sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Como o acaso vira a vida do avesso


E se Adolf Hitler, quando saiu da sua Linz natal para concretizar o sonho de ser pintor, não tivesse chumbado na admissão à academia de belas-artes de Viena? A pergunta, para quem gosta de fazer leituras psicológicas da história universal, tem razão de ser: um Hitler reconhecido como artista pela elite vienense jamais teria precipitado a II Guerra Mundial.
E se James Dean não tivesse desaparecido tragicamente, ao volante de um Porsche prateado, com apenas 24 anos, em 1955? Imaginemo-lo disforme e grotesco como o Brando crepuscular ou destruído pela sida, como aconteceu a Rock Hudson: não sobraria espaço para o mito, só possível porque os deuses o levaram tão jovem para o seu Olimpo.
Uma porta que se fecha na cara, um pouco mais de pressão sobre um pedal: um quase-nada capaz de mudar o mundo. “O acaso é uma parte da realidade. O inesperado acontece nas vidas de todos nós com uma regularidade quase entorpecente.” São palavras de Paul Auster, um dos autores contemporâneos que mais têm sublinhado a importância do acaso na viragem de qualquer vida. Quantas vezes a realidade não supera os mais assombrosos cenários de ficção?
Herbert L. Matthews foi um daqueles homens cujas vidas mudaram para sempre num só dia, que para ele constituiu simultaneamente o apogeu da sua carreira de jornalista e uma data fatídica que jamais o largou. Era um repórter que se distinguira ao serviço do New York Times na Guerra Civil de Espanha e na II Guerra Mundial antes de o instalarem, durante uma década, num gabinete de editorialista. Naquele dia, 17 de Fevereiro de 1957, conseguiu o furo da sua vida: entrevistou Fidel Castro na Sierra Maestra.
Castro liderava um pequeno grupo de guerrilheiros que se opunham à ditadura de Fulgencio Batista mas era praticamente desconhecido fora de Cuba. Foi Matthews quem o transformou num mito ao projectá-lo para a manchete do seu jornal a 24 de Fevereiro, uma semana após ter entrevistado o jovem comandante barbudo que Batista jurara ter morto uns meses antes. Afinal Fidel não só estava vivo como comandava “centenas de homens”, como Matthews garantira na reportagem.
O veterano jornalista, já com 57 anos, deixara-se iludir: Castro tinha apenas 18 homens armados na Sierra Maestra. Mas o mito do resistente hercúleo estava lançado: o furo jornalístico transformou-se no maior veículo de propaganda da “revolução” cubana, que triunfaria menos de dois anos depois – e se transformou numa ditadura mais feroz e muito mais longa do que a de Batista.
Herbert L. Matthews, antes tão louvado pela sua proeza, passou a ser contestado nos Estados Unidos à medida que Castro revelava a sua face de autocrata sem escrúpulos. Considerado um herói em Cuba, país que continuou a visitar quase até à morte, em 1977, recebeu críticas contundentes dos seus próprios colegas, que o consideraram um peão ao serviço do comunismo castrista. Depois de se reformar do New York Times, em 1967, radicou-se na Europa e na Austrália. Obstinado até ao fim, nunca denunciou o carácter ditatorial da “revolução” nem admitiu ter-se enganado quando assegurou aos leitores que Castro era um democrata genuíno que só pretendia instaurar a democracia na ilha. Em 1969, ainda o considerava “um dos homens mais extraordinários do nosso tempo”, dando razão aos seus críticos: o jornalista que denunciara a ditadura de Batista era incapaz de denunciar a ditadura de Castro.
Outro repórter do New York Times, Anthony De Palma, disseca este caso num livro brilhante, agora editado em Portugal pela Bizâncio: O Homem que Inventou Fidel. Tese: Matthews tornou-se prisioneiro da sua manchete. Reconhecer os erros do ditador “teria diminuído a sua própria importância” enquanto jornalista que o deu a conhecer ao mundo. Conclusão: por vezes é muito ténue a linha que separa a verdade do mito e mesmo um jornalista experimentado pode cair nas malhas da propaganda. A vida de Matthews teria sido bem diferente se não tivesse subido à Sierra Maestra naquele dia, escapando à monotonia do trabalho de gabinete em busca, mais do que de uma notícia, do “reconhecimento” que, segundo Hegel, é uma característica inerente à espécie humana. Sem esse golpe do acaso, perderia uma cacha mundial mas mantinha incólume a sua reputação, que assim foi manchada para sempre.
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O Homem que Inventou Fidel
Autor: Anthony De Palma
Editora: Bizâncio
Páginas: 328
Classificação: ****

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quinta-feira, fevereiro 14, 2008

As palavras dos outros

"É na Net que se escreve melhor português, hoje."
Manuel António Pina, citado por Alexandra Lucas Coelho no Público

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Opinião pública

De repente, em pleno Inverno, multiplicam-se as esplanadas em Lisboa. É o habitual engenho muito português: como a nova legislação não permite fumar no interior da generalidade dos cafés, logo se improvisa um espaço exterior.
Estou numa destas esplanadas com um livro fascinante nas mãos: Retratos de Coragem – o célebre Profiles in Courage, de John Fitzgerald Kennedy, que em 1957 valeu o Prémio Pulitzer ao futuro presidente dos Estados Unidos da América. A obra, que demorou meio século a ter versão portuguesa, foi agora lançada pela Esfera do Caos, com uma excelente tradução de José Gomes André.
Na mesa ao lado, duas senhoras. Falam e fumam. Falam sobre fumo, protestando contra a nova lei do tabaco. Em tom suficientemente alto para me distrair momentaneamente da leitura.
- Disparate, termos que fumar agora aqui. E eu que sempre detestei fumar na rua! – desabafa uma.
- Também eu. Gosto de ver sair o fumo e aqui não dá – indigna-se a outra.
- Ainda nos arriscamos a apanhar uma valente constipação – conclui a primeira.
Divirto-me com os comentários das duas senhoras que não revelam medo dos comprovados efeitos do tabaco na saúde mas exprimem receio pelas nefastas consequências do ar livre. E logo retomo a leitura. O livro de Kennedy – sem dúvida fascinante – é um ensaio político sobre “a mais admirável das virtudes humanas – a coragem”. O então senador do Massachussets destaca oito políticos americanos de várias épocas e de várias tendências que não hesitaram em remar contra os ditames partidários, os editoriais da imprensa e as correntes dominantes na “opinião pública”, com sacrificios pessoais indescritíveis. “Homens que fizeram do Senado dos EUA algo mais do que um mero conjunto de robôs capazes de registar obedientemente as opiniões dos seus constituintes, ou do que uma assembleia de oportunistas, especializados tão-só em prever e seguir as inclinações da opinião pública.”
Interrompo de novo a leitura. As senhoras a meu lado ainda fumam, ainda protestam contra a nova lei que “viola as liberdades”. Sob o céu azul de Lisboa, talvez a capital europeia mais bafejada pelo esplendor do sol.

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quarta-feira, dezembro 12, 2007

Perguntar não ofende

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domingo, novembro 11, 2007

Caro João Villalobos:

Foi com muito gosto e com emoção que comparecemos na festa de anteontem, na Casa Fernando Pessoa, ali a Campo d’ Ourique, pró lançamento do teu pequeno livro de poemas. Não sei se reparaste que durante aquela noite morna não tocavas com os sapatos no chão: planavas. É com certeza salutar um banho de amigos assim. A casa estava cheia, e eu até tive de ouvir a apresentação lá do alto das escadas, por detrás de uns quantos ombros anónimos. Pareceu-me aliás que por lá formigavam uns quantos... talvez não como os das nossas caixas de comentários, mas daqueles que se encontram na bicha do trânsito ou nas vernissages. De resto, pelo que me foi dado observar, todos compraram o teu livro, que é uma coisa própria para os bons anónimos fazerem - fica já aqui o repto.
Depois tiveste ali, incondicional e veneradora, toda a trupe corta-fiteira, à parte do Francisco que anda lá por fora a lutar p’la vida. E olha que notava-se bem como as donzelas do nosso blogue não andam de autocarro... Enfim, todos boa gente, não te deixamos ficar mal, deves ter reparado: integramo-nos bem, não partimos muita loiça, não dissemos mal do Sócrates assim muito alto. Enfim até demos algum ambiente à coisa; o Francisco José Viegas, bom anfitrião, deve ter ficado aliviado.
Mas olha João, que foi ainda na sexta-feira à noite que me deliciei com alguns dos teus poemas. Uns eram apenas umas curtas frases encantadas, de amor ou não; nalguns notava-se-lhes até umas nesgas de carne viva; coisa boa, vinda dum poeta.
Um abraço, parabéns e até sempre!

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quinta-feira, novembro 08, 2007

A História na primeira pessoa (1)

Editam-se em Portugal cerca de mil livros por mês. Nada mau, para um país com tão poucos hábitos de leitura. Mas continuo a espantar-me com a ausência de títulos importantes no nosso mercado editorial. Há tempos sugeri a um amigo, dono de uma das mais importantes chancelas editoriais do País, o lançamento da versão portuguesa de A Life, o fabuloso livro de memórias de Elia Kazan – uma impressionante viagem ao mundo do cinema. Ele encolheu os ombros, resignado: “Os portugueses não apreciam autobiografias.”
Será mesmo? Custa-me acreditar nisto. Sempre gostei de autobiografias, um género que só agora começa a cultivar-se entre nós. Cavaco Silva escreveu a dele (com um terceiro volume, referente à passagem pelo Palácio de Belém, entretanto prometido) e Mário Soares também anda a redigir as memórias – embora, se não o fizesse, já teria deixado esse precioso legado que é o seu livro-entrevista com Maria João Avillez, mistura de retrato pessoal com um vasto fresco da história do século XX português, que se torna ainda mais interessante por ser tão subjectivo.
Continuo a achar que as memórias de Elia Kazan teriam plena aceitação no nosso mercado. Mas talvez o livro que hoje mais gostaria de ver com edição portuguesa fosse a autobiografia de Ben Bradlee. Sabem quem é? O jornalista que transformou o Washington Post num dos jornais mais célebres à escala planetária. Fala-se muito em Bob Woodward e Carl Bernstein, os repórteres que revelaram ao mundo todas as implicações do caso Watergate. Fala-se muito menos em Bradlee, que na altura dirigia o Washington Post, então uma espécie de parente pobre na alta roda da imprensa norte-americana, sempre à sombra do poderoso rival New York Times. Mas nenhum dos artigos de Woodward e Bernstein (a dupla que ele baptizou de “Woodstein”, nos longos serões de trabalho no jornal durante a revelação do escândalo que conduziria à demissão do presidente Nixon) teria sido possível sem a firmeza de Bradlee, que lhes deu destaque em sucessivas manchetes. Contra todas as pressões do poder político.

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A História na primeira pessoa (2)

Acabo de ler A Good Life, de Ben Bradlee, na versão espanhola – editada pela casa editorial do diário El País, sob o título La Vida de un Periodista. É uma extraordinária lição de jornalismo escrita por este homem nascido em 1922, combatente na II Guerra Mundial e velho tarimbeiro das redacções. Começou pela melhor escola americana, no jornalismo de província, e teve um percurso fulgurante, que o levou a chefe da delegação da revista Newsweek em Paris, correspondente de guerra na Argélia e no Suez, e enfim a Washington, onde passou a dirigir o Post em 1962. A curta distância da Casa Branca, onde então pontificava John Kennedy, seu amigo pessoal.
Bradlee relata-nos a sua odisseia no relançamento do Post, que à época era apenas o terceiro jornal mais vendido na capital americana. Arejou o grafismo, destacou a imagem, criou um suplemento chamado Style, que dava prioridade ao lazer, valorizou o espaço de opinião, criou um provedor de leitores (em 1969!) e deu um novo impulso à reportagem. Bastando-lhe adoptar como lema a velha lição que recebera da professora primária: “O melhor possível hoje, melhor ainda amanhã.”
A qualidade foi sempre um objectivo a atingir. “A detecção de talentos nunca cessa num periódico”, afirma Bradlee, então “decidido a que cada jornalista fosse o melhor da cidade no seu ramo de actividade”. Este foi um dos segredos do sucesso do jornal, a par das normas de exigência postas em vigor. O Post deixou de usar a ambígua expressão “segundo as nossas fontes”, instituiu a norma da verificação dos factos junto de duas fotnes autónomas e recomendou aos seus repórteres que nunca se esquecesse do sábio preceito de Camus, que também foi jornalista: “Não existe a verdade. Só existem verdades.”
La Vida de un Periodista dá-nos retratos deliciosos de jornalistas. Howard Simons, director-adjunto do Post, que cunhou a expressão SMERSH para designar a secção dedicada a estes temas (segue em inglês para se entender melhor): Science, Medicine, Education, Religion & All That Shit. Art Buchwald, o incomparável humorista. Jim Truitt, que permaneceu 47 horas sentado à máquina de escrever, produzindo uma lista com mais de mil sugestões no dia em que Bradlee protestava contra a “falta de ideias” na redacção. E, obviamente, a dupla “Woodstein”: Watergate nunca teria sido o que foi sem a “destreza e persistência” destes repórteres, que transformaram este velho ofício num mito: nos anos 70 e 80, o jornalismo tornou-se a profissão mais cobiçada do planeta.
Bradlee permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal. A good life indeed.

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domingo, setembro 16, 2007

O trágico declínio dos melhores escritores


Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão. Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Esenin, Vladimir Mayakovsky. E Stefan Zweig, Primo Levi, Paul Nizan – acrescento eu. No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca.
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?

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Vontade de ler


Algumas destas cadeias de leitura na blogosfera têm piada. Uma delas é a que nos interpela a falar de cinco livros que lemos e podemos recomendar. Aceito novamente o desafio, agora a pedido do Afonso Reis Cabral, do Janelar. Pedindo naturalmente desculpa pelo atraso.

O Céu que nos Protege, de Paul Bowles. Tradução de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim). Um dos melhores romances que li na última década. Já sinto vontade de o reler. E de zarpar para o norte de África. A melhor literatura é assim: faz-nos mudar por dentro, faz-nos mudar a vida. Ou até mudar de vida.
A Fogueira e Outros Contos, de Jack London. Tradução de Ana Barradas (Antígona). Um dos grandes ficcionistas de todos os tempos, traduzido de forma impecável por uma das suas melhores divulgadoras em Portugal. Todos os contos são bons, mas há dois de antologia: o que dá nome ao livro e “O Bife”. Histórias intemporais sobre a condição humana.
Artur ou a Felicidade de Viver, de Françoise Giraud. Tradução de Rute dos Santos Leote (Inquérito). Um livrinho de memórias daquela que foi talvez a mais célebre jornalista francesa de todos os tempos. Lê-se de um fôlego mas sabe a pouco: ela tinha obrigação de fazer mais.
Avenida Paulista, de João Pereira Coutinho (Quasi). Excelentes crónicas de um dos melhores colunistas actuais da imprensa portuguesa. Num estilo distante do falso cinismo provocador que se tornou sua imagem de marca.
Film Noir, de vários autores (Overlook Press). Terceira edição de uma obra organizada por Alain Silver e Elizabeth Ward que constitui a referência definitiva sobre o fabuloso cinema negro americano. Uma colecção de ensaios que nos contam tudo quanto queríamos saber sobre filmes que nos marcaram para sempre. Laura, de Preminger. O Arrependido, de Tourneur. Pagos a Dobrar, de Wilder. Matar ou Não Matar, de Ray. O Desconhecido do Norte-Expresso, de Hitchcock. Gilda, de Charles Vidor. Os Assassinos, de Siodmak. A Dama de Xangai, de Welles. Quando a Cidade Dorme, de Houston. E tantos outros.

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segunda-feira, setembro 10, 2007

Mudar ou não mudar: eis a questão

Que literatura é capaz de mudar a nossa vida? Vai aceso o debate na blogosfera (por exemplo aqui, aqui, aqui, aqui e também aqui), a partir da excelente proposta do Manuel Domingos para que trocássemos umas ideias sobre o assunto. É matéria que dá pano para mangas: vivendo nós na civilização do Livro, nem poderia ser de outra forma. A simples frase “Não matarás”, impressa na Bíblia, mudou milhões de vidas.
Mas atenção: aqui acaba por discutir-se muito mais a vida do que a literatura. Porque, se virmos bem, os livros que foram fundamentais para a nossa transformação interior raras vezes coincidem com aqueles que o critério académico – incluindo o da Academia de Estocolmo – consagra como decisivos. Conheço, por exemplo, muita gente que decidiu cursar Direito por influência do bom desempenho de Perry Mason como advogado de ficção – e ninguém incluirá decerto Erle Stanley Gardner entre os maiores escritores do século XX. Gostar e admirar raras vezes coincidem. Sei bem do que falo: gosto de toda a obra de Ernest Hemingway, incluindo vários títulos que estou longe de admirar. Gosto de tudo quanto me transmite George Orwell, ainda que possa estar longe de admirar a sua escrita. Gosto de todo o Graham Greene, talvez o autor que mais me ensinou como se deve escrever, embora não partilhe o essencial das suas ideias. Basta a menção dos apelidos Kafka, Borges ou Malraux para me fazer reviver o prazer da leitura – e no entanto nenhum destes escritores ganhou o Nobel, o que não altera um milímetro a minha devoção de leitor por eles. Já o consagradíssimo Thomas Mann, pelo contrário, me faz bocejar de tédio perante o pedantismo da sua escrita, a que nunca aderi, por melhor que entenda a importância que o cânone oficial lhe atribui como romancista de “ideias”. Vale a pena lê-lo por “dever” intelectual? Certamente que sim. Retiraremos daí algum prazer? Essa é uma questão muito diferente.
São insondáveis os caminhos que nos transportam nas mais diversas direcções literárias. No seu leito de morte, Lenine pedia que lhe lessem contos de Jack London: o grande autor americano teria mudado mais a vida do fundador da União Soviética do que alguém fora capaz de imaginar. Tudo seria bem diferente se a literatura nada tivesse a ver com a vida. Mas felizmente que tem. E nenhum de nós gostaria que não tivesse.

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terça-feira, setembro 04, 2007

Estes dez não vou reler

Em resposta ao repto do Eduardo, a que achei graça, deixo aqui a lista de dez obras literárias que não mudaram a minha vida. Nem a minha relação com a literatura. Há muitos outros livros do género, claro, mas estes foram os primeiros que me vieram à cabeça. Ei-los:
- Bonjour Tristesse, de Françoise Sagan
- Cadernos de Lanzarote, de José Saramago
- A Montanha Mágica, de Thomas Mann
- Auto dos Danados, de António Lobo Antunes
- A Cabra-Cega, de Roger Vailland
- Onze Contos de Futebol, de Camilo José Cela
- Finisterra, de Carlos de Oliveira
- Outono em Pequim, de Boris Vian
- Miguel Littín, Clandestino no Chile, de Gabriel García Márquez
- Até Amanhã, Camaradas, de Álvaro Cunhal
Lanço agora o mesmo desafio a cinco companheiras/companheiros da blogosfera:

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