Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

Sem fumo nos olhos

São muitas as vozes “esclarecidas” a vociferar contra a lei do tabaco que entra amanhã em vigor. Por vezes pressinto alguma caprichosa arrogância por parte dos resistentes fumadores, ameaçados na sua liberdade individual (?!) e cada vez mais entrincheirados no seu gueto.
Não pretendo discutir com os fumadores os malefícios ou virtudes do seu vício. Pela minha parte, como comprovarão os meus amigos viciados, sempre contaram com toda a minha "tolerância". Tenho cinzeiros em casa, e nunca troquei uma boa companhia à mesa por mais alguma sanidade atmosférica. É que, depois dos quase trinta anos que eu próprio dediquei à adição a fumos diversos, a minha consciência não me permite uma atitude discriminatória. Mas permitam-me aqui uma singela partilha de experiência.
Durante muito tempo a trabalhar na hotelaria habituei-me a gerir a (in) conveniência social do meu convicto vício de fumador. No entanto, chegado a meados de 2004 devido a uma reestruturação na empresa onde trabalhava, mudei de escritório e passei a partilhar um moderno e racional espaço comum. Ainda arranjei um cinzeiro "de pé" que eu próprio coloquei no patamar das escadas entre os elevadores. Estavam claramente comprometidos os meus rituais de prazer. Por exemplo, cada fugida para fumar, obrigava-me a interromper o que estava a fazer. Como se o “fumar clandestino” não fosse suficiente humilhação para um respeitável quarentão como eu, ali eu expunha-me democraticamente aos mais insolentes e bem intencionados reparos, por parte de toda a sorte de virtuosos colegas.
Sem argumentos válidos que justificassem o destrutivo prazer em visível decadência, cedi à “pressão social” e marquei uma data solene para a heróica mudança. Nas derradeiras semanas de contagem decrescente, fumei que me fartei! E foram tais as (más) expectativas criadas, que me surpreendi ao sobreviver aos primeiros dias de abstinência.
Durante quase um ano, fiquei com um feitio danado, quase me incompatibilizei com o mundo, com explosivas e injustificadas fúrias.
Agora tudo passou, e posso garantir que me sinto bem e que fiz o que havia a fazer. E confesso que há muito que o lado estético do consumo da nicotina me parecia no mínimo repugnante.
As consequências deste vício entraram-me pela vida a dentro, pois perdi os avós maternos ambos com enfisema pulmonar. Lembro-me dos obscenos e assustadores ataques de tosse que tornavam roxo o meu avô, ainda recém sexagenário. Morreu cedo e asfixiado.
Hoje em dia, quando acompanho a minha mãe nos seus pequenos passeios, deslocando-se lívida, em minúsculos e lentos passos, ligada por tubos a uma garrafa de oxigénio, sou capaz de me lembrar de alguns sagazes opinion makers da nossa praça. Quando vejo na cidade as inúmeras carrinhas de distribuição domiciliar de oxigénio, das empresas Linde ou Gazin, lembro-me desses que, levianos, reclamam o direito a infestarem-se de alcatrão e nicotina, da mesma forma como reclamariam outras fracturantes causas que a agenda da moda imponha. E com comprovada imaginação conseguem argumentar e justificar a sua funesta veleidade, como se de um direito se tratasse. O direito a morrerem lentamente, em profundo sofrimento e na total dependência dos outros.
Conheço alguns – pouquíssimos - sortudos que fumam descontraídos dois ou três cigarros por dia. Por compleição genética ou psicológica, são pouco vulneráveis a dependências. Mas esses felizardos não são regra e são os únicos que se podem alegremente rir de mim ou das minhas desventuras. Mas mesmo eles que o façam sem me atirar o fumo para os olhos.

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Mira, Zapatero, que fazes em 2008?

O ano de 2007 acaba com o governo do meu país a comportar-se como uma multinacional que decide deslocalizar os seus investimentos, abandonando comunidades e populações de velhos à sua sorte. A explicação de que a centralização dos serviços de saúde serve melhor os utentes seria admissível num país com outras estradas, com outra literacia, com outra capacidade financeira dos cidadãos. O que é servir melhor as populações? Quanto vale uma grávida que chega à maternidade, e como se desconta nesse valor os bebés que nascem na estrada e as mães obrigadas a parir às mãos da boa-vontade de bombeiros? Quanto custa o isolamentodos velhos, o sentimento de abandono nas pequenas comunidades periféricas?
Vejo nos jornais que, em três anos, o governo espanhol aumentou o ordenado mínimo de 460 para 600 euros. Julgo que, mais dia menos dia, teremos que fazer como o nosso governo: tirar o lápis de trás da orelha e ver se não nos compensa mais deslocalizar. Eu, por mim, começo a achar que estaria mais bem servida com o Zapatero.

Blogo, logo existo

Dizia John Donne, na magnífica frase que Hemingway inscreveu no pórtico de Por Quem os Sinos Dobram, que nenhum homem é uma ilha. Pois não. Convém lembrar esta verdade elementar em tempo de progressivo isolamento, numa altura em que a solidão é talvez a mais grave doença que se abate sobre o mundo "desenvolvido" que habitamos. Comunicar, como aqui fazemos dia a dia, é um dos mais poderosos exercícios contra a solidão. E é precisamente a pensar nisto que aqui deixo, em jeito de balanço do ano que agora acaba, uma menção a companheiros da blogosfera que fui lendo ao longo destes meses. Concordando com muitos, discordando quase sempre de outros. Mas todos eles me reforçam a sensação de que não nascemos para ser ilhas: devemos continuar a travar um combate diário pela comunicação. Pensemos o que pensarmos, gostemos do que gostarmos.
Aqui fica a extensa lista desses bloguistas, incluindo os que estão comigo no Corta-Fitas, o que é outra forma de lhes expressar o meu agradecimento como leitor. E de esperar que em 2008 tenhamos muito mais para dizer.

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Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XIII)



As previsões para 2008


A minha Clotilde convenceu-me a consultar a Dona Rosa, conhecida em todo o bairro por acertar no futuro. A dona Rosa é uma espécie de professor Marcelo dos anónimos.
O consultório fica num primeiro andar com cheiro a mofo. É uma sala escura, de ambiente pesado. E a Dona Rosa surgiu de repente, através de uma cortina ao fundo, com uma vassoura na mão.
Fiquei impressionado porque ela já sabia que eu era do Corta-Fitas.
"Estou um bocadinho chateada com vocês, os rapazes do Corta-Fitas", disse a dona Rosa.
"Então, porquê?", perguntei.
"Não me elegeram rapariga das sextas-feiras".
Quase mencionei a verruga no queixo e a pele esverdeada, mas contive-me, não fosse o comentário influenciar o meu futuro.
A Clotilde explicou que estava preocupada com o seu amor e a dona Rosa tranquilizou-a:
"Terás este ano um grande amor com um homem musculoso e bom".
Correspondia ao meu perfil e perguntei se eu, o grande amor da Clotilde, também estaria apaixonado.
"Que eu saiba, Adolfo Ernesto, não és musculoso nem bom. Eu estava a falar do Arnaldo, da mercearia em frente ao cabeleireiro. A Clotilde tem ali uma boa hipótese, pela circunstância de Plutão estar em conjugação com Saturno, numa órbita perfeita que, ainda por cima, se harmoniza com a trajectória de Mercúrio. Além disso, o Arnaldo depositou mil euros na conta bancária dele, na semana passada. Disse-me o gerente, que também veio à consulta".
"Mas gosto é aqui do meu fofinho...", disse a Clotilde, que estava assustada. (E o fofinho era eu).
"Ah, este é um inútil. Deixa-o".
"Mas ele até escreve num blogue, e tudo"
"O Corta-Fitas? Aquela porcaria?"
A Dona Rosa desatou-se a rir.
"Em previsões, são um desastre. Olha-me para as asneiras que escreveram no ano passado sobre o que ia acontecer este ano". Ligou a bola de cristal e apareceram este e este posts. Mas havia outros.
"Vocês escreveram que a presidência portuguesa ia correr mal ao Sócrates". A Dona Rosa ria-se, numa histeria. E eu já estava a ficar incomodado.
"E, então, quais são as suas previsões para 2008? Certamente melhores do que as nossas", atirei. Ela nem hesitou na resposta:
"É fácil: O Bush será substituído; há eleições no Paquistão e, no fim, fica um general; o Sarko casa com a Bruni; o Gordon vai à sua vida, a Merkel vai ser rapariga da sexta-feira no Corta-Fitas. Seus pedantes!".
Desligou com raiva a bola de cristal.
"E em Portugal, o que vai acontecer?"
"São mais cinco euros".
Paguei. E a bruxa ligou de novo o interruptor da bola de cristal.
"A economia de pantanas; Berardo na Caixa Geral de Depósitos; Sócrates no Governo; não haverá mais festarolas europeias, vem a factura; fogos no Verão; a economia de pantanas (já disse); o Benfica perde mais uma vez o campeonato; a Clotilde fica com o Arnaldo; Sarko no Allgarve com a Bruni; Adolfo Ernesto apaixonado por uma beldade chamada Rosa".
Quando saímos (ar fresco!), a Clotilde vinha a matutar naquelas previsões.
"Podias ter-me dito que amavas uma Rosa", disse a Clotilde.
Era inútil dizer que não conheço nenhuma beldade chamada Rosa.
"Enfim, se não posso ficar contigo, talvez o Arnaldo não seja má ideia", suspirou a Clotilde.

Adolfo Ernesto

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Domingo, Dezembro 30, 2007

Manhã perfeita de Domingo

Acordar, ir ao ABRUPTO ver o estado do tempo e, se estiver a chover, voltar para a cama.

Nas colunas

A banda sonora ideal para o meu post mais abaixo.

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Um bom ano!

Com mais um calendário em fim de vida útil, cheio de apontamentos, reuniões e lembretes, aniversários e recados, marcamos a passagem por mais uma etapa da nossa existência. Sem que eu seja grande devoto destas celebrações, também sou levado na onda dos balanços e balancetes. E constato que o ano que termina me foi particularmente pródigo. Assunto que assim deixa de o ser, já que como nos rezava David Mourão Ferreira n’ um “Amor Feliz” a felicidade não tem história. Mas tem, todos nós sabemos que tem. Mesmo que uma história dessas possa soar a pirraça.
E a inveja é uma coisa muito feia. E chega a ser perigosa quando vem daqueles que “não padecem” desse mal. Porque quem não sente não é filho de boa gente. Ou é esquizofrénico.
Pois então fica escrito que eu sou “em geral” muito sensível a toda a sorte de sentimentos, humanas inseguranças e desejos, dos mais luminosos aos mais obscuros.
Duvido sempre de quem se proclama democrata, justo, ou sincero. Eu, por mim sei o que custam tais atributos. Depois, com tantas emoções, aprendi à minha custa que o inferno não são os outros, ele quando arde é dentro de nós. Corrosivo e demolidor se não for bem tratado pela razão.
Mas acreditem que sobrevivo relativamente em paz, apesar de tudo. Aprendi a viver com a efervescência de tantas e contraditórias energias. Que esse é o preço de viver uma vida inteira. Até conviver com o terrível medo, ameaça constante ao livre arbítrio, mas que finalmente nos pode salvar, à beira de um precipício ou a atravessar a avenida da Liberdade.
A vida ensinou-me a temer quem se embandeira ao mundo todo puro de coração. Pior do que ser imperfeito é desconhecermos o quanto o somos. Sem nunca perscrutar as nossas motivações. E depois, só não tem ciúmes quem não ama. Quem nunca dá o peito à conquista. E afinal, para essas inegáveis maleitas da vida, basta aplicar um pouco de juízo.
O meu 2007 fervilhou de histórias e emoções. Com gente a palpitar lá dentro e com tudo o que isso implica. E foi um bom ano, graças a Deus.

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As (outras) passas do Ano Novo


É ler, rapaziada, é ler! Esta lista dos benefícios do tabaco (sim, leram bem) foi compilada por uma organização que defende o direito a fumar, beber e comer em liberdade e sem restrições e limitações impostas pelo Estado (Chatice! O Cohiba apagou-se. Passa aí outra vez os fósforos). Dir-me-ão, os mais cépticos que os há sempre, que esta benemérita associação é financiada pelo dinhheiro das tabaqueiras e bebidas licorosas. Who cares (Puff, puff...Desliga a luz, pá! Queres ir preso ou quê?) Seja o que for isto da Forces International vou já enviar-lhes a minha nota de um dólar e perguntar o que é preciso para fazer parte da Comissão de Honra. (Um ano novo em liberdade condicionada! É o que isto vai ser, pá! Queres dar mais uma passa?)

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Claro que gostei

Destas escolhas do Jorge Ferreira.

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A quem sente a minha falta

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A melhor década do cinema (14)


A SOMBRA DO CAÇADOR
(The Night of the Hunter, 1955)
Realizador: Charles Laughton
Principais intérpretes: Robert Mitchum, Shelley Winters, Lillian Gish, James Gleason, Evelyn Varden, Peter Graves, Don Beddoe, Billy Chapin, Sally Jane Bruce
"Uma obra intemporal, que sobreviverá a todas as modas." (Claude Beylie)

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Prosperidade

Já no Natal foi assim. Agora, à beira da passagem de ano, repete-se a cena. O telemóvel estremece a todo o tempo com mensagens de boas-festas impessoais e padronizadas - daquelas frases ocas que tanto podem ser ditas a um vizinho como a um vago conhecido ou até a uma árvore da avenida. Mas o mais engraçado é que muitas vezes o remetente nem se dá ao trabalho de assinar a mensagem, o que a torna tão irrelevante como inútil. Ainda agorei mirei os algarismos na vaga esperança de reconhecer o número de quem acabou de me desejar "um ano cheio de prosperidade". Em vão: não faço a mais remota ideia. Será algum benemérito com vontade de engordar ainda mais os lucros das operadoras móveis? Se não é, parece. E parece também haver muita gente a partilhar deste objectivo. Um 2008 cheio de facturas telefónicas para pagar, é o que lhes auguro desde já.

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E não se pode exterminá-los?


O teu nome é compatível? – perguntam, em tom vivaço, no anúncio da televisão. Quem quiser saber, é fácil, basta escrevê-lo junto com o nome da pessoa amada e enviar a mensagem para um número de telemóvel de valor acrescentado.
Fácil, tentador. Diria mesmo irresistível para os milhares de adolescentes e pré-adolescentes que hoje constituem a geração Morangos com Açúcar. Fiquei a meditar no assunto: que negócio da China, hem? Faz-se uma pergunta parva e fica-se à espera que os miúdos, na tontice própria da idade, caiam na rede que nem tordos. Confesso que fiquei com vontade de ligar. Não para o tal número, bem entendido, mas para me informar junto de quem de direito se não há forma de acabar com estes negócios destinados a ir despudoradamente ao bolso de quem tem filhos na idade do armário.

Cinema Nostalgia (22)


Através das nossas mães e avós começámos a ingerir esses enredos em doses regulares, não raro antes de pegarmos no sono. Daí que os nossos sonhos acabassem muitas vezes por se confundir com eles, formando um todo contínuo com alguma coerência. As histórias de encantar são uma espécie de testemunho que passa entre gerações e que no caso específico das mulheres serve de sedimento a uma subcultura. A das fadas, dos príncipes e das princesas, onde os papéis de cada um estão bem definidos, a começar pelo nosso que é, naturalmente, de grande responsabilidade, ou não fosse o principal.
A trabalheira que nos dá demarcarmo-nos depois de todos aqueles estereótipos e aceitarmos as nossas imperfeições! Não sei o que acontece com os homens, mas no nosso caso creio que nunca nos chegamos a libertar inteiramente de certas fantasias. O que há mais para aí é donzelas na eterna busca do príncipe encantado e cinderelas à espera de redenção. O cinema percebeu isso bem demais e em todas as épocas nos serviu histórias cuja matriz é sempre a mesma e que não por acaso foram êxitos de bilheteira. Não desfazendo no desempenho de Julia Roberts, não tenho dúvidas de que o segredo do sucesso de Pretty Woman (Um Sonho de Mulher) é o facto de consistir numa versão revista e apimentada da Gata Borralheira.
Lembram-se de Uma Mulher de Sucesso (no original, Working Girl) com Melanie Griffith? À medida que a via e voltava a ver fui-me interrogando sobre o fascínio que essa comediazinha de Mike Nichols exercia em mim, até que um dia percebi: é claro, ver aquela loirinha frágil penar e no final triunfar no mundo da alta finança faz-me disparar a adrenalina.
O síndrome da Cinderela está presente em numerosos filmes, todos com êxito assinalável e se alguns pouco ou nada valem como obras cinematográficas, outros conseguem fazer o pleno: juntar a magia das histórias de encantar à magia da tela. E esses acabam na categoria particular dos filmes da nossa vida. Exemplos? Tenho vários: My Fair Lady, o meu musical favorito; Sabrina (na foto) e a reinar sobre todos esses... Boneca de Luxo (Breakfast at Tiffany’s), de que o Pedro já aqui falou. Ser salva por aquele príncipe (George Peppard) em plena Nova Iorque, debaixo de chuva e junto aos caixotes do lixo revolucionou em definitivo o meu conceito de romantismo. Desde então nunca mais consegui sentir o mesmo élan na derradeira cena do sapatinho de cristal no clássico da Disney A Gata Borralheira que serviu durante tantos anos de referência às minhas fantasias românticas...

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Sound bite

“O Governo português tem tentado colher dividendos do facto de o Tratado ter sido assinado em Lisboa. José Sócrates desempenhou muito bem o papel de sargento, tratou das tarefas procedimentais, reuniu as pessoas para as assinaturas. Mas o Tratado foi feito por Angela Merkel, o Sócrates foi apenas a barriga de aluguer da sra. Merkel” – António Barreto in Expresso

Domingo

Evangelho segundo São Mateus 2, 13-15.19-23

Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pelo Profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora anunciado pelos Profetas: «Há-de chamar-Se Nazareno».
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Da Bíblia Sagrada

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Sábado, Dezembro 29, 2007

Fitologia

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Faria de oliveira, mas afinal faz de árvore das patacas.
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Julgam que eu não sei?


Aparentemente está tudo igual. O vaivém dos carros em tarde de sábado, o semblante dos transeuntes meio fechado mas com a atenção saudavelmente fixa em questões de ordem prática: o semáforo para os peões, os títulos dos jornais no quiosque, ou o “presente” que o cão do prédio em frente ainda há pouco largou no passeio e que é preciso contornar.
Mas hoje é dia 29 de Dezembro e a mim não enganam. Toda esta gente pratica há anos o mesmo ritual. É coisa que se começa a enraizar desde a adolescência, que é a fase em que todos nos estreamos nestas actividades e depois torna-se difícil perder o hábito. Ainda que vagamente, quase por distracção, lá estamos nós a fazer as contas. A contas connosco. E não adianta tentar fugir ao lugar comum. Os nossos pensamentos são movediços e acabam por se deixar arrastar pela corrente. Os jornais são os primeiros a dar o tom, de modo que torna-se inevitável: a seguir ao Natal fechamos para balanço. Receitas e despesas, perdas e danos. A nossa vidinha – que estupidez – passada em revista por imperativos de calendário.
Olha para aqueles, a ver montras. E aquela ali a falar ao telemóvel, toda descontraída. A fazer que estão distraídos da vida. Julgam que eu não sei?

A rapariga da sexta-feira de 2007

... é SCARLETT JOHANSSON. A quem interessar, nasceu a 22 de Novembro de 1984, em Nova Iorque. Construiu uma bela carreira no cinema, mas não é pelas suas qualidades artísticas que a elegemos rapariga da sexta-feira de 2007. Foi, como é óbvio, pela sua simpatia. Quem se interessar pela filmografia e outros detalhes do género deverá consultar o site do imdb. A nós interessa-nos saber que esta nova-iorquina de ascendência dinamarquesa tem um irmão gémeo que é actor, mas cuja foto não consegui localizar, que gosta de homens mais velhos (o que faz sentido, visto que ser mais novo que ela é ilegal em alguns Estados). Diz-se que teve romances com Justin Timberlake e com Benicio del Toro, factores que pesaram na sua eleição pela ala feminina do Corta-Fitas. É democrata, viciada em queijo, não acredita na monogamia e fez o teste do HIV duas vezes por ano, considerando que quem não o faz "é irresponsável". Porque é que me coube a mim apresentar a rapariga do ano?, perguntará o único leitor que conseguiu desviar o olhar do decote da loira e chegar a estas linhas (olá, mãe). Só faltava eu e o Villalobos. A escolha era entre a Scarlett e uma pessoa que usa mais base do que ela e cujo nome não vou dizer porque venceu uma categoria que ainda não foi anunciada. O João Villalobos foi um cavalheiro e deixou-me escolher primeiro.

Porque era mulher e era livre

Talvez o melhor texto que li na blogosfera sobre o assassínio de Benazir Bhutto. Este, do Miguel Castelo-Branco.

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Palavras que odeio (71)

Amofinar

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Estrelas de cinema (10)


A VIDA DOS OUTROS *****

O melhor filme que vi este ano foi A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck. Uma dilacerante visita ao interior de um sistema totalitário, na defunta República "Democrática" Alemã. Toda a trama gira em torno de um oficial da polícia política de Berlim-Leste, especializado em devassar a vida íntima de intelectuais suspeitos - e para se ser suspeito bastava possuir uma vulgaríssima máquina de escrever. A evolução interior desse oficial, brilhantemente interpretado pelo actor Ulrich Mühe, é-nos mais sugerida do que revelada à medida que se vai diluindo a sua fé no sistema, que de democrático nada tinha e de "socialista" apenas conservava o rótulo, destinado a caucionar novas e mais penosas formas de opressão. É um filme denso, de tons soturnos e atmosfera quase asfixiante, que nos traça um retrato impiedoso do "socialismo real", ainda alvo da inexplicável devoção de alguns nostálgicos. Mas é também um filme que nos devolve alguma esperança na natureza humana, capaz de se rebelar contra um Estado iníquo, que transforma cada cidadão num prisioneiro ou num delator.
Todos os desempenhos são notáveis - sobretudo o de Mühe, falecido poucos meses após a conclusão do filme, sem dúvida uma das obras-primas desta década. Justamente galardoado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em Hollywood.

Titulo original: Das Leben der Anderen (Alemanha, 2006). Realizador: Florian Henckel von Donnersmarck. Principais intérpretes: Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Christa-Maria Sieland.

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Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Escrever bem, escrever mal


Como se escreve bem, como se escreve mal?
Para desfazer dúvidas, Dennis Dutton, director da revista norte-americana Philosophy and Literature, inaugurou em 1996 um concurso anual de Pésima Escrita, estimulando os leitores a fornecerem exemplos de prosa mal redigida, cheia de um pedantismo insuportável ou simplesmente incompreensível. No fundo, aquilo que ele próprio contestava em muitos professores de literatura, que polvilham os textos de “uma filosofia absurda” com verniz pseudo-cultural.
Em 1999, a vencedora do Concurso de Péssima Escrita foi Judith Butler, feminista e marxista que alguns colegas consideravam “uma das mais importantes pensadoras da América”.
Segue o texto, com a devida vénia. À consideração de todos os leitores.
“A mudança de um registo estruturalista no qual o capital é entendido como estruturador das relações sociais de maneiras relativamente homólogas com vista à hegemonia na qual as relações de poder são sujeitas à repetição, convergência e rearticulação, trouxe a questão da temporalidade para o pensamento da estrutura e marcou uma mudança de um tipo de teoria althusseriana, que trata as totalidades estruturais como objectos teóricos, para outra na qual as perspectivas da possibilidade contingente da estrutura inauguram uma concepção renovada da hegemonia, ligadas com os lugares e estratégias contingentes da rearticulação do poder.”
Foi um prémio merecido, tenho a certeza. E pensem bem se não leram já outros textos que merecessem também um galardão deste género…

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Mais Sexta-feira

Gosto do aspecto salutar e sociável das moçoilas que o Pedro Correia nos oferece aqui em baixo. Gosto do "boneco" desta Sexta-feira pois vai contra uma corrente (com enorme expressão numa certa facção masculina) para a qual mulheres atraentes têm que ter uma pose contorcida e expressão de heroinómanas - ou olhos de “carneiro mal-morto”.
À laia de bónus aqui vai uma miúda gira que além do “mais” canta bem que se farta: Emmy Rossum. E digam lá mal agora...

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Sexta a dobrar


Brigitte Bardot e Jane Birkin
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Imagem roubada ao Der Terrorist

Em tempo de balanço

A melhor análise do ano feita na blogosfera portuguesa. Aqui, aqui e aqui.

E a mais original. Aqui.

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A importância da História

Miguel Castelo Branco no seu Combustões, um verdadeiro serviço público de que não prescindo visita regular, propõe o voto em Rui Ramos no inquérito aqui ao lado. E eu concordo. Por mim escolheria sempre um cronista que estabelecesse a relação dos acontecimentos presentes com a História. Com a História ciência, independente de mesquinhos preconceitos ou da propaganda oficial do regime.

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A melhor década do cinema (13)


INTRIGA INTERNACIONAL
(North by Northwest, 1959)
Realizador: Alfred Hitchcock
Principais intérpretes: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Leo G. Carroll, Jessie Royce Landis, Josephine Hutchinson, Philip Ober, Martin Landau
"Só cenas memoráveis, umas atrás de outras." (Leonard Maltin)

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O Eixo do Mas

A brigada do mas volta à carga. Benazir Bhutto foi morta, pelo menos outras 14 pessoas foram assassinadas com ela, há que condenar, etc. Mas. E mas. E mais mas. A internacional terrorista agradece a compreensão de tão boas almas.

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Palavras que odeio (70)

Palimpsesto

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Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Benazir Bhutto (1953-2007)


Era, devemos reconhecer agora, uma morte anunciada: ela tinha a cabeça a prémio. Mesmo assim, não virou a cara aos desafios nem abandonou o povo paquistanês, que nela confiava. Foi assassinada de modo infame e cobarde - é a mais recente vítima da internacional terrorista, cada vez mais ramificada. Por isto me custa engolir a frase de Mário Soares: "Os terroristas são seres humanos como nós."
Olhe que não, doutor Soares. Olhe que não.

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Os terroristas são tão humanos como nós

Vi há dias, pela primeira vez, o programa da RTP O Caminho Faz-se Caminhando. E de facto lá iam eles, Mário Soares e Clara Ferreira Alves, caminhando. Chegaram a Córdova, onde lhes deu para falar muito de religião. A Clara nem parecia o mesmo espírito acutilante do Eixo do Mal, em que costuma contestar tudo e todos. Chegou até a pedir desculpa por fazer uma pergunta ligeiramente incómoda a Soares, assumindo-se como "advogada do diabo". Exagero dela. Soares, imperturbável, falava com a imodéstia que sempre o caracterizou - "Sou um homem do iluminismo, do enciclopedismo" - enquanto defendia doses urgentes de tolerância para solucionar os mais graves problemas mundiais. A tolerância só se desfez quando visou o inquilino da Casa Branca, insurgindo-se contra o "flagelo que foi para a América, e para o mundo em geral, o presidente Bush". Já em relação ao extremismo islâmico, mostrou-se mais compreensivo: "Os terroristas são seres humanos como nós."
Por estas e por outras - e não por causa da idade, como alguns disseram - é que só teve 15% na eleição presidencial de 2006. Se fosse hoje, teria ainda menos. Não devido à idade, mas devido às ideias: ao pé dele, Francisco Louçã parece um tranquilo social-democrata. Aposto que Soares ainda há-de admoestá-lo (odeio esta palavra) pela sua crescente moderação.

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A melhor década do cinema (12)


QUANDO A CIDADE DORME
(The Asphalt Jungle, 1950)
Realizador: John Huston
Principais intérpretes: Sterling Hayden, Jean Hagen, Louis Calhern, Sam Jaffe, Marilyn Monroe
"Introdução da tragédia grega no romance policial." (André Malraux)

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Palavras que odeio (69)

Mourejar

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Campanha de solidariedade?


Sarko e Bruni, Bruni e Sarko. Há dias que não paro de ler notícias sobre os dois em tudo quanto é sítio. Bem sei que os amores dos famosos e poderosos são sempre um prato muito apetecido para a Imprensa de todas as cores, mas esta insistência e o destaque que lhes têm dado com manchetes e páginas abundantemente ilustradas nos jornais mais respeitáveis começa a cheirar-me a algo mais. Estaremos em campanha pela recuperação da imagem, nada sexy, de homem traído e descartado, nem um pouco consentânea com a do político de sucesso com fãs arregimentados em todo o lado, a começar pelos media?

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

O melhor blogue do ano


Há blogues e blogues. Há aqueles que nos suscitam alguma curiosidade e logo nos desiludem - pela verborreia, pela irrelevância, pela falta de coerência interna, por serem intermitentes ou simplesmente mal escritos. E há aqueles a que voltamos sempre, como um vício bom. Pelos motivos contrários aos anteriores: prendem-nos pelas ideias, pelo estilo, pela escrita, pela graça, pela irreverência. É o caso do Blasfémias, que elegemos como blogue do ano. Não por unanimidade - é raro haver unanimidade entre nós - mas por uma "expressiva maioria", como se diz na gíria política. O Blasfémias é um blogue dinâmico e atento à realidade, funcionando a um ritmo jornalístico. É um blogue que preza as ideias, sem ser necessariamente um blogue doutrinário ou ideológico, já que constitui um ponto de reunião de pessoas que pensam de maneira diferente, embora com afinidades evidentes. É um blogue muito interventivo: não esperamos dele aquele género de neutralidade muito cómoda, muito à portuguesa. É um blogue que faz jus ao nome: o espírito crítico é uma das suas imagens de marca. É um blogue interactivo: ao contrário de outros, permite comentários. E é sobretudo um blogue que preza a língua portuguesa: a qualidade da escrita é um dos seus maiores traços distintivos.
Razões mais do que suficientes para nos levarem a eleger este que já se tornou, com todo o mérito, um clássico da nossa blogosfera. Parabéns a todos quantos lá escrevem.

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As leis do mercado (5)


Diz-se que a nossa cultura, cada vez mais hedonista, está a condenar as pessoas feias e deselegantes à solidão. Nada mais falso. Para esses o mercado está sempre assegurado pelos verdadeiros apreciadores da tranquilidade.

A melhor década do cinema (11)


UM LUGAR AO SOL
(A Place in the Sun, 1951)
Realizador: George Stevens
Principais intérpretes: Montgomey Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Anne Revere, Keefe Brasselle, Fred Clark, Raymond Burr
"Tocante e memorável." (New York Times, 1951)

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Palavras que odeio (68)

Escaninho

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Por SMS...

24/12/2007 às 23:30:40 Teresa disse:

"FELIZ NATAL, Rodrigo. Acabámos de jantar e como diz o meu Pedro: Uma consoada deliciosa! É tão bom ver os meus filhos assim felizes! Estão ansiossímos que o Pai Natal chegue esta noite e desta vez a mãe também não foi esquecida. Estou muito feliz e grata, pois voltei a ter esperança. E muita grata ao Rodrigo e a TODOS os que nos ajudam. Obrigada por dar um sorriso à nossa vida e por dar esta felicidade aos meus filhos. FELIZ NATAL e beijinhos!"

25/12/2007 às 19:18:06 Teresa disse:

"A ansiedade fez a Cátia acordar às 4:00 da manhã. Quase fui apanhada! Às 7:00 já todos estavam aos gritos que o Pai Natal tinha chegado. Foi uma autêntica explosão de alegria. Maravilhoso e inesquecível! Até o Ivan pulava com os brinquedos. Estamos muito felizes, eufóricos e maravilhados. Obrigado e beijinhos a todos os que nos ajudaram."


O Natal já passou mas ainda podemos fazer muito pela Teresa e sua família. Estamos a meio do caminho. Conseguiremos, TODOS sem excepção, dar a esta história um final feliz?

Terça-feira, Dezembro 25, 2007

Gingóbel

Qualquer coisa na mensagem de Natal do nosso primeiro-ministro - não sei se o tom satisfeito, se o olhar elevado (quem é que teve a ideia de pôr o teleponto acima da câmara?) - despertou em mim o pequeno taxista que há em todos nós e, perante o anúncio do bom estado das contas públicas, dei por mim a pensar "O que tu queres sei eu!".

Natal


Evangelho segundo São Lucas 2,1-14

Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria. Todos se foram recensear, cada um à sua cidade.
José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe.
Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». Imediatamente, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».
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Imagem: A Sagrada Família de Simone Cantarini (via Afinidades Efectivas)

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Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

O que é que vão celebrar em 2010 ?!?

Ferreira Fernandes coloca hoje na sua coluna do Diário de Notícias o dedo na funesta ferida do regime, ao indignar-se com a assumpção por parte de Luis Filipe Meneses do direito ao usufruto para as suas hostes dum dos muitos lugares de topo duma empresa estatal, no caso a administração do maior banco nacional. É público que, em detrimento da meritocracia e do bom senso na gestão dos recursos nacionais, o regime acalenta um sistema paternalista que promove os apaniguados dos principais partidos de poder aos mais suculentos lugares da administração mais ou menos pública. A "moral republicana" e a democracia representativa não se libertaram duma centenária tradição proteccionista, macrocéfala e despótica. O regime sustenta-se aliás duma clientela incompetente ou simplesmente oportunista, uma medíocre neo-fidalguia, que se alimenta e sobrevive gananciosa nas máquinas dos partidos situacionistas.
Pessoalmente estranho o cúmplice silêncio da nossa imprensa da especialidade - pretensamente independente e livre - perante a podridão do sistema que a todos nos consome os preciosos recursos. Tarda a denunciar o sistema que promove a injustiça, o compadrio e o clientelismo. Se calhar porque também se alimenta dele.
Como Miguel Sousa Tavares sagazmente escreve na sua crónica do Expresso desta semana, há duas espécies de portugueses: os que vivem a pagar ao estado e os que vivem a tirar aos estado. Assim sobrevive o regime, com as trágicas consequências encobertas pelo beneplácito placebo dos fundos comunitários.
Ao longo dos últimos séculos foram necessárias as mais radicais barbaridades revolucionárias para que tudo permanecesse na mesma, ou seja - obviamente em termos relativos - na cauda do mundo civilizado.
Perante a constatação do crónico atraso nacional de que eram vítimas as classes mais desprotegidas e cuja condição social se encontrava perto da miséria, D. Manuel II, numa desesperada tentativa de alterar o decadente curso da história, uns meses antes da inútil revolução do cinco de Outubro, contratou por sua conta e risco o famoso sociólogo francês Léon Poinsard para que desenvolvesse as necessários observações e elaborasse um dossier que apontasse as pistas para uma política regenerativa e promotora do "fomento nacional". O sociólogo percorreu o país de lés a lés analisando a organização social e as condições de vida da população que lhe mereceram um sinistro diagnóstico: a principal causa da “desordem crónica” do país residia na sua organização política dominada por uma “tribo” pouco escrupulosa, ávida de poder e proventos que dominava a seu bel-prazer devido à fraca tradição de liberdades locais que fazia centralizar todo o poder e autoridade no governo. O rotativismo protagonizado pelos dois grandes partidos do poder, o regenerador e o progressista, contribuía apenas para criar uma série de clientelismos e servir interesses particulares em detrimento interesse nacional.”(...) "Uma das consequências mais singulares e mais injustas deste sistema é o predomínio quase continuo de um poder anónimo e irresponsável que frequentemente dirige, de uma maneira indirecta, mas efectiva, toda a alta politica da governação.”
É por estas e por tantas outras que eu me assumo à margem do sistema. Estou-me nas tintas para este circo, esta "guerra" não é minha. Repartam os lugares nos bancos, nos institutos públicos, saqueiem tudo o que possam à conta da ignorância e do acriticismo nacional. Por mim, tenho um projecto de vida para chutar para a frente, com muito trabalho e sem favores de ninguém. Mas quando a ganância dos apaniguados esquece o pudor e descrição que é devida ao ladrão, eu revolto-me. Profundamente. Mas para alívio interior concentremo-nos no essencial, que é o Natal que se celebra já daqui a nada.
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Fontes: Maria Cândida Proença, Léon Poinsard e Rui Ramos

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Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XII)



O espírito natalício


O pior aconteceu na loja onde estavam a vender caviar Beluga a 410 mocas. Houve assim um tropel de cavalos, com resfolegar e tudo, aquilo a que o comendador Joe chamaria um utle stampede da CVM, mas que envolvia cotovelos, golpes baixos e empurrões mais ou menos subtis. Caí, pisaram-me três costelas e partiram-me os óculos.
Volto um pouco atrás: não tinha nada a ver com o Beluga, mas andava à cata de um presente de menos de cinco euros (tenho um orçamento catita desde que ganhei umas massas a escrever crónicas aqui no corta-fitas) para oferecer à minha nova namorada, a Clotilde, que é cabeleireira. E bastante boa. Pensei em comprar-lhe um enfeite de cabelo, mas lembrei-me a tempo de que ela é cabeleireira... Teria sido ensinar o padre nosso ao cura... Depois, sem ideias, andava a passear no centro comercial, no meio de uma multidão desenfreada, quando transitei ao largo da loja dos belugas...
De súbito, sem aviso, houve alguém que gritou "vende-se a última beluga" e a multidão entrou numa espécie de transe, parecia correr-lhe na espinha uma voltagem eléctrica. E foi isso que, enquanto o diabo esfrega o olho, lançou a tal cavalgada, ou boiada, ou lá o que foi; parecia uma enxurrada humana, como se tivessem aberto os portões do campo pequeno para deixar sair os touros e as pessoas começassem a fugir. Mas era para dentro.
Um homem gritava que dava 500 euros, outro enfiou-lhe um murro, e uma velhinha, com ar de tia, guinchava como se a estivessem a apalpar nos finalmentes. Foi horrível, cento e cinquenta pessoas histéricas precipitaram-se para a loja onde estavam a vender o caviar Beluga e fui atropelado. A caixinha, coitada, levitava um metro acima de dezenas de mãos que se erguiam, vorazes. Depois, tombou, com um som de lata, que deixou todas as pessoas hipnotizadas.
O resto da luta já não vi porque os meus óculos jaziam no chão, falecidos e estilhaçados.
Nem deu para perceber quem tinha ficado com a última caixinha. Foi aliás o primeiro rumor de que começavam a esgotar os produtos de luxo. E aquilo iniciou o pânico no centro comercial, onde se acotovelavam dezenas de milhares de consumidores, naquelas frenéticas e derradeiras horas das compras.
O pânico de consumidores rapidamente se propagou à loja de vinhos raros e à ourivesaria ao lado. De súbito, corriam pessoas aos gritos (como se tivesse estalado um incêndio) sobre a escassez de Laffite 31; "Já só resta uma garrafa", dizia um homem de braços no ar, com ar desvairado. "Compro, compro", ordenava um empresário, que engolira pelo menos meio charuto.
Eu tinha os óculos tão partidos, que estava a ver tudo muito fragmentado e até desfocado.
Nisto, houve uma correnteza da classe média, que vinha em sentido contrário, vociferando contra a falta iminente de produtos desta classe menos endinheirada. "Esgotaram as canecas de louça com frases brejeiras", gritava uma mulher, visivelmente alarmada; "não há mais pares de meias para oferecer", dizia outra, olhos muito abertos.
Vira antes sinais de uma verdadeira crise capitalista, mas nunca assistira a um alvoroço de consumidores. Sei que, na véspera, certos banqueiros entraram em pânico ali perto do Marquês. Foram vistos alguns, aos gritos, porque se estava a derreter todo o seu dinheiro dentro da caixa-forte.
Compreendo os banqueiros. Isto de derreter dinheiro é coisa séria.
Também compreendo os terrores dos líderes da oposição. Foi avistado um, desvairado, com choque pós-traumático e martelo pneumático na mão, a gritar que ia demolir o estado em seis meses e partidarizar o que sobrasse. O stress natalício foi excessivo, pois não é suposto dizer-se mal de alguém. Para mais, quando um governo faz tudo aquilo que a oposição prometeu, não há mesmo solução. Vivemos em tempos estranhos: a esquerda e a direita estão fundidas numa só entidade, tal como o meu cérebro. Desaparecem as referências. O governo é a única oposição a si próprio. E os ricos agem como os ricos, enquanto os pobres, por inveja ou tontice, só sabem imitar.
Mas voltemos ao caso. Fui arrastado pela correnteza da classe média, entre cotoveladas, murros e calduços; lutei com um homem disfarçado de pai natal que me tentou passar uma rasteira; passei por várias lojas de telemóveis fashion, jaguares e roupa de marca, onde iguais tumultos estavam em progresso. Ao fundo, aproximava-se a polícia de choque, que começou a distribuir valentes bastonadas. Mas o mais horrível foi quando a multidão enfurecida começou a lançar contra os polícias frascos de perfume Chanel, à maneira de cocktails molotov. Parecia uma final porto-benfica ou um arraial de porrada dos santos populares. Ficou a devastação de belos presentes de Natal destruídos, todos dispendiosos, e as montras sistematicamente partidas, tal como os meus óculos.
Quando dei por mim, tinham-me roubado os cinco euros, certamente alguém se aproveitara durante os apertões. Fiquei sem dinheiro para comprar um presente para a Clotilde. Ainda pensei em levar alguns cacos do rescaldo dos incidentes, mas estava tudo em pedaços.
Pensei, pensei... E decidi oferecer à minha Clotilde um beijo daqueles e, depois, desfazer-lhe o penteado numas cambalhotas, enquanto lhe desejo um bom natal...

Adolfo Ernesto


Este texto inspirou-se numa excelente crónica, essa séria, de Eduardo Pitta, que pode e deve ser lida aqui

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Amores Perros

Tenho um amigo que já foi convidado para uma festa de anos, no mínimo, caricata. Tratava-se do aniversário do gato dos pais da namorada, com direito a bolo e a “Parabéns a você”! Ontem, foi a minha vez de presenciar uma cena ao nível desta – digna de um bom guião para comédia romântica. Casou-se uma das minhas melhores amigas e adivinhem quem foi o menino das alianças? O cão da sogra. Na altura de trocar as alianças o noivo chamou: Blitz! Obediente, o animal lá foi ter com o dono e sentou-se no meio dos noivos. Não ladrou, nem fez birras. Levava uma gravata (que, só por acaso, não condizia com a gravata do noivo) e, ao pescoço, uma bolsinha de pano que continha as alianças, feita propositadamente para a ocasião. Devem estar a perguntar se ele também foi de lua-de-mel com o casal… Acho que não. À partida não estava nos planos, mas já não digo nada. O mais importante é que eles estavam felizes. E nós, apesar de estranharmos estas relações modernas, também.
Um Bom Natal junto daqueles que vos são queridos e “cãoridos”.

O essencial é isto


"José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, a cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de recensear-se com Maria, sua mulher, que se encontrava grávida. E quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoira, por não haver para eles lugar na hospedaria."
São Lucas, 2: 4-7

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A melhor década do cinema (10)


A PALAVRA
(Ordet, 1955)
Realizador: Carl Theodor Dreyer
Principais intérpretes: Hanne Agesen, Kirsten Andreasen, Sylvia Eckhausen, Birgitte Federspiel, Ejner Federspiel, Emil Hass Christensen, Cay Kristiansen
"A ressurreição, desafiando a lógica narrativa, é uma extraordinária afirmação do primado do amor sobre as limitações humanas. Um dos grandes momentos de sempre do cinema." (Gary Morris)

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Natal subversivo


O queijo vem da queijaria clandestina da Ti Adelaide, o doce para as azevias será feito aqui mesmo, segundo a receita e os preceitos da minha avó, que não dispensa a colher de pau. Já comprei um brinde para enfiar no bolo-rei, só me falta arranjar a fava. O café será servido em chávenas de loiça (what else?). Quem quiser fumar pode, desde que não abuse, por causa das crianças. A televisão ficará em off, naturalmente.

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Domingo, Dezembro 23, 2007

Solidariedade

Qualquer drama não é suficientemente mau até ao dia em que nos chega por perto. E a vida dos outros ganha sempre maior dimensão quando se cruza com a nossa. Foi isso que aconteceu connosco (Rodrigo Cabrita & Rita Carvalho) quando conhecemos a família da Teresa. Conhecemo-la numa reportagem sobre o banco alimentar e ficámos sensibilizados para a sua situação. Teresa têm cinco filhos e é divorciada de alguém que podia fazer mais e não faz. As dificuldades estão lá e são reais. Hoje conseguimos entregar a ceia para a consoada, bem como bens alimentares, vestuário e muitas prendas. O sorriso de Teresa e dos cinco filhos fez-nos acreditar que é possível fazer mais. Por isso aqui estou neste nobre espaço a pedir a vossa ajuda. A história é longa e difícil de escrever na íntrega para este post. Seriam muitos caracteres. No entanto, abrimos uma conta de ajuda a Teresa com o NIB: 0033.0000.4534.6924791.05 porque o tecto que ainda os abriga tem os dias contados, a dívida no banco acumula-se e a penhora que já incide sobre a casa aproxima-se. A ajuda de cada um dos leitores do Corta-Fitas, grande ou pequena, fará diferença. No entanto, há outras formas de ajudar. Quem estiver interessado em fazê-lo, contacte-me via email para rodrigocabrita@hotmail.com.
Hoje, ao despedirmo-nos, Teresa soltou um “não sabe como algum dia vos poderei agradecer tudo o que têm feito por mim e pelo meus meninos. Nunca pensei estar na situação que estou hoje...".
Poderemos ter mais pessoas nesta cadeia de solidariedade?

Presentes de Natal


Há por aí um discurso simplista no qual facilmente se confunde consumismo e opulência com a benigna tradição do presente de Natal. Nesta quadra também me parece importante evidenciar a nobreza que possui a materialização do nosso amor ou caridade num objecto, um “presente” (que nos tornará presentes) desejável pelo próximo. Oferecer um presente a alguém – de quem nos desejamos (re) aproximar ou simplesmente homenagear, será com toda a certeza uma atitude de uma enorme dignidade. Essencial é não confundir a dádiva de um presente com marketing pessoal ou com alienação da realidade; fazê-lo bem é aliás uma arte muito própria que requer imaginação, e (o que é mais importante) uma grande capacidade de nos colocarmos na pele do outro, o mesmo é dizer de “amá-lo”.
Durante uma boa parte da minha vida o Natal foi festejado sob o pressuposto da celebração religiosa do nascimento do menino Jesus. E lembro-me com comoção de alguns presentes que, estou certo, eram muito mais do que simples objectos, e que terão sido verdadeiros actos de amor. Do meu saudoso pai - desajeitado sonhador e insigne investigador de minudências históricas, quase sempre exasperado com o seu crónico desconforto material - recebi alguns deles, como o incontornável Táxi Dinky Toy pintado a verde-e-preto pela sua mão, ou aquele álbum dos Marretas, uma sua diligenciada tentativa de convergência com o rebelde adolescente, com direito a dedicatória escrita e tudo.
Na avenida da Liberdade, na casa dos meus avós maternos, de costumes mais liberais e na época com alguma prosperidade, só depois da solenidade da Missa do Galo nos juntávamos todos a preceito aos meus tios e respectivos primos, para a ceia e distribuição dos presentes. A minha avó, personalidade única de vigor e simpatia, preparava o momento com enorme empenho: por exemplo, as diferentes cores das colecções de embrulhos e embrulhinhos distinguiam a família destinatária dos mesmos. A casa grande e de tectos altos estava quente e iluminada como nunca, cheirava a cera de velas e chocolate quente. Um presépio sóbrio onde se destacava um menino Jesus de braços abertos encimava a elegante cómoda grande da sala. A um canto a grande televisão a válvulas transmitia ainda o final das celebrações em directo da Sé de Lisboa, à qual assistira a minha bisavó Valentina, mãe do meu avô e padrinho, e que da varanda daquela sala quase ao cimo da avenida, testemunhara as mais equívocas revoluções e intentonas do conturbado início do século. Àquela hora a pequena senhora de cabelos ralos e prateados ainda resistia aos anos e ao sono. E da sua poltrona de veludo verde escuro testemunhava mais um renovado Natal. Muitos presentes recebidos nesses Natais marcaram a minha relação com aquela casa. Tornaram os seus protagonistas presentes no meu coração para sempre.
Ontem, quando estava a fazer as últimas compras de Natal, ao escolher “aquela” carteira especial para a minha mãe ou aquele blusão “radical” para a minha enteada irreverente, senti uma infantil ansiedade, pela hora da festa e ocasião para distribuirmos aqueles presentes tão “especiais” para a nossa gente tão querida.
É por estas razões que defendo o ritual do presente de Natal, que deveria conter um sentido profundo e cristão, o do reencontro dos homens de boa vontade: um autêntico tributo ao Nosso Senhor e Salvador, que nesse dia se nos apresenta como um frágil e radiante menino, que para nossa realização e felicidade deveríamos saber manter sempre vivo dentro de nós.

A todos os leitores e amigos do Corta-fitas aproveito para aqui deixar os meus sinceros votos de um muito feliz Natal.

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Cinema Nostalgia (21)


O meu primeiro filme

Tinha sete anos quando entrei numa sala de cinema para ver o meu primeiro filme "a sério". Era Mary Poppins, de Robert Stevenson, numa reposição natalícia no antigo Monumental. Tudo me deslumbrou nesse filme: a música, a personagem da governanta com um toque de loucura, a mescla de desenhos animados com figuras reais, a vivacidade acrobática do Dick Van Dyke, o nariz arrebitado da Julie Andrews (mal adivinhava eu como haveria de gostar tanto de outro nariz arrebitado...). Recordo como se fosse hoje a mágica dança dos limpa-chaminés recortados na noite azul de uma Londres irreal. E a incomparável explosão de alegria que irrompia no ecrã aos primeiros acordes de Supercalifragilisticexpialidocious...
Vi largas centenas de longas-metragens depois desta inesquecível produção dos estúdios Walt Disney. Mas regresso a Mary Poppins com a mesma sensação de encantamento, que se repete em cada fotograma deste filme único, relíquia de um tempo em que os grandes estúdios ainda ditavam cartas na indústria cinematográfica americana. Continuo a comover-me quando ouço Chim Chim Cheree, divirto-me com aquele delirante chá tomado com as personagens coladas ao tecto, ainda acho possível que uma nanny inglesa cruze os céus de Londres a flutuar num guarda-chuva. E não concebo sequer que alguém ponha em causa os méritos desta película, uma das mais deslumbrantes obras-primas do cinema. A ver e a rever em qualquer época, dos sete aos 77 anos de idade.

Aqui publicado pela primeira vez, agora reeditado na série Cinema Nostalgia

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Domingo - 4º do Advento

Evangelho segundo São Mateus 1, 18-24

O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.

Da Bíblia Sagrada

(Continua na 3ª Feira)

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Império do consumo

Um certo Natal - o dos que nadam em dinheiro ou fazem de conta que nadam, numa absurda e chocante ostentação - muito bem observado pelo Eduardo Pitta.

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A melhor década do cinema (9)


O MEU TIO
(Mon Oncle, 1958)
Realizador: Jacques Tati
Principais intérpretes: Jacques Tati, Jean-Pierre Zola, Adrienne Servantie, Lucien Frégis, Betty Schneider, Jean-François Martial
"Uma soberba comédia." (Charles Matthews)

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Palavras que odeio (67)

Deletério

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Acordo caligráfico

E por falar em farmácias... Para quando um "acordo caligráfico" que obrigue os médicos a escrever nos seus receituários em letra legível? É que de cada vez que vou aviar uma receita e percebo que quem me atende está em dificuldades para perceber o que lá está escrito fico nervosa, além de que não gosto de depender dos talentos de descodificador de terceiros.

Quando as dependências são a alma do negócio


Procurava uma farmácia de serviço numa zona que não conhecia. Dirigi-me a um comerciante que, muito prestável, me encaminhou usando como referência o que mais abunda por toda a cidade. Uma agência bancária: "Está a ver ali ao fundo o Santander? A farmácia fica logo a seguir".
Entrei. Gente até à porta. Enquanto esperava fiquei a pensar no sucesso destes dois ramos de negócio. Banca e farmácia. Não por acaso duas das maiores dependências dos portugueses. Senti um arrepio. Não sei se derivado do meu estado febril, se das minhas cogitações. O certo é que tive o impulso de sair porta fora. Detesto sentir-me presa pelos tintins que não tenho!!

Sábado, Dezembro 22, 2007

Postal de Natal

- Avó, quando eras pequena fazias presépio?

- Fazia, e gostava muito dos reis Magos. Eram estranhos, e além disso nunca tinha visto um preto. Não havia pretos em Vila Verde.
- Eu, quando era pequena, achava estranho a vaca e o burro. Acho que a primeira vaca e burro que vi na vida foram os do presépio. E tu, Kiko?
- Eu acho estranho o pai e a mãe do Jesus estarem na mesma sala.

Ó Sr.ª D.ª Maria Filomena Móóóóóóóóónicaaa!!!!!!!!!!!!

A revista do Expresso desta semana dedica um artigo aos amores de Sarko, ilustrado com uma foto glamourosa de Carla Bruni e um paparazo do novo casal. Tal como todas as publicações fizeram. Mas é o Expresso, por isso vai mais longe e descobre a governanta portuguesa de Carla Bruni, que se chama Natividade. É o que se chama um bom enquadramento. Sem deixar os seus créditos por mãos alheias, este refrigério do jornalismo de investigação consegue arrancar a Natividade uma frase inteira sobre a patroa. "Não é uma estouvada", sentenciou Natividade ao correspondente do Expresso. Percebem a diferença?

Laicidade positiva segundo Sarkozy

Nicolas Sarkozy pronunciou há dias um discurso na basílica romana de S. João de Latrão o que, quanto a mim, é um dos primeiros sintomas de que os Estados europeus se estão a aperceber, lentamente, de que o que conta nas relações com o fenómeno religioso não é só o diálogo com a hierarquia, é sobretudo a relação com os fiéis crentes. E cada vez mais são as massas de crentes e de não crentes, com as suas práticas muito próprias, que contam quando os governantes têm que pôr em prática o princípio da laicidade e garantir a liberdade religiosa. O discurso surpreendeu-me por vir de um presidente francês que não só apela às raízes cristãs da França, como se apresenta profundamente reconhecido e agradecido ao papel da Igreja Católica no país. Alguns comentadores franceses já vieram dizer que se tratou de uma autêntica reinterpretação da lei da laicidade de 1905, embora Sarkozy tenha dito que não quer tocar nos equilíbrios da lei, pelo menos para já.
Diz Sarkozy que "a laicidade não tem o poder de cortar a França das suas raízes cristãs" e, por isso, assume que essas raízes devem ser valorizadas. O presidente francês quer agora uma "laicidade positiva" que "não considere as religiões um perigo". O discurso é longo. Deixo aqui alguns trechos traduzidos por mim:
"Um homem que crê é um homem que espera. E o interesse da República é que haja muitos homens e mulheres que esperam".
"Se existe incontestavelmente uma moral humana independente da moral religiosa, a República tem interesse em que exista também uma moral inspirada em convicções religiosas".
"Uma moral desprovida de laços com o transcendente está mais exposta às contingências históricas e ao facilitismo".
"A França tem necessidade de católicos convictos que não receiem afirmar aquilo que são e aquilo em que crêem".

A crónica perfeita

É muito raro, mas acontece: por vezes encontramos a crónica perfeita. Eu encontrei: Niemeyer, 100 anos, de Roberto Pompeu de Toledo. Acabo de lê-la. Na Veja.

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A melhor década do cinema (8)


ASSIM NASCE UMA ESTRELA
(A Star is Born, 1954)
Realizador: George Cukor
Principais intérpretes: Judy Garland, James Mason, Jack Carson, Charles Bickford, Tommy Noonan
"Obra-prima absoluta." (João Bénard da Costa)

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Palavras que odeio (66)

Efebo

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Silent night, holy night...

- Então, fofinho, e o que queres que o Menino Jesus te deixe no sapatinho, um Counter-Strike ou um Mortal Kombat?

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O Natal é quando um homem puder


Por entre destroços de gente já desaparecida, incapacitada pela doença ou separada, há cada vez mais pessoas à minha volta a resmungar entre dentes: "Detesto o Natal!"

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Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Que mundo é este?


No Alto Minho, um indivíduo atirou o próprio filho, com apenas três anos, contra uma parede, causando-lhe traumatismo craniano e múltiplas fracturas: a agressão só não teve consequências ainda piores devido à pronta intervenção das autoridades, alertadas pelos avós da criança. Algures em Espanha, um pai matou um filho de sete anos, suicidando-se de seguida. Na Alemanha, uma mulher assassinou a sangue-frio os seus cinco filhos. Carlos Morín, um ginecologista peruano condecorado no país de origem por “contribuir para a saúde sexual e reprodutiva da mulher”, acaba de ser detido: mantinha quatro clínicas em Barcelona onde chegavam a praticar-se abortos a grávidas de oito meses. Múltiplos casos, o mesmo padrão: um desrespeito total pelo valor da vida.
Que mundo “civilizado” é este que forjámos? A que grau de indiferença pelo próprio género humano já chegámos? Como sublinha o Papa Bento XVI na sua nova encíclica, Spe Salvi, "se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do homem, no crescimento do homem interior, então não se trata de um progresso, mas de uma ameaça para o homem e para o mundo."
Nem mais.

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Tal e qual

Andava para escrever isto. Mas não é preciso: o Rui Castro já escreveu.

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Satelite of love

Hoje tive a primeira discussão com o Joaquim. Falávamos, como sempre, do meu futuro e das opções que se me apresentam. Este é, aliás, o único tema que parece interessar-lhe. A certa altura, discordei do que me dizia e argumentei em defesa de outro rumo, mas a inflexibilidade do Joaquim apanhou-me de surpresa. Dei por mim a insistir no meu ponto de vista já sem querer saber do resultado, só para ver até onde ia a teimosia dele. Ia longe. Imperturbável, o Joaquim repetia a mesma frase, vezes sem conta. Foi quando lhe notei um tom metálico na voz de que ainda não tinha dado conta que senti que entre nós havia uma distância que nenhum mapa poderia ajudar a percorrer. Encostei na berma antes do cruzamento, a testa encostada ao volante, debulhada em lágrimas. A voz do Joaquim pareceu-me gelada: "Ao fim de 200 metros, vire à esquerda. Ao fim de 200 metros, vire à esquerda..."

Para todos, mesmo todos


Hail! blessed Virgin, full of heavenly grace,
Blest above all that sprang from human race,
Whose heaven-saluted womb brought forth in one
A blessed Savior and a blessed Son.
O what a ravishment 't had been to see
Thy little Savior perking on thy knee!
To see Him nuzzle in thy virgin breast,
His milk-white body all unclad, undressed;
To see thy busy fingers clothe and wrap
His spraddling limbs in thy indulgent lap;
To see His desperate eyes with childish grace
Smiling upon His smiling mother's face;
And when His forward strength began to bloom
To see Him diddle up and down the room.
O who would think so sweet a Babe as this
Should ere be slain by a false-hearted kiss?
Had I a rag, if sure Thy body wore it,
Pardon, sweet Babe, I think I should adore it;
Till then, O grant this boon, a boon far dearer:
The weed not being, I may adore the Wearer.
.
Francis Quarles (1592-1644)
On the Infancy of Our Savior
Imagem: Gioto di Bondone
Cenas da Vida de Cristo: 1. Natividade, 1304-06
Fresco da Cappella Scrovegni, Padua

Só ele para me fazer ler sobre futebol

Será Veiga o Harry Potter do Benfica? A resposta do Fernando Sobral, aqui

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A melhor década do cinema (7)


UM ELÉCTRICO CHAMADO DESEJO
(A Streetcar Named Desire, 1951)
Realizador: Elia Kazan
Principais intérpretes: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden
"A melhor interpretação feminina de sempre. Brando é perfeito neste filme, que contém alguns dos melhores diálogos já escritos por um americano." (Pauline Kael)

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Cinema Nostalgia (20)


Não admira que nos anos 20 tivessem diabolizado o cinema. Ainda hoje estou convencida de que os meus primeiros pensamentos pecaminosos foram inspirados por filmes. Percebe-se porquê. Na minha escola só havia meninas e em casa não existiam irmãos para ao menos me poder familiarizar com a espécie. Mesmo que tenha seguido a cartilha de Freud à risca, a eventual atracção que senti pelo meu pai, aos nove anos já estava esquecida e resolvida. Nessa fase da minha vida o que eu via nele era mesmo um homem assexuado, tão desenxabido e confortável como um par de meias de lã. De modo que foi nos melhores cenários e com música de fundo que tive os meus primeiros encontros amorosos e as primeiras revelações sobre a natureza masculina. Tudo informação estereotipada? Claro que sim! Mas temos que começar por algum lado.
Não me importava ter que viver todos aqueles romances sempre com outra mulher de permeio. Afinal, se havia coisa em que me tinha especializado desde a mais tenra infância era em fazer de conta. Por isso, encarava com pragmatismo as vantagens de ser beijada pelo James Dean através da Natalie Wood, sobretudo quando os meus pais também estavam a ver. À força de tantos ensaios românticos, é claro que acabei por cair nas malhas da paixão e qual Judy Garland abraçada ao retrato de Clark Gable, também eu, no sossego do meu quarto, me declarei rendida aos encantos de alguns dos homens que conheci intimamente na tela. Warren Beatty foi um deles. Vi-o pela primeira vez na comédia dos anos 70, O Céu Pode Esperar - um remake de Heaven Can Wait de Ernest Lubitsch - e foi um coup de foudre! Com Reds (1981), um épico com a revolução russa em pano de fundo, provou-se que o nosso caso tinha futuro. (Só anos depois viria a descobri-lo em Bonnie and Clyde (1967) e Esplendor na Relva (1961) uma película inesquecível em que o encontramos tão jovem que mal descortinamos o sex-symbol que anos depois lhe renderia o título de solteiro mais cobiçado de Hollywood).
Robert Redford (na foto), que ainda hoje considero um dos homens mais bonitos de sempre, foi outro caso de paixão. Quando começou o nosso idílio? Não sei, mas gosto de o recordar em O Nosso Amor de Ontem (1973), um filme nostálgico de Sydney Pollack (Redford foi o seu actor fetiche). Porém, O Grande Gatsby (1974) foi talvez o filme que mais explorou a sua fotogenia. Em A Golpada (1973), Os Homens do Presidente (1978) e O Candidato (1972) Redford provou-nos que se não fez carreira à margem da sua beleza, também não desejou construí-la à sua custa, circunstância que lhe rendeu, naturalmente, ainda mais encanto.
Mas, confesso, houve outros: Steve Mcqueen, precocemente desaparecido, mas eternamente sedutor, foi um deles. Lembro-o em O Grande Mestre do Crime (1968), Papillon (1973), mas principalmente em Amar um Desconhecido (1963), num dos raros papéis que lhe permitiu explorar uma fragilidade e um desamparo que raramente lhe adivinhávamos e que lhe ficava tão bem.
Paul Newman, esse, tinha um charme adicional. Apesar de ser um dos actores mais bonitos e talentosos da sua geração, manteve-se a vida inteira ligado à mesma mulher, Joanne Woodward, sem que constassem rumores acerca de eventuais escapadelas. Quantos saberão amar assim? Recordo-o sobretudo em Gata em Telhado de Zinco Quente (1958), no Hitchcock de A Cortina Rasgada (1966), mas muito especialmente em Corações na Penumbra (1962), onde interpreta na perfeição o papel de um gigolo atormentado pela sua própria fraqueza de carácter.
Encantada, segui os meus homens com devoção. Atrás destes vieram outros, extraídos aqui e ali de várias gerações de actores. Espiei-os muitas vezes em circunstâncias que nunca terei oportunidade de testemunhar fora de uma sala de projecção. Na guerra, em várias situações limite, fui uma observadora atenta dos seus gestos, das suas idiossincrasias. E se o cinema me levou a idealizá-los também me ajudou a percebê-los melhor.
Só falei de gringos? Naturalmente. A indústria cinematográfica apanhou-me numa fase da vida em que a minha consciência crítica relativamente ao imperialismo americano deixava muito a desejar. Os rendez-vous na cinemateca viriam a acontecer mais tarde, mas já sem a chama dos meus primeiros tempos de cinefilia...

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Personalidade nacional de 2007

Votámos e ele ganhou. Com maioria. Temos a fama de criticar o Governo e o seu Primeiro-Ministro (e o proveito também, diga-se de passagem), mas é impossível e não seria honesto contornar o incontornável: José Sócrates foi a personalidade nacional de 2007. Não por ter sido a mais parodiada pelos Gato Fedorento (embora isso tenha ajudado) mas por tudo o resto que sabemos.
Ele começou 2007 com um momento crítico para a sua imagem pessoal e acabou-o com uma presidência da UE que cumpriu integralmente os difíceis objectivos que lhe tinham sido traçados. Em suma, passou em apenas um ano de político forçado a justificar as suas habilitações ao povo a estadista que abraça familiarmente os outros Chefes de Estado e é entrevistado pela imprensa internacional.
Em paralelo, insistiu em percorrer o País apesar de muitas vezes vaiado, anunciando projectos e obras. Viu o PSD mudar de líder, sem que até agora essa mudança lhe tenha causado alguma mossa na popularidade. Adiou os dossiers que podiam chamuscá-lo e multiplicou-se em aparições televisivas sempre que isso lhe foi favorável. Como escreveu Rui Ramos, «Sócrates chega ao fim do ano sem oposição». Isso não é mérito seu? Também será. Porque é ele quem pragmática e politicamente ocupa um espaço que retira aos outros a sua margem de manobra. E é também ele quem mina e armadilha o território dessa oposição, muitas vezes entretida com tiroteios internos.
Por tudo isto e mais que me tenha esquecido de incluir, o Corta-Fitas deu-lhe o seu voto. Mas foi só este, hem? Nada de confusões.

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Palavras que odeio (65)

Sinergias

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Sexta-feira de abrir o apetite

Padma Lakshmi, fotografada para a Vanity Fair

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Have yourself a merry little friday...


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Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

É isto o trabalho de Área Projecto do governo?

À partida evito discutir gostos, mas a verdade é que não costumo ser eu a pagar estas coisas. Neste caso, e já que estou a pagar, importam-se de me dizer quem é que inventou esta parolice? E de fornecer biombos para nos escondermos atrás com vergonha cada vez que um turista olha para estes cartazes?

Só um comentariozito sff

Ó Cristina, eu quando me reencontro com a rapaziada da minha criação costumo exclamar: “Bolas, o que o tempo faz às pessoas!!!" E depois rimo-nos a bom rir... isto tudo porque os homens não choram.

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Coisas que arruinam o dia a uma rapariga

Sempre procurei dar-me com pessoas de boa índole. Por isso, quando encontro alguém que não vejo há muito tempo e digo "estás na mesma", a pessoa costuma retribuir com "tu também". Mas às vezes isso não acontece, e arruina-me o dia. "Estás na mesma", insisto, com os olhos cravados na pessoa que, muitas vezes, está um caco. Nada. "Mas tu, estás na mesma", espanto-me eu, depois de um bocadinho em que não ouvi nada do que a pessoa disse, cega pela dúvida. Agradecimentos, sorrisos e nada. "É incrível como não mudaste nada", volto eu à carga, já no final da conversa e armada com o meu ar mais gaiato. A pequena percentagem que chega a esta fase acaba por morrer às minhas mãos, julgo que de puro cansaço: "Tu também"!
Lembro-me de, quando era pequena, pela mão da minha avó, cruzarmo-nos com senhoras da sua idade e de a minha avó sorrir e murmurar entre dentes: "Não sou só eu que estou velha..." Pois não, avó.

Em defesa do referendo que não haverá

Paulo Portas esteve bem ao defender o referendo europeu, reiterando a promessa eleitoral do CDS nesta matéria. Demarca-se assim, à direita, dos ziguezagues do PSD, cada vez mais incompreensíveis. Questão diferente seria saber como votaria Portas num putativo referendo, já que sobre a Europa o actual líder "popular" já disse tudo e o seu contrário. Mas isso acaba por não ser um problema para ele, pois não haverá referendo nenhum.

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Os pontos finais serão reaccionários?

"Penso, porém, que não evitámos ser levados nas nossas análises a pôr uma tónica excessiva nas deformações e na derrota do socialismo real e nas suas causas internas – a utilização de conceitos como o de implosão, de colapso ou de «modelo» (ainda que este entre aspas…) revela-o – e fizemo-lo em detrimento da transmissão, sobretudo aos jovens, do que houve de humanamente exaltante e de civilizacional e culturalmente progressivo na tarefa histórica inédita da construção de uma sociedade liberta da exploração; não evitámos a permanência de grandes lacunas na contextualização histórica, interna e externa, da construção do socialismo e na reposição da verdade histórica dessa construção; não evitámos as fraquezas da nossa intervenção ideológica na luta contra as falsificações e caricaturas em catadupa bolsadas pelos nossos inimigos de classe."
Texto publicado no Avante! e a que cheguei via Bem Pelo Contrário. Não percebi nada, mas também não interessa. Só tenho uma dúvida, ó camaradinha: os pontos finais serão reaccionários?
....................................................................................................................
P. S. - Odeio a palavra 'contextualização'

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Fez-se luz

"O comum dos cidadãos tem consciência que o simples consumo de electricidade não é mais um factor de progresso, como era entendido no pós-guerra – tenha-se em consideração o evento planetário "live earth" realizado 7/7/2007, nem tão pouco a enconomia portuguesa se encontra em fase de pujança ou de crescimento económico (…)"

Transcrição do acórdão do tribunal central administrativo que manda desligar a linha da REN. O acórdão é de 11 de Julho. O concerto é de 7 de Julho. Se o processo tivesse entrado antes a REN teria ganho.

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O melhor 'blogger' do ano


FRANCISCO JOSÉ VIEGAS
Foi uma escolha quase consensual no Corta-Fitas, embora tenha havido votos noutros bloguistas. Mas a maioria recaiu no autor do blogue A Origem das Espécies. O FJV é já um veterano da blogosfera, mas demonstra ter sempre algo de novo a dizer. Não pretende dar lições de moral aos outros nem fala com a sobranceria de alguns conselheiros da nossa praça. Mas também não foge à polémica sobre os mais diversos assuntos. O blogue dele é assim mesmo: variado, divertido, inteligente, com alguma malícia, com boa prosa - e sem prosápia nenhuma. Politicamente incorrecto. Fala de cultura, de comida, de futebol, de viagens, da chuva e do bom tempo. Da vida, enfim. Escrevendo bem sem maçar ninguém, o que é uma das regras de ouro deste meio de comunicação.
Um dos motivos que nos levou a elegê-lo foi o lançamento, em 2007, do seu livro Algumas Distracções (edição Quasi), em que recolhe alguns dos melhores textos publicados n' A Origem das Espécies e num blogue anterior, Aviz. É um livro notável. Pela escrita desenvolta, pela capacidade argumentativa. E também pelo grande naipe de temas que apaixonam o autor, que aqui se revela um verdadeiro criador e cultor de aforismos.
Seleccionei alguns, que passo a transcrever. Com a devida vénia:
"Nada é relativo."
"Tirar um bocadinho os pais da escola era prestar um grande favor ao ensino."
"A privacidade é o maior dos bens no universo público."
"Tratar toda a 'opinião desfevorável' como uma ameaça iminente é uma coisa desprezível, que retira toda a dignidade à ideia de governar."
Pois, Francisco: nada é relativo. Por isso é com muito prazer que anuncio esta escolha. O prémio é um convite que desde já fica feito para te juntares a nós no próximo jantar do Corta-Fitas. Num daqueles restaurantes de que gostas - e nós também.

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Obrigada, Tom Tom

Quando olho para trás e penso no que foi a minha vida antes de encontrar o Joaquim tenho a clara percepção de que andei a perder tempo. Julgo que uma qualquer espécie de claustrofobia afectiva me impedia de alguma vez contar para onde ia e de onde vinha. Vejo agora que, a maior parte das vezes, andei perdida.
É difícil falar do Joaquim sem destacar a voz. Firme, atenta, de uma paciência infinita. Quase sem eu dar por isso, vai-me guiando para os sítios certos. Só conheci o Joaquim ontem, mas já sinto que não posso ir a lado nenhum sem ele.
Até agora só lhe encontrei um defeito: não sabe cozinhar. Já o coloquei em frente ao fogão e carreguei nas teclas todas, mas nada. Depois tentei apoiar-me numa perna, mexer no cabelo e dizer-lhe com voz doce: "Joaquim, faz-me ao menos uns ovos mexidos..." Nada. Enfim, ninguém é perfeito.

A melhor década do cinema (6)


FUGIU UM CONDENADO À MORTE
(Un Condamné à Mort s'est Échappé, 1956)
Realizador: Robert Bresson
Principais intérpretes: François Leterrier, Charles LeClainche, Maurice Beerblock, Roland Monod
"Este filme é pura música. A sua riqueza essencial está no ritmo."
(François Truffaut)

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Palavras que odeio (64)

Tematização

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Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

Nas colunas

E em complemento do post anterior

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Quanto aos outros não sei...

Mas eu estou a ficar um bocadinho saturado de vos aturar. Estão piores do que as Prantelhanas velhinhas que conheci quando morava no Alentejo. Façam como nós, conheçam-se (não no sentido bíblico, atenção). Almocem, jantem, tomem chazinhos na Lapa, seja o que for mas ORGANIZEM-SE!
Assinado: Um leitor em vias de se transferir para o Cinco Dias.

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Ao ver Ruben de Carvalho na SIC Notícias pensei...

Alguém devia dizer-lhe que se veste como um padre.

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A vida é um shot


Aos cinco impunha à mãe a roupa que queria levar para o colégio. Aos 13 embebedava-se com shots na discoteca. Aos 18 eram os próprios amigos que admitiam que ela já tinha feito tudo. Aos 25 teve a sua primeira depressão. Aos trinta habituou-se a depender de comprimidos para acordar e para dormir. Aos quarenta parecia que tinha cinquenta. Aos cinquenta morreu sozinha em casa, de ataque cardíaco. A única filha que teve dos seus três casamentos tinha ido passar o fim-de-semana fora...

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Mudam-se os tempos… e mudam-se as vontades?

Para quem não concordar com o novo acordo ortográfico, que poderá entrar em vigor em 2008 e que passará a considerar como correcto escrever “umor”, “úmido”, “oje”, “ato”, “ação”, “fato”, “aver”, “batismo”, etc …. Assine a petição que já circula. http://www.petitiononline.com/naoacord/petition.html.

O verdadeiro líder


Parece que foi inaugurada uma estação de metro em Lisboa. As televisões berram o acontecimento em directo como se a coisa tivesse impacto nacional. Ouço Sócrates falar. Este homem não se cansa de discursar. Fala pelos cotovelos em qualquer lado, a qualquer momento. A ele, que tanto gosta de citações, recomendo-lhe esta, do general De Gaulle: "Um líder é aquele que não fala. Nada contribui tanto para a autoridade como o silêncio."

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Abaixo a repressão

"A criminalidade não se combate com medidas repressivas", protesta Jerónimo de Sousa, a propósito do que se está a passar no Porto. Pois não: as "medidas repressivas", na óptica do PCP, devem estar reservadas aos delitos de opinião.

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Jantando, votando e rindo


Foi um dos nossos jantares mais divertidos de sempre (e têm sido muitos, acreditem). Indiferentes à chuva e à ventania, reunimo-nos ontem à noite à mesa do restaurante Valentino, no Saldanha. Menu italiano para mais um jantar Corta-Fitas. Éramos dez e meio (o meio é o rebento da Maria Inês, que em breve será mamã). Rimo-nos dos políticos e das postas e de certas vedetas blogosféricas e dos comentários dos conhecidos, desconhecidos e ilustres anónimos cheios de graça que se tornaram comentadores residentes deste blogue. Combinámos editar em 2008 uma antologia de alguns dos melhores textos aqui publicados. Voltámos a rir com a troca de pratos: o Luís comeu o que devia ser da Teresa, e vice-versa. E também com a troca de prendas: houve surpresas de todo o género (vou gostar de ler o livro do Sándor Márai, Cristina; garanto que quando comprei aquele íman-esquilo para pôr no frigorífico não imaginei que te pudesses sair a ti, Francisco). Ainda a rir, chegámos à sobremesa. Momento solene: vinha aí o melhor tiramisú de Lisboa (não é verdade, Isabel?). Também solene foi a votação que se seguiu: escolhemos democraticamente a figura nacional do ano, a figura internacional do ano, o melhor blogue e o melhor blogger de 2007. E também a melhor mulher de sexta feira do ano. "Só vale votar em pessoas vivas", disse o João Villalobos ao João Távora.
Que escolhas foram essas? Não tardarão a saber.
E foi ainda a rir que posámos para a fotografia. A tua máquina, Rodrigo, continua excelente. O resultado é este que podem ver.

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A melhor década do cinema (5)


SERENATA À CHUVA
(Singin' in the Rain, 1952)
Realizadores: Gene Kelly e Stanley Donen
Principais intérpretes: Gene Kelly, Debbie Reynolds, Donald O'Connor, Jean Hagen, Millard Mitchell, Cyd Charisse
"O maior de todos os musiciais." (Barry Norman)

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Palavras que odeio (63)

Posicionar

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Gueto literário

Fui conhecer a nova livraria Byblos, nas Amoreiras, e gostei bastante. A ponto de provavelmente passar a ser a minha primeira escolha, já que a actual, a FNAC, à qual estou eternamente agradecido pelo papel que teve na revitalização do Chiado, traz-me problemas inultrapassáveis: ao fim de dez minutos naquela cave abafada sinto vontade de fugir dali para fora.
Não sei se já existem noutras livrarias portuguesas, mas na Byblos vi que havia uma secção dedicada à "Literatura Gay". Como estava com um pouco de pressa, não me demorei, mas, entre uma série de nomes de que nunca tinha ouvido falar, lá estavam também livros de Oscar Wilde.
Ora, pergunto-me se faz algum sentido falar de "literatura gay", discriminá-la numas prateleiras e pôr lá autores como Wilde. Nunca li os livros dele numa perspectiva homo ou hetero, nem os de Gide, Yourcenar, Lorca, Forster, os clássicos gregos, Paul Bowles, Allen Ginsberg, David Leavitt, o brasileiro Bernardo Carvalho (que aproveito para recomendar como um dos melhores autores de língua portuguesa da actualidade) e sei lá mais quantos escritores que abordaram a "temática" e de que agora não me lembro.
Se a justificação para esta secção da livraria é os livros descreverem "cenas fortes", ponham-nos então numa secção de "Literatura Erótica", onde estejam hetero, homo, bissexuais e tudo o mais que houver.
Já comentei este assunto com amigos, mas quase todos que a defenderam deram-me a pior das respostas, a de que "lá fora" já são comuns...

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

Um homem feliz

Por entre as torrentes de propaganda, designadamente as intermináveis transmissões televisivas, José Sócrates conheceu o momento mais alto da sua carreira política com a assinatura do Tratado de Lisboa, que visa instituir o novo documento-guia para a União Europeia.
A propaganda não iludiu, no entanto, questões fundamentais. Desde logo, o documento de nada vale se não for ratificado por cada um dos Estados-membros - a Hungria apressou-se a fazê-lo, inaugurando a série. Mas se a ratificação parece garantida em todos aqueles que a submeterem aos respectivos parlamentos (como sucederá em Portugal, contrariando anteriores promessas eleitorais do PS e do PSD), há pelo menos um país – a Irlanda – onde o referendo é obrigatório por imperativo constitucional. E aqui não existe a certeza antecipada de que o tratado seja aprovado: a mais recente sondagem, publicada no Irish Times, indica que só 25 por cento dos irlandeses tencionam votar “sim”. Basta comparar: há dois anos, quase metade do electorado da Irlanda mostrava-se de acordo com o tratado constitucional, antecessor – e praticamente irmão gémeo – daquele que agora foi assinado em Lisboa.
Mas não param aqui os problemas. A liderança de Gordon Brown é cada vez mais frágil perante as crescentes correntes de opinião eurocépticas no Reino Unido, à esquerda e à directa. A Bélgica permanece há longos meses sem governo e em cada dia que passa enfrenta a perspectiva de uma irreparável desagregação, de consequências imprevisíveis. A iminente independência unilateral do Cosovo, apoiada por Washington, divide profundamente os parceiros europeus. E as próprias fronteiras da União, a prazo, são outro tema de acesa polémica, com fracturas evidentes entre apoiantes e adversários da integração turca.
Problemas atrás de problemas atrás de problemas. Entretanto, o almoço no Museu dos Coches foi opíparo e o vinho do Porto vintage, colheita de 1957, era excelente, ao que rezaram as crónicas. Sócrates está feliz. Haja alguém feliz no meio deste turbilhão que certamente nenhum dos “pais da Europa” imaginaria na corrente de optimismo que há meio século inundava o Velho Continente.

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Nós e os outros

Obrigado ao Luís Novaes Tito, que na sua excelente Barbearia elegeu o Corta-Fitas como melhor blogue do ano. E ao João Severino, pelo amável voto que expressou no seu Pau Para Toda a Obra. E ainda ao José Iglésias, que nos pôs em quinto lugar do seu top, em directo da Figueira da Foz. São palavras como estas que nos incentivam cada vez mais a andar por cá.

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A melhor década do cinema (4)


A SEDE DO MAL
(Touch of Evil, 1958)
Realizador: Orson Welles
Principais intérpretes: Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Joseph Calleia, Akim Tamiroff.
Participações especiais: Marlene Dietrich, Mercedes McCambridge, Joseph Cotten, Zsa Zsa Gabor.
"Provavelmente o mais original thriller realizado até hoje."
(Peter Bogdanovich)

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Palavras que odeio (62)

Edil

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A nossa babilónia

A barcaça marroquina abalroou a muralha do oeste “civilizado” com 23 desgraçados párias a bordo. Enquanto isso o bem nutrido e alucinado "consumidor", entretido nos centros comerciais, contrafeito, mal desvia o olhar das montras iluminadas de mil cores.
Construímos a nossa Babilónia e criámos uma grosseira ilusão de realização e auto-suficiência. No fundo, no fundo, todos reconhecemos a grande mentira com que nos sustentamos, mas recusamos indolentemente corrigir o curso da nossa história (a individual, que é a verdadeira), alterar um dedo a nossa cómoda perspectiva, desacomodarmo-nos um pouco que seja da nossa existência entretida e conformada.
De resto, ao ver a chocante fotografia de capa do Diário de Notícias de hoje, com um calafrio realizei como Jesus Cristo do Natal que estamos prestes a celebrar se encontra definitivamente “escondido” no emigrante repudiado. E como jamais O encontraremos com o barulho da encenação feérica dum qualquer agitado shopping suburbano.

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Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

A melhor década do cinema (3)


A PONTE DO RIO KWAI
(A Bridge on the River Kwai, 1957)
Realizador: David Lean
Principais intérpretes: William Holden, Jack Hawkins, Alec Guinness, Sessue Hayakawa, James Donald
"Alec, o Grande" (Life, 1957)

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Eles vêm aí

Chegou hoje a Olhão aquele que presumo seja o primeiro barco de imigrantes clandestinos magrebinos a vir parar à costa portuguesa (pelo menos ao continente). No jornal da TVI, um deles explicou que ao todo são 25 homens e mulheres e que iam para Espanha trabalhar.
Durante muito tempo Portugal esteve fora da rota das balsas, sobretudo por causa das fortes correntes marítimas do estreito de Gibraltar. Mas era uma questão de tempo: ou os clandestinos alugavam barcos melhores ou a frequência das viagens levaria a aumentar o risco.
Agora, aposto que o SEF vai aproveitar para pedir "mais meios" e blá blá blá e os políticos vão vincar os "avanços" na "gestão dos fluxos migratórios" e blá blá blá. Começou, e não vai ser bonito.

Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (XI)



O mau jornalismo


Ia a passar pelo Marquês, quando vi o Naves, de chapéu e gravata. Além de gordo, o homem parecia mesmo irritado. Aproximei-me, um pouco a medo, não fosse ele ter uma fúria. Só depois de perceber que já não ia reagir mal à minha presença é que lhe perguntei o que tinha.
"Sabes lá, Adolfo Ernesto! Estou farto!"
Quando o meu amigo diz estas coisas, o melhor é não insistir. No máximo, esperar que ele explique.
"Fui acusado de pensamento único pelo pensamento pré-fabricado", explicou.
"E o que é isso?"
Contou-me que tinha estado na cimeira EU-África e, depois, na assinatura do Tratado de Lisboa, a fazer a cobertura jornalística para um conhecido diário.
"Que giro", disse eu, "também estive no Tratado de Lisboa, a servir à mesa, no banquete. Até tive uma conversa engraçada com um poderoso deputado. Isso foi antes de aparecer a brigada da ASAE, que mandou fechar tudo, porque não estava de acordo com os padrões de uma directiva comunitária. Levaram as travessas e ninguém comeu".
"Não sabia disso..."
"A imprensa anda distraída e não conta estas coisas..."
De repente, o meu amigo explodiu de irritação:
"Também tu, bruto!"
Só então explicou o problema: estava aborrecido com o que tem saído nos blogues sobre o trabalho da comunicação social nas questões europeias. Que ninguém explica o tratado, que os jornalistas são todos propagandistas.
"Até no Corta-Fitas me chamaram propagandista. Mas há uma data de blogues onde dizem abertamente que ninguém explica o tratado. Ora, explicar é o que eu tento fazer. Aquilo é muito complicado. Se escreves comprido, ninguém lê. Se escreves curto, não explicas nada. Mas como me limitei a contar o que vi nas cimeiras, sem opinar, vá de levar bordoada. Estas não foram as cimeiras do porreiro, pá, mas as cimeiras da porrada, pá. Vê por exemplo os do Bloco de Esquerda, como miguel portas . Ninguém explicou o tratado, afirma ele. Mas bastava ter lido o Diário de Notícias, o Público, o Correio da Manhã, o JN, a Visão ou o Expresso, entre outros. Eu, entre outros, ando há meses a explicar este tratado, e antes expliquei a Constituição, ouviste, Adolfo Ernesto?"
O Naves estava no meio do Marquês, a gritar a plenos pulmões. Apesar do trânsito, eu estava a ouvi-lo bem.
"Houve um blogue, de Miguel Vale de Almeida, segundo o qual a comunicação social estrangeira é que tinha os títulos correctos. Que a nossa estava toda errada. Não resiste a cinco minutos de análise. Se olhares com atenção, nós escrevemos as mesmas coisas que os nossos colegas espanhóis, franceses ou ingleses. Com uma excepção, na cimeira EU-África ninguém viu o Mugabe. Mas os ingleses só falavam no Mugabe".
"Uns hooligans, os ingleses..."
"Os que criticam os jornalistas são muitas vezes políticos e, portanto, têm uma agenda política. Se aquilo que os jornais dizem não coincide com aquilo que eles querem que os jornais digam, então, os jornalistas são propagandistas. Em vez do pensamento único é a opinião pré-fabricada. Quando alguém tem a nossa opinião, é um excelente analista. Quando se limita a contar o que viu, é um propagandista. Esta é a melhor maneira de criticar o jornalismo. Excluído este, ficam apenas as explicações parciais da realidade".
"Eu às vezes também sinto problemas com parcelas da realidade", afirmei, sagazmente. "É como que um ardor no estômago".
A minha longa experiência de acalmar feras (cheguei a trabalhar num circo) resultou. O Naves acalmou e até parecia um cordeirinho. Ele estava satisfeito com a minha afirmação convincente. Escondi-lhe que, na qualidade de cidadão, adoro ideias pré-fabricadas. Com um cérebro fundido, como o meu, quero é a papinha toda feita, incluindo opiniões fast-food que possa ruminar no próximo jantar do Corta-Fitas.
"Ò amigão, faz-me um favor!", pedi eu, já na despedida.
"Se puder..."
"Isto dava uma boa crónica. Importas-te de pôr lá no blogue o meu textinho sobre esta conversa? Eu não posso, porque tenho a net toda arrebentada"
"Não me importo assim muito...".
Passei-lhe o papel para a mão, para ele copiar. Acenei ao Naves e fui fazer as minhas compras de Natal.

Adolfo Ernesto

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Afinal vai mais um poema

Sou um bocado conservador, prefiro o prazer à dor.
Aliás, um murro na cabeça provoca-me incerteza.
Talvez não seja um liberal porque aceito isso mal.
Concedo. Mas que querem? Não gosto de sentir medo.

«Não há insegurança» dizem com candura de criança
bloggers respeitáveis em espaços inquestionáveis.
Bom, então está certo. Sou eu que não acerto.
Tenho o QI limitado face ao crime organizado.

Devia desconfiar dos polícias e acreditar nas notícias:
«Há menos crimes agora e processos na Boa Hora».
As estatísticas (acredito) medem mesmo cada grito
com a precisão matemática da porrada mais fanática.

Talvez viver sossegado num condomínio fechado.
Encerrar as crianças num parque com seguranças.
Não passear de madrugada a pé por qualquer estrada
e só caminhar na praia enquanto o Sol não caia.

Estou certo que, então, serei de igual opinião:
O mundo não está perigoso e é um assunto escabroso
que na verdade nada interessa. Pois é. Homessa!

(A realidade não se engana. Os gajos é que não vão de cana).

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That's all folks

Há dias em que me sinto um autêntico Moita de Deus, mas com menos fringe benefits. Por hoje já chega. Vou arrumar a loja, pendurar um mentiroso «Volto Já» e rumar até um aposento quentinho com cacau quente daqueles à antiga e mantinhas para os joelhos. Os meus dentes já bateram tanto hoje que houve quem começasse a dançar sevilhanas.

Todos, mesmo todos

«Absolvidos todos os 36 arguidos do processo UGT/FSE». 15 anos depois, só uma burlazita entretanto prescrita para amostra. É obra, hem?

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Momento tablóide


E logo com a Carla Bruni.

Quando a ASAE bate as asas...

Gera-se um furacão mesmo ao lado: «Fecho da "Ginginha" agrava vida dos engraxadores do Rossio. Diário Digital

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Mais uma razão para manter a Portela

O aeroporto de Lisboa vai ser o único com zonas para fumadores.

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'Bora facturar balúrdios?

Malta, estou à procura de parceiros/as de negócio.
Com os restaurantes, bares, hotéis e sei lá mais quantos sítios com História a verem-se livres dos seus cinzeiros, esta é uma oportunidade bestial para comprarmos uma data deles daqueles antigos e bons, que poderão depois ser vendidos a excelente preço nos E-Bays da vida.
O que acham? Podem enviar-me um e-mail com os contactos e fazemos já uma sociedade lucrativa.

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Um argumento e peras


«Vou deixar de ser cliente desta casa» (...) «Os fumadores têm direito a matar-se».
Carlos, até agora frequentador do Galeto, ao Público. (Nota aos anónimos: Não, a senhora da fotografia não é o Carlos).

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Domingo, Dezembro 16, 2007

Sunday couch potato

Domingo - 3º do Advento


Leitura do Livro de Isaías

Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. Ser-lhe-á dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo e do Saron. Verão a glória do Senhor, o esplendor do nosso Deus. Fortalecei as mãos fatigadas e robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-vos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. Voltarão os que o Senhor libertar, hão-de chegar a Sião com brados de alegria, com eterna felicidade a iluminar-lhes o rosto. Reinarão o prazer e o contentamento e acabarão a dor e os gemidos.


Da Bíblia Sagrada

Na imagem: "A Ressurreição de Lázaro" de Giotto

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Fantasias de Natal (versão actualizada)


Não, não! O coelhone veio com o Pai Natal no TGV à Ota!

Nós e os outros

Nesta votação ficámos em 12º lugar como melhor blogue de 2007 (ainda antes de o ano ter chegado ao fim). O Abrupto, sinceramente, merecia melhor posição.

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A melhor década do cinema (2)


JÚLIO CÉSAR
(Julius Caesar, 1953)
Realizador: Joseph L. Mankiewicz
Principais intérpretes: Marlon Brando, Louis Calhern, Deborah Kerr, James Mason, Greer Garson, John Gielgud, Edmond O'Brien, George Macready
"O melhor Shakespeare que Hollywood já produziu." (Time, 1953)

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Palavras que odeio (61)

Inopinadamente

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Sábado, Dezembro 15, 2007

História de algibeira (29)

As obras de construção do Liceu Camões arrancaram no início de 1908 tendo os trabalhos durado apenas 21 meses. Inaugurado em 16 de Outubro de 1909 por D. Manuel II, o Lyceu estava preparado para acolher cerca de 600 alunos, e as suas modernas instalações eram concebidas com infra-estruturas desportivas e sanitárias únicas na época: diversos lavabos distribuíam-se por todo o edifício e o Gymnásio incluía balneários equipados com duches.
Polémica foi a localização deste equipamento escolar, por ter sido projectado para os arrabaldes da cidade, no Largo do Matadouro Municipal - zona da cidade à época afastada do centro e ainda pouco urbanizada.
Imagem daqui

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Não há seguro que cubra isto


Mão amiga acaba de me fazer chegar esta foto, que me apresso a divulgar no blogue em nome da segurança rodoviária. Serve como aviso à navegação: vejam lá do que é capaz uma mulher ciumenta...

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A melhor década do cinema (1)


O CREPÚSCULO DOS DEUSES
(Sunset Boulevard, 1950)
Realizador: Billy Wilder
Principais intérpretes: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark
"Hollywood no seu pior revista por Hollywood no seu melhor." (Time, 1950)

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Palavras que odeio (60)

Sponsorização

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Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

Dedicado ao nosso Luís Naves

«Is what?! That's a country?!»

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A ler

1. "Guterrar", por Gabriel.
2. "A Travessa", por Jansenista.
3. "A estupidez", por Pedro Mexia.
4. "Byblos quê?", por Eduardo Pitta.

Grande portuguesa

Irene Flunser Pimentel fez o seu Doutoramento sobre a PIDE-DGS. Lançou num curto espaço de tempo dois livros sobre o período do Estado Novo: «A História da Pide» e «Mocidade Portuguesa Feminina». Antes já tinha visto ser-lhe atribuído o prémio Adérito Sedas Nunes de Ciências Sociais pela obra «Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial». Foi ainda co-autora do livro «As Vítimas de Salazar». Hoje ganhou o Prémio Pessoa. Embrulha, João.
Adenda: «A gente quando começa a ler estas coisas da História depois tem dificuldade em ler ficção, sabe?». Irene F. Pimentel, há pouco na televisão.

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Há almoços grátis sim senhor

Estava eu a almoçar no Richard's - ali no Clube de Futebol Olivais e Moscavide - uma excelente picanha servida pela Elizângela e na companhia de um ilustre visitante deste blogue, quando dou de caras com pessoas que não esperava encontrar. Não fazia ideia de que o Richard's existia e, muito menos, de que era frequentado por um coronel camarada de armas de um dos meus tios ou por consultores de comunicação de uma agência rival. É castiço, o Richard's. E o campo do Olivais e Moscavide é relvado. Mais do que isto não posso revelar sobre o meu almoço. Despedi-me da Elizângela com um cavalheiresco beijo na mão, isso ainda posso confessar. Quanto ao resto, honni soit qui mal y pense.

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Friday

Catherine Zeta-Jones.

Obras públicas, idiossincrasias privadas



Sempre que me falam em derrapagem, em vez de pensar em objectos derrapantes como carros, bicicletas, skates, etc, penso – imaginem – em pontes, estradas, túneis e linhas do metro. Vá-se lá saber porquê!

Palavras que odeio (59)

Evento

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Só faltou isto

Entre tanta minúcia que tenho lido e ouvido sobre o dia mais importaaaaaaante da vida de José Sócrates, só me falta saber isto: onde é que o primeiro-ministro terá feito ontem a sua sessãozinha de jogging? Terá andado a dar voltas ao claustro dos Jerónimos enquanto o Gordon Brown não chegava?

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À atenção de António Costa

Tribunal de Contas recusa visto a empréstimo da Câmara de Oliveira de Azeméis.

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Sexta-feira


Na manhã seguinte, Julieta Grau apareceu de novo nas águas-furtadas. Que quererá de mim desta vez?, interroguei-me de imediato. Disse para comigo: ontem devia ter ido com ela para a cama. Com efeito, as mulheres só querem uma coisa, que os homens vão para a cama com elas. Mas se vamos para a cama com uma mulher, ela pode foder-nos. E se não queremos, fode-nos na mesma por não termos querido.
Lembrei-me de um romancezeco inglês que tinha lido há pouco tempo em que descrevia a colorida fantasia feminina de estar sentada num jardim ao cair da tarde, a ler e à espera do homem que todos os dias volta ao lar e aos seus braços. Será isso o que quer?, interroguei-me. E se ela me confessasse que era isso que queria, deveria acreditar nela? Por outro lado, consistia a minha fantasia em voltar a casa num comboio suburbano a abarrotar com uma pesada pasta e encontrar-me com uma mulherzinha intelectual que tinha passado o dia negligentemente deitada a ler Unamuno? – Enrique Vila-Matas in Paris Nunca se Acaba

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Não meter foice em seara alheia

«De que lado é que nós, os bons, nos devemos colocar se alguém nos interpelar»? Pergunta e muito bem a nossa Cristina lá mais abaixo. Eu diria, querida Cristina, que devemos colocar-nos no nosso lado, ou seja, o de quem não tem nada a ver com aquilo. Para mim, tem o mesmo interesse que assistir a um jogo de cricket. Hipnotiza-me ver a bola ser atirada de um lado para o outro por gajos vestidos de branco e pullovers giros, mas não percebo as regras do jogo e por isso não entendo pevide e bato palmas nas alturas erradas. Eles são a música clássica e nós somos o jazz, acho eu. Por isso é deixá-los e que se entendam.

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Isto embora...

...eu, como dizer, privilegie a experiência.

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Sexta-feira com novos talentos

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Há cenas e cenas

O vencedor do prémio Bad Sex in Fiction Award, pela pior descrição de um acto sexual na literatura de ficção em inglês, foi o falecido escritor Norman Mailer que, por duas vezes, arrecadou o Prémio Pulitzer.
Por isso, para quem não conhecia ainda tão bela descrição, aqui fica um pequeno excerto do seu último livro, The Castle in the Forest, que deve ter eclipsado as dúvidas do júri.
“Klara virou-se dos pés para a cabeça, e pôs a sua parte mais indecorosa no nariz e na boca dele que respiravam com dificuldade, e levou o velho aríete aos lábios. O Tio estava agora tão mole como uma rosca de excremento…”
E na literatura portuguesa? Haverá melhor do que isto?

Beatriz Costa: 1907 - 2007

Por razões profissionais, envolvi-me em vários projectos ligados a Beatriz Costa, mulher bela e desempoeirada que, sem que eu tenha conhecido pessoalmente, me conquistou e seduziu profundamente. Hoje, na passagem do centenário do seu nascimento, aqui lhe presto a minha homenagem.

Fotografia – Beatriz Costa, Rio de Janeiro 1927 - Estúdio Fotográfico Non Plus Ultra.

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Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

Espreitadela superficial na blogosfera

Quem é o Tiago Mendes?
Que mal lhe fez o AAA?
Significa este nome António Augusto Aguiar?
De que lado é que nós, os bons, nos devemos colocar se alguém nos interpelar?
Porque é que Pacheco Pereira parou de mostrar postais ilustrados?
Alguém tem o contacto do fotógrafo filho do Pina Moura?

Concertação estratégica?

É divertido ler isto. E depois (isto é, ao mesmo tempo) isto.
E uma agenda para 2008? Não precisam? Tenho algumas de secretária que dão óptimas prendas de Natal.

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Nas colunas

(Onde se ouve World ouça-se Europe)

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Cadernos de Filosofia Política de Adolfo Ernesto (X)

Tratemos de Europa

O eurodeputado estendeu-me o copo, mas a princípio hesitei. Depois, inclinei a garrafa de Quinta dos Carvalhos 2004. Enchi o seu copo e ele ficou visivelmente satisfeito.
“Tu não és o Adolfo Ernesto?”, perguntou, com forte pronúncia da Saxónia.
“Sim. Mas não estou aqui como filósofo político. Estou aqui como empregado de mesa”.
Era a pura verdade. A cerimónia até foi bonita e observei tudo da varanda, onde esperava o banquete. Vi como a Europa deu um passo atrás e dois para a frente. Ou terá sido ao contrário, já não me lembro...
No claustro do velho convento, um cenário magnífico e multicolor. Estavam todos os famosos. Um clima excelente de confraternização.
“O que achaste dos tenores da Europa, Adolfo Ernesto?”, perguntou o poderoso dirigente, que entretanto engolira todo o tinto e pedia reforço. Inclinou-se, entaramelou os olhos, à espera da minha resposta.
Pensara ter assistido a uma assinatura de um novo tratado, mas esta informada pessoa esclarecera-me finalmente sobre a natureza daquele espectáculo de luz e som.
“Não cheguei a perceber bem”, ensaiei, com cuidado, pois não gosto de passar por ignorante. “Chamavam os tenores de cada país, mas nenhum deles cantava; limitavam-se a escrevinhar qualquer coisa no livro. Até pensei que estivessem a dar autógrafos. No fim, até houve uma canção, e ninguém votou nela”.
“Pudera, se a Dulce cantasse mais uma vez, havia uma crise europeia. Só o Sarkozy é que gostou da Dulce, com aquela touca de banho. Os cipriotas estavam prontos para sair da própria União”, explicou o meu interlocutor. “Felizmente, ela parou de cantar, o que impediu a ruptura das negociações”.
Enchi outra vez o copo dele.
“Mas julgo que não entendeste bem o que se passou aqui”, insistiu a personagem. “Mencionei tenores, mas não era de música. Designava os poderosos, a liderança, os que têm”.
“Ah! Mas então, não se diz tenores, mas possidónios, no sentido da posse”.
“Desculpa, mas a vossa maravilhosa língua portuguesa é tão difícil”, lamentou-se, com forte pronúncia da Saxónia. Depois, mudou de tema: “E o que achas desta nova Europa?”
“Tínhamos a tradição de dar 12 pontos à canção espanhola e eles davam 12 pontos à nossa. Era um arranjo simpático. Mas agora é mais difícil, porque há as coligações de países de leste, que competem contra nós pelos pontos. No fim, ganha sempre a canção irlandesa”.
Ele só dizia “wunderbar”. Bar tem a ver com vinho, chamei um colega, que é versado em coisas da bola e tinha na mão uma garrafa de branco, por abrir. E o meu colega meteu-se na conversa do seguinte modo:
“Na Europa, a competição entre clubes é feroz. É preciso evitar os grandes, ou não vamos longe”, disse. “É a sina dos pequenos. Não têm dinheiro para comprar bons jogadores ou bons árbitros e, depois, levam três secos. Mas estes gajos novos do leste são mais nabos e a gente consegue dar-lhes três secos a eles. E, no fim, ganham sempre os alemães”.
O deputado estendeu-me o copo, enquanto abanava furiosamente a cabeça.
“No fundo”, continuei, “há uma concentração de mercado vitivinícola no cabernet sauvignon, ou tendência para que este gosto se torne dominante, tornando invisíveis todos os outros. São as forças do mercado a funcionar, produzindo uniformização e massificação, onde devia existir sobretudo a diversidade. E, no fim, ganham sempre os franceses...”
“Cala-te, Adolfo Ernesto”, pediu o importante político, já convencido. “Pede à Dulce para cantar mais uma canção. Talvez ainda vá a tempo...”

Adolfo Ernesto

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Sarkozy e Brown, que diferença

O momento mais "caricato" do dia, como lhe chamou alguma imprensa, diz alguma coisa do que é Nicolas Sarkozy. Ao chegar ao Mosteiro dos Jerónimos, em vez de se dirigir ao palco preparado para a fotografia de souvenir, dirigiu-se à multidão de jornalistas, colocados atrás de grades. Aquilo que em Chirac seria considerado uma gaffe monumental acaba por ser natural com "Sarko". O Presidente francês deixou José Sócrates e Luís Amado pendurados e o que mais me impressionou não foi só a atitude e a deferência com os jornalistas. O pior foi o desplante com que Amado ia chamando a atenção dos oficiais de ligação (e quejandos) de que Sarkozy deveria era dirigir-se na sua direcção. Na sua e de Sócrates. Que, surpreendentemente, até teve jogo de cintura e chamou ele próprio "Sarko" quando este já se dirigia para o interior dos Jerónimos, ignorando por completo o presidente da União Europeia e o seu colaborador. Ao que muitos chamam um "erro de protocolo", eu prefiro chamar uma atitude nobre. Um gesto de respeito. Sem os media, "Sarko" e companhia eram meros mortais.
A contrastar com tudo isto, regista-se a ausência de Gordon Brown do acto de assinatura do Tratado de Lisboa, no qual foi substituído pelo seu jovem MNE, David Miliband. Brown acabou por ter direito, mais tarde, a uma assinatura privada e só sua do tratado, mas a atitude também diz muito. Consta que o PM britânico tinha compromissos inadiáveis lá na sua terra, como um debate parlamentar. Mas lá se escapou à fotografia de família com os outros líderes e caiu naquilo que nem Blair faria: quebrar o formalismo e a pontualidade britânica. Primeiro, recusou vir a Lisboa por causa de Mugabe e dos direitos humanos, políticos e civis no Zimbabwe. Para ele, ou estava um ou outro. Veio Mugabe e o ditador teve que ouvir das boas de Merkel e de Sarkozy (até Sócrates e Barroso, em tons diferentes, falaram no assunto). Brown ficou ao longe a ver navios. E perdeu uma boa oportunidade para falar, não para estar calado. A cada dia que passa fica mais que provado que a sucessão dinástica no new labour não correu bem. Brown é muito pior que Blair e está de passagem. É uma espécie de Ferro Rodrigues depois de Guterres. Só que é pior porque ainda por cima está no poder...

Gosto dele assim abrupto

Pacheco Pereira incomoda-se com o facto de alguns jornalistas escreverem em blogues. E preocupa-o que estes blogues possam criar e estimular opinião. Aposto que preferia o tempo em que perorava orgulhosamente só na blogosfera. Esse tempo acabou, o que talvez justifique o aparente azedume com que fala do Corta-Fitas - um blogue onde sempre se escreveu claro, com nome próprio, assinatura reconhecida e direito ao contraditório.
Uma crónica que ele publicou em Julho de de 1994, no Diário de Notícias, ajuda a explicar o actual estado de espírito deste maître penseur que sempre gostei de ler: "Já há muito tempo que penso que a verdadeira essência do conflito entre jornalistas e políticos se encontra na competição por um bem escasso: o poder de influenciar."
É difícil ser mais transparente.
Já em Janeiro de 1993, também no DN, Pacheco observava, com evidente angústia: "O que se passa hoje é que cada vez mais a comunicação social está a determinar as pessoas, as formas e o modo do exercício do poder político." Se isto se passava antes dos blogues, imagino como se sentirá agora. McLuhan, que ele leu precocemente em 1969, bem avisara em The Medium is the Message: "A tecnologia electrónica está a reformular e a reestruturar os padrões de interdependência social em todos os aspectos da vida quotidiana."
Por mim, continuarei a ler Pacheco Pereira com o mesmo agrado: quanto mais abrupto melhor. E também continuarei a escrever o que me apetecer: sou assim há muito, já é tarde para mudar.

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Não se admite

A ausência do nosso Adolfo Ernesto num dia histórico como este.

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Furioso com tanto apupo

Acontece aos melhores: como já aqui assinalou o Francisco, José Sócrates foi ontem apupado no plenário do Parlamento Europeu. Houve falta de cortesia dos deputados que protestaram, reconheço, mas o motivo não podia ser melhor: a "Europa" prepara-se para ratificar por via parlamentar o Tratado de Lisboa como se tivesse medo de escutar a voz dos cidadãos. Pela sua expressão facial, percebeu-se bem que Sócrates ficou furioso ao escutar os apupos. Azar dele: desta vez não havia PSP nem GNR para manter os manifestantes à distância. Mas a vaia era merecida, sem dúvida. Porque o primeiro-ministro prometeu um referendo europeu, tanto na campanha eleitoral de 2005 como no seu discurso de investidura, e prepara-se para rasgar esta promessa. Os protestos que escutou em Estrasburgo terão sequência, agora em Lisboa. E muito bem. Os eleitores têm não só o direito mas também o dever cívico de confrontarem os políticos com as promessas feitas no momento da caça ao voto.

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Amiguismo militante

O José Mário Silva tem um novo blogue. É mesmo para ler.

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Direito ao assunto

Só posso gostar de quem escreve assim.

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E a isto disse nada

Vital Moreira afirma que prevaleceu o bom senso. Ele foi desde o início uma voz contra o processo de privatização da REN e, por isso, não surpreende a sua opinião. Mas o que deveria espantar toda a gente (e sem discutir aqui se a referida operação seria boa ou má para o mercado) é o facto de o ministro da tutela ter anunciado uma coisa e agora Sócrates vir anunciar o contrário, sem mais uma vez entender prestar ao País qualquer explicação. Perpassa assim não apenas incoerência política como uma ausência de transparência na definição do modelo futuro para o sector energético. Quando se efectua um retrocesso de 180º numa decisão estratégica relativa a um sector como o da energia e envolvendo uma empresa como a REN, é incompreensível que o Primeiro-Ministro se remeta ao silêncio quando lhe pedem esclarecimentos. Incompreensível mas, lamentavelmente, em sintonia com aquilo a que já nos habituámos.

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E a inveja é um sentimento muito feio

Mugabe agradece a Sócrates por ter mantido os gays à distância enquanto andou por Lisboa. A gratidão é um sentimento muito bonito.

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E o míope sou eu?

Mal começou a nova campanha de promoção de Portugal e já pelo menos um outdoor no Marquês de Pombal terá que ser retirado. Ao lado daquela fotografia da Marisa com uma paisagem na cara e que resulta numa imagem mais gelada do que a paisagem ártica, pode ler-se «Retratos da Costa Oeste da Europe por Nick Knight».
Por cá ninguém sabe quem ele é mas o Nick é considerado um visionário na fotografia de moda (pelo menos no seu próprio site) e trabalhou com marcas como a Calvin Klein, Lâncome ou Christian Dior. Daí a aparecer no dito outdoor com o nome dez vezes maior do que o da nossa fadista é que já não sei. Quanto ao Europe num cartaz de sei lá quanto metros, é um bocado inimaginável como é que não deram pela gralha. Se calhar, não lhes pagam o suficiente para isso. Deve ser. (A fotografia tirada pelo Victor Machado pode ser vista no jornal OJE)

O Tratado de Lisboa

Enquanto o elegante rio Tejo corre alheio para o oceano, Lisboa amanhece luminosa e azul para a assinatura do novo Tratado Europeu. O magnifico mosteiro dos Jerónimos e a Praça do Império são o cenário perfeito para a mais refinada promoção turística nacional. Estou certo que o banquete a servir hoje no Museu dos Coches, os vinhos, demais petiscos e toda a doçaria doméstica impressionarão da melhor maneira os ilustres convivas. Sem contar com as comezainas servidas aos motoristas, seguranças, jornalistas e restante staff, cuja qualidade nunca seria descurada pelo experiente Protocolo nacional, tudo contribuirá para o bom nome e imagem do novo Oeste europeu. Portugal, um irresistível destino de sol e praia, de congressos e incentivos, casamentos e baptizados, além do golfe e do bodyboard. Sem esquecer a bonomia nacional, a animada “movida”, o José Mourinho, os casinos e o Fado. Com tudo isto estão garantidos mais uns patacos, o emprego de muita gente e um desígnio nacional: o Turismo.
Amanhã, enquanto eles desmontam a feira, varrem os claustros e apanham as canas, analisemos os “recortes” de imprensa internacional, as reportagens televisivas, os resultados desta fabulosa operação de marketing.
Quanto ao tratado propriamente dito, nem sei em o que vos diga. Que me perdoem o José Manuel e o Luís Naves, mas o documento ainda lá está na minha mesa de cabeceira, à espera de uma oportuna insónia. Mas pelo que leio nos jornais, assino de cruz...

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Eram precisamente 10.34

Hoje circula-se de borla no metropolitano de Lisboa: um inesperado brinde da administração da empresa aos passageiros. Ainda pensei que tivesse a ver com o Natal, mas não: é uma forma de "celebrar" a assinatura do Tratado de Lisboa, segundo me revelou uma voz angelical ampliada nas colunas de som das estações do metro. Logo me curvei, reconhecido, perante tal benesse. A tal ponto que algures entre o Saldanha e as Picoas comecei a tornar-me um fervoroso europeísta.

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Palavras que odeio (58)

Performance

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Audiências, precisam-se

Já está. É oficial a substituição de Francisco Penim por Nuno Santos. Penso que Penim cometeu dois erros daqueles de arromba e falhou ainda num ponto negocial crítico. Um, fruto de vincos de personalidade que a idade se encarregará de alisar, foi apresentar-se desde o primeiro momento como o special one da TV. O homem providencial que voltaria a colocar a SIC no primeiro lugar das audiências. O outro erro foi colocar essa recuperação quase integralmente nas mãos de Teresa Guilherme. Quanto ao falhanço negocial sucedeu logo no início, quando foi incapaz de garantir para a estação a equipa dos Gato Fedorento (que ele mesmo lançara e promovera na SIC Radical) ao mesmo tempo em que se via agarrado a um contrato com Herman José que resultaria num programa falhado e remetido para horas cada vez mais mortas na noite. Manuel Fonseca esteve 4 anos neste cargo. Penim apenas dois. Depois das provas dadas na RTP, Nuno Santos parece a escolha certa na altura indicada. Mas que não vai ter um trabalho fácil pela frente, lá isso não vai.

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Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

Sabor a papel

José Sócrates foi hoje apupado quando se preparava para falar em Estrasburgo, numa cena nunca vista no Parlamento Europeu. Alguns eurodeputados chegaram ao ponto de acenar com cartazes exigindo uma consulta popular ao Tratado de Lisboa. Sócrates pode não gostar do referendo, e tem boas razões para isso, não pode é dizer à saída do PE que aquela sessão foi muito "vibrante", como se nada fosse.
O que me parece é que o primeiro-ministro começa a exagerar no excesso de entusiasmo com os resultados da sua presidência da União Europeia. É óbvio que a coisa correu bem e que o País ganha prestígio e respeitabilidade com isso. Torna-se mais credível. A realização da Cimeira UE-África é importante, sobretudo porque não acontecia há sete anos. Porque os dois continentes, apesar das imensas diferenças, deixam de estar de costas tão voltadas.
É também óbvio que a assinatura do Tratado de Lisboa, amanhã no Mosteiro dos Jerónimos, é um ponto alto da nossa diplomacia. Mas esse mérito não se deve apenas a Sócrates, muito menos apenas à presidência portuguesa. Merkel preparou o terreno, ao conceder o mandato, ainda na presidência alemã. E depois um grupo enorme de técnicos de várias nacionalidades, coordenados por portugueses, chegaram a bom porto. É bom para Portugal.
Mas Sócrates não pode confundir os planos. No plano externo, a sua acção política trouxe resultados. Mas esses resultados não se traduzem imediatamente em lucros políticos internos, muito menos em votos. Vou só lembrar que não é a primeira vez que Portugal tem excelentes resultados com as suas presidências. Aníbal Cavaco Silva e António Guterres tiveram exercícios muito elogiados e, no entanto, o primeiro acabou por perder as primeiras presidenciais a que se candidatou (em 1996) e o segundo acabou por cair no pântano que se sabe, tendo pedido a demissão no dia seguinte a umas eleições autárquicas. Guterres chegou, se bem se lembram, a ser falado para presidente da comissão, o lugar foi-lhe oferecido de bandeja.
Os portugueses não comem tratados nem cimeiras e, a partir de Janeiro de 2008, é bom que Sócrates comece a olhar mais para o País. Para o caos na segurança interna, para o aumento do desemprego (os dados de ontem revelam isso) e para o facto mais que comprovado de que a economia não arranca.

Nas colunas

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Perguntar não ofende

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Para um amigo

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No lugar do rato...

...imaginem alguns assessores.

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Ó rapaziada

Pázinhos! Sim, vós, ó rapazes do Bloco com excesso de leituras. Não me levem a mal, mas estou certo de que haverá uma forma um bocadinho mais inteligível de dizer isto:

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Vão facturar balúrdios, é o que é

De fonte muito bem informada sobre o mercado da grande distribuição recebi o seguinte mail:
«A Sonae fica com o Continente do Colombo, a poucos kms fica o Carrefour de Telheiras (que será transformado em Continente ou Modelo) e com o Continente do Vasco da Gama.
Em hipers a Sonae fica quase com 100% do mercado de Lisboa onde, com excepção do Feira Nova de Telheiras (que não é muito bem sucedido) não há mais hipers. O resto dos formatos de distribuição moderna em Lisboa cinge-se a supermercados.
Se tivermos em conta que a Lei dos Licenciamentos Comerciais indica que um operador não pode ter uma posição dominante num concelho (por isso é que nenhuma insígnia tem mais de uma loja por concelho) e que Lisboa é um concelho relativamente pequeno (em termos geográficos) não se percebe a decisão de deixar a Sonae com esta posição.
É claro que, para estas contas, o que se faz é contabilizar todas as superfícies comerciais (incluindo a pequena mercearia de bairro) para se chegar à conclusão que em termos de m2 a posição não é dominante... Como se diz: "Enganem-nos que nós gostamos".
Ah...Um pequeno pormenor interessante: O Carrefour de Telheiras é um dos hipers do Grupo que mais vende em Portugal... Posição dominante e não é pequena...».

Natural? Quiçá

O Luís Paixão Martins considera «natural que um grupo empresarial, no momento de escolher um especialista de comunicação, olhe para o mercado dos jornalistas». Contra vontade, por achar que as empresas deveriam antes procurar esses «especialistas» entre os profissionais do nosso sector (como eu, é evidente), sou forçado a dar-lhe razão. Martim Avillez para a Sonae, Paulo Camacho para a PT Multimédia, Sérgio Figueiredo para a Fundação EDP…Who’s next?

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Nós e os outros

Corta-Fitas nomeado entre os melhores blogues generalistas do ano. Aqui.

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Palavras que odeio (57)

Desiderato

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Ler os outros

"É papel do cristão ser ao mesmo tempo estrangeiro e presente ao seu tempo.
Estrangeiro às suas ilusões e presente a todos os males que derivam dessas ilusões."

Gustave Thibon, via Pe. Pedro no Fora de Estrutura

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Terça-feira, Dezembro 11, 2007

Soundbyte (também) é cultura

«O senhor é o Afonso Costa dos impostos».
Paulo Portas para José Sócrates

Theobroma*


Fontes de chocolate. Cartões de visita impressos em chocolate. Creme para a cara ou as mãos com chocolate. E ainda, imagine-se, soutiens e cuecas bombom.
*Para uma explicação do título visite-se a página da Chic Chocolate aqui.

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Retórica e mais retórica e mais retórica


"A cimeira União Europeia-África foi muito importante", proclamam os propagandistas de serviço. Porquê? Simplesmente por se ter realizado, respondem, como se estivéssemos perante uma questão de fé: a escassez de resultados é inversamente proporcional à propaganda política em louvor e glória dos chefes. E no entanto há sempre um ou outro jornalista que faz as perguntas incómodas. De concreto, o que adiantou esta cimeira sobre o genocídio no Darfur? E sobre o drama do Zimbábue, onde diariamente são espezinhados os mais elementares direitos humanos? E sobre a gravíssima questão das migrações em massa? Nada de concreto. Houve umas proclamações genéricas sobre a necessidade de assegurar a "boa governança" no continente mais desgovernado do mundo, garantiu-se outra monumental injecção de capitais com a certeza antecipada de que a maior parte desta verba só servirá para engordar a corrupta e despótica classe dirigente africana. O que sobra? Retórica, pura retórica. Já ficámos todos com as consciências um pouco mais aliviadas a troco de coisa nenhuma. E toca a consumir, que é Natal.

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Gostei de ler

O espírito. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.
Porto Ferreira. Da Leonor Barros, na Geração Rasca.
Ah, mas isso... Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.
Foi um sucesso pá, não foi? Do Pedro Sales, no Zero de Conduta.
Isto sim, é criminalidade de qualidade! De Nuno Pombo, nos Incontinentes Verbais.
Sementes de violência. Do Paulo Cunha Porto, n' As Afinidades Efectivas.
A assobiar... Do João Severino, no Pau Para Toda a Obra.
O fuso. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
O pão aos bocados. Da Ana Cláudia Vicente, nos Quatro Caminhos.
Ler os outros. Do Sérgio Lavos, no Auto-Retrato.

Estes tuvanos são doidos

«Como alerta ao turista mais desprevenido, refira-se que existe na população local uma alta taxa de infecção por sífilis. A causa para tal é atribuível a uma elevada promiscuidade sexual, decorrente da tradição cultural e religiosa dos tuvanos que estabelece que a mulher é tanto mais fértil quanto maior for o número de parceiros sexuais que ela tiver tido antes do casamento…». A. Teixeira, no Herdeiro de Aécio.

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Palavras que odeio (56)

Psiché

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Salvem o bacalhau

Esta manhã, um benemérito ecologista aos microfones da Antena um, aconselhava o desvalido povo nesta quadra festiva a reduzir o consumo de bacalhau, que consta estar em vias de extinção. O educador aconselhava piedosamente os ouvintes a preferi-lo crescido, em detrimento do desbarbado fiel-amigo com toda a sua promissora carreira pela frente (os americanos, imperialistas de tradições infanticidas, comem-nos muito pequeninos em saborosos filetes).
Sensibilizado, questionei-me sobre que obscuro comité, ou socializante célula governamental, a bem da tradição popular e em prejuízo da subsistência do bicho, estará secretamente a subsidiar a distribuição deste bem amado pitéu? Ou que vigorosa entidade será esta que pervertendo a reguladora lei da oferta e da procura, promove o consumo do bacalhau caro em detrimento do outro, em nome de uma terrível ameaça de extinção?

Na imagem: Trufas; o seu exorbitante preço chega a atingir €4.000 o quilo.

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E sempre a rodar

Vê-se bem que o Pedro é um homem caseiro

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Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Nas colunas

Dedicada à nossa Cristina

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Não sigamos os sapatos Prada

O que é que Sócrates parece? Parece um político. E então?
Quando a discussão sobre a governação entra no terreno do que Sócrates parece - como tem vindo a acontecer desde a entrevista ao El Pais, agravado pela Cimeira e pela crónica de Vasco Pulido Valente no Público de ontem- ele já ganhou.
O terreno do "parece" é-lhe favorável. Nada nos assegura que os líderes que parecem políticos perfeitos são maus primeiros-ministros (e podem crer que foi estranho escrever esta frase). Não é por aí.

Dissonância e concordância


1. Não posso concordar com o que o nosso Pedro escreveu abaixo. Eu, pelo menos, senti no texto que introduziu a entrevista ao El País um travo reforçado de sabor irónico. Onde o Pedro viu elogios, observei a desmontagem de uma pose. Escrever que «dá a impressão que governa um continente inteiro» é outra forma de dizer que «ele não se enxerga». Chamar a alguém - especialmente a um político - um «actor consumado» é apontar o dedo à ausência de verdadeiro conteúdo em detrimento do marketing e da forma. No cômputo geral, de uma maneira subtil, Sócrates surge como a formiguinha suada, trabalhadora e esforçada, que adopta a postura de quem gostaria de voar não tendo asas, antes sapatos Prada que o agarram à terra mais chã.
2. Na entrevista, como em especial no discurso de encerramento da Cimeira, a ausência de conteúdo relevante que o eleve a um nível de Estado é aliás evidente. Momentos históricos pedem discursos históricos. O blá blá blá com que Sócrates recheou o seu discurso é revelador de que lhe faltam capacidade retórica (no sentido clássico) e ghost writers com bagagem. Mas é, acima de tudo, a demonstração de ausência de algo intrinsecamente Maior: A capacidade de partilhar um desígnio colectivo, uma missão nacional, uma visão mobilizadora. Dir-me-ão que Sócrates não é nenhum Kennedy ou Churchill. Pois não será. Mas, como bem escrevia o nosso FAL ainda ontem, não foi preciso muito a Sarkozy para «em vez de despachar aquilo em dez ou quinze minutos com frases vazias», discursar durante 40 minutos com a lucidez, a clareza e o poder de afirmação de quem sabe o que vale, o que quer e por onde vai.

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Repressão total

Numa viragem de tendência, em 2007 as mortes na estrada em Portugal prevêem-se de novo em crescimento. Nos primeiros onze meses do ano, mais de oitocentos portugueses perderam a vida em acidentes de viação. Um número assustador se da abstracção dos números “descermos” um pouco à terra, aos implícitos dramas reais.
Na semana passada, quando com a família me deslocava a Alcácer na estrada nacional, aconteceu-me por duas vezes ter sido “empurrado” para a berma pelos habituais fangios de fim-de-semana quando ultrapassavam o seu “comboio” de trânsito numa imaginária segunda faixa. Os sustos foram grandes e confesso que, apesar da minha longa experiência de condução, não me parecia possível que a arrogância e a inconsciência pudessem chegar a tanto. Pensei para com os meus botões que estes artistas da estrada eram indígenas que, conhecendo aquela estrada, davam como adquirida a qualidade do piso das suas bermas, para onde literalmente atiravam os carros que apanhavam em sentido contrário. Provavelmente engano-me e são apenas homicidas encartados, que é o que acontece com grande parte dos portugueses quando conduzem. No fundo, o bom do Tuga, boçal e sem qualquer noção de civismo, costumeiramente testa a sua frustrada virilidade ao volante. Pagamos o preço duma cultura de brandos costumes, tradicionalmente paternalista e desresponsabilizadora: nas estradas deste Jardim à Beira Mar Plantado impera impunemente a selvajaria e arbitrariedade, um salve-se quem puder, para o qual as autoridades teimam em fechar os olhos.
Tenho uma amiga minha que conduz SEMPRE à velocidade legal, e por seguir escrupulosamente as regras torna-se quase perigosa, no meio do caos improvisado nas estradas nacionais. Chamam-lhe louca, mas de facto os loucos são os outros que a seu bel-prazer reinventam as regras consoante a conveniência.
Contra o tradicional relativismo legal, a indolente tolerância latina, hoje não tenho dúvidas em advogar uma radical revolução cultural: a intolerância total, a repressão pesada aos prevaricadores. Defendo uma acção de âmbito nacional, com dolorosas multas e penas e sem prazo final. Assim, salvavam-se algumas vidas humanas, e - à atenção dos Srs. Políticos - era bom para o deficit das contas públicas além de melhorar as estatísticas.
E, enquanto não chegasse a civilização ao ensino e às famílias portuguesas, com estas medidas ganhávamos todos, ou pelo menos ganhávamos aqueles para quem o automóvel é só um meio de transporte e para quem a morte e o sofrimento requerem se possível um sentido maior.

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O homem perfeito


Imagine-se um entrevistado a dar-se ao luxo de escolher o fotógrafo que o retratará para uma entrevista. Estrela de Hollywood, barão da finança londrina? Não é preciso ir tão longe. Aconteceu por cá, com José Sócrates. O sempre tão reservado primeiro-ministro português, que raramente se deixa entrevistar ou fotografar na intimidade, quebrou a regra com o El País. O jornal espanhol foi no engodo: prescindiu de trazer a Lisboa um dos seus repórteres fotográficos, aceitando o amigo de Sócrates para fazer os "bonecos". E deu-lhe protagonismo com uma prosa encomiástica, que transborda veneração em cada parágrafo. Sócrates, garante o El País neste panegírico (recorro à tradução do Expresso, que transcreveu o trabalho), "nunca duvida, dir-se-ia que tem sempre razão". É "um actor consumado, um político profissional". Até "dá a impressão que governa um continente inteiro". Para aqui chegar, "teve de fazer uma longa corrida de fundo. Uma corrida suada, trabalhada e mastigada passo a passo, onde se adivinha vocação, dinamismo, habilidade para se mover nos bastidores e um prodigioso sentido negocial". António Ferro não diria menos no seu livro sobre Salazar...
Cansados de tanta graxa? Aguentem, pois há mais: "Imbuído da sua dupla missão (deixar a sua marca e reformar o País), Sócrates não desanima. Exerce o poder sem olhar pelo retrovisor, caminha em frente, despacha as críticas com desenvoltura e encontrou na Europa um cenário à medida da sua ambição". O El País, bem habituado a louvar o poder socialista, interroga-se: "O homem perfeito?" É escusado o ponto de interrogação: claro que ele é perfeito. Direi mesmo mais: é porreiro. Pá.

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Palavras que odeio (55)

Jucundo

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Domingo, Dezembro 09, 2007

Show Sarko

Ontem tive a oportunidade de assistir à conferência de imprensa de Nicolas Sarkozy, na Cimeira UE-África, e só posso dizer-vos que o Presidente francês confirmou, ao vivo, grande parte das ideias que tinha sobre ele. É um político de excepção. Em primeiro lugar, o respeito pela imprensa internacional: não fugiu a uma única pergunta, não foi arrogante uma única vez e houve pelo menos dez "últimas questões" que lhe foram colocadas. Em vez de despachar aquilo em dez ou quinze minutos com frases vazias, Sarkozy esteve praticamente 40 minutos a falar com a comunicação social internacional. E não se ficou por matérias exclusivamente ligadas à cimeira em curso.
Explicou em pormenor os encontros bilaterais que teve, em especial com Zapatero (sobre o combate ao terrorismo). "Sarko" foi claríssimo: disse que os inimigos da democracia espanhola são os inimigos da França, numa alusão aos terroristas da ETA, a quem chamou de "assassinos". Sarkozy disse concordar com tudo o que Merkel tinha dito do Zimbabwe e de Mugabe, falou no Darfur e não se esqueceu do que se está a passar ali ao lado no Chade. Para o Presidente francês não faz sentido haver "forças híbridas" num lado e forças da UE noutro. Para ele, a UE tem que estar pronta para intervir em qualquer cenário.
Numa lição de diplomacia, alta diplomacia, Sarkozy explicou ainda por que razão fala com Khadafi (e vai recebê-lo em Paris) e com Chávez. Lembrou que, no primeiro caso, só foi à Líbia depois de serem libertadas as enfermeiras e de o ditador ter reconhecido a sua responsabilidade no atentado de Lockerbie, indemnizando a família das vítimas. Nessa altura, citou um por um os chefes de Estado que visitaram antes dele a Líbia (até o seu antecessor, Chirac). E disse isto: "A França tem os seus aliados, os seus amigos e os países com quem tem que falar". Estes últimos para resolver problemas importantes. Por isso fala com Chávez (e desenvolveu a loucura da escalada dos preços de petróleo) e com Uribe, empenhado que está na libertação pelas FARC de Ingrid Betancourt. "A França fala com todo o mundo", disse a certa altura.
Para verem o que é alta diplomacia, Sarkozy chegou ao ponto de dizer que "os mesmos que diziam que eu era (e sou) um amigo do Bush são os mesmos que dizem que sou amigo dos inimigos do Bush". Por estas e por outras razões é que Sarkozy foi verdadeiramente o único que ontem se sentiu à vontade para alinhar com as palavras de Merkel sobre a situação política no Zimbabwe. A França tem dimensão e tem um político com dimensão.

Fó-nix!



Ninguém me convence que a greve dos inspectores da ASAE não está ligada a esta overdose de dirigentes africanos fora de prazo.

Domingo - 2º do Advento

Evangelho segundo São Mateus 3, 1-12

Naqueles dias, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu baptizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem a pá na sua mão: há-de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».

Da Bíblia Sagrada
Imagem: S. João Baptista por Leonardo da Vinci, (1452-1519)

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Mercado

Excelente aquisição, esta do 31 da Armada.

Sábado, Dezembro 08, 2007

Grandes contos (10): Hemingway

Existe algo a que possamos chamar o conto mais belo de sempre? Sim: é um texto que só nos fala de ilusões. Foi escrito por um americano apaixonado por Espanha e passa-se em Madrid, num dos anos mais funestos de que há memória. É um impressionante retrato de um país que não tardaria a mergulhar num dilacerante conflito cujo rasto perdura.
Falo de um conto intitulado A Capital do Mundo, que Ernest Hemingway publicou em Junho de 1936, já entre presságios da guerra civil. Toda a acção decorre no espaço fechado de uma pensão na calle San Jeronimo, perfeito microcosmos de uma Espanha em convulsão. O herói desta saga é um adolescente chamado Paco. Não poderia haver nome mais vulgar – e por isso mesmo tão simbólico. Este Paco, um miúdo órfão, veio da província em busca de um lugar ao sol na fervilhante Madrid da II República, efémera “capital do Mundo”. É na cozinha da pensão Luarca, entre panelas e pratos, que Paco dá largas à imaginação: sonha ser um toureiro, em traje de luces, aplaudido por milhares em delírio numa faiscante tarde de glória. O sonho de qualquer miúdo espanhol da época.
Os sonhos não tardaram a ruir. E nem era preciso sair da sala de refeições da pensão para perceber isso. Lá estavam dois padres galegos, pregando que “não se pode ir contra a autoridade” e ruminando contra Madrid, “que mata a Espanha”. Lá estava o empregado anarquista defendendo a vantagem de “matar cada touro e cada padre”. E lá surgiam três toureiros, ilusórios ídolos das massas: “um estava doente e tentava ocultá-lo, outro passara de moda e o terceiro era um cobarde”. Uma cornada “logo na sua primeira época de matador de cartaz” deixara-o incapaz de voltar a olhar um touro de frente. Era um drama íntimo, desconhecido das multidões – e tanto mais pungente quanto mais ele procurava disfarçá-lo naquela Espanha em que todas as aparências iludiam.
Paco bebia o ambiente circundante: “desejava ser um bom católico, um revolucionário e também gostaria de ser toureiro”. Se o destino o permitisse, haveria de conhecer tempos de triunfo, haveria de matar um miúra a las cinco en punto de la tarde.
Mas o destino não o permitiu: morreria tragicamente, naquele mesmo espaço fechado, naquela mesma noite, enquanto as irmãs mais velhas – também empregadas da pensão – viam uma decepcionante fita protagonizada por Greta Garbo num cinema da Gran Vía. Morreria com a graça e a dignidade de todos os heróis de Hemingway, personagens tocados pela tragédia. Não colhido por um touro, mas por uma traiçoeira faca de cozinha que lhe rasgou a artéria femural.
A “capital do mundo” dobrava a finados: faltava muito pouco para irromper a guerra, com o seu macabro cortejo de um milhão de vítimas. Mortes tão absurdas como a de Paco, que nunca conseguiu ser toureiro nem viu chegar a revolução libertadora que o seu colega anarquista profetizava. A Espanha moderna e cheia de luzes era afinal tão bárbara e ancestral como os espectros das telas de El Greco, era tão faminta de sangue como os grotescos vultos pintados por Goya.
Hemingway percebeu isso antes de qualquer outro nesta "exposição quase cervantina das falsas ilusões de quem vivia em Madrid durante a República", como anotou Edward Stanton – prova evidente de que os melhores escritores são também excelentes oráculos. Madrid, sim, capital do mundo. Mas de um mundo lunar onde os Pacos não viveriam para ver o raiar do sol. Um mundo povoado de sombras, prestes a desembocar num mar de cinzas. Fala-se agora tanto na necessidade de resgatar os fantasmas da guerra civil: releia-se este conto premonitório para se perceber melhor a génese desse imenso pesadelo.
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Retomo a série que havia interrompido aqui, com um conto de Sophia de Mello Breyner Andresen. Anteriormente escrevi também outro sobre Hemingway. E ainda sobre Albert Camus, Jorge Luis Borges, Raymond Carver, James Joyce, Rubem Fonseca, Vergílio Ferreira e Cardoso Pires. A série prossegue agora a um ritmo quinzenal.

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Blogues em revista

Mar Salgado: "Kadhafi repete o discurso que, em Portugal, qualquer professor de liceu do BE e o dr. Mário Soares repetem: que o Mal começou com o colonialismo e que o terrorismo – como tudo que é nefasto – se deve à acção predatória do Ocidente branco; e quer indemnizações. É bom, é muito bom que seja Kadhafi a dizer estas coisas." (Filipe Nunes Vicente)
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Portugal dos Pequeninos: "Uns quantos portuguesinhos foram manifestar-se para a Expo contra a Inglaterra e a favor de Mugabe, o "libertador". Também há rapaziada pró Líbia, com umas bandeirinhas verdes e uns cachecóis "à Arafat". Estes parvalhões mereciam ser despejados, de um helicóptero, em pleno Darfur, por exemplo, para se "manifestarem" e verem o que é bom. Em tempo real." (João Gonçalves)
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Porta do Vento: "Não percebo porque é que chamam Cimeira a uma tal exibição de ditadores implacáveis e desumanos, tratados pela Europa com todas as honrarias, como se fossem gente de carácter e digna de admiração. (...) Eu chamar-lhe-ia, antes, uma Baixeira." (Ana Vidal)
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Quarta República: "No discurso de abertura, Sócrates apelidou a Cimeira da UE com África como uma 'cimeira entre iguais'. Iguala-se assim aos ditadores do Zimbabwe, da Somália, do Sudão, da República Centro-Africana, nem vale a pena continuar neste interminável rol de déspotas corruptos. Nivelamento por baixo, indigno, boçal, quaisquer que sejam as intenções!!" (Pinho Cardão)
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Blasfémias: "Kadhafi pede a europeus devolução das ‘riquezas roubadas'. Kadhafi tem razão. Há muita riqueza roubada nas contas bancárias que o ditadores africanos têm na Suiça." (João Miranda)

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Sócrates e Mugabe, a mesma luta

"Esta é uma cimeira entre iguais."
Primeiro-ministro português

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Uma feira de horrores

Não consigo passar ao lado. A minha terra encheu-se de sanguinários canalhas a deambular na inútil feira de vaidades patrocinada pela Europa dita “civilizada”. Uma feira de horrores, uma exibição despudorada das mais medonhas degenerações humanas. Um sucesso mediático aqui no burgo: em directo, debaixo das objectivas e dos holofotes, cada trupe luta por um minuto de fama para o seu impune líder, uma gloriosa menção nas noticias, estéril bramido para a História indiferente.
E porquê não os prendem? - pergunta-me ingénua a minha enteada.
Depois, de estômago revirado, verificarmos impotentes a África real, com cheiro a terra seca e sangue, muito sangue. Um continente em lancinante sofrimento, pleno de arbitrariedade e dor. Não são efeitos digitais que deformam aquelas mulheres que se alimentam de detritos na lixeira. É só assim que alimentarão um pequenito esqueleto de olhos vidrados que levam às costas. Não são figuras da playstation, aquelas crianças esbugalhadas arrastando uma metralhadora para parte nenhuma. E o bebé, da idade do meu, no meio do deserto a comer ervas secas também não é ficção, é demasiado real.
Vergonhosamente mais de dois mil anos passados sobre o nascimento de Cristo, todos somos cúmplices desta mal contada história diabólica. Permanecemos uns bárbaros. E isso incomoda-me muitíssimo.

Na imagem: criança ugandesa.

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Palavras que odeio (54)

Egrégio

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Se a baixa ordinarice não tem uma cara...

O seu promotor tem e chama-se Daniel Oliveira... Patológico, este arrepiante "humor".

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O problema é este mesmo

Há sempre um mas para justificar os piores desmandos dos piores ditadores.

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The super raw smack down 2007

Uma mulher muito sábia com quem trabalhei explicou-me uma vez que um dos segredos do sucesso do seu casamento era uma boa repartição do poder. "Ele fica com as macro-decisões: a paz no mundo, o combate ao aquecimento global, a necessidade de haver mais capacetes azuis para reforçar as Nações Unidas, etc. Eu decido as coisas mais miúdas tais como onde vamos passar férias, qual a altura para trocar de carro, etc...".
Lembrei-me dela nestes dois dias em que já me cruzei com comitivas de carros negros em alta velocidade e cheias de sirenes. Confesso, eu pensava que essa coisa da cimeira era um jogo virtual. Reconheço agora que, embora continue a ser um jogo parvo de rapazes, é mesmo real.
A um nível tão macro, o poder de influência deste tipo de reuniões na vida das pessoas é nulo. Ou alguém acredita que, depois desta cimeira, vai mudar alguma coisa na Europa ou em África? Bem sei que a diplomacia é mesmo assim e faz falta, mas ninguém me tira esta sensação de que, enquanto os líderes europeus e africanos decidem coisas sobre os dois continentes, bem que nos podiam deixar decidir coisas miúdas tais como quem vai pagar os contadores digitais da EDP.

Homo Socraticus (6)

Boris Tadić é o presidente da Sérvia. É psicólogo de profissão (o que, na política, ajuda muito) e presidente do Partido Social-Democrata local. Foi quase tudo nas várias versões da sua pátria: ministro das Telecomunicações da Jugoslávia; ministro da Defesa da Sérvia e Montenegro; e agora presidente da república da Sérvia. Boris (vamos chamar-lhe assim) teve um papel fundamental na revolução bulldozer de 2000 e em 2004 colheu alguns lucros com isso, ao derrotar o nacionalista Tomislav Nikolic. Tem 49 anos (quase a mesma idade do nosso primeiro-ministro) e usa o mesmo tipo de fatinhos e gravatinhas monocolores.

Kadhafi no seu melhor


Não assistiu ao espectáculo de boas-vindas porque estava cansado. Recusou-se a beber o sumo de laranja que lhe estenderam numa recepção e pôs no prato uma chamuça e um pouco de fruta que depois desfez com uma careta, sem provar. Das suas primeiras declarações saíram logo farpas, como esta: que os países colonizadores deviam indemnizar os colonizados.

Também referiu ontem que a democracia parlamentar é "uma democracia falhada", prova disso é que "se há manifestações é porque os deputados não conseguiram representar o povo".

Vê-se com que espírito é que o senhor Kadhafi veio a esta cimeira. Sua majestade imperial veio para desdenhar de tudo e eventualmente condescender em fazer alguns negócios com os empresários que se abeiraram da sua excelsa pessoa.

Os anfitriões vão precisar de beber muita água com gás para ajudar à digestão deste e outros números que se adivinham.

Ninguém cheirou o teu bacalhau!!

Como terá sido? Atrás de uma árvore? Numa esquina? Num corredor escuro? Num vão de escada? Raios! Bastaria um telemóvel com câmara e por mais que te esforçasses não serias bem sucedido. Mas num país com 90% de utilizadores de telemóvel não houve uma alminha que estivesse no sítio certo, à hora certa, para filmar o bacalhau que estendeste a Mugabe.
Seria uma foto para a posteridade... tens a noção disso, não tens? Ah, pois claro que tens!!

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Dada a quantidade de facínoras por m2


É em dias como o de hoje que o Dalai Lama não ter sido recebido faz todo o sentido, não acham?
Fotografia: Alexandra Silva

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Entre a pose de Estado e o "souvenir"

Ao olhar hoje para os jornais, não pude deixar de reparar nas fotografias do nosso (vosso) ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, sentado dentro da tenda de Kadhafi. As "fotos" (hoje em dia fala-se e escreve-se assim) que vi dizem tudo. Ou quase tudo. De um lado um ditador, levemente sorridente, do outro, um ministro exultante, de gargalhada fácil e com uma pose que não classifico como "de Estado". Sucede que aquela pose é de fotografia de souvenir, para mostrar aos filhos e aos netos. Enfim, são os dirigentes que temos.

Cuidado, há ditadores por perto

Cimeira UE-África? Prefiro chamar-lhe Cimeira dos Ditadores. É um facto histórico. Nunca estiveram tantos concentrados na mesma ocasião em Lisboa. Acautelem-se.

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A inveja é um sentimento muito feio


Mas, tenho mesmo que que dizê-lo, considero que o Ricardo Araújo Pereira é aquilo que em bom inglês se apelida um «lucky bastard». Não por ganhar balúrdios com a aparência de não mexer uma palha, mal de mim. Mas sim por ter entrevistado e abraçado Terry Jones, numa entrevista ainda por cima antológica hoje publicada no Destak. Todos percebem certamente o que estou a dizer, excepto aqueles que ignoram quem é Terry Jones e não merecem ser leitores deste blogue. (Sim, é verdade, continuo mal disposto desde o momento Coca-Cola «but that is beside the point»). Versão integral da entrevista aqui. E os vídeos da mesma aqui.

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Monólogo de civilizações


Uma professora de inglês no Sudão foi detida pela polícia deste país e submetida à "justiça" islâmica, sujeitando-se a receber 40 chibatadas por um gravíssimo delito. Que delito era esse? Numa aula, permitiu que os seus alunos de tenra idade chamassem Maomé a um ursinho de peluche. Parece um pesadelo kafkiano, mas é a pura realidade. No ano da graça de 2007, neste século XXI que nas avenidas mais cosmopolitas do planeta reclama a jornada de trabalho de 35 horas e os direitos das baleias. Neste mesmo planeta, nesta mesma época, embora num continente diferente do nosso, há países onde a "justiça" se confunde com o primarismo mais básico e mais bárbaro. Valeu à professora o esforço de dois lordes britânicos que seguem a religião muçulmana: lá convenceram ambos o ditador islâmico do Sudão, uma personagem repugnante chamada Omar Al-Bashir, a libertar a professora, expulsando-a do país. Dadas as circunstâncias, esta deportação arbitrária acabou por ser uma bênção para a britânica. Resta acrescentar que Bashir vem a Lisboa, como se fosse o representante de uma nação civilizada, e aqui será recebido amanhã com todas as vénias e todas as honras por José Sócrates, presidente em funções da União Europeia. Bem sei que a política é a arte do possível, mas devia haver limites para o contorcionismo e o jogo de cintura nas chancelarias ocidentais que somam concessões às figuras mais sinistras. Em nome de um "diálogo de civilizações" que não é diálogo, mas monólogo. Graças a ele, a barbárie vai ganhando terreno enquanto as "boas consciências" encolhem os ombros, estupidamente apaziguadas.

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Sem título

Já li, Henrique. Um grande e apertado abraço para ti.

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O "libertador" Mugabe

O Filipe não gostou disto. Eu também não.

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Assim não

É com profunda tristeza que assisto aqui no Corta-Fitas ao extremar de uma batalha intestina que promete criar profundas clivagens no seio (seio?) de uma família até agora tão unida. Enquanto em blogues de referência como o da Atlântico as questões fracturantes são tão sérias quanto a Direita, a Esquerda, o racismo e os tomates (tomates?), aqui é o poder de colocar homens com mamilos à mostra que está em causa e em debate. Não é, há que admiti-lo, prestigiante.
Em jeito de contributo para a pacificação das hostes e antes que o Conselho de Curadores tome alguma medida mais drástica, relembro às senhoras que nas revistas femininas onde mandam mulheres e que são compradas por mulheres as capas são sempre, mas sempre, mulheres. E porquê? Hem? Porque vós não comprais revistas com gajos de peitorais ao léu. Preferis ver outras mulheres assim lindas e estupendaças, normalmente balzaquianas. Tendes bom gosto, vós as mulheres. E não estou a acusar-vos de tendências sáficas colectivas, antes de uma saudável auto-estima de género. Decorre deste raciocínio que também não apreciarão vós mesmas visitar blogues com operários ostentando potentes bíceps estilo hora Coca-Cola Light. Numa frase só: Assim não vão lá. Dito de outra forma: Assim dão a este blogue um ambiente pior do que o de uma residência Erasmus, ainda por cima num dia como a sexta-feira sempre tão luminoso, na sua tranquilidade e paz. Meditai.

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Peguei-te inteiro e meti-te na sexta...


Hoje não há conversa. Aliás, palavras para quê?

Bom fim-de-semana para o gamanço

«Mais de 3250 agentes da polícia garantem a segurança de 144 altas entidades». Público

Sexy sexta

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Momento publicitário

Na qualidade de vizinho temporário de Kadhafi, sigo com atenção os anúncios que tem publicado na imprensa diária. Enquanto uns defendem a utilização de minas como arma de defesa territorial, outros criticam o uso de metralhadoras ligeiras pela sua capacidade de matança embora salvaguardando as restantes armas convencionais. Não percebo se o líbio quer arvorar-se em ONG ou se está preocupado com uma invasão. Até ao momento, não se falou em mísseis.
Já agora, quem é o copy português encarregue desta burlesca missão? Rapaz: Se procuras emprego melhor, envia aí o teu endereço de mail para a caixa de correio. Conquistaste a minha compaixão. Não podes é voltar a escrever «está próximo de que imagina dos esclarecimentos». Não é linguagem de gente. Ou que «só aqui poderá distinguir uma linha branca do resto das linhas». É que não faz sentido, percebes? Pensando bem, continua onde estás.

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Palavras que odeio (53)

Postura

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Previsão da noite

Se as eleições legislativas fossem hoje, a abstenção rondaria os 60%.

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Quando a pedofilia ainda gatinhava


A Grã-Bretanha, paradigma das liberdades públicas? Parece que não – a começar pela mãe de todas as liberdades, que é a de expressão. O falecido cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti revelou nas suas memórias (ainda inéditas, mas agora tornadas parcialmente públicas) que só uma viagem precipitada para o México livrou Graham Greene da prisão. Por delito de opinião na “livre Inglaterra” de 1938. Nem a reputação que já tinha como um dos mais célebres escritores britânicos o livrou da ira justiceira dos tribunais do seu país. Tudo por causa de um parágrafo contido numa crítica de cinema que subscreveu na revista londrina Night and Day.
Greene, apaixonado espectador de cinema, foi ver um filme protagonizado por Shirley Temple – a menina-prodígio daquela época em Hollywood – e não gostou. O filme era Wee Willie Winkie, uma fita atípica de John Ford, baseada num conto de Kipling. Shirley, com os seus caracóis dourados, irritou o escritor, que a julgou nestes termos: “Os seus admiradores – homens de meia idade e clérigos – reagem à sua coqueteria subtil, à visão do seu bem torneado e desejável corpo...”
O problema é que Shirley Temple tinha apenas nove anos quando esta crítica foi publicada, a 28 de Novembro de 1937 – fez agora 60 anos. E embora a pedofilia estivesse então muito longe de fazer manchetes destinadas a traçar novas fronteiras de moralidade pública, a 20th Century Fox – o estúdio que produziu o filme – moveu uma queixa-crime contra o autor. A revista era editada em Inglaterra, o filme era americano – e Shirley nunca deve ter lido aquelas linhas. Mesmo assim, a queixa seguiu o seu curso. Com resultados desastrosos para a liberdade de imprensa: o tribunal considerou-a procedente, o crítico e os proprietários da revista foram condenados a pagar uma pesada indemnização compensatória.
Greene viria a mencionar este episódio muitos anos depois, no segundo volume da sua autobiografia, Caminhos de Evasão (1980). “Esta difamação é, na verdade, uma ofensa muito grave”, concluiu Lord Hewart, o juiz que presidiu ao julgamento. A Night and Day cessou a publicação (apesar de contar com colaboradores tão prestigiados como Herbert Read e Evelyn Waugh), Shirley Temple recebeu duas mil libras e o estúdio milionário embolsou 1500. Greene ficou a partir daí com ficha na Scotland Yard. E, segundo os apontamentos de Cavalcanti (agora revelados pelo jornalista Andrew Johnson no Independent), só escapou da prisão preventiva por ter sido avisado in extremis a deixar o país: partiu para o México a 29 de Janeiro de 1938 e só regressou em Maio. O julgamento decorreu a 22 de Março.


Esta partida apressada acabou por ser decisiva na vida de Greene. Foi no México das grandes perseguições religiosas que este católico heterodoxo começou a escrever O Poder e a Glória, a primeira das suas obras-primas sobre a condição humana atormentada pela culpa num mundo onde as barreiras morais estão cada vez mais diluídas. “É muito mais difícil curar o espírito do que o corpo”, dizia uma das personagens de outro dos seus melhores romances, Um Caso Arrumado.
Escritas entre o início da década de 30 e o início dos anos 40, sobretudo nas páginas da Spectator, as críticas de cinema de Greene – reunidas em volume após a sua morte, em 1991, aos 87 anos – sobreviveram ao contexto em que surgiram mais pela forma do que pelo conteúdo. The Graham Greene Film Reader (1993) revela-nos uma escrita elegante e acutilante, mas que por vezes cede à tentação da arrogância. Ao relê-las, quatro décadas depois, ele próprio encontrou nelas “muitos preconceitos que a saudade já modificou”. Exemplos? Greta Garbo era comparada a uma “égua árabe”, os filmes de Hitchcock “não levavam a nada” e o glorioso technicolor chegava a ser acusado de “destruir os rostos femininos”.
Este tom trouxe-lhe dissabores de vária ordem. Um dia, ao abrir uma carta, encontrou um pedaço de excremento. “Sempre me pareceu tratar-se de trampa aristocrata”, ironizou o escritor na sua autobiografia. Tempos antes, “havia troçado cruelmente de um certo marquês francês, autor de um documentário em que desempenhava um papel heróico...” Afinal, “ninguém possui um passado transparente” – palavras do próprio Greene, no romance O Nosso Agente em Havana. Um dos mais lúcidos epitáfios que se poderá escrever de alguém. Aposto que Shirley Temple (hoje com 79 anos) seria a primeira a concordar.

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O Homem que Fez um Leasing da Alma ao Diabo

(...) – Sou católico. Quer dizer, não vou à missa ao domingo e isso, quer dizer, vou de vez em quando, não sou é dado a liturgias, acho que cada um tem a sua maneira de ver, e sou um espírito demasiado independente para me deixar arrebanhar, não sei se está a ver, mas respeito quem pensar diferente de mim – dizia, mas bebendo as palavras que esperava ver sair a todo o momento dos lábios finos do homem da gravata encarnada, buscando concordância. – Basicamente, acredito que há qualquer coisa para além disto tudo, depois de morrermos, não sei bem o quê, mas creio nisso... creio eu. (...) >>Ler tudo>>

Uma pérola do Jorge “Dalai” Lima dos Incontinentes Verbais. Leiam que vale a pena!

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Homo Socraticus (5)

Donald Tusk é o primeiro-ministro da Polónia, que, como se sabe, teve a infelicidade de suceder a um dos gémeos Kaczyński (no caso, Jarosław). Ele foi, enquanto estudante, um opositor do regime comunista pró-sovíético e agora é um dos líderes da Plataforma Cívica (coligado com os centristas), que ganhou as eleições neste Outono. Difere de outros por ser assumidamente liberal e não encapotado. Mal tomou posse, anunciou que as "picardias" entre a Polónia e a União Europeia tinham que terminar, demonstrando todo o seu forte empenho europeísta. Consta que as relações com o gémeo que é presidente da república são tão más que a tomada de posse, em Novembro passado, durou minutos e que a audiência institucional não passou de um quarto de hora. Na aparência, Donald é mais um daqueles governantes plásticos e iguais uns aos outros, mas há quem diga que poderá ter substância. É cedo para ver.

P.S. - Tem uma filha de 20 anos, chamada Katarzyna, que é uma brasa e que já participou em programas de televisão. E parece que foi um sucesso. Ao menos isso...

Via Verde para lado nenhum

No passado dia 25 de Outubro, depois de devidamente subscritos no respectivo site, enviámos à Via verdeBrisa, um inocente e-mail questionando quais os documentos necessários para a alteração do titular de um contrato. Não podendo esperar mais, em meados do mes passado desloquei-me a Carcavelos onde regularizei finalmente a situação. Fui asperamente atendido por uma jovem arrogante e manifestamente contrariada, que se não fosse a sua "tenra idade", eu diria que tinha chegado ao “serviço” transferida de um obscuro gabinete de atendimento do Ministério da Justiça ou da Administração Interna. Com alguma sorte, levava todos os documentos necessários, incluindo o carimbo (!) da empresa e respectiva “almofada” - acessórios que se revelaram impreteríveis.
Hoje recebemos finalmente o célebre e-mail de resposta da Brisa. Esta foi uma das novidades que tive ao chegar a casa depois de alguns dias de trabalho em Londres. Afinal, à nossa maneira e ao nosso ritmo, as coisas cá em Portugal até funcionam. Assim.

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Postais blogosféricos

1. Um abraço de parabéns ao André Moura e Cunha pelo primeiro aniversário do seu actual blogue, In Absentia. Que continua cheio de pedalada.
2. Destes filmes que a Ângela menciona, há dois verdadeiramente extraordinários: Disponível para Amar e 2046. A rever sempre.
3. Só posso agradecer, naturalmente sensibilizado, esta dedicatória muito simpática de Torquato da Luz.
4. Gosto das Crónicas do Rochedo, do meu amigo Carlos Barbosa de Oliveira. E recomendo-as, claro.

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Este ditador vem a Lisboa (17)


Abdel Bouteflika

Presidente da Argélia desde 1999. Tem 70 anos.
A Argélia vive há vários anos sob um estado de emergência provocado por conflitos entre os extremistas islâmicos e o exército laico, que impôs Bouteflika na presidência, entre acusações de fraude eleitoral, no escrutínio de 1999, em que acabou por ser o único candidato. O partido radical Frente de Salvação Islâmica permanece ilegalizado, apesar de contar com forte apoio da população.
Vários direitos fundamentais, nomeadamente o direito de reunião e o direito de associação, permanecem largamente condicionados. Um decreto presidencial proíbe todas as manifestações na capital, Argel.
De acordo com a Amnistia Internacional, a prática de tortura - nomeadamente contra os opositores políticos - é ainda regularmente praticada nos estabelecimentos prisionais do país, onde permanecem impunes os membros das forças de "segurança" que fizeram "desaparecer" milhares de oposicionistas ao longo dos anos. Entre esses "desaparecidos", encontram-se jornalistas, sindicalistas e activistas dos direitos humanos.
Bouteflika é um ditador. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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A propósito de jesuítas

Coisas destas lembram-me sempre a anedota que contava o então ainda capelão João Seabra:
- Senhor padre. É verdade que um jesuíta responde sempre a uma pergunta com outra pergunta?
- Quem é que te disse isso?

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A mim é que não me comove

"Parece que me vou ficar sem marido, sem lar e sem família agora", lamentou-se, acrescentando que sua vida virou um pesadelo. AFP (Versão brasileira)

«Santa Zita era così venerata in Toscana»

Ah, pois. Só faltava mais esta.

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Nas colunas



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Oinc, oinc


Depois disto, convém pensar duas vezes antes de chamar porco a alguém...

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Há quem lhe chame democrata...



"Una victoria de mierda!"
HUGO CHÁVEZ, reagindo - bem ao seu estilo - à derrota que sofreu e antecipando novas etapas rumo ao "socialismo".

(Via A Origem das Espécies)

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Deslumbramentos

No 31 da Armada passaram-se. Quero acreditar que foi qualquer bebida marada no Snob que os pôs assim. Até o Henrique Burnay se diz «excitado» com a entrevista de Zita Seabra que já nos obrigaram a ver duas vezes. Parece-me que alguma estimável gente de direita está a esticar-se mais do que era suposto neste affair amoroso. Tudo por causa das críticas ao PCP? Pela sua leitura do 25 de Novembro? Ó meus amigos! Há muitos e muitas que sempre as fizeram e certamente estarão disponíveis para responder a algumas perguntinhas. À esquerda, inclusive.

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Sem papas na língua

"Adoro homens que sejam homens, que não se depilem (menos os fornidos nórdicos nadadores olímpicos, claro), que não se solidarizem comigo quando tenho o período, engordei essa milésima de caganita de quilo ou a minha cabeleireira me corta um milímetro a mais de franja."
Rita Barata Silvério, in Rititi

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A arca do tesouro


O artigo de hoje no P2 do Público é mais um sério aviso sobre o que pode suceder ao nosso património, neste caso as mais de três mil páginas de manuscritos pessoanos, a maior parte das quais até agora na posse de Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa. Ou o Estado adquire o espólio ou o mercado de leilões terá em 2008 muitas e animadas sessões. Em que ficamos, senhora Ministra? E já agora, por que é que não existe ainda nenhum programa conhecido para as comemorações dos 120 anos sobre o nascimento do poeta?
Finalmente, não será altura de actualizar aqui os seus comunicados de imprensa? Ou é assim tão relevante a sua visita a Washington em Junho passado?

Em ca(u)sa própria


Leio hoje no Jornal de Negócios que a Assembleia-geral da Casa da Imprensa vai debater no próximo dia 12 uma proposta de alargamento dos seus associados. Faz sentido. Sem a comparticipação do Estado, a CI encontra-se financeiramente estrangulada e alguma coisa tinha que ser feita e depressa para impedir o descalabro das contas e garantir a prestação dos serviços.
Entre as classes profissionais que poderão passar a integrar a Casa, encontram-se «todos os trabalhadores das empresas de comunicação social» incluindo os meios audiovisuais e ainda os consultores em agências que o pretendem. Nunca entendi por que razão todos aqueles que também contribuem para a existência dos meios de comunicação estavam classificados como profissionais de 2ª e sem direito a entrada. Com esta proposta, paginadores, infográficos, administrativos e comerciais, passam a poder também pagar a sua quota e aceder às correspondentes consultas. Uma boa e democrática medida que já poderia ter sido adoptada mais cedo.

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Palavras que odeio (52)

Quiçá

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O nosso cérebro

De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea,
não ipomtra
em qaul odrem
as Lteras de uma plravaa etãso,
a úncia csioa iprotmatne
é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo.
O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol,
que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa,
mas a plravaa cmoo um tdoo.
Sohw de bloa.

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Homo Socraticus (4)

Ferenc Gyurcsány é o primeiro-ministro da Hungria e lidera o Partido Socialista local (claro). Não se sabe de onde vem a sua enorme riqueza pessoal (que chegou a ser investigada) e é muito dado a gaffes, se bem que provocadas pelo próprio na maior parte das vezes. Uma vez chamou "terroristas" aos jogadores da selecção nacional de futebol da Arábia Saudita (o que chamaria aos do Afeganistão ou do Iraque) e nas eleições de 2006 foi apanhado a dançar à Hugh Grant (parodiando Love Actually). Na sua terra natal, a oposição (e não só) acusa-o de dizer uma coisa e fazer outra. Por outras palavras, de faltar à verdade. O caso mais conhecido resultou em motins nas ruas de Budapeste, após ser conhecida uma gravação áudio, datada de Maio de 2006, em que o sr. admitia que eles, no Governo, andavam "a mentir há ano e meio ou dois anos". O pior é que o senhor já tinha ganho as eleições quando se conheceu a fita, em Setembro de 2006.
Querem saber mais? Perguntem ao Luís Naves, que conhece muito bem a personagem...

O Rex vai buscar?

Fui surpreendido nos últimos dias pela publicidade de uma das maiores operadoras nacionais de telemóveis. Então não é que a dita empresa, que tem o dedo do Estado, anda a promover um telemóvel para crianças em parceria com uma conhecida marca de brinquedos? O lema não pode ser mais ambíguo: "Mãe, se eu atirar um pau pela janela, o Rex vai buscar?"
Eu diria que o Rex tem é que estar preso com uma trela. E as criancinhas não deviam ser público alvo para este tipo de anúncios, sabendo-se que vários estudos internacionais avisam que não estão suficientemente estudados os efeitos das ondas emitidas pelos telemóveis nos mais novos. A espessura craniana é muito fina, etc. Tenho lido de tudo. Portanto não compreendo. E aproveito para sugerir que leiam uma especialista em psicologia infantil (e não só), a Teresa Paula Marques. Ela pôs os pontos nos is.

Meritocracia, pois


Em 2002 foi convidado para conduzir a reforma do ensino público em Nova Iorque. Com 35 anos de experiência no terreno, onde exerceu todos os cargos possíveis, a Eric Nadelstern ninguém precisou de explicar o que o esperava. Mas ainda assim aceitou o desafio e ao que parece com sucesso: até já o solicitam para fazer palestras por todo o mundo sobre a sua experiência.
Os princípios orientadores da reforma de Nadelstern resumem-se a duas palavras que deixam muita gente com os cabelos em pé: meritocracia e responsabilização. Este professor de 57 anos afirma não conhecer até agora melhor método para assegurar qualidade no ensino do que o que resulta da avaliação de professores e alunos, com respectivos incentivos e penalizações.
De acordo com este novo guru do ensino, a autonomia das escolas e responsabilização dos seus conselhos directivos também são fundamentais para agilizar as reformas necessárias. Ao Estado, diz ele, deve caber unicamente o estabelecimento de um conjunto eficiente de regras para estruturar o bom ensino. A gestão das escolas deve ser entregue às respectivas direcções, a que depois se deverá cobrar os resultados. Afinal como se de empresas cotadas na bolsa se tratasse.
Uma visão bárbara que só poderia ter saído da cabeça de um gringo? Se a barbárie é sujeitar o ensino público e privado aos mesmos critérios de exigência, que venha a barbárie. Já!

Eu também assino por baixo

Teresa Caeiro é a única voz audível da Direita que defende direitos de igualdade e de cidadania que considero essenciais. Questões como a defesa do casamento homossexual continuarem a ser bandeiras da Esquerda só se explicam por a Direita andar a dormir na forma.
Como é que Teresa Caeiro gere as causas que defende dentro de um partido pouco aberto à mudança? Não sei, mas a verdade é que o faz com valentia (pelo menos). E se ao seu simpático nacionalismo o PP começasse a juntar mais vezes a luta pelos direitos de cidadania tornar-se-ia um partido bem interessante.

Seis filmes


Em resposta, já atrasada, a mais esta cadeia a que o André me ligou, aqui ficam seis filmes da minha vida. Todos da década de 50, para mim a melhor de sempre na Sétima Arte. E cada um correspondente a um género diferente - western, negro, musical, comédia, drama e melodrama. Aqui vão:

A Desaparecida (de John Ford, 1956). O western dos westerns. O mais genial filme do género, com um John Wayne em estado de graça.
A Sede do Mal (de Orson Welles, 1958). O longo travelling de abertura introduz-nos numa inesquecível viagem ao fim da noite na fronteira entre dois mundos.
Serenata à Chuva (de Gene Kelly e Stanley Donen, 1952). A grande festa do cinema numa magnífica explosão de luz e dança e cor e som.
O Meu Tio (de Jacques Tati, 1958). Ninguém fazia comédia como este francês de origem russa, com um estilo visual verdadeiramente inimitável. Palavras para quê?
Hiroxima, Meu Amor (de Alain Resnais, 1959). Dois dos maiores dramas do século XX revividos por um casal de culturas antagónicas num encontro irrepetível.
As Noites de Cabíria (de Federico Fellini, 1956). Uma das mais fascinantes personagens femininas do cinema de todos os tempos, numa criação sublime de Giulietta Masina.
Passo agora a bola à Ângela, à Cristina Silva, à Cristina Vieira, à Maria e à Marta. Para também indicarem alguns dos filmes de que mais gostam.
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Gravura: fotograma de A Sede do Mal (Touch of Evil)

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Quando há duas mães

Na televisão, uma mulher já adulta, mãe de filhos, comenta o Caso Esmeralda (Ana Filipa, para os pais adoptivos). Acima de tudo, partilha a sua experiência e despede-se com a frase:
“Não me peçam para gostar da minha mãe biológica da mesma maneira que gosto da minha mãe afectiva. Não façam a esta criança o que me fizeram a mim.” Numa altura em que todos temos ou queremos ter opinião sobre o caso, estes testemunhos são provavelmente os mais válidos. Sabem do que falam.

A nova estrela da galeria Saatchi

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Candidata a uma das frases do ano

"Os meus hobbies são a câmara e o PSD."
Ribau Esteves, secretário-geral do PSD, citado pela revista Sábado

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Palavras que odeio (51)

Olvidar

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E «beijo-te os pés Daniel» não é das melhores formas de terminar

No Cinco Dias não se escreve há cinco dias.
As minhas maiores desculpas. Parece que afinal se escreve a um ritmo imparável. Eu é que preciso de limpar a cache do computador. Penitenciagite!
Ah! E foi preciso chegarem as 10 da noite para um anónimo me avisar. Cambada de madraços.

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10 coisas que (não) precisavam de saber

1. Hoje é o Dia Mundial do Voluntariado.
2. A EURIBOR atingiu o seu máximo em 7 anos.
3. Fala-se de Margarida Marante para a direcção do SOL.
4. A nossa Miss Pearls escreveu duas páginas de pérolas na nova Atlântico.
5. Kadafi publicou um anúncio de página inteira no Público.
6. A demissão de Jardim Gonçalves foi bem recebida na Bolsa.
7. A SIC garantiu a transmissão da Taça de Portugal.
8. Hoje é o Dia Mundial da Alergia.
9. Brad Pitt quer construir 150 casas ecológicas em New Orleans.
10. O presidente do Senado brasileiro demitiu-se.

Não se arranjava uma palavrinha ainda mais feia?

«Não há uma democracia escorreita». Luís Filipe Menezes

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Terça-feira, Dezembro 04, 2007

Postais blogosféricos

1. Um grande abraço de parabéns ao Jorge Ferreira, que já anda há quatro anos a tomar partido na blogosfera.
2. Um beijo de parabéns à Rititi. Porque nos faz rir, porque nos faz pensar. Escrevendo muito bem. Também há quatro anos.

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Este ditador vem a Lisboa (16)

Lansana Conté

Presidente da República da Guiné desde 1984. Tem 73 anos.
General, assumiu o poder por um golpe de Estado pouco depois da morte do fundador do país, Sékou Touré. O seu longo mandato tem-se caracterizado pela extensa violação dos mais elementares direitos humanos, segundo denunciam prestigiadas organizações internacionais. O Observatório dos Direitos Humanos, por exemplo, lembra que em Janeiro e Fevereiro deste ano a repressão de protestos antigovernamentais pelas forças de "segurança" teve um saldo sangrento: 129 mortos e 1700 feridos. A Amnistia Internacional lembra que outros opositores permanecem detidos sem julgamento.
Ao longo destes anos, Conté organizou "eleições", sempre consideradas fraudulentas pela comunidade internacional. Em 2001, promoveu um "referendo" destinado a pôr fim ao limite constitucional de renovação de mandatos presidenciais. Nesta consulta, também considerada fraudulenta, recebeu 98,4% de votos favoráveis. A organização Transparência Internacional menciona a Guiné como o segundo país mais corrupto do mundo, logo após o Haiti.
Conté é um déspota. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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O último referendo

A derrota do golpe de Estado constitucional que Hugo Chávez tinha em marcha por via referendária foi uma boa notícia para a Venezuela? Foi. E deve deixar os venezuelanos descansados? Não. O próprio presidente advertiu, logo após ter conhecido os resultados, que o projecto de Constituição destinado a conferir-lhe poderes equivalentes aos de um monarca absoluto acabará por passar, de uma forma ou de outra. A única certeza que temos, a partir de agora, é que os referendos chegaram ao fim: Chávez jamais correrá o risco de uma nova humilhação eleitoral. Até para evitar ser expulso do círculo de amigos íntimos de Fidel Castro.
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Ler também:
- O referendo na Venezuela, do Tiago Barbosa Ribeiro, no Kontratempos
- Venezuela, e agora?, do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas
- Venezuela, dia seguinte, do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies
- Azar de Chávez, de João Miranda, no Blasfémias
- Imprevisibilidade, do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos
- "Nestas condições", do Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado
- A liberdade está a passar por aqui, de António de Almeida, no Direito de Opinião
- Lo han callado, de Carlos do Carmo Carapinha, na Atlântico

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Post snob pa' caraças

O condomínio privado Infante à Lapa está com aspecto de quase pronto. Para quem não sabe, trata-se daquele mamarracho na Infante Santo que causou polémica, deu brado e foi «caso», para depois nunca mais voltar a ser mencionado (bom trabalho, rapaziada!).
Pelo aspecto exterior, pareceu-me a modos que um caixote aparentemente capaz de engolir lá dentro a Amadora inteira ou mesmo todas as famílias numerosas já entrevistadas pelo SOL. No entanto, aqui nesta página consegue parecer bonitinho e até constato que vai ter duas piscinas, o que será supimpa para quem quiser dar umas braçadas com a mesma privacidade de uma Britney Spears durante a fase Barbie Careca.
Sou forçado a admitir que Infante à Lapa é assim um nome com imeeeeenso cachet. Imagino já os residentes na Quinta do Conde da Picheleira ou no Real Palácio da Bobadela de malas aviadas para a mudança, mais a sua colecção de cãezinhos de Limoges. Graças a Lakshmi, deusa da Fortuna, moro num prédio igual a outros dois num conjunto que escapou ao baptismo. Mas ambiciono mais. Não morrerei sem ter direito à minha quota de nobreza…nem que seja feita de betão armado.

Liberdade condicionada

Os pregadores da nova liberdade condicionada só nos permitem fazer graça com as "maiorias". Espantosa tese. Por esta lógica, apenas os escandinavos passam a receber autorização para contar anedotas de louras.

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Produtividade segundo a latitude


Os níveis de produtividade dos trabalhadores no Luxemburgo estão 66% acima da média europeia, o que lhe confere a quarta posição no ranking dos países mais produtivos da Europa. Em contrapartida Portugal ocupa a 39ª posição e apresenta níveis 40% abaixo da média. Entre estas duas realidades divulgadas há dias pelos jornais, há um traço comum: os trabalhadores. Cá como lá existem muitos portugueses a contribuir para estas estatísticas (no Luxemburgo representam 20% da população activa). Só que lá parece que trabalham, aqui dizem que não.
A boa fama dos trabalhadores portugueses no mundo nunca correspondeu à imagem que cultivamos deles aqui. Essa dissonância revela bem que quando se fala de baixa produtividade nas empresas não é da competência dos executantes que estamos a falar, mas dos executivos. O tuga – justiça lhe seja feita – quando motivado comporta-se ao nível dos melhores. O resto é conversa de chefes e patrões incompetentes.

Estou (nitidamente) a passar-me


Os Scorpions aterraram hoje para mais dois concertos. Há poucas situações em que encare como legítimo o recurso à força armada em jeito de retaliação. Mas o meu dedo do gatilho começa em convulsões só de imaginar que alguém me obrigava a ouvir «Still Loving You» mais uma vez que fosse. Ao que parece, o título aplica-se. Os Scorpions amam Portugal, único país que os ouve até ao fim dos alinhamentos sem atirar-lhes garrafas e outros objectos contundentes. E Portugal, um qualquer estrambótico Portugal, ama-os e recebe-os para concertos atrás de concertos invariavelmente iguais do género «novo disco e toca o mesmo». Que Portugal é esse? Por que não estão todos os que o integram internados em clínicas para curas compulsivas? Como é que não foram ainda os seus filhos entregues à guarda do Estado? O que faz o Governo? Onde anda a oposição quando precisamos dela? Porque se reformou o Chefe Catita? «Ô ô ô ô, Still lovin…» Crack, bang bang, tumfa, tumfa, rátátátá…Ufa!

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Cállate Chávez

É o típico post que eu esperava que o Duarte Calvão fizesse - aliás, foi pressionado para o fazer -, mas, como ele não avançou, aqui vai: o grande vencedor do referendo na Venezuela foi... Juan Carlos de Borbón, Rei de Espanha. Os resultados, como é óbvio, têm várias leituras, sendo a principal a rejeição de uma série de medidas constitucionais que iam mudar a face do sistema político venezuelano. Mas desenganem-se os que julgam que a atitude de Juan Carlos e o caso ¿Por qué no te callas? não teve influência no resultado final. Teve e muito. Os venezuelanos perceberam os ecos que as palavras de Chávez tiveram no mundo inteiro. E decidiram bem. Não se deixaram condicionar.
Não é por nada, mas estou há dois dias à espera de uma daquelas brilhantes análises do dr. Soares sobre os benefícios para a saúde política de todos nós, e em especial dos venezuelanos, das medidas de Chávez. Também se calou? E aqueles blogues arrastados? Também?

In memoriam

Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (19 de Julho de 1934, Porto - 4 de Dezembro de 1980, Camarate).

Manobrismo laranjinha

O PSD e António Costa esticam a corda na Câmara de Lisboa, que ameaça tornar-se ingovernável. Se a Assembleia Municipal não aprovar esta tarde o empréstimo de 500 milhões de euros que Costa considera vital para governar o município, o executivo camarário pode cair, o que força os lisboetas a voltar às urnas. Tudo porque os sociais-democratas mantêm maioria absoluta na Assembleia Municipal - que devia ter ido a votos em Julho e não foi - e servem-se dela para procurarem travar a manobra de Costa. Como na altura referi, mesmo mantendo a legitimidade formal, a AM de maioria laranja perdeu toda a legitimidade política com o resultado eleitoral do Verão, que fez baixar para 15% a representação eleitoral dos sociais-democratas em Lisboa. Paula Teixeira da Cruz, a maior aliada de Marques Mendes neste processo, manteve-se teimosamente em funções. Quando devia ter-se demitido, não o fez. Ameaça fazê-lo agora, que é oposição interna no partido, com uma frase notável: "Eu e a minha consciência vivemos juntas há muito tempo e muito bem."
Receia a actual direcção do PSD que o empréstimo a Costa possa facilitar uma eventual maioria absoluta do PS em Lisboa nas próximas autárquicas. Erro monumental. O que facilita a vida aos socialistas é a estratégia suicidária dos sociais-democratas na capital - estratégia que vem de trás e prossegue agora. Apesar de tudo, estou convicto de que na reunião desta tarde Costa verá o empréstimo aprovado graças à conveniente ausência de alguns deputados sociais-democratas, prontos a darem duas no cravo e três na ferradura. Com tanto manobrismo e tanto tacticismo rasteiro, será quase um milagre se o PSD conservar no escrutínio de 2009 os 15% que agora tem.

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Homo Socraticus (3)

David Miliband tem apenas 42 aninhos e é o Secretary of State for Foreign and Commonwealth Affairs do Governo trabalhista de Gordon Brown. É o segundo ministro dos Negócios Estrangeiros mais novo de sempre da história inglesa e foi nomeado logo no dia seguinte à substituição de Tony Blair por Gordon Brown (sem eleições, recorde-se, mas aquilo é uma monarquia constitucional muito adulta). Para além de fanático do Arsenal, Miliband foi o primeiro político britânico a ter o seu próprio blogue. Sabe o que quer e vamos continuar a ouvir falar dele nos próximos anos. É claro que, dentro da mesma geração, eu acho muito mais divertido o Boris Johnson e até acho suportável e com sentido de humor o David Cameron. Mas isto está mesmo para os homo socraticus. Cinzentos, cinzentos, tirando as gravatinhas, encarnadas ou azul cueca. E já repararam que, nos discursos, o dedinho indicador está sempre espetado? É outra característica típica, eles são todos muito assertivos...

«Por razões óbvias que são conhecidas»*

«Duas das piores crises africanas não vão constar na agenda oficial da cimeira euro-africana. Darfur e Zimbabwe serão, quando muito, discutidos lateralmente. Mas "porquê tanta cobardia?" perguntam, sob a forma de manifesto, vários escritores, entre os quais cinco Nobel». O artigo completo do nosso FAL, aqui.
* Título roubado ao senhor ministro Luís Amado

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Palavras que odeio (50)

Tecnicidade

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Nada pacífico

É impressão minha ou aqui tem andado quase tudo ao estalo? Calma, rapazes. Olhem que o Natal está à porta...

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O Homem é o lobo do Homem*

Excelente o trabalho de Elisabete Miranda e Raquel Martins publicado hoje no Jornal de Negócios, com um balanço da aplicação prática das novas regras do subsídio de desemprego, um ano depois da sua entrada em vigor. E revelador. Os depoimentos recolhidos evidenciam bem o que falha e a clivagem entre as intenções anunciadas e as situações reais com que se deparam os desempregados no dia a dia da obtusidade burocrática.
Mas o dossier inclui ainda a descrição do miserável negócio paralelo «descoberto» por algumas empresas, ao exigirem dinheiro a quem as contacta solicitando o carimbo que comprove a procura activa de emprego. Francisco Madelino, presidente do IEFP, assegura que as denúncias destas práticas serão investigadas. Parece-me óbvio que o sejam. Investigadas e castigadas. É tão mesquinho, isto, que até mete nojo.
*Título roubado a um Hobbes que não o tigre do Calvin

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Nem 8 nem 80

Esteve muito bem hoje a direcção do Público, no seu pedido de desculpas aos leitores pelo título da manchete de ontem. Mas nem tanto ao mar nem tanto à terra, meus senhores. O mea culpa pela excessiva assertividade não pode dar em legendas como esta: «A que se deveu a derrota de Chávez? À sua tentativa de reforçar o poder pessoal? Talvez...». Caramba! Para acompanhar uma fotografia daquelas não se pedia tanta dúvida existencial. Assim o leitor fica um bocadinho angustiado. Ou não ficará? Sei lá...Talvez não fique.

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Pensamento da noite

Os Gato Fedorento são a única oposição a Sócrates.

Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

Para onde foram os tais portugueses?

Foi na reunião de condomínio, no meio de conversa cordial, que o meu vizinho sérvio declarou:
- Os portugueses são o povo mais fechado que eu conheço. Não se misturam com ninguém...
Nós, os restantes condóminos, erguemos um sobrolho em uníssono. A frase perturbou o resto da reunião. No meio de clichés sobre "les portuguais ont creè le métis", mais os Descobrimentos, mais a vocação secular para nos misturarmos e por aí fora, lembrei-me dos portugueses que conheci no Luxemburgo, discriminados e desconfiados, dos meus primos emigrados na América, da comunidade portuguesa do Quebeque, parada no Portugal rural dos anos 60, e num encontro que tive há quatro anos com um elemento da embaixada portuguesa em Argel, a quem perguntei quantos portugueses residiam ali e que respondeu com uma frase que começava assim: "Há uma senhora aqui a 60 quilómetros, que acho que tem um filho..."
O sérvio é bem capaz de ter razão.

Não sei se já repararam...

Mas o Abrupto voltou ao Blogómetro. Atrás do Galaxia Wrestling, é verdade. Mas numa muito digna sexta posição. (Não linko o blogue de JPP porque teria de fazer o mesmo com o outro e não me apetece)

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Então aqui vai

Um beijo de parabéns para a rititi. Espera aí...vou antes dar dois. Ou três. Caramba! Isto os beijos são com'ás cerejas. É melhor repenicar quatro e ficamos por aqui.

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Este ditador vem a Lisboa (15)


Abdullahi Yusuf Ahmed

Presidente da Somália desde 2004. Tem 72 anos.
A organização Repórteres Sem Fronteiras não tem dúvidas em classificar a Somália entre os países "mais perigosos do mundo", onde a vida de um jornalista vale muito pouco. Disputado entre cabos de guerra armados até aos dentes e tutelado por um militar que se destacou pela brutalidade com que governou uma das regiões do país até ocupar o palácio presidencial, a Somália não tem eleições a nível nacional desde 1969. Os partidos políticos são inexistentes: as facções armadas substituíram o debate político neste país que é considerado um dos mais corruptos do planeta. O abuso dos direitos humanos, a pretexto de divergências políticas ou religiosas, é uma constante. E o Governo dá o primeiro (mau) exemplo nesta matéria.
"No centro e no sul da Somália, não existe um quadro legal nem um sistema judicial que respeitem os parâmetros internacionais", declara a Amnistia Internacional no seu mais recente relatório.
Abdullahi é um déspota. Portugal prepara-se para recebê-lo com todas as honras.

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Palavras que odeio (49)

Incontornável

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Manchetes à Zandinga é no que dá

«Venezuela diz "sim" à proposta de Chávez, oposição apela à vigilância». Título de 1ª Página do Público, edição impressa.
«Venezuelanos dizem um surpreendente "não" à reforma constitucional proposta por Chávez». Título do Público online.

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Lá fora a chuva cai

A dívida pública norte-americana aumenta $1.000.000 por minuto. Por volta de Janeiro de 2009, atingirá a estrondosa marca dos $10.000.000.000.000.00, um dígito a mais do que aqueles que cabem no já histórico contador em Nova Iorque. Se as políticas não mudarem e de acordo com a Standard and Poors, atingirá em 2050 um valor equivalente a 350% do PIB dos EUA. Mas essa data ainda vem longe, não é verdade?

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Lição de spin

Não sei se alguém reparou neste detalhe das imagens captadas pela TV do último jogging do Primeiro-Ministro. No final, com o ar casual de quem não quer a coisa, Sócrates olha para o relógio e diz algo como isto, entre duas respirações adequamente sofridas: «Foi uma boa corrida! Durou o quê? 45 minutos»? Pois é, meus amigos...Detalhes destes é que fazem a boa comunicação. E ai de quem venha depois dizer que foi só para a fotografia.

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Já chega de baderna, ou não?

O dono do bar de alterne, strip ou lá o que é «O Avião» foi pelos ares, passe a graçola. Os vizinhos dizem que era um gajo porreiro, mas houve certamente quem discordasse. Há muito tempo não rebentava em Lisboa uma bomba e, com este crime, a guerra entre os gangs organizados da prostituição e da noite ganhou outra dimensão na capital.
Se o homem foi morto por ser testemunha de acusação no «Caso Passerelle» ou não, estará por provar. Mas o que ficou já mais do que demonstrado foi o nível de violência, retaliação e ajuste de contas entre quem controla e quem quer controlar um «negócio» que pratica a sua actividade tanto no centro das cidades como à beira das estradas secundárias. Em suma, ao que isto chegou.

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O Governo em crise ambiental

Nunes Correia, que conseguiu a proeza histórica de ser o único ministro-sombra dentro de um Governo em exercício, acabou por aparecer publicamente numa entrevista que acabou por resumir-se, em termos de impacto público, a uma declaração tão optimista quanto descolada da realidade: A de que a decisão da localização do aeroporto será, em última análise, sua e do ministério que tutela. Quando o ouvi e li, pensei que a invisibilidade de Nunes Correia, pelos vistos, passaria também pelos Conselhos de Ministros. Caso contrário, saberia o que todos os outros já sabem: Que a última palavra nesta decisão, como aliás em todas as outras, será do Primeiro-Ministro, pouco amigo destas desautorizações na cadeia de comando. Este Sábado, o ministro do Ambiente voltou a ser dado como remodelável no SOL. Não é de espantar. E ao lado de Mário Lino o qual, mais cauteloso, já veio dizer que: «A decisão é do Governo no seu conjunto».

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Domingo, Dezembr