história do século XX português, que se torna ainda mais interessante por ser tão subjectivo.
Continuo a achar que as memórias de Elia Kazan teriam plena aceitação no nosso mercado. Mas talvez o livro que hoje mais gostaria de ver com edição portuguesa fosse a autobiografia de Ben Bradlee. Sabem quem é? O jornalista que transformou o Washington Post num dos jornais mais célebres à escala planetária. Fala-se muito em Bob Woodward e Carl Bernstein, os repórteres que revelaram ao mundo todas as implicações do caso Watergate. Fala-se muito menos em Bradlee, que na altura dirigia o Washington Post, então uma espécie de parente pobre na alta roda da imprensa norte-americana, sempre à sombra do poderoso rival New York Times. Mas nenhum dos artigos de Woodward e Bernstein (a dupla que ele baptizou de “Woodstein”, nos longos serões de trabalho no jornal durante a revelação do escândalo que conduziria à demissão do presidente Nixon) teria sido possível sem a firmeza de Bradlee, que lhes deu destaque em sucessivas manchetes. Contra todas as pressões do poder político.

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A História na primeira pessoa (2)

Acabo de ler A Good Life, de Ben Bradlee, na versão espanhola – editada pela casa editorial do diário El País, sob o título La Vida de un Periodista. É uma extraordinária lição de jornalismo escrita por este homem nascido em 1922, combatente na II Guerra Mundial e velho tarimbeiro das redacções. Começou pela melhor escola americana, no jornalismo de província, e teve um percurso fulgurante, que o levou a chefe da delegação da revista Newsweek em Paris, correspondente de guerra na Argélia e no Suez, e enfim a Washington, onde passou a dirigir o Post em 1962. A curta distância da Casa Branca, onde então pontificava John Kennedy, seu amigo pessoal.
Bradlee relata-nos a sua odisseia no relançamento do Post, que à época era apenas o terceiro jornal mais vendido na capital americana. Arejou o grafismo, destacou a imagem, criou um suplemento chamado Style, que dava prioridade ao lazer, valorizou o espaço de opinião, criou um provedor de leitores (em 1969!) e deu um novo impulso à reportagem. Bastando-lhe adoptar como lema a velha lição que recebera da professora primária: “O melhor possível hoje, melhor ainda amanhã.”
A qualidade foi sempre um objectivo a atingir. “A detecção de talentos nunca cessa num periódico”, afirma Bradlee, então “decidido a que cada jornalista fosse o melhor da cidade no seu ramo de actividade”. Este foi um dos segredos do sucesso do jornal, a par das normas de exigência postas em vigor. O Post deixou de usar a ambígua expressão “segundo as nossas fontes”, instituiu a norma da verificação dos factos junto de duas fotnes autónomas e recomendou aos seus repórteres que nunca se esquecesse do sábio preceito de Camus, que também foi jornalista: “Não existe a verdade. Só existem verdades.”
La Vida de un Periodista dá-nos retratos deliciosos de jornalistas. Howard Simons, director-adjunto do Post, que cunhou a expressão SMERSH para designar a secção dedicada a estes temas (segue em inglês para se entender melhor): Science, Medicine, Education, Religion & All That Shit. Art Buchwald, o incomparável humorista. Jim Truitt, que permaneceu 47 horas sentado à máquina de escrever, produzindo uma lista com mais de mil sugestões no dia em que Bradlee protestava contra a “falta de ideias” na redacção. E, obviamente, a dupla “Woodstein”: Watergate nunca teria sido o que foi sem a “destreza e persistência” destes repórteres, que transformaram este velho ofício num mito: nos anos 70 e 80, o jornalismo tornou-se a profissão mais cobiçada do planeta.
Bradlee permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal. A good life indeed.

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Gostei de ler

Para lamentar. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.
PS populista. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
Pacheco Pereira e o 'populismo'. De Miguel Morgado, n' O Cachimbo de Magritte.
Tique não curado. Do Carlos Abreu Amorim, no Blasfémias.
Más companhias. De Horácio Azevedo, na Linha do Horizonte.
Quem 'enganou' Ruben de Carvalho? Do Carlos Manuel Castro, na Palavra Aberta.
Revolution. De Jorge Assunção, no Despertar da Mente.
Adiliana. Da Ana Cláudia Vicente, no Quatro Caminhos.
A lista. Do Francisco Valente, n' O Acossado.

Em busca da verdade

Fala-se muito na objectividade em jornalismo. E bem: a objectividade é um desígnio que todos, jornalistas, devemos prosseguir no exercício da nossa profissão. Sem a ilusão, contudo, de que alguma vez a obteremos plenamente. Porque cada visão da realidade é parcelar e o nosso olhar subjectivo condiciona sempre o modo como interpretamos o “desconcerto do mundo” de que falava o poeta. Mas se a objectividade pura é impossível, a honestidade com que a buscamos deve ser permanente. Isto constitui a pedra basilar do nosso código de conduta. Como escrevia recentemente Pedro J. Ramírez, no editorial que assinalava os 18 anos da fundação do diário espanhol El Mundo, “o jornalismo serve para procurar a verdade. A verdade acessível, a verdade parcial, a verdade incompleta, a verdade possível, a humilde verdade com minúscula, mas a verdade no fim de contas.”
Só isto. Que é tudo.

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Isto é que importa


O nosso questionário continua a dar que falar. Veio o Pedro Mexia, e muito bem, defender a Adelaide de Sousa, apesar de "casadíssima". O Miguel Marujo saiu em defesa da mesma causa, mais que justa, tal como o Pedro Gomes, que não esquece a minha estimadíssima Ana Sofia Vinhas. Já a falange de apoio da Ana Lourenço está bem visível nas posições expressas pelo José Gomes André e pelo Tiago Loureiro. Diz o Francisco José Viegas que "vale a pena" acompanhar o escrutínio. Só posso concordar com ele, apesar das dúvidas levantadas por outro André, que não conhece grande parte dos nomes estampados na nossa barra lateral. "Discriminatório", critica-se lá do Lote 5-1ºDto, enquanto o Henrique Fialho votaria na Paula Moura Pinheiro e o Pedro de Mendoza escolheria a Sofia Carvalho e até a Maria Luisa Busi, da RAI, nesta Europa sem fronteiras.
Acho bem discutir temas relevantes como este. Só não percebo como é que um tal de Castelo-Branco continua a ganhar terreno no inquérito. Até porque nós tencionamos convidar a vencedora a juntar-se a nós no próximo jantar do Corta-Fitas.

Foto roubada ao blogue E Deus Criou a Mulher. Não conheço nenhum com melhor grafismo na blogosfera portuguesa.

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Palavras que odeio (28)

Interdisciplinaridade

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Quarta-feira, Novembro 07, 2007

Entropia + Festa = Imprevisível


Podia ser um texto sobre a minha festa de lançamento na sexta-feira (para a qual recordo estão todos convidados, amanhã, a partir das 21.30 na Casa Fernando Pessoa, nº16 da Coelho da Rocha). Mas não. Chama-se On Earth e nele está incluido um Ramon Villalobos. Há coisas que unem, aos Villalobos, apesar da distância. Gostamos de misturas (excepto no copo).
A propósito, tudo indica que a festa incluirá um showcase acústico de um conhecido cantor da nossa praça. Isto para além da música a cargo de MR. PARIS, o qual ainda recentemente animou o Porto com a sua Music for secret agents and international playboys. Mais apropriado? Mission Impossible.
P.S. Almodovar vai andar por Lisboa nessa noite, tarde e más horas, depois de sair do Festival de Cinema do Estoril. A quem aparecer e à laia de bónus, prometo dizer onde vai ele ouvir o fado. Vai-se a ver e ainda acabamos todos em Alfama.

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Ligada à corrente

Coincidência! Li esse livro há poucas semanas e gostei tanto da forma como ela descreve o ofício e as motivações de quem vive da escrita! A ficção espanhola anda apetecível. Agora mesmo tenho em mãos Enquanto vivemos, de Maruja Torres, jornalista do El País e romancista muito aclamada. Vou despachá-lo em dois tempos, porque não me apetece parar. É excelente quando um livro nos agarra desta forma. Este fala de mulheres, de traição, de ambição. Isto dito assim é, no mínimo, suspeito, mas apesar de estes serem tópicos recorrentes da actual literatura de cordel, Maruja trata-os com elegância e profundidade, numa prosa fluida (que reflecte a sua formação jornalística), mas despojada de lugares comuns.Mas vamos lá à 5ª linha da página 161: Era como se Teresa tivesse renunciado a todo o tipo de fingimento formal, para lhe demonstrar a honestidade das suas palavras.
Passo agora o testemunho para alguns conhecidos e desconhecidos na expectativa de que aceitem o meu desafio: Inez Dentinho, MRP, Luís Eme, Luiz Carvalho e Dulce Alves

Implementar a iliteracia

Existe, a funcionar junto do Ministério da Educação, uma estrutura chamada Grupo de Avaliação e Acompanhamento da Implementação da Reforma do Ensino Secundário. O nome diz tudo. Com designações destas, não admira que prossiga a bom ritmo a "iliteracia funcional", como se chama no jargão ministerial a quem não sabe decifrar o significado das palavras.

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Palavras que odeio (27)

Concatenar

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Sem paciência para companhias masculinas


Depois do André, desafia-me agora o Pedro Sales a uma nova investida na mais interessante corrente blogosférica dos últimos meses.
Pois que livro tenho eu à mão? As Lições dos Mestres, de George Steiner. Azar: tem menos de 161 páginas. Venha outro. Cá está ele: Contra as Pátrias, de Fernando Savater. Azar outra vez: a página 161 só tem um título. Que mais? Abro Orlando, de Virginia Woolf. Edição Relógio d'Água, 1994, tradução de Ana Luísa Faria (já alguma vez disse que gosto muito desta tradutora?).

Quinta frase completa. Ei-la:
"Porque verdade, verdadinha (e era notável ver a presteza com que, descobrindo pertencerem ambas ao mesmo sexo, Nell mudara de atitude, pondo de parte os seus ares melancólicos e suplicantes), verdade, verdadinha, não estou hoje com disposição para companhias masculinas."

Tem mesmo piada, esta. E siga a dança: convoco desta vez o Filipe, o João, a Isabela, a Fátima e a Rititi.
...................................................................................................................
Aos eventuais interessados: a fotografia é de uma senhora chamada Sophie Marceau. Não sei se conhecem. Figura aqui naturalmente por também ser leitora de Virginia Woolf.

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A verdadeira crise dos 40 é isto

Há uma série no Fox Life intitulada em português «Mãe e Filha». Estou apaixonado pela mãe...E pela filha. Valha a verdade, ambas partilham um sentido de humor muito acima da média. Tal como respondem as mulheres nos inquéritos das revistas, a mim o que mais me atrai é o sentido de humor. E depois as mãos, o sorriso e outras características delicadas e fofas.

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Terça-feira, Novembro 06, 2007

A Europa vista de um estádio


Em nenhum outro sector da vida pública se nota tanto o fracasso do projecto europeu como no desporto. Alguma vez veremos uma selecção representando a “cidadania europeia”, constituída por elementos das melhores equipas do continente, independentemente da nacionalidade de cada um? Nem pensar: o espírito competitivo nos estádios, cada vez mais aceso, contradiz a “união” proclamada por decreto nos gabinetes assépticos de Bruxelas. “Poderíamos pensar numa selecção de râguebi. Imagine-se: o jogador-estrela francês Sebastien Chabal sai disparado e passa a bola ao inglês Jimmy Wilkinson, que marca o drop decisivo a favor da Europa. Os meus olhos nunca verão isto.” Palavras lúcidas de um europeísta convicto – Timothy Garton Ash, publicadas no último suplemento dominical do El País. Palavras que traduzem bem o que se passa nesta Europa unida na cúpula e separada na base. Qualquer estádio cheio em dia de competição internacional nos demonstra isto.

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Haja alguém que reconheça o meu valor*

Lidas estas palavras de Paulo Portas, não me recordo que mais alguém tenha falado em wrestling a propósito do debate de hoje, salvo a minha honrosa excepção. Das duas uma: Ou não fui tão original na prosa como pensava, ou ficamos a saber que o líder do CDS-PP lê o Corta-Fitas com atenção. Resta-me apenas deixar a ressalva, a outros políticos que também aqui arribem em busca de ideias, de que os meus soundbytes costumam ser remunerados. Quanto ao resto, disponham sempre deste vosso serviçal.
*Apenas mensurável em milhares de milhões.

Denúncia

Comprei esta revista e nem queria acreditar. Então não é que há um texto de uma mulher?!? Não, não são aquelas coisinhas coloridas no final, é uma página inteira, mais concretamente a 32. Ainda por cima, aborda um tema que poderia perfeitamente ter sido desenvolvido por um gaijo. Assim não vamos lá...

A Corrente ainda mexe…

Desafiada pelo Nuno Ramos de Almeida, do 5 Dias – que no seu registo de bom humor já me perguntou se o livro escolhido é um Manual de Puericultura –, cabe-me continuar a corrente “quinta linha, da página 161 de um livro ao acaso”, que nunca é bem ao acaso… Poderia escolher vários títulos. Um dos dois ou três que andam no carro, dentro do porta-luvas, prontos para qualquer fila mais demorada, ou virar-me para os que estão na prateleira como favoritos, os que não posso deixar de ler ou um dos que me parecem mais inofensivos, daqueles que saem pouco do lugar e acumulam mais pó. Ok, é verdade, também podia ter escolhido a página 161 do Manual da Gravidez - Semana a Semana, que está em cima do sofá, mas essa página já eu passei pois diz respeito à 16ª semana de gestação.
Opto por abrir o livro que anda na minha mala, misturado com agendas moleskine, telemóvel, gloss, perfume, e todo um universo contável e não contável, que cabe na mala de uma mulher. O lápis marca a página 129 da Louca da Casa, de Rosa Montero, mas lá me adiantei até à 161. E a quinta linha dita assim: “…pedimos um jantar opíparo ao room service. Nem o provámos. Outra das vantagens da idade: não é preciso fingir orgasmos, não é preciso gritos desnecessários e, em geral, já se sabe onde se deve colocar os cotovelos e os joelhos. Não nos sobrou nenhuma articulação nessa noite.” E eu que evitei ir à página 161 do livro “História do Orgasmo”…
É comum ouvir falar deste fingimento. Será que se finge assim tanto? A autora e ex-jornalista tem mais uns aninhos do que eu… lá saberá o que escreve.
O livro é autobiográfico e, entre muitas ideias, retrata muito bem o que é o ofício de escrever.
Mandam as regras que passe agora a bola a mais cinco colegas. A cadeia estende-se a: Teresa Ribeiro, Manuel S. Fonseca, Miguel Portas, Fernando Alvim, Paula Lee.

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Ninguém morre em política

Na vida política, todos os obituários são prematuros. Repare-se em Luís Filipe Menezes: vilipendiado no congresso do PSD do Coliseu dos Recreios, em 1995, renasceu das cinzas como autarca modelo elogiado pela própria oposição por ter transformado Gaia, que era uma espécie de pátio das traseiras do Porto, numa cidade moderna, dinâmica e vibrante. Um dos parceiros de partido que o vaiaram com estrondo em 1995, Rui Gomes da Silva, faz hoje parte da sua Comissão Política. Repare-se em Santana Lopes: arrasado em todos os editoriais de toda a imprensa respeitável em 2005, ei-lo renascido como líder parlamentar do PSD, preparando-se já para defrontar Sócrates no plenário de São Bento enquanto legiões de jornalistas mendigam a mínima frase que possa sair-lhe dos lábios, como se fosse um astro de Hollywood.
Estes dois “mortos” ainda mexem muito. E vão fazer vítimas no campo oposto. Instalem-se nos vossos lugares e preparem-se para ver.

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Palavras que odeio (26)

Abencerragem

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There shall be only one!*


Alguém disse que o mundo está dividido em duas espécies de pessoas: Aquelas que dividem o mundo em dois grupos de pessoas, e as outras. Hoje, estamos para aqui como no «Grande Fosso» do Astérix. De um lado, os que prognosticam a vitória de Santana Lopes. O regresso triunfal do cicatrizado Rocky. Que os seus dotes de tribuno isto, que o seu conhecimento detalhado dos esqueletos no armário do Primeiro-ministro aquilo e blá blá blá. Do outro, os que afirmam que Sócrates vai ganhar o debate porque, numa manobra digna de uma final de Wrestling, atirará com Santana para o outro lado do ringue, voando sobre as cordas após sofrer síncronos e consecutivos golpes na abdominável governação do seu PSD.
Eu cá, não pertenço nem a uma nem a outra destas metades. Já abdiquei de prognósticos quanto aos resultados na arena política e aprendi a lição e à minha custa. Há só uma coisa que me parece trigo limpo, farinha Amparo: É que ninguém vai ligar pevide ao orçamento.
*Título roubado ao filme Highlander.

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Auxílio às ditaduras


Falava ontem aqui do ditador eritreu. Eis hoje uma imagem bem emblemática - tirada no porto de Asmara, capital da Eritreia - do auxílio que as democracias ocidentais prestam ao referido sujeito. Só uma parcela muito reduzida da ajuda internacional, como é sabido, chega àqueles que mais precisam. Quase tudo o resto serve para engordar ainda mais as contas bancárias dos "líderes" africanos.

Foto: Eric Lafforgue


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Em prol da harmonia no lar....

Anúncio no intervalo das noticias da SIC noticias: Serviço Video-on-Demand powerbox TVCabo, com carregamento por multibanco. Veja os seu filmes para adultos favoritos, em sua casa, com total discrição: o débito não vem mencionado na factura.

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Segunda-feira, Novembro 05, 2007

Se fosse cá, esta era a última foto deles

É difícil de perceber o que se passa em Portugal com as passagens para peões. Temos os condutores que se transformam em autênticos selvagens quando um peão inicia a travessia e fazem questão de lhe razar os pés, com acelerações para mostar o desagrado pela demora. Temos condutores que acham que podem ir avançando à medida que o peão anda, sem perceber que isso inviabiliza a percepção do condutor de trás de que há pessoas a atravessar. Temos peões que acham que atravessar na passadeira os liberta de obrigações como parar e olhar. Temos peões convencidos de que pisar a passadeira acciona um mecanismo que leva os carros a ficaram estáticos naquele preciso instante. E temos passadeiras homicidas qualificadas: colocadas a seguir a curvas, em lugares sem visibilidade, com as riscas brancas quase apagadas e as placas tapadas, que dão para muros, sem passeios... E as piores de todas: colocadas a seguir a entroncamentos que obrigam a ceder prioridade aos que chegam do lado aposto ao da passadeira. Ou seja, entra-se no entrocamento olhando para a direita e avançando quando não vem nenhum carro e cá está ela, a passadeira, só visível quando começamos a virar a cabeça para a esquerda e já a estamos a percorrer.
Há muitos anos que me interrogo sobre este mistério: quem são as pessoas que decidem os locais das passadeiras? Têm carta, ao menos? Vão aos locais ou só olham para riscos num papel? Quantas mortes são precisas para resolver uma coisa tão simples como estabelecer critérios para a localização das passadeiras, zelar pela sua manutenção e responsabilizar os organismos, os serviços, as pessoas pelo cumprimento das regras de segurança?

Este ditador vem a Lisboa (4)


Isayas Afewerki.

Presidente da Eritreia desde 1993. Tem 61 anos.
Aplaudido quando reconduziu o seu país à independência, há 14 anos, rapidamente dissipou o fugaz prestígio internacional entretanto alcançado ao envolver-se numa inútil guerra fronteiriça com a Etiópia, antiga potência administrante. A guerra saldou-se na morte de 150 mil pessoas em ambos os lados da fronteira e mais de 600 mil refugiados eritreus.
Desde 1993, nunca se realizaram eleições no país: a Eritreia é um Estado de partido único, onde os opositores políticos são arbitrariamente presos e torturados com frequência. Várias confissões religiosas são perseguidas e não existe liberdade de imprensa: as "garantias" expressas na Constituição de 1997 não passam de letra morta. A lei fundamental, aliás, nunca chegou a ser ratificada por decisão do presidente, que apelida de "espiões" ou "traidores" todos quantos têm a ousadia de o criticar.
Afewerki é um tirano. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Menezes e Capucho

O PPD de Luís Filipe Menezes não está representado no Conselho de Estado. Em compensação, o PSD - com Pinto Balsemão, Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa e agora António Capucho - parece-me representado em excesso naquele órgão de consulta do Presidente da República. Capucho, claro, podia facilitar as coisas, cedendo o lugar a Menezes. Mas é compreeensível que não o faça: são de partidos diferentes. PPD e PSD têm cada vez menos a ver um com o outro.

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Palavras que odeio (25)

Cônjuge

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Os extremos tocam-se

A respeito desta polémica, acho sinceramente que estão bem um para o outro, estes dois verdadeiros clowns da blogosfera (e não só).

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As leis do mercado (2)


Necessidade de um pai protector? As teorias de Freud já estão um pouco ultrapassadas. Quando as mulheres investem numa relação séria com um homem muito mais velho estão a comprar anos de juventude, pois garantem que aos olhos do seu consorte nunca deixarão de ser eternas meninas. Isso, nos tempos que correm, não é coisa que se despreze.

Não há bela...

Sobre o inquérito que decorre na nossa barra lateral, urge (detesto a expressão) dizer o seguinte: não votei ainda e tenho algumas dificuldades em escolher uma daquelas figuras. Mas, apesar de tudo, vou meditar mais uns dias porque estou entre a Ana Lourenço e a Adelaide Sousa. Mas desde já adianto que não as acho assim do outro mundo...

Fora de série (13)

Há poucos anos, com o advento do DVD, recuperei cá para casa o humor rock n’ roll d' Os Marretas, que já no final dos anos setenta aligeirara o fosso geracional na casa dos meus pais, juntando toda a família ao serão dos Domingos. Essa meia hora mágica situava-se entre a costumeiro jantar de suculento frango assado e a acabrunhada preparação da nova semana de aulas que ameaçadoramente despontava.
“Os Marretas” foi uma genial série de televisão americana estreada em 1976 da autoria de Jim Henson e sua trupe de prazenteiros manipuladores e criadores de bonecos. Jim Henson, que nos deixou prematuramente em 1990, já tinha no curriculum a colaboração regular dos seus bonecos no prodigioso programa educativo Rua Sésamo desde 1968, e desde 1961 num obscuro show humorístico "Sam e os Seus Amigos" onde já pontificava um simpático boneco “peúga”, talvez a génese do celebradíssimo sapo Cocas.
A inconcebível colecção desta mágica fábrica de "fantoches" num frenético ritmo rock, às vezes bem psicadélico, foi crescendo em tamanho e graça: do minimal felpudo “fole” dançarino, da peúga falante ao urso Fozie - o inseguro aprendiz de comediante, passando pelo caótico Gonzo e toda a sorte de animalejos e objectos.
Naquela desregrada "companhia teatral” todos os personagens - e alguns dos adereços - têm vida e personalidade muito próprias. Podemos ver umas alegres Couves e outros legumes a dançar folclore polaco, os ratos, baratas e demais bicharada residente a exigir um aumento de cachet ao sapo Cocas, o inabalável director e apresentador daquela literalmente explosiva empresa. Este tem como braço direito o influente moço de recados Scooter, sobrinho do dono da sala de teatro. E que dizer dos velhotes Statler e Waldorf, sempre teimosamente insatisfeitos, no alto do seu camarote? E do Sam, a moralista e inquisidora águia americana?
Durante os endiabrados espectáculos, Cocas lá vai mantendo a calma no meio do caos, mantendo o alucinante ritmo das variedades, sempre com um convidado (muito) especial. Entrevistou por exemplo Julie Andrews, enquanto a troupe do Canhão Humano se preparava para disparar uma vaca (verdadeira). Salva-a do expulsivo destino Gonzo (enigmática espécie animal) que negligenciando a sua bem amada Camila (uma galinha) enamora-se arrebatadamente pela vaca com quem desaparece para um jantar romântico. Em abono da verdade, tartes espetadas na cara, trambolhões e violentas explosões num humor assim “inteligente” apenas encontrei nos "Monty Python" e n' "Os Marretas".
Do sapo Cocas ao jazzístico e imperturbável saxofonista Zoot, todos os personagens possuem um sólido carácter e profundidade “humana” (?!), expressa com mestria no desenho, voz e manipulação daqueles inimagináveis bonecos, de cores mirabolantes de olhos piscos e desmesuradas bocas. O humor nonsense impera n’ "Os Marretas", a par com os convidados especiais ao momento “na berra” do Show Business. E música, muita boa música Jazz, Folk e Rock n’ roll, numa impecável interpretação da extraordinária banda residente liderada pelo Dr. Teeth nas teclas, com o Monstro na bateria, o Floyd à guitarra, e a doce Jenice a cantar, por entre os minimais solos de saxofone de Zoot. Um verdadeiro tributo à boa música popular. Ou também à música erudita, pelas patas do carismático Rowlf, o cão pianista. É obrigatória uma referência à Miss Piggy, que nunca me seduziu por aí além. Talvez por sempre me ter parecido uma personalidade demasiadamente colada à de tantas caricaturas vivas da existência real.
Foi com "Os Marretas" que consegui detectar o pezinho maroto do meu pai, no alto do seu sofá, a bater o ritmo do rock mais pesado. E a rir-se à gargalhada com os chavões dum tempo que definitivamente já não era o dele. Talvez por isso, eu tenha promovido em casa, com os meus miúdos, o culto destas fabulosa série. E que obteve uma adesão incondicional, o que confirma que o bom gosto é mesmo intemporal.
À parte das “longas metragens”, onde nunca consegui vislumbrar a qualidade dos curtos episódios temáticos (ou não) para a TV, estão disponíveis no mercado algumas colectâneas ou programas especiais que são autenticas preciosidades, hinos à inteligência e à gargalhada salutar. Aconselho vivamente, por exemplo, a Gala Especial dos 25 anos dos Marretas, onde se encontram juntas algumas das mais singulares e históricas pérolas do sapo Cocas e companhia.

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3 fotografias




Dalai Lama em Lisboa. Sem dúvida o principal momento deste ano para mim. Autora: Alexandra Silva.

Nas colunas


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Aniversário

Hoje é o meu dia de anos. Aqui fica uma lista de 10 coisas que não voltarei a fazer, todas elas associadas à minha juventude. Se quiserem partilhar a vossa, estejam à vontade:
1. Uma corrida de carrinhos Matchbox no muro de um terraço alto.
2. Rebentar bombas da China de 5 paus ao lado de gatos adormecidos.
3. Andar numa praia deserta a falar sozinho num dia de chuva escassa mas grossa.
4. Ouvir responder que sim, quer namorar comigo, e depois ficar tudo na mesma mas poder contar ao melhor amigo.
5. Uma batalha de pinhas (sem pinhas verdes) e torrões de terra.
6. Viajar de comboio sem saber onde vou sair, algures a meio do caminho.
7. Achar que todos os mais velhos que encontro têm algo a ensinar-me.
8. Acampar com os amigos e dormir ao relento em plena floresta.
9. Sentar-me à mesa do almoço apenas com os pais e os irmãos e ser dia de cozido.
10. Ter 3 meses de férias e queixar-me que só me apetece que terminem.

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Domingo, Novembro 04, 2007

Domingo

Evangelho segundo São Lucas Lc 19, 1-10

Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

Da Bíblia Sagrada

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Sábado, Novembro 03, 2007

Este ditador vem a Lisboa (3)


Teodoro Obiang Nguema.

Presidente da Guiné Equatorial desde 1979. Tem 66 anos.
A antiga colónia espanhola, que se tornou independente em 1968, tem sido governada em família: o anterior ditador, Francisco Macias Nguema, governou com mão de ferro até ter sido deposto pelo sobrinho, que desde então se mantém no poder em Malabo. Para que não restassem dúvidas sobre quem mandava, decidiu executar o tio. Perseguiu adversários políticos, autorizou a tortura e instalou um dos mais corruptos aparelhos de Estado de toda a África. Segundo a revista Forbes, é o oitavo governante mais rico do mundo, com uma fortuna avaliada em 600 milhões de dólares.
Em 1992, pressionado pela comunidade internacional, anunciou a instauração da "democracia" no país. Mas todos os escrutínios foram desde então manchados por enormes fraudes eleitorais. A vitória, evidentemente, cabe sempre ao Partido "Democrático", do ditador, que controla 98 dos 100 lugares do "parlamento" e se habituou a governar por decreto. Em 2002, foi "reeleito" para um novo período de sete anos, com 99,5% dos votos. Segundo a Amnistia Internacional, este país é um dos piores do continente em matéria de violação dos direitos humanos.
A liberdade de imprensa, prometida na Constituição, nunca existiu. Hossanas ao líder são constantes nos relatos jornalísticos, quase na totalidade dependentes do Estado. Há tempos, com o tom mais sério, a rádio oficial anunciou que o ditador estava "em permanente contacto com Deus Todo-Poderoso" e que "pode decidir matar quem quiser sem prestar contas e sem ir parar ao inferno".
Obiang Nguema é um déspota. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Palavras que odeio (24)

Epistemologicamente

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Do amor ao preconceito

Acompanho habitualmente os escritos do Filipe Nunes Vicente no Mar Salgado com interesse mas sem grande sobressalto. Suponho aliás que conheço bem a genealogia do seu pensamento.
Assumindo-me como um convicto pessimista antropológico, defendo o livre arbítrio e a liberdade individual como valores fundamentais, aliás como fórmula única de sustentabilidade das minhas poucas certezas. Aceito com naturalidade o risco existencial proporcionado pelo pensamento livre.
Vem isto a propósito do último post da sua refinada série ODI ET AMO, onde uma vez mais se põe em causa a relação do casal no compromisso matrimonial, aqui apelidado de relação “de longa duração”. Pergunto-me se a questão do FNV não estará habilidosamente inquinada quando este aponta como primordial motivação (aliás ironicamente hedonista) para o casamento tradicional “a garantia de uma companhia para a velhice”... Quem garante a quem uma velhice "com companhia" num casamento "para a vida"? Porque raio estará vedada ao mais intrépido pinga-amor uma companhia para o ocaso da sua peregrinação terrena? O que é que o salva de uma existência medíocre? Cuidado com os preconceitos, Filipe, que nos podem toldar a eficácia do raciocínio. Fala a experiência.
Tenho para mim que o casamento e a família decorrente são compromissos sérios, muito mais ricos e complexos do que um simples relacionamento erótico a dois. Depois, consta que essa opção (casamento) não é obrigatória! E que a felicidade decorre mais profunda das conquistas e dos prazeres diferidos do que de estimulantes e efémeros troféus narcísicos. Mas, de facto, cada um sabe as linhas com que se cose.

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Sexta-feira, Novembro 02, 2007

O país real vai ao cinema

Hoje, no telejornal da hora do almoço, era confrangedora a amostra de povo reunido pela causa da estreia de "Corrupção", o grande evento deste coitado país. Engalanado para a soirée cultural da sua vida, sempre pronto a opinar ao primeiro microfone à vista, o povo roncou as suas sagazes opiniões sobre a virtuosa obra: "está um pouco diferente do livro", "eu não li o livro todo", uma "denúncia do país e do futebol que temos". O cinema português conquistou finalmente as massas.
Por mim, quase acabo a simpatizar com o mais bem sucedido cacique da “bola” da nossa praça.
Triste sina esta, desta gente moralista, invejosa e mexeriqueira, que descobre no espectáculo da transgressão alheia a redenção da sua mediocridade.

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Sexta-feira a dobrar



Com e sem a cosmética do Photoshop: Juliana Paes

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"Que dia da semana é hoje, amiguinhos?"

Rachel Weisz fotografada por Annie Leibovitz para uma campanha da Walt Disney

Pedido de auxílio

Neste momento a atravessar o Tejo em direcção a Lagos, não faço a mínima ideia onde almoçar, aí a meio caminho. Agradeço as vossas sugestões, desde que cheguem dentro da próxima hora. Bem hajam e prometo pensar em vós com todo o carinho durante a digestão.

Porque hoje é sexta-feira


Porque hoje é sexta-feira, pensemos um pouco neles. No que os preocupa e preenche, recorrendo às honestas palavras de quem sabe do que está a falar:

A mulher de bunda bonita mesmo de frente está sempre de costas. – Arnaldo Jabor

São ou não são todos iguais?? :)))))

A Estranha em Mim

Eu sei que o filme “Corrupção” já estreou e que as expectativas de bilheteira são elevadas… mas não deixem de ir ver “A Estranha em Mim” (The Brave One) de Neil Jordan.
Jodie Foster, numa das suas melhores prestações em cinema, dá vida a Erica, uma mulher que tem um programa de rádio onde grava os sons de Nova Iorque. Numa noite em que passeia com o seu noivo e com o cão pelo Central Park, ambos são agredidos violentamente e só ela sobrevive. Fragilizada, decide comprar uma arma e começa a mudar o seu comportamento. "Like the city, I belong to the living dead, I am a corps that still breathes, a wretch condemned to walk streets and pavements that can only remind me of my filth and my defeat".
Como serão os sons que passamos a ouvir depois da perda ou do roubo da felicidade?

Palavras que odeio (23)

Hebdomadário

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Quinta-feira, Novembro 01, 2007

Doris Lessing: testemunha da História


Nunca li nenhuma obra de Doris Lessing, a escritora britânica agora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura. Mas gosto da imagem desta senhora de 88 anos, dona de uma invejável vitalidade, que posa para as objectivas fotográficas sem receio de exibir as rugas. Tem a expressão serena e determinada de quem já viveu muito mas ainda não viveu bastante, de quem já deixou muitas ilusões pelo caminho mas ainda não as perdeu por completo. Uma lição de vida nesta era em que só a “imagem” conta – a imagem de uma falsa juventude alardeada em todas as capas de todas as revistas por “empresárias” e “empresários” que nunca tiveram empresa alguma, por “organizadoras” e “organizadores” de “eventos” que nem sabem muito bem explicar o que isso é, por “relações públicas” que se limitam a exibir o seu próprio vazio intelectual.
Doris Lessing fixa as câmaras de frente. Não disfarça a idade, não esconde as marcas do tempo, desfia as memórias de uma longa existência que acompanhou grande parte do turbulento século XX – talvez o mais tumultuoso da História – que lhe serviu de matéria ficcional. Nasceu num país então chamado Pérsia – hoje o Irão dos aiatolás, onde os patrulheiros islâmicos detêm pares de namorados que ousam entrelaçar as mãos em público. Viveu largos anos na Rodésia do Sul – hoje o espectral Zimbábue desgovernado pelo demencial Robert Mugabe que se prepara para ser recebido com todas as honrarias e todas as mordomias em Lisboa. Viveu o melhor e o pior da História: viu, ouviu, leu, escreveu, continua a dar testemunho do que a rodeia. Percebe-se que a idade, para ela, pouco mais é do que uma data inscrita no bilhete de identidade.
Gostei das recentes declarações de Doris Lessing ao suplemento dominical do El País. Gostei de perceber que a autora galardoada com o Prémio Nobel 2007 não se mantém em silêncio perante as injustiças. Ouçamos o que ela diz sobre o Irão, a antiga Pérsia agora novamente mergulhada nas trevas medievais em matéria de costumes: “Odeio o Irão, odeio o governo iraniano, é um governo mau e cruel.” Ouçamos o que ela diz sobre o infortunado Zimbábue, a antiga Rodésia do Sul que chegou a ser o celeiro da África Austral: “Neste momento, as pessoas morrem de fome neste país que dava de comer a toda a região, onde havia cultivo de todo o género.” Cita uma amiga lá residente que se queixa de passar “uma semana inteira sem água, quatro dias sem electricidade”, da ausência dos alimentos mais básicos. “Não há pão, não há batatas...”
Passa-se fome no Zimbábue, país destruído pelo capricho de um déspota sem escrúpulos ainda tolerado pelas chancelarias ocidentais. As mulheres são cidadãs de segunda na detestável teocracia iraniana. Doris Lessing, ao contrário de alguns dos seus pares, sempre prontos a confraternizar com ditadores, não cala estas verdades incómodas. Honra a classe intelectual a que pertence, honra a academia sueca que a premiou.
Ainda não li nenhum livro dela. Vou lê-la sem mais demora.


Publicado no DN

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Dúvida

Continuo sem saber a razão ponderosa (odeio a expressão) para Fernando Ulrich não ter aceite as duas garrafas de champanhe que Joe Berardo lhe ofereceu, em directo, no programa Prós e Contras da RTP1. Eu sei que um defende os interesses do BPI , a que preside, e que o outro defende os seus como terceiro maior accionista individual (acho que é isto). Eu sei que há um mundo entre os dois, eu sei que quase tudo os divide. Não têm nada a ver social ou politicamente. Mas dizem todas as regras que a cavalo dado não se olha o dente. Ulrich, como um senhor que é, devia ter aceite a generosa oferta, mesmo que ela representasse uma jogada de marketing estratégico da parte de Berardo. Em televisão há coisas terríveis. Em directo mais ainda.

Foi você que pediu uma água das pedras?


Por falar em Quadratura do Círculo, concordei com a opinião de António Lobo Xavier, quando ontem disse que as escolas públicas jamais teriam capacidade para administrar as tais aulas de recuperação - previstas pelo novo estatuto do aluno - aos estudantes gazeteiros.
É que para além de tudo o que já foi dito sobre o facilitismo e desresponsabilização que esta medida implicava - opiniões que subscrevo - o que também estava em causa era a óbvia incapacidade das escolas para aplicarem as medidas anunciadas. Mas será que o ministério ainda não tem a noção das limitações das escolas públicas?
Foi bom ver o PS, por uma vez, recuar e passar a admitir a reprovação por excesso de faltas. Trata-se de uma questão de puro bom senso.
Pior ficou Maria de Lurdes Rodrigues que foi completamente desautorizada por este volte face. Imagino a água das pedras que já deve ter bebido desde ontem...

Halloween

Entristece-me intimamente a ingénua adesão dos miúdos pequenos ao estéril folclore da triunfante cultura invasora. É com ou sem a nossa conivência que os seus ritos e liturgia entram sorrateiramente pelas nossas casas adentro.
Ao mesmo tempo que a desgarrada militância laicista promove o esvaziamento das nossas ancestrais tradições cristãs, em nome do progresso e duma presumida superioridade intelectual, os fundamentos da nossa identidade colectiva são sistematicamente ameaçados.
Sem nada para lá pôr no seu lugar, o povo espoliado e confuso agarra-se em desespero às abóboras ocas, luzinhas mágicas, pais natais, pozinhos de perlimpimpim e demais “espiritualices” alternativas.
Enfim, o progresso.

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As leis do mercado


Em regra, aos vinte, eles têm as raparigas da sua idade. Aos trinta, têm as de vinte e as de trinta. Aos quarenta têm as de vinte, as de trinta e as de quarenta. Para eles, à medida que envelhecem o mercado cresce. Com elas acontece o inverso. As oportunidades só se equiparam a partir dos setenta, quando já não há nada para ninguém.

Dever cívico

Já cumpri hoje o meu dever cívico. Um voto na Adelaide de Sousa, obviamente. Ela continua a liderar o nosso inquérito. E ainda bem.

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É oficial: entrei na corrente!

Graças à generosidade da Leonor Barros, da Geração Rasca, entrei na corrente da quinta linha da página 161 de um livro ao acaso.
O livro é o que anda aqui por cima das superfícies esta semana: Uma história para o futuro: Maria de Lurdes Pintasilgo, que comprei segunda-feira no sessão de lançamento, na biblioteca da Assembleia da República. Dos discursos dos autores, Leonor Beleza e Jaime Gama, ficou-me esta imagem: este é um livro de História.
Tinha reparado que já ninguém usa a expressão "a nossa jovem democracia" (lembram-se?), mas não estava preparada para pensar em Maria de Lourdes Pintasilgo como uma personagem histórica, tal como não estava para saber que Bruce Springsteen tem 60 anos (catadupa de informações temporais que me provocou uma arreliadora ruga, resultado de notar como o tempo passou depressa para os outros).
Voltando ao livro, confesso que ainda não o li mas, para já, fiquei rendida ao consenso que reinou no lançamento: Ramalho Eanes ombreava com Luís Fazenda, Raul Solnado e Leonor Beleza, só para terem uma ideia. Mais surpreendente ainda: a autora, Luísa Beltrão, é sogra do co-autor, Barry Hatton. Ou o autor, Barry Hatton, é genro da co-autora, Luísa Beltrão, o que diz muito sobre o espírito de tolerância do lançamento.
Indo ao que interessa, reza assim a frase completa da quinta linha da página 161:
"Muitos amigos como Sedas Nunes e Pereira de Moura (procuradores como ela à Câmara), também confiam na sinceridade de Marcello Caetano e na sua intenção de transformar o contexto político português".
Fico contente com esta frase, escrita num português económico e com poucas vírgulas, como eu gosto, e porque também acredito na sinceridade de Marcello Caetano.
No espírito de tolerância do livro, passo a bola à There's only 1 Alice; ao Miguel Maduro, da Geração 60; ao Filipe Anacoreta, do Cachimbo de Magritte; ao Pinho Cardão, do Quarta República e ao Nuno Ramos de Almeida, do Cinco Dias.

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Blablablablablablá

A Arquadratua do Cúrcilo, perdão a Quadratura do Círculo, na SIC Notícias, continua a prometer o que não dá. Ontem anunciou três temas: o novo estatuto do aluno, a fusão BCP-BPI e a questão das escutas telefónicas. Mas, como de costume, quase todo o programa foi preenchido sem cronómetro: os participantes gastaram dois terços do tempo a perorar sobre o estatuto do aluno, como se aquilo fosse a telescola. Depois deste blablablablablablá, o tema das escutas foi despachado a galope, justificando o patrocínio que a DHL Express dá à coisa. Entretanto, a fusão dos bancos - que chegou a ser anunciada em oráculo durante a emissão previamente gravada - não mereceu sequer uma palavrinha. Pacheco Pereira, também como de costume, foi o que mais falou. Que tal darem-lhe um programa só para ele? Se até o Rui Santos tem um...

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