segunda-feira, setembro 17, 2007

As emoções básicas (crónica) XIII



A arma encravada


Parece que chego tarde a todas as conversas. Quando tenho alguma coisa de interessante para dizer sobre os temas do dia, já antes alguém disse algo de bem mais inteligente. Isto acontece-me tantas vezes, que me habituei a ficar calado. Vejo os outros a conversar, treinei-me nessa observação. Gosto do exercício. Estou sempre a torcer por alguém, quando há debate de ideias, e fico maravilhado como algumas pessoas têm a arte de, no tempo que demora a incendiar um fósforo, rematar com um argumento demolidor.
O gosto de ouvir os outros a falar tem certamente lados negativos: quando sei que posso ser pertinente, num determinado ponto da conversa, sinto tal desejo de dizer coisas acertadas, que interrompo os outros à bruta, para dizer essa tal frase que entretanto me escapou da ideia. E, no embaraço, levanto a voz, à qual dou uma ênfase que não queria dar à partida.
Ainda é pior quando me fazem uma pergunta: aí, ou a pergunta é certeira e dou a minha opinião ou, o que é mais normal, começo por tentar levar a conversa para o ponto que achava mais importante, mas que não estava contido na pergunta. E o exercício torna-se fútil, pois quem perguntou resiste aos meus esforços. Se, por qualquer milagre, consigo entrar no ponto que queria sublinhar, geralmente já acabou o tempo.
Era isto que eu queria escrever, não apenas chego tarde às conversas, mas parece que não tenho a inteligência social para me moldar às conversas dos outros. Anteontem, estava tão impaciente, num ambiente estranho para mim, que fui de uma brutalidade extrema com uma pessoa. Depois, nem lhe pedi desculpa. Os que me conhecem sabem que posso ser invulgarmente bruto numa banal troca de impressões. Como se aquilo que quero verdadeiramente dizer não seja formulado da maneira que pretendia, como se houvesse uma máquina na minha mente que muda todo o sentido das frases pensadas, por causa da urgência, por não haver tempo para fluir o raciocínio inicial e ser necessário entrar num programa acelerado, mais de combate do que de descontraído diálogo. E, claro, o programa transforma num turbilhão confuso o que, no meu pensamento, parecia estruturado. Enfim, há muitas conversas onde não acerto uma. Algumas pessoas pensam que é arrogância, mas é falha de outra natureza.
Por isso, muitas vezes, prefiro ficar calado e sonhar com o que diria, se as circunstâncias me permitissem. É engraçado como no silêncio todos os discursos se tornam tão perfeitos.
Na imaginação, sou um grande orador. Se estiver sozinho, sem medo, posso declamar um poema. Não me embrulho nas sílabas e o vocabulário expande-se, como que por milagre. Os erros gramaticais dissipam-se (é curioso como, em conversa, cometo tantos erros gramaticais, sobretudo quando me enervo).
E, agora, reparo: escrevi uma crónica confessional. O que querem as pessoas saber destes receios absolutamente individuais? E, tendo estado toda a tarde a meditar sobre outros assuntos, de como o mundo contemporâneo é demasiado explícito, virado para prazeres do indivíduo, esquecido da solidariedade, muito técnico e superficial, feito de fogo-de-artifício e luzes de néon, é curioso que me tenha saído esta crónica meio atabalhoada e cheia de autocomiseração, sem nenhum tema que se veja, sem uma palavra sobre os assuntos que afligem os nossos contemporâneos e que, afinal, já foram devidamente dissecados por toda a gente desta imensa conversa, a blogosfera, onde chego sistematicamente atrasado.

Uma palavra sobre a ilustração: foi tirada do filme "O Homem que Matou Liberty Valance", de John Ford, que devia ser o tema desta crónica. Como não consegui escrever sobre o filme, e na medida em que as ideias são como as cerejas, lembrei-me da importância da palavra nesta obra-prima do cinema, pois o bruto é vencido também pela força dos argumentos retóricos, que funcionam na sua qualidade de rolo compressor da História. O filme fala de um problema muito contemporâneo: a incerteza sobre o que é a verdade. Lembram-se do famoso "print the legend" que tanto nos explica sobre aquilo que nos rodeia?

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sexta-feira, junho 08, 2007

As Emoções Básicas (crónicas) II



Para efeitos de imagem, o que ficará desta cimeira do G8 será, provavelmente, aquilo que não teve influência nem importância, o desespero dos radicais, cuja visão do mundo não faz qualquer sentido. Vimos as habituais piruetas para aparecerem nos telejornais e fotos, o vandalismo descerebrado. E, claro, no meio da espuma, escapou-nos o facto deste já ter sido, provavelmente, o G8 mais importante da última década. Hoje, os líderes vão comprometer-se a uma ajuda maciça a África, para combater a SIDA e a malária.
Em política, a emoção dominante costuma ser o medo. E, no caso do primeiro dia de cimeira, houve duas ameaças a comandar os resultados, embora parte do mérito pertença, sem dúvida, a Angela Merkel, que continua a surpreender toda a gente, a conseguir acordos que pareciam impossíveis, a levar a água ao seu moinho, com paciência e liderança.
As ameaças são o possível regresso de uma mini-Guerra Fria e a alteração do clima global. Ambas susceptíveis de porem em causa a sobrevivência da espécie.
O primeiro caso constituirá menos uma ameaça real e mais uma elaborada jogada de xadrez, com bluff à mistura. Em causa, está um escudo anti-míssil americano, colocado na Europa. O sistema enerva profundamente Moscovo, que corre o risco de ver o seu arsenal estratégico transformado num brinquedo inofensivo.
Nas duas últimas décadas, os EUA esforçaram-se por transformar a Rússia numa potência de segunda linha e, por vezes, até parece que gostariam de a transformar numa potência de terceira, ignorando os perigos de tal evolução (tecnologias perigosas à solta, espaços vazios e despovoados, territórios nas mãos de fundamentalistas, recursos económicos esbanjados). O escudo poderia ser um novo empurrão no sentido do declínio, mas os presidentes russo e americano terão conseguido (essa é a interpretação que se pode extrair das afirmações crípticas que fizeram) iniciar um diálogo que acabará com o conflito à nascença. Talvez os americanos precisem dos russos nesta fase do campeonato (por causa do Irão, do Kosovo, etc.).
O segundo problema é bem mais complexo. Há provas científicas sobre o aquecimento global (o recuo do gelo é evidente), mas não existe consenso sobre a extensão do efeito de estufa ou se temos apenas o efeito de estufa na história. O clima da Terra mudou muitas vezes e as razões não são conhecidas. Deve ser considerado outro factor: este é um problema tecnológico e, portanto, económico. Há também quem diga que já podíamos ter iniciado uma nova era glaciar (as civilizações humanas beneficiaram de uma larga extensão de bom tempo, superior à média histórica, talvez cinco mil anos a mais com clima favorável, o que lhes permitiu chegar a este patamar de desenvolvimento; e a sorte pode estar a acabar).
Enfim, o medo parece ser, neste caso, bom conselheiro. Os Estados Unidos aceitaram finalmente negociar com os europeus e japoneses um acordo que poderá levar a uma redução da emissão de gases com efeito de estufa. Há ainda muitos ses, mas parece ser um caminho possível, apesar de obrigar a adiar as grandes decisões (o próximo presidente americano que resolva a questão).
Finalmente, África, o continente perdido. A confirmar-se um acordo para financiar a luta contra terríveis doenças, será um resultado sem precedentes.
Em tudo isto, não se entende para que serviu a violência dos manifestantes. Não se destinava a fazer pressão para que houvesse um determinado acordo. A violência, neste tipo de cimeiras, visa perturbar o processo de decisões e, portanto, o seu único objectivo é que não haja entendimento entre os líderes dos países ricos, criando um clima de confronto político, de rejeição social e de isolamento económico.
Parece ser uma agenda aberrante e perigosa. Não se baseia no medo, não é racional nem possui qualquer intuito construtivo. Trata-se apenas da mais pura loucura.

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