segunda-feira, março 20, 2006

Também há rapazes maus


Tsotsi é um filme sul-africano que chegou a Portugal aureolado com um Óscar. Refiro-me ao Óscar para melhor filme estrangeiro, que em anos anteriores agraciou obras de Fellini e Bergman. São tempos que já lá vão: hoje esta estatueta não premeia a qualidade artística mas a correcção política. Tsotsi é um bom exemplo disso: a sua ténue linha ficcional gira em torno de um preto pobre, que segue os trilhos do crime por ser vítima de uma sociedade assimétrica. Mata, rouba, estropia – mas no fundo é um bom sujeito. Basta um pouco de atenção, um nada de carinho para o implacável criminoso se transformar num bebé chorão.
Não há verosimilhança que resista a esta sociologia de pacotilha. Tsotsi procura imitar Cidade de Deus, mas na obra-prima de Fernando Meirelles os garotos de rua eram retratados com uma implacável autenticidade: nenhum mau da fita surgia travestido de menino de coro. Hollywood, como o Padre Américo, não acredita na existência de rapazes maus. Pero que los hay, los hay. E em nada se assemelham ao que este filme mostra.
As grandes obras de arte não se fazem com bons sentimentos. Tsotsi fica-se pelos bons sentimentos. Não tem mais nada para dar.