quinta-feira, janeiro 11, 2007

O trotsquista de Caracas


Hugo Chávez, que acaba de tomar posse num novo mandato, tirou finalmente a máscara: proclama-se "trotsquista", cita abundantemente Marx e Lenine, anuncia mais uma onda de "nacionalizações" e revela a intenção de semear "conselhos comunais" de matriz soviética na Venezuela. Tudo com vista às "reformas constitucionais socialistas" com sabor à velha Bulgária da Cortina de Ferro. No fundo, é bom que seja assim tão frontal. Para o que resta da nossa esquerda ainda embasbacada com o antigo tenente-coronel golpista (incluindo o preclaro Mário Soares, admirador confesso deste "caudilho") possa enfim abrir os olhos, na linha do que já aqui foi feito. Chávez ameaça "governar por decreto", sem passar cartão ao Parlamento, ao bom estilo autocrático dos velhos generais Tapiocas que tão má fama deram ao subcontinente sul-americano. Para já, correu com o vice-presidente José Vicente Rangel, um moderado que cedeu o lugar ao ex-presidente da Comissão Eleitoral, Jorge Rodríguez (o prémio que acaba de receber de Chávez atesta bem o grau de isenção desta personagem no exercício das anteriores funções), e com o ministro da Educação, substituído pelo próprio irmão de Chávez, Adán. É o modelo cubano em galope acelerado na caótica Caracas, onde hoje existem mais 18 por cento de pobres do que havia antes de o demagogo agora instalado no Palácio de Miraflores ter tomado o poder. Tal como em Cuba, governada há quase meio século em regime de monopólio pela firma Castro & Castro Lda, eis agora a Venezuela entregue à dupla Chávez & Chávez. Uma forma original de socialismo, onde há famílias mais iguais que outras.
Até o pobre Trotsky, morto a golpes de picareta estalinista, deve andar a dar voltas na tumba, ao ver-se agora invocado pelo mais inesperado e caricato dos seus discípulos...