Sábado, Junho 30, 2007

A cambalhOTA

A propósito da licenciatura de Sócrates correu muita tinta, tanta que até houve quem se apressasse a vaticinar uma queda do Governo, caso essa bola de neve continuasse a rolar. Mas os portugueses são muito complacentes em relação a certos pecadilhos e quando, na sequência desse episódio, se fizeram as primeiras sondagens, verificou-se que a sua popularidade não tinha sido afectada. Afinal, a existirem algumas inverdades quanto ao seu currículo, era lá com ele...
Já o mesmo tipo de raciocínio (tão português), não se aplicou, não se podia aplicar, à Ota. Algumas inverdades – como a de o Governo não ter conhecimento de mais estudos sobre alternativas à Ota – pelos vistos, não caíram nada bem. De Maio para Junho, de acordo com o barómetro DN/TSF, a popularidade de Sócrates caiu 16 pontos e a do seu governo, 7. Desta vez ele não teve perdão.

A vida das coisas

Sim, é um facto que os bens materiais nos podem desfocar das coisas importantes. Há dias recebi o meu carro novo, reluzente cor de prata e às vezes até dou por mim armado em parvo a espreitá-lo à janela. Como uma criança e o seu brinquedo novo, muito desejado. Como o carro é um pouco maior que o meu velhinho Rover (que a minha filhota pequena teve tanta pena de ver partir para mãos estranhas, quem sabe até "infiéis"), ainda não lhe “tirei as medidas”, e vai daí, tem acontecido suar aflito com receio de raspar a reluzente chaparia numa coluna ou parede traiçoeira. E as primeiras pegadas das crianças nas costas dos assentos impecáveis... E eu hoje de coração na boca a estrear a viatura ali para os lados da Alcácer aos solavancos no caminho de cabras com que se acede à casa da minha irmã...
Raios! ...acontece que tenho “saudades” que a omnipresente carripana adquira a necessária "patine" e de caminho a sua importância real...
...
(Que se lixe aquela corrosiva caca de pássaro no capot!)

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Vinte motivos para gostar de Portugal (IV)


AMARANTE.

Sexta-feira, Junho 29, 2007

Saudades do MEC

A notícia da patética exoneração da directora do centro de saúde por causa do cartaz contra o ministro Correia de Campos tem-me trazido à memória uma crónica antiga de Miguel Esteves Cardoso, em que um taxista concluia um discurso contra os políticos com a frase lapidar: "Isto devia ser como na Holanda, que os matam logo à nascença!".
E mais não comento, porque sou utente do Serviço Nacional de Saúde e com a saudinha não se brinca. Por acaso, também sou utente do país e, reparo agora, com "eles" também não se brinca.

Remar contra a maré

Excelente, a colecção que a Sábado vem lançando em complemento (gratuito) a cada edição da revista. Numa altura em que tanto se criticam as ofertas complementares na imprensa, destinadas a seduzir leitores, eis um exemplo que merece ser elogiado – e partilhado por outras publicações. Fomentar o gosto pela leitura é não só um direito, mas um dever dos jornalistas.
Agradou-me particularmente o exemplar de há duas semanas – Algumas Distracções, do Francisco José Viegas. Trata-se de uma recolha de múltiplos textos publicados originalmente nos blogues Aviz e A Origem das Espécies. Vou lê-los (e relê-los, em diversos casos) com todo o gosto: há muito que me habituei a admirar a escrita do Francisco e a estar em sintonia com grande parte das opiniões que emite. Esta é, aliás, uma das maiores qualidades dele: expressar opiniões. Atributo tanto mais de enaltecer numa época em que regressam, velozes, os dias da precaução, do comedimento, desse jeitinho tão português de falar sem dizer nada. Começo a ouvir de novo, quase em sussurro, frases que julgava há muito sepultadas que nos incentivam à inacção cívica: “Toma cautela, olha que saber calar é uma virtude... Quem se cala é que chega longe...”
Abro o livro e deparo com estas palavras do Francisco, também apreensivo com este clima de demissão moral: “Uma das coisas que mais me preocupa hoje, em Portugal, é a tendência para que a opinião individual desapareça diante das chamadas ‘opiniões maioritárias’ – é cada vez mais rara a figura do colunista, do cronista ou do cidadão comum que arrisca a sua opinião sem cuidar das consequências e do desprestígio que uma ‘má opinião’ lhe pode trazer. Alguns, perdem o emprego. Outros, perdem a consideração das maiorias. (...) Perder a consideração das maiorias, que antes podia ser o primeiro degrau no caminho da glória, é hoje uma infelicidade. Que isso ocorra também é uma infelicidade.”
Lá teremos alguns, portanto, de persistir em remar contra a maré. Como o Francisco insiste em fazer. É também por isto (sobretudo por isto) que me preparo para ler este livro com todo o prazer.

Do dicionário (2)

Big Brother - alter ego de conhecido político português

Cinco mil

Só para assinalar: já cortámos cinco mil fitas. A número 5001 é esta.

Encontros com Lisboa

Gosto de sair do escritório para "distâncias a pé". Passo a passo na calçada, aproveito para olhar a cidade, as casas, viajar na história escondida nas velhas cantarias, portas e fachadas. Sob o azul brilhante do céu, embalo-me com o movimento das pessoas e do trânsito animado, em circunstancial mas sincera cumplicidade.
Um dia espero voltar para a minha terra. Mas pergunto-me se então sentirei Lisboa assim com este mesmo olhar saudoso de... “exilado”?
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Imagem daqui

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Vinte motivos para gostar de Portugal (III)


TAVIRA.

Assim não vão lá

Talvez o Governo devesse olhar para esta sondagem de hoje e depois analisar - através de focus groups por exemplo - o peso que têm recorrentes notícias como esta na queda da sua popularidade. Se a coisa continua neste ritmo, retiro o que escrevi há dias. Bem pode Sócrates suar pelo país mais o seu Governo Presente. Ainda acaba sem futuro.

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É a cultura, estúpidos!


PADMA LAKSHMI, a mais recente "cara metade" de Salman Rushdie (a quarta, se não me falham as contas). Percebe-se agora por que motivo o autor de Versículos Satânicos, ao que rezam as crónicas, anda a escrever cada vez melhor.

Porque Belmiro não é Berardo

A ler as diferenças, por Luís Paixão Martins.

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Alguém sabe que dia é hoje?

Rhona Mitra

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Adeus ó vida malvada

Parto amanhã para um curto período de descanso. É raro conseguir ir de férias, ao contrário deste senhor aqui (quem conseguir ver isto e não sentir inveja já chegou às portas do nirvana). Mas, antes, ainda vou almoçar ao Paparrucha para celebrar o aniversário e a aposta ganha pelo diário gratuito OJE e dar dois abraços ao Álvaro de Mendonça e ao João Bugalho. Ao fim do dia, há que reunir as energias que restarem, após uma loooonga semana, e rumar até ao edifício da Edimpresa e à festa da Blitz que comemora o seu primeiro ano como revista. Não quero perder a oportunidade de ouvir Júlio Isidro como um dos djs convidados e a sua selecção de rock português. A vida é bela. Mas cheira-me que é melhor fazer hoje as malas, porque amanhã não acordarei com facilidade.

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Quinta-feira, Junho 28, 2007

Berardo à CML


João Távora à cabine de som

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Rosebud

Queres andar comigo? Perguntou a rapariga entre o ruído dos pratos, as conversas gritadas, o som devolvido amplificado pelo eco dos azulejos.
Fosse capaz de ler nos lábios e conheceria a resposta. Assim, inventei-a. Nada na face de ambos revelou emoção, alegria ou perda. Só consegui - como um velho que discute um qualquer preço recordando o que comprava com uma nota de cem escudos - regressar a esse tempo em que só o homem se propunha, escondendo a dúvida em gestos nervosos camuflados sob a mesa. Vivendo uma ficção cuja beleza habitava essa casa, tão feminina, chamada silêncio. Um tempo não tão antigo como the time when Lucky Strike meant fine tobacco. Mas igual a ele na distância.

Os tugas (22)


Estação fluvial do Cais do Sodré. Grande fila de gente para comprar bilhete para Cacilhas. A máquina automática, ali ao lado, encontra-se “fora de serviço”. Aguardo enquanto o funcionário do único guichê disponível, de cigarro na boca, vai fazendo trocos com uma lentidão exasperante. Chegada a minha vez, percebo porquê:
- Quando custa o bilhete?
- Setenta e quatro cêntimos.
- Setenta e quatro cêntimos? Não se arranjava um número mais redondo?
- Isso não é comigo...
Indago se vendem bilhetes de ida e volta. O indivíduo olha-me como se lhe tivesse perguntado o paradeiro da Rainha de Sabá. Pelos vistos, ninguém na Transtejo terá pensado alguma vez nestes assuntos tão irrelevantes para facilitar o escoamento de passageiros. Empresa nacionalizada, “nossa”, é mesmo assim...
Chegado a Cacilhas, nova fila. Desta vez junto à paragem de táxis. Dez minutos depois, tudo na mesma: nem um para amostra. Reparo nas pessoas que me antecedem: têm aquela mansidão resignada a que jamais me conseguirei habituar nos portugueses. Ao meu lado direito, uma mulher cospe convictamente as unhas que vai roendo com indescritível minúcia. Há também alguns turistas: talvez achem tudo isto very typical.
- Porque não haverá táxis?
- Ah, é quase hora de almoço. Costumam ir todos comer ao mesmo tempo – elucida-me um sujeito de barba por fazer e pálpebras semicerradas, como se tivesse toda a paciência do mundo.
Continuamos todos à espera. Uns de olhos fitos no rio, outros mirando o infinito, pensando sei lá o quê.
Do lado de lá do Tejo: Lisboa tão perto mas já tão longe. Um outro país dentro do País.

Postais blogosféricos

1. O caldo não azeda, garante o Paulo. Ainda bem. Gosto mais assim.
2. Um abraço de parabéns ao Carlos Albino. Pelo quarto aniversário das imprescindíveis Notas Verbais.
3. Parabéns também ao Carlos Furtado, ao João Pinto e Castro, ao Leonel Vicente, ao Bruno Sena Martins e ao Rui Cerdeira Branco. Todos igualmente há quatro anos na blogosfera.

Talvez especule...

Mas, depois de ler esta interrogação de Luís Paixão Martins a propósito de Joe Berardo dei por mim a reflectir, coisa que faço pouco e mal ao contrário do Luís. Este protagonismo furacão do empresário não é novo, mas ganhou uma dimensão adicional com a operação financeira no Benfica e a questão do CCB. Antes, na qualidade de accionista quer do BCP quer do BPI (só para dar um exemplo) ele foi o único a colocar questões delicadas em cima da mesa durante a OPA, em particular a relação entre a administração de Fernando Ulrich e os catalães do La Caixa. Agora, juntou-se a João Rendeiro e João Pereira Coutinho num grupo que pretende afastar Jardim Gonçalves eliminando o Conselho de Supervisão do Banco.
Isto para dizer que Joe Berardo afronta tudo e todos: Rui Costa e Ulrich, Jardim Gonçalves e Mega Ferreira. Fá-lo convicto da pequenez do país e seguro de que, pelo dinheiro e informação que acumulou, ninguém surgirá para fazer-lhe frente. E este momento é particularmente propício para Berardo porque, para onde quer que olhe e em qualquer área, o empresário só vê em seu redor pessoas que crê serem mais fracas do que ele.
No fundo, passámos da Era Belmiro para a Era Berardo. Com o chumbo da OPA da PT, fechou-se um ciclo que se concluiu com a derrota de um outro empresário que todos tinham em conta como alguém capaz de enfrentar o status quo. Não foi assim. Agora, a ver vamos quem e quando coloca uma barreira no caminho do iconoclasta e idiossincrático madeirense. Porque, se ninguém o fizer quando a ocasião o justificar, o problema não é esse que coloca Paixão Martins. É a consciência que se formará (que está já a formar-se) de que Berardo representa o verdadeiro poder que é tão somente o do dinheiro. E os outros, sejam quem forem, são apenas desautorizadas e transitórias figuras sem mando.
Adenda: Leia-se, sobre o mesmo assunto e num registo mais contundente, a crónica de hoje de Manuel António Pina, «Um país berardizado»

Tomar duche de roupão

Imperdível, a entrevista de Fernando Negrão à revista Sábado. Quando os jornalistas Jaime Martins Alberto e Maria Henrique Espada lhe perguntam se "quando acorda a primeira coisa que faz é ver-se ao espelho", o candidato do PSD à Câmara de Lisboa responde sem hesitar: "Não, primeiro visto um roupão e tomo duche."
Negrão é mesmo caso único. Não conheço mais ninguém que tome duche de roupão...

Vinte motivos para gostar de Portugal (II)


SINTRA.

Esperar para ver

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Entre amigos

- Reparaste na Luísa? Aquela sim, é um avião!
- Só um ceguinho é que não via. Mas olha que ela anda a aterrar no aeroporto do Rodrigo.
- Epá! Isso hoje em dia não interessa nada. O que está a dar é a Portela + 2.

Sintomas da falta de oposição

Algumas figuras acham que liderar a oposição é não dizer mais nada durante semanas a não ser que o Tratado Constitucional europeu deve ser ratificado por referendo. Mesmo que não se saiba ainda que tratado vamos ter e com a presidência portuguesa da União Europeia aí à porta. Os portugueses, como se sabe, vivem e respiram referendos. E há por aí tantas matérias a merecerem a atenção de uma oposição que se preze:


Li mas não percebi

Afinal, Saldanha Sanches chumbou porquê? Se realmente foi um «chumbo inédito» e dando como adquiridas as inevitáveis repercussões mediáticas em tempo de campanha, não ficava mal ao júri explicar as suas razões.

Período de carência


Que Blair se vá embora dialogar com as paredes no Médio-Oriente é algo que não me aquece nem arrefece. Simpatizo bem mais com Gordon Brown, tão britanicamente eurocéptico que até faz rir. Mas que o Dr. House abandone hoje os ecrãs até Outubro que vem, isso é que me deixa verdadeiramente órfão de role-models.

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Tapete voador

Eu sei que se procura muita coisa… Infelizmente, até pessoas. Mas desconhecia que se procurassem tapeçarias. Um anúncio colocado na página 23 do jornal Público, misturado entre notícias do Mundo, ditava o seguinte há uns dias:

Grande Tapeçaria de Portalegre Desaparecida
Autor – Figueiredo Sobral, 1970

Procura-se Tapeçaria portuguesa da autoria de Figueiredo Sobral com dimensões de 7 metros de comprimento por 2 metros de altura. Agradecem-se informações conducentes à sua localização para o nº 1/2623 deste jornal.

Leitura prioritária

A partir da próxima quinta-feira, 5 de Julho, quando este livro for lançado em Lisboa, vamos ter o prazer de reencontrar a escrita de Pedro Rolo Duarte. A não perder.

Quarta-feira, Junho 27, 2007

Se me permitem o conselho

Não deixem o caldo azedar.

Por falar em siglas (2)

EPUL - Empresa Portuguesa (não, desculpem!) Empresa Pública de Águas (perdão!) Empresa Pública de Urbanização de... Setúbal (façam favor de desculpar!) Empresa Pública de Urbanização de Lisboa. Otta!! (perdão) Uffa!!

Um pedido

Reparei que nos visitam a partir da Áustria: Dado que vou passar em breve alguns dias de férias em Budapeste, gostava de recuperar o contacto de uma amiga que vive em Viena. Chama-se Annete Aust, é arquitecta e pintora. Enviou-me há um par de anos um amável convite para a sua exposição mas não pude comparecer dada a distância. Obrigado. Ela é também muito amável e - se alguém a encontrar aí em Viena - só fica a ganhar se lhe der uns beijos por mim.

Por falar em siglas

CML quer dizer Câmara Municipal de Lisboa.

Meninas e moças

- Boa tarde, é possível falar com X?
- Ele não está, isto é o escritório.
- Tem então outro telefone que me possa facultar?
- Não. Eu sou a moça das limpezas. Só se ligar amanhã e falar com a moça do escritório.
- Obrigada, ligo então amanhã.

Leituras de Verão

Em pleno período de férias até me roía a consciência se não divulgasse, em tempo útil, uma informação que, quem sabe, até pode ter algum fundamento. Recebi-a há poucos dias, por email. Ora leiam: “Cientistas descobriram que livros de aventura, sexo e acção levam o corpo a produzir mais adrenalina, substância que reduz o apetite e queima calorias. A pesquisa, encomendada pela cadeia de livrarias britânica Borders, comparou as calorias que se despendem ao ler diferentes tipos de livros. O resultado foi uma lista das obras que mais ajudam a emagrecer. O topo da lista é ocupado pelo thriller Polo, da escritora britânica Jilly Cooper. A leitura completa das quase 800 páginas de sexo e escândalos gasta o equivalente a 1,1 mil calorias”. E mais não digo, porque não estou para fazer publicidade gratuita a obras de qualidade duvidosa. Enfim, mas pelo sim, pelo não, tomem em conta esta informação quando escolherem os livros que vão levar para férias!

Vinte motivos para gostar de Portugal (I)


GUIMARÃES.

Farewell, Mr. Blair


Os britânicos ainda hão-de ter saudades deste senhor que hoje abandona Downing Street após dez anos de mandato: juntamente com Margaret Thatcher, foi o melhor chefe do Governo londrino desde o pós-guerra. E um dos grandes dirigentes da Europa contemporânea, tão pobre em talentos políticos.

Tertúlia literária (200)

- Luandino?
- Não. Sou lisboeta.

Coisas para fazermos antes de morrer


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Alma gémea, procura-se


Anda para aí um spam inovador. Quero pensar que é spam e não alguma nossa leitora anglo-saxónica que, lendo os posts que escrevo, avalia os meus dislates de natureza mais íntima como desespero. A mensagem que recebi é diferente porque a senhora sua autora procura um relacionamento romântico e não gaba os atributos físicos com que a Natureza a dotou, mas antes a bondade do seu coração: «I am a nice lady with a big and tender heart», diz ela sem receio. «I am looking for my prince to give him joy and happiness and to share my life with. I think you can be the one I am looking for. I am attractive and kind, joyful and open-minded».
Por alguma razão e na infinitude das suas boas intenções, a autora da missiva julga que a vontade de partilhar uma vida inteira com a mesma mulher é o grande desejo de um homem. Pobre iludida. Estou a ponderar enviar-lhe alguns conselhos de amigo, ai Deus e u é. Ou então o endereço de uns príncipes encantados que eu cá sei...

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Nas colunas


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Código genético

«Os que se contentam, como S. Pedro, só com ver, são finos. Os que se contentam, como a Madalena, só com que lhes saibam o nome, são honrados. Os que não se contentam, como S. Tomé, senão com o lado, são ambiciosos. Os que se não contentam, como os de Emaús, senão depois de lhes darem o pão, são interesseiros. E os que com todas estas cousas ainda se não contentam? São portugueses». Padre António Vieira, Sermão da Primeira Oitava da Páscoa, 1647.

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Terça-feira, Junho 26, 2007

Nas colunas


E porque já estão assegurados - graças a um amigo com muito bom gosto - os bilhetes para Aimee Mann no Coliseu. Aqui fica «Wise Up», da banda sonora de Magnolia, filme que o nosso Luís Naves nunca viu ( shame on you, Luigi :)

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Será que Negrão conhece a sigla CIA?

"A agência de informações norte-americana CIA desclassificou hoje os documentos conhecidos como 'jóias de família', que pormenorizam alguns dos piores abusos perpetrados pela agência entre os anos 1950 e 1970".

Cenário Portela+2

- Oh Miranda, telefonou para aí o gajo do controle de Sintra a dizer que deu luz verde a um Boeing 747 que não estava na lista inicial. Pediu para avisares os tipos de Alcochete.
- Ok, qual é o telefone?
- Deixei-te num post-it amarelo.
- Não vejo...

Kiss é isto, ó Francisco


Só para ficar aqui uma imagem mais bonita do essa bocarra horrenda que até dá arrepios. Brrrr! Reparem na delicadeza com que surgem recortadas as plantas, em subtis nuances de luz.

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Kiss

O candidato Fernando Negrão, numa entrevista ao RCP, confunde a EPUL, com o IPPAR e a EPAL. Mas com toda a convicção. O vídeo já está no You Tube e é campeão de audiências. Sobre o essencial, nada de muito especial a dizer, a não ser que se confirma o brutal erro de casting que foi a escolha do setubalense para ser o candidato do PSD em Lisboa. Só que aposto que mais de metade dos habitantes de Setúbal sabem o que foi o IPPAR e o que é a EPAL. Mesmo que não saibam o que é a EPUL.
Há uma regra que as dezenas de colaboradores, todos políticos de craveira, de Negrão deviam aplicar à campanha para Lisboa. A regra é velha e relha. Chama-se KISS: Keep It Simple and Stupid. Assim mesmo, recorrendo a linguagem plain simple e com coisas básicas que os eleitores apreendam com a maior das facilidades. Do género, "ambiente e Internet em toda a cidade", como o candidato defendeu, e bem, no debate da SIC Notícias.

Peer review



ou como os posts também se abatem:

Orgulhosa, deu o post por terminado. Mais uma volta, mirou-o, remirou-o, tira vírgula, coloca um ponto, abre parêntesis, fecha parêntesis, retira frase, tira advérbio, muda qualificativo, mais um pronome, um plural ali, um sinónimo acolá, tira uma coordenada, põe subordinada, aglutina, retoca a passiva. Um mimo.

- Então???
- Deixa só a pontuação.

Tertúlia literária (199)

- Ando a ler a Apologia de Sócrates. Sabes quem escreveu?
- Com esse título, só pode ter sido aquele ministro que parece uma fotocópia dele. O Silva Pereira.

A juíza


Alguém cuja prosa muito admiro disse-me ontem que só escrevia para quem lê o Record. Fiquei a modos que desarmado e, hoje, lá fui ler esta notícia para não parecer que desdenho os jornais desportivos. A foto, essa, fui roubá-la ao Afinidades Efectivas. Mal vai o futebol, se uma senhora árbitra-assistente com estas qualidades é expulsa da FIFA por «violar normas». Cambada de burocratas que já nem instituições como a Playboy respeita.

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Conversas de café (2)

- Sabes quem é que anda agora com o Miguel?
- Não, quem é?
- A Madalena.
- A sério? Mas isso nem parece dele!
- O quê?
- Andar com mulheres mais velhas.
- Mas eles têm a mesma idade.
- Pois têm! O que faz da Madalena uma mulher pelo menos cinco anos mais velha que ele!
- Pois, a partir de certa idade é como se fosse assim...
- É injusto!
- Estupores!
- Idiotas!

Portela + N elevado a 23

Fernando Seara, hoje no DN: «Para a metrópole de Lisboa existem outras opções: Portela +1 (Sintra ou Montijo), Portela+2 (Sintra e Montijo), Portela+3 (Sintra, Montijo e Alverca)».

Até que enfim


Desejo sinceramente um grande sucesso a João Cepeda e a João Miguel Tavares, os responsáveis por a partir de Setembro Lisboa ter, finalmente, uma edição da Time Out. Como afirma Cepeda hoje no Público, a Time Out Lisboa «já podia ter nascido há mais tempo». Pois podia. E houve várias pessoas tentadas a fazê-lo. Assim de repente, lembro-me de uma conversa que tive sobre o assunto com Paulo Ferreira, antes de ele lançar as suas revistas Blue.
A ideia da dupla - que reconhecem como ambiciosa - é a de fazer uma edição semanal. Mas não é no maior esforço editorial de fecho que está o risco e, isso sim, no perfil comercial do projecto. O modelo da Time Out vive muito dos pequenos anúncios: Concertos, bares, galerias, restaurantes...Um tipo de publicidade que em Portugal tem tabelas publicitárias muito baixas e uma elevada percentagem de incobráveis. Ou seja, a malta entrega os anúncios mas depois não os paga. Por isso, entre nós o êxito da revista dependerá de uma lógica de marketing associada a publicidade de qualidade, promoções e grandes campanhas, que salvaguarde as receitas e assente em comerciais experientes com conhecimento do público e do mercado a que se dirigem. Dito isto (assim de forma algo paternalista) parabéns aos Joões. Lisboa só tem a ganhar.

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O que eu aprendi com o Rolling Stones

... é que décadas de drogas e rock'n roll ajudam a manter a linha, mas fazem um mal terrível à pele.

Segunda-feira, Junho 25, 2007

Ora bem...

Acho que precisamos aqui de desanuviar um bocadinho. E os Scissor Sisters servem muito bem. «I Don't Feel Like Dancing». Hell! Why not?

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Orgulho straight


Tenho andado um pouco fora cheio de trabalhos e chego hoje aqui e encontro esta chinfrineira toda com um link e uma “não referência” ao meu nome e tudo. Que honra Daniel (vénia), vindas daí assim, as suas escarretas quase que são troféus! O seu desprezo sempre me dá bom estatuto – se a Câncio um dia calha fazer-me um link, no mínimo habilito-me a ser escorraçado pelos meus amigos!
Mas voltando à vaca fria (sem ofensa) o que fica é a impressão de que o Daniel (vénia), anda com problemas de identidade (ideológica, espero), e já não sabe como abocanhar tudo o que mexe à sua direita (quase toda a gente na legítima posse dos seus direitos cívicos). Mas deixe estar, força com a cruzada (?!), acenda um charrinho e ponha-se assim na rua, na marmelada, que eu não olho. Mesmo emparelhado com Angelina Jolie deve ser assim (que nojo!) uma “coisa linda de se ver”. É que isto de grandes intimidades afectivas em público fazem-me um pouco de confusão. No cinema até pode ser bonito, e mesmo assim, se estiver acompanhado com os miúdos fico um pouco atrapalhado. Parvoíces de conservadores.
Mas, quando já não houver mais temas fracturantes, talvez eles inventem finalmente a “causa” dos “feios”. Então talvez daqui a uns anos o presidente Zé nos arranje em Lisboa um clube especial para gente assim... Então eu prometo ir lá jogar consigo um dominó. Em paz, sem preconceitos ou marginalizações, que aqui entre nós eu também não sou nenhuma beleza.
De resto, caro Daniel (vénia), deixo-lhe este conselho que talvez o ajude: arranje um psiquiatra, não lhe vai resolver nada, mas ainda “parece” moderno “e assim”, e arranja alguém que o oiça por menos de 60.00€ à hora.
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PS: Ainda não lhe disse que tenho amigos gays, mas não perca a esperança.

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A frase assassina do dia

«Sérgio Sousa Pinto é um jovem muito velho na política portuguesa». Paulo Gorjão, no Bloguítica.

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Conversas de café

-A direita é mais cínica.
- A esquerda é mais hipócrita.
- Bah! Bem vistas as coisas, hoje em dia já não faz sentido falar de esquerda e de direita...
-Lá isso é verdade!
- Enfim, mas na hora de votar lá acabamos por escolher entre uns e outros...
- Costumas votar em quê?
- Voto cada vez com menos convicção.
- Sim, mas em que partido?
- Depende.
- Ah! Apanhei-te! Essa é a resposta típica de quem vota no centrão!
- Pois... se não podes nada contra eles, junta-te a eles...
- És um céptico!

Nós, vós, «eles»

Quero agradecer pessoalmente ao Daniel Oliveira a quantidade impressionante de visitantes que trouxe hoje ao Corta-Fitas. Como somos colectivamente inseridos num «eles» que parece agregar tudo e mais alguma coisa numa caldeirada homofóbica, quero só deixar isto bem claro: É verdade que não tenho paciência para bichas. Mas ainda tenho menos para homens que tratam as mulheres por «filha». Geralmente, têm mais pelos no nariz e não animam tanto os jantares.
Adenda: Apenas para clarificar duas coisas, sobre o que escrevi em resposta ao Daniel Oliveira na caixa de comentários. Disse-lhe que tinha lido os textos por ele linkados (horrível palavra, aceito sugestões de substituição). Menti. Logo a seguir a mentir e depois de um telefonema que me destapou a careca, fui ler. E só acrescento que, se tudo o que o Daniel tem a apresentar como opinião de «eles» são as afirmações perfeitamente legítimas e equilibradas que li - incluindo a do nosso João Távora - mais valia ter dito o que tem a dizer sobre o assunto, sem arvorar-se em paladino de uma causa que ninguém atacou. Não duvido que «eles» andem aí. Mas estou certo de que o Daniel se enganou nos domicílios.

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A esquerda órfã de líderes

"Visivelmente esgotado", como ontem assinalava a reportagem do El País, Durão Barroso teve um rasgo mediático ao oferecer um ramo de rosas a Angela Merkel. Mais que justificada, a entrega das flores: a chanceler alemã teve um papel decisivo nas complexas negociações que conduziram à solução de consenso na cimeira de Bruxelas. Tão importante como ela foi o novo presidente francês. Do equilíbrio precário que permitiu salvar a face europeia, enterrando de vez o projecto do defunto tratado constitucional e congeminando o sucedâneo possível, Merkel e Nicolas Sarkozy emergem de momento como os únicos líderes do Velho Continente com verdadeira envergadura internacional.
Nenhum deles de esquerda, note-se.
A democrata-cristã Merkel não tem hoje rival na Alemanha, onde os sociais-democratas (parceiros da coligação governamental em Berlim) se afundam de sondagem em sondagem, e o "conservador" Sarkozy - confortado com a recém-conquistada maioria absoluta na Assembleia Nacional - assiste de camarote às guerras intestinas dos socialistas franceses, dignas de uma telenovela mexicana. Com a partida de Tony Blair, que cede já na quarta-feira o lugar de primeiro-ministro britânico a Gordon Brown, a esquerda europeia fica ainda mais órfã de líderes.
Neste contexto, e por melhores que tenham sido as intenções de Barroso, é quase irónico oferecer rosas a Merkel, que bem merecia outra flor. Politicamente, a rosa está cada vez mais murcha.

Rio frio

Só posso concordar com o Henrique Burnay. «Esta utilização do site da Câmara Municipal do Porto é absurda». E pouco ajuizada ao não preservar a dignidade institucional da autarquia. Apresenta, no entanto, um lado positivo: Quanto mais Rui Rio seguir esta linha provinciana de contra-ataque, mais se afasta de qualquer hipótese que porventura tivesse - como muitos ainda insistem que tem - de surgir como alternativa interna a Luís Marques Mendes. Rui Rio não tem a dimensão de Alberto João Jardim. E mesmo Alberto João nunca foi a votos fora da Madeira, muito por causa de comportamentos similares a este. Se exercer política sem os meios de comunicação já é impossível nos tempos de hoje, exercê-la contra eles é suicídio a prazo. Um prazo bem mais curto do que possa parecer ao presidente da cidade do Porto.

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Apoio dourado

Não percebo a interrogação, em jeito de teaser, na primeira página do DN: «Lisboa. Quem vai Maria José Nogueira Pinto apoiar?». Para começar, não estou habituado a ver notícias de capa em jeito de pergunta. Em segundo lugar, porque este título: «Maria José Nogueira Pinto ao lado de António Costa» me parece responder à questão anterior. Ao estar presente hoje numa acção de campanha do P.S. Maria José transmite o seu apoio à mesma candidatura, por mais que o justifique com o maior destaque dado ao «seu» projecto de reabilitação da Baixa-Chiado e apesar de não ter ainda divulgado a intenção de voto.
Apoio dado, resta saber se ela aceitará o convite de Costa para Comissária do referido projecto de reabilitação. Se assim for, por mais que venha a utilizar palavras como «missão» e «independência», Nogueira Pinto será mais uma diluida na «sopa da pedra» socialista. O projecto da Baixa-Chiado vai ser «a» bandeira política por excelência da equipa de Costa e quem o liderar o seu inevitável porta-estandarte.
Finalmente, é infeliz a citação da ex-vereadora do CDS-PP no mesmo artigo: «Eu não mando na campanha do PS». É evidente que não. O problema, aliás, é que mesmo que aceite o cargo de comissária corre o risco de não «mandar» nas negociações fulcrais que envolverão o património do Estado na cidade e o sacrossanto Porto de Lisboa. E nós arriscamo-nos a ver desaparecer mais uma voz crítica, doravante alinhada no coro do hossana socrático.

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Domingo, Junho 24, 2007

Coisas que eu não percebo neste país(III)

Factos: o antigo assessor de imprensa de Jorge Sampaio escreveu um livro onde conta que o então PR tentou evitar que Santana Lopes sucedesse a Durão como PM e até fez três telefonemas nesse sentido.
Coisa que eu não percebo: três telefonemas?!?!?
Mensagem pessoal: Caramba, estando convencido do desastre não teria valido a pena fazer mais um telefonema? Quem é que quer ficar para a História como o Presidente que fez três telefonemas para salvar o país mas estava sempre impedido e desistiu?

Coisas que eu não percebo neste país (II)

Factos: o Presidente da República sente-se enxofrado por a RTP ter interrompido a emissão do 10 de Junho e faz queixa a toda a gente, com comunicado para a imprensa e tudo.
Coisa que eu não percebo: agora, discute-se se isto é ingerência. Ingerência?!?
Mensagem pessoal: ingerência é telefonar ao primeiro-ministro ou ao ministro da tutela, fazer um almoço de queixinhas, receber o pedido de desculpas e, dias depois, o anónimo que tomou a decisão de ir para intervalo ser destacado para electricista na futura delegação de Alpiarça e, durante uns tempos, o Presidente da República abrir noticiários, sempre devido ao insondável interesse jornalístico das suas intervenções.

'Saison' Berardo

Joe Berardo inaugura amanhã o seu museu no Centro Cultural de Belém. Toute la Lisbonne - a começar pela que faz gala em troçar dele - estará lá, pronta a ser fotografada de toilette estival e copo na mão. Na última semana, o empresário madeirense conseguiu ser capa de três revistas nacionais e manchete noutros tantos periódicos. Mostra que sabe de cor a lição de Oscar Wilde: "O que é preciso é que falem de nós, nem que seja para dizer mal." Os políticos portugueses têm muito a aprender com ele.

Coisas que eu não percebo neste país (I)

Factos: um autor de um blogue escreve qualquer coisa que desagrada ao Primeiro-Ministro e este processa-o; o autor do blogue, analistas, cronistas e defensores da liberdade de expressão indignam-se com o primeiro-ministro.
Coisa que eu não percebo: o que queriam que o homem fizesse?
Mensagem pessoal: senhor primeiro-ministro, se alguma vez se considerar ofendido com algo da minha lavra, agradeço que me processe em vez de me suspender se eu for funcionária pública, de me atiçar a inspecção de finanças, a brigada de trânsito da GNR ou o SIS. Palavra que não vou levar a mal.

Quanto mais, melhor


Espreito a lista dos cem melhores filmes americanos de todos os tempos, publicada no Daily Telegraph, e a que chego via A Arte da Fuga. Lá vêm os títulos mais previsíveis, que há décadas surgem em listas deste género. Confesso: gosto de ver The Searchers (o meu The Searchers) em 12º lugar. Mas faltam outros que jamais esqueceria - Esplendor na Relva, Os Inadaptados, Lilith, Rio Bravo, A Sede do Mal, Johnny Guitar, A Rosa Púrpura do Cairo, As Pontes de Madison County, Lost in Translation.
Na minha lista, em todas as minhas listas, estes filmes estarão sempre entre os melhores. São o melhor do cinema, são do melhor da vida.

Prova de Vida

Alguns textos publicados originalmente em blogues ganham uma segunda existência, com notória vantagem, quando passam a livro. Leiam a excelente Prova de Vida, de Pedro Mexia (edição Tinta da China), para perceberem porquê.

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 1, 5-17


Nos dias de Herodes, rei da Judeia, vivia um sacerdote chamado Zacarias, da classe de Abias, cuja esposa era descendente de Aarão e se chamava Isabel. Eram ambos justos aos olhos de Deus e cumpriam irrepreensivelmente todos os mandamentos e leis do Senhor.
Não tinham filhos, porque Isabel era estéril e os dois eram de idade avançada. Quando Zacarias exercia as funções sacerdotais diante de Deus, no turno da sua classe, coube-lhe em sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor para oferecer o incenso. Toda a assembleia do povo, durante a oblação do incenso, estava cá fora em oração.
Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor. Mas o Anjo disse-lhe: «Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti motivo de grande alegria e muitos hão-de alegrar-se com o seu nascimento, porque será grande aos olhos do Senhor. Não beberá vinho nem bebida alcoólica; será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor».

Da Bíblia Sagrada

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Num comício de Negrão

LIS-BOA-PRE-CI-SA-DE-GO-VER-NO
NÃO PRE-CI-SA-DO-GOVERNO!!
- O vizinho desculpe, mas enganou-se. Disse "do" e agora era "de".
- O meu amigo é que tem estado a dizer tudo mal.
- Desculpe, tenho a certeza que agora era "do"!
- Ná, ná, atão não vê que os dedinhos no ar não estão em forma de "o" mas de "e"?
- Não insista, está-me distrair do comício... Onde é que eles vão?
- Estão a gritar aquela do QUEM-MAN-DA-EM-LIS-BO-A-É-O PRE-SI-DENTE-NÃO-É-DO-GOVERNO!
- Lá está o senhor!
- Ai quer-me convencer que agora também era "de"?

A nossa Ericeira

Como o tema me diz muito, sugiro a leitura atenta dos posts da Leonor Barros e do Bekx. Foi na Ericeira que aprendi a andar de bicicleta - no Jogo da Bola, em frente à nossa casa, que é hoje a Caixa Geral de Depósitos e por onde passou em 1910 a família real para acenar ao povo antes de rumar ao exílio, em Inglaterra - e de patins - no Parque de Santa Marta, agora todo renovado e onde irei no próximo fim de semana, para atestar a bondade da intervenção.

Tertúlia literária (198)

- Camões foi o maior escritor português.
- Disparate. Estás a esquecer-te do Saramago.
- És capaz de ter razão. O Camões nunca conseguiu ganhar o Nobel.

Os dias da rádio


A rádio vai morrer muito em breve – esta afirmação foi feita há dias durante um seminário na Sociedade Portuguesa de Autores onde se discutia o futuro deste meio de comunicação. Quando li a notícia no jornal interroguei-me sobre as razões que me levaram a distanciar-me da rádio como ouvinte (de música, não de notícias, que continuo a consumir por razões profissionais).
Tentei situar-me: quando é que mudei? Lembrei-me então dos tempos em que ouvir rádio era, para mim, um must. Durante a minha adolescência houve programas que contribuíram para a minha cultura musical. Estou a recordar-me do excelente “Os Cantores do Rádio”, apresentado por José Nuno Martins, que me ajudou a consolidar os meus conhecimentos sobre música popular brasileira e, por exemplo, de “O Som da Frente”, apresentado por António Sérgio, através do qual me informava acerca das bandas pop/ rock mais vanguardistas.
A rádio ensinou-me, formou-me, apaixonou-me. Havia programas que nem eu, nem os meus colegas de escola gostávamos de perder, sob pena de não acompanharmos convenientemente as músicas que chegavam ao éter em primeira mão.
Mas os tempos mudaram e os programas de autor desapareceram das principais estações. A rádio foi convertida num imenso cd player. As play lists substituíram a selecção personalizada dos animadores. Agora eles passam o que as editoras lhes passam. E rodam os mesmos temas repetidamente, com um propósito comercial tão ostensivo que me irrita.
Quando deixei de ouvir rádio? Quando a rádio mudou a sua relação comigo e me passou a tratar não como ouvinte, mas como mera consumidora de música a metro.

Sábado, Junho 23, 2007

Boa conduta

O Zero de Conduta passa a figurar nas nossas ligações laterais. É um blogue à esquerda, mas bem intencionado e muito interventivo. Tal como o Pedro Sales. Estão no fundo da nossa lista, por força da letra Z, embora seja bom lembrar que os últimos às vezes são os primeiros.

Outras Lisboas

"Lisboa deve mais ao Manuel Reis do que a muitos ministros, vereadores ou até presidentes. Clarificando: Manuel Reis fez mais pela modernidade de Lisboa do que várias Câmaras juntas e variadas".
Paulo Portas, Sol

Perante isto, só me resta uma dúvida: Então porquê Telmo Correia como candidato à câmara (detesto a palavra autarquia) e não o dono do Lux e da Bica do Sapato? Seria uma campanha muito mais fashion, com muito mais modernidade...

Nas colunas


(Ainda estás a tempo de fugir deste...)
«Doce e fácil reino do blá,
doce e fácil reino do blá,
doce e fácil reino do blá blá blá».
José Cid, nos Green Windows, 1977

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Hemeroteca (6)

«Após o 25 de Abril, os métodos de actuação anticomunista utilizados pelo imperialismo e a reacção foram de certo modo grosseiros, embora tenham tido uma certa eficácia: foi a época dos boatos e das calúnias extraordinários acerca das intenções dos comunistas em Portugal, bem como das acções dos Partidos Comunistas no Poder nos países socialistas: foi nessa altura que se propalaram entre as camadas menos esclarecidas do nosso povo as atoardas segundo as quais os comunistas tiravam os filhos às mães, davam uma injecção atrás da orelha às pessoas, para as convencerem, roubavam as terras e as casas aos camponeses». António Marques dos Santos, O Diário, 13.8.1976.

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Longe de Lisboa (3)

À beira da piscina, toda à minha disposição, escuto a Cavatina dos Shadows - que me traz à memória O Caçador, um dos filmes da minha vida. Abro um jornal para me inteirar enfim sobre o que se passa no mundo - em Portugal já sei que, como é costume, não se passa nada.
O que me revela o periódico?
1. Líderes islâmicos mundiais reunidos em Córdova exigem a concessão da nacionalidade espanhola a todos os mouros expulsos em 1610 de território andaluz e recomendam a criação de um "observatório internacional contra a islamofobia" que decrete um "livro de estilo para jornalistas".
2. O novo chefe do Estado do Equador, o esquerdista Rafael Correa, advertiu que "há que respeitar a majestade da Presidência" (deliciosa expressão!), justificando assim a detenção de um comerciante que fez gestos obscenos à passagem da caravana presidencial, o que lhe basta para arriscar uma pena entre seis meses e dois anos de prisão.
3. Nicolas Sarkozy continua a surpreender: um em cada cinco membros de altos cargos no novo Governo francês é oriundo da esquerda. A mais recente é Fadela Amara, de origem argelina, agora nomeada secretária de Estado para as questões da cidadania. Fadela distinguiu-se como presidente da associação Nem Putas Nem Submissas.
4. Zangam-se as comadres: Bernard-Henri Lévy desanca Bernard Kouchner, chamando ao novo ministro francês dos Negócios Estrangeiros "antigo médico sem fronteiras convertido em geoestratego de salão" pela sua aparente passividade perante a tragédia do Darfur, que "poderá saldar-se pela bagatela mínima de 300 mil mortos". Ao que parece, o "direito de ingerência" já conheceu melhores dias. "Esta evidência de um confronto Sul-Sul (no Sudão), esta imagem de um possível genocídio cometido por africanos contra outros africanos basta para paralisar e desarmar as inteligências", indigna-se Lévy.
5. A comunidade internacional tenta evitar a iminente execução de um casal iraniano. "Crime" cometido: adultério, que segundo o artigo 83º do Código Penal da República Islâmica do Irão é punido por lapidação quando envolve pessoas casadas, como seria o caso. Nota adicional: já estão ambos presos há onze anos.
6. O mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, desfiliou-se do Partido Republicano e é apontado como provável candidato presidencial independente em 2008, especulando-se já sobre o possível avanço do seu amigo Arnold Schwarzenegger para a corrida à vice-presidência. O milionário novaiorquino contesta o actual sistema partidário, que a seu ver conduz à "paralisia" da política norte-americana, desgastando a imagem dos Estados Unidos no mundo. A campanha presidencial é dispendiosa, o que não constitui problema para Bloomberg, cuja fortuna está avaliada em cinco mil milhões de dólares. Talvez por isso, ele gosta de recomendar aos aspirantes a políticos que se tornem milionários primeiro, "o que facilita muito as coisas".
Nem de propósito: ouço agora Money, dos Pink Floyd. Fecho o jornal: vou dar um mergulho. Já chega de notícias.

A terceira via

Muito curiosa a entrevista de Sofia Galvão na revista "Visão" desta semana. Normalmente muito recatada, a advogada resolveu vir dizer que a "terceira via será inevitável" no PSD. Segundo Sofia Galvão, que trabalhou de perto com Marcelo Rebelo de Sousa, sendo também próxima de Durão Barroso (e esteve no Governo com Santana Lopes), Marques Mendes "faz o que pode, mas isso não é suficiente. (...) O PSD está com a auto-estima em baixo, mas tem bolsas de entusiasmo muito grandes. Que se manifestarão caso exista um projecto mobilizador".
O mais importante na entrevista é que Sofia Galvão veio dizer aquilo que muita gente pensa no PSD e fora dele. A "terceira via" está a ser preparada há mais de um ano, secretamente, entre várias tendências. Sobretudo as que estão ligadas a Durão Barroso e a Marcelo Rebelo de Sousa, visto que os santanistas têm optado por colaborar com Luís Filipe Menezes. Voltando à entrevista, Sofia Galvão diz preto no branco que "o PSD vai ter um congresso, no primeiro semestre de 2008" e que "ainda muita coisa se passará... Haverá alguém com condições para disputar essas eleições". A advogada refere-se às legislativas de 2009.
Quando a nomes, mais uma surpresa: afasta os nomes de Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, Paula Teixeira da Cruz e António Borges. "Não é nenhum desses nomes... Se Marques Mendes vier a ser desafiado por Luís Filipe Menezes, é para mim seguro que haverá um terceiro candidato. (...) No tempo certo, será o próprio a assumir a sua disponibilidade". Com várias críticas ao chamado aparelho do PSD, a advogada sustenta que "as pessoas novas não são bem-vindas à política partidária".
A análise é certeira. Só que há um dado novo que quero acrescentar. A existir uma "terceira via", ela vai caracterizar-se por uma coisa muito simples: irá roubar votos e espaço interno no campo de Marques Mendes. E isso poderá beneficiar Menezes. A grande questão é se os mentores dessa "terceira via" o fazem conscientemente, ou se não tinham pensado ainda nessa possibilidade.

Música de todos os tempos (8)


Stevie Wonder - "You are the sunshine of my life"

No divã

A campanha do PSD para a Câmara Municipal de Lisboa vai de mal a pior. Primeiro, Fernando Negrão tinha o 'slogan' "Lisboa a sério", que dava a entender que antes o partido andava a brincar na capital. Agora, é "Lisboa à frente". Quererá dizer que, no passado recente, Lisboa estava mais atrás na lista de prioridades do PSD? O partido não é novo nisto, mas até parece que o amadorismo reina nos últimos tempos ali pelas bandas da São Caetano à Lapa. Até dá a ideia, com estes 'slogans', que o subconsciente de alguém fala sempre mais alto. Que tal uma tarde passada no divã de algum consultório especializado? É que os ensinamentos do dr. Freud explicam quase tudo...
Manuela Ferreira Leite e Paula Teixeira da Cruz, conscientes das trapalhadas, é que sabem. A mandatária e a líder da distrital desapareceram por completo da campanha de Lisboa. Já pressentiram que o desastre está à porta. E é preciso ir preparando o futuro.

Sexta-feira, Junho 22, 2007

São João do "Notícias"


Friday (bis)


NORAH JONES. Depois das canções, o cinema. Vamos vê-la muito em breve no filme My Blueberry Nights, de Wong Kar Wai. Um road movie que também conta com Rachel Weisz e Natalie Portman no elenco. Rachel e Natalie, se bem se lembram, já visitaram o Corta-Fitas à sexta-feira. Faltava a bela Norah: imperdoável esquecimento agora mesmo colmatado.

Dessa doença pelo menos estou safo

Estava aqui a ler esta disparatada diatribe sobre lésbicas sodomitas e espantado com a minha ignorância. Não sabia que a JS tinha colocado um cartaz com duas giraças estilo L Word a darem um beijo na boca em pleno Marquês. Acho que vou reservar um quarto no Fénix Lisboa, com uma vista. O lesbianismo, como doença, a mim não aflige.

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Friday it is

A pedido do nosso FAL, que está hoje demasiado ocupado para o cumprimento da sua habitual e benemérita missão semanal, aqui está ela: Laetitia Casta, em pose de reflexão. (Expressei-me mal. Ele não me pediu a Laetitia. A escolha foi minha. Mea culpa)

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Nas colunas


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E ele a dar-lhe

Peço, ao senhor que já deve estar a sentir cãimbras severas no indicador, que pare de votar aqui ao lado em Manuel Monteiro.

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Europa (des)unida

Os espanhóis são sempre os mais loquazes e simpáticos: ao contrário dos sisudos portugueses, cumprimentam qualquer estranho com quem se cruzam no hotel. Os alemães vêm para férias como se estivessem a trabalhar: deitam-se mal anoitece e levantam-se com os primeiros raios de sol. Os ingleses mantêm o péssimo hábito de comer feijão ao pequeno-almoço e jamais deixam de usar umas ridículas peúgas quando vestem calções. Alguém aí falou em unidade europeia?

Tertúlia literária (197)

- Tenho há três anos o Proust na mesa de cabeceira e ainda não o abri, vê lá tu.
- Caramba! Então porquê?
- Não precisei. Felizmente há três anos que não tenho insónias.

O outro Portugal profundo

Dois Portugais Profundos fazem as notícias. Por um lado, um blogger que diz não acreditar que o Primeiro-Ministro tenha efectuado uma queixa-crime. Por outro, o Portugal que o mesmo Primeiro-Ministro tem percorrido incansavelmente nas últimas semanas, apesar da Presidência Europeia, das eleições de Lisboa e tudo o mais que lhe sobrecarrega a agenda. O périplo pelo país prossegue este fim de semana em Vila Real. E quem tenha seguido estas deslocações ouvirá certamente agora os mesmos ecos das viagens anteriores: Sócrates chega ao local, é apupado mas diz que «as críticas fazem parte da democracia», aperta mãos e dá abraços, sorri. Sorri sempre. Pelo meio, anuncia investimentos e sai de cena no meio de palmas.
Tudo isto demonstra que Sócrates leu adequadamente os sentimentos dos portugueses e percebeu quão indispensável era inflectir o discurso e a forma. Decidiu ir ao campo de batalha e dar a outra cara. Uma cara mais bem disposta, dialogante, sem a crispação nervosa que se tornara a sua imagem de marca. O plano é ir, de lés a lés e a cada lugar, com uma mão para dar bacalhaus e outra para apontar anúncios, promessas e investimentos. E resulta? Se resulta! Bem podem os títulos preferir destacar a polémica em torno do outro Portugal Profundo. Isso pouco o afecta. Algures, no «País Real», Sócrates aplica o seu jogging numa verdadeira maratona, numa nova fase de conquista com verdadeiros contornos pré-eleitorais. Quem não perceber isto, toma a nuvem por Juno.

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Quinta-feira, Junho 21, 2007

Longe de Lisboa (2)

Já tinha saudades de ver os plátanos, as olaias e o par de araucárias do jardim do Largo Dr. Jorge Correia. Volto aqui nove meses depois: o mesmo cenário deslumbrante, no ponto mais alto de Tavira, paredes meias com o castelo. A dois passos, a convidativa pousada do Convento da Graça, com a sua elegância intemporal. Os sinos assinalam a lenta progressão das horas nas igrejas em redor. Um melro vadio bebe num dos recantos do jardim, regado pouco antes. Crepúsculo sobre a cidade: vejo-a cá do alto, na sua espantosa alquimia de tons, banhada pela despedida dos raios solares.
A Ver Tavira - é o nome do restaurante. Nenhum outro seria mais ajustado para este jantar, dada a sua privilegiada localização. Provo carpaccio de salmão com azeite balsâmico, lulinhas à algarvia, courgettes com queijo de cabra. Há-de vir ainda para a mesa um bacalhau verde com gambas que promete nota igualmente muito elevada. Quem disse que a gastronomia regional se resume a lugares-comuns? E bebo um fabuloso rosé alentejano - Vinha da Defesa, da herdade do Esporão - bem apropriado aos petiscos e à temperatura ambiente. Num país onde a toda a hora se consomem "sangrias" mais que duvidosas e toda a sorte de caipirinhas à refeição, percebo mal esta aversão dos portugueses aos nossos excelentes rosés, que já figuram entre os melhores da Europa.
Volta a soar um sino. E o melro cantou há pouco, reconfortado. Escuto-o: diz-me que é bom estar aqui de férias. Um brinde a esta ave tão sábia: não posso estar mais de acordo.

Momentos Kodak (53)

Começa hoje o III Salão Internacional Erótico de Lisboa. De 21 a 24 de Junho poderás viver a sexualidade de uma maneira inovadora, rompendo barreiras e preconceitos. Com uma programação diversificada que inclui debates, exposição de arte, concursos e os shows mais picantes do momento, o Salão será uma porta aberta ao prazer dos sentidos. Em conferência de imprensa, Sá Leão convidou a ministra da Cultura a comparecer no evento. Acederá ela ao convite?
(Junho 2007)
Fotografia: Rodrigo Cabrita

Do dicionário

DRENAR -- acto de suspender ou mesmo expulsar, mediante denúncia, os funcionários que ousem insultar, questionar ou mesmo gracejar com as figuras tutelares da nossa eficiente democracia.

Depoimentos de "Um dia por Lisboa"

Se me permitem, não deixem de ouvir o excelente depoimento de António Câmara (da empresa "YDreams") integrado no debate Um Dia Por Lisboa, que teve lugar no dia 19 de Junho no Teatro S. Luiz.
Outros depoimentos (Rui Tavares, Nuno Teotónio Pereira, Miguel Sousa Tavares, etc.) podem ser ouvidos em http://pftv.sapo.pt/

Fora de horas

Ontem, no lançamento do livro de José Eduardo Agualusa “As Mulheres do Meu Pai”, que decorreu na Casa Fernando Pessoa e contou com a apresentação do anfitrião Francisco José Viegas, também lá estava António Costa.
Porque é que em altura de campanha todos despertam para a cultura e fazem questão de não perder uma estreia, concerto ou lançamento de um livro?
É sempre bom ver os nossos políticos nestas andanças porque eles são mais que fatos escuros e gravatas, mas será ainda muito melhor se continuarem a marcar presença depois das eleições. A cultura agradece.

Punch

É raro eu citar este blogue, mas hoje não vi maneira de não o fazer. Aqui vai um cheirinho: "Sócrates e a srª drª DREN Margarida Moreira são personagens feitos da mesma massa: gente burra a quem alguém não deu chá em criancinha". - JPH, no Glória Fácil

Fundações

Hoje, no Parlamento, poderá ser dado o primeiro passo para a extinção da Fundação Dom Pedro IV. Depois disto, gostava de ver o Estado com mais atenção às fundações que por aí existem, muitas delas sem qualquer função social ou pública. Mas com muitas simpatias fiscais. Qualquer bicho careta pode ter uma fundação. Seja ele jogador de futebol em vias de deixar o activo, seja ele um figurão sinistro que tenha sido feito comendador há 20 anos ou um dos muitos mangas de alpaca que tenha, num momento preciso, uma excelente relação com quem ocupa o poder. Fiscalização, zero.

Má, péssima notícia

A casa de chá Raposa, em Sintra, «está fechada para obras por um período indeterminado», como avisa um ominoso letreiro. Não são apenas os fantásticos scones, o bolo de noz, as geleias ou o chá da Mariage Frères que se arriscam a desaparecer. É todo um conjunto de cores e tecidos, texturas e odores, enfim...de beleza e paz. Se a ASAE tem alguma coisa a ver com isto, aviso desde já que tenho amigos que chegam bem para os vossos ninjas. A mim, quem me tira o chá Eros tira-me tudo.

Música de todos os tempos (7)


Christopher Cross - "Sailing" (live)

Tertúlia literária (196)

- Ando sempre com Eça à mão.
- Eu a esta também gostava de pôr a mão...

Quarta-feira, Junho 20, 2007

Longe de Lisboa

O sol poisa sobre as águas límpidas do Gilão, que leva um caudal apreciável. Na esplanada de um restaurante à beira-rio, as amêijoas que encomendei passam os testes mais exigentes: saborosas e suculentas, com o tempero apropriado. Reparo no eficiente empregado, um verdadeiro poliglota: recomenda num castelhano fluente arroz de marisco a uma família espanhola, elogia a dourada "fresquíssima" a uns franceses no idioma de Astérix, sugere camarão grelhado a dois casais alemães, alternando frases germânicas com outras em inglês escorreito. Penso nesta nossa grande qualidade, nem sempre devidamente sublinhada: falamos com desenvoltura outras línguas, atributo vital numa Europa babélica.
Passam pares de namorados em bicicletas, aproveitando a brisa suave do fim da tarde. Turistas de diversas nacionalidades cruzam-se com os habitantes de Tavira na pacatez das ruas empedradas, várias delas fechadas ao trânsito. No jardim, junto ao coreto, prepara-se a festa de São João. O olhar leva-me mais longe: na monumental ponte seiscentista, pescadores improvisados tentam a sua sorte, lançando o isco às águas do rio. Sobre os telhados em tesoura que servem de cartão de visita à cidade mais bonita do Algarve, emoldurada por um céu sem nuvens, espreita a lua. "Cidade limpa" - é um dístico omnipresente nesta sede de concelho muito bem gerida pelo social-democrata Macário Correia, alvo dos maiores insultos quando um dia pretendeu candidatar-se ao município da capital.
Aqui esta frase não ressoa a propaganda: Tavira é exemplar em matéria de limpeza. O que me serve para lembrar o maçador debate de ontem à noite, na SIC Notícias, entre sete dos 12 candidatos a Lisboa. Falou-se muito de grandes obras, incluindo o futuro aeroporto, mas quase nada dos pormenores que interessam de facto aos cidadãos. A começar na limpeza. Ou melhor, na sujidade: Lisboa é uma cidade imunda.
Mas estou de férias. A política não me interessa. Prefiro continuar a saborear estas amêijoas. E fitar a lua, reflectida nas águas do Gilão. Está em quarto-crescente. Envolvidos nos nossos múltiplos afazeres quotidianos, absorvidos numa eterna corrida contra os ponteiros do relógio que nos conduz a lado nenhum, há quanto tempo não paramos um minuto sequer para contemplar a lua?

Casamentos de conveniência

Essa coisa dos homossexuais como persistentes vítimas já foi chão que deu uvas. Antes parecem-me em boa forma, e "recomendam-se" todos os dias. Aliás, na maior parte das vezes, as pessoas são é perseguidas por si próprias, pelos seus medos e fantasmas. A maior parte das vezes, são os olhos de cada um que exorbitam o preconceito alheio, parece-me. E isso, não se resolve com casamentos. A palavra “casamento” que eu saiba refere-se a “casal”. Casal, pela etimologia da palavra significa a união de um homem e uma mulher, mesmo sem um "rancho de filhos" - coisa de pretos e católicos. De resto, a promoção destas confusões e demais relativismos levam-nos aonde? É este, afinal, o novo rumo do Socialismo? São estas as novas causas, com a eutanásia e o aborto livre?
Eu, por mim, sei muito bem o que é uma família. E é muito mais do que um par de enamorados. Mas que venham então os inevitáveis cerimoniais de união entre homossexuais, consumados no Salão Nobre da câmara, ou num cartório mais próximo, com o Dr. Costa e a Dra. Brito como padrinhos. É o preço de 4% do eleitorado na vertigem da corrida ao município. Para mim dou isso de barato, desde que a canalha jamais entre em minha casa a pôr e a dispor. Falo dos novos jacobinos, obviamente, não dos homossexuais, que esses não têm culpa nenhuma de tanta hipocrisia.

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O pior foi mesmo isto

António Costa: O sorriso seráfico permanente, com momentos de autêntica figura de cera. E o Simplis, cópia do Simplex, como única ideia que se ouviu. Não descolou do lugar onde o encostaram, de ex-ministro que ainda veste a camisola.
Carmona Rodrigues: O ar cansado e constrangido, de quem só está à espera que tudo acabe depressa e de forma indolor.
Fernando Negrão: A gaffe da confusão com Setúbal, sim, mas também a baralhada final com os parques de estacionamento na Baixa que eram, afinal, na periferia.
Helena Roseta: A estratégia da anulação da autoridade. Ganharia bem mais votos se não abdicasse de si mesma, a favor de uma Troika assente num consenso que nunca existirá em período pós-eleitoral.
José Sá Fernandes: O despique com Telmo Correia, como um menino mal comportado na escola e a incapacidade de ouvir críticas ao papel que todos sabem que teve na paralisia do Túnel.
Ruben de Carvalho: Negar a ruptura financeira da Câmara não tem ponta por onde se pegue. Isso e o seu ar sempre zangado a franzir as sobrancelhas. Helena Roseta pô-lo no lugar quando quis.
Telmo Correia: A privatização do lixo. Lisboa não quer ouvir falar de mais negócios nesta fase, pelo menos apresentados desta forma com contornos difusos. A tónica final na Acção Social surgiu com tons demagógicos.

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Falta de electricidade

O debate entre sete dos 12 candidatos à Câmara de Lisboa que ontem decorreu no Museu da Electricidade foi morno, muito morno. Diria que o debate não teve electricidade nenhuma. Começou com José Sá Fernandes (BE) a dizer que "a câmara é caloteira" e que "ninguém com vergonha governa a CML assim", o que, diga-se, serviu para estabelecer o tom do debate. Para além de morno, a contenda não se pautou pelo nível. A coisa continuou quando Telmo Correia (CDS) lembrou que o vereador bloquista (sem pelouro) tinha 11 assessores. Mais à frente, Sá Fernandes respondeu, à altura: "Quando o senhor fala em milhares de prédios devolutos na cidade, pode-me dizer três?" Telmo exclamou: "Não faça truques".
Para além do debate entre os extremos ideológicos, justamente aqueles que podem vir a não ser sequer eleitos, destaque para a prestação fraquíssima de Fernando Negrão. O candidato do PSD não conseguiu explicar como iria funcionar o tal fundo imobiliário com imóveis da CML (uma ideia que Santana teve quando enfrentou João Soares) e deitou tudo a perder quando, por duas vezes, se referiu assim à autarquia da capital: "Se pusermos o Ministério das Finanças a mandar na Câmara de Setúbal...". Ninguém lhe explica que a eleição é desta margem?

António Costa, tenho que confessar, surpreendeu-me. Não gostei de o ver de sorrisinho na boca sempre que os adversários falavam, com uma atitude cínica que pensava ser mais característica do secretário-geral do PS. Algures no caminho, e talvez por osmose, deve ter apanhado o tique. Não lhe fica bem.

Costa explicou bem o caos financeiro da CML, sem populismos, mas falhou quando afirmou querer "recorrer a um acordo de saneamento financeiro" para evitar que o Estado tenha de intervir. Uma deixa que Telmo e Negrão acabaram por saber explorar. Melhor o primeiro que o segundo. Ruben de Carvalho esteve igual a si mesmo, bem a defender a posição dos trabalhadores do lixo da CML (que são quase três mil), mal quando interrompeu várias vezes os adversários com "bocas" desnecessárias.

Quanto aos independentes, Helena Roseta esteve melhor que Carmona Rodrigues. A candidata lembrou que o PS nunca alertou para a crise financeira da CML em reunião da Assembleia Municipal e defendeu coisas simples, eficazes. Como os "gabinetes de proximidade" e a prioridade aos actos cirúrgicos, em detrimento dos grandes projectos. Segura, só não gostei daquela flor na lapela, verde e com as pétalas a esvoaçarem durante todo o debate.

Carmona esteve cinzento, apesar de simpático (o seu forte). Rebateu bem a questão dos assessores e esteve melhor quando apresentou o seu programa, com toda a engenharia ambiental - onde é especialista. O cenário não lhe foi benéfico, nem a escolha do fato escuro ajudava, todo parecia sombrio. Acabou por ser um autêntico saco de boxe.

Música de todos os tempos (6)

Debate CML

A frase: "O António Costa saiu do Governo, mas o Governo não saiu dele", Telmo Correia.

Terça-feira, Junho 19, 2007

'When The Deal Goes Down'


Para os admiradores de Bob Dylan, justíssimo vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias 2007.
(Via Mar Salgado)

Well, the moon gives light and it shines by night
When I scarcely feel the glow
We learn to live and then we forgive
O'r the road we're bound to go
More frailer than the flowers, these precious hours
That keep us so tightly bound
You come to my eyes like a vision from the skies
And I'll be with you when the deal goes down
Bob Dylan: Modern Times

Apanhar bonés

Sempre que vejo um ajuntamento, alarido e mãos no ar, deve ser distribuição de coisa gratuita, mais do que certo. Há uns tempos, quase que se atropelavam por uns lenços com publicidade a comprimidos para dores de cabeça. Em Serralves, a troco de umas pilhas para iluminar os percursos à noite, houve quem desistisse por tanto empurrão. Claro que há sempre os espertalhões, os que furam as filas, os mais ágeis que conseguem chegar-se à frente num abrir e fechar de olhos e depois há os tansos. São reconhecidos pelas queixas que timidamente vão soltando e porque, de facto, vão ficando para trás. Já presenciei ferozes batalhas corporais por bolas de praia (de plástico) e autênticas lutas greco-romanas por uma almofada insuflável. A maior parte das vezes trata-se de coisas verdadeiramente inúteis e de cuja utililização tenho as maiores dúvidas. Por exemplo, não me estou a ver com um boné com publicidade a pneus nem pins a anunciar novos gelados, mas é gratuito, logo é bom. Ainda que as crianças se divirtam à grande enquanto vão empurrando os adultos sem pena nem castigo, até tem a sua graça, mas os adultos, valha-me Deus! Vale a pena tanto safanão por um boné com publicidade a uma marca de enchidos?
Só a família ao meu lado levou quatro pilhas. Devem ter problemas com fusíveis.
(Daqui e a propósito do post do FAL "Vai um brinde?)

Aniversário na cidade

Hoje, a Carrie faz anos. É jornalista (neste blogue são todas mulheres e todas jornalistas) e muitas vezes queixa-se da vida. A Samantha também, aliás. A Charlotte já não a leio há muito tempo e a Miranda, bem...A Miranda essa não se dá muito a conhecer, mas vai mostrando as fotografias de viagem. Se hoje à noite derem, em Lisboa, com quatro belas moçoilas a emborcar caipirinhas, já sabem. São elas.

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Para o que lhes havia de dar (2)

Estive a ler o que o João escreveu aqui em baixo e cheguei à conclusão que o Vaticano fez muito bem: "It warned about the effects of road rage, saying driving can bring out 'primitive' behavior in motorists, including 'impoliteness, rude gestures, cursing, blasphemy, loss of sense of responsibility or deliberate infringement of the highway code'." Muito bem, mesmo.
Estes dez mandamentos da arte de bem guiar um carro poderiam começar por ser aplicados em Portugal. Já hoje.

Gato escondido

Mão amiga enviou-me o programa de hoje da maratona de ideias «Um Dia Por Lisboa - Fazer ou Não Fazer» no S. Luiz, com início às 19H e fim lá para a meia-noite. Uma lista muito interessante de oradores, apresentados como um «grupo de cidadãos de Lisboa, não vinculado a qualquer das actuais candidaturas». Lá para as 22h, fala Saldanha Sanches. Não querem lá ver que se demitiu do seu cargo de mandatário?

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Para o que lhes havia de dar


Pensei que era a brincar, mas a Associated Press não faria uma coisa dessas. O Vaticano divulgou hoje os seus 10 Mandamentos para o Condutor. Leiam e cumpram-nos. Eu não tenho intenções de fazê-lo, até porque nunca tive carta de condução (Embora já tenha tido um carro. Oh! Que saudades do meu Simca 1300 com banco corrido à frente).

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Na hora da sua morte


«Não gosto de vestir mulheres ignorantes». Gianfranco Ferré. Eu também não. Prefiro despi-las.

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Tertúlia literária (195)

- Saramago diz que a esquerda é mais estúpida do que a direita.
- Ele é de esquerda, não é?

Uma da manhã, bem bom

No programa Prós e Contras de ontem à noite, dirigido por Fátima Campos Ferreira, Durão Barroso num frente-a-frente com Mota Amaral, Jorge Sampaio e Carlos Carvalhas comentava em ar de graça. “Portugal deve ser o único país da União Europeia que à 01:00 da manhã ainda está a discutir a Europa.”

A ler

1. "Prós & Contras: o Tratado mini-breve-sumário-abreviado", do Carlos Abreu Amorim.
2. "Detector de Spin", do Paulo Gorjão.
3. "O meu estudo é melhor que o teu", de Eduardo Pitta.
4. "Aeroporto: decidindo como decidir", de Miguel Poiares Maduro.
5. "Que sejas feliz", de Pedro Mexia.
6. "Sentido de Estado e estado de pânico, ou a República dos bananas", do Henrique Burnay.
7. "Mais do que almas puras, espíritos sãos", de Laura Abreu Cravo.
8. "Sócrates, we have a problem", de Bruno Gonçalves.

4x4


O Portugal dos Pequeninos faz quatro anos. E o Corta-Fitas associa-se às comemorações, tão pouco desejadas pelo próprio autor, mas inteiramente merecidas. Parabéns, João Gonçalves. Nem sempre estamos de acordo, muitas vezes o João vai por caminhos onde não nos revemos, só que a democracia é isso mesmo e é preciso reconhecer a qualidade onde ela existe. Por isso, conte muitos mais.
Aqui vai um naco de prosa, tão característico do autor do PP: "Sócrates foi a Bratislava vender o seu peixe como futuro 'presidente' da UE. Na 'foto familiar', estava ladeado por uns gigantes eslavos e por um anão, ao canto. O anão é o primeiro-ministro da Polónia onde o seu irmão gémeo é presidente. Na conferência de imprensa, Sócrates, que está tão à vontade nestas matérias como a conduzir camiões TIR, usou da habitual langue de bois de Bruxelas. O anão não apreciou e remediou a falta de estatura com uma feroz diatribe anti-conselho europeu e respectiva retórica'. O anão, naturalmente, prepara-se para estragar o sucesso do semestre português. Nunca tinha reparado nesta dupla. Talvez valha a pena prestar-lhe mais atenção."

Estudos

O Porto quer que o aeroporto de Lisboa fique... em Lisboa. Faz sentido. E, assim de repente, Rui Moreira saltou do comentário desportivo e dos negócios regionais para a ribalta nacional. Ele que chegou a ser assediado para concorrer pelo PS à Câmara Municipal do Porto contra Rui Rio. Alguém já deve estar arrependido de não ter feito um forcing adicional, como se diz em linguagem da bola...

Música de todos os tempos (5)

Creedence Clearwater Revival - "Have you ever seen the rain?"

Vai um brinde?

Nove e tal da manhã à entrada da Praça de Espanha e eis que sou obrigado a parar no sinal encarnado. De repente, mesmo uma uma chuva dos diabos, uma série de meninas e meninos de boné na cabeça e com T-shirts coloridas saltam para o meio dos carros a oferecerem jornais: o Metro e o Destak. Muitos automobilistas, com medo que entre a chuva no carro e lhes estrague os estofos (e os "extras" do carro), denotam alguma resistência em fazer descer os vidros. Até que surgem mais uns rapazes com um carrinho com garrafas de água gasosa com sabor a limão. Vários dos automobilistas, até então renitentes, abrem os vidros num ápice e, pasme-se, fazem entupir o trânsito porque não arrancam ao sinal verde. Os portugueses são loucos por brindes. Levam, contrariados, um jornal gratuito só porque oferece uma garrafa de Água das Pedras. Mesmo que não tenham por hábito ler jornais ou beber água com gás logo de manhã. Típico.

Segunda-feira, Junho 18, 2007

Falta de chá

Mandar um secretário de Estado à posse do Governo Regional da Madeira é revelador de muito maus fígados, além de ser uma falta de educação para com o povo madeirense. Já agora, porque não o dos negócios estrangeiros?

Um poeta é isto

Nasci no campo, onde se cruzavam os cheiros de flor
Do limoeiro
Com o de hortelã e o do estrume. Brinquei
Por entre o milho, queimei em fogueiras o rosmaninho,
Persegui lagartixas, cobras e ouriços, capturei e destruí
Escaravelhos,
Defendi as carochas, roubei ninhos com ovos e pássaros
Implumes,
Colhi cachos ainda verdes, desesperei pelo amadurecimento
Dos figos, das romãs e dos alperces,
Tingi-me com amoras, fui irmão das abelhas, discuti com o
Vento
E mais do que a erva e as árvores aproveitei-me da chuva.
Agora moro num quarto andar e tenho um automóvel tão
Sólido como a minha infelicidade,
Viajo às vezes entre as árvores, e colinas com árvores e
Planícies com árvores
Mas está tudo longe, fora do alcance, fugindo de mim
Rapidamente, em sentido contrário,
Com a mesma rapidez com que a infância me fugiu.
Sou hoje um cidadão da pedra e do betão. Os meus pés não
Pisam já o alecrim,
Os meus olhos não se habituam já ao escuro da noite para
Observar o voo dos morcegos,
Guardo uma ideia vaga de como era um arado, tenho
Saudades
De ver o meu pai descalço a regar morangos e abóboras.
O piar dos tentilhões e dos picanços foi substituído pelo
Ruído do tráfego,
O desajeitado voar das borboletas parece-me às vezes vê-lo
Nos papéis
Que o vento levanta do chão, levando-os daqui para acolá,
E a minha vida é vivida de forma a comemorar o dia disto
E o dia daquilo
Sem comemorar nunca o dia em que começa a primavera.
Bom dia!, diz-me o cliente. Bom dia!, diz-me o fornecedor.
Bom dia!, digo eu, sem dizer nada.
Joaquim Pessoa

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Balde de água fria

Este Caruso, do CSI Miami, é do piorio que a representação nos tem dado (bom, na verdade, todo o casting dos CSI's é de bradar aos céus). Numa série com montagem excelente e um som fantástico, é frequente vê-lo chegar ao local do crime, deixar descair os óculos escuros - revelando um olhar profundamente sábio e perspicaz - e perguntar ao colega algo tipo "Fechastes o carro?". Chego a corar de vergonha.

Ao contrário do Dr. House, que deslumbra logo no primeiro episódio mas depois vai-nos cansando com o seu cinismo, do Caruso vamos aprendendo a gostar aos poucos. É tão improvável, tão inverídico e tão canastrão que chega a parecer autêntico. Um pouco como o Anjo na Terra (lembram-se?) ou os cartazes do Negrão. Confesso, estou agarrada.

Ternura dos 50


Embora não pareça, o Verão está aí. E trouxe-nos a Michelle Pfeiffer, perfeita à beira dos 50 anos. Vamos poder vê-la daqui a uns dias em I Could Never Be Your Woman. Why not?

O "lobby" em Portugal

Numa altura em que muitos questionam o alcance das ligações entre a política, a economia e os interesses, é de bom tom lembrar os mais distraídos que amanhã se realiza o "Primeiro Seminário de Lóbi em Portugal", no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Eu cá prefiro continuar a chamar a essa actividade de lobbying ou de fazer lobby, à inglesa e à americana, mas admito que se fosse mosca ou abelha, gostava de lá estar para ver quem é que aqui no burgo se assume como tal...

Quem é otário, quem é?

Aquilo que parecia ser uma estratégia brilhante parece estar a transformar-se rapidamente numa manobra de contornos muito claros, com efeitos secundários imprevisíveis. Sócrates quis adiar um problema chamado Ota por seis meses. E não olhou a meios para o fazer. Enganou-se numa coisa: nem todos são facilmente domesticáveis.

O que é um poeta?

O céu parece uma folha de papel gigante!”, comentou António, enquanto ia no banco de trás do carro, em viagem. O pai, já sem inocência, respondeu: “Temos aqui um poeta precoce.” Depois António calou os pais ao querer saber o que era um poeta. Repetiam: “Um poeta… um poeta é… um poeta…
Não quiseram ou não souberam desvendar o mistério e deixaram o conceito suspenso num mar abstracto de indefinição.
- “Um poeta é quem escreve poesia.
- “E o que é poesia?
- “É o que um poeta escreve.
A mãe, num tom doce, explica que quem vive intensamente coloca em papel a sua forma de ver o mundo. Também acrescenta:
- Não existem só os poetas da escrita. Há os poetas da melodia, os poetas das imagens, os poetas de rua. Existem poetas que fazem chorar.
- Uma vez um senhor numa esplanada entregou-me uma folha com palavras. Era um poeta?
- Sim.

Música de todos os tempos (4)



Chicago - "If You Leave Me Now"

Politicamente incorrecto

Hoje de manhã vi e ouvi o dr. Luís Filipe Menezes confessar na SIC Notícias que costuma assistir a algumas novelas e, em especial, à Floribela. Menezes acrescentou ainda que se quisesse ser "politicamente correcto" escondia esta sua maneira de ocupar os tempos livres. Eu sou suspeito, pois detesto novelas (só os gritinhos agridem-me os nervos), mas acho que o PSD está cada vez mais animado... E perigoso.

Hoje acontece


No ICRL, oportunidade para ouvir Florin Turcanu, um dos melhores peritos romenos sobre Mircea Eliade e autor de «Mircea Eliade - Prizonierul istoriei», uma monumental obra sobre esse mestre do pensamento que viveu em Portugal grande parte da sua vida. A palestra é às 18.30H na Av. Luís Bivar, 61, 4º andar.

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Em primeira mão

Ao contrário do que tem vindo a ser publicado na imprensa, não é verdade que Jacinto Leite Capelo Rego - um dos doadores para a campanha do CSD-PP - não exista. O Corta-Fitas apurou junto da Interpol e do seu comissário Toutaki Toutapoulos que Capelo Rego assumiu uma nova identidade ao abrigo do sistema de protecção de testemunhas, razão essa pela qual não pode ser encontrado. O português será uma testemunha chave no julgamento do capo mafioso Claudio Minneti.

Domingo, Junho 17, 2007

Rir é o melhor remédio (2)

Pela segunda vez, chegados ao fim de mais uma semana, decido fazer uma selecção de alguns dos comentários mais engraçados que fomos recebendo nos últimos dias cá no Corta-Fitas. A propósito dos mais diversos assuntos, mas sobretudo da inesgotável localização do futuro aeroporto de Lisboa, que ainda ninguém sabe ao certo onde será.
Leiam. E riam com eles. E também connosco.
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“Deviam era demolir o Freeport e fazer lá o aeroporto.”
“Em Alcochete não pode ser. É um convite aos terroristas para desatarem a dinamitar as pontes.”
“Onde já se viu, fazerem um aeroporto numa carreira de tiro. Aquilo é mesmo pedir que apontem aos aviões. Pim!”
“Tá bem, tá. O Cavaco quer é o aeroporto mais perto de Boliqueime...”
“O Cavaco de aeroportos não percebe nada, pois se ele nem sequer é inginheiro civil inscrito na Ordem.”
“Allcochete?”
“O governo, se estivesse a ver bem a coisa, nomeava o João Soares para conduzir o processo na base do 31 de boca. Com papéis e contratos e tudo isso fica tudo mais difícil.”
“O pessoal está todo a ler os estudos sobre o novo aeroporto, como é próprio de qualquer bom cidadão (o que não é o meu caso).”
“Eu cá acho que, em nome do Menos Estado, se devia privatizar a Câmara Municipal de Lisboa.”
“Já o Luís (o Camões) tinha dito que a alma tinha "partido". E já lá vão tantos séculos. Visionário, o Camões, apesar de só ter um olho.”
“Não me importava nada de ter nascido em Espanha, nem que fosse em Badajoz.”
“Também quero ir nascer em Espanha! Ainda irei a tempo?”
“João Soares deve ter precisado de uns doze tradutores do PS para, através de um croquis, lhe explicarem que não era ele o candidato à Câmara de Lisboa e sim aquele do burro, de que agora não me lembro do nome (do candidato, não do burro).”
“Agora em casa dos Soares o que está a dar é tradutores do «venezuelano»’.”
“Se não fosse ateu, teria tendências a voltar-me para o budismo.”
“Toujours gais? mau mau mau mau... Querem ver que por causa de um ou dois a fama já chegou à estranja?”

Mais meninas com tomates


O simpático blogue Absolutamente Ninguém acaba de nomear o Corta-Fitas para o seu "bando dos cinco" blogues com tomates. Repetindo assim a distinção que já nos tinha sido atribuída pelos igualmente simpáticos Geração Rasca e O Andarilho.
Fiéis ao espírito da coisa, voltamos a nomear outros cinco. E sempre blogues femininos, para não destoar da nossa tradição.
Ei-los:





O nível na política (2) - Autênticos otários

Rui Moreira, ao revelar que houve contactos entre a CIP e o Governo a propósito do estudo alternativo para a construção do novo aeroporto internacional da região de Lisboa, tornou tudo mais claro, mais óbvio ainda. O empresário do Norte garantiu que foi José Sócrates quem pediu para que só aparecesse a CIP como defensora da solução Alcochete e disse que isto tudo se passou antes de ser tornado público o estudo. Sócrates e Mário Lino, garantiu o presidente da Associação Comercial do Porto, sabiam de tudo há semanas ou há meses e, portanto, andaram a "fazer de conta" nas televisões, com declarações do género "parece que agora um estudo diz tal e tal". Não se faz, mas diz tudo de quem é capaz de agir desta maneira. Fazendo de todos nós, autênticos otários. Veremos como irá agir o LNEC, ao tentar encaixar a luva na mão da solução Ota. Daqui a seis meses, contudo, o Governo terá que explicar tudo muito bem. Se não for ao povo em geral, a quem irá assegurar meia dúzia de inverdades, pelo menos ao Presidente da República. E a esse, garantidamente, não poderá faltar à verdade.

Passa ao outro e dá ao mesmo

Ouço, na SIC Notícias, o eco do desespero da polícia portuguesa no caso da criança desaparecida no Algarve. Que «as provas importantes podem ter sido destruídas e adulteradas» pelos pais e amigos do casal, na hora que antecedeu a chamada da polícia e a selagem do local.
Não é preciso ter dois dedos de testa para perceber o obvio: A nossa polícia já não sabe para onde se virar na sua incapacidade e vem, todo este tempo depois, transformar um facto normal - o de só recorrer às autoridades depois de exploradas outras possibilidades - com informações que, da forma como foram apresentadas, mais parecem uma acusação aos pais da criança. Shame on us.

As emoções básicas (crónica) IV


A sombrinha
Tenho um calendário na parede em frente à minha mesa de trabalho. Inclui detalhes de pinturas do Museu do Prado, uma obra por mês; e, no mês de Junho aparece esta imagem. Chama-se El Quitasol, foi pintado por Francisco Goya, com data de 1777. Um rapaz segura a sombrinha (tem o outro braço dobrado, parece-me que será demasiado comprido, ou o cotovelo excessivamente puxado para a direita, talvez por ser um adolescente ainda com o corpo desproporcionado); a pintura é dominada pela figura de uma jovem (também adolescente); ela tem a cabeça protegida pela sombra do guarda-sol, enfeites no cabelo, brincos brancos, um vestido elegante, azul, uma capa de bom tecido, de onde sai o seu braço, que segura um leque; e, ao colo, dorme um cãozinho, cujos contornos são confusos; talvez o animal tenha uma fita vermelha à volta do pescoço. O jogo de luz, na cara da rapariga, é espantoso. E, depois, há um sorriso...
Na minha parede, no calendário, a imagem é quadrada, limitada ao centro da pintura. Não se percebe bem o que está no fundo. Seria preciso ver a obra original para deslindar todos os detalhes. Lembro-me dela, no andar de topo do museu: é grande, pelo menos um metro e meio de comprido e mais de um metro de altura. Mas quando a vi, estava cansado, já não me recordo exactamente dos pormenores...
(É o grande defeito dos museus bons: queremos ver tudo e acabamos por não ver nada; a mente humana não aguenta mais de cem imagens de cada vez; os museus devem ser vistos durante vários dias, 20 ou 30 pinturas em cada visita).
Não sou historiador de arte e o que me leva a escrever sobre a sombrinha não é a pintura em si, mas o fascínio que ela me tem provocado, nestes 17 dias em que está ali, à minha frente.
O que me ocorre, quando olho a imagem, é a ideia de um mundo que já não existe, luminoso e solar, com uma alegria interna e leve que nos surpreende.
A imagem fascina porque vivemos num mundo cheio de sombras, de cores esbatidas, um pouco nocturno...
(Vivemos rodeados de imagens banais, de tal maneira que mal paramos para desvendar os seus enigmas. Não me estou a esquecer do estilo das cores da publicidade ou da beleza fria da national geographic; mas reparem que essas imagens pertencem a universos que visitamos apenas virtualmente, em papel de 80 gramas; podiam ser de Marte)...
Talvez por isso nos escape, ou encante, esta pintura: a sua alma, a graciosa leveza. As figuras enviam um sorriso de um mundo que já não existe. Mas o que me choca é que o pintor não sabe, as personagens ainda não sabem, mas este mundo feliz deixará de existir ainda em vida destas pessoas autênticas.
A luz evanescente que se espalha de forma desigual; o vestido azul, cujas pregas reflectem o sol dourado; o sono tranquilo e sonhador do cãozinho; e a paciência (talvez apaixonada) do rapaz que segura a sombrinha.
Dentro de uma geração, tudo isto será apenas uma memória, pois uma terrível guerra vai mudar a vida de toda a gente. O pintor sofrerá muitos horrores; e a Espanha, invadida, massacrada, entrará nas trevas.
El Quitasol está longe de ser a melhor pintura de Goya: é uma obra de juventude, que não se compara ao poder trágico dos Fuzilamentos de 3 de Maio, ao erotismo da Maja e aos geniais Pinturas Negras e Desastres de Guerra (que parecem um século à frente do seu tempo).
Esta sombrinha é apenas uma imagem sobre a surpresa, a alegria de viver, ou antes, a esperança da vida futura. E, sabendo nós o que não se encontra nas suas pinceladas, mas que foi captado na essência, há como que uma antecipação da tragédia e da morte, um sorriso que inclui a futura tristeza, e a nostalgia do que inevitavelmente está condenado.

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Barrigas de amor

Foi só uma brincadeira, não foi? Essa de organizar uma concentração de grávidas para apelar ao incremento da taxa de natalidade... Bem sei que a TV é o mais poderoso meio de persuasão de massas, mas... acham mesmo que a partir deste final de tarde e ainda embalados pela música do Toy, muitos casais vão já agora, e porque não, contribuir para o aumento dessa estatística? Marimbar-se no apertado orçamento familiar e fazer a festa? Quem sabe decidir já trocar o apartamento exíguo por um mais espaçoso para receber o futuro rebento condignamente? Talvez até mandar o emprego dela às urtigas – visto que está a recibos verdes e se engravidar fica logo apeada - e arranjar já outro melhor?
Pronto, então está bem!!

Interlúdio cultural


BEATRIZ BATARDA. Provavelmente a melhor actriz portuguesa do nosso tempo.

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 7, 36-50

Naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para comer com ele. Jesus entrou em casa do fariseu e tomou lugar à mesa. Então, uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade – ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume; pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito, banhava-Lhe os pés com as lágrimas e enxugava-Lhos com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume.
Ao ver isto, o fariseu que tinha convidado Jesus pensou consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia que a mulher que O toca é uma pecadora». Jesus tomou a palavra e disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te». Ele respondeu: «Fala, Mestre». Jesus continuou: «Certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles ficará mais seu amigo?». Respondeu Simão: «Aquele – suponho eu – a quem mais perdoou». Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem». E voltando-Se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não Me deste o ósculo; mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés. Não Me derramaste óleo na cabeça; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. Por isso te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama». Depois disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados».
Então os convivas começaram a dizer entre si: «Quem é este homem, que até perdoa os pecados?». Mas Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz».

Da Bíblia Sagrada

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Nas colunas


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Nunca vi nada assim

Estou mesmo agora a assistir, na RTP, «à maior concentração de grávidas do mundo». Dizem que são duas mil e tal e, neste momento, alguém pergunta se «vamos bater o record». Outra alguém acredita que vamos. Tudo isto se passa mesmo aqui ao pé de casa e é assustador. Pergunto-me se haverá polícia e bombeiros que cheguem para travar o caos, se todas desatarem num estampido hormonal agora que Toy começa a cantar. Mas onde estão os futuros pais? A emborcar bejecas na Catedral da Cerveja? Saberão eles que muitas destas mulheres, não satisfeitas com o balão na barriga, ainda ostentam outro na mão como símbolo exponencial da filharada? Eu sou pai de dois e ex-padrasto de três, todos lindos rebentos. Por isso, se até a mim isto arrepia, não sei não.

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Hemeroteca (5)

Sedes do MRPP desmanteladas

«Na sequência dos graves acontecimentos de Coimbra, o COPCON desencadeou, ontem, uma vasta operação que mobilizou centenas de soldados no assalto às várias sedes do MRPP, em Lisboa e Amadora, tendo apreendido ficheiros, máquinas gráficas, catanas, facas, matracas, barras de ferro e pelo menos uma pistola-metralhadora. Na Amadora, houve resistência inicial por parte dos elementos do MRPP, que formaram cordão e dispararam alguns tiros de arma ligeira, o mesmo acontecendo em Lisboa, na Avenida Pedro Álvares Cabral, sede do movimento, e na Calçada do Combro». Século, 29.05.1975

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Tertúlia literária (194)

- O Mário Soares disse numa entrevista que gostaria de ter sido ele a escrever Os Maias, em vez do Eça.
- Bem, ele ainda vai a tempo de escrever "A Ilustre Casa de Nafarros". Ou "O Mistério da Estrada do Vau". Ou "A Cidade e as Sestas".

Life is short


Hoje acordei assim. Não admira, despertar às 7.30 de um domingo quando não há nada que o justifique é, no mínimo, irritante. Voltei-me, a ver se pegava no sono, mas era inútil. Saí da cama, fui “ver se chove”. Chovia. “Tempo miserável, nem parece que estamos em Junho”, resmunguei. Mas de alguma forma a tristeza meteorológica confortou-me. Eu e a chuva aconchegámo-nos então no sofá, unidas no amuo matinal. Olhei à volta, desconsolada. Peguei num livro sem entusiasmo. “O que me apetecia mesmo era estar a dormir, raios!”, desabafei enquanto lhe tirava as medidas. “Deves ter perto de 400 páginas”. Lá fora ouviam-se poucos automóveis a passar, peganhentos, com vagares de sonâmbulos. Fui ver: 390 páginas. Acertei!
Mastiguei os primeiros dois capítulos de “Meridiano de Sangue”, de Cormac McCarthy, mas a leitura não me estava a dar prazer. Apeteceu-me depois um café e a seguir umas tostas. Esse pequeno almoço frugal, enfim, reconfortou-me. Passei água fria no rosto e a alma também arrebitou. Que se lixe a cama! Decidi então aproveitar o tempo. Pus em dia leituras atrasadas, arrumei as papeladas que há dias jaziam na mesa da sala. Enchi-me de brios e decidi também tratar das minhas plantas. Algumas andavam a pedir-me amor e carinho há muito tempo e eu nada.
São 9.30h agora, o que quer dizer que ainda tenho uma manhã inteira pela frente, totalmente disponível para mim. Coisa rara. Em regra eu e as manhãs e as tardes andamos de costas voltadas, eu a querer desfrutá-las e elas sempre com negas: “Tira-te daqui, já estás atrasada!” A ideia de deitar mão a uma série de tarefas que andava a adiar há muito tempo está a entusiasmar-me. Pôr finalmente aqueles cd’s por ordem alfabética? Eliminar pastas antigas do desktop do meu PC?
Será que isto não é um bocadinho neurótico? Cheira-me que sim. A vozinha da “psi” que partilha comigo o piso térreo do meu edifício mental sopra-me, sibilina: “Estás mas é com um ataque de ansiedade por não teres dormido o suficiente, filha!” Decido não lhe dar a mínima confiança. A meio da manhã tomarei um duche e recuperarei, então, o ritmo mais adequado a um dia de folga. Depois, quem sabe, um cineminha. Talvez o filme do chinês continue em exibição.
Ainda é tão cedo e já fiz tanta coisa! Bah! Afinal o que são três horas de sono a menos?! Continua a chover. A velhota do 3º andar já está na rua a passear o caniche. Ela de rosto franzido a trocar as pernas, ele feliz da vida a gozar a frescura do ar, os dois de caracóis cinzentos a pender para a testa, como duas gotas de água. O trânsito flui com a cadência dos domingos. Está a apetecer-me um croissant da pastelaria. A esta hora ainda estão quentes.

Sábado, Junho 16, 2007

Música de todos os tempos (3)


The Crusaders - "Street Life"

Uma lição de jornalismo


Falei aqui há dias do excelente livro Retratos Falados, de Fernando Assis Pacheco. Grande poeta, grande escritor, grande jornalista. É um prazer mergulhar nestas páginas que nos desvendam relances de personalidades tão diversas como Salgueiro Maia e Nicolau Breyner, Mário Soares e Francisco Louçã, Herman José e Carlos Tê. Páginas onde “escutamos” o pintor Henrique Medina falar-nos de um jantar com Greta Garbo ou a inesquecível deusa do cinema português, a eterna Milu, relatar-nos uma sessão de convívio em casa de Curd Jürgens, na Côte d’Azur, em que conheceu Billy Wilder e Dick Powell.
Cada uma destas entrevistas é um prodígio de técnica jornalística – algo que devia ser ensinado nos anódinos cursos de Comunicação Social portugueses, tão dissociados do pulsar da vida. Repare-se só nesta entrada a uma entrevista a Amália Rodrigues, feita em 1988:
“Diz que não tem sonhos e a vida é absurda. Alegre e triste, solitária sem deixar de ser convivente, Amália Rodrigues, 67 anos, acha-se ‘o prato forte do fado’. Um triplo álbum com o recital do Coliseu serve-o ao público sempre faminto da sua voz incomparável.”
Assis Pacheco vintage. O jornalismo português no seu melhor.

Nomes e apelidos

Por conveniência social, desde pequeno me habituei a um atitude de prudente discrição quanto aos meus apelidos e ascendência. Sempre promovi o meu nome de baptismo como prioritária forma de tratamento, para uma mais sã sobrevivência numa sociedade de ressentida bimbalhada ou provincianos bajuladores. Precocemente contactei com esta “mui republicana” cultura, por ocasião da minha passagem pela cinzentíssima escola primária da câmara onde adquiri uma epidérmica embirração ao tratamento pelos apelidos. Não raro o meu nome se tornava alvo de jocosas ou imbecis provocações, as mais das vezes algo antipáticas e subtis agressões às quais (por força das instintivas defesas) rapidamente me tornei indiferente. Curioso é constatar que os preconceitos provinham mais comummente dos zelosos e cinzentos funcionários do regime, (professores ou contínuos) do que das cruéis criancinhas com quem eu ombreava em busca de um lugar ao sol, se possível a jogar à bola.
Vem esta conversa toda a propósito de uns comentários (nem sempre censurados) que têm surgido ultimamente, pretendendo que o nome do Sebastião José seja motivo de chacota para mim, um simples Távora. Então, permitam-me por uma vez abordar aqui questões de genealogia, ciência de que percebo pouco, mas o suficiente para saber que possuo tanto sangue Távora quanto Carvalho e Melo. Para isso bastou o casamento dos meus pais. Para não ir falar de outras mais antigas ligações entre as duas casas (a celebre história do "Bichinho de Conta"). De resto, quanto às ditas provocações, apetece-me dizer que pior que o mau gosto, só mesmo a ignorância.
De resto, talvez se os portugueses dedicassem tanto tempo a conhecer descomplexadamente a história da sua família, a sua "primeira tribo", quanto a bisbilhotar ressentidamente a vida dos outros, fosse a maneira de evoluirmos como povo. A auto-estima constrói-se com a pertença e o conhecimento, não com a ignorância ou efabulação.

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A agenda da história – quem a conhece?

Discordo da suposta tendência contemporânea para a poligamia, referida pela Cristina Ferreira de Almeida aqui em baixo, já que essa característica parece-me ser antes uma ancestral genética e cultural tendência humana. Esta propensão poligâmica foi sempre ao longo da história mais ou menos regulada, mais ou menos reprimida. Agora, já concordo que, circunstancialmente, a cultura anarco-liberal vigente, vem, de há algumas décadas para cá, metodicamente destruindo os mecanismos e instituições de auto-regulação. Tudo isto em nome duma pseudo liberdade individual, com que se promove uma global anarquia de costumes, sempre em favor do mais forte, das relações de consumo, em ordem à satisfação imediata do instinto (mais ou menos) predatório e egoísta do individuo. Estas são actualmente as forças motrizes da nossa civilização (aliás nada republicanas – não há gente mais puritana do que os republicanos de gema) que receio cedo entre em retumbante decadência.
Quanto à agenda, concordo que a questão do regime para já não tem grande cabimento. Mas por mim, e por muitos outros monárquicos que conheço, mais à esquerda ou mais à direita, por puro patriotismo e amor à causa, não deixaremos de espreitar uma hipotética oportunidade de questionar o regime... que manchado de inocente sangue, foi implantado pela força da baioneta e da tirania. E vai festejar (?!) cem anos. Não tarda nada.

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Os tugas (21)


As marquises. As eternas marquises. As inevitáveis marquises. As inenarráveis marquises lusas. Mal "compra uma casa" (quer dizer, mal se endivida até ao tutano a uma entidade bancária para adquirir um T-2 que três décadas mais tarde será propriedade sua se Deus quiser), Chico dos Anzóis fecha a varanda. Fecha as duas varandas, se as houver. Fica com uma marquise - ou com um par de marquises. Para evitar as "correntes de ar". Para evitar o sol "abrasador". Para depositar a enferrujada bicicleta que não voltará a ter selim, uns cacos velhos, três vasos com sardinheiras e uma quantidade infindável de pó doméstico.
Chico dos Anzóis desce à rua em fato de treino com o emblema do Benfica, de braço dado com a sua Maria Jaquina, rumando ao carro estacionado em cima do passeio que os transportará ao centro comercial. Levantam ambos os olhos para o andar onde residem. Enlevados. Orgulhosos da sua marquise com os reposteiros corridos para evitar que a indiscreta vizinhança deite os olhos aos vasos de sardinheiras e à colecção de cacos. Marquise em vidro fosco, igual às outras marquises todas da rua, do bairro, da povoação, da Tugalândia em geral.
País de marquises. Inimigo das varandas, da aragem e do sol. É bem-feito que a chuva não pare hoje de cair.

Até gostava que me convencessem do contrário

Toda a gente está de acordo com Salazar: em Portugal não se coloca a questão do regime. Mesmo os monárquicos concordam que não é prioritária. Mas, tanto no jantar de ontem como nas reacções à interessante análise sobre esquerda e direita feita pelo Luís Naves, lá damos por nós a discutir os ideais monárquicos. Percebo que, para quem defende a monarquia, seja irritante ver o tema tratado como uma patetice: reis e rainhas não pertencem ao universo do capuchinho vermelho, do lobo mau e da fada madrinha, e as modernas monarquias europeias aí estão para o provar. No entanto, não encontrei até agora nenhum argumento válido para, em Portugal, voltarmos a um problema que está já resolvido.
Noto que alguns monárquicos vêem na reabilitação da imagem pública de D. Duarte - que, há alguns anos, nem era notícia, e agora enche o prime-time de uma estação televisiva- a esperança numa conquista da popularidade. Não julgo que isso possa acontecer; a nossa família real desperta o interesse de qualquer concorrente de reality show, com a diferença de que estes estão sempre "dentro da casa".
Por fim, acho que o mundo não caminha em direcção à monogamia e esse é o principal problema do ideal monárquico.

Caro Michele

Você estragou-nos com mimos ontem à noite.
A começar na mesa onde ficámos - aquela redonda, num canto da sala -, sem dúvida a melhor do seu restaurante. E teve o supremo requinte, certamente em consideração a nós, de manter o Mezzaluna livre daquela fauna política que por vezes comparece ao jantar, perturbando o paladar de um bom gourmet.
Você estragou-nos com mimos, dizia. Mas as duas meninas estreantes nestes jantares do Corta-Fitas, a Cristina Ferreira de Almeida e a Maria Inês de Almeida (no relation, como costumam dizer os americanos), bem mereciam esses mimos. A começar no kir royale que tomámos de aperitivo - nas doses certas de champagne e crème de cassis, que fariam o ministro Mário Lino fazer uma prelecção de hora e meia sobre as vantagens de um aeroporto na Margem Sul. Até o Duarte Calvão, sempre tão exigente, elogiou os seus raviolis com farinheira e requeijão em cama de tomate e grelos salteados. A Isabel Teixeira da Mota ainda chegou a tempo de apreciar esta entrada, logo seguida do seu risotto de açafrão com gambas envolto em carpaccio de courgette. Bebia-se um Quinta de Cabriz branco, servido à temperatura ideal. Foi aí que a nossa Miss Pearls fez a revelação da noite, dizendo que nunca provou sardinhas assadas. Em mesa tão requintada, não estranhei tal confissão. O Francisco Almeida Leite fez também umas revelações políticas, que só não reproduzo aqui por manifesta falta de espaço. Já chegara entretanto o prato principal: spaghetti com pesto de tomate seco, frango, pinhões assados e parmesão fatiado. Iguaria que escorregou na companhia de um Quinta de la Rosa tinto, que nos fez duplicar os brindes ao futuro auspicioso deste blogue.
Faltava ainda aquela que o Luís Naves, capaz das fórmulas mais brilhantes, definiu como "a Casablanca das sobremesas italianas": zabaglione com licor de ginja. Inadjectivável.
Tudo isto para lhe dizer, meu caro Michele Guerrieri, que adorámos o jantar. Havemos de voltar para festejar não importa o quê. Faça o favor de ter uma garrafa de Moët & Chandon já de prevenção no frigorífico.

As emoções básicas (crónica) III


No magnífico IX jantar do Corta-Fitas, ontem realizado, um dos tópicos de conversação foi a questão direita-esquerda. Embora nenhuma afirmação parecesse controversa, acho que este é um bom mote para uma crónica sobre a aversão entre as duas tribos.
As pessoas gostam de rótulos e por vezes fascinam-se demasiado com as ordens taxionómicas que inventam. Devia ter dito naquele jantar que não acredito na existência de divisões claras entre direita e esquerda, que isso já não serve para representar a realidade que nos rodeia e que apenas no passado encontramos a clivagem.
(mas sofro da síndroma da escada, que surge naquelas ocasiões embaraçosas e inesperadas, quando descemos a escada do prédio e encontramos um vizinho, primeiro o cumprimento mais ou menos afável, mas de súbito já vamos a descer o patamar, lembramo-nos de um assunto importante, o vizinho subiu um lanço de escadas e nós descemos dois, e ficamos a discutir o assunto a uma distância que nos obriga a gritar).
Os que se afirmam de esquerda são, tantas vezes, os mais conservadores.
(veja-se a recente polémica entre João Távora e Daniel Oliveira, neste blogue. O esquerdista escreveu que os monárquicos militantes são patéticos; sem notar que a sua posição, que impedia à partida qualquer discussão sobre o regime político, era ultra-conservadora).
A Europa mudou muito e por vezes parece-me que as pessoas não avaliam até que ponto isso é um facto. Uma das chaves para compreender esta realidade é a palavra convergência. Ela tem sido usada num aspecto algo limitado e burocrático: a convergência real dos rendimentos per capita medidos em paridades de poder de compra. Em resumo, as políticas europeias criaram um mercado único com liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais, visando obter um equilíbrio de rendimentos a nível europeu. Ao longo dos últimos 50 anos, a integração europeia criou um espaço de riqueza onde ocorreu também convergência real.
Dito assim, parece aborrecido. Mas a realidade é mais complexa. A convergência não é apenas de rendimento, mas verifica-se em quase todos os aspectos da sociedade: nos impostos, na mentalidade, na educação, nos sistemas de saúde, no trabalho, na microeconomia, na liberdade de imprensa, nos direitos dos cidadãos, e por aí fora.
(tudo por causa das salsichas)
A União Europeia
(a fábrica de salsichas)
produz dois terços da nossa legislação. Os parlamentos nacionais adoptam estas leis podendo alterar algumas dentro de certos parâmetros previstos no documento original; em certos casos, a adaptação é mínima. Este é um dos grandes segredos da UE, pois nenhum parlamento gosta de admitir que muito do que faz é adoptar o que outros fazem.
(a salsicha é apresentada como prato nacional; há quem ponha batatinhas, ou arrozinho, ou um fio de azeite, ou um bocadinho de massa; mas toda a gente come salsichas).
É por isto que tantos países querem aderir à União Europeia: ela fabrica as melhores leis do mundo.
Outro exemplo: ontem, ao escrever um artigo no meu jornal sobre um político belga, tive de mergulhar na complexidade da política belga.
O meu primeiro objectivo era perceber se o senhor era de direita ou de esquerda. À medida que li mais coisas, apercebi-me da complexidade da situação. Ele podia ser mais ou menos assimilado à direita (ou ao centro), mas poderia vir a integrar um governo de esquerda, pois era francófono e o partido flamengo da mesma cor perdera as eleições. Aquilo era mais parecido com questões clubísticas do que políticas. Para perceber as coligações belgas é necessário, no mínimo, tirar um mestrado em ciência política ou ser jornalista especializado em clubes de futebol. Mas a rotativa não podia esperar e eu lá escrevi o artigo, na minha ignorância, sem conseguir pôr um rótulo no senhor.
Acho que a convergência europeia, as políticas que todos têm de imitar (se não se imitar o vizinho, ficamos para trás na competição), mudaram muito este esquema simples da direita-esquerda, que nos era tão familiar e confortável.
A Europa é hoje um vasto espaço de classe média. Oito em cada dez europeus são pequeno-burgueses assumidos (como eu). Nas franjas, os muito ricos e os muito pobres. E só para eles há diferenças reais de política direita-esquerda. Para os ricos, a esquerda exige impostos acima de 50% e a direita abaixo de 50%. Em relação aos excluídos, o debate é se haverá caridade pública ou caridade privada. Pede-se, portanto, aos 80% do centro que votem e eles votam...no centro...que como toda a gente sabe, é um lugar que não existe.

A ilustração foi furtada na net e lamento a pirataria, mas é muito boa e não resisti

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Sexta-feira, Junho 15, 2007

Nas colunas


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Bons ventos de Espanha...


Liguei a seguir ao almoço para a Embaixada de Espanha em Lisboa, para me passarem a chamada para o Gabinete de Imprensa. Do outro lado, num tom tímido, quase em surdina, a voz que atendia a chamada disse: “Já lá não está ninguém. Só trabalham até às 14:00… há já um ano…
Que longa sesta!

Flagrante da vida real*

Ao ver os cartazes com a frase «O Zé faz falta», a Constança pergunta à minha amiga Filipa:
- Ó mãe, quem é o Zé?
- É o José Sá Fernandes, vereador da Câmara de Lisboa.
- Ah! - responde a Constança - E ele morreu, foi?
*Título roubado às Selecções da Reader's Digest

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A Abelha e a Barata

O que distingue a Abelha da Barata?
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  • A Barata diante de um campo de flores e um montinho de lixo, escolhe o montinho de lixo.
  • A Abelha diante de um montão lixo e uma flor, escolhe a flor.

Publicado por Adélia e Zala aqui

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Cada um lê o que entende

Pois é, caro Tomás Vasques. «É apenas uma sondagem». Mas antes, que não foi há muito tempo, dizia-se que «um qualquer candidato do P.S.» (com a excepção de Carrilho) teria a vitória nas eleições como adquirida. Hoje, essa sondagem – tão válida e passível de actualização como as melhores o são – dá ao candidato a eleger pelo PSD e ao ex-presidente eleito pelo PSD um total de 33,2% de intenções de voto. O candidato do PS, que não é um qualquer, recolhe 31,1%. Acho curioso, isto. E curioso também que se insista em colocar Helena Roseta muito arrumadinha na gaveta ao lado da «vitoriosa esquerda». De esquerda mesmo esquerda são Sá Fernandes e Ruben de Carvalho. Juntos, valem apenas 18,7% destas intenções de voto. Os outros não contam e o resto são demagogias aritméticas.

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Friday II


Provocação? Qual provocação? Já uma pessoa não pode postar arte, não querem lá ver?! (Eh!Eh!Eh!)

Flandrin, Hyppolyte
Jovem à Beira Mar

Quem?

«...porque nos tornámos, realmente, num país de bananas onde cada vez menos fazem frente ao candidato a autocrata que manda neste canto da Europa». José Manuel Fernandes, no Público de hoje.

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Amanhã no Maxime, em Lisboa

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O homem não pára


Carta de Pina Manique ao Duque de Cadaval

Há algum tempo procurava esta carta, por razões que se prendem com a informalidade de tratamento na blogocoisa, cuja cópia se encontrava perdida numa gaveta e me foi oferecida há anos pelo meu grande amigo Réprobo. Aqui vai:
«Exmo. Sr. Duque de Cadaval: Se meu nascimento, embora humilde, mas tão digno e honrado como o da mais alta nobreza, me coloca em circunstância de V. Excia. me tratar por tu, caguei para mim que nada valho. Se o alto cargo que exerço, de Corregedor da Justiça do Reino em Santarém, permite a V. Excia., Corregedor Mor da Justiça do Reino, tratar-me acintosamente por tu,caguei para o cargo. Mas, se nem uma nem outra coisa consente semelhante linguagem, peço a V. Excia. que me informe com brevidade sobre estas particularidades, pois quero saber ao certo se devo ou não cagar para V. Excia. Santarém, 22 de outubro de 1795.

Precioso silêncio, preciosa música

É comum nos dias que passam, nos escritórios, estabelecimentos ou transportes públicos, encontrar o pessoal ouvindo toneladas de megabites de musiquitas e cançonetas de “fones” nas orelhas ou simplesmente em regime de partilha forçada. Questiono-me então o que faz esta gente quando porventura desejar verdadeiramente o deleite de escutar música. Teve o desejo tempo de medrar, sem o espaço de um precioso silêncio? O que é que se está a “tapar” na alma quando se perde a capacidade de ouvir o silêncio?
Pensando bem, se conseguir uma oportunidade, este fim-de-semana ainda vou sentar-me em frente às colunas a ouvir rodar... o Concerto para Violino de Beethoven (que o meu pai considerava o melhor deste compositor) e... numa onda revivalista, o álbum Magical Mystery Tour dos Beatles. A ver se dá!

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Os vizinhos em festa


Hoje, no país vizinho (incluindo Olivença), celebram-se os 30 anos das primeiras eleições gerais democráticas. Durante muito tempo consensualmente classificada como um processo sem fracturas e marcado pela estabilidade institucional, a transição é hoje alvo de uma análise bem menos idílica por parte de diversos investigadores. Para Nicolás Sartorius e Alberto Sabio, por exemplo e como pôde ler-se ontem no suplemento «El Cultural» do El Mundo, ela «foi um momento de convulsão, muitas vezes caótico, outras vezes sangrento, sempre incerto» («El Final de la Dictadura», Temas de Hoy). O que ninguém parece questionar é o desenvolvimento alcançado pela Espanha neste período. Como escreve aqui Juan Luis Cebrián, «três décadas mais tarde, este país, para utilizar uma frase não muito brilhante de um antigo vice-presidente do Governo, está irreconhecível mesmo para a mãe que o pariu». Por cá, parece-me que a nossa mãe ainda nos toparia à légua. Foto roubada à edição online do El Pais.

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Post umbiguista (so, what's new?)


Logo à noite há festa. O «IX Grande Jantar Corta-Fitas» (não sou eu que o classifico assim, li-o numa sms). Sei que disse que ia, mas não vou. Desgraçadamente, compromissos sociais levam-me de carrinho em viagem antecipada até ao Norte, onde participarei de cara alegre no casamento de um simpático par de jovens que me é totalmente desconhecido.
Não quero, no entanto, deixar de saudar e beijocar uma por uma as mais recentes estrelas da nossa dream team: A Cristina, a Teresa e a Maria Inês. As três, juntamente com as nossas Isabéis, farão do jantar de hoje o primeiro em que os homens não estarão em maioria absoluta, o que considero ter sido a grande conquista de Maio deste blogue. Dois beijos repimpados a cada uma é o que lhes envio daqui, conhecido que é o meu papel vanguardista no melhoramento dos tiques sociais. Quanto à rapaziada, vai para cada um amistoso bacalhau (raios, disse bacalhau!). Divirtam-se e depois contem como foi.

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Friday


Marisa Miller.

Quinta-feira, Junho 14, 2007

O novo tabu

A entrevista da directora da DREN ao DN só adensa o mistério e os dias passam sem que surja informação factual. Cada vez que se fala no assunto, surge logo alguém a mudar o sítio do aeroporto e o caso volta a ser abafado. Mas há quem não se conforme e pelas ruas, em pequenos grupos, hipóteses aterradoras são sussurradas. Hoje ouvi esta, que não resisto a divulgar: - "Qual engenheiro, qual carapuça!", terá exclamado o professor Charrua, os olhos injectados de sangue, no recanto do gabinete. Outras fontes garantem que, perante o olhar horrorizado dos colegas, Charrua terá ainda rematado com crueldade: "Que ferro!".
Eu não sei, não estava lá e não quero mentir, só repito o que ouvi na tabacaria, contado pelo Sr. Mateus, com a cabeça semi-encoberta pelo escaravelho-joia malaio da colecção RBA.

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Debates a dois

A proposta que Fernando Negrão ontem anunciou para haver "debates a dois" é particularmente excitante. Mas não é razoável. Então o candidato do PSD esqueceu-se que há 12 candidatos? Esqueceu-se que ninguém de bom senso aceitaria fazer "debates a dois" no regime de todos contra todos? Até porque os dias que faltam para a eleição não chegariam de certo para esse caderno de encargos. Ou estaria ele a pensar, como chegou a dizer, que iria debater com António Costa, num duelo dos "grandes", depois haveria um frente-a-frente entre Carmona e Roseta, os independentes, depois entre Ruben de Carvalho e Sá Fernandes, o debate das "esquerdas", depois entre Telmo e Monteiro, o debate de ressabiamento com o que se passou no CDS e no PP, Câmara Pereira contra Quartim Graça, o de monárquicos populistas contra monárquicos ecologistas, Garcia Pereira contra Pinto Coelho, da extrema-esquerda com a extrema-direita?
Este modelo de debates, para além de parecer infantil, só lhe interessa a ele, é óbvio, telecomendado como está a ser por Marques Mendes e Paula Teixeira da Cruz. Mas ninguém com juízo aceitaria isto de bom grado, começando logo pelo que é evidente: em quase todas as sondagens até ao momento, Negrão é quarto, atrás de Costa, Carmona e de Roseta. Isto apesar de nos próximos tempos poderem aparecer estudos que o dão mais acima, talvez para o tentar encaixar nesse debate idílico. Keep dreaming...

O horror, o horror...


«Frize procura os 7 Horrores de Portugal». A ideia, segundo o director da divisão de Águas da Compal, Fernando Oliveira, é que os portugueses "mostrem o que mudariam já amanhã se pudessem mesmo mandar ou se fossem riquíssimos: os mamarrachos que mandariam abaixo, as atitudes que puniriam com prisão perpétua, os atentados ao bom gosto, no fundo aquilo que não podem destruir só porque são sempre ‘os outros' que mandam." Meios e Publicidade. Eu, se fosse riquíssimo, deixa cá pensar...hmm...não! Assim de repente não me ocorre. Vou pensar e logo digo.

Alguém está com os azeites


Olivença, meus amigos, como bem propunha o saudoso Almirante Pinheiro de Azevedo, só lá vai com uma invasãozinha recorrendo aos nossos gloriosos fuzos e a barcaças anfíbias. As NT sobem o rio e depois apanham o IN de surpresa e, quando derem por ela, aquilo já é nosso outra vez. Em simultâneo, um secção de ninjas da ASAE salta de páraquedas e invade os restaurantes de tapas, encerrando-os a todos e promovendo, ao mesmo tempo, a sua substituição por jaquinzinhos formato UE approved. O novo alcaide, segundo consta nos mentideros, será Alberto João Jardim, que recrutará para a sua equipa membros do 31 da Armada os quais, como estarão decerto recordados, já hastearam a nossa bandeira - embora a republicana, tsc, tsc - nas muralhas da vila, cidade ou lá o que aquilo é. Alea jacta est e etc.
P.S. Tive aqui a palavra «simultâneo» repetida uma pipa de horas e ninguém me corrigiu. Cambada de madraços, vós sois!

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Ao “inenarrável” Daniel


Mais patético que os Amigos de Olivença, só mesmo a arrogância do Sr. Oliveira a escrever as suas bacoradas (ou pior, quando as vai dizer para o mais frouxo e idiota programa de televisão existente). Ao pretender insultar o que ele apelida demonárquicos militantes definitivamente o homem não (se) enxerga. Um deles, cuja craveira intelectual e humana é inquestionavelmente superior à sua (o que, pelas provas conhecidas não é difícil) é o seu correligionário, o venerando arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. E ficamos por aqui para evitar mais melindres.
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Imagem "fanada" daqui onde diz que veio daqui.

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Hemeroteca (4)

DEMITIDOS OS MEMBROS DO GOVERNO REPRESENTANTES DO P.S.
O Conselho da Revolução, cujo plenário esteve reunido extraordinariamente desde as 10 horas da noite de ontem até meio da madrugada de hoje, decidiu considerar demitidos os membros do Governo representantes do Partido Socialista.
Em consequência, o Conselho da Revolução aconselhou o Primeiro-Ministro a preencher as vagas em aberto «com elementos válidos competentes e patriotas» que coloquem «os interesses nacionais acima dos interesses e divergências partidárias». DN, 12.07.1975

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Quarta-feira, Junho 13, 2007

Soares cerca Sócrates (1)

A recente entrevista de Mário Soares à revista do Expresso é significativa por vários motivos. Sobretudo pela distância que o fundador do PS traça em relação a José Sócrates – o que acontece pela primeira vez desde a eleição presidencial de 2006. Criticando Tony Blair – modelo político de Sócrates – Soares aproveita para se demarcar também do primeiro-ministro português. “Sabe a opinião negativa que sempre tive de Blair. Por isso não gosto. E já lho disse", responde Soares quando as entrevistadoras (Cândida Pinto e Clara Ferreira Alves) lhe perguntam “o que acha” de termos “um primeiro-ministro que diz ter honra em ser comparado a Tony Blair”.
Mas há mais. “Eu não conhecia bem Sócrates antes da última campanha presidencial. Fui para a campanha com um conhecimento mínimo do actual partido. (...) Fiquei com respeito e amizade por ele. Mas há coisas que me desagradam nele. Somos muito diferentes, com culturas e formações diferentes. É natural. Quando ele se disse próximo de Blair fiquei, confesso, chocado. Gostaria mais que tivesse outras referências.”
Foi pena as entrevistadoras não lhe terem perguntado quais são as coisas que lhe desagradam nele. Mas Soares, sem papas na língua, lá se encarregou de levantar uma ponta do véu: “Nem sempre explicou bem as medidas tomadas. Certos ministros não funcionam bem. Cometem erros.” O ex-Presidente da República recusou explicitar os nomes dos ministros que “não funcionam bem”. Mas lá prosseguiu as suas críticas: “Em dois anos de Governo, Sócrates acumulou demasiadas más vontades. Na classe média, no povo, no seu eleitorado tradicional. É tempo, julgo, de corrigir o rumo, pensando mais à esquerda.”

Soares cerca Sócrates (2)

Soares tem o cuidado de marcar toda a distância em relação a Sócrates: “Somos pessoas diferentes, de gerações diferentes, com culturas diferentes.” O primeiro-ministro, na sua opinião, “é seguramente mais pragmático do que ideólogo.” Negativo, isso? Soares, sibilino como nunca, deixa o aviso: “Na actual conjuntura não penso que isso seja negativo. Mas as conjunturas mudam.”
Esta entrevista é um importante sinal de viragem. Marcado já à direita por Cavaco, que o forçou a inflectir o rumo sobre a Ota, Sócrates começa a ser cercado à esquerda por Soares, que praticamente o aconselha a remodelar o Governo para remover os ministros que “não funcionam bem”. Fiquemos atentos aos próximos barómetros.

Cavaco 1 - televisão e governo 0

Em resposta ao protesto do Presidente da República, a RTP pediu desculpa e anunciou que vai transmitir novamente as cerimónias do 10 de Junho.
O gesto é bonito, sobretudo num país onde nunca ninguém pede desculpa por nada porque nunca ninguém assume a culpa de coisa alguma. Acho, no entanto, que ao pedido a televisão devia juntar uma indemnização ao presidente. É que não é de todo a mesma coisa viver em directo as emoções do 10 de Junho ou ver uns dias depois, quando já se sabe como acaba.

Gostei

1. Das primeiras impressões do Francisco José Viegas ao chegar a Caracas. N' A Origem das Espécies.
2. Da boa memória do Tomás Vasques, que recorda o apoio dado em Outubro de 2005 por Pacheco Pereira a Carmona Rodrigues. No Hoje Há Conquilhas.
3. Da perplexidade do Rui Costa Pinto, que estranha o silêncio do habitualmente loquaz ministro Augusto Santos Silva. No Mais Actual.
4. Do comentário do Carlos Manuel Castro às mais recentes pilhérias do Nobel de Lanzarote. No Tugir.
5. Da observação certeira do Eduardo Pitta, a propósito da queixa de Cavaco e da reacção da RTP. No Da Literatura.

Um herói dos nossos tempos

Esta semana li na Imprensa que a série Dr. House, que passa na TVI e na TV Cabo, é considerada uma da mais viciantes. Também gosto de a ver, embora não seja uma incondicional. Está bem escrita e reconheço à personagem que a protagoniza o charme que, de resto, levou o actor que lhe dá corpo, Hugh Laurie, a ser guindado à categoria dos homens mais sexy do momento. Dá-se o caso de Dr. House ser, entre outras coisas, um monstro de cinismo. Sem dúvida é essa a característica que mais o distingue. Depois também podemos identificar a inteligência, o individualismo e a arrogância como traços dominantes da sua personalidade.
Quanto ao aspecto físico não haveria nada a dizer não fosse dar-se o caso de ele ser coxo. Aqui está a originalidade: este herói tem um handicap que é a chave para a sua atormentada maneira de estar na vida. Mais: não só coxeia, como sofre de dores intensas e crónicas. Desculpa suficiente para ter um comportamento execrável para com todos os que o rodeiam (como se observa de episódio para episódio)? Os seus inúmeros fãs acham que sim. O tempo dos heróis bonzinhos já lá vai. House é agressivo, implacável, corrosivo. Mas como qualquer herói que se preze, afinal ele vale como uma metáfora: arrasta as nossas dores crónicas pelo corredor daquele hospital e vinga-se do mundo por nós. Com uma malvadeza inteligente, sofisticada, enfim... verdadeiramente sexy!

Autopsicografia


Fernando Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888. Para o dia não ficar esquecido, aqui fica um poema:


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Negrão X 10 = a quê?


Estive a dar uma vista de olhos no 'site' oficial da candidatura de Fernando Negrão e confirmei as minhas piores expectativas. É muito mau. Então não é que logo na página de abertura Negrão aparece dez vezes, em dez imagens diferentes!?
Então temos: 1 - Negrão em grande com os dizeres da campanha "Lisboa a sério" e com o Castelo de São Jorge ao fundo (as imagens vão rodando, tal e qual um daqueles livrinhos com postais baratos da cidade); 2 - A cara de Negrão dentro da agenda de campanha e recortado; 3 - Negrão num vídeo a dar aquele abraço à mandatária da juventude, Vanessa Fernandes; 4 - Negrão com um ar grave numa pequena barra ao meio a apresentar a sua lista; 5 - Negrão a abrir a secção de notícias numa fotografia que documenta a visita a uma associação de deficientes; 6 - Negrão, na notícia seguinte, sentado à mesa a falar, presume-se, sobre a Ota; 7 - Negrão de blazer desportivo (castanho) a passear pelos "bairros problemáticos" da cidade; 8 - Negrão, ainda sem gravata e de blazer azul-escuro, a falar de integração social com o que presumo ser um arrumador de carros (que aponta para algum lado e o candidato mostra-se interessado); 9 - Negrão debruçado e a fazer pose numa caixa onde supostamente se pode falar directamente com o candidato (não sei se dará para falar sobre Setúbal, que ele conhece bem melhor); 10 - Negrão em mais uma pequena foto a sugerir um "banner para o seu site", coisa que, confesso, nem sei o que é.
Só pode ser a brincar, não? Depois da distribuição de cartazes com a sua cara pela cidade inteira, qual toureiro (como diz, e bem, Maria José Nogueira Pinto), eis o candidato em todo o seu esplendor num página de Internet que parece quase cómica. O homem é bem intencionado e até esforçado, só que não pode apresentar ninguém daquela lista porque não há quase ninguém que se apresente. Mas também era escusado aquilo parecer tão rídiculo e quase amador. Vem aí a tempestade no PSD. Só pode.

Olhar à direita

Obrigatória uma atenta leitura à Alameda Digital, na sua mais recente actualização temática onde se ensaia um interessante dossier sobre a Direita e as Direitas. Para este tema contribuem as abordagens de Jorge Ferreira, Como eu entendo a direita necessária; Jorge Azevedo Correia, A vitória do centro à direita; Marcos Pinho de Escobar, A Direita “mole”; Manuel Azinhal, A direita que não quer ser; Eduardo Freitas da Costa, A direita nunca existiu; Abel Morais, Cinco notas políticas sobre a direita em Portugal; Miguel Freitas da Costa, Direita nunca existiu, Jorge Azevedo Correia, Sobre direitas, esquerdas e a emergência de um critério; Simão dos Reis Agostinho, Ideologia e verdade; Rafael Castela Santos Direitas …à la gauche, Pedro Guedes da Silva Notas avulsas e direitas polémicas; e finalmente umas belas pistas para a genealogia da Direita Portuguesa por Miguel Castelo Branco, A Direita portuguesa uma direita "britânica"? . Por mim, esta tarde vou andar por aqui. Até logo.

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Tertúlia literária (193)

- Qual é o seu autor favorito?
- James Bond.
- James Bond não é autor.
- É autor, é. Já o vi em tantos filmes...

Passa ao outro e não ao mesmo


O Andarilho acaba de nomear o Corta-Fitas entre cinco blogues com tomates. Mandam as regras do jogo que sejamos nós a nomear agora outros cinco que se ajustem a esta categoria, sob o lema "passa ao outro e não ao mesmo" que aprendemos nos recreios da escola primária. Seguindo a regra que o FAL já usou quando a Geração Rasca se lembrou de nós para os mesmos efeitos, aqui vai a minha escolha. Que apenas premeia meninas. Muito justamente.







P. S. - A Miss Pearls só fica de fora pelas razões óbvias. É de outro campeonato. O nosso.

Nas colunas


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Os tugas (20)


À mesa de um restaurante lisboeta. Pai, mãe e dois filhos - um de 10/11 anos, outro de 8/9 anos. O mais velho protesta com a escolha da progenitora em termos veementes (digamos assim):
- Já disse mil vezes que não gosto de peixe, f...-se!
Os pais, impassíveis. De imediato, o irmão faz coro:
- Eu também não gosto, f...-se! C......!
A mãe, quase imperturbável:
- Já vos disse que não gosto de vos ouvir dizer palavrões.
E logo o pai:
- Não faz mal, deixa-os lá. Eu também digo f...-se.
Ri muito. Os miúdos também. E até no rosto da mãe desponta a sombra de um sorriso.

Ça va changer (2)


"A Presidência da República dirigiu uma carta ao Conselho de Administração da RTP a propósito da transmissão das Cerimónias Comemorativas do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas
Em carta hoje dirigida ao Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal, a Presidência da República questionou o modo como foram transmitidas, no canal 1 da RTP, as Cerimónias Comemorativas do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Atendendo às especiais responsabilidades inerentes à prestação do serviço público de televisão, afigura-se incompreensível que a transmissão daquelas cerimónias haja sido interrompida, contrariando uma prática há muito estabelecida e sem que quaisquer razões de programação o justificassem.
Ao proceder deste modo, e ao invés do que tem acontecido em anos anteriores, o canal público de televisão privou os Portugueses e as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo de acompanharem na íntegra as cerimónias comemorativas do dia 10 de Junho, facto que a Presidência da República considera inaceitável."
- Palácio de Belém, 12 de Junho de 2007.

Pequenos sinais como este, ou a marcação cirúrgica da audiência com Francisco Van Zeller em Belém a propósito da Ota, a questão do general de quatro estrelas a chefiar a GNR (consta que sem dar cavaco ao Presidente da República e comandante supremo das Forças Armadas), o referendo ao Tratado Constitucional (que vai por água abaixo, ao contrário do que Sócrates previa), entre outros ligeiríssimos pormenores indiciam que a coisa está por seis meses e picos. O tempo que dura a presidência portuguesa da União Europeia. Depois disso, pia tudo mais fininho. Muito mais.

O nível na política (1) - Antes um copito a mais do Sarko do que a falta de chá da Ségo


Como Nicolas Sarkozy esmagou a esquerda (e as suas várias ramificações) nas presidenciais e na primeira volta das legislativas desta semana, já andam por aí uns arautos do puritanismo a dizer que o Presidente francês estaria bêbado na conferência de imprensa do G8 que se seguiu a uma reunião com Vladimir Putin. Para quem não sabe, Sarkozy é fanático por bebidas energéticas (da marca Gatorade) e raramente bebe álcool, o que se calhar explica que bebendo um copito ou dois com um homem habituado ao vodka possa deixá-lo neste estado.
Já agora, aconselho esta pequena lembrança do Henrique Burnay. Demonstra como a madame Royal tem mau perder e muita falta de chá. É mais forte que ela, com duas derrotas consecutivas... O que fará a senhora no próximo domingo, depois da segunda volta das legislativas, onde se espera uma maioria absoluta da UMP?

Hemeroteca (3)

Veiga Simão continuará como Ministro da Educação
Julgamos saber que no Ministério da Educação Nacional continuará o prof. Veiga Simão, sendo o único elemento do Governo de Marcelo Caetano que a Junta de Salvação Nacional mantém. Falámos com o prof. Veiga Simão que nos disse ser «muito amigo do general Spínola» e que o considera «um grande patriota e grande português». Disse-nos ainda que o General Spínola está a conduzir o País para os destinos que todos merecemos. República, 26.04.1974

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Música de todos os tempos (2)


Gloria Gaynor - "I Will Survive"

Parabéns


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Pensamento da noite de Santo António

Um sapato, sozinho e desirmanado, aparece no meio da estrada. Onde está o outro sapato? Quem é que deixa um sapato no chão e vai para casa ao pé-coxinho? Alguém perdeu um sapato?

Terça-feira, Junho 12, 2007

Hemeroteca (2)

Jornada Anti-Imperialista e de Internacionalismo Proletário convocada pela L.U.A.R.

A L.U.A.R. convocou para o próximo dia 31, uma grande jornada anti-imperialista e de internacionalismo proletário, contra os ataques cometidos sobre o povo e os revolucionários angolanos, de apoio ao M.P.L.A. e de regozijo pelas vitórias dos povos vietnamianos e cambojano.
Estarão presentes diversas delegações internacionais, além de trabalhadores e revolucionários portugueses. DN 13.5.1975

Amar é possível


A Carmo e o Bento entregaram-se plenamente um ao outro, sem deixar nada cada um para si. Eu sei. Vem-me à memória o célebre ditado espanhol: "Obras son amores y no buenas razones".

P. S. - Carregar na imagem para ler o texto da Laurinda Alves.

Santo António de Belém

Santantoninho, santantoninho, depois da Ota põe na ordem aqueles tipos da RTP que ousaram interromper a emissão do 10 de Junho e prometo que te faço uma estátua na Expo Boliqueime 2010.

Receita Para Solteiros e Casados

Já contavam algumas avós que existe um jogo que se faz na véspera de Santo António, no dia 12 de Junho, onde a ideia é escrever em papelinhos o nome daqueles que gostaríamos para parceiros ideais, se é que o ideal existe. Aqui fica a receita: Dobre os papelinhos como se fossem rifas e coloque-os num alguidar com água debaixo da cama. No dia seguinte (amanhã) o papel que estiver mais aberto revela o nome da sua “cara-metade”…

E a última dúvida existencial do dia

Portanto, vamos lá a ver... A Susana Lopes faz um excelente trabalho de infografia para o Diário Económico. O que é que isso interessa?, perguntarão V.Exas (estou influenciado por um gentil anónimo que me trata com toda a dignidade e respeito que mereço). Bom...como pessoa simples que sou, só vejo os «bonecos». E, por isso, verifico que na edição de hoje - página 6 - e na mencionada infografia, o NAL em Alcochete teria uma área de implantação tão lata quanto entre 1.250 e «potenciais» 8.000 hectares, a capacidade anual do aeroporto não está disponível, a duração da infra-estrutura também não e a única coisa que parece definida é o valorzinho que lá vem, mais baratucho do que a OTA, assim um desconto em cerca de metade. Mesmo, reparem, sem que esteja determinado se falamos de 1.250 hectares ou seis vezes mais. Isto parece a gozar. Desculpem-me lá qualquer coisinha mas... compara-se afinal o quê? (Já agora, desculpem-me o lapso «social», mas pronuncia-se Fan Zéller ou Fan Zellér? Obrigado).

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A Dúvida

Afinal, João Soares teve ou não 6 tradutores de russo na Câmara Municipal de Lisboa?

O recuo estratégico

A jogada que ontem o ministro das Obras Públicas corporizou é de mestre, mas pode vir a revelar-se muito arriscada para José Sócrates himself. Ao conceder seis meses, porque não pode "dar mais", como frisou o primeiro-ministro, para que a matéria seja analisada em termos comparativos pelo LNEC, o Governo está apenas e só a atirar areia para os olhos da oposição e daquelas pessoas e entidades que têm sérias dúvidas sobre se a melhor localização para o novo aeroporto internacional de Lisboa será mesmo a Ota. O Governo sabe melhor que ninguém que o LNEC é especializado e está vocacionado para trabalhos na área da engenharia civil. Mas decidir onde construir um novo aeroporto é muito mais que isso, em especial num País como este, com limitações financeiras óbvias. Tem a ver com o ambiente, com estudos económicos aprofundados, com o ordenamento do território, com uma vertente estratégica que não cabe ao LNEC analisar. Mais, é bom lembrar que o LNEC depende da tutela governamental e é apoiado pelo Estado, pelo que fazer pender o lado da balança para Alcochete terá de ser uma decisão muito bem fundamentada e, sobretudo, suportada.
A manobra engenhosa funcionou, para já. A oposição bateu palmas, o Governo dá mostras de alguma abertura depois de dois anos de autismo cego em relação à Ota. Só que Sócrates está a brincar com o fogo. Se por acaso o LNEC apenas servir para reforçar a decisão do Governo sobre a Ota, o caldo pode estar entornado com Belém. Se estes seis meses agora poderão correr de feição a Sócrates, dar-lhe jeito para a eleição de Lisboa e aliviá-lo um pouco da agenda política interna, no fim desse prazo o primeiro-ministro estará também já livre do seu papel na presidência portuguesa da União Europeia. Cavaco Silva não gosta de ser fintado e não deixará de tomar uma posição que pode deixar o Governo numa posição frágil em 2008, a um ano das legislativas. O que seria fatal para Sócrates. A ver vamos se o engenho de hoje não se revela explosivo amanhã.

Imagem: Aeroporto de Kobe (Japão)

The power of love e sardinhas

«Depois de uma noite arrasadora em 2006, 4 horas seguidas de um incrível show fabuloso non-stop tecno-pimba, o maravilhoso duo ligeiro-romântico TOCHAPESTANA volta para abrilhantar a noite mais interminável de Lisboa. Espera-os uma recepção em massa já na manhã de dia 12 Junho, quando aterrarem pelas 11h no Aeroporto de Lisboa vindos de uma primeira tourné incendiária por Berlin. Depois, a partir da meia noite podem encontrá-los na Rua do Loureiro (Alfama) para um grandioso bailarico do melhor tecno-pimba-romântico que se faz em Portugal, recheado de best power-turbo-hits, canções de engate, carroceis de máscaras, flores, luzes, pistolas e amor pela noite dentro». tochapestana o poder do amor

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O Costa do Castelo

António Costa já começou ontem a fazer uma descolagem cuidadosa do Governo no que diz respeito ao aeroporto da Ota. Ontem, num almoço do American Club of Lisbon, o candidato do PS disse que “do ponto de vista da cidade de Lisboa, o essencial é que seja assegurado um acesso rápido, fácil, cómodo e barato ao novo aeroporto, seja esse acesso à Ota, seja esse acesso ao Poceirão ou a Alcochete”. Há dois meses Costa não falaria assim, apenas preocupado com as "acessibilidades".
Uma descolagem que é cuidadosa e que foi pensada juntamente com José Sócrates. Os dois sabem que a matéria poderia ser usada como arma de arremesso durante a campanha para as eleições intercalares de 15 de Julho e, por isso, Sócrates tirou-lhe o obstáculo do caminho. Este adiamento da decisão em relação ao novo aeroporto - para supostamente se fazer uma análise comparada com a nova solução Alcochete, encontrada por Francisco Van Zeller - cabe que nem uma luva nas pretensões de Costa. Até dia 15, se nada de especial acontecer, vai ser um passeata de António Costa até aos Paços do Concelho.

Por supuesto

"Um total de 270 bebés portugueses nasceram no último ano no hospital de Badajoz (Espanha), depois de encerrada a sala de partos do hospital de Elvas, a 12 de Junho de 2006, segundo dados das autoridades espanholas".
Ora aí está o resultado de uma política de encerramento de unidades hospitalares bem pensada, com rede e que em nada prejudica os interesses nacionais...

Dúvida existencial nº2 (e nº3)


E onde é que toda a gente se meteu? Houve um almoço e ninguém me avisou? Na imagem, pode ver-se a minha assistente principal de limpeza doméstica interna a chamar o pessoal. Estranhamente, é muito parecida com uma amiga do poeta Maiakovsky, parecença talvez justificada pelo seu sangue russo.

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Dúvida existencial

Mas quem diabos anda a votar aqui ao lado no Manuel Monteiro!?

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Por detrás das muralhas

Eduardo Pitta é poeta - sete livros publicados e uma antologia – mas também ensaísta e diarista. É crítico literário do Público, mas ainda o principal autor do blogue Da Literatura . Eduardo Pitta é tudo isto e, acrescento porque vem ao caso, homossexual. Gay, queer, ou lá o que quiserem chamar-lhe.
Se isso é para aqui trazido é tão-somente porque, quer este «Cidade Proibida» quer a sua anterior trilogia de contos, «Persona» (agora reeditada pela QuidNovi), lidam com as vidas e os conflitos entre homens que preferem homens e as regras e constrangimentos sociais. No caso de «Persona», o cenário é a África da guerra colonial. Neste «Cidade Proibida», é essencialmente a Lisboa actual habitada por uma alta e ilustrada burguesia.
Podemos, pois, ler a obra de Pitta acreditando que existe a chamada «literatura de género». Ou optar pela convicção de que tal coisa, a existir, não invalida que haja boa ou a má literatura, independentemente da parceria que preferimos na cama.
Numa tessitura que reúne mais de 40 personagens, «Cidade Proibida» é uma história com muitas histórias lá dentro. Cada uma das figuras carrega com ela um passado, um meio, uma educação que as agrupa em famílias de sangue ou de afinidade, núcleos irredutíveis e protegidos por densas muralhas. Delas, cada uma só sai para a amálgama ocasional e democrática do sexo, anónimo ou quase. Já o amor, esse acaba por não vencer. E, quando o romance termina, Rupert e Martim já não estão juntos, afastados que foram pelas suas diferenças culturais e sociais, mais fortes do que a relação que os unia. Com um peso exagerado dos estrangeirismos compensado por um conhecimento profundo dos hábitos e costumes do meio que retrata, Eduardo Pitta não condescende com sentimentalismos ou redondilhas. O sexo é apresentado a cru, os tiques mostrados sem contemplação, a História portuguesa recente mencionada sem pruridos ou filtros de boa consciência. Por tudo isto, obra «de género» ou não, «Cidade Proibida» é um romance igual a poucos. Texto a publicar na próxima revista Blitz.

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Para que saibam


Tulku Pema Wangyal Rinpoche estará amanhã, no Hotel Altis Park das Olaias, às 19H, para uma sessão pública de ensinamentos budistas.
Tulku Pema Wangyal Rinpoche nasceu no Tibete e foi reconhecido pelo 16º Karmapa e outros mestres tibetanos como Tulku - uma reencarnação de um grande mestre realizado.
Desde criança estudou com alguns dos mais eminentes mestres budistas do nosso tempo, tais como Kyabje Kangyur Rinpoche (seu Pai), Dudjom Rinpoche, Dilgo Khyentse Rinpoche, Kyabje Trulshik Rinpoche e Sua Santidade o Dalai-Lama.
Quando veio para a Europa, em 1975, Tulku Pema Wangyal Rinpoche fundou o Centre d`Études de Chanteloube, na Dordogne (França). As suas actividades têm como objectivo proporcionar o estudo do budismo tibetano e a preservação da cultura e da filosofia tibetanas.

Segunda-feira, Junho 11, 2007

Hemeroteca (1)

Beneficiando do facto de ter em casa um pequeno arquivo, irei deixando aqui, na «Hemeroteca», algumas notícias e artigos de há cerca de 30 anos. Para já, fica só a ficha técnica da redacção de O Jornal no dia 27 de Fevereiro de 1976: Afonso Praça, Carlos Cáceres Monteiro, Francisco Sarsfield Cabral, Hêrnani Santos, João Segurado, Joaquim Letria, Joaquim Lobo, José Carlos de Vasconcelos, José Manuel Barroso, José Silva Pinto, José Pinto Nogueira, Luís Almeida Martins, Lurdes Feio, Manuel Beça Múrias, Pedro Rafael dos Santos, Rui Letria Dias e Rui Pimenta. Uma equipa pequena, mas que chegava e sobrava para as encomendas. Tiragem? «Apenas» 95.200 exemplares.

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Cavaco e Sócrates

Neste quase ano e meio que leva em Belém, Cavaco Silva tem levado ao extremo a conhecida máxima do general Franco: “Somos escravos das nossas palavras e donos do nosso silêncio.” Pelo silêncio, Cavaco tem marcado a agenda política. A tal ponto que os bons índices de que o Governo goza em sucessivas pesquisas de opinião devem-se, em boa parte, à conivência tácita do Presidente, aparentemente apostado em prosseguir sem mácula a boa relação institucional com o primeiro-ministro. Mas esta medalha tem o seu reverso. Ninguém tenha dúvidas: no dia em que Cavaco começar a tornar públicas as suas divergências de opinião com José Sócrates em questões fundamentais, a popularidade do Executivo virá a pique. Estando as coisas como estão, em caso de conflito entre Belém e São Bento só o primeiro-ministro ficará a perder. O que deixa, de algum modo, Sócrates nas mãos de um Chefe do Estado que não escolheu e em quem não votou.
Dono do seu silêncio até 31 de Dezembro de 2007, data em que termina a presidência portuguesa da União Europeia, Cavaco conserva uma margem de manobra de que nenhum outro agente político dispõe em Portugal. Esta é a verdadeira “magistratura de influência”. Daqui a um ano se entenderá melhor por que motivo o Presidente está hoje tão calado.
......................................................................................................
Adenda: Subitamente, Sócrates começa a ouvir os primeiros apupos públicos. Aconteceu em Setúbal, no Dia de Portugal. E Cavaco, até ao momento, limitou-se a exprimir algumas reservas tímidas sobre o megaprojecto da Ota. Imagine-se o que acontecerá quando engrossar o tom do seu discurso...

Q.E.D.


Se a borboleta não bate as asas, não há furacão.

Alguém me explica?


Leio a excelente biografia literária de Alexandre O'Neill. A páginas tantas a autora, Maria Antónia Oliveira, refere o hábito que em dada fase da sua vida o poeta tinha de ir jogar bilhar ao "inenarrável" Café Cubana. A classificação era do próprio. "Inenarrável"? Imaginei logo um daqueles retiros encardidos e infectos que ainda se descortinam um pouco por toda a Lisboa. E interroguei-me: "Por que será que os homens - certamente não todos, mas ainda assim, muitos - se sentem tão bem a frequentar espeluncas?

Nas colunas

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Ecos do deserto

"Houve qualquer coisa no Dia de Portugal deste ano de que gostei. Ainda não sei explicar muito bem", escreve José Medeiros Ferreira, com a sua habitual ironia. Eu sei o que foi.

Os tugas (19)


A senhora, com imeeeeensa laca no cabelo, apanhou um táxi de manhã bem cedo, ainda estava o comércio fechado, na praça de Entrecampos. Pediu ao motorista:
- Leve-me à Caixa Geral de Depósitos.
Era mesmo ali adiante. O taxista lá a transportou sem um resmungo. Chegados ao destino, quase do outro lado da rua, o taxímetro marcava 2,80 euros. A senhora apresentou uma nota de 50 euros para pagar.
- Minha senhora, não tenho troco. Não me arranja uma nota mais pequena?
- Lamento, mas só tenho esta.
- Olhe, fica-lhe a corrida de graça. Não tenho alternativa, sobretudo a esta hora da manhã. Mal peguei agora ao serviço...
Chegada a pausa de almoço, novamente na praça de Entrecampos, o motorista relatou o sucedido aos colegas que ali estavam. Diz-lhe logo um, de sorriso largo:
- Ah! Ah! Caíste também na esparrela! Ela faz isso todos os dias, já enfiou o barrete a muitos de nós.
O homem ficou a matutar no caso. Por capricho do destino, na semana seguinte a senhora voltou a entrar no táxi à mesma hora e no mesmíssimo local.
- Leve-me à Caixa Geral de Depósitos.
Repetiu-se a cena: a mesma quantia, a mesma nota de cinquenta. Mas desta vez o taxista aceitou-a.
- Minha senhora, vou passar-lhe um recibo.
- Mas para quê? Não quero recibo. Não preciso...
- É que não tenho troco, minha senhora. Já na semana passada aconteceu isto consigo. Desta vez vou aceitar o seu pagamento e passar-lhe o recibo. A senhora só terá de ir depois com o recibo à nossa empresa, que até fica aqui perto, para receber o troco desta quantia. Naturalmente, como compreende, ser-lhe-á descontada também a anterior deslocação que não chegou a ser paga.
A mulher nem hesitou. Abriu a mala e tirou de lá um saco carregado de moedas:
- Que distracção a minha! Afinal tenho aqui trocos.
Lá pagou as duas corridas, reavendo a nota de 50 euros. O motorista ficou a vê-la, num trote apressado, em direcção à Caixa, emoldurada naquele inconfundível cabelo com imeeeeensa laca...

Tertúlia literária (192)

- Agualusa?
- Não. Uma água do Luso.

O recuo e o desnorte

A ida de Mário Lino ao colóquio da Assembleia da República demonstrou um óbvio recuo. Em vez de ir anunciar o acelerar do projecto da Ota, que estava previsto para o fim do ano e que agora passava para Outubro, Lino foi ao Parlamento sugerir que o LNEC estude aquela localização e uma alternativa, previsivelmente a de Alcochete. É evidente que o Governo começou a patinar na matéria, claramente marcado pelas iniciativas e pelas dúvidas do Presidente da República, que não só pediu um debate aprofundado, como hoje mesmo recebeu em audiência Francisco Van Zeller, mentor de um estudo crítico sobre a Ota e defensor da solução de Alcochete. Cavaco Silva, com muita discrição, tem recebido especialistas, consultado estudos e decidiu conceder uma audiência ao presidente da CIP no mesmo dia em que decorria o colóquio na AR.
Curioso neste assunto é que Marques Mendes, que já aparece a aplaudir o primeiro sinal menos do Governo em relação à Ota, deu mais um tiro ao lado. É que o presidente do PSD, por mais que diga agora que sempre pôs todas as hipóteses em aberto, inclinou-se decisivamente para a opção Poceirão, que todos deixaram cair. Mendes pode dizer agora que não deixou de falar em Alcochete ou Faias, mas a verdade é que só se deslocou ao Poceirão. É o que dá querer ter razão antes de tempo.

Domingo: Escolhas de Marcelo

Aos domingos, volto a sintonizar a RTP. Não para um debate mas para um monólogo genial: Marcelo Rebelo de Sousa brilha semanalmente no canal público divulgando As Escolhas de Marcelo. Exemplo maior de um político com notório talento televisivo, o ex-líder do PSD "conversa" com os portugueses como se estivesse na sala de estar de cada um. Usa uma linguagem acessível, desengravatada, nada conselheiral. E é de uma mordacidade sem limites - para os adversários políticos e para os próprios correligionários. Com a vantagem acrescida de ter encontrado um bom contraponto em Maria Flor Pedroso (outra jornalista da rádio que agora se destaca na televisão), que introduz uma vasta agenda de temas num registo muito diferente mas complementar de Marcelo, hoje talvez o mais popular dos políticos portugueses. E o único capaz de prender simultaneamente ao ecrã o catedrático e o servente de pedreiro, não sendo de todo inocentes, neste contexto, as suas contínuas alusões ao futebol.

Domingo, Junho 10, 2007

A coreografia das aspas

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Blacksad - bestial

A Banda Desenhada (BD) não morre assim. Por mais que esta actividade aparente uma lenta decadência, e para os mais distraídos se resuma a umas marginais experiências pseudo-intelectuais, às tiras de jornal ou às revistas de consumo rápido. O facto é que com um pouco de atenção encontraremos nos escaparates das livrarias interessantes obras que em nada desmerecem os clássicos que fizeram da 9ª uma das grandes artes do século passado.
Hoje escrevo sobre Blacksad, um sombrio mas inteligente detective privado, com cabeça de gato, que se move num animalesco ambiente decadente e urbano. Contracenam neste palco personagens com faces de animais em corpos humanos. Esta particularidade torna-se quase subtil: cada animal representado sem dúvida exprime dramaticamente o carácter do personagem... em que quase sempre se exceptuam os personagens femininos, que talvez para imprimir maior carga erótica mantêm os traços faciais mais humanos... sexismo?!
Na BD, tão importante quanto a técnica do desenho, é a arte de contar uma história. Em Blacksad, o encadeamento do guião e dos desenhos, é vivo e ritmado, possuindo uma interessante profundidade dramática. O sucesso da obra é plenamente alcançado pelos espanhóis Juan Díaz Canales (texto) e Juanjo Guarnido (desenho), ambos com os estúdios Disney no curriculum.
Para os amantes do género, aconselho que se deixem surpreender por Blacksad, uma divertida e envolvente série publicada em Portugal pelas edições ASA, claros sinais de boa saúde da 9ª arte. E ainda faltam umas horitas para o fecho da feira do livro... no Parque Eduardo Vll.
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Telmo, o escudeiro de Portas

A escolha de Telmo Correia para liderar a lista do CDS/PP à Câmara de Lisboa nas intercalares de 15 de Julho poderá vir a revelar-se desastrosa. Para o próprio e, sobretudo, para Paulo Portas, versão renascida. Telmo tomou uma má opção ao aceitar avançar para a capital, porque tinha sido eleito líder parlamentar do partido com uma votação unanimista quinze dias antes. Aparecer como a terceira opção, depois de Bagão Félix ou Luís Nobre Guedes terem declinado a aventura, não se afigura prometedor para um deputado que lidera supostamente a sua bancada na Assembleia da República. Mais, por melhor que possa ser o seu resultado, nunca chegará aos pés daquele que Maria José Nogueira Pinto atingiu em 2005. Com que cara irá voltar à AR o deputado (e líder) Telmo depois de não ser eleito?
Paulo Portas perde ainda mais. Após o desaire das eleições regionais na Madeira, onde permitiu o impensável (a eleição do primeiro deputado regional do PND), Portas arrisca-se a mais uma má notícia, que seria a não eleição de Telmo Correia, a quem chamou simplesmente de um "bom orador" e um "lisboeta de gema" quando o apresentou como candidato. Naquele partido de um homem só, ninguém contraria o "grande chefe", ninguém o desafia ou sequer lhe diz que "não". Aceita e engole em seco, enquanto Portas vai usando, abusando de todas as qualidades que possam ter, para depois deitar fora, como fez com grande parte dos dirigentes e/ou conselheiros que com ele trabalharam desde 1998.
Telmo, voluntarioso e bem intencionado, devia ter resistido a avançar para Lisboa. Mas acabou por confirmar o que Portas dele dizia há uns anos (quando ainda era "monteirista", antes de se passar para o lado "portista"): "Telmo? É nome de escudeiro". O CDS precisava mais do que um escudeiro em Lisboa, talvez precisasse de um autêntico Condestável...

As palavras dos outros


“O segredo do êxito é a honestidade. Se puderes evitá-la, consegues lá chegar.”
Groucho Marx

O jornalismo que sobrevive às modas

Acabo de adquirir na Feira do Livro Retratos Falados, do saudoso Fernando Assis Pacheco. Abro-o ao acaso – surge-me uma entrevista com António Lopes Ribeiro, publicada em 1988 no semanário O Jornal. Leio as primeiras linhas e só páro quando chego ao fim da saborosa conversa entre o grande jornalista e o quase lendário vulto do cinema português, que realizou O Pai Tirano e produziu Aniki-Bóbó. Anda agora por aí uma polémica sobre o alegado fim das entrevistas como género jornalístico. Puro disparate. Basta ler este volume da Asa (custou-me cinco euros na feira) para se perceber bem que a sobrevivência do género depende apenas de um factor: o talento do jornalista. Assis Pacheco, que foi também um notável escritor, tinha talento de sobra: transformava qualquer entrevista numa disciplina maior do jornalismo. Nada a ver com a prosa uniforme, cinzenta e chocha que descortinamos em boa parte do jornalismo actual, em que cada texto se parece com os outros todos, como se os jornalistas de hoje disputassem entre si um absurdo concurso para ver qual deles publica a prosa mais asséptica e mais insípida. Assis, sem desvirtuar as regras básicas do ofício, punha em cada prosa que assinava a sua marca de autor. Inconfundível. Este é o jornalismo que sobrevive a todas as modas, a todas as eras, a todas as crises. O outro continua a servir para o que sempre serviu: é excelente para forrar caixotes.

A Tarde Perfeita

Passei a tarde no parque. Não, na solidão de um qualquer banco, nem a ler, mas a brincar com o meu primo João Pedro. Tem 4 anos e quando lhe ligo ele diz quase sempre o mesmo: "Vens cá hoje brincar"? Depois penso quando será o dia em que a frase encurta e passa a ser? "Vens cá hoje"?
Por isso brinco e brinco muito. Com ele sou soldado, às vezes pirata, invento histórias onde os bolos imaginados podem ser de batatas fritas, sou a eleita para o empurrar no baloiço, deixo-o molhar os lábios às escondidas na coca-cola e se alguma coisa na sala caiu sou cúmplice de uma qualquer frase como: "Foi o Homem Aranha"!
Enquanto ele ainda é criança aproveito para me deliciar com os seus comentários que vão desde previsões futuras – "Quando for grande quero ser João" – até a momentos já opinativos como: "Não gosto de casamentos porque são muito demorados e até tenho que jantar lá e tudo." Hoje, vou ouvi-lo e perguntar-lhe o que é isto do Dia de Portugal.

Domingo

Evangelho segundo São Lucas 7, 11-1

Naquele tempo, dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim; iam com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade. Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: «Não chores». Jesus aproximou-Se e tocou no caixão; e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, Eu te ordeno: levanta-te». O morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe. Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo». E a fama deste acontecimento espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.

Da Bíblia Sagrada

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Poesias ineditas

Desse dia sobrou para sempre a memória da minha arrogância.
- Queres comprar o quê?
Tinha 13 anos e a consciência de que aquele era um evento para adultos. Para adultos, não. Para - pensava eu - intelectuais. Por isso perfilei-me antes de começar a percorrer com os meus pais as filas de barraquinhas onde se apinhava a inteligentzia lisboeta. Por esses tempos não era muito frequente sair à noite, o que aumentava ainda mais a importância da coisa. Ali estava eu, no limiar da minha adolescência, misturada com aquela ilustre turba, às 10h da noite, enquanto a maioria dos meus amiguinhos provavelmente a essa hora já em casa, de pijama, a ver televisão, ou na melhor das hipóteses a ler um livro dos cinco.
- Afinal o que queres comprar?
A minha resposta ficou no anedotário da família.
- Quero comprar as "Poesias Ineditas 1930-1935" de Fernando Pessoa.
- As poesias quê?
É verdade, nesse tempo já lia o poeta, não por verdadeiro mérito meu, mas porque me havia apaixonado por um puto que também queria ser intelectual quando fosse grande e que, sabe-se lá porquê, naquela idade já sabia de cor alguns poemas do Pessoa.
Ainda hoje, se digo "inéditas" à frente da minha mãe, ela corrige-me com um sorriso cúmplice: "Inéditas, não! Ineditas."

E foi assim que fui salva in extremis da suprema humilhação. No pavilhão da Ática lá pedi, correctamente e cheia de orgulho, o meu primeiro livro de Pessoa. A estragar a solenidade do momento só mesmo o olhar divertido dos meus pais, que eu evitei até sair da Feira. A partir desse ano fiz questão de lá voltar sempre. É um dos meus rituais. Adoro ver aquelas casinhas no Parque, gosto de me cansar a subi-lo e a descê-lo perdida no meio dos títulos e a fazer contas ao que já gastei. E quando vejo alguns chatos perorar contra a localização da Feira - porque o Parque é ventoso, e devia ser em espaço fechado, e patati, patatá - apetece-me logo meter aquelas pecinhas coloridas de lego debaixo das saias, agarrar numa caçadeira e corrê-los a tiro.

Desculpem, mas se algum dia mudarem a Feira do Parque será para mim uma questão pessoal! É que por razões que não sei explicar preciso dela ali, a confirmar o ritmo das estações e a minha geografia. Para o ano e para o outro e o outro e sempre.


História de algibeira (23)

Dia de Portugal
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A nossa bandeira ao tempo de Luís Vaz de Camões.

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Sábado, Junho 09, 2007

Tesouros de Walt Disney


Faz hoje 73 anos que estreou nas salas de cinema The Wise Little Hen (A Galinha Sabichona), curta-metragem da genial série de Walt Disney Silly Symphonies, película que marca a estreia mundial do popular personagem Pato Donald. A peça (de que a minha filha Carolina tão fanaticamente gosta) é uma genial fábula musical em que uma galinha, apenas com a ajuda dos seus pintos, semeia, cuida e colhe o milho. Donald e o amigo porco, que à distância dançam e cantam as desculpas para se esquivarem ao trabalho, no fim arrependem-se amargamente do seu egoísmo e preguiça quando lhes é recusada a participação num lauto e apetitoso lanche. Hoje este filme faz parte de uma esplêndida colectânea “Walt Disney - Os Melhores Contos da Animação” de grande sucesso em minha casa. O DVD, para bom grado das nossas crianças, possui uma versão muito bem dobrada em português - de realçar que muitos dos filmes são cantados com preciosas polifonias à boa maneira americana dos anos 30 e 40. A colectânea inclui A Lebre e a Tartaruga, Os Três Porquinhos (que inclui um terrível lobo mau com carregada pronúncia alemã), O Patinho Feio (nas versões de 1931 e 1939) O Rato do Campo e o Rato da Cidade, O Capuchinho Vermelho, A Arca de Noé, O Rei Midas, A Cigarra e a Formiga e O Velho Moinho, laureado com um Óscar da Academia, entre muitas mais preciosidades. Tudo esplendidamente musicado como só Carl W. Stalling ("Quem tem medo do lobo mau?") sabia fazer.

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Azar mesmo tem o António Costa

Não só tem uma mandatária que vai ser a cara de Carolina Salgado no cinema como tem nome de serial killer de Santa Comba Dão.

Música de todos os tempos (1)


Barry White - "You're the first, the last, my everything"

Quem vai à guerra...

Nunca as minhas relações, mais ou menos circunstanciais, dependeram das diferentes simpatias clubísticas, crenças, ideologias e outras sensibilidades. Por exemplo, entendo que ser ateu, em abstracto, é uma crença tão válida e respeitável quanto a minha. Dos meus amigos de sempre, raros foram os que coincidiram no todo ou em parte com as minhas causas. Aliás, sabe quem me conhece, como os acidentes da minha vida me cruzaram com mais extremos e “alternativos” caracteres humanos. Ser democrata, ser tolerante ou solidário, mais do que valores ou causas, são atitudes postas à prova na relação concreta. Admito que são metas mesmo difíceis, sempre precariamente viáveis, através da aprendizagem da maturidade e do auto-conhecimento. Tolerância e solidariedade valem muito pouco como causas ou propaganda. São atitudes que se treinam com a escola da vida, na experiência da relação, com atitudes e comportamentos. No dia-a-dia, pela vida fora. Tudo o mais são BA-LE-LAS.
De resto, quem ocupa os palanques dos partidos, as páginas dos blogues ou dos jornais (com que direito?!) a insultar a inteligência dos seus semelhantes, numa atitude arrogante, provocadora e inquisitória, deve, no mínimo, saber encaixar desportivamente umas valentes traulitadas verbais.

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Talvez a melhor série de TV de sempre


Os Sopranos vão despedir-se. O último episódio da magnífica série da HBO é já amanhã. Nos Estados Unidos. Cá na parvónia ainda teremos de esperar por ele. Como de costume.

Sábado: O Eixo do Mal

Aos sábados, num registo diferente mas igualmente na SIC Notícias, acompanho O Eixo do Mal. Aqui pretende-se transportar o humor para o comentário da actualidade, com constantes ingressões por notícias internacionais. As opiniões ficam a cargo de um quarteto muito desigual, nem sempre inspirado mas muitas vezes estimulante, formado por Clara Ferreira Alves, Daniel Oliveira, José Júdice e Luís Pedro Nunes. Há momentos de insuportável pedantismo, outros de opiniões dignas de taxistas ou barbeiros (“Isto está uma desgraça”; “Portugal não é um país digno de se viver”, etc.), mas as divertidas apreciações de Luís Pedro Nunes, editor do suplemento humorístico "Inimigo Público", compensam algumas inanidades que vamos escutando. O elemento mais fraco é o moderador, Nuno Artur Silva, que pretende ser engraçado sem nunca o conseguir.

Imperdível

A juntar às razões habituais para se ler o Expresso, a edição de hoje tem um "brinde" muito especial para nós e de leitura obrigatória. As cinco páginas na Única com a reportagem que a nossa Miss Pearls fez na 4.ª edição das 40 horas de Serralves.

"Porque tenho um blogue? Porque me diverte. Para que tenho um blogue? Para que não me fujam algumas memórias, para colorir algum presente e para tentar esquecer o que me foi tirado. O que não gosto num blogue? A pieguice e o insulto".
Isabel Goulão, Única.

E a minha condecoração vai para...


Tertúlia literária (191)

- Pus-me a ler O Zero e o Infinito.
- E então?
- Continuo mais perto do zero do que do infinito. Sempre li muito devagar.

Antes que a feira acabe

SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


Vinicius de Moraes in Livro de Sonetos

Este belo soneto também vem incluído na colectânea: Vinicius de Moraes - O Poeta não tem Fim, editado pela ArtePlural

E «o pá» quem era?

«A minha primeira entrada no forte é, precisamente, na manhã seguinte a uma reportagem da Televisão em que se ouvia um oficial dizer constantemente «pá». Pois era. para aqui, para acolá. Eu até pensei: aqui está um rapaz em vias de poder ser director do Diário de Notícias». Vera Lagoa, «Crónicas do Tempo», Livraria Internacional, Novembro de 1975

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Sexta-feira, Junho 08, 2007

Nas colunas


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E se fosse na Ota?

O Bloco de Esquerda foi, até agora, e que eu saiba, o único partido com assento parlamentar a pedir explicações sobre a morte de uma mulher de 44 anos no Aeroporto da Portela. A senhora em causa, irmã do baterista dos Xutos & Pontapés, terá ficado cerca de 30 minutos à espera que os serviços do INEM chegassem, o que acabou por ser fatal. O BE quer agora que o ministro da Saúde explique o porquê da demora do INEM, bem como a razão para o aeroporto não ter os meios normais de assistência médica.
Eu gostava de saber como vai ser na Ota. Com os hospitais mais longe, com o INEM a demorar ainda mais tempo e provavelmente com o aeroporto ainda pior equipado. Mas acredito que a intenção do BE em apresentar este requerimento possa ser essa. A de levantar o véu para uma série de problemas paralelos à construção de um novo aeroporto fora da rede urbana de Lisboa. Se é assim, é bem visto, sem populismos, nem demagogias baratas. Só se estranha que mais uma vez PSD e CDS tenham ficado dormitar sobre a matéria. Pode ser que acordem e apoiem o requerimento.

My girl friday


Natalie Portman

Choque cultural

O meu dia começou de forma trágica e com efeitos mais do que perniciosos para a harmonia conjugal. Descobri, chocado, que a minha mulher ignora quem sejam o Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. Aliás, quando mencionei os primeiros associou-os ao nome de alguma banda de garagem. É possível que a relação resista. Mas que ficou abalada, lá isso ficou. Valem as palavras do herói da prancha prateada, citado por Richard Gere no remake de À Bout de Souffle: «Love is the power supreme».
By the way: O que será feito de Valérie Kaprisky?

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Kennedy de bolso

Não perguntem o que a cidade pode fazer por vocês, perguntem o que nós podemos fazer pela cidade de Lisboa”. A autora da frase é uma tal de Margarida Vila-Nova, actriz de novelas e afins. Mas a menina não precisava de falar em jantares e iniciativas de campanha, só porque é a mandatária da juventude de António Costa. Bastava ficar sentada entre o candidato e José Sócrates, sob o olhar embevecido do resto da mesa. Ainda por cima para adaptar pela enésima vez a célebre frase de John F. Kennedy. Agora, que a menina compõe imenso as fotografias do candidato do PS, lá isso compõe. Não sei é se o PS sabe que a menina namorou em tempos não tão distantes com o mandatário da juventude da campanha presidencial de Manuel Alegre. Sweet revenge?

Cão que ladra...

Caio aqui e espanto-me com a imaginativa verborreia barata da Fernanda Câncio. À maneira pseudo-chic new class, f. insinua a vulgar e amargosa fanfarronice sexual do Tuga. Uma pseudo sofisticada cheap chat... E sexo. E mais sexo. De Deus, do adversário, do vizinho, ou do electrodoméstico. Conversa fiada, sexo verbal, arma de arremesso. Todo um mundo em constante orgia. E alguém que a ature? Se fosse feliz, já era um serviço à comunidade... Qui sas iluminando-se a sua obscura mente.

Desenho: José Abrantes

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Sexta-feira

Malu Mader.

O Zé faz falta

Depois de um excelente trabalho do realizador Tiago Guedes, com a encenação da peça “The Pillowman” no Teatro Maria Matos, e de Fonseca e Costa no Teatro Nacional, aparece mais um realizador a tentar a sua sorte nos palcos. Marco Martins, realizador do filme “Alice”, aventurou-se na criação de um espectáculo para o Teatro São Luiz intitulado, “Quando o Inverno chegar”. E ontem, na estreia, recebeu aplausos. Muitos. Apetece quase dizer que ainda bem que não há subsídio para alguns bons realizadores – é verdade, Marco Martins, depois de “Alice”, não obteve subsídio –, pois eles transformam-se em bons encenadores e se o cinema perde, o teatro ganha. Marco Martins contou com um texto assinado em português, de José Luís Peixoto – na sua terceira incursão teatral. E se nem à terceira ele falha, já é caso para dizer que, seja na literatura ou no teatro, realmente, o Zé faz falta.

P. S. – O outro Zé também lá estava. E também aplaudiu.

Sexta-feira: Expresso da Meia-Noite

Às sextas-feiras, passo pelo Expresso da Meia-Noite, da SIC Notícias. Ao contrário dos restantes programas que venho mencionando desde segunda-feira, este não tem um painel fixo de comentadores: o interesse de cada emissão amplia-se ou reduz-se substancialmente em função do leque de convidados – sempre quatro, interrogados pelos jornalistas Ricardo Costa (da SIC N), e Nicolau Santos (do Expresso). Já tenho desligado o televisor a meio, por manifesta falta de interesse, quando vejo uns tantos “agentes económicos” perorarem sobre dados estatísticos. Mas mantenho-me fiel ao programa sobretudo quando o debate se centra na política. Não só porque os convidados costumam ter coisas substanciais para dizer mas também porque é nestas noites que a ironia mordaz de Ricardo Costa vem à superfície, em certas perguntas ou em frequentes à-partes que o confirmam como um dos mais talentosos e bem preparados jornalistas políticos portugueses.
Uma perplexidade: nunca percebi por que motivo os dois jornalistas se apresentam sempre em mangas de camisa, mesmo em pleno Inverno, enquanto os convidados se mantêm encasacados. Se a ideia é sublinhar uma certa informalidade, ao jeito das conversas à mesa do café, percebe-se mal que só os visitados adoptem este tom, ao contrário do que acontece com os visitantes...

As palavras dos outros

"Quando ouço falar em grandes orgasmos, penso logo naquele livro do Milo Manara, vagamente inspirado em Jonathan Swift, em que uma mulher gigante passa os dias a masturbar-se numa terra de anões."
Eduardo Nogueira Pinto, A Sexta Coluna
"Se, em nossa casa, falta alguém que merecia lá estar, devemos ter a humildade de procurá-lo convidando-o a entrar; se estiver lá alguém a mais (por falta de espaço ou manifestação excessiva da sua própria existência) é indicar o caminho da porta."
Laura Abreu Cravo, Mel com Cicuta
"As doenças são apenas pretextos para morrermos."
Pedro Mexia, Estado Civil
"Se Deus quisesse que os políticos fossem fiéis tinha-os concebido com quatro patas e um rabinho para abanar."
Luís Novaes Tito, Tugir
"Em Espanha, o seguro de vida da direita é a ETA. Em Portugal, é a OTA."
Carlos Alberto, Carlos Alberto
"Por que razão os chamados conservadores são em geral mais divertidos a falar do que se passa à volta do umbigo, seu ou alheio, do que os chamados progressistas?"
Pedro Picoito, O Cachimbo de Magritte

Tertúlia literária (190)

- Gosto de Júlio Dinis.
- Já ouvi falar. Fez o pinhal de Leiria, não fez?

As Emoções Básicas (crónicas) II



Para efeitos de imagem, o que ficará desta cimeira do G8 será, provavelmente, aquilo que não teve influência nem importância, o desespero dos radicais, cuja visão do mundo não faz qualquer sentido. Vimos as habituais piruetas para aparecerem nos telejornais e fotos, o vandalismo descerebrado. E, claro, no meio da espuma, escapou-nos o facto deste já ter sido, provavelmente, o G8 mais importante da última década. Hoje, os líderes vão comprometer-se a uma ajuda maciça a África, para combater a SIDA e a malária.
Em política, a emoção dominante costuma ser o medo. E, no caso do primeiro dia de cimeira, houve duas ameaças a comandar os resultados, embora parte do mérito pertença, sem dúvida, a Angela Merkel, que continua a surpreender toda a gente, a conseguir acordos que pareciam impossíveis, a levar a água ao seu moinho, com paciência e liderança.
As ameaças são o possível regresso de uma mini-Guerra Fria e a alteração do clima global. Ambas susceptíveis de porem em causa a sobrevivência da espécie.
O primeiro caso constituirá menos uma ameaça real e mais uma elaborada jogada de xadrez, com bluff à mistura. Em causa, está um escudo anti-míssil americano, colocado na Europa. O sistema enerva profundamente Moscovo, que corre o risco de ver o seu arsenal estratégico transformado num brinquedo inofensivo.
Nas duas últimas décadas, os EUA esforçaram-se por transformar a Rússia numa potência de segunda linha e, por vezes, até parece que gostariam de a transformar numa potência de terceira, ignorando os perigos de tal evolução (tecnologias perigosas à solta, espaços vazios e despovoados, territórios nas mãos de fundamentalistas, recursos económicos esbanjados). O escudo poderia ser um novo empurrão no sentido do declínio, mas os presidentes russo e americano terão conseguido (essa é a interpretação que se pode extrair das afirmações crípticas que fizeram) iniciar um diálogo que acabará com o conflito à nascença. Talvez os americanos precisem dos russos nesta fase do campeonato (por causa do Irão, do Kosovo, etc.).
O segundo problema é bem mais complexo. Há provas científicas sobre o aquecimento global (o recuo do gelo é evidente), mas não existe consenso sobre a extensão do efeito de estufa ou se temos apenas o efeito de estufa na história. O clima da Terra mudou muitas vezes e as razões não são conhecidas. Deve ser considerado outro factor: este é um problema tecnológico e, portanto, económico. Há também quem diga que já podíamos ter iniciado uma nova era glaciar (as civilizações humanas beneficiaram de uma larga extensão de bom tempo, superior à média histórica, talvez cinco mil anos a mais com clima favorável, o que lhes permitiu chegar a este patamar de desenvolvimento; e a sorte pode estar a acabar).
Enfim, o medo parece ser, neste caso, bom conselheiro. Os Estados Unidos aceitaram finalmente negociar com os europeus e japoneses um acordo que poderá levar a uma redução da emissão de gases com efeito de estufa. Há ainda muitos ses, mas parece ser um caminho possível, apesar de obrigar a adiar as grandes decisões (o próximo presidente americano que resolva a questão).
Finalmente, África, o continente perdido. A confirmar-se um acordo para financiar a luta contra terríveis doenças, será um resultado sem precedentes.
Em tudo isto, não se entende para que serviu a violência dos manifestantes. Não se destinava a fazer pressão para que houvesse um determinado acordo. A violência, neste tipo de cimeiras, visa perturbar o processo de decisões e, portanto, o seu único objectivo é que não haja entendimento entre os líderes dos países ricos, criando um clima de confronto político, de rejeição social e de isolamento económico.
Parece ser uma agenda aberrante e perigosa. Não se baseia no medo, não é racional nem possui qualquer intuito construtivo. Trata-se apenas da mais pura loucura.

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Quinta-feira, Junho 07, 2007

Sobre o Abrupto

O texto de Pacheco Pereira no Abrupto lança uma discussão muito interessante sobre a blogosfera. Apesar de ter gostado da resposta do Luís Naves, acho que a parte referente à agenda mediática fica de fora deste comentário. É verdade que me estreei na blogosfera aqui há poucos dias (e desculpem, mas não sei fazer links), mas há anos que sou leitora atenta e noto a diferença de que PP fala. Houve uma altura em que não era importante seguir a espuma dos dias para encontrar análises interessantes sobre os temas mediáticos menos imediatos. Agora, se estiver dois dias sem espreitar os blogues, tenho a sensação de não estar a perceber nada do que se fala. No entanto, ao contrário de PP, não creio que este fenómeno resulte do amiguismo, acho que é mais resultado da democratização da blogosfera. Não é a primeira vez que PP reage contra a tomada do espaço das elites intelectuais por outros mas, ao conservadorismo de PP, acho que não se deve responder com corporativismo. Isso seria dar-lhe razão e, neste caso, não creio que a tenha.

Momentos Kodak (52)

Portátil. Quem consegue viver sem um?
(Maio 2007)
Fotografia: Rodrigo Cabrita

Chapéus há muitos



Vi há pouco Marques Mendes na televisão numa prova de vinhos de uma feira agrícola qualquer e, a dada altura, não queria acreditar no que estava a assistir. O líder do PSD de copo na mão, descontraído, e a provar bom vinho. Depois, bem disposto, a apertar a mão a toda a gente e a dizer "força" a uns, "está bom?" a outros. No fim, depara-se com um miúdo, a quem pergunta: "Então tu és do Sporting, do Benfica ou do Porto?"
A reportagem da SIC Notícias não mostra a resposta da criança. Nem era preciso. O razpaz tinha um boné verde na cabeça, com um enorme símbolo do Sporting. Marques Mendes é isto. E é do Benfica. Chapéus há muitos, líderes do PSD como este houve poucos.

Homenagem aos Corta Fiteiros

Início de História

Sempre que tinha vontade de chorar, António pegava nos velhos lápis de cera e numa folha branca, lisa. Dobrava os cantos, escrevia combinações de números em cada um deles, fazia uns cálculos mentais e riscava o centro, a toda a velocidade. Depois apagava. Depois escrevia e voltava a apagar. Só quando todos se iam deitar os seus olhos descansavam nas cores… e suavizava assim o pensamento. No dia seguinte, quando lhe perguntavam o que tinha estado a fazer, respondia:

- A contar os dias que faltam para voltar a nascer.

A reconciliação com a vida acontecia quando ia para o terraço do prédio cortar fitas.

E ele ali tão perto...


Deus o guarde por muitos e bons anos, é só o que tenho para dizer.
Falo do maior actor de todos os actores, do herói de todos os meus heróis, que soube envelhecer bem, que sobreviveu à doença e está ali um homem que se pode ver (ao longe, mas chegou).
Falo de Robert de Niro, Bob para os amigos, de cabelo grisalho e de casaco azul, que eu vi com estes olhos que a terra há-de tragar e que esteve por cá, convidado de honra da segunda edição do Lisbon Village Festival. Inaugurou hoje, no Palácio Galveias, uma exposição de pintura do seu pai, já falecido.
A verdade é que não passei do portão principal do palácio. A entrada era, obviamente, por convites e eu não constava da lista. Mas vi-o à saída. À minha frente entraram as figuras das revistas cor de rosa, actores, modelos e a Lili Caneças. Bloggers? Não me lixem! Onde é que estão os convites para as festas, premières, lançamentos de relógios e perfumes ou inaugurações de exposições e restaurantes?
E ele ali tão perto...
*
NOTA-Para conseguir entrar, ainda estive para dizer que era jornalista da revista "Jardins e Cavalos", mas tive receio de que alguém já tivesse visto esse filme.

As Emoções Básicas (crónicas) I


O Olimpo

José Pacheco Pereira, autor do blogue Abrupto, escreveu recentemente um post onde zurzia a blogosfera por, na sua óptica, reproduzir os erros da imprensa e se estar a transformar num conjunto de tribos onde se trocam favores. Embora seja um dos portugueses com mais acesso a órgãos de comunicação, JPP escreve frequentemente com desprezo sobre estes. O autor é mesmo um dos raros portugueses com acesso a todas as formas de comunicação, dos livros à TV, passando pela blogosfera e a imprensa. É mérito seu. Confesso-me leitor assíduo do Abrupto e da generalidade do que JPP escreve em jornais. Acho que o autor tem uma rara lucidez e uma cultura fora de série. Muitas vezes concordo com aquilo que escreve, mas neste caso, discordo. Atrevo-me até a lançar aqui uma crítica, apesar de JPP ainda não ter terminado a sua argumentação.
Há uma diferença entre blogues e jornais. As pessoas pagam para ler jornais e ninguém dá dinheiro por um que não seja credível. Daí que o amiguismo não seja desejável, pois mina a credibilidade. Por outro lado, a blogosfera é um meio gratuito, não remunerado. Logo, trata-se de uma comunidade, não de um produto. Nas comunidades trocam-se cortesias e insultos. Há casamentos e ódios. Para além disso, este universo em expansão tem tribos e clãs: há antigos e recentes; literatos e políticos; homens e mulheres; colectivos e solitários. Se as pessoas não gostam, mudam de clã, ainda antes de mudarem de tribo.
Claro que existe amiguismo na blogosfera. É da sua natureza. A começar pela escolha dos blogues linkados, pelo que se gosta de ler noutros locais, pelas pessoas com quem se escreve no mesmo sítio. Existe a excepção dos bloggers que não têm links ou que nunca citam os outros, mas se todos fizessem assim, a blogosfera não existia e não era uma comunidade. Era um conjunto de colunistas famosos a escreverem num espaço virtual.
O autor afirma que a blogosfera está a perder qualidades, mas este argumento é um pouco difícil de compreender. Trata-se de uma visão subjectiva, enquanto não for explicada. Admito que para muitos utilizadores a blogosfera esteja a perder qualidades, mas talvez a melhor maneira de descrever o fenómeno seja dizer que ela cresce, que entram mais pessoas que não conhecemos, que ela evolui sem que a possamos controlar. Mas isso pode ser uma coisa boa.
Deixem-me voltar atrás. Há uns dias, num post que me fez torcer o nariz, JPP defendeu a sua tese de que só leria literatura com pelo menos dez anos de publicação. É engraçado defender estas coisas, mas é melhor que não haja muitos leitores a imitar a ideia, pois em breve não haveria literatura, nem com dez anos nem com um. Se as pessoas só comprassem livros com dez anos, as editoras iam à falência e, portanto, não editavam.
No fundo, nesta polémica, acho que é giro ser da elite e habitar na estratosfera.

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Livros e mais livros

Nova incursão pela Feira do Livro.
O que trago?
- Sangue Sábio, de Flannery O’Connor. Tradução de Nuno Batalha. Edição Cavalo de Ferro. Uma das obras mais importantes daquela que é talvez a melhor escritora americana do século XX, segundo a New York Review of Books.
- Marley e Eu, de John Grogan. Tradução de Pedro Serras Pereira. Edição Casa das Letras. Um romance que foi considerado o best seller de 2005 pelo New York Times, com dois milhões de exemplares vendidos.
- Corre, Coelho, de John Updike. Tradução de Carmo Romão. Edição Civilização. Obra de 1960, já considerada um clássico, enfim com edição portuguesa.
- Verão Perigoso, de Ernest Hemingway. Tradução de Eduardo Saló. Edição Livros do Brasil. O livro-testamento do autor de Adeus às Armas, agora relançado pela editora que sempre assegurou os direitos de publicação de Hemingway no nosso país.
- Contos de Nick Adams, de Ernest Hemingway. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e Alexandre Pinheiro Torres. Edição Livros do Brasil. Há muito esgotada e agora relançada, numa nova colecção que reúne a obra (quase) completa do grande autor americano. Espero que venha a incluir também o volume dos seus primeiros grandes textos jornalísticos, By Line.
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E as pechinchas que trouxe desta vez:
- Morreram pela Pátria, de Mikail Cholokov. Tradução de Manuela de Azevedo. Edição Publicações Europa-América. Custou-me um euro!
- Os Homens e os Outros, de Elio Vittorini. Tradução de Elena Ricci Pinto e J. Wilson Pinto. Edição Publicações Europa-América. Também um euro!
- Gente da Sicília, de Elio Vittorini. Tradução de Rosália Braamcamp. Edição Livros do Brasil. Apenas cinquenta cêntimos!
Leitura não me falta por estes dias, garanto-vos.

Linabalável

Fiel à suas recentemente conhecidas concepções geoestratégicas, Mário Lino, a propósito de novos estudos sobre a localização do futuro aeroporto, afirmou: "Não vale a pena andar atrás de miragens". Foi ontem, no Parlamento.

Blogues com ketchup


Corre por aí uma nova eleição, onde aliás já fomos referenciados (o que agradecemos ao excelente Geração Rasca): o Prémio Blog Com Tomates. Como sempre nestas situações, não deixaremos também de elencar cinco blogues que no nosso entender entram bem no espírito. A bem da paridade, cada vez mais em voga, ei-los:

Não sendo capaz de seleccionar só estes cinco, aí vão mais cinco:

P. S. - A Miss Pearls só fica de fora pelas razões óbvias. É de outro campeonato. O nosso.

Quinta-feira: Debate da Nação

Às quintas-feiras, na RTP (excepção à regra num canal generalista), não perco o Debate da Nação. Tem a particularidade de ser também apresentado por Carlos Daniel, quase tão à vontade a moderar debates políticos como desportivos, embora aqui surja com uma indumentária mais formal. Este é o debate que mais me agrada, tendo também a política como prato forte. E agrada-me sobretudo porque é o mais plural: as cinco forças partidárias com assento na Assembleia da República estão aqui representadas, sem exclusão de comunistas e bloquistas, ao contrário do que sucede na Quadratura do Círculo. Francisco Assis (pelo PS), Paulo Rangel (pelo PSD), António Filipe (pelo PCP), Anacoreta Correia (pelo CDS) e Fernando Rosas (pelo Bloco de Esquerda) trocam ideias e argumentos de forma inteligente, não se circunscrevendo à actualidade nacional, o que constitui um mérito acrescido deste programa.

Postais blogosféricos

1. Com a campanha já em marcha por praças e avenidas da capital, é ainda mais oportuno dar uma olhada atenta a este blogue da Paula Sanchez. Justamente intitulado À coca... em Lisboa.
2. Parece que foi ontem que começaram, mas já estão há vários meses na blogosfera. Refiro-me aos nossos amigos de O Carmo e a Trindade, que também escrevem muito (e bem) sobre Lisboa. Neste período pré-eleitoral, é uma leitura com crescente interesse. Fica o registo, com um cumprimento especial à nossa Miss Pearls, que continua a ser muito cá de casa.
3. Um dos nossos blogues favoritos, o Geração Rasca, atribuiu-nos este galardão, sem dúvida muito lisonjeiro. Agradecemos, prometendo continuar a justificar tão boa fama.

Parecia a campanha do Carmona (4)

"Conheci Carmona Rodrigues numa noite de fado vadio".
Filipa Cardoso, fadista e mandatária da juventude da candidatura Lisboa com Carmona

"Hoje posso confessar que só soube que ele era o presidente da Câmara porque me disseram. Pensei que era mais um de nós. Parecia fadista".
Idem

E a minha pilinha é maior que a tua!


Ontem à noite, em entrevista à Ana Lourenço, na SIC Notícias, João Soares manifestou a sua indignação relativamente às críticas que Carmona Rodrigues e Santana Lopes fizeram à sua gestão na Câmara de Lisboa. Lá se defendeu, garantindo que não tinha por hábito firmar contratos de boca, que não admitira ao seu serviço seis tradutores de russo, que não tinha responsabilidades no caso Bragaparques. Em fim de conversa aproveitou para recordar a obra que ficou com a sua assinatura na capital. Feito o breve inventário, não resistiu e deixou cair "Fui também responsável pela construção do túnel da Av. João XXI, que por acaso até é maior que o do Marquês".

Meia hora

Fui ver a exposição Corpo Humano, a que mostra cadáveres verdadeiros. A primeira impressão, devo dizer, é dramática: de repente, numa sala, surge um corpo nu, a pele ressequida e mal preenchida, cortado ao meio num momento de corrida.
Tão forte como o primeiro impacto é a rapidez com que o cérebro se habitua a ver tão despojados aqueles que podem ser os nosso vizinhos, amigos, nós mesmos. À medida que passamos as salas, os corpos vão surgindo cada vez mais dissecados e menos impressionantes até à imagem final de um corpo em corte transversal tipo fiambre cortado fino, já absolutamente indiferente.
Da visita ficou-me como impressão mais forte uma frase escrita numa das paredes da exposição: "Todas as pessoas já foram uma célula única durante meia hora". Nunca me tinha ocorrido quanto tempo teria durado a nossa condição de célula única, sem possibilidade de comunicar com outra igual. A verdadeira solidão.
Durante aqueles 30 minutos tudo é possível. Divide-se? Não se divide? Quem decide? E por que raio dura meia hora? Que quer isto dizer?

Inês

Ontem não tive tempo para a apresentação formal, por isso aqui fica uma mais ou menos informal. A Maria Inês de Almeida, que entrará em breve no Corta-Fitas, é uma jornalista profissional, competente, que tem trabalhado para a Sábado, para a revista NS (Notícias Sábado, suplemento do DN), para a Pública (que sai com o Público), para a Caras, entre vários outros órgãos de comunicação social. Tem 29 anos, ganhou em 2005 o Prémio Valorsul, com um trabalho publicado no DNA, e no ano passado ganhou o Prémio Revelação do Clube de Jornalistas, entregue pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. A isto soma a bolsa "Criar Lusofonia" de 2006, com um projecto sobre "Os Anos Brasileiros de Agostinho da Silva", prémio patrocinado pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e gerido pelo Centro Nacional de Cultura. A Inês é licenciada em Ciências da Comunicação (pela Universidade Católica) e especializada em jornalismo. Já publicou um livro, não sei se já plantou uma árvore e agora irá estar também por aqui. É também a simpatia em pessoa. Querem saber mais? Leiam-na aqui no Corta-Fitas.
Boas "postas", Inês.

Quarta-feira, Junho 06, 2007

Brevemente neste blogue, perto de si

Maria Inês de Almeida.

O vencedor das sondagens de volta à luta

Como aqui observou o Francisco, ele aí está, de novo na arena política: envolveu-se já ontem directamente na campanha autárquica em Lisboa, no apoio ao seu ex-ministro António Costa. José Sócrates, o derrotado das autárquicas e das presidenciais, o homem que não conseguiu arranjar um buraco na preenchidíssima agenda para ajudar o seu camarada Jacinto Serrão na recente campanha da Madeira para não ficar associado a um novo fracasso eleitoral. Mesmo sem pôr os pés no Funchal, mesmo sem afrontar Alberto João Jardim, não evitou então que os analistas políticos lhe atribuíssem também a derrota - a terceira em ano e meio. Demasiados desaires para quem se gaba de obter sempre tanto sucesso nas sondagens. Daí que ele tenha voltado novamente à liça. Precisa de uma vitória, de uma vitoriazinha que não se circunscreva às sondagens. Mesmo que seja a vitória mais magra de sempre do PS em Lisboa. Mesmo que seja uma vitória que torne Lisboa ainda mais ingovernável.

Postal (atrasado) de Cabo Verde

O jipe de marca japonesa percorre rápido a estrada antiga de calçada que serpenteia pelo interior de Santiago, a maior e mais populosa ilha de Cabo Verde. A paisagem revela-nos o mar, por entre as montanhas de assertivas e bizarras formas, sempre cinzentas cor de Jorra, a omnipresente rocha vulcânica aproveitada também na construção de casas e casebres por toda a Ilha. Nas bermas, assinaladas por pedregulhos pintados de branco, entre curva e contracurva, encontramos constantemente magotes de alegres crianças, fardadas com a cor da sua escola e que galgam quilómetros em constante brincadeira. Alegres, acenam-nos à nossa passagem, com simpatia. Isto é Cabo Verde, é Africa não há dúvida. Mais longe, nas ressequidas acácias, inclinadas e batidas pelo vento, resiste pouca folhagem. Pelas rochas, pedras e caminhos, passeiam-se indiferentes as cabras. Como as vacas e as galinhas que constantemente se nos atravessam indiferentes na estrada. Explicam-nos que sabem onde moram, conhecem os donos... Chegados ao Tarrafal depois de uma rápida visita à prisão, uma inevitável viagem aos infernos da história, às misérias da humanidade, desço à praia e dou um higiénico mergulho nas cristalinas águas tropicais.
De volta “a casa”, fazemos paragem numa estranha e pequena aldeia de frágeis cabanas, dos "Rabelados", um autêntico gueto de um povo que teimosamente nunca cedeu à miscigenação cultural. Resistem estoicamente à margem da sociedade, sem falar crioulo, pintando a óleo umas estranhas e esguias figuras, em telas ou tábuas, que vendem aos forasteiros.
Ainda parámos na Cidade Velha, o primeiro “porto de abrigo” dos portugueses e as suas ruelas e muralhas quase medievais. Pelo caminho, grupos de mulheres gingam as ancas sob os pesados recipientes de água. Ao jantar, enquanto degustávamos uma bela malga de sopa Rolon (sopa de peixe e milho), fui surpreendido e encantado por um nativo que cantava um Funaná di Gaita, uns estranhos e ritmados lamentos acompanhados por percussão e concertina, como um exótico género de blues. Sons de um povo de música, a tocar nas telefonias todo o dia, que é o que se gosta e gasta nesta terra: Morna, Funaná, Coladera.
A Praia, capital de Cabo Verde, é povoada por gente boa, de comércio e serviços, que vive hoje a expectativa de grandes investimentos e dinheiro novo. Possui um novíssimo aeroporto e projectam-se grandes investimentos em infra-estruturas. Que se espera traga mais bem-estar e perspectivas de futuro a este povo sem ressentimentos. Que o rápido progresso e a invasão dos euros não corrompam este seu espírito genuíno e hospitaleiro.
A cinco quilómetros da cidade da Praia, paramos o jipe no extremo da península de Ponta Bicuda, onde o mar e os céus infinitos nos cercam sobre uma agradável brisa. É para lá do horizonte que está todo o mundo, o stress e a agitação. E muita saudade, bem portuguesa.

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Salazar, Salazar, Salazar

Respondendo ao João Gonçalves, a minha «parte neuronal» está mais do que atrofiada e, quanto a «maturidade», não vale a pena dizer em meu abono seja o que for, como certamente já perceberam. Mas que venha agora sei lá quem reclamar para a Ponte 25 de Abril o seu nome original, francamente. O «obreiro da Pátria», «o HOMEM», o «Mestre do pensamento», como lhe chamam, (se linkarem aqui estão por vossa conta e risco) já teve a sua dose de revival com o famigerado concurso dos Grandes Portugueses. Mais do que isso, é uma overdose de santacombadismo para a qual não há pachorra. Não há alguém que tenha uma ideia a olhar para a frente? A bem da Nação? Assim ainda ficam com torcicolos.

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Gostei de ler

Arguidos, acusados, suspeitos; logo, culpados. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.
De regresso aos planos quinquenais? Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.
Inquisição. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.
On being conservative. De Francisco Mendes da Silva, no 31 da Armada.
Contra os referendos ao aeroporto. Do Coutinho Ribeiro, n' O Anónimo.
Boçalidade. Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.
Ritmos. De João Paulo Sousa, no Da Literatura.
Hamlet e a inteligência emocional. Da Vera Carvalho, na Geração Rasca.
A carta roubada. Do Réprobo, nas Afinidades Efectivas.
Мы вас похороним! De António Balbino Caldeira, no Do Portugal Profundo.
Entretanto, na mesa ao lado. Da Laura Abreu Cravo, no Mel com Cicuta.
Pôr-do-sol debaixo da ponte. De Samuel Filipe, em Esse Cavalheiro.

Quarta-feira: Quadratura do Círculo

Às quartas-feiras, na SIC Notícias, vejo a Quadratura do Círculo. Um programa de política pura e dura, em moldes importados do futebol, com a diferença, neste caso, de que os emblemas partidários substituem os cachecóis dos clubes. Pacheco Pereira (pelo PSD), Lobo Xavier (pelo CDS) e Jorge Coelho (pelo PS) esgrimem argumentos, sob a moderação de Carlos Andrade – outro jornalista da rádio “emprestado” à televisão. Tem o defeito de se escutarem opiniões demasiado previsíveis, embora Pacheco Pereira se destaque pela heterodoxia das suas posições, que desagradam com frequência à liderança do PSD. E ainda bem.

A ler

1. "Think local, act global", de João Miranda.
2. "O factor Barroso", do Vítor Matos.
3. "Dr. Morte", de Pedro Norton.

Os tugas (18)


Hora de almoço. Restaurante cheio no centro de Lisboa. Enquanto aguarda pela lista, uma senhora é alvejada em cheio... por um pickle. Atirado por um indivíduo engravatado, três mesas adiante. A perplexidade dela não se desfaz pela justificação atabalhoada dele.
- Queira desculpar. Só pretendia atingir por brincadeira o meu amigo, que está naquela mesa ali. Não costumo ter falta de pontaria...
O pickle lá ficou, no meio do chão. Acabaria a decorar um prato na vaga de refeições seguinte?

Tertúlia literária (189)

- O amigo leu Drummond?
- Já mé, já mé, como diria o ministro Mário Lino. Não aprecio literatura francesa.

Está-se bem, aqui

Poul Rasmussen, o «pai» da flexigurança, avisa hoje no DN que os jovens vão ter que se habituar a mudar de emprego 20 a 30 vezes durante a vida. Na Dinamarca, já são despedidos em média «8 a 10 vezes mais do que os seus pais». Uma maravilha. Aqui, no Second Life, e já vestido com roupinha gentilmente oferecida pelos Hare Krishna, pode ver-se o meu avatar meditando sobre a impermanência no jardim da minha amiga alemã Leeloo, ao bom estilo budista. Prometi, entretanto, umas lições de português à Natalie, cujo apelido Pessoa foi escolhido em homenagem ao seu poeta preferido, o nosso Fernando.

Informação de trânsito (serviço corta-fitas)


Tráfego lento nos acessos à Ponte 25 de Abril.

Cafés com memória

Em jeito de lembrança de um café onde gosto sempre de voltar:

Entro num destes cafés com história, onde ainda se respira l' air du temps de um passado não muito longínquo e imaginam-se os sussurros das vozes que encontramos nos romances, nos quadros, nas caricaturas e na dramaturgia. Não será difícil imaginar favores literários atribuídos entre três bicas, criaturas que faziam dos cafés os seus salões assim que deixavam os quartos alugados (Bocage, Batalha Reis, Pessoa, Rodrigues Miguéis), artistas falidos (Gomes Leal) que se contentavam com um bolinho e cinco cafés para esconder a fome do dia, tabaco cravado a qualquer um, outros que se instalavam nas esquinas encostados às paredes, fatos poídos voltados ao contrário, todos chiques com a sua bengalinha e de carteira vazia e a um canto, Stuart de Carvalhais a desenhar caricaturas a troco de dois brandies.

- Madame, o que deseja?

(Fotografia do Café Majestic )

Tertúlia literária (188)

- Já leste "Orgulho e preconceito"?
- Ainda não. Porquê?
- Por nada. Quem nunca mandou recadinhos que atire o 1º post.

Terça-feira, Junho 05, 2007

Em breve


O Corta-Fitas vai ter mais novidades muito em breve. Mas posso assegurar-vos que (ainda) não é desta que o João Villalobos, perdão Vasco Homewood, vai lançar o CF no Second Life. Também já faltou mais...

Vida alternativa

Por causa de situações como as retratadas no post abaixo, «bazei» para o Second Life. Em poucas horas, já fiz quatro amigas e estou agora num retiro de luxo, situado numa montanha que é assim a modos que um resort espiritual de 7 estrelas que nem vos conto. Uma das amigas é uma mulher elfo com asas e tudo, a outra é uma loura de chapéu à cowboy cor de rosa que vive numa roulotte e a terceira parece a Nicole Kidman, ruiva e vestida de corsária. A quarta é a simpática artista e criadora de jardins zen que me deu o endereço deste maravilhoso lugar. Se decidirem mudar de vida, procurem-me. Vasco Homewood é o meu nome. Para um avatar sem cheta, o dia de estreia não correu nada mal.

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Parecia a campanha do Carmona (3)




O meu partido é Lisboa

Queremos encontrar o rumo
O caminho da verdade
Queremos encontrar a esperança
O futuro da Cidade

Queremos uma força viva
Sem ter medo de fazer
O que a Cidade precisa
É ouvir dizer

O meu rio é o Tejo
O tejo é o meu rio
Minha canção é o fado
Num canto ao desafio
O meu partido é Lisboa
Lisboa, verdade
Sete colinas de amor
Na minha Cidade

Letra: Carmona Rodrigues/Toy
Voz: Toy

P. S. - Enganou-se quem pensava que a política portuguesa tinha ultrapassado definitivamente a fase do Menino Guerreiro...

Parecia a campanha do Carmona (2)

E era mesmo o Carmona com os assessores e membros da lista, mas quando me viram explicaram que não era campanha, estavam só a ir à lavandaria.

Mainstream, high tech and so on

Há hoje uma forma de escrever nos jornais que abastarda a língua portuguesa e dificulta a compreensão dos textos, tornando o acto de comunicar por escrito uma tarefa apenas para iniciados. Refiro-me à invasão descontrolada de vocábulos importados da pátria do Tio Sam, a coberto de um certo jargão “económico” ou “cultural”, que transforma muita prosa numa espécie de crioulo luso-americano, cada vez mais indecifrável para uma camada vastíssima de pessoas.
Com isto afugentam-se os leitores em percentagens crescentes, como se tem visto nos últimos anos. Não perceber isto é não perceber nada de essencial do acto de comunicar – que deve ser claro, conciso e compreensível.
Para se entender melhor a que me refiro, fica um exemplo concreto de um artigo de duas páginas inserido há dias num jornal e assinada por um conhecido jornalista “cultural”. Em certos trechos, que passo a transcrever, aposto que nem ele próprio saberia muito bem o que estava a redigir.
- “Não é o 13 que é um número azarado, o cool é que já não pode ser o que era.” (Frase de abertura)
- “Nem é preciso recuar aos tempos de Frank Sinatra e da sua rat pack.”
- “Tão poucos anos e o cool já se gastou.”
- “A série está agora mais high tech.”
- “Parecem todos guest stars do seu próprio filme.”
- “Provavelmente se captou que era o mais disponível para exorcizar este pacto com o entertainment.”
- “O cinema que explorava novos caminhos era também o cinema mainstream.”

- “Em tempo de promoção de uma sequela não se espera que alguém declare morta a franchise.”
Se ler cansa e confunde, transcrever é ainda mais penoso. Desculpem lá, mas agora vou fazer uma pausa. Comigo o cool já se gastou. Seja lá o que isto queira dizer.

Terças-feiras: Trio d'Ataque

Às terças-feiras, na RTP N, vejo o Trio d’Ataque. Novamente o futebol em evidência, durante hora e meia de debate. Aqui a vertente clubística é ainda mais acentuada do que no Dia Seguinte. As gravatas costumam ficar em casa, mas os cachecóis não: António-Pedro Vasconcelos pelo Benfica, Rui Moreira pelo FC Porto e Rui Oliveira e Costa pelo Sporting levam a retórica argumentativa mais longe do que os colegas da SIC N. E o moderador, Carlos Daniel (outro excelente profissional do jornalismo), intervém mais do que David Borges, embora sem nunca trair também as suas convicções clubísticas.

Tertúlia literária (187)

- A Metamorfose é um livro genial. Vê lá tu, um homem transformado em bicho...
- Antes transformado em bicho do que em bicha!
- És incorrigível. Não conheço ninguém mais homofóbico do que tu.

Só contaram prá você

A prosa viperina de Maria Armanda

Distracções
«Ao contrário de algumas senhoras da nossa melhor sociedade que levam dos cocktails das Embaixadas bombons para os filhos (como dizia Valéry Larbaud numa das suas crónicas de «Jaune Bleu Blanc») Luís de Sttau Monteiro anda muito preocupado por ter deixado distraidamente, dentro de um guardanapo, na Embaixada de França, os seus dois dentes postiços...» 22/3/66


Simone vai representar Portugal
Amália escolheu e creio que escolheu bem. Simone é bonita e canta bem. Mas...Amália, você tem responsabilidades. Leve-a primeiro a uma boa modista ou...ao trapo americano». 21/9/66
Vera Lagoa, «Bisbilhotices...», Editorial Ibis, 1968

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Ah! Ah! Era a brincar!

Aqui está! É o ovo de Colombo. A partir de agora as produtoras de televisão mais agressivas podem mesmo fazer tudo, falar de tudo, imaginar tudo. Se a coisa ameaça ultrapassar as raias do concebível à cautela encena-se algo que tenha menos de reality e mais de show. E as audiências continuam asseguradas.
O programa sobre a doação de rins afinal não passou de uma encenação? Antes assim. Em resposta à mais que previsível onda de indignação gerada pela sua promoção, a produtora responsável, a holandesa Endemol, veio logo esclarecer que o seu objectivo era, ao contrário do que parecia, muito nobre: sensibilizar as pessoas para a doação de órgãos.
Pois. Afinal foi lindo, nós é que não percebemos. Mas... se não se importam, em relação a este tipo de assuntos, continuo a preferir menos foguetório. Truques de marketing quando estão em causa situações tão dramáticas como esta não, obrigada!

Nas colunas

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Mentes brilhantes

A pré-campanha de António Costa estava a andar, até ao momento, em velocidade de cruzeiro. Um mandatário "pescado" na área do PSD, um mandatário financeiro com imagem rigorosa e independente, uma mandatária da juventude que fica bem em qualquer fotografia. Até agora, lembro-me também que o ex-número dois de José Sócrates propôs um "segundo pulmão" na cidade nos terrenos da Portela que o Governo quer desocupar. E mais? Umas coisas vagas, mas que soam sempre bem, como propor um contrato de saneamento financeiro para a CML.
Hoje à noite, contudo, a pré-campanha socialista promete um novo impulso, com a injecção de energia do primeiro-ministro. Sim, esse mesmo. O tal que não se envolveu na campanha das eleições da Madeira com o argumento de que se tratavam de "eleições regionais". Sócrates aparece agora numa eleição municipal. Vai dar uma ajudinha. Aquela ajuda de que Costa precisava para fazer arrancar a caravana das ideias. Logo à noite, no centro de Congressos de Lisboa (antiga FIL, à Junqueira), mesmo à hora de arrancarem os telejornais, o jantar "Unir Lisboa" junta António Costa e José Sócrates à mesa e no mesmo palco. Temo bem que a ajuda possa não ser benéfica para Costa. A governamentalização da eleição lisboeta estará aí, à disposição de quem quiser aproveitar-se dela. Depois de hoje à noite, Costa não poderá mais recusar-se a falar da Ota, da concentração nas forças de segurança, da reforma da administração pública e do desemprego no concelho de Lisboa. Também é bom que reze para que o plano de emergência montado no seu ministério esteja à altura da época de incêndios deste ano e que esta não venha a fustigar o País antes de 15 de Julho. É que há mais 11 candidatos, mortinhos para discutir estas e outras matérias.

Segunda-feira, Junho 04, 2007

Qual Feira do Livro...

...qual quê. O que está a dar são as Festas do Concelho aqui em Oeiras. Por apenas um - euro - um cada exemplar, arrebatei: Mário Soares, Escritos Políticos, Edição do Autor. Duas primeiras edições de Vera Lagoa, Bisbilhotices... (1968) e Crónicas do Tempo (1975). 1as edições de Gaivotas em Terra de David Mourão Ferreira e da Marcha Nupcial de João Gaspar Simões e, ainda, um Manual de Civilidade e Etiqueta, coligido por Beatriz Nazareth em 1895. Que tal, hem?

Parecia a campanha do Carmona (1)

Mas quando lá cheguei era um idoso que se tinha sentido mal e pediu para sair do autocarro fora da paragem, no que foi acompanhado por quatro pessoas atenciosas que o abanavam com lencinhos.

Sem margem

"Je voudrais dire combien j’ai été heureux de recevoir à déjeuner le Premier ministre portugais, futur Président de l’Union à partir du mois de juillet prochain. J’avais eu le plaisir d’être reçu par lui à Lisbonne et l’on peut dire que nous avons fait un tour d’horizon qui s’est traduit par une très grande convergence de vues. Nous sommes d’accord sur le fait d’aller vite pour débloquer la situation institutionnelle, nous sommes d’accord pour un nouveau Traité, bref, permettant de sortir de l’impasse institutionnelle et cet accord est d’autant plus important que s’il a lieu au Conseil européen des 21 et 22 juin, c’est la présidence portugaise qui aura à le concrétiser au cours du deuxième semestre de l’année 2007. J’ai dit également ma disponibilité au Premier ministre portugais pour me rendre au mois de juillet à un dîner avec le Président Lula dans le cadre du Sommet Brésil/Europe où le Premier ministre Sócrates a bien voulu m’inviter".
As palavras são de Nicolas Sarkozy, numa conferência de imprensa conjunta com José Sócrates, hoje em Paris, e acho que não deixam muitas dúvidas sobre o que vem aí. Um Tratado Constitucional europeu simplificado, aprovado no Parlamento e a pôr em prática até 2009. Ou muito me engano ou esta é a próxima pirueta do Governo de José Sócrates. A seguinte será o retrocesso na Ota (com a consequente queda de Mário Lino). Ambas devido ao magistério de influência de Cavaco Silva, que muitos tendem a menosprezar mas não irão tardar em reconhecer. Parece-me cada vez mais óbvio que o Presidente não quer um referendo à Europa e também não quer que se construa a Ota. Vamos ver quanto tempo irá demorar Sócrates a render-se a algumas evidências. Quanto mais tarde, pior.

Faltava-me mais esta

Só agora é que li isto. É um texto um bocado extenso que me é parcialmente dirigido. A meio da leitura desisti, depois retomei, cheguei ao fim e voltei a ler. Pelo que entendi do arrazoado, parece que me desancam por causa do meu apelido. Ora acontece que eu não tenho culpa do meu apelido. Pode ser que, como dizem, ele seja «nobremente decadente». Mas quanto a isso batatas. Não posso fazer seja o que for. De resto, cada um tem o nome com que o baptizam.
Agora o que não entendo é que, depois de ter escrito aqui tanta barbaridade desmiolada e sem nexo, venha o senhor Zé Luís Paxaxa e pegue nos costados da minha família. Acho preguiçoso. Porventura o que incomodou a mãe bragantina foi o que escrevi a propósito dessa coisa da blogosfera futura? Se assim é, fique descansado. Sou um defensor dos direitos, liberdades e garantias. Mesmo de quem escreve cartas abertas com um pseudónimo por assinatura. Porfiai. E polemizai à vontade. Sempre ajuda às audiências e a malta está cá uns para os outros.

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Segundas-feiras: O Dia Seguinte

Às segundas-feiras, na SIC Notícias, vejo O Dia Seguinte. Três comentadores – Dias Ferreira, pelo Sporting, Fernando Seara, pelo Benfica, e Guilherme Aguiar, pelo FC Porto – dialogam sobre o futebol luso, por vezes com acesa troca de argumentos, sob a moderação de David Borges, um excelente profissional da rádio e da televisão. Aqui o interesse não está tanto no fundo como na forma: raros assuntos apaixonam tanto os portugueses como o futebol. O nosso talento dialéctico quase se esgota nisto. Por isso me dá prazer ver este programa entre adeptos engravatados. Uma curiosidade: são todos filiados no PSD.

Televisão à distância

Cada vez vejo menos televisão. E sou cada vez menos espectador dos canais generalistas, em sinal aberto. Desgosta-me a informação da TVI, que já foi irreverente e hoje é irrelevante, com um tom sensacionalista que me desagrada: grita as notícias, em vez de as relatar. Passo ao lado de toda a programação deste canal e também da SIC – ambas afogadas em telenovelas, com mau português em vários sotaques e legiões de manequins promovidas a actrizes. Se não fossem os canais por cabo, quase estaria de relações cortadas com a televisão portuguesa, que praticamente virou costas ao noticiário internacional. Vale-me a TV Cabo, com noticiário espanhol, inglês, francês e norte-americano (o brasileiro da Globo, lamentavelmente, deixou de estar acessível aos telespectadores portugueses). A nível nacional, limito-me portanto aos noticiários da SIC Notícias e da RTP N – ambas no pacote de canais da TV Cabo.
E restam os programas de debates, que felizmente se mantêm. Estes sim (e só estes) agarram-me ao televisor.