terça-feira, dezembro 18, 2007

Um homem feliz

Por entre as torrentes de propaganda, designadamente as intermináveis transmissões televisivas, José Sócrates conheceu o momento mais alto da sua carreira política com a assinatura do Tratado de Lisboa, que visa instituir o novo documento-guia para a União Europeia.
A propaganda não iludiu, no entanto, questões fundamentais. Desde logo, o documento de nada vale se não for ratificado por cada um dos Estados-membros - a Hungria apressou-se a fazê-lo, inaugurando a série. Mas se a ratificação parece garantida em todos aqueles que a submeterem aos respectivos parlamentos (como sucederá em Portugal, contrariando anteriores promessas eleitorais do PS e do PSD), há pelo menos um país – a Irlanda – onde o referendo é obrigatório por imperativo constitucional. E aqui não existe a certeza antecipada de que o tratado seja aprovado: a mais recente sondagem, publicada no Irish Times, indica que só 25 por cento dos irlandeses tencionam votar “sim”. Basta comparar: há dois anos, quase metade do electorado da Irlanda mostrava-se de acordo com o tratado constitucional, antecessor – e praticamente irmão gémeo – daquele que agora foi assinado em Lisboa.
Mas não param aqui os problemas. A liderança de Gordon Brown é cada vez mais frágil perante as crescentes correntes de opinião eurocépticas no Reino Unido, à esquerda e à directa. A Bélgica permanece há longos meses sem governo e em cada dia que passa enfrenta a perspectiva de uma irreparável desagregação, de consequências imprevisíveis. A iminente independência unilateral do Cosovo, apoiada por Washington, divide profundamente os parceiros europeus. E as próprias fronteiras da União, a prazo, são outro tema de acesa polémica, com fracturas evidentes entre apoiantes e adversários da integração turca.
Problemas atrás de problemas atrás de problemas. Entretanto, o almoço no Museu dos Coches foi opíparo e o vinho do Porto vintage, colheita de 1957, era excelente, ao que rezaram as crónicas. Sócrates está feliz. Haja alguém feliz no meio deste turbilhão que certamente nenhum dos “pais da Europa” imaginaria na corrente de optimismo que há meio século inundava o Velho Continente.

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sexta-feira, dezembro 14, 2007

Só faltou isto

Entre tanta minúcia que tenho lido e ouvido sobre o dia mais importaaaaaaante da vida de José Sócrates, só me falta saber isto: onde é que o primeiro-ministro terá feito ontem a sua sessãozinha de jogging? Terá andado a dar voltas ao claustro dos Jerónimos enquanto o Gordon Brown não chegava?

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segunda-feira, dezembro 10, 2007

O homem perfeito


Imagine-se um entrevistado a dar-se ao luxo de escolher o fotógrafo que o retratará para uma entrevista. Estrela de Hollywood, barão da finança londrina? Não é preciso ir tão longe. Aconteceu por cá, com José Sócrates. O sempre tão reservado primeiro-ministro português, que raramente se deixa entrevistar ou fotografar na intimidade, quebrou a regra com o El País. O jornal espanhol foi no engodo: prescindiu de trazer a Lisboa um dos seus repórteres fotográficos, aceitando o amigo de Sócrates para fazer os "bonecos". E deu-lhe protagonismo com uma prosa encomiástica, que transborda veneração em cada parágrafo. Sócrates, garante o El País neste panegírico (recorro à tradução do Expresso, que transcreveu o trabalho), "nunca duvida, dir-se-ia que tem sempre razão". É "um actor consumado, um político profissional". Até "dá a impressão que governa um continente inteiro". Para aqui chegar, "teve de fazer uma longa corrida de fundo. Uma corrida suada, trabalhada e mastigada passo a passo, onde se adivinha vocação, dinamismo, habilidade para se mover nos bastidores e um prodigioso sentido negocial". António Ferro não diria menos no seu livro sobre Salazar...
Cansados de tanta graxa? Aguentem, pois há mais: "Imbuído da sua dupla missão (deixar a sua marca e reformar o País), Sócrates não desanima. Exerce o poder sem olhar pelo retrovisor, caminha em frente, despacha as críticas com desenvoltura e encontrou na Europa um cenário à medida da sua ambição". O El País, bem habituado a louvar o poder socialista, interroga-se: "O homem perfeito?" É escusado o ponto de interrogação: claro que ele é perfeito. Direi mesmo mais: é porreiro. Pá.

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terça-feira, novembro 27, 2007

O inspector martelada


Noutro país, as declarações do desembargador António Clemente Clima ao Expresso, numa excelente entrevista conduzida pela jornalista Valentina Marcelino, já teriam produzido consequências. Uma demissão, por exemplo. Ou duas. Ou um caudal de polémica. Mas foi quase como se o inspector-geral da Administração Interna não tivesse dito nada.
A verdade é que disse.
Frases como estas:

"Há por aí muita impertinência, muita intolerância, muita impaciência da parte da polícia. O que significa incompetência. E ainda mais intolerável é a atitude das chefias."
"Temos tido alguns problemas na GNR, com perseguições iniciadas por motivos que me parecem inadequados, como por exemplo, por passar um sinal vermelho. (...) A autoridade não se defende a tiro. (...) Não podemos ter como resultado de uma infracção de trânsito a pena de morte."
"[Alguns] jovens oficiais da GNR encaram o cidadão como o inimigo."
"Há por aí muita 'cowboyada' de filme americano na mentalidade de alguns polícias. Muito gosto na exibição da pistola. Muito gosto por andar à paisana. (...) É preciso muito cuidado com estes agentes policiais que andam à paisana, muitas vezes armados em agentes da PJ, fazendo um trabalho descontrolado."

Depois disto, nem ao menos o "rigoroso inquérito" do costume?

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quinta-feira, novembro 22, 2007

Meio milhão

Interrompemos a nossa programação habitual só para anunciar que acabamos de receber o nosso visitante número 500 mil. Vinte e um meses depois de tudo começar.

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